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domingo, 9 de abril de 2017

"A teoria do caos ensina que somos sempre parte do problema e que tensões e deslocamentos específicos sempre se desenvolvem a partir de todo o sistema, não de uma 'peça' defeituosa. Imaginar que uma questão seja um problema puramente mecânico a ser resolvido pode trazer um alívio temporário dos sintomas; porém, o caos sugere que, em longo prazo, poderia ser mais eficaz examinar o contexto geral em que determinado problema se manifesta." (Briggs e Peat)
De acordo com Leonard Koren, autor do livro Wabi-Sabi: for Artists, Designers, Poets & Philosophers:

A grandeza existe no imperceptível e nos detalhes negligenciados. Wabi sabi representa o exato oposto da beleza percebida como algo monumental, espetacular e duradouro. Ele é sobre o secundário, o escondido, a tentativa e o transitório, coisas tão sutis e instáveis que são invisíveis aos olhos medíocres.

Reside nos detalhes discretos e esquecidos e é preciso ter humildade, sensibilidade e compreensão para captá-lo.

A essência do wabi sabi é que a beleza real não se revela até que o caminhar do tempo tenha acontecido. Um metal enferrujado, por exemplo, tem uma essência que falta em um material novo e polido. A beleza está nos arranhões, nas áreas desgastadas e nas linhas imperfeitas.

A ideia dessa filosofia também fala em aceitar como é o que não pode ser mudado.

Wabi sabi é otimista. É ver beleza onde pessoas menos criativas enxergam defeitos.

A experiência de wabi sabi exerce uma busca pela beleza onde já não se torna suficiente só olhar, é preciso ter o tempo para ver. Não se deixe usar a palavra beleza com pressa, porque há uma importante auto-jornada para encontrar e apreciar o que está mais escondido. Isso promove as virtudes de sermos pacientes.

Conceito japonês, Yugem significa um profundo sentimento interno. É a expressão da profundidade, só mistério não-traduzido, do incompreendido e do abstrato em todas as atividades artísticas. Yugem é a expressão do inevitável, da impermanência. Yugem, segundo os japoneses, pode apenas ser intuído, apreciado pela mente e jamais verbalizado - está além da consciência. Algumas pinturas japonesas de paisagens com névoa, por exemplo, levam o observador a fazer uma conexão comum espaço que parece estar além deste mundo. Este é o sentido estético de Yugem.
A autora do livro "[MA] entre espaço da arte e comunicação no Japão", Michiko Okano, afirma que "o ma está presente em todas as manifestações culturais japonesas. Possui múltiplas semânticas, uma delas é a do espaço de possibilidade e disponibilidade e a outra é a de espaços intervalares, que desconstrói o pensamento dual e aposta na possibilidade de um espaço intermediário que pode ser concomitantemente as duas coisas".

A arquitetura ontológica construída por Aristóteles admitia apenas duas possibilidades – ser ou não ser –, que, baseadas no princípio da identidade e da não contradição, omitiam a terceira opção, aquela intermediária, de “nem ser, nem não ser”, a que o filósofo chamou de terceiro excluído. A lei aristotélica da não contradição traz em si a impossibilidade de uma proposição verdadeira ser falsa ou de uma proposição falsa ser verdadeira e, dessa forma, nenhuma proposição poderia estar nessas duas categorias ao mesmo tempo. Assim, o que era “um e outro” ou “nem um, nem o outro” ficava fora do sistema lógico racional bipolar criado para o desenvolvimento do conhecimento científico.

O que ocorre é que estudar o Ma exige, justamente, conhecer o tal espaço do terceiro excluído, do contraditório e simultâneo, habitado pelo que é “simultaneamente um e outro” ou “nem um, nem outro”. Esse caráter da possibilidade, potencialidade e ambivalência presente no Ma cria uma estética peculiar que implica a valorização, por exemplo, do espaço branco não desenhado no papel, do tempo de não ação de uma dança, do silêncio do tempo musical, bem como dos espaços que se situam na intermediação do interno e externo, do público e do privado, do divino e do profano ou dos tempos que habitam o passado e o presente, a vida e a morte. É nesse universo que este artigo nos convida a penetrar.

