O Brasil na era dos esgotamentos da imaginação política
(Vladimir Safatle para IHU Unisinos)
A Nova República, inaugurada no Brasil pós-ditadura, que se tornou um regime de acomodação e integração dos setores que haviam apoiado o regime militar, se esgotou. Ao invés de a esquerda romper com esse modelo, adotou como modo de governo a aliança com os núcleos empresariais, transformando-se em um grande modelo de gestão da corrupção institucionalizada, o que levou ao próprio esgotamento.
Portanto, esse era o momento de a esquerda brasileira dar um passo atrás e falar: não é possível fazer dessa forma, não é possível justificar nada desta maneira e não é possível vir com essa história de que a corrupção é um dado inerente ao sistema capitalista. Isso é um desrespeito, não só à população, mas à própria história da esquerda.
Estamos em um momento de triplo esgotamento: de uma era histórica, de um modelo de desenvolvimento e da esquerda brasileira.
A era histórica é a Nova República, que acabou em 2013, um momento histórico baseado em certa ideia de conciliação e redemocratização, mas uma redemocratização que durou 30 anos e nunca se realizou por completo, porque nunca existiu para se realizar por completo.
Esgotamento da Nova República
A Nova República nasceu da união entre o PMDB e o PFL para a eleição de Tancredo Neves e essa união selou toda a história do Brasil até hoje. Assim foi estabelecido um regime de governabilidade baseado na integração de setores que haviam apoiado a Ditadura Militar. A integração não significava só chamá-los para dentro do governo, significava adotar o seu modo de governo, seus modos de aliança, seus modelos de relação com os núcleos empresariais e tudo que fará com que a Nova República se transforme em um grande modelo de gestão de uma corrupção institucionalizada, que passará por todos os partidos.
Isso é uma das coisas mais fantásticas dos problemas de corrupção no Brasil, eles tocam todo mundo, percebemos isso muito claramente porque é um modo de governo, não uma prática específica. Com esse regime de governabilidade, foi instalado na Nova República um sistema de travas, essas travas significavam que não há como passar grandes reformas dentro de uma coalizão onde parte dela é exatamente quem se beneficia do atraso.
Uma das questões é pensar por que tivemos por 13 anos um governo de esquerda e as pautas tradicionais do reformismo social-democrata sequer foram cogitadas. Um exemplo tácito é a não discussão da redução da jornada de trabalho, uma pauta tradicional do sindicalismo, pois vivemos em um país com uma jornada de trabalho de 44 horas semanais, enquanto boa parte do mundo civilizado tem 40 horas e alguns países têm menos de 35 horas.
Sistema de pacificação nacional
Na Constituição o único imposto que é constitucional é o imposto sobre grandes fortunas. A Constituição foi promulgada em 1988, e até hoje não teve uma lei para poder aplicar um imposto constitucional. São aberrações inacreditáveis, mas isso é justificável dentro do modelo da Nova República.
Por outro lado, esse modelo de travas foi um sistema de pacificação nacional porque ele significa que todos os que fossem entrar no governo precisariam gerenciar o atraso e foi assim com Fernando Henrique, com o Lula e com a Dilma, mas em troca quem ganha a eleição governa. Isso funcionou até o momento em que, em 2013, ficou muito claro o descolamento da casta política brasileira e as expectativas da população.
Não lembro nenhum outro momento da história brasileira em que houvesse uma situação tão dramática quanto a ocasião em que uma massa de pessoas em Brasília corria em direção ao Congresso e tudo o que a polícia conseguiu fazer foi empurrar a massa para o lado, para que os manifestantes tocassem fogo no Palácio Itamaraty. Esta é uma das cenas mais impressionantes da história brasileira.
O vazio pós-2013
Essa cena demonstrava muito claramente a que ponto tínhamos chegado. E, no entanto, nada ocorre depois de 2013, não há nenhum ator político capaz de ouvir as demandas, tanto à esquerda quanto à direita. Então, eu diria que desde 2013 este país vive em suspensão, é um país suspenso no ar à “espera de”, incapaz de incorporar demandas de justiça social – no sentido mais fora do termo –, ou seja, eu quero saúde e educação “padrão Fifa”.
Esgotamento do Lulismo
Nesse ponto vem o segundo esgotamento, o esgotamento do modelo de desenvolvimento brasileiro conhecido como lulismo. O lulismo, por um lado, foi o ápice da Nova República, é o que ele conseguiu fazer de melhor no sentido de aproveitar esse sistema de travas e de coalizão e passar a um programa mínimo de assistência social que colocou 36 milhões de pessoas em ascensão. Isto é, tirou 36 milhões de pessoas da miséria e da pobreza e colocou em ascensão uma classe média pobre, mas que tinha poder de compra.
Também foi consolidado o aumento real do salário mínimo, reorganizado o capitalismo de Estado brasileiro através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, e houve a perpetuação do modelo de coalização herdado da política da Nova República. A esquerda conseguiu fazer essa perpetuação porque ressuscitou o único modo de incorporação das massas ao processo político que o Brasil conhece, que é o populismo.
Quando o Lula vestiu o macacão da Petrobras, colocou as mãos no petróleo e repetiu a foto de Getúlio Vargas, ele sabia muito bem o que estava fazendo, pois não se repete uma das imagens mais paradigmáticas da história brasileira impunemente; de fato, ele compreendia que ele funcionava no modelo varguista. O modelo varguista é aquele modelo em que Vargas dizia: “meus problemas não são meus inimigos, meus problemas são meus aliados”.
Esse tipo de sistema de incorporação funciona assim: incorpora-se a massa excluída do processo político, mas o preço disso é colocar as demandas populares no mesmo nível das demandas das oligarquias insatisfeitas e que iam, então, entrar juntamente em uma coalizão contraditória. Uma coalizão que, por ser contraditória, durava só um tempo e explodia porque chegava um momento em que tinha que gerir insatisfações em todos os lados. Só que o Vargas morreu, então ele não precisou ver isso, mas o Lula não, ele viu o processo se degradando.
Sem alternativas
Como não havia uma segunda alternativa, um segundo ciclo de políticas, não havia nada desde 2010, toda a criatividade política que foi colocada no governo paralisou, não teve nenhum programa novo, a não ser programas muito pontuais, como o Mais Médicos e outros desse tipo. Entretanto, precisávamos de um verdadeiro segundo ciclo de política de combate à desigualdade social, que nunca foi colocado sequer em pauta. Então, o que aconteceu? Chegou 2013 e as pessoas perceberam que o Brasil estava paralisado, que elas tinham subido de renda, só que elas tinham produzido também novas necessidades e essas novas necessidades estavam corroendo a renda delas. Então, o sujeito saiu da escola pública e foi colocar seus filhos na escola privada e viu que estava perdendo parte do seu salário para a escola privada de péssima qualidade; ele saiu do sistema SUS e foi comprar um plano de saúde e viu a mesma coisa; ele saiu do ônibus e comprou um carro parcelado e também viu a mesma coisa. Se juntarmos esses três gastos já se corrói um terço do salário dessa dita nova classe média. Assim, juntaram-se duas coisas: o fim da Nova República e o esgotamento de um modelo de desenvolvimento econômico.
Esgotamento da esquerda brasileira
Só que ainda teve um terceiro elemento, e aí sim foi explosivo: o esgotamento da esquerda brasileira, que era uma corrente política, que desde 1945 sempre teve força, mesmo na Ditadura Militar. Na Ditadura a esquerda perdeu, mas não foi vencida porque conseguiu consolidar uma resistência considerável em vários setores, formando uma parcela considerável da opinião pública, o que não deixa de ser impressionante. Então, o que acontece? Essa esquerda terá um curto-circuito porque chega um momento em que este modelo de governabilidade começou a cobrar o seu preço, e o seu preço era a corrupção, entre outras coisas.
