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quarta-feira, 29 de julho de 2015

"The thing that I hate about the music industry is all of a sudden it’s like, ‘Grimes is a female musician’ and ‘Grimes has a girly voice.’ It’s like, yeah, but I’m a producer and I spend all day looking at fucking graphs and EQs and doing really technical work. Going into studios, there’s all these engineers there, and they don’t let you touch the equipment. I was like, ‘Well, can I just edit my vocals?’ And they’d be like ‘No, just tell us what to do, and we’ll do it.’ And then a male producer would come in, and he’d be allowed to do it. It was so sexist. I was, like, aghast. It made me really disillusioned with the music industry. It made me realize what I was doing is important. Trent Reznor started out making music on computers. He was smart. He was into math. He was coming at it from an intellectual perspective and a scientific perspective. He made Pretty Hate Machine all by himself. That’s where I came from. Representing the alternative. Not having to answer to a big label. Not having to answer to anyone artistically, but also being visible. I think being visible is important to me because I’m trying to represent something politically. That women can do technical work. That I can be a producer and a pop star and also very experimental." (Grimes, para Fader Magazine)
O que podemos aprender, examinando apenas o primeiro e o último frame de um filme?

O vídeo feito por Jacob T. Swinney reproduz as cenas iniciais e finais de 55 filmes lado-a-lado. Alguns frames são bem semelhantes, outros extremamente diferentes – ambos servindo ao propósito de contar histórias.

Via Zupi.com.br.





The Tree of Life 00:00
The Master 00:09
Brokeback Mountain 00:15
No Country for Old Men 00:23
Her 00:27
Blue Valentine 00:30
Birdman 00:34
Black Swan 00:41
Gone Girl 00:47
Kill Bill Vol. 2 00:53
Punch-Drunk Love 00:59
Silver Linings Playbook 01:06
Taxi Driver 01:11
Shutter Island 01:20
Children of Men 01:27
We Need to Talk About Kevin 01:33
Funny Games (2007) 01:41
Fight Club 01:47
12 Years a Slave 01:54
There Will be Blood 01:59
The Godfather Part II 02:05
Shame 02:10
Never Let Me Go 02:17
The Road 02:21
Hunger 02:27
Raging Bull 02:31
Cabaret 02:36
Before Sunrise 02:42
Nebraska 02:47
Frank 02:54
Cast Away 03:01
Somewhere 03:06
Melancholia 03:11
Morvern Callar 03:18
Take this Waltz 03:21
Buried 03:25
Lord of War 03:32
Cape Fear 03:38
12 Monkeys 03:45
The World According to Garp 03:50
Saving Private Ryan 03:57
Poetry 04:02
Solaris (1972) 04:05
Dr. Strangelove 04:11
The Astronaut Farmer 04:16
The Piano 04:21
Inception 04:26
Boyhood 04:31
Whiplash 04:37
Cloud Atlas 04:43
Under the Skin 04:47
2001: A Space Odyssey 04:51
Gravity 04:57
The Searchers 05:03
The Usual Suspects 05:23

terça-feira, 28 de julho de 2015

"A paciência sente o espaço. Nunca teme novas situações, porque nada surpreende o bodhisattva - nada. Aconteça o que acontecer - seja destrutivo, caótico, criativo, bem-vindo ou atrativo – o bodhisattva nunca se perturba, nunca se choca, porque tem consciência do espaço existente entre a situação e ele próprio. Desde que tenhamos consciência do espaço existente entre nós e a situação, qualquer coisa pode ocorrer nesse espaço. O que quer que aconteça ocorre no meio do espaço. Nada sobrevém 'aqui' ou 'ali' em termos de relacionamento ou de batalha. Por conseguinte, a paciência transcendental significa que temos um relacionamento fluente com o mundo, que não combatemos coisa alguma. (...) A paciência transcendental jamais espera. Como não esperamos coisa alguma, não ficamos impacientes." (Chögyam Trungpa)
"Generosidade transcendental é darmos o que tivermos. Nossa ação precisa ser
completamente aberta, completamente despida. Não nos compete fazer julgamentos; aos que
recebem compete fazer o gesto de receber. Se os que recebem não estiverem preparados para
a nossa generosidade, não a receberão. Se estiverem preparados para ela, virão buscá-la.
Esta é a ação desinteressada do Bodhisattva. Ele não se auto-refere: 'Estarei cometendo
algum engano?'; 'Estarei sendo cuidadoso?'; 'A quem devo abrir-me?'. Nunca toma partidos.
Metaforicamente, o bodhisattva jazerá como um cadáver apenas. Deixemos que as pessoas
olhem para nós e nos examinem. Estamos à sua disposição. Uma ação nobre, uma ação
completa, uma ação que não contém nenhuma hipocrisia, nenhum julgamento filosófico ou
religioso. Por isso é transcendental. Por isso é paramita. É bela." (Chögyam Trungpa)
"Quando falamos de 'ignorância', não queremos, de maneira alguma, dizer 'estupidez'. Em certo sentido, a ignorância é muito inteligente, mas é uma inteligência bidirecional. Isto é, reagimos meramente às nossas projeções, em lugar de diretamente limitar-nos a ver o que é. Não há nenhuma situação de 'deixar ser [o que é]', porque ignoramos o que somos durante o tempo todo. Esta é a definição básica de ignorância." (Chögyam Trungpa)
15 pessoas que não entendem como as aspas funcionam.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