O Ma origina-se da ideia de um espaço vazio demarcado por quatro pilastras no qual poderia haver a descida e a consequente aparição do divino. O espaço seria, assim, o da disponibilidade de acontecer e, como toda possibilidade, o fato poderia concretizar-se ou não.

Para se apreender tal concepção, além de abdicar da lógica dual, é necessário também ter em mente que a possibilidade de “tudo poder ser” pertence ao campo da continuidade, ao passo que a entrada no reino da existência provoca um deslocamento para a esfera da contiguidade, regida pela sequencialidade. Assim, o aparecimento no mundo como fenômeno cria a descontinuidade dentro de uma múltipla possibilidade de ser, tornando singularidade aquilo que é manifestado e, logo, permitindo a experiência do seu conhecimento.

Ao tomar forma no mundo “no seu recorte fenomênico, a representação supõe estabilizá-lo para que seja possível um conhecimento, ainda que aquelas representações sejam frágeis e parciais” (Ferrara, 2007, p. 12). É por meio dessas manifestações fenomênicas que tendem à estabilidade que conseguimos reconhecer o Ma no mundo da existência.

O Ma, enquanto possibilidade, associa-se ao “vazio”, que, distinto de uma concepção ocidental cujo significado é o nada, é visto como algo do nível da potencialidade, que tudo pode conter, e, portanto, da possibilidade de geração do novo. É, por conseguinte, o vazio da disponibilidade de nascimento de algo novo e não da ausência e da morte. (Michiko Okano)
"Um grande filósofo [Nietzsche] escreveu: 'Em tempos de paz, o homem belicoso ataca a si mesmo.' Esta é a fonte de nossos problemas. E, por 'esta', quero dizer, 'nós'. Somos a fonte de nossos problemas... Nossa confusão, nossa raiva, nosso medo daquilo que não compreendemos. Violência, em outras palavras, é ignorância." (Oliver, na série Legion)
<< A intuição é transmitida de pai para filho da forma mais simples. “Você tem um bom raciocínio. O que você acha que está por trás disso tudo?” Em vez de definir a intuição como alguma peculiaridade irracional e censurável, ela é definida como a fala da verdadeira voz da alma. A intuição prevê a direção mais benéfica a seguir. Ela se autopreserva, capta os motivos intenções subjacentes e opta pelo que irá provocar o mínimo de fragmentação na psique.

O que essa intuição selvagem faz pelas mulheres? Como o lobo, a intuição tem garras que abrem as coisas e as sujeitam; ela tem olhos que enxergam através dos escudos da persona; ela tem ouvidos que ouvem sons fora da capacidade de audição do ser humano. Com essas espantosas ferramentas psíquicas, a mulher assume uma consciência animal astuta e até mesmo premonitória, que aprofunda sua feminilidade e aguça sua capacidade de se movimentar com confiança no mundo exterior.
Como alimentar a intuição para que ela seja bem-nutrida e responda aos nossos pedidos de que esquadrinhe as cercanias? Nós a alimentamos de vida — ela se alimenta de vida quando nós prestamos atenção a ela. De que vale uma voz sem um ouvido que a receba? De que vale uma mulher na selva da megalópole ou no cotidiano da vida a não ser que ela possa ouvir a voz de La Que Sabe, Aquela Que Sabe, e nela confiar?

Já ouvi mulheres que disseram estas palavras, se não centenas, então milhares de vezes: “Eu sabia que devia ter seguido minha intuição. Pressenti que devia ou não devia ter feito isso ou aquilo, mas não lhe dei ouvidos.” Nutrimos o profundo self intuitivo ao prestar atenção a ele e ao agir de acordo com sua orientação. Ele é um personagem autônomo, um ser mágico, mais ou menos do tamanho de uma boneca que habita a terra psíquica da mulher interior. Nesse sentido, ele é como os músculos no corpo. Se um músculo não for usado, ele acaba definhando. A intuição é exatamente igual: sem alimento, sem atividade, ela se atrofia.