Portanto, esse era o momento de a esquerda brasileira dar um passo atrás e falar: não é possível fazer dessa forma, não é possível justificar nada dessa maneira e não é possível vir com essa história de que a corrupção é um dado inerente ao sistema capitalista. Isso é um desrespeito, não só à população, mas à própria história da esquerda. De certa maneira, vai retirando legitimidade de enunciação à medida que se flexibilizam os julgamentos éticos e morais a partir dos interesses imediatos, submetendo os julgamentos a um cálculo político.
Todavia, com o Partido dos Trabalhadores (PT) há uma diferença essencial: o partido passou 40 anos “enchendo o saco” do país inteiro, dizendo que era um absurdo a corrupção, que de fato era uma imoralidade, e aí, de repente, passa a fazer a mesma coisa. É claro que a bomba vai estourar no colo do PT e as pessoas vão dizer “você eu não quero nunca mais”.
O país dos zumbis
Os três processos se engatam e ao se engatar chegamos à situação atual, muito próxima daquilo que Freud comenta em A Interpretação dos Sonhos (Porto Alegre:L&PM Editores, 2012), que ao acordar sente uma profunda tristeza ao lembrar da cena do jantar em seu sonho, em que seu pai está sentado à sua frente. Freud pensa o óbvio: “meu pai estava morto e eu não sabia”. Essa é a melhor descrição da nossa situação, temos um país de zumbis, que não consegue nem mais mentir. Estamos em um processo de desconstrução contínuo de tudo, onde fica muito claro que há uma oligarquia financeira que tomou de assalto o poder e vai impor um modelo de gestão, que é o modelo de terra arrasada, o que nunca passaria por nenhuma eleição. Por isso eles tentam impor isso à força, porque não há outra maneira.
Estamos em uma situação tal, que não se consegue mais incorporar nenhuma força de oposição, porque se tem um modelo de funcionamento da esquerda que precisaria ter sido abandonado e não foi, e, quase como um ato reflexo, tenta-se recolocar esse modelo, mas ele não funciona mais. Então, temos essa situação, que é a pior situação possível. Isso me lembra um pouco a situação mexicana, que é um país que ficou parado durante 50 anos devido a uma contradição que, inclusive, estava descrita muito claramente no nome do partido que governou o país nesse período, o Partido Revolucionário Institucional – PRI.
Tem uma esquerda para qual a única possibilidade de existência se dá sob a forma de representação; se não consegue representar algo, esse algo não existe. Acho engraçado, porque fizemos a crítica da representação da filosofia há mais de 100 anos, mas na política foi impossível de fazer. É como se falasse em crítica da representação como se fosse um convite ao autoritarismo, o que considero uma coisa sem pé nem cabeça. Para eles, se você não dramatiza os conflitos sociais nas formas tradicionais de representação, ou seja, incorporação em um partido, sindicato ou associação, então o processo não existe ou é um protofascista.
Agora tem outro lado da esquerda, que fazendo a crítica da representação, compreendendo que essas estruturas não dão mais conta dos processos de mobilização, partiu para uma fragmentação absoluta de pautas. Então há pautas específicas que só conseguem gerar mobilização durante um tempo, só que elas não conseguem construir uma constelação, e, com isso, o que acontece?
Estamos nessa situação surreal em que há mobilizações fortes, como as ocupações estudantis, as ocupações dos artistas no Ministério da Cultura, a luta das feministas e toda uma série de discussões, mas que não constituem uma constelação. A constelação pressupõe o quê? Que quem entra na constelação pode ocupar qualquer espaço, circula em qualquer espaço, isto é, quebra a ideia de lugares e de fala específicos, o que é uma oposição sacrossanta para uma certa ideia de mobilização hoje. Estabelecem-se lugares de fala, mas não se percebe o quão isso é autoritário e antipolítico.
Política
O que há de próprio da política é que ela desconstitui todos os lugares e produz uma espécie de sujeito genérico que pode ocupar todos os lugares porque é capaz de perceber as ressonâncias de todas as demandas. Então, essa crítica a uma certa universalidade criou um efeito terrível, destrutível em certo ponto da esquerda. Ao fazer a crítica à normatividade inerente a uma concepção de universalidade, esquece-se que a crítica à falsa universalidade é feita tendo em vista uma verdadeira universalidade e que esse seria o objetivo teórico maior da esquerda, que é se questionar sobre o que seria uma verdadeira universalidade.
Enquanto não houver capacidade de reorganizar demandas dentro de um sistema de constelação que permita a encarnação de todas essas demandas em um ponto, não haverá mais esquerda com força de mobilização. Teremos algo semelhante ao que aconteceu na Alemanha há alguns anos, quando apareceu um partido chamado Pirata, que teve uma ascensão fulminante, inclusive chegando em segundo lugar em algumas eleições, com uma única pauta: transparência e liberdade de expressão na internet. Onde está este partido hoje? Este partido sumiu porque não se cria política de pauta em pauta, a soma das pautas não é maior que o todo. Portanto, perdeu-se uma visão de totalidade do processo, de estrutura sistêmica, e isso bloqueia radicalmente a potência de transformação social.
A melancolia do vazio da esquerda inaugurado em 2013 é uma das reações naturais. Freud descreve as melancolias como uma forma de amor por objetos perdidos. A esquerda perdeu seus objetos, só que não foi capaz de, em função do luto, elaborar algo novo. Fixou-se no que foi perdido, e o que foi perdido é internalizado no próprio âmago como uma sombra. Nesse contexto há duas consequências possíveis: ou se entra em um processo de autorreprimenda pelo que foi perdido, responsabilizando-se pela perda, levando-se a uma situação de completa paralisia; ou se transforma a perda em agressividade como se o objeto perdido fosse uma espécie de traidor, que não poderia ter sido perdido. Portanto, de uma forma ou de outra, fica-se preso em um tempo passado. Isso se chama melancolia, uma fixação no interior de uma experiência atemporal que não tem mais nenhum tipo de implicação. Isso é uma patologia clássica de situações em que há um processo de esgotamento sem outra alternativa à vista.
Uma das funções da melancolia é paralisar a capacidade de ação do sujeito. Por isso que o afeto fundamental do poder é a melancolia, o poder não age coagindo as pessoas diretamente; não existe nenhum poder que se imponha por coerção por muito tempo, porque coerção é uma coisa que precisa se fazer 24 horas. Por isso, ao invés desta coerção externa, precisa-se de uma coerção interna, que é dada pela internalização de um princípio disciplinar. O poder age internalizando uma experiência melancólica, o poder nos melancoliza e essa é sua função, fazer com que nos deparemos a todo momento com a crença da impotência da nossa força. Isto é, uma experiência de fraqueza contínua que vai até uma posição depressiva de achar que “não tenho mais nada a fazer, é melhor eu voltar aos meus afazeres e esquecer completamente a minha dimensão social”. Isso que acontece no Brasil é só uma explicitação de um processo cultural, é assim que ele se perpetua. A primeira questão para recuperarmos nossa imaginação política é fazermos a crítica aos afetos melancólicos.
Conhecemos o modelo de incorporação, que é esse modelo baseado no populismo, ou seja, incorpora várias demandas dentro de uma figura que de fato aparece como líder e essa liderança funciona como um significante vazio. Nunca se conseguiu transpor para dentro do Estado todos os conflitos da sociedade civil. Então, os conflitos entre os monetaristas e os desenvolvimentistas, entre o Banco Central e o Ministério do Planejamento, entre o Ministério do Agronegócio e os ecologistas, entre o Ministério da Agricultura e o Ministério do Meio Ambiente, entre as Forças Armadas e os defensores de direitos humanos, e assim ad infinitum tornam-se objetos de manobra gerencial.
