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quarta-feira, 3 de outubro de 2018
Sonhei (em 06/08/2018) com o nome "Nusmaia". Fiz uma busca por nome da página do censo do IBGE de 2010, e o resultado foi "não existe ou a ocorrência é menor que 3". Pois no Facebook existem duas mulheres com este nome (será que são exatamente as duas - menos de três - de que o IBGE fala?): Nusmaia Silva e Jackelline Nusmaia.
"Solução é o que
mais tem."
(Bolsonaro ou Daciolo, no debate de 10 de agosto - agora não lembro, mas não faz diferença...)
"Em Portugal, nós escrevemos a palavra 'arquitectas' com um C atrás do T, que é para abrir o E. Senão fica 'arquitetas', pra nós. Como é óbvio, são coisas muito diferentes. Porque 'arquibancada' é a maior bancada, 'arqui-inimigo' é o maior inimigo e 'arquitetas' são as maiores tetas! Se eu for a uma livraria, comprar um livro, escrito com o acordo ortográfico, que se chama 'As arquitetas de Samantha Fox', e eu de repente descubro que é sobre as senhoras que lhe desenharam a casa, vou ficar desapontado." (Ricardo Araújo Pereira - Oficioso)
"Procure uma árvore e deixe-a ensinar-lhe sua quietude." (Eckhart Tolle)
"O Partido Novo foi criado principalmente por dois homens muito ricos que ocuparam cargos de alto escalão em bancos brasileiros. João Dionisio Amoêdo é engenheiro e administrador de empresas que construiu carreira em bancos e acabou se tornando um banqueiro. Começou estagiário no Citibank e acabou virando sócio da BBA. Tem relacionamento longo e estreito com Armínio Fraga, Gustavo Franco e boa parte do escalão da equipe econômica do governo FHC. O também engenheiro Ricardo Coelho Taboaço também construiu carreira no alto escalão de instituições financeiras. Foi sócio diretor do Grupo Icatu e vice-presidente do Citibank." (João Filho)
"Nas escolas, o que você aprende hoje? Ideologia de gênero, partidarização e análise crítica das questões, apenas." (JB na RedeTV!)
A Síndrome de Münchausen por Procuração (SMPP) é uma forma de abuso na infância, em que o perpetrador assume a doença indiretamente (por procuração), exacerbando, falsificando ou produzindo histórias clínicas, evidências laboratoriais, causando lesões físicas e induzindo a hospitalizações com procedimentos terapêuticos e diagnósticos desnecessários. Esta forma de abuso é ocultada pelo seu perpetrador, que demonstra aparente interesse e um envolvimento excessivo nos cuidados com a criança. A doença é usualmente 'fabricada' pela mãe, mas ocasionalmente com a participação simbiótica do filho. Há uma grande variedade de sintomas, com seus respectivos métodos de indução e/ou simulação, descritos na literatura: apneia (sufocação), vômitos intratáveis (intoxicação ou falso relato), sangramentos (intoxicação ou adição de substâncias: tinta, corantes, cacau), exantemas (intoxicação, arranhões, aplicação de cáusticos, pintura da pele), crises convulsivas (intoxicações, falso relato, sufocação), diarreia (intoxicações por laxativos), febre (falsificação da temperatura ou da curva térmica). É uma entidade relativamente rara, de difícil diagnóstico, levando a criança, muitas vezes, a procedimentos diagnósticos desnecessários e potencialmente danosos à mesma.
A expressão Síndrome de Münchausen foi empregada por Asher em 1951, na qual foi definido o comportamento de pacientes que apresentam transtorno fictício. Tais pacientes dramatizam e produzem doenças, fornecem histórias médicas elaboradas e alteram exames, de tal modo que consigam a atenção de equipes médicas. A Síndrome de Münchausen por Procuração foi descrita em 1977 pelo Médico Pediatra Roy Meadow, caracterizando-se por doenças produzidas em crianças por suas mães, de modo que estas beneficiam-se da atenção dispensada por equipes médicas para a doença de seus filhos. Esta forma grave de abuso na criança frequentemente passa despercebida pelos médicos, por desconhecimento da mesma ou por não estar presente na lista de diagnósticos diferenciais, o que pode ser difícil num primeiro momento, demorando muito tempo para se chegar ao diagnóstico, resultando em complicações decorrentes de tratamentos e procedimentos desnecessários, levando, às vezes, à morte do paciente devido à recorrência do abuso. A taxa de mortalidade estimada para crianças vítimas de SMPP é de 9%.
