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segunda-feira, 16 de abril de 2018

"Já faz 40 anos que o neoliberalismo, liderado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, assaltou o mundo. E isso teve um efeito. A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Já não se confia nem nos próprios fatos. Há quem chama isso de populismo, mas na verdade é descrédito das instituições. (...) As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas." (Noam Chomsky)
"What keeps people glued to YouTube? Its algorithm seems to have concluded that people are drawn to content that is more extreme than what they started with — or to incendiary content in general. (...) It is also possible that YouTube’s recommender algorithm has a bias toward inflammatory content. In the run-up to the 2016 election, Mr. Chaslot created a program to keep track of YouTube’s most recommended videos as well as its patterns of recommendations. He discovered that whether you started with a pro-Clinton or pro-Trump video on YouTube, you were many times more likely to end up with a pro-Trump video recommended. (...) What we are witnessing is the computational exploitation of a natural human desire: to look “behind the curtain,” to dig deeper into something that engages us. As we click and click, we are carried along by the exciting sensation of uncovering more secrets and deeper truths. YouTube leads viewers down a rabbit hole of extremism, while Google racks up the ad sales." (Zeynep Tufekci)
“Qual é a essência do trabalho de um diretor? Poderíamos defini-la como ‘esculpir o tempo’. Assim como o escultor toma um bloco de mármore e, guiado pela visão interior de sua futura obra, elimina tudo que não faz parte dela – do mesmo modo o cineasta, a partir de um ‘bloco de tempo’ constituído por uma enorme e sólida quantidade de fatos vivos, corta e rejeita tudo aquilo de que não necessita, deixando apenas o que deverá ser um elemento do futuro filme, o que mostrará ser um componente essencial da imagem cinematográfica”.

Andrei Tarkovski, no livro “Esculpir o Tempo”, de 1986
Quinta-feira
- Vocês trabalham com socorro elétrico?
- Sim, mas o rapaz que faz o socorro está num atendimento, deixa teu número que ele te liga quando chegar.

Sexta-feira
- Oi, vocês não me ligaram ontem...
- Hoje tá impossível, cheio de trabalho pra terminar, liga segunda.

Segunda-feira
- Vocês estão disponíveis hoje?
- É que a gente não costuma fazer socorro... Pra fazer socorro eu vou ter que levar uma oficina inteira pra tua casa.
- Por que não me disse isso no primeiro dia?
- É que a gente costuma ser simpático com o cliente, procura deixá-lo satisfeito...
"Como se sabe, não há democracia liberal alguma na qual um chefe militar faz declarações políticas visando chantagear um julgamento da Corte Suprema, e isso é visto como aceitável. Mas o Brasil não é uma democracia sequer para os padrões de aparência da democracia liberal. (...) A noção de uma transição democrática pacífica criou o paradoxo de uma transição infinita. Na verdade, transição cujo fim era infinitamente diferido porque não era transição alguma. Transição sem Justiça de transição, sem depuração das Forças Armadas de seus elementos criminosos, sem fim do poder militar, com sua polícia, sem afastamento dos antigos políticos que deram sustentação à ditadura." (Vladimir Safatle)
Carta de amor enviada num canhão

Eu botei uma praga em você
Fiz magia
Fui na bruxa
Fiz caveira
Simpatia
Deixei despacho na rua
Que é pra você se arrebentar toda
Espero que você exploda
Que seu corpo inche
Risque estrias
Seu cabelo queime
Seus olhos sequem
E seu umbigo desmanche
Quero ver você sofrendo
Chorando uma tempestade
Parindo um elefante
Vomitando um edifício
Encharcando a enfermaria
Quero que seu coração imploda
Eu quero que você vire uma hemorragia
Que não saiba se encontrar
Que beba o veneno
Encontre a bomba
Suma, desapareça
Teu nome está no buraco do mundo
Tua foto queimei no sapo
Teus presentes enterrei no saco
Eu quero que você se apague
Se enforque nos lençóis
Que o mal te esfrie
Que assaltem teu ouro
Que tua casa pegue fogo
Teus parentes mortos
Teus amigos te traiam
E um negão desmarcado trepe contigo
E você não possa mais andar
Que perca dinheiro
Que não consiga mais emprego
Que as pessoas te xinguem ao passar
Que o piano caia na sua cabeça
Pise na merda
Escorregue na banana
Perca o sono
Seja rejeitada, cuspida, escarrada
Que lhe falte abraços
Que lhe falte beijos
Que conheça o nada
Eu botei uma praga em você
Que é pra depois, assim...
Você volte em passos lentos pelo jardim
Suplicando pra voltar pra mim
Não há nada
Como amar
Uma mulher
Toda arrebentada.

Gabriel Pardal
GloboNews fazendo documentário que exalta um líder popular histórico, como Martin Luther King, com apresentação da Neubarth, é uma comédia da pesada... Se fosse no Brasil, seria a própria Globo a mandar matá-lo. Agora que é história longínqua, e que as ideias dele não são hoje ameaçadoras, dá pra fazer um vídeo poético pra ganhar prêmio de telejornalismo.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

quarta-feira, 11 de abril de 2018

"Se tudo o que existe na sua vida é 'eu', então o sofrimento é inevitável. O momento presente é um portal de saída desse estado e de entrada em algo muito mais profundo do que qualquer conceito de felicidade." (Eckhart Tolle)
Ranking de filmes elaborado pela BBC em 2016, composto pelos 100 melhores filmes do século 21

http://www.imdb.com/title/tt0166924/ 1 — Cidade dos Sonhos (2001), David Lynch

http://www.imdb.com/title/tt0118694/ 2 — Amor à Flor da Pele (2000), Wong Kar-wai

http://www.imdb.com/title/tt0469494/ 3 — Sangue Negro (2007), Paul Thomas Anderson

http://www.imdb.com/title/tt0245429/ 4 — A Viagem de Chihiro (2001), Hayao Miyazaki

http://www.imdb.com/title/tt1065073/ 5 — Boyhood: Da Infância à Juventude (2014), Richard Linklater

http://www.imdb.com/title/tt0338013/ 6 — Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004), Michel Gondry

http://www.imdb.com/title/tt0478304/ 7 — A Árvore da Vida (2011), Terrence Malick

http://www.imdb.com/title/tt0244316/ 8 — As Coisas Simples da Vida (2000), Edward Yang

http://www.imdb.com/title/tt1832382/ 9 — A Separação (2011), Asghar Farhadi

http://www.imdb.com/title/tt0477348/ 10 — Onde os Fracos não Têm Vez (2007), Joel e Ethan Coen

http://www.imdb.com/title/tt2042568/ 11 — Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum (2013), Joel e Ethan Coen

http://www.imdb.com/title/tt0443706/ 12 — Zodíaco (2007), David Fincher

http://www.imdb.com/title/tt0206634/ 13 — Filhos da Esperança (2006), Alfonso Cuarón

http://www.imdb.com/title/tt2375605/ 14—O Ato de Matar (2012), Joshua Oppenheimer

http://www.imdb.com/title/tt1032846/ 15 — 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007), Cristian Mungiu

http://www.imdb.com/title/tt2076220/ 16 — Holy Motors (2012), Leos Carax

http://www.imdb.com/title/tt0457430/ 17 — O Labirinto do Fauno (2006), Guillermo Del Toro

http://www.imdb.com/title/tt1149362/ 18 — A Fita Branca (2009), Michael Haneke

http://www.imdb.com/title/tt1392190/ 19 — Mad Max: Estrada da Fúria (2015), George Miller

http://www.imdb.com/title/tt0383028/ 20 — Sinédoque, Nova York  (2008), Charlie Kaufman

http://www.imdb.com/title/tt2278388/ 21 — O Grande Hotel Budapeste (2014), Wes Anderson

http://www.imdb.com/title/tt0335266/ 22 — Encontros e Desencontros (2003), Sofia Coppola

http://www.imdb.com/title/tt0387898/ 23 — Caché (2005), Michael Haneke

http://www.imdb.com/title/tt1560747/ 24 — O Mestre (2012), Paul Thomas Anderson

http://www.imdb.com/title/tt0209144/ 25 — Amnésia (2000), Christopher Nolan

http://www.imdb.com/title/tt0307901/ 26 — A Última Noite (2002), Spike Lee

http://www.imdb.com/title/tt1285016/ 27 — A Rede Social (2010), David Fincher

http://www.imdb.com/title/tt0287467/ 28 — Fale com Ela (2002), Pedro Almodóvar

http://www.imdb.com/title/tt0910970/ 29 — WALL-E (2008), Andrew Stanton

http://www.imdb.com/title/tt0364569/ 30 — Oldboy (2003), Park Chan-wook

http://www.imdb.com/title/tt0466893/ 31 — Margaret (2011), Kenneth Lonergan

http://www.imdb.com/title/tt0405094/ 32 — A Vida dos Outros (2006), Florian Henckel von Donnersmarck

http://www.imdb.com/title/tt0468569/ 33 — Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), Christopher Nolan

http://www.imdb.com/title/tt3808342/ 34 — O Filho de Saul (2015), László Nemes

http://www.imdb.com/title/tt0190332/ 35 — O Tigre e o Dragão (2000), Ang Lee

http://www.imdb.com/title/tt3409392/ 36 — Timbuktu (2014), Abderrahmane Sissako

http://www.imdb.com/title/tt1588895/ 37 — Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010), A. Weerasethakul

http://www.imdb.com/title/tt0317248/ 38 — Cidade de Deus (2002), Fernando Meirelles e Kátia Lund

http://www.imdb.com/title/tt0402399/ 39 — O Novo Mundo (2005), Terrence Malick

http://www.imdb.com/title/tt0388795/ 40 — O Segredo de Brokeback Mountain (2005), Ang Lee

http://www.imdb.com/title/tt2096673/ 41 — Divertida Mente (2015), Pete Docter

http://www.imdb.com/title/tt1602620/ 42 — Amor (2012), Michael Haneke

http://www.imdb.com/title/tt1527186/ 43 — Melancolia (2011), Lars von Trier

http://www.imdb.com/title/tt2024544/ 44 — 12 Anos de Escravidão (2013), Steve McQueen

http://www.imdb.com/title/tt2278871/ 45 — Azul é a Cor Mais Quente (2013), Abdellatif Kechiche

http://www.imdb.com/title/tt1020773/ 46 — Cópia Fiel (2010), Abbas Kiarostami

http://www.imdb.com/title/tt2802154/ 47 — Leviatã (2014), Andrey Zvyagintsev

http://www.imdb.com/title/tt2381111/ 48 — Brooklyn (2015), John Crowley

http://www.imdb.com/title/tt2400275/ 49 — Adeus à Linguagem (2014), Jean-Luc Godard

http://www.imdb.com/title/tt3508840/ 50 — A Assassina (2015), Hou Hsiao-hsien

http://www.imdb.com/title/tt1375666/ 51 — A Origem (2010), Christopher Nolan

http://www.imdb.com/title/tt0381668/ 52 — Mal dos Trópicos (2004), Apichatpong Weerasethakul

http://www.imdb.com/title/tt0203009/ 53 — Moulin Rouge: Amor em Vermelho (2001), Baz Luhrmann

http://www.imdb.com/title/tt1827487/ 54 — Era uma Vez na Anatolia (2011), Nuri Bilge Ceylan

http://www.imdb.com/title/tt2718492/ 55 — Ida (2013), Paweł Pawlikowski

http://www.imdb.com/title/tt0249241/ 56 — A Harmonia Werckmeister (2000), Béla Tarr e Ágnes Hranitzky

http://www.imdb.com/title/tt1790885/ 57 — A Hora Mais Escura (2012), Kathryn Bigelow

http://www.imdb.com/title/tt0416991/ 58 — Moolaadé (2004), Ousmane Sembène

http://www.imdb.com/title/tt0399146/ 59 — Marcas da Violência (2005), David Cronenberg

http://www.imdb.com/title/tt0477731/ 60 — Síndromes e um Século (2006), A. Weerasethakul

http://www.imdb.com/title/tt1441395/ 61 — Sob a Pele (2013), Jonathan Glazer

http://www.imdb.com/title/tt0361748/ 62 — Bastardos Inglórios (2009), Quentin Tarantino

http://www.imdb.com/title/tt1316540/ 63 — O Cavalo de Turin (2011), Béla Tarr e Ágnes Hranitzky

http://www.imdb.com/title/tt2358891/ 64 — A Grande Beleza (2013), Paolo Sorrentino