O populismo e suas figuras aparecem como uma espécie de mediador universal que, quando se espera que o conflito exploda, dá uma compensação simbólica ao perdedor, dizendo: eu de fato estou do seu lado, mas a correlação de forças não permite, mas a coisa mudará à frente. Só que as coisas nunca mudam e vai se perdendo adesão paulatinamente. Conhecemos muito bem esse processo de incorporação na América Latina. O teórico argentino Ernesto Laclau descreveu esse modelo de maneira fantástica e ele funciona muito bem na nossa realidade.
Outras incorporações
Só que cabe a nós pensar outra forma de incorporação, essa forma de incorporação de fato constitui o povo como uma categoria fundamental do político, logo, o povo é aquele que se incorpora no interior desse processo com as massas, e tem sempre o jogo do povo contra a elite. Aí há todo o malabarismo retórico de tentar esconder que uma parte da elite está com você. Sabemos como isso se deu no peronismo até que não fosse possível mais nenhuma possibilidade de governo; vimos que isso aconteceu também no Brasil. O que temos como característica desse modelo de incorporação, em larga escala, é uma gestão de paralisia e que é a transformação do povo em categoria central, que pode descambar em várias coisas, entre elas, em um tipo de nacionalismo como elemento fundamental da esquerda, o que, diga-se de passagem, é uma das coisas mais abstrusas possíveis.
Se a esquerda tem uma razão de existência, isso se deve ao seu cosmopolitismo e ao seu internacionalismo, o que não se pode entender em um esquema nacionalista. Esse negócio de falar em estado-nação em 2016 só pode ser piada. Seria muito mais importante estar discutindo instituições pós-nacionais e estados pós-nacionais do que esse tipo de recuperação de uma velharia, do ponto de vista mesmo da organização institucional, que não existe mais.
Povo
Isso tudo acontece porque o povo é tomado como uma categoria central. Todavia, diria duas coisas: o povo não é uma categoria fundamental da política, é uma categoria provisória. É importante que ele se constitua em situações provisórias para dar forma a certos antagonismos fundamentais, mas é impossível falar em povo sem falar em processo de exclusão, em processo de identidade e em processo de unidade. Ao invés de nos prendermos à dicotomia entre povo e indivíduo, deveríamos estar tentando desenvolver um terceiro tipo, que não é nem um e nem outro, nem associação de indivíduos, tal como o liberalismo propõe, cada um com seus múltiplos interesses, e esses interesses entrarão em uma relação contratual, em que estabeleço um contrato virtual.
Falta a capacidade de sabermos o que significa uma associação de sujeitos políticos, isto é, são sujeitos que não estão dotados de interesses e identidades, mas podem entrar em uma relação de constelação sem constituir uma unidade. Esse é um tipo de corpo político de outra natureza, que não cabe nas ideias de nação, estado-nação, de povo, mas que consegue construir um tipo de implicação genérica com o que é heterogêneo, com a ideia de heterogeneidade básica, que acredito ser um elemento fundamental, ainda mais para a situação de regressão política que vemos hoje não só no Brasil, mas no mundo inteiro.
A crise se tornou um modo de existência. Se fosse um marxista vulgar eu diria que desde o Marx a ideia fundamental é que o capitalismo é um sistema de gestão de crises, ele faz da crise seu modo de existência. Isso porque há um processo de flexibilização contínua, que é o resultado desse embate entre força produtiva e relação social de produção. Isto é, em um modelo de desenvolvimento, que faz com que seja absolutamente necessário, decisivo e fundamental que as formas de vida e as relações tradicionais sejam continuamente quebradas, o que ocorre por um princípio fundamental, o do aumento geral de produtividade. Esse aumento geral da produtividade é um objetivo em si.
China e o capitalismo
Uma questão interessante é: por que não apareceu o capitalismo na China inicialmente? Porque do ponto de vista tecnológico, a China, sob vários aspectos, estava à frente da Europa nos séculos XVII e XVIII, e o capitalismo não surge lá porque não existe a ideia de excedente. Não existe a ideia de que eu preciso fazer o processo funcionar para que o excedente de produção apareça e com esse excedente de produção eu consiga estabelecer uma dinâmica cada vez maior da produtividade, jogando os preços para baixo, desvalorizando o trabalho etc.
Toda essa dinâmica gera um processo contínuo de desvalorização do trabalho que significa que há duas possibilidades: a intensificação dos regimes de trabalho, que nos leva a trabalhar duas vezes mais que nossos pais para ganhar a mesma coisa e ter o mesmo padrão de vida; ou gerir catástrofes, como uma guerra, por exemplo, assim dá-se um jeito de sumir com uma parte da população para fora do processo de trabalho.
Crise contínua
Dentro desse modelo, que só se intensificou para uma situação na qual viveremos em crise contínua, o discurso da crise terá duas funções: a primeira é uma função econômica, a segunda é uma função moral, que é a pior de todas. Tem uma função econômica porque dirá que a crise não passa e, por conta disso, faz-se uma espécie de flexibilização contínua de todas as regras e direitos trabalhistas. Aí se faz uma Reforma da Previdência hoje e daqui a cinco anos outra, daqui a dez anos mais uma e para sempre até não ter mais o sistema de previdência, e isso também com os direitos trabalhistas, até não haver mais direito trabalhista algum.
Crise moral
Esse é o horizonte. Agora, tem uma questão que é interessante: por que se tem uma passividade da população em relação a isso? Porque a crise é um discurso moral. Um discurso moral é mais ou menos um jogo de virtudes: só aquele que tem a virtude da coragem sobreviverá, ou seja, se tem coragem de assumir riscos, de ter sua força empreendedora de operar inovações, então a crise não o afetará; a crise afeta aqueles que são paralisados – os covardes – ou aqueles que agem como crianças mimadas e que esperam o amparo de algum tipo de Estado protetor ou Estado-providência.
O sujeito que se vê fracassado economicamente se vê fracassado moralmente. Assim vai se criando uma situação na qual a responsabilidade da impossibilidade de inserção econômica é colocada nas costas, única e exclusivamente, dos indivíduos. Não é por outra razão que temos patologias da ação da disfunção dos indivíduos, como a depressão. O que é interessante é a incapacidade de desenvolver um trabalho sistemático para quebrar esse tipo de argumento.
Patrimonialismo econômico
Todos os dados que vemos nos últimos quatro ou cinco anos mostra quão patrimonialista é o nosso modelo econômico; quão impermeável à concorrência ele é; quão impenetrável o empreendedorismo é. O fato é que no sentido mais tradicional e tosco do termo, a entrada na vida social com capital vindo de herança do patrimônio familiar é decisiva. Isso porque chegamos a uma situação em que é muito fácil não trabalhar quando se tem herança, sobretudo em um país que tem 14,75% de taxa de juros. Por exemplo, se tenho R$ 3 milhões no banco e eu sei jogar um pouco com o sistema financeiro, eu não trabalho mais, eu não preciso. Isso tem um padrão mundial. Se uma pessoa tem três ou quatro imóveis, pode se transformar, simplesmente, em um gestor dos próprios imóveis desse sistema e não precisará fazer mais nada, absolutamente nada.
Acho engraçado que um dos discursos mais contínuos hoje do conservador brasileiro é o prazer quase infantil que as pessoas têm de sair na rua e gritar ou chamar os outros de vagabundo. Sempre achei isso muito engraçado, pois o sujeito reclama contra um negro que tem uma cota, contra o outro que recebe um auxílio de Bolsa Família, mas, vagabundo por vagabundo, quem realmente não trabalha neste país? Quem de fato nunca precisou trabalhar?