Libow e Schreier classificaram 3 tipos de perpetradores da SMPP. Os que 'procuram ajuda' (help seekers) são aqueles que procuram o médico com frequência na tentativa de chamar atenção para sua ansiedade, exaustão, depressão e inabilidade nos cuidados com a criança. Nesta forma são incluídos casos de violência doméstica, gravidez indesejada ou não planejada e mães solteiras. Os 'indutores ativos' (active inducers) induzem doenças nos seus filhos com métodos dramáticos. Estas mães são ansiosas, depressivas e apresentam um alto grau de negação, dissociação de afeto e projeção paranoide. Secundariamente, elas têm uma excelente relação com a equipe médica e um controle dos procedimentos terapêuticos com extremada atenção. Os 'viciados em médicos' (doctors addicts) são obsessivos por obterem tratamento para doenças inexistentes em seus filhos. Consiste em falsificar e mentir à respeito da história clínica e dos sintomas. Acreditam que seus filhos estão doentes, não acreditam nos médicos e costumam medicá-los por conta própria. Atingem crianças maiores de 6 anos, e as mães são desconfiadas, irritadas, antagonistas e paranoicas.
Muitas teorias existem para explicar por que essas mães podem fabricar doenças em seus filhos. A mais comum é a perda precoce de suas mães, que é um dado frequente nos casos de SMPP. Essa perda representa uma rejeição e uma falta de amor e atenção na infância. Muitas formas de causar doenças nestas crianças têm sido relatadas, sendo o envenenamento a mais descrita pela literatura médica, começando em casa com pequenas quantidades e aumentando progressivamente até a hospitalização. As drogas mais usadas são: anticonvulsivantes, como fenobarbital, benzodiazepínicos, cloreto de sódio, insulina, aspirina, xarope de ipeca, antidepressivos, antieméticos, codeína, entre outros. Há relatos desde desidratação, causada por restrição de oferta de líquidos até septicemia, causada pela injeção de material contaminado por sonda ou catéter.
http://www.jped.com.br/conteudo/99-75-04-281/port.pdf
A expressão Síndrome de Münchausen foi empregada por Asher em 1951, na qual foi definido o comportamento de pacientes que apresentam transtorno fictício. Tais pacientes dramatizam e produzem doenças, fornecem histórias médicas elaboradas e alteram exames, de tal modo que consigam a atenção de equipes médicas. A Síndrome de Münchausen por Procuração foi descrita em 1977 pelo Médico Pediatra Roy Meadow, caracterizando-se por doenças produzidas em crianças por suas mães, de modo que estas beneficiam-se da atenção dispensada por equipes médicas para a doença de seus filhos. Esta forma grave de abuso na criança frequentemente passa despercebida pelos médicos, por desconhecimento da mesma ou por não estar presente na lista de diagnósticos diferenciais, o que pode ser difícil num primeiro momento, demorando muito tempo para se chegar ao diagnóstico, resultando em complicações decorrentes de tratamentos e procedimentos desnecessários, levando, às vezes, à morte do paciente devido à recorrência do abuso. A taxa de mortalidade estimada para crianças vítimas de SMPP é de 9%.
Libow e Schreier classificaram 3 tipos de perpetradores da SMPP. Os que 'procuram ajuda' (help seekers) são aqueles que procuram o médico com frequência na tentativa de chamar atenção para sua ansiedade, exaustão, depressão e inabilidade nos cuidados com a criança. Nesta forma são incluídos casos de violência doméstica, gravidez indesejada ou não planejada e mães solteiras. Os 'indutores ativos' (active inducers) induzem doenças nos seus filhos com métodos dramáticos. Estas mães são ansiosas, depressivas e apresentam um alto grau de negação, dissociação de afeto e projeção paranoide. Secundariamente, elas têm uma excelente relação com a equipe médica e um controle dos procedimentos terapêuticos com extremada atenção. Os 'viciados em médicos' (doctors addicts) são obsessivos por obterem tratamento para doenças inexistentes em seus filhos. Consiste em falsificar e mentir à respeito da história clínica e dos sintomas. Acreditam que seus filhos estão doentes, não acreditam nos médicos e costumam medicá-los por conta própria. Atingem crianças maiores de 6 anos, e as mães são desconfiadas, irritadas, antagonistas e paranoicas.
Muitas teorias existem para explicar por que essas mães podem fabricar doenças em seus filhos. A mais comum é a perda precoce de suas mães, que é um dado frequente nos casos de SMPP. Essa perda representa uma rejeição e uma falta de amor e atenção na infância. Muitas formas de causar doenças nestas crianças têm sido relatadas, sendo o envenenamento a mais descrita pela literatura médica, começando em casa com pequenas quantidades e aumentando progressivamente até a hospitalização. As drogas mais usadas são: anticonvulsivantes, como fenobarbital, benzodiazepínicos, cloreto de sódio, insulina, aspirina, xarope de ipeca, antidepressivos, antieméticos, codeína, entre outros. Há relatos desde desidratação, causada por restrição de oferta de líquidos até septicemia, causada pela injeção de material contaminado por sonda ou catéter.
http://www.jped.com.br/conteudo/99-75-04-281/port.pdf
Quem está consigo mesmo, nunca está solitário. Pare de resistir à amizade consigo mesmo.