O rompimento do vínculo entre a mulher e sua intuição selvagem é muitas vezes encarado erroneamente como se a própria intuição é que estivesse destruída. Não é o que ocorre. Não foi a intuição que se partiu, mas, sim, a bênção matrilinear da intuição, a transmissão da confiança intuitiva de todas as mulheres de uma linhagem, que já se foram, para aquela mulher específica — é esse longo rio de antepassadas que foi represado. A compreensão da mulher da sua sabedoria intuitiva pode ser fraca em conseqüência do rompimento, mas com exercício elapoderá se restaurar e se manifestar em sua plenitude. (...) Essa função intuitiva pertence a todas as mulheres. É uma receptividade maciça e fundamental. Não uma receptividade do tipo alardeado no passado pela psicologia tradicional, que é como um recipiente passivo; mas, sim, uma receptividade como a da posse de acesso imediato a uma sabedoria profunda que atinge as mulheres até os próprios ossos. >>

(ESTES, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos.)

Está circulando um exercício de dizer o seu filme preferido de cada ano que você viveu, até hoje.

1977 Eraserhead
1978 I spit on your grave
1979 Сталкер
1980 The Empire strikes back
1981 Possession
1982 Poltergeist
1983 Pauline a la plage
1984 A nightmare on Elm Street
1985 Vagabond
1986 Offret
1987 A nightmare on Elm Street III
1988 Dead ringers
1989 Batman
1990 Dreams
1991 La double vie de Veronique
1992 Bitter moon
1993 La ardilla roja
1994 Natural born killers
1995 Before sunrise
1996 Conte d'été
1997 Lost highway
1998 Festten
1999 Rosetta
2000 Maelström
2001 Lucía y el sexo
2002 Punch-drunk love
2003 All the real girls
2004 Eternal sunshine of a spotless mind
2005 Caché
2006 The fountain
2007 Stellet licht
2008 Caos calmo
2009 Antichrist
2010 Le quattro volte
2011 Hors Satan
2012 Post tenebras lux
2013 Elena
2014 Force majeure
2015 Rak ti khon kaen
2016 Paterson


78, 80, 84, 87, 89, 92, 94 e 96 eu tive que espremer pra encontrar algum...

A partir de 1997, tive que espremer pra escolher apenas um.
(Como não entender nada pode ser mais melhor do que entender tudo?)

René Magritte - Key to the fields


<< Magritte tomou o que poderia ser chamado de "defesa Roland Barthes". Barthes foi um crítico e filósofo francês que escreveu um ensaio muito famoso que é leitura obrigatória em classes de arte e literatura em todo o mundo, chamado "A Morte do Autor." Em suma, o argumento de Barthes é que, a partir de quando uma obra de arte deixa as mãos do artista e é apresentada a uma audiência, o autor perde qualquer poder possível sobre a interpretação da obra. A interpretação é exclusivamente da audiência e, de fato, cada espectador ou leitor da obra tem direito à sua própria opinião, imaculada pela orientação do autor. Somente o conteúdo do trabalho, sem qualquer material ou comentário complementar, pode dizer ao público como interpretá-lo.

Dizer que Magritte empregou a "defesa Roland Barthes" é dizer que ele se recusou a interpretar qualquer uma de suas obras. Ele criou as pinturas, deu-lhes um nome, e entregou-as ao público.
Magritte gostava de quebra-cabeças visuais que, somados a títulos evocativos, atraíam seus espectadores para um mistério vibrante, imploravam para resolvê-lo e deixavam-no sem solução. Para muitos, este é um esforço frustrante. Imagine um mistério de Agatha Christie com o último capítulo deixado de fora do livro... Magritte diria que precisamos de mais mistério em nossas vidas, para nos sacudir do nosso torpor. Apresentar um mistério e, em seguida, resolvê-lo, apenas temporariamente agita o espectador. Mas deixar o espectador querendo resolver o enigma, quando o próprio autor não concebeu a solução, preserva o desejo humano natural de solução, mas o impede de estar sempre satisfeito.

Para os historiadores da arte, que são treinados para ligar alegorias e enigmas artísticos com cenas bíblicas específicas, mitos gregos ou esquemas iconográficos complexos, Magritte pode ser tão frustrante quanto maravilhoso. Os críticos tentam "interpretar" mistérios - a pior coisa para um crítico é admitir que não entendem, que não têm as palavras, que o artista "ganhou" esse cabo de guerra. Magritte, no Céu, está sorrindo - como estamos na Terra, que têm o privilégio de se engajar nos mistérios que suas pinturas fornecem. >>
Vladimir Safatle - O fim do emprego

Nunca na história da República o Congresso Nacional votou uma lei tão contrária aos interesses da maioria do povo brasileiro de forma tão sorrateira. A terceirização irrestrita aprovada nesta semana cria uma situação geral de achatamento dos salários e intensificação dos regimes de trabalho, isto em um horizonte no qual, apenas neste ano, 3,6 milhões de pessoas voltarão à pobreza.

Estudos sobre o mercado de trabalho demonstram como trabalhadores terceirizados ganham, em média, 24% menos do que trabalhadores formais, mesmo trabalhando, em média, três horas a mais do que os últimos. Este é o mundo que os políticos brasileiros desejam a seus eleitores.

Nenhum deputado, ao fazer campanha pela sua própria eleição em 2014, defendeu reforma parecida. Ninguém prometeu a seus eleitores que os levariam ao paraíso da flexibilização absoluta, onde as empresas poderão usar trabalhadores de forma sazonal, sem nenhuma obrigatoriedade de contratação por até 180 dias. Ou seja, esta lei é um puro e simples estelionato eleitoral feito só em condições de sociedade autoritária como a brasileira atual.

Da lei aprovada nesta semana desaparece até mesmo a obrigação da empresa contratante de trabalho terceirizado fiscalizar se a contratada está cumprindo obrigações trabalhistas e previdenciárias. Em um país no qual explodem casos de trabalho escravo, este é um convite aberto à intensificação da espoliação e à insegurança econômica.

Ao menos, ninguém pode dizer que não entendeu a lógica da ação. Em uma situação na qual a economia brasileira está em queda livre, retirar direitos trabalhistas e diminuir os salários é usar a crise como chantagem para fortalecer o patronato e seu processo de acumulação. Isto não tem nada a ver com ações que visem o crescimento da economia. Como é possível uma economia crescer se a população está a empobrecer e a limitar seu consumo?

Na verdade, a função desta lei é acabar com a sociedade do emprego. Um fim do emprego feito não por meio do fortalecimento de laços associativos de trabalhadores detentores de sua própria produção, objetivo maior dos que procuram uma sociedade emancipada. Um fim do emprego por meio da precarização absoluta dos trabalhos em um ambiente no qual não há mais garantias estatais de defesa mínima das condições de vida. O Brasil será um país no qual ninguém conseguirá se aposentar integralmente, ninguém será contratado, ninguém irá tirar férias. O engraçado é lembrar que a isto alguns chamam "modernização".

De fato, há sempre aqueles dispostos à velha identificação com o agressor. Sempre há uma claque a aplaudir as decisões mais absurdas, ainda mais quando falamos de uma parcela da classe média que agora flerta abertamente com o fascismo. Eles dirão que a flexibilização irrestrita aumentará a competitividade, que as pessoas precisarão ser realmente boas no que fazem, que os inovadores e competentes terão seu lugar ao sol. Em suma, que tudo ficará lindo se deixarmos livre a divina mão invisível do mercado.

O detalhe é que, no mundo dessas sumidades, não existe monopólio, não existe cartel, não existem empresas que constroem monopólios para depois te fazer consumir carne adulterada e cerveja de milho, não existe concentração de renda, rentismo, pessoas que nunca precisarão de fato trabalhar por saberem que receberão herança e patrimônio, aumento da desigualdade. Ou seja, o mundo destas pessoas é uma peça de ficção sem nenhuma relação com a realidade.

Mas nada seria possível se setores da imprensa não tivesse, de vez, abandonado toda ideia elementar de jornalismo.

Por exemplo, na semana passada o Brasil foi sacudido por enormes manifestações contra a reforma da previdência. Em qualquer país do mundo, não haveria veículo de mídia, por mais conservador que fosse, a não dar destaque a centenas de milhares de pessoas nas ruas contra o governo. A não ser no Brasil, onde não foram poucos os jornais e televisões que simplesmente agiram como se nada, absolutamente nada, houvesse acontecido. No que eles repetem uma prática de que se serviram nos idos de 1984, quando escondiam as mobilizações populares por Diretas Já!. O que é uma forma muito clara de demonstrar claramente de que lado sempre estiveram. Certamente, não estão do lado do jornalismo.

(FSP, 24.03.2017)
Jornalista - Para você, o que é se vestir bem?

Jum Nakao - O equilíbrio entre o seu mundo e o mundo ao seu redor. Se vestir de ideais, gestos, ética, pensamentos e por fim a roupa.
Se o que estão fazendo com as leis trabalhistas é modernização, os dinossauros se modernizaram no final do período Cretáceo.
Olha que curioso ler este prefácio de 'Bioética - ponte para o futuro' pensando no Temer:

"Entre os mais citados na literatura sobre bioética, o presente texto tem um valor histórico: introduz o neologismo bioética, destinado a estruturar um grande território interdisciplinar. Na ideia original de Potter, a bioética é uma busca contínua por sabedoria, que vê unidos os esforços do cientista e do eticista, é uma ponte para chegar a um futuro ameaçado pelo progresso científico e tecnológico: uma ponte de dois arcos, biologia e ética. Considerada no passado uma parte das disciplinas clássicas, hoje a ética não pode mais estar separada de uma compreensão realista da ecologia: os valores éticos devem estar relacionados com os fatos biológicos, a sobrevivência do ecossistema total torna-se a prova dos exames de valor. Fruto de mais de trinta anos de pesquisa sobre o câncer, o livro de Potter nasce da necessidade de olhar, para além das paredes do laboratório, todas as causas que põem em risco a sobrevivência da espécie humana. Centrada em tal sobrevivência, a bioética de Potter assume as características de um antropocentrismo esclarecido e que vai na direção de uma "bioética global", que protege todo o ecossistema. Daí que os principais temas que compõem o enredo do livro são: a relação entre ordem e desordem, o conceito de conhecimento perigoso, o progresso humano, a sobrevivência da espécie humana, a obrigação para o futuro e a necessidade do esforço interdisciplinar. Esses temas se unem em um plano coerente, marcado pelo tema da responsabilidade, da necessidade de equilibrar o uso do conhecimento com a consciência da ignorância dos efeitos de longo prazo: uma ética da vida, da qual Potter advertia a urgência nos anos de 1970 e cuja necessidade é advertida hoje de modo ainda mais urgente."
Sobre 'Split', do Shyamalan, o Pablo Villaça escreveu o que eu queria dizer:

"O suspense, como conceito formal, nada mais é do que uma expectativa que demora a se cumprir: ciente de que algo provavelmente irá ocorrer, o espectador antecipa algo enquanto o ato narrativo o adia. (...) Com o passar dos anos – e de seus filmes -, Shyamalan transformou o próprio ato de adiar em centro de sua estratégia como contador de histórias, parecendo se esquecer da outra parte importante: a de que o público só sente o suspense se houver algo a aguardar. Com isso, o que era para ser suspense virou mera interrupção, um arrastar de incidentes que soa como um floreio estilístico divorciado de significado ou propósito. E o fato de se tornar um roteirista cada vez mais pavoroso só aumenta o desastre.

"(...) (E a partir de agora vou comentar algumas passagens específicas; portanto, sugiro retomar a leitura apenas depois de assistir ao filme.) (...) Talvez a maior ofensa de Fragmentado seja o cinismo de Shyamalan ao empregar a pedofilia como uma mera reviravolta ao incluir diversos flashbacks ao longo da projeção cuja única função é preparar o terreno para a revelação de que Casey, quando criança, foi molestada pelo tio. E por que isso é importante? Porque as marcas deixadas em seu corpo, quando finalmente expostas depois que sua última blusa é retirada (sim, ela vai removendo a roupa durante a narrativa), levam o vilão a considerá-la como uma “igual”, salvando-a. Ora, devemos supor, então, que o fato de ter sofrido abuso foi algo bom? Ou que isto a torna tão “danificada” quanto o personagem de McAvoy? Qualquer uma das duas opções é ofensiva – e não há como descartá-las no contexto criado pelo roteiro."

*

"Desde O Sexto Sentido, de 1999, o roteirista/diretor/produtor M. Night Shyamalan provou ter sempre ótimo instinto para o ritmo em que se constrói a tensão e para aquilo que sua câmera deve mostrar, e como – quais elementos de uma cena devem entrar no campo de visão do/a protagonista (e no do espectador), e que caminho o olhar deve percorrer para criar o máximo de dúvida e, portanto, de suspense. Esse é um dom que dificilmente se ensina, e que dificilmente se perde também: nesse aspecto, Fragmentado é Shyamalan no seu mais ágil.

