Minha conterrânea Rita Almeida reflete sobre nossa reação ao tarado do ônibus, mas pode ser lido como sendo sobre qualquer julgamento da internet:
Precisamos falar sobre Diego?
Trabalho como profissional da rede de saúde mental do SUS e sou militante da Reforma psiquiátrica brasileira desde 1995. Já fui coordenadora de CAPS e supervisora institucional em saúde mental indicada pelo Ministério da Saúde. Minha dissertação de mestrado foi algo sobre o lugar e a função da “loucura” nas instituições e na cultura. É péssimo começar um textão tecendo meu currículo, mas, diante do tribunal das redes, penso que, me posicionar a partir de alguma autoridade (no sentido de estar autorizada a) possa evitar alguns aborrecimentos. Sei lá... Só espero não ter sido arrogante.
Existem, basicamente, dois modos de pensar a “loucura” ou mesmo as formas de delinquência. O mais comum é pensarmos em tais “desvios” como um problema meramente individual, ou seja, aquele sujeito é uma espécie de “maçã podre” decorrente da sua condição ou escolha particular, nesse caso, precisa ser eliminado, ser retirado da convivência das demais “maçãs” ou ser transformado numa “maçã saudável”. Esse é um modo simplista de pensar e que gera soluções igualmente simplistas, como, por exemplo, a de que combateremos a criminalidade eliminando (matando, prendendo, exilando) os criminosos ou a de que teremos uma sociedade mais saudável eliminando (matando, prendendo, exilando) os “loucos”.
Um outro ponto de vista – que eu partilho e a partir do qual pensamos quando defendemos a mudança do modelo manicomial para um modelo aberto – entende que um possível “desvio”, apesar de manifestar num indivíduo singular, quase sempre é resultante daquilo que acontece em seu meio social e cultural. Esse modo de pensar não desresponsabiliza o sujeito pelo seu “desvio”, mas convida a sociedade a compartilhar a responsabilidade pelo mesmo, na medida em que todo sujeito – em especial os que estão fora da curva – funcionam como uma espécie de para-raios do modus operandi da sociedade em que vivem. Pensando desse modo é possível analisar uma sociedade ou uma instituição a partir dos seus pontos desviantes, ou seja, muito mais do que singularizar uma doença social, o sujeito desviante denuncia as falhas e os pontos cegos de uma sociedade ou cultura. Inclusive, é importante destacar – porque isso varia muito – o que uma determinada sociedade considera desviante diz muito sobre como ela é.
Mas vamos ao ponto que interessa aqui. Independente do crime, do ato antissocial, imoral, machista ou como queiram chamar, de Diego (conhecido como o tarado que ejaculou numa mulher no ônibus) vou me propor a pensar o Brasil atual a partir dos últimos acontecimentos envolvendo tal sujeito. Como faria no meu trabalho de supervisora/analista, onde tentamos verificar quais os problemas institucionais e relacionais determinado caso denuncia e aponta, vou inverter meu olhar e ao invés de focar em Diego e sua tara, vou me dirigir para o modo como a sociedade lidou com Diego e analisá-la.
Primeiramente (#foratemer) é importante dizer que essa não pretende ser uma análise científica, será apenas uma avaliação superficial feita a partir da minha TL do Facebook e de comentários que li em notícias na internet nos últimos dias.
1. Somos machistas:
Ainda que o ato de Diego não tenha sido motivado por machismo, mas por uma disfunção cerebral pós-cirúrgica (e isso é totalmente possível), seu ato trouxe a tona a fato de inúmeras mulheres serem molestadas e assediadas em transporte público e se sentirem vulneráveis e sem apoio para fazerem denuncia. Além do mal-estar e do constrangimento do abuso, sofrem também por não se sentirem acolhidas e respeitadas pelos instrumentos da justiça. A elas cabe, invariavelmente, a culpa pelo abuso ou violência masculina.
2. Somos pouco republicanos:
É um argumento recorrente quando tratamos de casos que causam comoção, tal como este, trazer a questão para o âmbito da nossa vida privada, como se isso devesse fazer diferença. “E se fosse seu filho?” “E se fosse sua mãe?”, são perguntas frequentes. Nossa confusão histórica entre o público e o privado, nos faz imaginar que um juiz ou um profissional da saúde pública, por exemplo, deverão decidir de modo diferente, caso se trate de alguém do seu círculo privado. Não digo que isso não aconteça por aqui, exatamente pela nossa cultura do “jeitinho”, mas não devíamos contar com isso, e muito menos com tal argumento. É claro que, se fosse membro da minha família, eu estaria emocionalmente afetada o que, provavelmente, me impediria de ter uma intervenção republicana. Talvez, tal fato me levasse a um ato desesperado e intempestivo, mas eu, sinceramente, espero que alguém que esteja com a “cabeça fria”, que tenha conhecimento de causa, que pense nos dois ou mais lados da questão e que leve em conta as leis vigentes (ainda que eu não concorde com elas), possa tomar a melhor decisão possível.
3. Somos violentos:
Ao menor sinal de desagravo nosso potencial violento alcança níveis alarmantes. Lógico que muitos valentões e valentonas de rede social são, na verdade, covardes que usam da mediação digital para dizerem o que não teriam coragem de dizer em outra situação, e muito menos fazer, mas, de todo modo, o que as pessoas dizem que desejariam fazer com um sujeito como Diego é bem pior do que o que ele fez. Acreditamos na intervenção violenta como medida corretiva, mas, sobretudo, como aceitável e justificável em muitos casos.