"Todas as coisas dependem de todas as outras para surgir, desenvolver e passar." (Buda)
"Eu estou à disposição dos senhores, só que só em cima dos montes. Lá embaixo eles vão tentar me matar. Mas manda subir aqui pra ver se Deus não vai levar! Tenta pegar a gente aqui pra ver se Deus não vai levar! Debate? Eu vou encontrar contigo. Vou deixar muito claro. Nova Ordem Mundial, Illuminati e a Maçonaria: saiam da nação brasileira! Nação brasileira é do Senhor Jesus Cristo, homens e mulheres que dobram o joelho a Jesus. Eu sou o fruto da tua oração, eu sou fruto porque você orou e eu surgi." (Cabo Daciolo)
"A prática de contratar empresas, para contratar pessoas, em lugar de contratá-las diretamente, por meio de certame público, potencializa as possibilidades de desvio de dinheiro público, cria procedimentos desnecessários e burocratiza a prestação de serviço público." (Valdete Souto Severo, juíza do trabalho)
"A terceirização é responsável (e tantos estudos o comprovam) pela facilitação do trabalho infantil, pela facilitação do trabalho escravizado, pela redução de salário, pela supressão de férias, pelo aumento do adoecimento em razão do trabalho... A terceirização facilita a corrupção em âmbito público, boicota a regra constitucional que exige contratação por concurso, rompendo definitivamente com a impessoalidade. Afasta quem trabalha de seus pares e de quem efetivamente se beneficia com a sua força de trabalho; fragmenta a classe trabalhadora, torna invisíveis pessoas de carne e osso que passam o dia em ambientes em que não são reconhecidas nem se sentem integradas."
"A terceirização é responsável (e tantos estudos o comprovam) pela facilitação do trabalho infantil, pela facilitação do trabalho escravizado, pela redução de salário, pela supressão de férias, pelo aumento do adoecimento em razão do trabalho... A terceirização facilita a corrupção em âmbito público, boicota a regra constitucional que exige contratação por concurso, rompendo definitivamente com a impessoalidade. Afasta quem trabalha de seus pares e de quem efetivamente se beneficia com a sua força de trabalho; fragmenta a classe trabalhadora, torna invisíveis pessoas de carne e osso que passam o dia em ambientes em que não são reconhecidas nem se sentem integradas."
Análise psicanalítica do fenômeno Boçalnázi, por Christian Dunker, professor de psicanálise da USP:
"A importância que o Bolsonaro dá à esquerda, a importância que ele dá para o antipetismo, na apresentação discursiva dele, é um fenômeno descrito por Freud em Psicologia das Massas e Análise do Eu - é uma estratégia para aumentar a coesão grupal. Vivemos momentos de anomia social, de insegurança, de desesperança, de desalento, com as pessoas parando de procurar emprego, de violação de expectativas (o país tinha crescido, tinha dado um bom passo à frente e agora está regredindo em números e indicadores sociais). Essa é a situação ideal para uma fragilização do nosso sentimento de pertencimento, de expectativa de futuro e de ligação entre o futuro e o passado.
Nesses momentos, torna-se tentador reforçar a pertinência das pessoas aos seus grupos (sejam grupos religiosos, sejam grupos esportivos, sejam grupos de classe, sejam os grupos ligados ao gênero) por meio do ódio a um inimigo que estaria causando tudo isso. Na Alemanha nazista foram os judeus; na Europa contemporânea são os imigrantes; nos Estados Unidos, na época do macarthismo, era o perigo comunista. Precisamos, para manter a coesão grupal, para sentir que estamos seguros, de um inimigo comum. Isso reforça os laços de fraternidade. É exatamente o que fazem figuras políticas como o Bolsonaro.
Um texto muito interessante que eu recomendo é 'A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista', escrito por Theodor Adorno em 1949. Ele mostra como como a ascensão do fascismo responde a uma certa instrumentalização de frustrações: a decepção com as instituições, a decepção com um determinado estado de coisas, e incita as pessoas a valorizarem o que Adorno chama de 'o pequeno grande homem', que é aquela pessoa que fala 'como qualquer um', aquela pessoa que podia estar sentado com a gente num jantar de domingo, aquela pessoa que aparece como autêntica.
Ele fala o que pensa, então ele pode agredir os outros, ele pode diminuir os outros, mas pode porque ele não está fazendo teatro: ele está dizendo a verdade. É a ideia de uma comunicação direta, não mediada pelas instâncias institucionais, legais, discursivas, e que não responde ao diálogo sobre os fatos. