Texto do Antônio Prata - me representa:
"Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado", ele disse, me olhando pelo retrovisor. Fiquei sem reação: tinha pegado o táxi na Nove de Julho, o trânsito estava ruim, levamos meia hora para percorrer a Faria Lima e chegar à rua dos Pinheiros, tudo no mais asséptico silêncio, aí, então, ele me encara pelo espelhinho e, como se fosse a continuação de uma longa conversa, solta essa: "Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado".
Meu espanto, contudo, não durou muito, pois ele logo emendou: "Nunca vou esquecer: 1º de junho de 1988. A gente se conheceu num barzinho, lá em Santos, e dali pra frente nunca ficou um dia sem se falar! Até que cinco anos atrás... Fazer o que, né? Se Deus quis assim...".
Houve um breve silêncio, enquanto ultrapassávamos um caminhão de lixo e consegui encaixar um "Sinto muito". "Obrigado. No começo foi complicado, agora tô me acostumando. Mas sabe que que é mais difícil? Não ter foto dela." "Cê não tem nenhuma?" "Não, tenho foto, sim, eu até fiz um álbum, mas não tem foto dela fazendo as coisas dela, entendeu? Que nem: tem ela no casamento da nossa mais velha, toda arrumada. Mas ela não era daquele jeito, com penteado, com vestido. Sabe o jeito que eu mais lembro dela? De avental. Só que toda vez que tinha almoço lá em casa, festa e alguém aparecia com uma câmera na cozinha, ela tirava correndo o avental, ia arrumar o cabelo, até ficar de um jeito que não era ela.
Tenho pensado muito nisso aí, das fotos, falo com os passageiros e tal e descobri que é assim, é do ser humano, mesmo. A pessoa, olha só, a pessoa trabalha todo dia numa firma, vamos dizer, todo dia ela vai lá e nunca tira uma foto da portaria, do bebedor, do banheiro, desses lugares que ela fica o tempo inteiro. Aí, num fim de semana ela vai pra uma praia qualquer, leva a câmera, o celular e tchuf, tchuf, tchuf. Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são, não? Tá acompanhando? Não tenho uma foto da minha esposa no sofá, assistindo novela, mas tem uma dela no jet ski do meu cunhado, lá na Guarapiranga. Entro aqui na Joaquim?" "Isso."
"Ano passado me deu uma agonia, uma saudade, peguei o álbum, só tinha aqueles retratos de casório, de viagem, do jet ski, sabe o que eu fiz? Fui pra Santos. Sei lá, quis voltar naquele bar." "E aí?!" "Aí que o bar tinha fechado em 94, mas o proprietário, um senhor de idade, ainda morava no imóvel. Eu expliquei a minha história, ele falou: 'Entra'. Foi lá num armário, trouxe uma caixa de sapatos e disse: 'É tudo foto do bar, pode escolher uma, leva de recordação'."
Paramos num farol. Ele tirou a carteira do bolso, pegou a foto e me deu: umas 50 pessoas pelas mesas, mais umas tantas no balcão. "Olha a data aí no cantinho, embaixo." "Primeiro de junho de 1988?" "Pois é. Quando eu peguei essa foto e vi a data, nem acreditei, corri o olho pelas mesas, vendo se achava nós aí no meio, mas não. Todo dia eu olho essa foto e fico danado, pensando: será que a gente ainda vai chegar ou será que a gente já foi embora? Vou morrer com essa dúvida. De qualquer forma, taí o testemunho: foi nesse lugar, nesse dia, tá fazendo 25 anos, hoje. Ali do lado da banca, tá bom pra você?"
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terça-feira, 12 de setembro de 2017
<< Todas as pessoas buscam aceitação e aprovação. Durante a infância desejamos a aprovação dos pais e, a partir daí, crescemos projetando essa necessidade de ser aprovado por outras pessoas — o parceiro, o chefe ou os amigos. Muitas pessoas, porém, são muito inseguras e não se sentem capazes de realizar nada, passando a se sentir rejeitadas e desvalorizadas.
É especialmente nesses casos que as pessoas recorrem à chantagem: por conta da insegurança emocional, não se sentem capazes de alcançar seus objetivos e passam a manipular as outras pessoas para que elas satisfaçam seus desejos. Na maioria das vezes, este processo é tão sutil que as pessoas sequer percebem que estão sendo manipuladas. A chantagem emocional nada mais é, portanto, do que pura manipulação mental.
Características da chantagem emocional
A chantagem emocional é muito comum no ambiente familiar, pois nosso modelo social é baseado em famílias unidas e que se ajudam. Nesse contexto, os inseguros acham que seus familiares têm obrigação de ajudar em suas vidas. Em longo prazo, esse tipo de manipulação pode fazer exatamente o contrário do esperado: gerar conflitos entre familiares e desunir a família.
A pessoa que faz chantagem emocional tem, basicamente, duas condutas: ou ela se faz de vítima e coitada para sensibilizar ou outros, ou tenta mostrar seu poder o tempo todo para conquistar respeito e ter seus desejos atendidos. Os chantagistas normalmente atacam as pessoas mais “boazinhas” e que não sabem dizer não.
Como saber se estou sendo chantageado emocionalmente
– Você se sente ameaçado diante de um pedido de um familiar, e ele insinua que algo ruim pode acontecer caso você não faça o que ele pede;
– A pessoa se coloca como vítima e azarada, usando a dor e a angústia para comover o manipulado;
– A pessoa promete recompensas caso você faça o que ela quer;
– O manipulador vive lembrando dos favores que fez a você, de modo a lhe manter aprisionado e com sentimento de dívida;
– A pessoa reage de forma descontrolada, acusando todos de serem egoístas;
– A pessoa se isola para chamar a atenção, até conseguir o que quer;
– Você se sente culpado quando tenta dizer não ao manipulador;
– A pessoa usa poder (status, dinheiro, hierarquia) como forma de respeito, e você se vê obrigado a fazer o que ela quer;
– A pessoa se recusa a aceitar ajuda em primeiro momento, mas sempre acaba aceitando;
– Você se sente dependente daquela pessoa, pois ela faz com que você acredite que é sua tábua de salvação;
– A pessoa mente e finge com naturalidade e, mesmo que todos saibam que é mentira, ela insiste. >> (SBIE.com.br)
É especialmente nesses casos que as pessoas recorrem à chantagem: por conta da insegurança emocional, não se sentem capazes de alcançar seus objetivos e passam a manipular as outras pessoas para que elas satisfaçam seus desejos. Na maioria das vezes, este processo é tão sutil que as pessoas sequer percebem que estão sendo manipuladas. A chantagem emocional nada mais é, portanto, do que pura manipulação mental.
Características da chantagem emocional
A chantagem emocional é muito comum no ambiente familiar, pois nosso modelo social é baseado em famílias unidas e que se ajudam. Nesse contexto, os inseguros acham que seus familiares têm obrigação de ajudar em suas vidas. Em longo prazo, esse tipo de manipulação pode fazer exatamente o contrário do esperado: gerar conflitos entre familiares e desunir a família.
A pessoa que faz chantagem emocional tem, basicamente, duas condutas: ou ela se faz de vítima e coitada para sensibilizar ou outros, ou tenta mostrar seu poder o tempo todo para conquistar respeito e ter seus desejos atendidos. Os chantagistas normalmente atacam as pessoas mais “boazinhas” e que não sabem dizer não.
Como saber se estou sendo chantageado emocionalmente
– Você se sente ameaçado diante de um pedido de um familiar, e ele insinua que algo ruim pode acontecer caso você não faça o que ele pede;
– A pessoa se coloca como vítima e azarada, usando a dor e a angústia para comover o manipulado;
– A pessoa promete recompensas caso você faça o que ela quer;
– O manipulador vive lembrando dos favores que fez a você, de modo a lhe manter aprisionado e com sentimento de dívida;
– A pessoa reage de forma descontrolada, acusando todos de serem egoístas;
– A pessoa se isola para chamar a atenção, até conseguir o que quer;
– Você se sente culpado quando tenta dizer não ao manipulador;
– A pessoa usa poder (status, dinheiro, hierarquia) como forma de respeito, e você se vê obrigado a fazer o que ela quer;
– A pessoa se recusa a aceitar ajuda em primeiro momento, mas sempre acaba aceitando;
– Você se sente dependente daquela pessoa, pois ela faz com que você acredite que é sua tábua de salvação;
– A pessoa mente e finge com naturalidade e, mesmo que todos saibam que é mentira, ela insiste. >> (SBIE.com.br)
<< Durante todo o fim de semana houve uma intensa batalha para definir os atos desse aluno [que havia assassinado diversas mulheres a tiros numa universidade]. Vozes dominantes insistiam que ele tinha uma doença mental, como se isso o definisse, como se o mundo estivesse dividido em dois países chamados "Normal" e "Louco", que não compartilham uma fronteira ou uma cultura. Entretanto, a doença mental é geralmente uma questão de grau, não de tipo, e muitas pessoas que sofrem com isso são gentis e compassivas. E de muitas maneiras - incluindo a injustiça, a ganância insaciável e a destruição ecológica - a loucura, tal como a mesquinharia, é um fenômeno central à nossa sociedade, não fica simplesmente nas margens. Em um artigo fascinante publicado em 2013, T. M. Luhrmann observou que na Índia, quando os esquizofrênicos ouvem vozes, provavelmente elas lhe dirão para limpar a casa, enquanto para os norte-americanos as vozes em geral ordenarão que cometam alguma violência. A cultura é importante. Ou como disse um amigo meu, investigador de defesa criminal, que conhece intimamente a insanidade e a violência: "Quando se começa a perder o contato com a realidade, o cérebro doente se agarra, de maneira obsessiva e ilusória, naquilo em que está imerso - na doença da cultura ao redor." O assassino de Isla Vista também foi chamado repetidamente de "aberrante", como que para enfatizar que não era, em absoluto, como o restante de nós. Mas outras versões dessa violência estão em toda parte ao nosso redor, e principalmente na pandemia de ódio e violência contra as mulheres. >>
SOLNIT, Rebecca, "Os homens explicam tudo pra mim". São Paulo: Cultrix, 2017. P. 156-157.
SOLNIT, Rebecca, "Os homens explicam tudo pra mim". São Paulo: Cultrix, 2017. P. 156-157.
Minha conterrânea Rita Almeida reflete sobre nossa reação ao tarado do ônibus, mas pode ser lido como sendo sobre qualquer julgamento da internet:
Precisamos falar sobre Diego?
Trabalho como profissional da rede de saúde mental do SUS e sou militante da Reforma psiquiátrica brasileira desde 1995. Já fui coordenadora de CAPS e supervisora institucional em saúde mental indicada pelo Ministério da Saúde. Minha dissertação de mestrado foi algo sobre o lugar e a função da “loucura” nas instituições e na cultura. É péssimo começar um textão tecendo meu currículo, mas, diante do tribunal das redes, penso que, me posicionar a partir de alguma autoridade (no sentido de estar autorizada a) possa evitar alguns aborrecimentos. Sei lá... Só espero não ter sido arrogante.
Existem, basicamente, dois modos de pensar a “loucura” ou mesmo as formas de delinquência. O mais comum é pensarmos em tais “desvios” como um problema meramente individual, ou seja, aquele sujeito é uma espécie de “maçã podre” decorrente da sua condição ou escolha particular, nesse caso, precisa ser eliminado, ser retirado da convivência das demais “maçãs” ou ser transformado numa “maçã saudável”. Esse é um modo simplista de pensar e que gera soluções igualmente simplistas, como, por exemplo, a de que combateremos a criminalidade eliminando (matando, prendendo, exilando) os criminosos ou a de que teremos uma sociedade mais saudável eliminando (matando, prendendo, exilando) os “loucos”.
Um outro ponto de vista – que eu partilho e a partir do qual pensamos quando defendemos a mudança do modelo manicomial para um modelo aberto – entende que um possível “desvio”, apesar de manifestar num indivíduo singular, quase sempre é resultante daquilo que acontece em seu meio social e cultural. Esse modo de pensar não desresponsabiliza o sujeito pelo seu “desvio”, mas convida a sociedade a compartilhar a responsabilidade pelo mesmo, na medida em que todo sujeito – em especial os que estão fora da curva – funcionam como uma espécie de para-raios do modus operandi da sociedade em que vivem. Pensando desse modo é possível analisar uma sociedade ou uma instituição a partir dos seus pontos desviantes, ou seja, muito mais do que singularizar uma doença social, o sujeito desviante denuncia as falhas e os pontos cegos de uma sociedade ou cultura. Inclusive, é importante destacar – porque isso varia muito – o que uma determinada sociedade considera desviante diz muito sobre como ela é.
Mas vamos ao ponto que interessa aqui. Independente do crime, do ato antissocial, imoral, machista ou como queiram chamar, de Diego (conhecido como o tarado que ejaculou numa mulher no ônibus) vou me propor a pensar o Brasil atual a partir dos últimos acontecimentos envolvendo tal sujeito. Como faria no meu trabalho de supervisora/analista, onde tentamos verificar quais os problemas institucionais e relacionais determinado caso denuncia e aponta, vou inverter meu olhar e ao invés de focar em Diego e sua tara, vou me dirigir para o modo como a sociedade lidou com Diego e analisá-la.
Primeiramente (#foratemer) é importante dizer que essa não pretende ser uma análise científica, será apenas uma avaliação superficial feita a partir da minha TL do Facebook e de comentários que li em notícias na internet nos últimos dias.
1. Somos machistas:
Ainda que o ato de Diego não tenha sido motivado por machismo, mas por uma disfunção cerebral pós-cirúrgica (e isso é totalmente possível), seu ato trouxe a tona a fato de inúmeras mulheres serem molestadas e assediadas em transporte público e se sentirem vulneráveis e sem apoio para fazerem denuncia. Além do mal-estar e do constrangimento do abuso, sofrem também por não se sentirem acolhidas e respeitadas pelos instrumentos da justiça. A elas cabe, invariavelmente, a culpa pelo abuso ou violência masculina.
2. Somos pouco republicanos:
É um argumento recorrente quando tratamos de casos que causam comoção, tal como este, trazer a questão para o âmbito da nossa vida privada, como se isso devesse fazer diferença. “E se fosse seu filho?” “E se fosse sua mãe?”, são perguntas frequentes. Nossa confusão histórica entre o público e o privado, nos faz imaginar que um juiz ou um profissional da saúde pública, por exemplo, deverão decidir de modo diferente, caso se trate de alguém do seu círculo privado. Não digo que isso não aconteça por aqui, exatamente pela nossa cultura do “jeitinho”, mas não devíamos contar com isso, e muito menos com tal argumento. É claro que, se fosse membro da minha família, eu estaria emocionalmente afetada o que, provavelmente, me impediria de ter uma intervenção republicana. Talvez, tal fato me levasse a um ato desesperado e intempestivo, mas eu, sinceramente, espero que alguém que esteja com a “cabeça fria”, que tenha conhecimento de causa, que pense nos dois ou mais lados da questão e que leve em conta as leis vigentes (ainda que eu não concorde com elas), possa tomar a melhor decisão possível.
3. Somos violentos:
Ao menor sinal de desagravo nosso potencial violento alcança níveis alarmantes. Lógico que muitos valentões e valentonas de rede social são, na verdade, covardes que usam da mediação digital para dizerem o que não teriam coragem de dizer em outra situação, e muito menos fazer, mas, de todo modo, o que as pessoas dizem que desejariam fazer com um sujeito como Diego é bem pior do que o que ele fez. Acreditamos na intervenção violenta como medida corretiva, mas, sobretudo, como aceitável e justificável em muitos casos.
4. Somos punitivistas:
A maioria de nós ainda defende que as medidas tomadas pela justiça devam ter caráter de punição e não de ressocialização ou reintegração. Em casos como o de Diego, a justiça deve se parecer como algo próximo à vingança. Seguindo a premissa da punição, esperamos que a justiça aja rapidamente e não deixe furos, ou que seja capaz de prever um crime que não aconteceu, baseada num acontecimento anterior. A reintegração e a ressocialização demandam mais cuidado e tempo, a punição é mais rápida e imediata. Optar pela ressocialização, apesar de ser mais saudável para toda a sociedade, pode deixar mais “furos” por exigir uma maior cautela e tempo para agir. Todavia, nesses casos onde a comoção social é grande exigimos uma punição rápida e eficaz, que não deixe furos.
5. Somos manicomiais:
A reforma psiquiátrica brasileira levou anos de muito debate e luta para se estabelecer e evitar algumas das atrocidades que vitimavam os doentes mentais, em nome do bem estar da sociedade. Ainda temos muito o que avançar, mas hoje (pelo menos até esse golpista assaltar o poder), o Brasil possui uma política de saúde mental avançada em termos de humanização e garantia de cidadania. O encarceramento do doente mental ainda é uma prática comum mundo afora. O manicômio é uma instituição que vive seus últimos suspiros por aqui, no entanto, ao menor sinal de comoção coletiva diante de atos de loucura, clamamos por ele. Apesar de todos os avanços das últimas décadas, o isolamento e o encarceramento do louco ainda são vistos como saída, não para cuidar do doente, mas para proteger a sociedade do mesmo.
6. Somos moralistas:
Eu decidi não escrever tudo que queria nesse item pra não correr o risco de fazer perder meu texto inteiro, posto que, o tema do sexo é o mais difícil para a maioria das pessoas (aliás, me espantou muito o quanto ainda é). Mas, pelos comentários que vi por aí a sexualidade e o desejo sexual, incluindo os desviantes da norma, são território eminentemente masculino. A moral sexual ainda reprime e sufoca a sexualidade da mulher, mesmo entre as feministas mais empoderadas. A sexualidade feminina ainda é recoberta de mitos. Resumindo um pouco: mulheres não tem desejo sexual, caso tenham, conseguem mantê-lo sempre sob controle e não são afeitas a taras e compulsões.
7. Somos religiosos:
Para quase todos os problemas que surgem, a resposta, “tá faltando Deus no coração” parece caber e com relação a Diego, não é diferente. O demônio também é constantemente convocado a ser o elemento explicativo para tal tipo de caso. Como não suportamos ver essa humanidade insana, indomável, trágica e errática que habita em todos nós e que pode vir a tona, tal como veio em Diego, preferimos delega-la ao outro estranho; ao diabo. Mas, curiosamente, mesmo os não religiosos, nutrem um modo de pensar mágico. Ainda que o cerne não seja Deus ou o Diabo, acreditam que haja um único responsável pela situação e, portanto, uma única solução que vai resolver todo o problema. Acreditam num ideal qualquer que nos salvará para sempre de todo e qualquer mal-estar e nos trará o paraíso na Terra; sem Diegos, sem juízes que liberam Diego, sem mães que não conseguem fazer Diego seguir tratamento, sem acidentes automobilísticos que desencadeiem uma doença orgânica em Diego. E por aí vai...
O título do meu texto é uma pergunta – Precisamos falar sobre Diego? – e não por acaso. Toda vez que um caso desses vem à tona devíamos pensar sob que prisma devemos falar ou opinar publicamente. Este caso foi um exemplo maravilhoso para entendermos que não devemos falar sobre Diego: não conhecemos o sujeito, sua situação ou sua condição, não sabemos exatamente o que houve, desconhecemos o processo que ele responde e suas particularidades, portanto, qualquer julgamento feito a Diego ou ao seu processo legal é irresponsável e infrutífero, podendo até mesmo gerar danos maiores. No entanto, podemos sim, falar a partir de Diego, assim como eu fiz aqui. Desse modo, entendemos que Diego é apenas um catalizador das nossas chagas sociais e que eliminá-lo não irá curá-las. Podemos, então, pensar nossas mazelas a partir de Diego, assim seremos capazes de fazer algo de produtivo e verdadeiramente terapêutico para a sociedade como um todo.
Sei que é bem difícil pensar assim, mas faço um convite a tal exercício: Diego é uma espécie de dejeto, se pensarmos naquilo que almejamos para um ser humano, entretanto, ele fala mais das nossas fraquezas e misérias, do que gostaríamos. Por isso, rejeitamos Diego e queremos evitá-lo ou eliminá-lo de todo modo. Entretanto, uma sociedade minimamente saudável, e é só o que podemos almejar, entende que criar modos de lidar com Diego é fundamental para o bem de toda a coletividade, e não apenas dele. É fácil fazer isso? Não, é bem difícil! Mas quem disse que seria fácil?
Antes que usem o item 2 e me perguntem – Duvido se fosse você a levar uma esporrada de um estranho no coletivo? – vou responder: Acharia péssimo. De um estranho, no coletivo, não curto. Nesse caso, eu possivelmente, estaria impossibilitada de ter qualquer atitude sensata, inclusive de escrever esse textão, mas, certamente, haveria alguém apta a escrevê-lo.
Precisamos falar sobre Diego?
Trabalho como profissional da rede de saúde mental do SUS e sou militante da Reforma psiquiátrica brasileira desde 1995. Já fui coordenadora de CAPS e supervisora institucional em saúde mental indicada pelo Ministério da Saúde. Minha dissertação de mestrado foi algo sobre o lugar e a função da “loucura” nas instituições e na cultura. É péssimo começar um textão tecendo meu currículo, mas, diante do tribunal das redes, penso que, me posicionar a partir de alguma autoridade (no sentido de estar autorizada a) possa evitar alguns aborrecimentos. Sei lá... Só espero não ter sido arrogante.
Existem, basicamente, dois modos de pensar a “loucura” ou mesmo as formas de delinquência. O mais comum é pensarmos em tais “desvios” como um problema meramente individual, ou seja, aquele sujeito é uma espécie de “maçã podre” decorrente da sua condição ou escolha particular, nesse caso, precisa ser eliminado, ser retirado da convivência das demais “maçãs” ou ser transformado numa “maçã saudável”. Esse é um modo simplista de pensar e que gera soluções igualmente simplistas, como, por exemplo, a de que combateremos a criminalidade eliminando (matando, prendendo, exilando) os criminosos ou a de que teremos uma sociedade mais saudável eliminando (matando, prendendo, exilando) os “loucos”.
Um outro ponto de vista – que eu partilho e a partir do qual pensamos quando defendemos a mudança do modelo manicomial para um modelo aberto – entende que um possível “desvio”, apesar de manifestar num indivíduo singular, quase sempre é resultante daquilo que acontece em seu meio social e cultural. Esse modo de pensar não desresponsabiliza o sujeito pelo seu “desvio”, mas convida a sociedade a compartilhar a responsabilidade pelo mesmo, na medida em que todo sujeito – em especial os que estão fora da curva – funcionam como uma espécie de para-raios do modus operandi da sociedade em que vivem. Pensando desse modo é possível analisar uma sociedade ou uma instituição a partir dos seus pontos desviantes, ou seja, muito mais do que singularizar uma doença social, o sujeito desviante denuncia as falhas e os pontos cegos de uma sociedade ou cultura. Inclusive, é importante destacar – porque isso varia muito – o que uma determinada sociedade considera desviante diz muito sobre como ela é.
Mas vamos ao ponto que interessa aqui. Independente do crime, do ato antissocial, imoral, machista ou como queiram chamar, de Diego (conhecido como o tarado que ejaculou numa mulher no ônibus) vou me propor a pensar o Brasil atual a partir dos últimos acontecimentos envolvendo tal sujeito. Como faria no meu trabalho de supervisora/analista, onde tentamos verificar quais os problemas institucionais e relacionais determinado caso denuncia e aponta, vou inverter meu olhar e ao invés de focar em Diego e sua tara, vou me dirigir para o modo como a sociedade lidou com Diego e analisá-la.
Primeiramente (#foratemer) é importante dizer que essa não pretende ser uma análise científica, será apenas uma avaliação superficial feita a partir da minha TL do Facebook e de comentários que li em notícias na internet nos últimos dias.
1. Somos machistas:
Ainda que o ato de Diego não tenha sido motivado por machismo, mas por uma disfunção cerebral pós-cirúrgica (e isso é totalmente possível), seu ato trouxe a tona a fato de inúmeras mulheres serem molestadas e assediadas em transporte público e se sentirem vulneráveis e sem apoio para fazerem denuncia. Além do mal-estar e do constrangimento do abuso, sofrem também por não se sentirem acolhidas e respeitadas pelos instrumentos da justiça. A elas cabe, invariavelmente, a culpa pelo abuso ou violência masculina.
2. Somos pouco republicanos:
É um argumento recorrente quando tratamos de casos que causam comoção, tal como este, trazer a questão para o âmbito da nossa vida privada, como se isso devesse fazer diferença. “E se fosse seu filho?” “E se fosse sua mãe?”, são perguntas frequentes. Nossa confusão histórica entre o público e o privado, nos faz imaginar que um juiz ou um profissional da saúde pública, por exemplo, deverão decidir de modo diferente, caso se trate de alguém do seu círculo privado. Não digo que isso não aconteça por aqui, exatamente pela nossa cultura do “jeitinho”, mas não devíamos contar com isso, e muito menos com tal argumento. É claro que, se fosse membro da minha família, eu estaria emocionalmente afetada o que, provavelmente, me impediria de ter uma intervenção republicana. Talvez, tal fato me levasse a um ato desesperado e intempestivo, mas eu, sinceramente, espero que alguém que esteja com a “cabeça fria”, que tenha conhecimento de causa, que pense nos dois ou mais lados da questão e que leve em conta as leis vigentes (ainda que eu não concorde com elas), possa tomar a melhor decisão possível.
3. Somos violentos:
Ao menor sinal de desagravo nosso potencial violento alcança níveis alarmantes. Lógico que muitos valentões e valentonas de rede social são, na verdade, covardes que usam da mediação digital para dizerem o que não teriam coragem de dizer em outra situação, e muito menos fazer, mas, de todo modo, o que as pessoas dizem que desejariam fazer com um sujeito como Diego é bem pior do que o que ele fez. Acreditamos na intervenção violenta como medida corretiva, mas, sobretudo, como aceitável e justificável em muitos casos.
4. Somos punitivistas:
A maioria de nós ainda defende que as medidas tomadas pela justiça devam ter caráter de punição e não de ressocialização ou reintegração. Em casos como o de Diego, a justiça deve se parecer como algo próximo à vingança. Seguindo a premissa da punição, esperamos que a justiça aja rapidamente e não deixe furos, ou que seja capaz de prever um crime que não aconteceu, baseada num acontecimento anterior. A reintegração e a ressocialização demandam mais cuidado e tempo, a punição é mais rápida e imediata. Optar pela ressocialização, apesar de ser mais saudável para toda a sociedade, pode deixar mais “furos” por exigir uma maior cautela e tempo para agir. Todavia, nesses casos onde a comoção social é grande exigimos uma punição rápida e eficaz, que não deixe furos.
5. Somos manicomiais:
A reforma psiquiátrica brasileira levou anos de muito debate e luta para se estabelecer e evitar algumas das atrocidades que vitimavam os doentes mentais, em nome do bem estar da sociedade. Ainda temos muito o que avançar, mas hoje (pelo menos até esse golpista assaltar o poder), o Brasil possui uma política de saúde mental avançada em termos de humanização e garantia de cidadania. O encarceramento do doente mental ainda é uma prática comum mundo afora. O manicômio é uma instituição que vive seus últimos suspiros por aqui, no entanto, ao menor sinal de comoção coletiva diante de atos de loucura, clamamos por ele. Apesar de todos os avanços das últimas décadas, o isolamento e o encarceramento do louco ainda são vistos como saída, não para cuidar do doente, mas para proteger a sociedade do mesmo.
6. Somos moralistas:
Eu decidi não escrever tudo que queria nesse item pra não correr o risco de fazer perder meu texto inteiro, posto que, o tema do sexo é o mais difícil para a maioria das pessoas (aliás, me espantou muito o quanto ainda é). Mas, pelos comentários que vi por aí a sexualidade e o desejo sexual, incluindo os desviantes da norma, são território eminentemente masculino. A moral sexual ainda reprime e sufoca a sexualidade da mulher, mesmo entre as feministas mais empoderadas. A sexualidade feminina ainda é recoberta de mitos. Resumindo um pouco: mulheres não tem desejo sexual, caso tenham, conseguem mantê-lo sempre sob controle e não são afeitas a taras e compulsões.
7. Somos religiosos:
Para quase todos os problemas que surgem, a resposta, “tá faltando Deus no coração” parece caber e com relação a Diego, não é diferente. O demônio também é constantemente convocado a ser o elemento explicativo para tal tipo de caso. Como não suportamos ver essa humanidade insana, indomável, trágica e errática que habita em todos nós e que pode vir a tona, tal como veio em Diego, preferimos delega-la ao outro estranho; ao diabo. Mas, curiosamente, mesmo os não religiosos, nutrem um modo de pensar mágico. Ainda que o cerne não seja Deus ou o Diabo, acreditam que haja um único responsável pela situação e, portanto, uma única solução que vai resolver todo o problema. Acreditam num ideal qualquer que nos salvará para sempre de todo e qualquer mal-estar e nos trará o paraíso na Terra; sem Diegos, sem juízes que liberam Diego, sem mães que não conseguem fazer Diego seguir tratamento, sem acidentes automobilísticos que desencadeiem uma doença orgânica em Diego. E por aí vai...
O título do meu texto é uma pergunta – Precisamos falar sobre Diego? – e não por acaso. Toda vez que um caso desses vem à tona devíamos pensar sob que prisma devemos falar ou opinar publicamente. Este caso foi um exemplo maravilhoso para entendermos que não devemos falar sobre Diego: não conhecemos o sujeito, sua situação ou sua condição, não sabemos exatamente o que houve, desconhecemos o processo que ele responde e suas particularidades, portanto, qualquer julgamento feito a Diego ou ao seu processo legal é irresponsável e infrutífero, podendo até mesmo gerar danos maiores. No entanto, podemos sim, falar a partir de Diego, assim como eu fiz aqui. Desse modo, entendemos que Diego é apenas um catalizador das nossas chagas sociais e que eliminá-lo não irá curá-las. Podemos, então, pensar nossas mazelas a partir de Diego, assim seremos capazes de fazer algo de produtivo e verdadeiramente terapêutico para a sociedade como um todo.
Sei que é bem difícil pensar assim, mas faço um convite a tal exercício: Diego é uma espécie de dejeto, se pensarmos naquilo que almejamos para um ser humano, entretanto, ele fala mais das nossas fraquezas e misérias, do que gostaríamos. Por isso, rejeitamos Diego e queremos evitá-lo ou eliminá-lo de todo modo. Entretanto, uma sociedade minimamente saudável, e é só o que podemos almejar, entende que criar modos de lidar com Diego é fundamental para o bem de toda a coletividade, e não apenas dele. É fácil fazer isso? Não, é bem difícil! Mas quem disse que seria fácil?
Antes que usem o item 2 e me perguntem – Duvido se fosse você a levar uma esporrada de um estranho no coletivo? – vou responder: Acharia péssimo. De um estranho, no coletivo, não curto. Nesse caso, eu possivelmente, estaria impossibilitada de ter qualquer atitude sensata, inclusive de escrever esse textão, mas, certamente, haveria alguém apta a escrevê-lo.
Não existe auto-estima grande demais. Se assim o parecer, é porque ela é pequena demais.
Psicólogos chineses, que publicaram na revista Frontiers in Neuroscience, estudaram o efeito da beleza feminina sobre os homens e descobriram que a mulheres atraentes podem levá-los a aceitarem propostas que não lhe trazem nenhuma vantagem. Os cientistas realizaram testes com voluntários, que tiveram o cérebro analisado enquanto tomavam decisões.
Segundo o estudo, os homens são mais tolerantes com as mulheres bonitas, mesmo quando elas se comportam de maneira injusta. E essa conduta acarretaria em outra: as mulheres atraentes estariam acostumadas a agir de modo egoísta, já que normalmente são perdoadas.
As pessoas atraentes são mais propensas a serem contratadas e ganham em média 12% mais do que pessoas pouco atraentes. Ao contrário dos casos de raça, gênero, etnia, deficiência e idade, não há legislação contra a discriminação relacionada à atratividade. No entanto, o impacto social mais sombrio do estereótipo Beauty-is-Good está dentro do sistema de justiça, já que estudos de simulacros mostraram que os arguidos que são menos atraentes são mais prováveis de ser considerados culpados.
Segundo o estudo, os homens são mais tolerantes com as mulheres bonitas, mesmo quando elas se comportam de maneira injusta. E essa conduta acarretaria em outra: as mulheres atraentes estariam acostumadas a agir de modo egoísta, já que normalmente são perdoadas.
As pessoas atraentes são mais propensas a serem contratadas e ganham em média 12% mais do que pessoas pouco atraentes. Ao contrário dos casos de raça, gênero, etnia, deficiência e idade, não há legislação contra a discriminação relacionada à atratividade. No entanto, o impacto social mais sombrio do estereótipo Beauty-is-Good está dentro do sistema de justiça, já que estudos de simulacros mostraram que os arguidos que são menos atraentes são mais prováveis de ser considerados culpados.
"Nada é claro neste mundo. Só tolos e charlatães sabem e entendem tudo." (Tchekhov)
História da arte não é história da carochinha. O museu não é playground ou igreja.
A arte e os artistas sempre enfrentaram os retrógrados, os conservadores e os pudicos hipócritas de plantão
(AFONSO MEDEIROS)
Assumidamente pensada para por em discussão questões sobre o corpo, o gênero, a sexualidade e a identidade (particularmente dentro de uma perspectiva lgbt), a mostra foi alvo de debates virulentos nas redes sociais um mês depois de sua abertura por, segundo os inspetores do fiofó alheio, atentarem contra “a moral e os bons costumes” – leia-se: afrontarem “valores cristãos” e exporem cenas de pedofilia e zoofilia.
Infelizmente, essa comoção das “pessoas de bem” que, de um momento para o outro assumem o papel de críticos, teóricos e historiadores da arte pós-especializados em qualquer merda, não é novidade. Nem na história antiga e nem na história recente da arte.
As restropectivas da obra de Mapplethorpe no início dos anos 1990 já causaram virulência inclusive no Senado estadunidense – e, pasmem, uma delas passou incólume por Sampa nessa mesma década. Desde então, muitas exposições com obras explícitas de sexo/sexualidade passaram a mostrar tais obras em dark rooms, com avisos/advertências nas portas – verifiquei essa prática na exposição de Mapplethorpe há quatro anos e de Jeff Koons há dois anos, ambas em Paris.
Um cartaz da grande retrospectiva do pintor renascentista Lucas Cranach foi retirado do metrô londrino em 2008 por, supostamente, ser “pornográfico” (e se tratava de uma pudica vênus nua pra lá de quatrocentona).
Voltando um pouco mais no tempo, é bem conhecida a prática nazista de “condecorar” alguns artistas como produtores de “arte degenerada” e queimar suas obras em praça pública, pelos mesmos motivos alegados pelos “críticos” das redes sociais: pornografia, atentado à moral e avacalhação dos nobres valores cristãos.
Retrocedendo ainda mais, não custa lembrar que o “David” de Michelangelo foi apedrejado quando exposto em praça pública; que a “Venus de Urbino” de Tiziano foi considerada a imagem mais indecente do Ocidente por mais de trezentos anos; que Paolo Veronese teve que encarar um processo diante do tribunal da Inquisição por “interpretar licenciosamente as sagradas escrituras”; que Goya também sofreu um processo da Inquisição espanhola por causa de “La Maja desnuda”; que “A origem do mundo” de Courbet só passou a fazer parte de um acervo público (Museu D’Orsay) mais de 100 anos após sua criação e que a reprodução dessa mesma obra foi retirada do site da Academia Brasileira de Letras há pouco anos atrás. E mesmo artistas brasileiros já foram alvos dessas sandices – que o diga MárciaX. Em todos esses casos, a alegação dos mesmos motivos: “atentado ao pudor, à moral e aos bons costumes”, “deseducação das nossas crianças”, “perdição”, “escândalo”, “pornografia”, “heresia”...
Portanto, não estamos lidando com nenhuma novidade. A arte e os artistas sempre enfrentaram os retrógrados, os conservadores e os pudicos hipócritas de plantão – quem nunca gozou com imagens explícitas do sexo e da sexualidade, que atire a primeira pedra!
O que espanta é que, em meio a essa “comoção” os retrógrados embutem a concepção de que a “verdadeira” arte eleva, transcende, conforta, nos põe em contato com o numinoso, se torna um “alívio” ou expurgo das durezas da vida.
Respeitável público: arte não é religião, não exige reza e nem tem igreja. Pode propiciar, sim, uma suspensão momentânea do comezinho humano, mas comumente provoca, confronta, questiona e põe o dedo na ferida em tudo aquilo que é humano, demasiado humano.
Recentemente, eu e Márcio Lins vimos uma exposição sobre “Maria” em Utrecht (Holanda). A curadoria nos ofereceu uma leitura da mãe de Jesus mais abrangente, como uma das muitas figurações da maternidade, da fecundação e do feminino e, por isso mesmo, misturou anacronicamente à imageria artística mariana uma série de ícones de outras deusas, incluindo a nossa tão conhecida Yemanjá. Para sublinhar ainda mais certas questões embutidas na mitologia mariana, expôs-se também obras de artistas mulheres contemporâneas que trabalham com/sobre a condição feminina no presente. Dentre elas, a obra “Virgin of Mercy” (2005) de Elisabet Stienstra dá o que pensar: uma escultura em tamanho natural de uma mulher púbere nua, com a vagina não só à mostra, mas clara e realisticamente evidenciada. O que aquela escultura estava fazendo numa exposição dedicada à figuração mitificada da “mãe de Deus”? Estava exatamente ali para nos fazer pensar sobre o mito da virgindade, da docilidade e da submissão. Estava ali para nos fazer pensar sobre a construção machista (historicamente constituída) sobre o papel da mulher na sociedade. Considerando que a exposição foi montada num convento-museu, o nível do discurso simbólico tornou-se ainda mais palpável e, a propósito, a postagem da obra de Stienstra aqui no Facebook rendeu três dias de suspensão ao Márcio.
Muitos dos “novos críticos de arte” salientaram que as obras expostas no Santander Cultural não deveriam estar num espaço público e eu bem sei (porque pesquiso o tema há anos) que a exposição do corpo, do sexo e da sexualidade acaba recaindo na querela entre público e privado. Trata-se de uma falsa questão, muito de acordo com a hipócrita moralidade da sociedade ocidental. Templos indianos exibem casais em enlevos carnais explícitos. Muitos dos mais belos exemplares da arte oriental na arquitetura, na pintura, na escultura e na gravura mostram casais (inclusive homossexuais) de humanos e animais em divina fornicação. Para não irmos tão longe, bastaria lembrarmos da pintura em vasos gregos ou do nosso carnaval com corpos deliciosa e sedutoramente desnudos ou corpos de homens e de mulheres travestidos. E tudo isso à vista de todos. E nem vou falar da erotização precoce de nossas crianças promovidas pela publicidade, pela televisão e pelas próprias famílias que consomem acriticamente toda a parafernália da indústria cultural.
Ora, se o mais comum dos mortais neste pedaço do planeta – onde “não existe pecado do lado de baixo do Equador” –, pode expor suas carnalidade e suas fantasias sexuais publicamente (graças a Deus, mesmo quando lhe convém), porque o artista não pode? “Santa hipocrisia”, diria aquele antigo namorado do Batman. Não passa pela cabeça desses “críticos” que o artista pode e deve tratar de todas essas questões?
Se as senhoras e os senhores inspetores do cu alheio não querem que seus filhos vejam tais “perversões”, não levem seus pequerruchos aos museus! Museu não é playground e muito menos igreja. Arte não é só evasão da realidade, entretenimento ou “diversão sadia”. Arte “de verdade” nos desestabiliza, nos confronta, nos questiona e, num jogo de espelhamentos, nos pergunta sempre: Por que isso te incomoda?
Não são os artistas que devem ser silenciados, senhoras e senhores! Observem-se nas obras deles para, a partir de então, se perguntarem sobre os abismos de sua própria humanidade repressivamente silenciada.
Mas isso já é pedir muito numa sociedade que não consegue nem perceber as profundezas da metáfora, do poético e do humano. Por essas e outras, deixo aí embaixo o sorriso maroto de Madame Louise...
Tristes país. Tristes trópicos.
---
Afonso Medeiros é Professor Associado de Estética e História da Arte do Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará, onde coordena o GP Arte, Corpo e Conhecimento.
Graduado em Educação Artística/Artes Plásticas pela Universidade Federal do Pará (1985); especialista em História da Arte pela Universidade de Shizuoka (Japão, 1988); mestre em Ciências da Educação/Arte-Educação, também pela Universidade de Shizuoka (1996); e doutor em Comunicação e Semiótica/Intersemiose na Literatura e nas Artes pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2001).
A arte e os artistas sempre enfrentaram os retrógrados, os conservadores e os pudicos hipócritas de plantão
(AFONSO MEDEIROS)
Assumidamente pensada para por em discussão questões sobre o corpo, o gênero, a sexualidade e a identidade (particularmente dentro de uma perspectiva lgbt), a mostra foi alvo de debates virulentos nas redes sociais um mês depois de sua abertura por, segundo os inspetores do fiofó alheio, atentarem contra “a moral e os bons costumes” – leia-se: afrontarem “valores cristãos” e exporem cenas de pedofilia e zoofilia.
Infelizmente, essa comoção das “pessoas de bem” que, de um momento para o outro assumem o papel de críticos, teóricos e historiadores da arte pós-especializados em qualquer merda, não é novidade. Nem na história antiga e nem na história recente da arte.
As restropectivas da obra de Mapplethorpe no início dos anos 1990 já causaram virulência inclusive no Senado estadunidense – e, pasmem, uma delas passou incólume por Sampa nessa mesma década. Desde então, muitas exposições com obras explícitas de sexo/sexualidade passaram a mostrar tais obras em dark rooms, com avisos/advertências nas portas – verifiquei essa prática na exposição de Mapplethorpe há quatro anos e de Jeff Koons há dois anos, ambas em Paris.
Um cartaz da grande retrospectiva do pintor renascentista Lucas Cranach foi retirado do metrô londrino em 2008 por, supostamente, ser “pornográfico” (e se tratava de uma pudica vênus nua pra lá de quatrocentona).
Voltando um pouco mais no tempo, é bem conhecida a prática nazista de “condecorar” alguns artistas como produtores de “arte degenerada” e queimar suas obras em praça pública, pelos mesmos motivos alegados pelos “críticos” das redes sociais: pornografia, atentado à moral e avacalhação dos nobres valores cristãos.
Retrocedendo ainda mais, não custa lembrar que o “David” de Michelangelo foi apedrejado quando exposto em praça pública; que a “Venus de Urbino” de Tiziano foi considerada a imagem mais indecente do Ocidente por mais de trezentos anos; que Paolo Veronese teve que encarar um processo diante do tribunal da Inquisição por “interpretar licenciosamente as sagradas escrituras”; que Goya também sofreu um processo da Inquisição espanhola por causa de “La Maja desnuda”; que “A origem do mundo” de Courbet só passou a fazer parte de um acervo público (Museu D’Orsay) mais de 100 anos após sua criação e que a reprodução dessa mesma obra foi retirada do site da Academia Brasileira de Letras há pouco anos atrás. E mesmo artistas brasileiros já foram alvos dessas sandices – que o diga MárciaX. Em todos esses casos, a alegação dos mesmos motivos: “atentado ao pudor, à moral e aos bons costumes”, “deseducação das nossas crianças”, “perdição”, “escândalo”, “pornografia”, “heresia”...
Portanto, não estamos lidando com nenhuma novidade. A arte e os artistas sempre enfrentaram os retrógrados, os conservadores e os pudicos hipócritas de plantão – quem nunca gozou com imagens explícitas do sexo e da sexualidade, que atire a primeira pedra!