http://www.imdb.com/title/tt1232776/ 65 — Aquário (2009), Andrea Arnold

http://www.imdb.com/title/tt0374546/ 66 — Primavera, Verão, Outono, Inverno… E Primavera (2003), Kim Ki-duk

http://www.imdb.com/title/tt0887912/ 67 — Guerra ao Terror (2008), Kathryn Bigelow

http://www.imdb.com/title/tt0265666/ 68 — Os Excêntricos Tenenbaums (2001), Wes Anderson

http://www.imdb.com/title/tt2402927/ 69 — Carol (2015), Todd Haynes

http://www.imdb.com/title/tt2366450/ 70 — Histórias que Contamos (2012), Sarah Polley

http://www.imdb.com/title/tt2153963/ 71 — Tabu (2012), Miguel Gomes

http://www.imdb.com/title/tt1714915/ 72 — Amantes Eternos (2013), Jim Jarmusch

http://www.imdb.com/title/tt0381681/ 73 — Antes do Pôr-do-Sol (2004), Richard Linklater

http://www.imdb.com/title/tt2101441/ 74 — Spring Breakers: Garotas Perigosas (2012), Harmony Korine

http://www.imdb.com/title/tt1791528/ 75 — Vício Inerente (2014), Paul Thomas Anderson

http://www.imdb.com/title/tt0276919/ 76 — Dogville (2003), Lars von Trier

http://www.imdb.com/title/tt0401383/ 77 — O Escafandro e a Borboleta (2007), Julian Schnabel

http://www.imdb.com/title/tt0993846/ 78 — O Lobo de Wall Street (2013), Martin Scorsese

http://www.imdb.com/title/tt0181875/ 79 — Quase Famosos (2000), Cameron Crowe

http://www.imdb.com/title/tt0376968/ 80 — O Retorno (2003), Andrey Zvyagintsev

http://www.imdb.com/title/tt1723811/ 81 — Shame (2011), Steve McQueen

http://www.imdb.com/title/tt1019452/ 82 — Um Homem Sério (2009), Joel and Ethan Coen

http://www.imdb.com/title/tt0212720/ 83 — A.I.: Inteligência Artificial (2001), Steven Spielberg

http://www.imdb.com/title/tt1798709/ 84 — Ela (2013), Spike Jonze

http://www.imdb.com/title/tt1235166/ 85 — O Profeta (2009), Jacques Audiard

http://www.imdb.com/title/tt0297884/ 86 — Longe do Paraíso (2002), Todd Haynes

http://www.imdb.com/title/tt0211915/ 87 — O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), Jean-Pierre Jeunet

http://www.imdb.com/title/tt1895587/ 88 — Spotlight: Segredos Revelados (2015), Tom McCarthy

http://www.imdb.com/title/tt1221141/ 89 — A Mulher Sem Cabeça (2008), Lucrecia Martel

http://www.imdb.com/title/tt0253474/ 90 — O Pianista (2002), Roman Polanski

http://www.imdb.com/title/tt1305806/ 91 — O Segredo dos Seus Olhos (2009), Juan José Campanella

http://www.imdb.com/title/tt0443680/ 92 — O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007), Andrew Dominik

http://www.imdb.com/title/tt0382932/ 93 — Ratatouille (2007), Brad Bird

http://www.imdb.com/title/tt1139797/ 94 — Deixa Ela Entrar (2008), Tomas Alfredson

http://www.imdb.com/title/tt1748122/ 95 — Moonrise Kingdom (2012), Wes Anderson

http://www.imdb.com/title/tt0266543/ 96 — Procurando Nemo (2003), Andrew Stanton

http://www.imdb.com/title/tt1135952/ 97 — Minha Terra África (2009), Claire Denis

http://www.imdb.com/title/tt0301978/ 98 — Dez (2002), Abbas Kiarostami

http://www.imdb.com/title/tt0247380/ 99 — Os Catadores e Eu (2000), Agnès Varda

http://www.imdb.com/title/tt0180093/ 100 — Réquiem Para um Sonho (2000), Darren Aronofsky
Não é fácil ser homem
(Ana Cerqueira)

<< Vocês devem ter achado estranho o título do texto, sendo escrito por uma mulher, não é? Afinal, os homens devem pensar, como é que ela sabe disso? O fato é que com o trabalho e estudo da psicanálise, muita coisa mudou na minha vida, inclusive a percepção do que é “ser homem”. Trabalho com homens, sou casada, tenho pai, amigos e ultimamente comecei a me aprofundar mais nesse universo masculino. O título é muito mais utilizado pelas mulheres “não é fácil ser mulher”, temos que trabalhar, estudar, ser mãe, esposa, amante, amiga e mais mil e uma utilidades, mas será que paramos para pensar no que é ser homem? >>

Tem um documentário sobre esse assunto.

https://youtu.be/hc45-ptHMxo
Jessé Souza (professor titular de ciência política da UFF e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea), Le Monde Diplomatique:

<< (...) A histeria acerca da corrupção política, por exemplo, identificada pela população e pela imprensa como o maior problema nacional, advém do domínio dessas ideias [arcaicas e conservadoras, hegemônicas]. A identificação de uma suposta elite todo-poderosa no Estado, e não no mercado, suprema tolice que possibilita a virtual invisibilidade da ação predatória dos oligopólios e da intermediação financeira, também é fruto dessa hegemonia. (...)

Como o “Estado corrupto” passa a ser identificado como o mal maior da nação, a elite do dinheiro ganha uma espécie de “carta na manga” que pode ser usada sempre que a “soberania popular” ponha no governo, inadvertidamente, alguém contrário aos interesses do poder econômico. (...)

O “liberalismo conservador”, baseado no falso moralismo da “higiene moral” da nação, vai ser a pedra de toque da arregimentação da classe média. Isso não significa dizer que o moralismo não tenha eco também nas outras classes. Em alguma medida esse discurso nos toca a todos. Mas na classe média ele está em “casa”. É que as classes sociais estão sempre disputando não apenas bens materiais e salários, mas também prestígio e reconhecimento, ou em uma palavra: legitimação do próprio comportamento e da própria vida.

As classes superiores, que monopolizam capital econômico e cultural, têm de justificar, portanto, seus privilégios. O capital econômico se legitima com o “empreendedorismo” de quem “dá emprego” e ergue impérios, e com o suposto bom gosto inato de seu estilo de vida, como se a posse do dinheiro fosse mero detalhe sem importância. (...)

Como na imensa maioria dos casos não possui os meios para se envolver nas grandes negociatas que manipulam milhões, a classe média não tem sequer, na prática, o dilema moral de se deixar ou não corromper. Como justificação e legitimação da própria vida, o esquema moralista é, portanto, perfeito. Em relação aos poderosos, a classe média pode se ver sempre como “virgem imaculada” e moralmente perfeita. (...)

Se o patrimonialismo torna invisível a base real do poder social ao estigmatizar o Estado e seus ocupantes sempre que as eleições ponham alguém não palatável pela elite da rapina econômica na disputa eleitoral, o populismo estigmatiza qualquer pretensão popular.

A noção de “populismo”, atrelada a qualquer política de interesse dos mais pobres, serve para mitigar a importância da soberania popular como critério fundamental de qualquer sociedade democrática. Afinal, como os pobres, coitadinhos, não têm mesmo nenhuma consciência política, a soberania popular e sua validade podem ser sempre, em graus variados, postas em questão.

O “voto inconsciente” corromperia a validade do princípio democrático por dentro. A proliferação dessa ideia na “esfera pública” por meio da sua “respeitabilidade científica” e depois pelo aparato legitimador midiático, que o repercute todos os dias de modos variados, é impressionante. Os best-sellers da ciência política conservadora comprovam a eficácia dessa balela.

As noções de patrimonialismo e de populismo, distribuídas em pílulas pelo veneno midiático diariamente, são as ideias-guia que permitem à elite arregimentar a classe média como sua “tropa de choque” sempre que necessário. Elas, afinal, são as guardiãs da “distância social” em relação aos pobres, que é a pedra de toque da aliança antipopular construída no Brasil para preservar o privilégio, acesso aos capitais econômico e cultural, de 20% contra os 80% de excluídos em alguma medida significativa. (...)