Rentismo
Tenho amigos que nunca trabalharam porque fizeram uma coisa aqui, outra ali, trabalharam alguns anos e chegaram aos 50 anos e não trabalham mais. Todos nós conhecemos pessoas assim, eles estão presentes nas grandes cidades brasileiras, operando seu patrimônio, esperando um parente morrer para sua renda aumentar. No Brasil o imposto sobre herança vai no máximo a 4%, enquanto nos Estados Unidos o imposto pode chegar a 40%, o que obriga à filantropia, pois ninguém vai dar 40% para o Estado podendo fazer marketing pessoal. Ou seja, em um país como o nosso, é muito difícil não ter a impressão de que o sistema econômico é constituído simplesmente para fazer a defesa do patrimônio, nada mais do que isso. Se eu tiver três imóveis, consigo não declarar no Imposto de Renda se eu alugá-los. No entanto, se eu vir aqui e receber R$ 300 pela palestra e me esquecer de colocar isso no imposto, pode ter certeza de que serei multado.
Os estudantes ocupando as escolas? Eu poderia dizer que se trata de uma juventude absolutamente fantástica pela sua capacidade de mobilização, pela capacidade de estabelecer pautas absolutamente decisivas, mas eu queria insistir em outro aspecto. Eu vejo isso como uma vergonha profunda, porque um país que chega a um ponto em que seus estudantes precisam ocupar uma escola porque eles querem ter aula, porque eles não querem que a escola seja fechada e sucateada, enfim. Vocês conseguem imaginar o que isso significa? Isso não tem nada a ver com esquerda ou com direita, isso não é uma discussão sobre esquerdismo ou pensamento conservador, isso é uma discussão sobre falência completa do Estado brasileiro.
Mesmo em um país governado por conservadores não se fecham escolas. Pode ser que cobrem nas universidades ou nos demais níveis de ensino, mas não conheço nenhum lugar que tenha fechado. Isso significa muito claramente como temos um sistema de defesa de casta, de casta política.
Anti-intelectualismo
As escolas são fechadas por duas razões: primeiro, porque a casta que nos governa é uma casta que consegue se perpetuar, ela não tem mais nenhum tipo de medo – porque a relação que o político tem que ter com a sociedade é de medo, se o político não teme mais a sociedade, acabou. Por exemplo, em São Paulo temos a mesma casta governando há 20 anos. Uma das coisas mais engraçadas que achei dessa situação toda foi uma declaração do Paulo Maluf que falava: “eu nunca fechei escola, eu abri escola.” E, de fato, é uma maneira caricata de falar que estamos em uma situação em que não tem nem mais esse discurso de que educação e saúde são prioritárias.
Há outro elemento, que vem justificado por certo anti-intelectualismo que é muito forte na sociedade brasileira, e que desde o começo da Nova República tornou-se uma espécie de “acordo” para colocar esse anti-intelectualismo para fora. Sempre houve uma parcela da população que ficava falando que as universidades brasileiras não produzem nada, “são antros de marxismo”. Entretanto, olha que engraçado, fui fazer meu curso de filosofia na Universidade de São Paulo - USP e eu nunca tive uma aula de Marx, se pegar meu currículo verão que é verdade; tive aula sobre Hobbes, sobre Locke, mas sobre o Marx eu não tive, logo, tem uma coisa estranha aqui.
A fantasia da genialidade
Isso sempre esteve presente, porque faz parte de um imaginário de certa parcela da população que não consegue ser reconhecida na sua “genialidade”, pois o sujeito pensa que tem uma genialidade inacreditável, então se volta contra a universidade e contra a Constituição. Esse tipo de lógica do ressentimento todo mundo conhece. No entanto, isso ganhou o direito de cidade, de fala, direitos de expressão por uma série de razões.
Porque, em última instância, mesmo certos intelectuais conservadores fizeram um flerte inacreditável com os intelectuais mais toscos e primários, a ponto de eles nos deixarem com saudade de uma época em que se tinha como pensamento conservador o José Guilherme Merquior, que podia ter todos os defeitos que tinha, mas pelo menos lia o que criticava, o que já é pedir demais nos dias hoje. Ou alguém como Golbery do Couto e Silva, se fôssemos à biblioteca do sujeito encontraríamos os livros de quem ele criticava, porque partia-se do pressuposto que você tinha que entender seu inimigo.
O problema é que se reduziu o discurso intelectual no Brasil a uma lógica de esconjuração, então não faz mais sentido nenhum esperar que se tenha uma formação efetiva para preparar as pessoas para alguma forma de debate. Há uma série de responsáveis, não é só o pensamento conservador.
Mesmo no interior da esquerda há uma incapacidade da intelectualidade de se colocar como uma força crítica, como se a ideia de crítica já fosse um crime de lesa-majestade, já fosse um tipo de imposição de classe. Assim, dá-se a impressão de que, em última instância, não há nenhuma razão de fazer a defesa da forma difícil, da experiência complexa e daquilo que de certa maneira te tira do lugar.
Discurso religioso
Para finalizar, temos uma parcela dos discursos religiosos brasileiros, em especial dos evangélicos, que fazem um trabalho primário nesse sentido, pois acreditam que só existe um livro para ser lido, que nenhum outro é necessário e, além disso, que todos os demais devem ser criticados. No Brasil, essas igrejas ganharam força na Ditadura Militar não por acaso; se olharmos de onde vêm os direitos de retransmissão de televisão e rádio, verificaremos que na época da Ditadura eles sobem vertiginosamente, porque era a maneira de utilizar o setor mais reacionário das igrejas norte-americanas que estavam vindo para cá como uma contrabalança ao que eram as alas dos progressistas da Igreja.
Nos Estados Unidos teremos, do ponto de vista político e religioso, alas conservadoras e progressistas – basta lembrar que Martin Luther King era um pastor e uma pessoa que teve um papel absolutamente decisivo nos debates sobre direitos humanos. Certamente ele morreria de tristeza de ver o tipo de intervenção que temos hoje em relação a certos problemas ligados a direitos humanos vindos dessas igrejas. Então, tudo isso foi se alimentando e retroalimentando, criando uma situação como essa.
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sábado, 30 de julho de 2016
terça-feira, 26 de julho de 2016
I scream, your scream, we all scream for ice cream!
Escracho
(Eleonora de Lucena)
A elite brasileira está dando um tiro no pé. Embarca na canoa do retrocesso social, dá as mãos a grupos fossilizados de oligarquias regionais, submete-se a interesses externos, abandona qualquer esboço de projeto para o país. Não é a primeira vez. No século 19, ficou atolada na escravidão, adiando avanços. No século 20, tentou uma contrarrevolução, em 1932, para deter Getúlio Vargas. Derrotada, percebeu mais tarde que havia ganho com as políticas nacionais que impulsionaram a industrialização.
Mesmo assim, articulou golpes. Embalada pela Guerra Fria, aliou-se a estrangeiros, parcelas de militares e a uma classe média mergulhada no obscurantismo. Curtiu o desenvolvimentismo dos militares. Depois, quando o modelo ruiu, entendeu que democracia e inclusão social geram lucros. Em vários momentos, conseguiu vislumbrar as vantagens de atuar num país com dinamismo e mercado interno vigoroso. Roberto Simonsen foi o expoente de uma era em que a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) não se apequenava.
Os últimos anos de crescimento e ascensão social mostraram ser possível ganhar quando os pobres entram em cena e o país flerta com o desenvolvimento. Foram tempos de grande rentabilidade. A política de juros altos, excrescência mundial, manteve as benesses do rentismo. Quando, em 2012, foi feito um ensaio tímido para mexer nisso, houve gritaria. O grupo dos beneficiários da bolsa juros partiu para o ataque. O Planalto recuou e se rendeu à lógica do mercado financeiro. Foi a senha para os defensores do neoliberalismo, aqui e lá fora, reorganizarem forças para preparar a reocupação do território. Encontraram a esquerda dividida, acomodada e na defensiva por causa dos escândalos. Apesar disso, a direita perdeu de novo no voto.