4. Somos punitivistas:
A maioria de nós ainda defende que as medidas tomadas pela justiça devam ter caráter de punição e não de ressocialização ou reintegração. Em casos como o de Diego, a justiça deve se parecer como algo próximo à vingança. Seguindo a premissa da punição, esperamos que a justiça aja rapidamente e não deixe furos, ou que seja capaz de prever um crime que não aconteceu, baseada num acontecimento anterior. A reintegração e a ressocialização demandam mais cuidado e tempo, a punição é mais rápida e imediata. Optar pela ressocialização, apesar de ser mais saudável para toda a sociedade, pode deixar mais “furos” por exigir uma maior cautela e tempo para agir. Todavia, nesses casos onde a comoção social é grande exigimos uma punição rápida e eficaz, que não deixe furos.
5. Somos manicomiais:
A reforma psiquiátrica brasileira levou anos de muito debate e luta para se estabelecer e evitar algumas das atrocidades que vitimavam os doentes mentais, em nome do bem estar da sociedade. Ainda temos muito o que avançar, mas hoje (pelo menos até esse golpista assaltar o poder), o Brasil possui uma política de saúde mental avançada em termos de humanização e garantia de cidadania. O encarceramento do doente mental ainda é uma prática comum mundo afora. O manicômio é uma instituição que vive seus últimos suspiros por aqui, no entanto, ao menor sinal de comoção coletiva diante de atos de loucura, clamamos por ele. Apesar de todos os avanços das últimas décadas, o isolamento e o encarceramento do louco ainda são vistos como saída, não para cuidar do doente, mas para proteger a sociedade do mesmo.
6. Somos moralistas:
Eu decidi não escrever tudo que queria nesse item pra não correr o risco de fazer perder meu texto inteiro, posto que, o tema do sexo é o mais difícil para a maioria das pessoas (aliás, me espantou muito o quanto ainda é). Mas, pelos comentários que vi por aí a sexualidade e o desejo sexual, incluindo os desviantes da norma, são território eminentemente masculino. A moral sexual ainda reprime e sufoca a sexualidade da mulher, mesmo entre as feministas mais empoderadas. A sexualidade feminina ainda é recoberta de mitos. Resumindo um pouco: mulheres não tem desejo sexual, caso tenham, conseguem mantê-lo sempre sob controle e não são afeitas a taras e compulsões.
7. Somos religiosos:
Para quase todos os problemas que surgem, a resposta, “tá faltando Deus no coração” parece caber e com relação a Diego, não é diferente. O demônio também é constantemente convocado a ser o elemento explicativo para tal tipo de caso. Como não suportamos ver essa humanidade insana, indomável, trágica e errática que habita em todos nós e que pode vir a tona, tal como veio em Diego, preferimos delega-la ao outro estranho; ao diabo. Mas, curiosamente, mesmo os não religiosos, nutrem um modo de pensar mágico. Ainda que o cerne não seja Deus ou o Diabo, acreditam que haja um único responsável pela situação e, portanto, uma única solução que vai resolver todo o problema. Acreditam num ideal qualquer que nos salvará para sempre de todo e qualquer mal-estar e nos trará o paraíso na Terra; sem Diegos, sem juízes que liberam Diego, sem mães que não conseguem fazer Diego seguir tratamento, sem acidentes automobilísticos que desencadeiem uma doença orgânica em Diego. E por aí vai...
O título do meu texto é uma pergunta – Precisamos falar sobre Diego? – e não por acaso. Toda vez que um caso desses vem à tona devíamos pensar sob que prisma devemos falar ou opinar publicamente. Este caso foi um exemplo maravilhoso para entendermos que não devemos falar sobre Diego: não conhecemos o sujeito, sua situação ou sua condição, não sabemos exatamente o que houve, desconhecemos o processo que ele responde e suas particularidades, portanto, qualquer julgamento feito a Diego ou ao seu processo legal é irresponsável e infrutífero, podendo até mesmo gerar danos maiores. No entanto, podemos sim, falar a partir de Diego, assim como eu fiz aqui. Desse modo, entendemos que Diego é apenas um catalizador das nossas chagas sociais e que eliminá-lo não irá curá-las. Podemos, então, pensar nossas mazelas a partir de Diego, assim seremos capazes de fazer algo de produtivo e verdadeiramente terapêutico para a sociedade como um todo.
Sei que é bem difícil pensar assim, mas faço um convite a tal exercício: Diego é uma espécie de dejeto, se pensarmos naquilo que almejamos para um ser humano, entretanto, ele fala mais das nossas fraquezas e misérias, do que gostaríamos. Por isso, rejeitamos Diego e queremos evitá-lo ou eliminá-lo de todo modo. Entretanto, uma sociedade minimamente saudável, e é só o que podemos almejar, entende que criar modos de lidar com Diego é fundamental para o bem de toda a coletividade, e não apenas dele. É fácil fazer isso? Não, é bem difícil! Mas quem disse que seria fácil?
Antes que usem o item 2 e me perguntem – Duvido se fosse você a levar uma esporrada de um estranho no coletivo? – vou responder: Acharia péssimo. De um estranho, no coletivo, não curto. Nesse caso, eu possivelmente, estaria impossibilitada de ter qualquer atitude sensata, inclusive de escrever esse textão, mas, certamente, haveria alguém apta a escrevê-lo.
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terça-feira, 12 de setembro de 2017
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