O Brasil tem mais assassinatos – de pobres – que qualquer outro país do mundo. São 60 mil pobres assassinados por ano no Brasil. Existe uma guerra de classes hoje declarada e aberta. Construiu-se toda uma percepção negativa dos escravos e dos seus descendentes como feios, fedorentos, incapazes, perigosos e preguiçosos, isso tudo de forma irônica, povoando o cotidiano com ditos e piadas preconceituosas, e hoje muitos se comprazem em ver a profecia realizada. Não se entende a miséria permanente e secular dos nossos excluídos sociais sem esse ativismo social e político covarde e perverso de nossas classes “superiores”.

O ódio secular às classes populares parece-me a mais brasileira de todas as nossas singularidades sociais. Como os preconceitos são sociais, e não individuais, como somos inclinados a pensar, todas as classes superiores no Brasil partilham desse preconceito. Ainda que, mais uma vez, ele esteja verdadeiramente “em casa” na classe média. Ainda que a classe média seja muito heterogênea, toda ela, sem exceção, inclusive o autor que aqui escreve, é portadora em maior ou menor grau desse tipo de preconceito. De alguma maneira “nascemos” com ele, o introjetamos e o incorporamos, seja de modo inconsciente e pré-reflexivo, seja de modo refletido e consciente, como ódio aberto. Mesmo quem critica os preconceitos os têm dentro de si, como qualquer outra pessoa criada no mesmo ambiente social. O que nos diferencia é a vigilância em relação a eles e a tentativa de criticá-los de modo refletido em alguns, e não em outros. Mas todos nós somos suas vítimas. >>
Retweeted wendi. (@wen_di_yu):

A gente fala muito que o governo do PT reduziu as desigualdades no Brasil, mas às vezes não tem dimensão do quanto. A ex-ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, organizou um estudo incrível sobre isso: http://209.177.156.169/libros/Faces_da_desigualdade_no_brasil.pdf
"É um outro patamar, agora. Trata-se de eliminar o adversário, trata-se de aniquilar o adversário, trata-se de torná-lo um inimigo absoluto. É isso que tem acontecido no Brasil." (José Sócrates, ex-primeiro ministro de Portugal)
"Pessoas que tiveram o privilégio de estudar, num Brasil tão desigual, são incapazes de compreender a gravidade do momento histórico. Esse ódio mascarado de alegria é o rosto contorcido de uma distorção. Esse ódio mascarado de alegria é obsceno. Mas estas são as pessoas do alto, as pessoas que podem olhar e interferir no mundo sem sair da janelinha." (Eliane Brum)
Retweeted piero locatelli (@pierobl):

Acabamos de publicar a nova lista suja do trabalho escravo na @reporterb. Nela, o nome dos 165 empregadores responsáveis por manter 2.264 trabalhadores em situação análoga à escravidão: https://t.co/VQq5GaSH1e
“O Brasil é um palco de ódio e de polarização, como em muitas partes do mundo. A diferença é que nosso imaginário era de paz e harmonia, concórdia e cordialidade. Removida a fina pátina social, encontramos dores agudas e muita raiva. O antídoto começa pela compaixão, pela capacidade de sentir com os outros e reconhecer todos como seres humanos. Além disso, o conhecimento de si ajuda a não transferir, automaticamente, minhas frustrações para outros campos, como trânsito e redes sociais. Por fim, o velho conselho medieval: odiar o pecado e amar o pecador. Odeio o crime, o tráfico de drogas e de pessoas e a corrupção. Porém, mesmo o criminoso continua sendo uma pessoa com direitos. / Em nome do bem, quase todos fazemos o mal; há também a imposição do ‘bem’ sobre os outros. Para evitar o mal maior, em primeiro lugar, não se deve, jamais, dividir o mundo entre o bem (meu lado) e o mal (outro lado). Dois judeus famosos advertiram sobre a ambiguidade das pessoas que se acham virtuosas, Jesus e Freud. O ódio em nome do bem é o pior de todos: ele destrói com mais ênfase porque se acredita protetor dos valores éticos mais elevados. O lema da Inquisição era Misericórdia e Justiça. Os campos de concentração nazistas exaltavam o trabalho no portão. O ódio virtuoso é muito perigoso, porque cega com mais facilidade. O mal maior é sempre tentar destruir a existência do outro, porque vida é o valor supremo.” (Leandro Karnal)