"É pena que o desfecho caia no ridículo, porque no geral o filme genuinamente entretém, porque James McAvoy está muito bem em quase todos os seus papeis (na verdade, só quatro das “personalidades” têm participação marcante no enredo) e porque Anya Taylor-Joy confirma a impressão que deixou em A Bruxa, de que é mesmo um achado – uma combinação rara de inocência e estranheza, com aquela vibração de pessoa que atrai coisas esquisitas." (Isabela Boscov)
Desapontamento quando os gênios se acomodam.

"O tipo de abordagem narrativa dos irmãos Dardenne exige performances minimalistas por parte do elenco, já que, dentro da lógica visual dos cineastas, gestos pequenos já são capazes de provocar impacto – algo que Adèle Haenel compreende bem, evocando muito mais através de seus olhares do que de expressões faciais e corporais que chamem a atenção para si mesmas (e, desta maneira, a atriz entra no rol de grandes interpretações arrancadas pelos belgas e que incluem Marion Cotillard, Cécile De France, Arta Dobroshi - o que houve com ela, aliás? -, Déborah François e Émilie Dequenne, além, claro, de Olivier Gourmet e Jérémie Renier, regulares nas produções dos irmãos).

"E, mesmo com todas estas virtudes habituais, 'La fille inconnue' falha em repetir o impacto de vários dos longas anteriores dos Dardenne, já que parece retraçar caminhos já percorridos por estes. Sim, provavelmente é injusto compará-los a si mesmos, mas quando artistas expressivos como estes avançam na carreira, é normal que esperemos que continuem a se desafiar – e, aqui, eles parecem ter se acomodado um pouco demais." (Pablo Villaça)
The Wire #209, july 2001
Walking On Thin Ice
Radiohead may be one of the biggest groups on the planet, but their dissenting voice and exploratory studio techniques conflict with the commercial pressure to maintain their status. Simon Reynolds speaks to Thom Yorke and Jonny Greenwood about treading the fine line between selling out stadiums and their role as mainstream ambassadors for musical innovation.
by Simon Reynolds 
"Você sabe a história sobre Overload? Os Talking Heads tinham lido sobre o Joy Division pela primeira vez na NME, e pensaram 'isso parece interessante', então decidiram fazer uma música baseada no que eles achavam que seria o Joy Division... sem nunca ter escutado a banda." (Simon Reynolds)

Coisas que estou perdendo graças à meditação.
Rodrigo Fonseca, fundador da Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional (SBie), afirma que a insegurança emocional começa desde a concepção, quando a pessoa ainda está na barriga da mãe. “Um dos mais fortes sentimentos do ser humano é o medo da rejeição. A possibilidade de não atender ou superar a expectativa das pessoas dispara o nosso maior medo: o de ser rejeitado ou criticado. Esse processo tem origem na gestação: é cientificamente comprovado que os sentimentos, pensamentos e emoções dos pais são transferidos para o bebê durante a gestação e, assim, muitos medos manifestados na fase adulta podem ter sido gerados ainda no útero materno”.
"Felizmente, no entanto, a área da vida que apresenta o maior perigo e insegurança é a área na qual, através do treinamento, podemos realizar as maiores mudanças e exercer o maior controle. Embora o envelhecimento, enfermidade e morte sigam o nascimento de modo inevitável, a delusão não. Esta pode ser prevenida. Se, através do pensamento e meditação, nos tornarmos atentos aos perigos que a delusão apresenta, poderemos nos sentir motivados a superá-la. No entanto, os insights provenientes do simples raciocínio e meditação não são suficientes para compreender completamente e derrotar a delusão. É igual a qualquer outra revolução: não importa o quanto você pense sobre o assunto, você não conhecerá realmente os estratagemas e as forças dos poderes entrincheirados até que reúna as suas próprias tropas e guerreie contra eles. E só quando as suas próprias tropas desenvolverem os seus próprios estratagemas e forças é que elas poderão sair vencedoras. Assim também é com a delusão: só quando você desenvolve forças mentais é que pode ver através das delusões que dão ao medo a sua força. Além disso, essas forças poderão colocá-lo numa posição onde você nunca mais estará exposto a perigos." (Ajaan Thanissaro)
"A verdadeira segurança só chega a partir do conforto em meio à insegurança. Se estamos confortáveis com o fluxo das coisas, se estamos confortáveis estando inseguros, então essa é a maior segurança, porque nada pode derrubar nosso equilíbrio. Enquanto tentarmos solidificar, interromper o fluxo da água, criar uma barragem e manter as coisas do jeito que elas estão apenas porque isso nos faz sentir seguros e protegidos, então estaremos em apuros. Essa atitude vai exatamente contra todo o fluxo da vida." (Tenzin Palmo)
"As pessoas mais inseguras vivem dominadas pelo medo e, em função disso, é-lhes normalmente mais difícil assumirem uma postura assertiva, isto é, têm seríssimas dificuldades em expressar de forma clara e honesta aquilo que pensam e aquilo que sentem. No seio de um grupo tanto podem esforçar-se por passar despercebidas como podem fazer esforços para agradar a toda a gente. Na prática sentem um medo intenso de falhar, de não corresponder às expetativas, de não estar à altura. Há pessoas muito seguras em termos profissionais e que se revelam mais inseguras em termos relacionais/ afetivos. Do mesmo modo, há pessoas que se sentem seguras e confortáveis no desempenho dos papéis ligados às relações afetivas mas que revelam inseguranças sérias noutras áreas da vida. Pode não ser fácil reconhecer as pessoas mais inseguras, sobretudo se a análise for superficial. De resto, as pessoas tímidas e inseguras são muitas vezes vistas como antipáticas e arrogantes – esse é o preço a pagar por não serem capazes de ultrapassar o medo da rejeição, por exemplo. Às vezes é mais fácil para uma pessoa insegura reconhecer outra que partilhe das mesmas inseguranças, na medida em que está mais sensibilizada e mais atenta a determinados pormenores que passarão ao lado da maioria." (Cláudia Morais - apsicologa.com)
"A confiança (ou segurança) emocional é o potencial que uma pessoa tem de controlar por completo o próprio estado emocional, ou, em suma, uma pessoa que é psicologicamente resiliente. De acordo com muitos psicólogos, a segurança é um estado de espírito em que se está disposto a aceitar as consequências de determinado comportamento vindo de terceiros; todos os aspectos de comportamento em todas as áreas de sua vida, assim, podem ser interpretadas como confiança emocional." (Thaiana Brotto, psicóloga)
"O adulto tende a entender que, para adaptação social dele, é preciso estar de acordo com as regras do grupo. E isso é verdade. As crianças não são ensinadas a outra coisa a não ser aprenderem a se adequar aos grupos. Elas vão a escolas. Elas fazem aquilo que devem fazer para que, inseridas no grupo, possam cuidar de sua sobrevivência. Eu nunca ouvi falar numa escola que ensina a pensar. Tem escola que faz essa propaganda. Mas eu nunca vi ensinarem. Até porque eu acho que eles não teriam condições de fazer isso. Os repressores estranham que alguém comece a pensar com autonomia e questionar as bases que determinam o que para o adulto adaptado socialmente substitui o contato com a realidade. A adaptação social não passível de questionamento é o que é entendido pelo adulto como realidade. O repressor está garantido no grupo. Ele está do lado de uma massa muda que concorda com ele. O humor é tolerado, e até bem aceito, mas, a partir de um ponto, ele pode pegar um fio desencapado." (Jacques Stifelman)
BILL MOYERS: A oração ao Senhor começa: “Pai Nosso que estás no Céu...” Não podia ter sido “Mãe Nossa”?

JOSEPH CAMPBELL: Essa é uma imagem simbólica. Todas as imagens religiosas e mitológicas se referem a planos de consciência, ou campos de experiência, que existem potencialmente no espírito humano. Essas imagens evocam atitudes e experiências propícias à meditação sobre o mistério da fonte do seu próprio ser. Houve sistemas religiosos em que a mãe era o principal progenitor, a fonte. A mãe, na verdade, é um progenitor mais próximo que o pai, porque o bebê nasce da mãe e o primeiro contato que experimenta é com a mãe. Tenho pensado, muitas vezes, que a mitologia é uma sublimação da imagem da mãe. Estamos falando da Mãe Terra. No Egito você tem a Mãe Céu, a deusa Nut, representada como sendo toda a esfera celeste.

MOYERS: Mas o que aconteceu, no meio do percurso, a essa reverência que, nas sociedades primitivas, era dirigida à figura da Deusa, a Grande Deusa, a Mãe Terra?

CAMPBELL: Bem, isso estava associado, primordialmente, à agricultura e às sociedades agrárias. Tinha a ver com a terra. A mulher dá à luz, assim como da terra se originam as plantas. A mãe alimenta, como o fazem as plantas. Assim, a magia da mãe e a magia da terra são a mesma coisa. Relacionam se. A personificação da energia que dá origem às formas e as alimenta é essencialmente feminina. A Deusa é a figura mítica dominante no mundo agrário da antiga Mesopotâmia, do Egito e dos primitivos sistemas de cultura do plantio. Encontramos centenas de variações da Deusa na primitiva Europa neolítica, mas praticamente nada ligado à figura masculina. O touro e certos animais, como o javali e o bode, podem aparecer como simbólicos do poder masculino, mas a Deusa é a única divindade visualizada, nessa altura. E quando você tem uma Deusa como criador, o próprio corpo dela é o universo. Ela se identifica com o universo. É esse o sentido daquela figura da deusa Nut, que você viu no templo egípcio. Ela é toda a esfera dos céus que abarcam a vida.
Quando você depara com uma perspectiva filosófica, como nas religiões consagradas à Deusa, na índia – onde a simbologia da Deusa é dominante ainda hoje, o feminino representa a maya. O feminino representa o que, em termos kantianos, chamamos de formas da sensibilidade. Ela é espaço e tempo, e o mistério para além dela é o mistério para além de todos os pares de opostos. Assim, não é masculina nem feminina. Nem é, nem deixa de ser. Mas tudo está dentro dela, de modo que os deuses são seus filhos. Tudo quanto você vê, tudo aquilo em que possa pensar, é produto da Deusa.

MOYERS: O que teria significado para nós se, em algum ponto do percurso, tivéssemos começado a rezar “Mãe Nossa” em vez de “Pai Nosso”? Que diferença psicológica isso teria ocasionado?

CAMPBELL: Isso certamente ocasionou uma diferença psicológica no caráter da nossa cultura. Por exemplo, a floração básica da civilização ocidental ocorreu nos grandes vales dos rios – o Nilo, o Tigre Eufrates, o Indo, e mais tarde, o Ganges. Esse era o mundo da Deusa. O nome do rio Ganges (Ganga), por exemplo, é o nome de uma deusa. E então vieram as invasões. Pois bem, as invasões começaram, para Naler, no quarto milênio antes de Cristo e foram se tornando cada vez mais devastadoras. Vieram do norte e do sul e destruíram cidades, da noite para o dia. Leia no Gênesis a história do papel desempenhado pela tribo de Jacó na queda da cidade de Siquém. Do dia para a noite, a cidade foi varrida do mapa por esses povos pastores, que surgiram repentinamente. Os invasores semitas eram pastores de cabras e ovelhas, os indo europeus eram pastores de gado. Uns e outros, primitivamente, eram caçadores, de modo que as suas culturas eram essencialmente orientadas para os animais. Onde há caçadores, há assassinos. E onde há pastores também há assassinos, porque estão sempre em movimento, são nômades entrando em conflito com outros povos e conquistando as áreas para onde se movem. E essas invasões traziam deuses guerreiros, lançadores de raios, como Zeus ou Jeová.

MOYERS: Algumas mulheres, hoje, dizem que o espírito da Deusa foi mantido em exílio por cinco mil anos, desde que...

CAMPBELL: Não se deve recuar tanto assim, cinco mil anos. A Deusa foi uma figura poderosa na cultura helenística do Mediterrâneo, e retornou com a figura da Virgem, na tradição católica romana. Nenhuma tradição da Deusa é celebrada mais esplêndida e maravilhosamente do que nos séculos XII e XIII, nas catedrais frances as, todas as quais se chamam Notre Dame.

(O poder do mito.)