Conseguiu, todavia, atrair o centro, catalisando o medo que a recessão espalhou pela sociedade. Quando a maré virou, pelos erros do governo e pela persistência de oito anos da crise capitalista, os empresários pularam do barco governista, que os acolhera com subsídios, incentivos, desonerações. Os que poderiam ficar foram alvos da sanha curitibana. Acuada, nenhuma voz burguesa defendeu o governo. O impeachment trouxe a galope e sem filtro a velha pauta ultraconservadora e entreguista, perseguida nos anos FHC e derrotada nas últimas quatro eleições. Privatizações, cortes profundos em educação e saúde, desmanche de conquistas trabalhistas, ataque a direitos.
O objetivo é elevar a extração de mais valia, esmagar os pobres, derrubar empresas nacionais, extinguir ideias de independência. Em suma, transferir riqueza da sociedade para poucos, numa regressão fulminante. Previdência, Petrobras, SUS, tudo é implodido com a conversa de que não há dinheiro. Para os juros, contudo, sempre há. Com instituições esfarrapadas, o Brasil está à beira do abismo. O empresariado parece não perceber que a destruição do país é prejudicial a ele mesmo. Sem líderes, deixa-se levar pela miragem da lógica mundial financista e imediatista, que detesta a democracia.
Amargando uma derrota histórica, a esquerda precisa se reinventar, superar divisões, construir um projeto nacional e encontrar liderança à altura do momento. A novidade vem da energia das ruas, das ocupações, dos gritos de "Fora, Temer!". Não vai ser um passeio a retirada de direitos e de perspectiva de futuro. Milhões saborearam um naco de vida melhor. Nem a "teologia da prosperidade" talvez segure o rojão. A velha luta de classes está escrachada nas esquinas.
(Eleonora de Lucena)
A elite brasileira está dando um tiro no pé. Embarca na canoa do retrocesso social, dá as mãos a grupos fossilizados de oligarquias regionais, submete-se a interesses externos, abandona qualquer esboço de projeto para o país. Não é a primeira vez. No século 19, ficou atolada na escravidão, adiando avanços. No século 20, tentou uma contrarrevolução, em 1932, para deter Getúlio Vargas. Derrotada, percebeu mais tarde que havia ganho com as políticas nacionais que impulsionaram a industrialização.
Mesmo assim, articulou golpes. Embalada pela Guerra Fria, aliou-se a estrangeiros, parcelas de militares e a uma classe média mergulhada no obscurantismo. Curtiu o desenvolvimentismo dos militares. Depois, quando o modelo ruiu, entendeu que democracia e inclusão social geram lucros. Em vários momentos, conseguiu vislumbrar as vantagens de atuar num país com dinamismo e mercado interno vigoroso. Roberto Simonsen foi o expoente de uma era em que a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) não se apequenava.
Os últimos anos de crescimento e ascensão social mostraram ser possível ganhar quando os pobres entram em cena e o país flerta com o desenvolvimento. Foram tempos de grande rentabilidade. A política de juros altos, excrescência mundial, manteve as benesses do rentismo. Quando, em 2012, foi feito um ensaio tímido para mexer nisso, houve gritaria. O grupo dos beneficiários da bolsa juros partiu para o ataque. O Planalto recuou e se rendeu à lógica do mercado financeiro. Foi a senha para os defensores do neoliberalismo, aqui e lá fora, reorganizarem forças para preparar a reocupação do território. Encontraram a esquerda dividida, acomodada e na defensiva por causa dos escândalos. Apesar disso, a direita perdeu de novo no voto.
Conseguiu, todavia, atrair o centro, catalisando o medo que a recessão espalhou pela sociedade. Quando a maré virou, pelos erros do governo e pela persistência de oito anos da crise capitalista, os empresários pularam do barco governista, que os acolhera com subsídios, incentivos, desonerações. Os que poderiam ficar foram alvos da sanha curitibana. Acuada, nenhuma voz burguesa defendeu o governo. O impeachment trouxe a galope e sem filtro a velha pauta ultraconservadora e entreguista, perseguida nos anos FHC e derrotada nas últimas quatro eleições. Privatizações, cortes profundos em educação e saúde, desmanche de conquistas trabalhistas, ataque a direitos.
O objetivo é elevar a extração de mais valia, esmagar os pobres, derrubar empresas nacionais, extinguir ideias de independência. Em suma, transferir riqueza da sociedade para poucos, numa regressão fulminante. Previdência, Petrobras, SUS, tudo é implodido com a conversa de que não há dinheiro. Para os juros, contudo, sempre há. Com instituições esfarrapadas, o Brasil está à beira do abismo. O empresariado parece não perceber que a destruição do país é prejudicial a ele mesmo. Sem líderes, deixa-se levar pela miragem da lógica mundial financista e imediatista, que detesta a democracia.
Amargando uma derrota histórica, a esquerda precisa se reinventar, superar divisões, construir um projeto nacional e encontrar liderança à altura do momento. A novidade vem da energia das ruas, das ocupações, dos gritos de "Fora, Temer!". Não vai ser um passeio a retirada de direitos e de perspectiva de futuro. Milhões saborearam um naco de vida melhor. Nem a "teologia da prosperidade" talvez segure o rojão. A velha luta de classes está escrachada nas esquinas.
sábado, 23 de julho de 2016
"Eu me ocupo falando mal dos outros para não reformar a mim mesmo e aos meus costumes. O tropeço do outro é uma forma catártica de eu transferir minha angústia. E se o outro for poderoso, se outro for rico, ou se o outro for inteligente, a sua queda causa mais prazer ainda, porque ele foi punido por ter erguido a cabeça acima do pântano no qual eu estou." (Leandro Karnal)
segunda-feira, 11 de julho de 2016
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"Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar exaustos-e-correndo." (Eliane Brum)
Me deparei com um GIF compartilhado pelo amigo João de Ricardo, em que os arcanos maiores do tarot vão rodando em alta velocidade e, se você clica, a "roleta" para numa carta, a sorteada. Tirei a carta O Julgamento, cuja interpretação junguiana eu colo abaixo e que tem tudo a ver com o momento de hoje e das últimas semanas.
Sallie Nichols:
O julgamento dramatiza o momento de ressurreição espiritual de diversas maneiras. Pela primeira vez, uma figura humana se vê diante da fonte de iluminação. Não foi este o caso em O Enamorado, A Torre da Destruição, A Estrela, A Lua ou O Sol, onde a atividade no reino arquetípico ocorreu acima e atrás das figuras terrenas, que lhe sentiram os efeitos, mas apenas indiretamente por intermédio do inconsciente. No Julgamento, a figura central percebe conscientemente e ouve o chamado.
Em pé, ao lado do sepulcro aberto, um homem e uma mulher saúdam o recém-erguido em atitudes de devota ação de graças. Dão as boas-vindas àquele que estava morto (sepultado no inconsciente) e que volta a uma vida nova.
A figura central da gravura é evidentemente o herói. Quando vistos pela última vez, ele e a dama que o acompanhava foram retratados caindo derrubados da Torre aparentemente inexpugnável por um raio. Nas três cartas seguintes, A Estrela, A Lua e O Sol, ele desaparece da nossa vista. Nós o imaginávamos jazendo na lama pegajenta de uma depressão profunda. Agora ressurge da sua longa noite para juntar-se às duas figuras que estão de pé, vigiando-lhe a tumba.
Uma reunião, de qualquer espécie, sempre inaugura um novo princípio: nunca resulta no restabelecimento do status quo anterior. Quer tenha partido para uma jornada externa, quer tenha partido para uma jornada interna, volta o viandante muito diferente do que partiu. E o mesmo acontece com os que ficaram para trás. Todos terão mudados nesse ínterim.
A vitalidade da figura que se ergue da tumba é aparente. Pintado como jovem, sólido e musculoso, sua carne reluz de saúde. Se bem que, do ponto de vista da consciência cotidiana, tenha parecido 'perdido' e 'morto', volta renovado, tanto de corpo como de espírito, revitalizado pelo contato com a terra e pelas aventuras nas profundezas subterrâneas.
No caso do sentimento, fazemos escolhas de acordo com uma hierarquia racional de valores sentimentais. Não se confunda esse tipo de decisão consciente pelo sentimento, tal como Jung a concebe, com a emoção inconsciente; trata-se, ao contrário, de um julgamento de valor muito preciso, baseado muito mais no que sentimos a respeito de alguma coisa do que no que pensamos a respeito dela. As conclusões alcançadas através das funções racionais (à diferença das que derivam da sensação e da intuição) podem ser descritas e sustentadas de modo racional.
Se a sua jornada pelas profundezas for bem-sucedida, o Pensador deposto voltará à vida renascido. Daqui por diante, será capaz de operar não somente através do pensamento, mas também com outros aspectos de si mesmo, agora disponíveis para uso consciente. O pensamento continuará sendo a função superior, mas ele também terá se transformado - revitalizado pelo contato com os mananciais de que flui toda a criatividade. Então, a personalidade do ego e todas as funções da psique experimentarão a espécie de reunião pintada no Julgamento. Quando isso acontece, o que antes era sentido como punhalada nas costas e raio destruidor do céu, será visto como um anjo de assombro e de glória.
No julgamento, um anjo irrompe, de improviso, de parte alguma para fazer um pronunciamento desafiador. O advento de um libertador nessas condições assume dimensões catastróficas, que Jung descreve da seguinte maneira: 'O nascimento do libertador equivale a uma grande catástrofe, visto que uma nova e poderosa a vida surge onde não se antecipava nenhuma vida, nenhuma força ou nenhum desenvolvimento novo. Flui do inconsciente, isto é, da parte da psique que, quer o desejemos, quer não, é desconhecida e, portanto, tratada como nada por todos os racionalistas. Dessa região desacreditada e rejeitada vem o novo tributário da energia, a revivificação da vida.
Sallie Nichols:
O julgamento dramatiza o momento de ressurreição espiritual de diversas maneiras. Pela primeira vez, uma figura humana se vê diante da fonte de iluminação. Não foi este o caso em O Enamorado, A Torre da Destruição, A Estrela, A Lua ou O Sol, onde a atividade no reino arquetípico ocorreu acima e atrás das figuras terrenas, que lhe sentiram os efeitos, mas apenas indiretamente por intermédio do inconsciente. No Julgamento, a figura central percebe conscientemente e ouve o chamado.Em pé, ao lado do sepulcro aberto, um homem e uma mulher saúdam o recém-erguido em atitudes de devota ação de graças. Dão as boas-vindas àquele que estava morto (sepultado no inconsciente) e que volta a uma vida nova.
A figura central da gravura é evidentemente o herói. Quando vistos pela última vez, ele e a dama que o acompanhava foram retratados caindo derrubados da Torre aparentemente inexpugnável por um raio. Nas três cartas seguintes, A Estrela, A Lua e O Sol, ele desaparece da nossa vista. Nós o imaginávamos jazendo na lama pegajenta de uma depressão profunda. Agora ressurge da sua longa noite para juntar-se às duas figuras que estão de pé, vigiando-lhe a tumba.
Uma reunião, de qualquer espécie, sempre inaugura um novo princípio: nunca resulta no restabelecimento do status quo anterior. Quer tenha partido para uma jornada externa, quer tenha partido para uma jornada interna, volta o viandante muito diferente do que partiu. E o mesmo acontece com os que ficaram para trás. Todos terão mudados nesse ínterim.
A vitalidade da figura que se ergue da tumba é aparente. Pintado como jovem, sólido e musculoso, sua carne reluz de saúde. Se bem que, do ponto de vista da consciência cotidiana, tenha parecido 'perdido' e 'morto', volta renovado, tanto de corpo como de espírito, revitalizado pelo contato com a terra e pelas aventuras nas profundezas subterrâneas.
No caso do sentimento, fazemos escolhas de acordo com uma hierarquia racional de valores sentimentais. Não se confunda esse tipo de decisão consciente pelo sentimento, tal como Jung a concebe, com a emoção inconsciente; trata-se, ao contrário, de um julgamento de valor muito preciso, baseado muito mais no que sentimos a respeito de alguma coisa do que no que pensamos a respeito dela. As conclusões alcançadas através das funções racionais (à diferença das que derivam da sensação e da intuição) podem ser descritas e sustentadas de modo racional.
Se a sua jornada pelas profundezas for bem-sucedida, o Pensador deposto voltará à vida renascido. Daqui por diante, será capaz de operar não somente através do pensamento, mas também com outros aspectos de si mesmo, agora disponíveis para uso consciente. O pensamento continuará sendo a função superior, mas ele também terá se transformado - revitalizado pelo contato com os mananciais de que flui toda a criatividade. Então, a personalidade do ego e todas as funções da psique experimentarão a espécie de reunião pintada no Julgamento. Quando isso acontece, o que antes era sentido como punhalada nas costas e raio destruidor do céu, será visto como um anjo de assombro e de glória.
No julgamento, um anjo irrompe, de improviso, de parte alguma para fazer um pronunciamento desafiador. O advento de um libertador nessas condições assume dimensões catastróficas, que Jung descreve da seguinte maneira: 'O nascimento do libertador equivale a uma grande catástrofe, visto que uma nova e poderosa a vida surge onde não se antecipava nenhuma vida, nenhuma força ou nenhum desenvolvimento novo. Flui do inconsciente, isto é, da parte da psique que, quer o desejemos, quer não, é desconhecida e, portanto, tratada como nada por todos os racionalistas. Dessa região desacreditada e rejeitada vem o novo tributário da energia, a revivificação da vida.
"A fim de ser senhor de si mesmo, o Enamorado precisa libertar-se da atração regressiva do ventre que procura encerrá-lo, seja ele qual for, e ingressar na virilidade. Como em todo parto, haverá derramamento de sangue mas haverá também uma nova vida. (...) Como disse Jung, repetidamente, o conflito é a essência da vida e o pré-requisito necessário a todo o crescimento espiritual. A vida não pode ser vivida no abstrato. Apenas enfrentando cada conflito individual e sofrendo até a sua resolução ou transcendência chegamos ao mais profundo do nosso eu. É, não raro, um conflito aparentemente insolúvel (ou um sintoma neurótico causado pela repressão do conflito) que leva a pessoa à análise e a coloca no caminho da individuação. Como o sabiam os velhos alquimistas, tal conflito é a matéria prima, o primeiro ingrediente necessário a todo o crescimento espiritual. (...) O seis é único de muitas maneiras. Pitágoras chamou ele o primeiro número perfeito porque as suas partes alíquotas (1, 2 e 3) somadas dão o mesmo 6. É também o número da completação: no relato do Gênesis, o Senhor criou o mundo em 6 dias. Simbolicamente os seis é retratado como uma estrela de 6 pontas. Essa estrela se compõe de dois triângulos: um deles com o ápice apontado para o céu, e o outro com o ápice apontado para baixo. O superior é conhecido como o triângulo de fogo e o inferior como o triângulo de água. Dessa maneira, o espírito masculino e a emoção feminina se juntam para criar uma forma nova e brilhante - uma estrela para guiar o herói em sua jornada. O triângulo superior aponta para Eros, o Destino, a quixotesca figura no céu sobre a qual não temos domínio algum. O triângulo inferior aponta para baixo, o reino da escolha humana. Aqui esses elementos se unem para criar a estrela do destino humano, uma força que inclui e transcende a ambos." (Sallie Nichols)
Visão budista de felicidade em Clóvis de Barros Filho, um advogado, jornalista e professor universitário que possui graduação em Direito pela USP e em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, mestrado em Science Politique pela Université de Paris 3 - Sorbonne-Nouvelle e doutorado em Ciências da Comunicação pela USP. Obteve a Livre-Docência pela Escola de Comunicações e Artes da USP, onde atualmente é professor.
domingo, 10 de julho de 2016
A psiquiatra Kátia Mecler escreveu o livro “Psicopatas do Cotidiano”, sobre pessoas aparentemente normais que estão no trabalho, em casa ou na escola e têm algum transtorno de personalidade.
A principal motivação para escrever o livro foi perceber o sofrimento dos pacientes que lidam com indivíduos que têm transtornos de personalidade. Muitos chegam com a autoestima arrasada, num grau de estresse emocional inimaginável. Procuraram ajuda especializada por considerarem que têm algum problema, quando, na verdade, o problema está no outro.
Os casos são muitos. Os psicopatas do cotidiano injetam sentimento de culpa, impotência e inadequação naqueles que estão no seu entorno. Pais que sufocam os filhos com uma vigilância sem limites, homens e mulheres envolvidos em relações amorosas excessivamente dependentes, pessoas que sofrem com parceiros manipuladores e transgressores, funcionários sufocados por chefes abusivos, enfim, um universo de situações que podem se repetir na sua casa, na sua escola, no seu trabalho.
Os psicopatas do cotidiano são pessoas com transtorno de personalidade, que é um jeito de ser inflexível, rígido, que envolve sentimentos ou sensações, pensamentos ou comportamentos repetitivos que acarretam disfunção em alguma área da vida.
Imagine que você tenha se casado com uma pessoa muito dependente, desse tipo que popularmente chamamos de “chiclete”. Ela está sempre exigindo a sua atenção, sofre por achar que não tem o cuidado que merece (mesmo que você nada faça além de tentar agradá-la) e acredita que é questão de tempo ser abandonada. Em algum tempo, você estará exausto emocionalmente. Outra situação comum: a mãe que faz cenas dramáticas cada vez que é contestada ou criticada pelos filhos, que chega a ter sintomas físicos de algum mal-estar para chamar a atenção. Pense ainda naquele vizinho que está sempre arrumando encrenca no prédio. Desconfia de tudo e de todos e não perde uma chance de comprar briga com quem quer que seja. São tipos com que todos nós convivemos, que exibem traços patológicos de transtorno de personalidade. Ou seja: sempre agem da mesma maneira, não admitem ser confrontados, não enxergam problemas em si.
Tanto a OMS quanto a Associação Americana de Psiquiatria estimam que cerca de 10% da população têm um ou mais traços patológicos de transtornos de personalidade.
No trabalho, em família ou na sociedade, há alguns caminhos para conviver de maneira menos traumática com um psicopata do cotidiano. O primeiro passo é entender que você não é a única vítima. Pessoas com esses traços agem da mesma forma com todos. Saiba também que confrontá-lo não vai adiantar. Dificilmente uma pessoa com essas características compreende que tem um problema – ela acredita que o problema são os outros. Quando você compreende que seu chefe é daquele jeito e que não vai mudar, você aprende a se defender e a reagir melhor.
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Na infância e na adolescência, assim como para os círculos mais popularescos da sociedade, mulher inteligente é homem, e homem inteligente é mulher.
domingo, 3 de julho de 2016
"Não há política de esquerda sem pelo menos três questões fundamentais: primeiro, uma defesa radical do igualitarismo. A gente vive num país onde mesmo essas questões que são pautas reformistas sociais democráticas clássicas, como imposto sobre grandes fortunas, estão ausentes do debate político brasileiro. Que são pautas que poderiam indicar onde o Estado poderia conseguir se financiar para oferecer serviços públicos de qualidade para seus cidadãos. O segundo ponto é a defesa radical da democracia direta. Existe uma tradição ruim na esquerda, que é uma tradição dirigista, centralizadora. Há uma exigência de mostrar que nós podemos avançar muito no modelo de democracia que não só apenas os processos decisórios, mas de gestão, sejam pensados em democracia direta. E o outro, que é fundamental para a esquerda, é o direito humano, que é o direito de resistência. Falar em direitos humanos é falar em resistência. O que está longe de ser o caso do Brasil, onde se criminaliza qualquer tipo de revolta, o mais rápido possível." (Vladimir Safatle)
Dez coisas que você talvez não saiba sobre moradores de rua
(Soninha Francine)
1 - Muitos ligam para a família (mães, filhas e filhos, irmãos, sobrinhas) e desligam quando alguém atende porque têm vergonha. Outros mentem dizendo que está tudo bem, porque não querem que a mãe sofra. A maioria, quando a gente pergunta sobre sua família, responde: "É esta aqui", mostrando os moradores de rua ao seu redor.
2 - Em São Paulo, muitos se referem ao seu lugar (debaixo de um viaduto, colado ao muro, no meio de um canteiro) como "maloca" e se denominam "maloqueiros". Ficam muito irritados se chamados de "mendigos".
3 - Em várias ocasiões, pedem ajuda para parar de fumar, cheirar ou beber. "Me arruma uma internação?" é um pedido frequente. Muitos já passaram várias vezes por CAPS e internações. Muitos pararam de fumar e cheirar, mas não conseguem largar a pinga. Uma garrafa conhecida como "barrigudinha" ou "gorote" custa R$2,50.
4 - Por que não querem ir para albergues? Porque não podem levar a mulher, os amigos, as crianças e os cachorros - e é lógico que jamais os deixariam para trás. Porque não podem deixar a carrocinha na rua (pode ser levada pelo rapa ou roubada). Porque não querem dormir em um quarto com dezenas de conhecidos com quem não se dão ou desconhecidos. Porque não podem beber ou fumar enquanto estiverem lá (e ficam furiosos quando outros cheiram ou usam pedra nos banheiros). Porque as camas têm pulgas. Porque alguns albergues os obrigam a sair da cama antes das 6 da manhã. Porque alguns albergues são muito distantes de onde "moram", e tem kombi pra levar mas ninguém os traz de volta.
5 - Elas e eles adoram ganhar kits de higiene: sabonete, barbeador, desodorante, xampu, escova e pasta de dentes. E também gel (homens) e esmalte de unha.
6 - Muitos cobertores são abandonados durante o dia por motivos diversos, entre eles o fato de que moradoras e moradores de rua, por problemas fisiológicos, psicológicos etc, urinam enquanto dormem. E lavar a roupa, para quem mora na rua, é um luxo. Os que fazem questão procuram um chafariz ou a sarjeta mesmo.
7 - De um jeito ou de outro, assistem televisão. Ontem mesmo um garoto que dormia no meio da ciclovia da Auro Soares viu minha camisa de futebol e perguntou "E o Peru, hein?". Também comentam política e filmes. Outro dia o assunto de madrugada no ponto de ônibus do Pateo do Colégio era "A Lagoa Azul".
8 - Muitos tomam remédios controlados porque têm convulsões. Às vezes (toda hora) o rapa leva seus objetos - mochila com documentos, roupa, livros (sim, livros!), remédios - e eles não conseguem repor o que foi levado.
9 - Se morrerem sem terem nenhum documento com foto (acontece muito) e sem que se localize a família, um amigo que queira evitar que sejam enterrados como indigentes ("não reclamados", "não identificados") precisará ir duas vezes a uma delegacia tentar obter autorização para providenciar a "inumação". Às vezes não dá certo.
10 - É impressionante como gostam de comemorar seus aniversários. Experimente fazer festa para um deles (bolo, velinhas, refrigerante) - os outros todos vão ficar ansiosos na expectativa do seu dia e fazer contagem regressiva
(Soninha Francine)
1 - Muitos ligam para a família (mães, filhas e filhos, irmãos, sobrinhas) e desligam quando alguém atende porque têm vergonha. Outros mentem dizendo que está tudo bem, porque não querem que a mãe sofra. A maioria, quando a gente pergunta sobre sua família, responde: "É esta aqui", mostrando os moradores de rua ao seu redor.
2 - Em São Paulo, muitos se referem ao seu lugar (debaixo de um viaduto, colado ao muro, no meio de um canteiro) como "maloca" e se denominam "maloqueiros". Ficam muito irritados se chamados de "mendigos".
3 - Em várias ocasiões, pedem ajuda para parar de fumar, cheirar ou beber. "Me arruma uma internação?" é um pedido frequente. Muitos já passaram várias vezes por CAPS e internações. Muitos pararam de fumar e cheirar, mas não conseguem largar a pinga. Uma garrafa conhecida como "barrigudinha" ou "gorote" custa R$2,50.
4 - Por que não querem ir para albergues? Porque não podem levar a mulher, os amigos, as crianças e os cachorros - e é lógico que jamais os deixariam para trás. Porque não podem deixar a carrocinha na rua (pode ser levada pelo rapa ou roubada). Porque não querem dormir em um quarto com dezenas de conhecidos com quem não se dão ou desconhecidos. Porque não podem beber ou fumar enquanto estiverem lá (e ficam furiosos quando outros cheiram ou usam pedra nos banheiros). Porque as camas têm pulgas. Porque alguns albergues os obrigam a sair da cama antes das 6 da manhã. Porque alguns albergues são muito distantes de onde "moram", e tem kombi pra levar mas ninguém os traz de volta.
5 - Elas e eles adoram ganhar kits de higiene: sabonete, barbeador, desodorante, xampu, escova e pasta de dentes. E também gel (homens) e esmalte de unha.
6 - Muitos cobertores são abandonados durante o dia por motivos diversos, entre eles o fato de que moradoras e moradores de rua, por problemas fisiológicos, psicológicos etc, urinam enquanto dormem. E lavar a roupa, para quem mora na rua, é um luxo. Os que fazem questão procuram um chafariz ou a sarjeta mesmo.
7 - De um jeito ou de outro, assistem televisão. Ontem mesmo um garoto que dormia no meio da ciclovia da Auro Soares viu minha camisa de futebol e perguntou "E o Peru, hein?". Também comentam política e filmes. Outro dia o assunto de madrugada no ponto de ônibus do Pateo do Colégio era "A Lagoa Azul".
8 - Muitos tomam remédios controlados porque têm convulsões. Às vezes (toda hora) o rapa leva seus objetos - mochila com documentos, roupa, livros (sim, livros!), remédios - e eles não conseguem repor o que foi levado.
9 - Se morrerem sem terem nenhum documento com foto (acontece muito) e sem que se localize a família, um amigo que queira evitar que sejam enterrados como indigentes ("não reclamados", "não identificados") precisará ir duas vezes a uma delegacia tentar obter autorização para providenciar a "inumação". Às vezes não dá certo.
10 - É impressionante como gostam de comemorar seus aniversários. Experimente fazer festa para um deles (bolo, velinhas, refrigerante) - os outros todos vão ficar ansiosos na expectativa do seu dia e fazer contagem regressiva
"Capitalistas sem capital AKA pobres de direita, quais são os planos de vocês para o tão sonhado futuro neoliberal? Já têm ideia do megaempreendimento que farão ou serem recontratados como terceirizados por 2/3 do salário já estará de bom tamanho?" (Rômulo Natan)
Na mesma linha da poesia interpretada pelo Abujamra, "Quando se vê...".
Viviane Mosé sobre o sofrimento
Eu cheguei
(Thich Nhât Hanh)
Quando inspira, você pode dizer, “Eu cheguei”. Quando expira, pode dizer, “Estou em casa”. Nossa verdadeira casa, nosso verdadeiro lar é o aqui e agora. É apenas no aqui e agora que temos nosso verdadeiro refúgio. No momento presente, podemos entrar em contato com nossos ancestrais, com Deus e com nossos filhos e netos. Eles estão disponíveis no momento presente. Este é o seu verdadeiro lar.
E se você sente que está em casa, então não precisa correr mais, e sua prática é bem sucedida.
“Eu cheguei” é uma prática, não uma declaração. Eu cheguei no aqui e agora e posso tocar a vida profundamente com todas as suas maravilhas. A chuva é uma maravilha, o brilho do sol é uma maravilha, as árvores também, assim como os rostos das crianças. Há muitas maravilhas da vida ao nosso redor e dentro de nós. Nossos olhos são uma maravilha – precisamos apenas abri-los e vemos todos os tipos de cor e formas.
Nossa prática é a prática da plena atenção – plena atenção ao respirar, andar, lavar louça e cozinhar – sempre habitando no aqui e agora e não permitindo a nós mesmos ser empurrados para longe pelas preocupações, projetos para o futuro ou lamentos sobre o passado. Temos que reclamar nossa liberdade porque a perdemos. Estamos presos pelo nosso passado e pelas nossas preocupações sobre o futuro. Não temos a capacidade de estar aqui e agora de forma a tocar a vida. É por isso que é muito importante aprender a arte de estar em paz no aqui e agora.
(Thich Nhât Hanh)
Quando inspira, você pode dizer, “Eu cheguei”. Quando expira, pode dizer, “Estou em casa”. Nossa verdadeira casa, nosso verdadeiro lar é o aqui e agora. É apenas no aqui e agora que temos nosso verdadeiro refúgio. No momento presente, podemos entrar em contato com nossos ancestrais, com Deus e com nossos filhos e netos. Eles estão disponíveis no momento presente. Este é o seu verdadeiro lar.
E se você sente que está em casa, então não precisa correr mais, e sua prática é bem sucedida.
“Eu cheguei” é uma prática, não uma declaração. Eu cheguei no aqui e agora e posso tocar a vida profundamente com todas as suas maravilhas. A chuva é uma maravilha, o brilho do sol é uma maravilha, as árvores também, assim como os rostos das crianças. Há muitas maravilhas da vida ao nosso redor e dentro de nós. Nossos olhos são uma maravilha – precisamos apenas abri-los e vemos todos os tipos de cor e formas.
Nossa prática é a prática da plena atenção – plena atenção ao respirar, andar, lavar louça e cozinhar – sempre habitando no aqui e agora e não permitindo a nós mesmos ser empurrados para longe pelas preocupações, projetos para o futuro ou lamentos sobre o passado. Temos que reclamar nossa liberdade porque a perdemos. Estamos presos pelo nosso passado e pelas nossas preocupações sobre o futuro. Não temos a capacidade de estar aqui e agora de forma a tocar a vida. É por isso que é muito importante aprender a arte de estar em paz no aqui e agora.
ACIDENTE
is a ENTE ÁCIDO
ACID ant
is a ENTE ÁCIDO
ACID ant
Programa-050 by Revelações*Douglasdickel on Mixcloud
sábado, 2 de julho de 2016
A noite é uma ilusão. Tem sol do outro lado do planeta.
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