O que espanta é que, em meio a essa “comoção” os retrógrados embutem a concepção de que a “verdadeira” arte eleva, transcende, conforta, nos põe em contato com o numinoso, se torna um “alívio” ou expurgo das durezas da vida.
Respeitável público: arte não é religião, não exige reza e nem tem igreja. Pode propiciar, sim, uma suspensão momentânea do comezinho humano, mas comumente provoca, confronta, questiona e põe o dedo na ferida em tudo aquilo que é humano, demasiado humano.
Recentemente, eu e Márcio Lins vimos uma exposição sobre “Maria” em Utrecht (Holanda). A curadoria nos ofereceu uma leitura da mãe de Jesus mais abrangente, como uma das muitas figurações da maternidade, da fecundação e do feminino e, por isso mesmo, misturou anacronicamente à imageria artística mariana uma série de ícones de outras deusas, incluindo a nossa tão conhecida Yemanjá. Para sublinhar ainda mais certas questões embutidas na mitologia mariana, expôs-se também obras de artistas mulheres contemporâneas que trabalham com/sobre a condição feminina no presente. Dentre elas, a obra “Virgin of Mercy” (2005) de Elisabet Stienstra dá o que pensar: uma escultura em tamanho natural de uma mulher púbere nua, com a vagina não só à mostra, mas clara e realisticamente evidenciada. O que aquela escultura estava fazendo numa exposição dedicada à figuração mitificada da “mãe de Deus”? Estava exatamente ali para nos fazer pensar sobre o mito da virgindade, da docilidade e da submissão. Estava ali para nos fazer pensar sobre a construção machista (historicamente constituída) sobre o papel da mulher na sociedade. Considerando que a exposição foi montada num convento-museu, o nível do discurso simbólico tornou-se ainda mais palpável e, a propósito, a postagem da obra de Stienstra aqui no Facebook rendeu três dias de suspensão ao Márcio.
Muitos dos “novos críticos de arte” salientaram que as obras expostas no Santander Cultural não deveriam estar num espaço público e eu bem sei (porque pesquiso o tema há anos) que a exposição do corpo, do sexo e da sexualidade acaba recaindo na querela entre público e privado. Trata-se de uma falsa questão, muito de acordo com a hipócrita moralidade da sociedade ocidental. Templos indianos exibem casais em enlevos carnais explícitos. Muitos dos mais belos exemplares da arte oriental na arquitetura, na pintura, na escultura e na gravura mostram casais (inclusive homossexuais) de humanos e animais em divina fornicação. Para não irmos tão longe, bastaria lembrarmos da pintura em vasos gregos ou do nosso carnaval com corpos deliciosa e sedutoramente desnudos ou corpos de homens e de mulheres travestidos. E tudo isso à vista de todos. E nem vou falar da erotização precoce de nossas crianças promovidas pela publicidade, pela televisão e pelas próprias famílias que consomem acriticamente toda a parafernália da indústria cultural.
Ora, se o mais comum dos mortais neste pedaço do planeta – onde “não existe pecado do lado de baixo do Equador” –, pode expor suas carnalidade e suas fantasias sexuais publicamente (graças a Deus, mesmo quando lhe convém), porque o artista não pode? “Santa hipocrisia”, diria aquele antigo namorado do Batman. Não passa pela cabeça desses “críticos” que o artista pode e deve tratar de todas essas questões?
Se as senhoras e os senhores inspetores do cu alheio não querem que seus filhos vejam tais “perversões”, não levem seus pequerruchos aos museus! Museu não é playground e muito menos igreja. Arte não é só evasão da realidade, entretenimento ou “diversão sadia”. Arte “de verdade” nos desestabiliza, nos confronta, nos questiona e, num jogo de espelhamentos, nos pergunta sempre: Por que isso te incomoda?
Não são os artistas que devem ser silenciados, senhoras e senhores! Observem-se nas obras deles para, a partir de então, se perguntarem sobre os abismos de sua própria humanidade repressivamente silenciada.
Mas isso já é pedir muito numa sociedade que não consegue nem perceber as profundezas da metáfora, do poético e do humano. Por essas e outras, deixo aí embaixo o sorriso maroto de Madame Louise...
Tristes país. Tristes trópicos.
---
Afonso Medeiros é Professor Associado de Estética e História da Arte do Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará, onde coordena o GP Arte, Corpo e Conhecimento.
Graduado em Educação Artística/Artes Plásticas pela Universidade Federal do Pará (1985); especialista em História da Arte pela Universidade de Shizuoka (Japão, 1988); mestre em Ciências da Educação/Arte-Educação, também pela Universidade de Shizuoka (1996); e doutor em Comunicação e Semiótica/Intersemiose na Literatura e nas Artes pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2001).
<< Toda vez que você produz um pensamento, isto é ação. E ação é o que chamamos de carma. Atenção desempenha um papel muito importante. Dependendo do tipo de ambiente que você mora e do que você presta atenção, você tem uma chance maior ou menor de produzir bons pensamentos e ir em direção do pensar correto. Todo pensamento que você produz carrega a sua assinatura. Você não pode dizer que ele não é você. Você é responsável por aquele pensamento e aquele pensamento é sua continuação. Seu pensamento é a essência do seu ser e da sua vida, e uma vez produzido, ele continua, pode jamais se perder.
Buda propôs que praticássemos o pensamento correto, pensamento que vai em direção da não-discriminação, da compaixão e da compreensão. Todas as vezes que produzimos um pensamento como este, ele terá um efeito benéfico em nosso corpo e no mundo. Um bom pensamento tem o efeito de curar o seu corpo, a sua mente e o mundo. Isto é ação. Se você produz um pensamento de raiva, de ódio e desespero, isto não é bom para sua saúde ou para a saúde do mundo. Podemos conceber nossos pensamentos como um tipo de energia que terá uma reação em cadeia no mundo. >> (Thich Nhât Hanh)
Buda propôs que praticássemos o pensamento correto, pensamento que vai em direção da não-discriminação, da compaixão e da compreensão. Todas as vezes que produzimos um pensamento como este, ele terá um efeito benéfico em nosso corpo e no mundo. Um bom pensamento tem o efeito de curar o seu corpo, a sua mente e o mundo. Isto é ação. Se você produz um pensamento de raiva, de ódio e desespero, isto não é bom para sua saúde ou para a saúde do mundo. Podemos conceber nossos pensamentos como um tipo de energia que terá uma reação em cadeia no mundo. >> (Thich Nhât Hanh)
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
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