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terça-feira, 27 de outubro de 2009

1. O que a depressão revela sobre a nossa época? Em que sentido a depressão é um sintoma social?

Maria Rita Kehl (próxima conferencista do Fronteiras do Pensamento - A depressão pode ser considerada um sintoma social na medida em que, no estágio atual do capitalismo globalizado, as pessoas tendem a sentir que (na gíria do tráfico) "está tudo dominado". Este sentimento fatalista, de que não há nada que o sujeito possa fazer para interferir na ordem do mundo, caracteriza a depressão ou, nos termos do filósofo Walter Benjamin, a melancolia. Não que a melancolia, no sentido freudiano, seja um dos males da modernidade. Estou me referindo à definição de melancolia de Walter Benjamin (diferente da de Freud), que entende a melancolia como tributária do fatalismo, do sentimento de inutilidade do sujeito como agente transformador da realidade, etc. Mas nesse caso, a melancolia benjaminiana estaria muito próxima da noção lacaniana de depressão. Além disso, em uma sociedade que se pretende não repressiva, que aparentemente oferece às pessoas todos os dispositivos necessários para que elas sejam felizes, aqueles que não conseguem obter o tal "grau ótimo" de felicidade sentem-se deficitários, insuficientes, em dívida com uma moral não repressiva - o que é muito mais difícil de enfrentar do que uma moral repressiva. Não faço apologia da repressão, absolutamente, mas do embuste dessa moral aparentemente permissiva que reprime um potencial importantíssimo: a capacidade crítica e transformadora que todo ser humano possui.


2. Como é vista a depressão? Qual é o lugar que a depressão ocupa no imaginário das nossas sociedades contemporâneas?

Há divergências quanto ao conceito de depressão (e consequentemente, seu tratamento), entre a psicanálise e a psiquiatria. Esta última tem uma concepção fisicalista não só das depressões como também de todas as formas de mal estar psíquico, enquanto a psicanálise tenta compreendê-las como partes de um funcionamento estrutural do sujeito. Isto não significa que o tratamento psicanalítico dispense radicalmente a ajuda psiquiátrica: muitas vezes, o tratamento medicamentoso acompanha pelo menos uma parte do tratamento psicanalítico. Há algumas concepções divergentes sobre a depressão entre as várias escolas psicanalíticas. No imaginário contemporâneo o depressivo é visto como alguém a quem falta algo - como se os outros, os não deprimidos, fossem sujeitos sem falta! Mesmo na psicanálise, muitos autores da chamada "escola inglesa" - na linha de Melanie Klein e Winnicott - entendem a depressão como sendo da mesma ordem do que Freud chama de melancolia, cuja origem se deve a uma falha muito precoce na relação da mãe com o bebê. No meu caso, sigo a orientação da escola lacaniana que considera a depressão como resultante não de uma insuficiência de presença materna, mas de um excesso de presença. O que deprime o sujeito não é o desamparo, a falta de amor e de presença maternos. Ao contrário, é um excesso de proteção que leva o sujeito a recuar diante de conflitos e a ceder muito facilmente diante de seu próprio desejo. O sentimento de vazio e de inutilidade que abatem o depressivo têm a ver com esse tipo de atitude de desistência frente aos desafios da vida.


3. Quais são os sintomas mais frequentes? Como diferenciar um momento de depressão da doença em si?

É complicado definir um quadro clínico com base em sintomas, pois os sintomas podem aparecer, por razões diferentes, em diferentes quadros clínicos. Como você aponta em sua pergunta, pessoas não depressivas podem se deprimir circunstancialmente em função de perdas, fracassos e sentimentos de baixa estima que não conseguem elaborar sem ajuda de uma análise. A posição subjetiva do depressivo propriamente dito revela um sentimento permanente de vazio de sentido, sobre a artificialidade das crenças que sustentam nosso dia a dia, etc, que o isolam da maioria das pessoas. Além disso, ele se encolhe diante dos conflitos, tanto os da vida psíquica quanto os conflitos com os outros, da vida em sociedade. Mas um percurso de análise pode levá-lo a desenvolver recursos psíquicos para enfrentar seus conflitos e, em consequência, comprometer-se com seu desejo. O depressivo em análise pode sair do vazio psíquico ao se encorajar a formular algumas fantasias, coisa que ele sempre negligenciou, e a partir delas construir sentidos para sua vida. Mesmo que ele saiba que o tal "sentido da vida" é arbitrário, não passa de uma invenção coletiva ou individual, ele pode começar a apostar em escolhas que façam sentido para ele - o que significa, afinal, começar a jogar o jogo da vida. Uma parte dos psiquiatras - não todos! - pensam que a depressão se deve a um déficit químico no cérebro, portanto só tem sentido tratá-la com medicamentos. Na minha prática, tendo a concordar com o uso de antidepressivos apenas em dois casos: 1, quando existem antecedentes de tentativas de suicídio ou fantasias suicidas muito persistentes; 2, nos casos em que a prostração impede a pessoa de sair da cama e vir para a análise.


4. Os consultórios psicanalíticos estão enfrentando um novo sujeito? Que características ele tem?

Não posso falar, na minha experiência clínica, de um novo sujeito. Meu consultório, e o de vários colegas com quem converso, continuam a ser frequentados por uma maioria de pessoas neuróticas. Paralelamente a isso, surgem novos sintomas (não novos sujeitos). São sintomas que se expresssam mais pela via do corpo do que através da palavra - como as anorexias, as bulimias, as drogadições, as chamadas crises de pânico, etc. Talves esta sintomatologia "muda" corresponda ao que a ciência espera do sujeito contemporâneo: um sujeito que se explica pela química corporal. Um sujeito que não se indaga, não critica seu lugar no mundo, pode ser "curado" de fora para dentro, independente de uma mudança de posição subjetiva. Este é o candidato ideal a consumidor de medicamentos, que toma remédios para não ter que enfrentar um conflito, ou simplesmente para fazer cessar a dor psíquica sem se indagar sobre a origem dela. O problema com o uso abusivo dos antidepressivos é simplesmente que eles não curam a depressão. Se curassem, não haveria argumentos contra eles, nem mesmo os psicanalistas teriam direito de sugerir que seus analisandos não se medicassem. Mas já existem pesquisas indicando que, depois dos primeiros dois ou três anos de alívio, os antidepressivos perdem o efeito e o usuário passsa a viver num longo estado de letargia, de depressão "branca" em que a indiferença e a falta de apetite para a vida são percebidas como normais. Por isso muita gente procura análise depois de um longo tempo de uso de medicamentos: para sair da letargia. Por isso também hoje em dia os antidepresivos já não são mais os produtos de ponta da indústria farmacêutica. Esta já começou a desenvolver novas linhas de medicamentos para patologizar e "curar" comportamentos pontuais como a timidez, a indisciplina, a rebeldia e até mesmo, acredite, o excesso de alegria. Um critério extremamente rígido de normalidade se impõe, de modo que quaisquer particularidades da personalidade, qualquer comportamento mais singular passam a ser vistos como doenças ou, no mínimo, como desajustes importantes a ser curados com medicação. Este sujeito hipernormal não é novo, mas é o oposto de todas as conquistas que caracterizam a modernidade, que implicam em entender o valor de certa anormalidade como diferencial subjetivo de cada um.

2 comentários:

GIRL CROSSING disse...

nossa muito boa ssa resposta da 2.
Minha psiquiatra era bem winnicottiana

vou ver se acho alguma coisa dela. é uma vergonha esses caras nao colocarem isso em dvdou mesmo em um webcast na internet.

conhecimento deveria ser free

adriano a. disse...

para mim, muito esclarecedor.