"A compaixão não tem relação alguma com a consecução. É espaçosa e muito generosa. Quando uma pessoa manifesta a verdadeira compaixão, não sabe se está sendo generosa para com os outros ou para consigo mesma, porque a compaixão é uma generosidade ambiental, sem direção, sem 'para mim' e sem 'para eles'; é cheia de alegria, de uma alegria que existe espontaneamente de uma alegria constante no sentido de confiança, no sentido de que a alegria contém uma enorme riqueza, um tesouro. Poderíamos dizer que a compaixão é a atitude final da riqueza: uma atitude contra a pobreza, uma guerra declarada à miséria. (...) A compaixão nos convida automaticamente a nos relacionarmos com pessoas, porque já não as vemos como um desgaste para nós. Elas recarregam a nossa energia porque, no processo de relacionamento com elas, reconhecemos nossa riqueza, nosso tesouro." (Chögyam Trungpa)
"Pecisamos remover o observador – a lembrança de si – e a complicadíssima burocracia que ele cria para se certificar de que nada vai escapar ao quartel-general. Afastado o observador, abre-se um espaço enorme, pois ele e a sua burocracia ocupam demasiado lugar. Se eliminamos o filtro do 'eu' e 'outro', o espaço torna-se vivo, preciso e inteligente. O espaço contém a precisão incrível de poder trabalhar com as situações nele existentes. Na realidade, não precisamos do 'vigia' ou do 'observador' para nada." (Chögyam Trungpa)
"Quando fugimos de algo, descobrimos que não somente estamos sendo perseguidos por trás, como também que há pessoas vindo ao nosso encontro pela frente. No final, não há lugar para escapar. Ficamos completamente acuados. A esta altura, a única coisa que podemos mesmo fazer é nos render, pura e simplesmente. Temos que passar pela experiência. Abandonar as tentativas de ir para algum lugar, tanto em termos de fugir de algo, como de correr para algo, pois ambos são a mesma coisa." (Chögyam Trungpa)
"A auto-ilusão parece depender sempre do mundo dos sonhos, porque você preferiria ver o que ainda não viu a ver o que está vendo agora. Não aceita que o que está aqui agora seja o que é, nem está disposto a continuar com a situação tal qual ela é. Assim, a auto-ilusão sempre se manifesta sob a forma de tentativas de criar ou recriar um mundo sonhado, a nostalgia da experiência de sonhar. E o oposto da auto-ilusão é simplesmente trabalhar com os fatos da vida. Se procurarmos qualquer tipo de alegria ou felicidade plena, a realização de nossa imaginação e de nossos sonhos, então ficaremos, igualmente, sujeitos a insucesso e depressão. (...) Medo, esperança, perda, ganho - estes formam o constante desenrolar do sonho do ego, a estrutura que se autoperpetua, que se automantém e que é a auto-ilusão. Portanto, a verdadeira experiência, que está além do mundo dos sonhos, é a beleza, as cores e o entusiasmo da experiência real do agora na vida cotidiana. Quando enfrentamos as coisas tais como são, abandonamos a esperança de algo melhor. Não há mágica alguma, porque não podemos mandar que saiamos da nossa depressão. Depressão e ignorância, seja qual for a emoção que experimentamos, todas são reais e contém verdades extraordinárias. Se quisermos, de fato, aprender a ver a experiência da verdade, teremos de estar onde estamos. Tudo é apenas uma questão de ser um grão de areia." (Chögyam Trungpa)
Estamos criando crianças de uma imaturidade inacreditável
(Carlos Neto, da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa,
para Rita Ferreira/Observador)

Brincar não é só jogar com brinquedos, brincar é o corpo estar em confronto com a natureza, em confronto com o risco e com o imprevisível, com a aventura. As crianças brincam porque procuram aquilo que é difícil, a superação, a imprevisibilidade, aquilo que é o gozo, o prazer. O primeiro desejo de uma criança é o dispêndio de energia, é brincar livre e com os outros, mesmo que muitas vezes em confronto. Porque o confronto é uma forma preciosa de aprendizagem na vida humana. E nós estamos a retirá-los de tudo isso. Estamos a dar tudo pronto e não estamos a confrontá-los com nada. E isso terá muitas consequências.

Estamos a falar de crianças entre os 3 e os 12 anos. Significa que aumentou de fato esta taxa de sedentarismo, eu diria mesmo de analfabetismo motor, estamos a falar de iliteracia motora. Trabalho há 48 anos com crianças e sei avaliar o que se passou. As crianças têm menos capacidade de coordenação, menos capacidade de perceção espacial, têm de fato menor prazer de utilizar o corpo em esforço, têm uma dificuldade de jogo em grupo, de ter possibilidades de ter aqueles jogos que fazem parte da idade.

É absolutamente essencial brincar para desenvolver a capacidade adaptativa, quer do ponto de vista biológico quer do ponto de vista social. E hoje não é isso que estamos a fazer. Estamos a dar tudo pronto, tudo feito, e não estamos a confrontar as crianças com problemas que elas têm de resolver. Sejam eles confrontos com a natureza – que deixaram de existir – sejam eles confrontos com os outros. Por exemplo, a luta, a corrida e perseguição, são comportamentos ancestrais que as crianças têm de viver na infância e que são essenciais para o crescimento. A apropriação do território, a noção de lugar, o medir forças de uma forma saudável, o brincar a lutar. Brincar é civilizar o corpo. São crianças menos preparadas, mais imaturas, com maior dificuldade de resolução de problemas, porque têm menos autonomia, têm menos capacidade de resolução de problemas.

Há uma relação muito grande entre a qualidade e a quantidade do brincar na infância e na adolescência e a passagem para a vida adulta. Tem de haver equipamentos e espaços adequados que permitam mais margem de risco, mais margem de perigo. Há uma relação muito direta entre risco e segurança. Quanto mais risco, mais segurança e quanto mais risco, menos acidentes. Enquanto isto não for visto nesta perspetiva, vamos ter mais acidentes, porque há menos risco e por isso há menos segurança. Podemos ter muito amor aos nossos filhos, muita amizade pelos nossos filhos, mas o melhor amor que podemos ter por eles é dar-lhes autonomia. Eu aprendi isto com um grande mestre, João dos Santos, o maior pedopsiquiatra português. E ele ensinou-me, há muitos anos, que educar é um vai e vem entre dar proximidade para dar segurança e dar distanciamento para dar autonomia.
Lama Padma Samten e o aspecto da mendicância
(Transcrição de trecho da palestra do vídeo ao final da postagem)


Ninguém fica de fora por não pagar, então a sanga prosperou. Quando a gente não mendiga, não dá, ao outro, oportunidade de gerar méritos. A mente dele não muda. Quando dizemos aos outros que eles não precisam contribuir, estamos reduzindo-os a seres que não têm generosidade, que não têm possibilidade de ajudar. Quando as pessoas oferecem, elas crescem. O CEBB [Centro de Estudos Budistas Bodisatva, criado pelo Lama Samten e que tem sedes por todo o país] não tem fonte de renda. Não tem uma empresa gerando e deslocando recursos. Ele é sustentado pelo próprio Buda, no sentido de que ele gera méritos, as pessoas acham que aquilo é interessante, e então elas oferecem.

Eu tenho pedido aos tutores que andam pelas várias cidades que eles mendiguem, porque isso viabiliza o Darma. Esse é o processo que o Buda utilizou. A instrução dele é 'Você peça para quem tem e peça para quem não tem. Vá mendigar nos lugares mais humildes'. A comida que você ganhar das pessoas mais humildes lhes dará a oportunidade de não se sentirem carentes, a oportunidade rara de se sentirem generosas. Aquele que está num mundo de carência e de sofrimento, se ele oferece, ele tem mais méritos do que alguém que está num mundo de riqueza e oferece alguma coisa grandiosa. Ele faz uma transformação interna.

O aspecto econômico é crucial. Se não temos isso, como os tutores vão andar? Se não somos autônomos, vamos precisar vender o nosso tempo para alguém, fazer alguma outra coisa que não tem nada a ver, para poder ter algumas horas de fazer o que se quer. Não é uma boa ideia. Então o aspecto da generosidade é crucial, maravilhoso. O meio hábil de andar no mundo é muito importante, faz a diferença – fazer as coisas funcionarem ou não. Se eu não mendigar, a sanga vai desaparecer. Ela é sustentada pelo mérito dela. Se faltar mérito, a sanga afunda.

No momento em que se tivesse um recurso fixo, a sanga declinaria rapidamente. Porque nesse caso ela não seria sustentada por mérito, mas seria sustentada por outra coisa, seria usada uma ótica do samsara. Se tivermos uma fonte externa que assopre sobre a sanga, nós vamos destruí-la. Porque as pessoas, em vez de ascenderem por mérito, por sua habilidade de trazer benefício aos outros, elas ascenderiam pela capacidade de empurrar o outro com o cotovelo e assumir as posições para dirigir o fluxo de recursos, eventualmente para vantagem própria. Então iria surgir uma burocracia dentro do CEBB. Vocês olhem o Estado, ele é essencialmente isso. As pessoas se empurram, tomam conta dos lugares e se acham muito importantes porque estão dirigindo o fluxo financeiro daquilo. Aquele dinheiro não é deles, mas eles agem como se fosse deles. Ao ponto de que o Estado se torna um predador da população. Ele cobra impostos e as pessoas nem veem que elas estão pagando, mas estão, o tempo todo. Esse recurso vai para algum lugar e alguém vai administrar aquilo.

O processo da mendicância é muito mais estável. No mundo oficial, a sensação é que sempre há uma carência de recursos. Se eu tiver duas ou três pessoas oferecendo tudo para a sanga, ela se destrói. Porque no momento em que um desses falha, ou dois falham, afunda tudo. Um número grande de doadores de pequenas quantidades é estável, ele se sustenta, porque, se um sai, outro entra, e assim vai.

"Se as pessoas gerarem bondade sem a motivação adequada, sem um certo nível de sabedoria, elas vão para os infernos. Por exemplo, a pessoa gera um comportamento bondoso, mas é um comportamento bondoso que cobra do outro uma certa atitude, há uma expectativa sobre o que o outro faria com a bondade que ela está exercendo. O fato de que o outro pode fazer qualquer coisa com as coisas boas que a pessoa oferece para ele pode gerar nela um amargor e um voto de não trazer mais benefícios às pessoas. 'Eu ajudo, e depois elas me traem'... Então a pessoa se torna alguém que não é mais capaz de ajudar. Isso é a Roda da Vida girando: nós vamos saindo do Reino dos Deuses e vamos descendo rapidamente para o Reino dos Infernos." (Lama Padma Samten)


Em 33min06s:

domingo, 26 de julho de 2015

Anatomia da intuição
(Irene Orce)


Segundo o dicionário, a intuição é uma percepção clara e imediata [inmediata, diz o espanhol => sem mediação] de uma ideia ou situação, sem necessidade de raciocínio lógico. Uma espécie de relâmpago de certeza que não requer pensamento reflexivo nem análise minuciosa. Ainda que não haja consenso na comunidade científica sobre de onde vem exatamente essa qualidade tão ecorregadia, o certo é que ela é útil para nossa sobrevivência. Não é infalível, mas nos facilita a tomar decisões, especialmente nos momentos mais importantes da nossa vida. É uma chave capaz de abrir a fechadura de qualquer situação complexa, sugerindo-nos uma determinada conduta ou uma concreta postura. A magia da intuição reside na rapidez das respostas que nos oferece. Diferentemente da análise racional, que requer tempo, atenção e esforço, a intuição nos aporta soluções imediatas a partir de um marco muito mais amplo e sutil.

Se isso não bastasse, nos mostra que sabemos mais do que cremos que sabemos. Daí a importância de aprender a escutá-la. Ainda que não seja garantia de que as coisas saiam como esperamos, nos promete que nossas decisões serão coerentes com a pessoa que somos, honrando nossos valores essenciais. Está intimamente relacionada com nossa voz interior, porque, quanto mais estivermos em contato com nós mesmos, mais poderemos apreciá-la. Para ela, temos que aprender a criar espaços de silêncio.

Geralmente, diante de qualquer situação, tendemos nos cobrir de dados que nos dão um panorama, um lastro de probabilidades que nos oferece uma certa segurança. Antes de tomar uma decisão, o que buscamos é a resposta correta, o caminho que nos levará a conseguir aquilo a que nos propusemos. O melhor resultado possível. E, para conseguirmos acertar, nos baseamos nos dados de que dispomos. Acreditamos que, quanto mais informação, menos possibilidade de errar em nosso critério ou em nossas decisões. E não costumam faltar fontes de informação para nutrirmo-nos. Não por acaso, vivemos na era da informação, plugados na rede. Mas a equação nem sempre nos oferece o resultado esperado. Nem tudo podemos resolver no plano mental.

(...) O certo é que o corpo é uma valiosa fonte de informação, a qual muitas vezes ignoramos. Em muitas ocasiões, especialmente quando enfrentamos situações dolorosas ou incômodas, nos refugiamos na cabeça. Decidimos entender o que sentimos, em vez de nos permitir sentir. Cada vez mais tendemos a viver a partir da mente, a interagir por meio de telas. Parece que temos esquecido que a pele é o veículo que nos permite experimentar a vida. A intuição é um compêndio de informação que acessamos de forma inconsciente e que nos adverte de potenciais perigos e oportunidades. (...)

Para ativar nossa capacidade intuitiva, temos que começar despertando nossa percepção. Escutar a nós mesmos nos leva a escutar mais os outros, e isso nutre cada uma das relações que mantemos. Podemos praticar a atenção, dar espaço ao que sentimos, em vez de catalogar e optar por esconder o sentimento. Isso passa por nos atrevermos a entrar mais em contato com nosso corpo, prestando mais atenção ao que percebemos através dos sentidos. Neste processo, também é útil minimizar os automatismos, rompendo com as inércias e as rotinas estabelecidas. Experimentar um itinerário diferente para ir de casa ao trabalho, ou dar espaço na agenda a atividades novas e diferentes, é um bom primeiro passo. Quando fazemos algo diferente, estamos mais sensíveis, mais conectados com o que se passa ao nosso redor. Por isso que uma boa forma de cultivar a intuição é assumir riscos e sair da zona de conforto.

Viver a partir da intuição pode dar medo, porque estamos muito apegados à nossa mente racional, e deixá-la de lado nos faz sentir que perdemos o controle. O que nos dita nosso interior nem sempre vai na linha do que propõem as convenções sociais. Mas vale a pena dar-lhe um voto de confiança. Cada vez que algo interno nos diz ‘acho que tenho que fazer isto’, se abre uma porta que nos leva a uma nova aventura. Não por acaso, a intuição é um superpoder. Não nos transforma em super-heróis, mas nos converte em protagonistas de nossa própria vida. Nos oferece capacidade de influência, autoconhecimento e compreensão do mundo em que vivemos. Para potencializá-la, antes de tomar uma decisão, podemos tentar senti-la, ao invés de pensá-la. Escutar o coração, as entranhas, o instinto que habita dentro. Apostar na intuição supõe um exercício de coragem. Ser quem se é, nos tempos de hoje, nem sempre é uma atitude popular. Mas é a única maneira de viver uma vida autêntica.
Existem pessoas que se dedicam compulsivamente 
a ajudar e a resolver os problemas dos outros, mas, 
às vezes, essa atitude esconde outra faceta
(BORJA VILASECA/El Pais)

Há pessoas que passam a vida pensando mais nos outros do que em si mesmas. Seres humanos extremamente empáticos e solidários, cuja vocação consiste em ajudar os demais. Na realidade, muitos profissionalizam essa pulsão inata com a qual nasceram tornando-se médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e voluntários dedicados a alguma causa humanitária. (...) Acima de tudo, se comprometem com a generosidade, com o altruísmo e com estar a serviço dos demais. No entanto, esse comportamento, aparentemente impecável, pode esconder um lado obscuro. Cedo ou tarde se chega a um ponto em que a compulsão por ajudar termina cobrando seu preço. (...)

Muitos deles se forçam a fazer o bem, seguindo o que dita uma voz que os lembra de que pensar apenas em si mesmos e em suas próprias necessidades, é "um ato egoísta". E não é em vão que estão convencidos de que, para serem felizes, precisam do carinho e da admiração alheias, e, para que isso ocorra, devem ser boas pessoas. Movidos por esse tipo de crenças, costumam oferecer, compulsivamente, sua ajuda, trazendo para suas vidas pessoas necessitadas e incapazes de se autogerir.

Ao se colocarem como salvadores, consideram que as demais pessoas não poderiam sobreviver nem prosperar sem sua ajuda. Então, tendem a interferir nos assuntos de seus conhecidos, oferecendo conselhos até mesmo quando ninguém os pede. Sem ter consciência disso, pecam pela soberba ao se colocarem acima daqueles que ajudam, achando que sabem o que necessitam melhor do que eles mesmos.

Paradoxalmente, o orgulho os impede de reconhecer suas próprias necessidades e de pedir ajuda quando precisam. Por trás de uma personalidade bondosa, serviçal e inclinada a agradar sempre, se esconde uma dolorosa ferida: a falta de amor próprio. Um sentimento que buscam obter, desesperadamente, daqueles que ajudam, tornando-se indivíduos muito dependentes emocionalmente.

Esta é a razão pela qual, com o tempo, aflora sua escuridão em forma de repreensão. Eles se sentem tristes e magoados por não receber afeto e agradecimento em troca dos serviços prestados. Em alguns casos extremos, terminam explodindo agressivamente, jogando na cara das pessoas tudo que fizeram por elas. Também utilizam a chantagem emocional e a manipulação para se colocarem como vítimas e fazer com que os que receberam ajuda se sintam culpados, esperando, assim, obter o amor que acham que merecem e que necessitam para se sentirem bem consigo mesmos. (...)


sábado, 25 de julho de 2015

Na entrevista de Sarah Hemmings (Financial Times, traduzida pela Folha) com Peter Brook, transparecem os objetivos mais profundos da arte.


"'The Valley of Astonishment' (O vale do espanto), que estreia no teatro Young Vic de Londres na semana que vem, toma por base as experiências de sinestesia e tenta comunicá-las por meio de depoimentos em primeira pessoa e recursos teatrais. A iluminação, por exemplo, pinta o palco de cores rapidamente mutáveis, para transmitir a sensação que um homem sente ao ouvir música. 'Estamos usando o teatro para dar vida a uma pesquisa que de outra forma não teria forma ou corpo', explica Brook. Não é fácil. Mas durante toda a sua vida Brook teve apetite pelo mais difícil terreno teatral. 'The Valley of Astonishment' é a terceira de uma sequência de peças sobre a mente, inspiradas inicialmente pelo neurologista Oliver Sacks. A primeira foi 'The Man Who...', inspirada por 'O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu', um livro de Sacks. A nova produção também é típica do trabalho recente de Brook por ser enxuta, delicada e destilada. (...) Ele fala sobre um homem que perdeu a propriocepção – o senso de posição corporal que nos permite coordenar movimentos – e ainda assim conseguiu aprender, com muito esforço, a controlar seus membros, usando apenas os olhos. (...) A produção nos encoraja a simpatizar com os personagens, mas também a refletir sobre as ferramentas perceptivas que usamos para compreender o teatro. Ela fala de consciência, em diversos sentidos; sobre o que significa ser humano. 'O que precisamos, mais e mais, é saborear mais plenamente todos os momentos da vida. E creio que o teatro possa fazer isso. Meu único objetivo no teatro é que as pessoas, depois de experimentarem uma ou duas horas juntas, de alguma forma saiam com mais confiança na vida do que tinham ao chegar'."

sexta-feira, 17 de julho de 2015

quinta-feira, 16 de julho de 2015

No "Céu", meu vô tem dois anos a menos (62) do que a filha dele, minha mãe (64).

Quando minha mãe perdeu o pai, ela tinha 42 anos. Quando eu perdi a mãe, 37 anos. Cinco de diferença.
"Quando você entrar em seu carro, feche a porta e apenas esteja ali por meio minuto. Respire, sinta a energia dentro do seu corpo, olhe em volta, o céu, as árvores. A mente pode lhe dizer 'Eu não tenho tempo'. Mas isso é a mente falando contigo. Até a pessoa mais ocupada do mundo tem tempo para 30 segundos de espaço." (Eckhart Tolle)
"Não me vejo a mim mesma como uma fotógrafa erótica. Simplesmente trato de captar a verdade e a beleza de um corpo despido. O erotismo está nos olhos do espectador." (Rita Lino)
"A real diferença entre nós e os outros animais é do nível coletivo. Humanos controlam o mundo porque nós somos o único animal que pode cooperar de forma flexível em larga escala. Formigas e abelhas também podem trabalhar juntas em larga escala, mas elas fazem isso de uma forma muito rígida. Se uma colméia se depara com uma nova ameaça ou uma nova oportunidade, as abelhas não conseguem reinventar seu sistema social da noite para o dia a fim de cooperar melhor. Elas não podem, por exemplo, matar a rainha e estabelecer uma república. Lobos e chimpanzés cooperam de uma forma muito mais flexível que as formigas, mas só conseguem fazer isso com um pequeno número de indivíduos, que se conhecem intimamente." (Yuval Noah Harari)
Os jogadores do mundo brasileiro, quando saem do mundo brasileiro e vão para o mundo árabe, ou para o mundo chinês, ou para o mundo ucraniano, perdem a oportunidade de ir para o mundo espanhol, para o mundo inglês, para o mundo alemão e para o mundo italiano, ou mesmo para o mundo português e para o mundo francês.
O ser humano é corrupto. Quando nós deixarmos de ser corruptos, podemos ter esperança, porque quem vai para a política não são os extraterrestres, somos nós.

domingo, 12 de julho de 2015

"Quando você entrar em seu carro, feche a porta e apenas esteja ali por meio minuto. Respire, sinta a energia dentro do seu corpo, olhe em volta, o céu, as árvores. A mente pode lhe dizer 'Eu não tenho tempo'. Mas isso é a mente falando contigo. Até a pessoa mais ocupada do mundo tem tempo para 30 segundos de espaço." (Eckhart Tolle)

sábado, 11 de julho de 2015

Inspiradora denúncia de violência "doméstica". Emma Murphy:

I thought long and hard before posting this video, this is very difficult for me but I have to do what is RIGHT, if you or anyone you know has it is in a similar situation please share this video to inspire other women around the world, violence is NOT the answer!!!!
Posted by Emma Murphy on Monday, July 6, 2015

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Segundo o budista Lama Padma Samten​, em anotações de Fábio Rocha, existe uma inteligência da prática "bodisatva" chamada Sabedoria da Causalidade, que consiste em destruir ações negativas, como forma de ajuda; impedir que as outras pessoas criem complicações pra elas mesmas, começando pela Ação de Poder (não se abalar ou se alterar com negatividades). Depois, vem a Ação Pacificadora ou Tranquilizadora (entender a "bolha de realidade" do outro). Em seguida, a Ação Incrementadora (oferecer uma visão favorável, capacitando o outro a sair da bolha). Por fim, vem a Ação Irada (falar a realidade, mesmo que ela seja dura, o que não significa estar contra o outro, transformando ação perturbadora em lucidez).
"O Estado, quando criminaliza, ele se exime de não ter criado tabuleiros melhores para as pessoas. 'Não fui eu, foi ele!'... A gente está dentro de uma estrutura superdifícil de escapar." (Lama Samten)
Necessidade Psicológica de Auto-Estima/Auto-Crítica
(Dina Patrícia das Neves Vieira Guerreiro)


Carl Rogers (1961/1980), na sua teoria de desenvolvimento da personalidade e tomando por base o seu método da terapia centrada no cliente, postula que é necessário ajudar os indivíduos a tornarem-se mais conscientes e a aceitarem as suas próprias características, a serem mais capazes de elaborar as angústias e a ultrapassarem o sofrimento. Desta forma, a ênfase é posta no modo como cada indivíduo vive e interpreta a sua própria realidade e as capacidades e responsabilidades de cada pessoa para responder às situações e guiar a sua própria vida (Novo, 2003). Acrescenta ainda que a necessidade que cada indivíduo tem de manter, realizar e desenvolver as suas características e potencialidades inscreve-se, segundo C. Rogers, numa tendência de realização que tem componentes de crescimento fisiológicos e psicológicos; os primeiros têm maior importância nos períodos iniciais da vida, os segundos desempenham um papel determinante na idade adulta e na velhice (Novo, 2003). Assim sendo, é notória a importância da necessidade psicológica de Auto-Critica, num sentido adaptativo, quando da regulação das necessidades psicológicas dos indivíduos. Podemos assim concluir que o indivíduo, para um desenvolvimento coerente e saudável ao longo da vida, precisa balancear constantemente a necessidade psicológica de Auto-Estima e de Auto-Critica, uma vez que apenas detendo uma poderá alcançar a outra, isto é, ao possuir auto-estima torna-se mais capaz de tolerar as criticas e aprender com elas nos diferentes momentos da sua vida, e vice-versa.


Conceito de Auto-Estima 

A Auto-Estima é frequentemente definida como a componente avaliativa e valorativa da pessoa acerca de si mesmo. Este componente, por sua vez, está diretamente relacionado com as habilidades reais da pessoa (Arsenian, 1942, cit. por Korman, 1967).

Bednar e Peterson (1995) definem a Auto-Estima como o “sentimento duradouro e afetivo de valor pessoal, baseado em auto-percepções precisas”. Segundo estes autores, a auto-estima relaciona-se mais com a forma como as pessoas interpretam os feedbacks dos outros, em detrimentos do conteúdo dos próprios feedbacks. Ainda assim, é de notar a influência que o meio intrínseco da pessoa possui para estimar os níveis de auto-estima, uma vez que uma pessoa que acredite em si própria e seja detentora de uma auto-estima adaptativa tolera eficazmente os feedbacks do exterior.

Kernis (2003b), com o propósito de apresentar uma auto-estima elevada e equilibrada, distingue a auto-estima de Elevada Segura e Elevada Insegura. Desta forma, a auto-estima elevada poderia tomar diversas formas ou tipos:

  • Defensiva, onde a pessoa relata sentimentos positivos de auto-valorização, embora interiormente experimente sentimentos negativos; 
  • Genuína – a pessoa relata sentimentos positivos de auto-valorização; 
  • Contingente – diz respeito aos sentimentos positivos de auto-valorização que são dependentes do alcance de resultados específicos, expectativas etc.; 
  • Verdadeira – diz respeito aos sentimentos positivos de auto-valorização que não necessitam de uma validação contínua ao longo do tempo; 
  • Instável – diz respeito aos sentimentos de auto-valorização que se desenvolvem num curto espaço de tempo; 
  • e Estável – diz respeito aos sentimentos de auto-valorização imediatos, que variam pouco, ou podem mesmo não variar. 


Posto isto, a Auto-Estima elevada pode ser frágil ou segura dependendo do grau em que é defensiva ou genuína, contingente ou verdadeira, instável ou estável, e discrepante ou congruente, em relação aos sentimentos subentendidos na auto-valorização. Assim, uma auto-estima óptima é caracterizada por qualidades associadas à genuinidade, verdade, estabilidade, e congruência (Kernis, 2003b).

Bednar, Peterson e Wells (1989), propõem que níveis baixos de auto-estima baseiam-se na escolha de evitar situações difíceis, em detrimento de se entregar a estas. Por conseguinte, as auto-avaliações da pessoa tornam-se negativas e colocam de parte as avaliações positivas que outras pessoas significativas possam fazer de si. Podendo nestes casos conduzir a evitamentos, essencialmente, no que diz respeito a contextos sociais, culminando em perturbações como a ansiedade social.


Conceito de Auto-crítica

A Auto-critica diz respeito ao modo como o Self se relaciona consigo mesmo, podendo ser descrita como um comportamento psicológico reflexivo, ocasionalmente adoptado por diversas pessoas, sendo secundário à incapacidade do Self para contra-atacar as críticas auto-dirigidas (Gilbert & Irons, 2005, Blatt & Zuroff, 1992; cit. por Whelton & Greenberg, 2005). Assim, em traços gerais, a auto-critica refere-se aos sinais internos negativos que surgem em cada um nas situações de fracasso e perda. As pessoas em diversas situações podem, por isso, sentir-se envergonhadas, derrotadas e submeterem-se aos seus próprios ataques internos. De acordo com Blatt e Zuroff (1992, cit. por Zuroff & Duncan, 1999), os indivíduos mais auto-críticos envolvem-se num atroz e constante autoescrutínio, experimentando o sentimento de medo face à desaprovação e crítica de outros significativos. Contudo, é importante salientar que existem diferentes módulos e mentalidades que controlam os comportamentos de ataque, bem como as respostas defensivas do indivíduo que é atacado.

Segundo Kohut (1971, 1977, cit. por Gilbert et al., 2004) nos momentos de insucesso e fracasso, as pessoas podem lidar com a frustração de duas formas distintas, as quais resultam das experiências precoces internalizadas; por um lado, podem atacar-se com raiva narcísica contra o Self, ou, por outro, podem tranquilizar-se e promover o auto-crescimento. No mesmo sentido, apontam os resultados de Zuroff, Koestner e Powers (1994, cit. por Gilbert et al., 2004), que permitem-lhes concluir que o grau de auto-critica manifestado na infância constitui-se como um imponente preditor do posterior ajustamento no adulto. A auto-critica, em alguns casos, pode provocar sofrimento, estando na origem de sérios problemas psicológicos, sendo que as pessoas auto-criticas tendem a ser altamente competitivas e muito exigentes consigo mesmas (Blatt & Zuroff,1992; cit. por Sturman & Mongrain, 2005).

Em 1997 Gilbert (cit. por Gilbert et al., 2004) reconhece que a auto-critica podia emanar de esforços da pessoa para se aperfeiçoar e prevenir erros e frustrações, pelo que as suas formas e funções parecem ser o reflexo das competências desenvolvidas para regular os relacionamentos externos. (...) Posto isto, este estudo permitiu identificar duas funções: a correcção do Self e o ataque ao Self e três formas: Self inadequado, o Self tranquilizador e o Self detestado (querer magoar-se a si mesmo).

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Mais sobre os "latidos do ego"
(Eckhart Tolle)


Na maioria dos casos, quando você diz "eu", é o ego falando, e não você. Ele é pensamento e emoção, é um punhado de memórias que você identifica como "eu e meu passado", um punhado de papéis habituais que você desempenha sem saber, de identificações coletivas como nacionalidade, religião, raça, classe social ou partido político. Também são identificações pessoais, como opiniões, aparência física, ressentimentos antigos, ideias de superioridade ou inferioridade, de sucesso ou fracasso.

O conteúdo do ego varia de pessoa para pessoa, mas, em todos os egos, é a mesma estrutura que opera. Em outras palavras: egos só se diferem na superfície; no fundo, eles são o mesmo. A identidade do ego é precária, porque suas bases – pensamento e emoção – são efêmeras por natureza, flutuantes. Cada ego está continuamente lutando para sobreviver, tentando proteger e ampliar a si mesmo. Para sustentar o tipo "eu" de pensamento, é necessário o pensamento oposto: "o outro". O "eu" conceitual não pode sobreviver sem o "outro" conceitual. E os outros são ainda mais outros quando eu os vejo como meus inimigos.

Em uma da ponta da escala desse padrão egoico inconsciente está o hábito compulsivo e egoico de procurar defeitos nos outros e de reclamar deles. Jesus se referiu a isso quando disse "Por que você vê o cisco que está no olho do seu irmão, mas não se dá conta do cepo que está no seu próprio olho?" No outro fim da escala, há a violência física entre indivíduos e a guerra entre nações. Na Bíblia, a questão de Jesus permanece sem resposta, mas ela é óbvia: porque, quando eu critico e condeno o outro, isso me faz melhor, me faz superior.

Reclamar é uma das estratégias favoritas do ego para aumentar a sua força. Cada queixa é uma pequena história que a mente inventa e na qual você acredita completamente. Se a reclamação é falada ou apenas em pensamento, não faz diferença. É um hábito e é inconsciente, o que significa que você não sabe o que está fazendo. Aplicam-se rótulos mentais negativos às outras pessoas. Xingamento com palavrões é a forma mais crua dessa rotulação e da necessidade do ego de estar certo e de triunfar sobre os outros: "imbecil, idiota, filho da puta" – todos pronunciamentos definitivos com os quais você não pode argumentar.

Ressentimento é a emoção que adiciona ainda mais energia ao ego. Significa sentir-se amargo, indignado, ofendido ou contrariado. Você se irrita com as ofensas das pessoas, com sua desonestidade, sua falta de integridade, com o que estão fazendo, com o que fizeram, com o que disseram, com o que fizeram de errado, com o que deveriam ter feito e com o que não deveriam. O ego adora isso. Quem está fazendo isso? A inconsciência em você, o ego. Às vezes, o "erro" que você aponta no outro nem está lá. É totalmente uma interpretação distorcida, uma projeção de uma mente condicionada para ver inimigos e para ver a si mesma como superior. Em outros casos, o erro pode estar lá, mas ao focar-se nele, às vezes com a exclusão de um aspecto positivo, você o amplifica. E, conforme você reage ao outro, você se sente mais forte.

Não reagir ao ego dos outros é uma das formas mais efetivas não só de sublimar o ego em si próprio, mas de dissolver o ego coletivo humano. Mas você só consegue estar na posição de não reagir se você identificar que o comportamento do outro está vindo do ego, bem como sendo uma expressão dessa disfunção coletiva humana. Quando você se dá contra de que a questão não é pessoal, deixa de existir a compulsão para reagir. Não reagindo ao ego, você estará apto para estimular a saúde dos outros, que é feita de uma consciência não condicionada. Às vezes você precisará se proteger das pessoas profundamente inconscientes. Isso você pode fazer não os vendo com inimigos. Sua maior proteção, entretanto, é estar consciente. Alguém se torna seu inimigo se você pessoalizar a inconciência que é o ego. Não-reação é perdão. Perdoar é deixar passar; ou, melhor ainda, olhar adiante. Você olha através do ego e enxerga a sanidade que está em cada ser humano, em sua essência.

O ego adora reclamar e fica irritado não só com outras pessoas, mas também com situações. O que você pode fazer com uma outra pessoa, você pode fazer com uma situação: torná-la uma inimiga sua. E o maior inimigo do ego, entre todos, obviamente, é o momento presente, ou seja, a vida em si.

Reclamar não pode ser confundido com informar alguém de algum equívoco que pode ser corrigido. Não há nenhum ego em dizer ao garçom que sua sopa está fria e que precisa ser aquecida – se você se ater aos fatos, será sempre neutro. "Como você ousa me servir sopa fria?!" – isto é reclamar. Neste caso, há um "eu" que adora se sentir pessoalmente ofendido pela sopa fria, um "eu" que tem prazer em fazer com que o outro esteja errado. Uma reclamação que está a serviço do ego, não da mudança. Às vezes fica óbvio que o ego realmente não quer mudar, porque só assim ele poderá seguir reclamando.

Perceba se você consegue flagrar a voz na sua cabeça, talvez no exato momento em que você estiver reclamando de algo, e reconhecê-la exatamente por o que ela é: a voz do ego, nada mais que um padrão mental condicionado, um pensamento. Quando você flagrar a voz, você também se dará conta de que você não é a voz, mas sim aquele que está consciente dela. Na verdade, você é a consciência que está consciente da voz. No plano de fundo, há a consciência. No primeiro plano, há a voz, o pensante. Ego implica inconsciência. Consciência e ego não co-existem.

domingo, 5 de julho de 2015

Nos países em que você lava a própria privada, ninguém mata por uma bicicleta
(Gregório Duvivier)


Cara elite,

sei que não é fácil ser você. Nasci de você, cresci com você, estudei com você, trabalho com você. Resumindo: sou você. (Vou fazer uma camisa: “Je suis elite”). Sei que você (a gente) quer o bem do país.

Sei que era por bem que você não queria abolir a escravidão. “Se a gente tiver que pagar pelo serviço que os negros faziam de graça, o país vai quebrar.” Você não queria que o Brasil quebrasse. Você não precisava ficar nervoso: o Brasil não quebrou.

Sei que era por bem que você pediu um golpe em 64. Você tinha medo do Jango, tinha medo da reforma agrária, tinha medo da União Soviética. Sei que depois você se arrependeu, quando os generais começaram a matar seus filhos. Mas já era tarde.

Sei que você achou que o Collor era honesto. Sei que você achou (acha?) que o Lula é um braço das Farc, que é um braço do Foro de São Paulo, que é um braço do Fidel, que é um braço da Coreia do Norte. Sei que você ainda tem medo de um golpe comunista – mesmo com Joaquim Levy no Ministério da Fazenda. Sei que você tem medo. E o seu medo faz sentido.

Não é fácil ser assaltado todo dia. Dá um ódio muito profundo (digo por experiência própria). A gente comprou um iPhone 6 com o suor do nosso rosto – e pagou muitos impostos. Sei que nessas horas dá uma vontade enorme de morar fora.

Você sabe que lá fora você pode abrir seu laptop na praça, pode deixar a porta aberta, a bicicleta sem cadeado. Mas lá fora, não esqueça, é você quem limpa a sua privada. Você já relacionou as duas coisas?

Nos países em que você lava a própria privada, ninguém mata por uma bicicleta. Nos países em que uma parte da população vive para lavar a privada de outra parte da população, a parte que tem sua privada lavada por outrem não pode abrir o laptop no metrô (quem disse isso foi o Daniel Duclos).

Não adianta intervenção militar, não adianta blindar todos os carros, não adianta reduzir a maioridade penal (SPOILER: isso nunca adiantou em lugar nenhum do mundo).

Sabe por que os milionários americanos doam tanto dinheiro? Não é por empatia pelos mais pobres. Tampouco tem a ver só com isenção fiscal. Doam porque sabem que, quanto mais gente rica no mundo, mais gente consumindo e menos gente esfaqueando por bens de consumo.

Um pobre menos pobre rende mais dinheiro para você e mais tranquilidade nos passeios de bicicleta. A gente quer o seu (o nosso) bem. É melhor ser a elite de um país rico do que a de um país pobre.
"O artista não obedece a um impulso individual, mas a uma corrente coletiva, que, na verdade, não se origina diretamente do consciente." (Carl Gustav Jung)
"A corrupção está enraizada e faz parte de nosso cotidiano, em uma espécie pandêmica. No mundo, não é diferente. Estudos recentes divulgados apontam que a corrupção custa algo em torno de 120 bilhões de euros por ano à União Europeia. Na grande maioria dos países europeus, uma média que oscila entre 6% (Croácia) a 97 %, no caso da Itália, anota que os cidadãos e até mesmo empresários já foram obrigados a se valer da propina para ter algum serviço público atendido, ou mesmo para ter algum negócio concretizado, apontando para o ramo da construção civil como casos mais latentes. E na Europa há uma lacuna legislativa para regulamentar a relação, hoje promíscua entre o empresariado e o poder público." (Rodrigo Carneiro Maia Bandieri)
"O que eu gostaria de deixar bem pontuado, que considero mais contraproducente para o nosso projeto de país é que a terceirização é uma promoção da desumanização das relações de trabalho. Ela aprofunda divisões internas que existem na sociedade e que nós temos de modificar. O grande problema do terceirizado é que ele não consegue se identificar como inserido dentro de um grupo profissional. Um dia o trabalhador é bancário, noutro ele é comerciário, noutro industriário e no outro ele está no olho da rua. Esse é um problema da terceirização: a dificuldade da pessoa que trabalha se ver inserida dentro de um grupo social. O trabalho não pode ser considerado só como um meio de ganhar subsistência, ele também é um meio de identificação da condição social, do modo como a pessoa se vê. A terceirização destrói essa característica de intimidade da pessoa de se identificar num grupo social." (Rodrigo Trindade de Souza, juiz do trabalho)
"Supor que o EI constitui o mesmo tipo de ameaça que um Estado regional é não entender em absoluto por que o grupo se tornou tão poderoso. O EI está sobrevivendo e expandindo-se porque se alimenta de um potente coquetel de sentimentos antiocidentais muito arraigados, ódio aos muçulmanos xiitas e debilidade dos Estados à sua volta. Nenhum desses fatores se altera com uma intervenção militar externa." (Michael Steffens/El Pais)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

'Vendo', do input_output, é um dos 50 discos do primeiro semestre de 2015 que o site de música independente Floga-se selecionou como importantes de se ouvir.


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Cuidado com os latidos do ego
(Eckhart Tolle)

"O ego é uma voz, dentro da sua cabeça, que se torna uma espécie de entidade. Ela não é real, mas parece suficientemente real quando você está confuso sobre quem você é, com essa entidade agindo e reagindo na sua mente. Energizada e amplificada pelas emoções, num círculo vicioso, em que as emoções são criadas por o que quer que a entidade esteja pensando, ao mesmo tempo em que as emoções amplificam a entidade. Em algumas pessoas, a entidade é extremamente pesada, ou raivosa, ou dramática, ou triste, ou facilmente incomodada, ou atenta para criar conflitos, ou pronta para pular em sua defesa. Quando você questiona o ponto de vista de uma pessoa assim, impregnado pelo seu ego, ela se torna muito defensiva ou agressiva. Uma discussão pacífica com essa pessoa é impossível, porque para tal é necessária uma desidentificação consigo mesmo, um espaço - dentro de si e dentro do outro. Quando você enxerga uma pessoa incomodada, você percebe imediatamente o motivo: identificação com sua posição mental - ego, a entidade que se sente ameaçada. E então a entidade late para você. Alguns cães também fazem isso, mas também estes estão contaminados por seus passados."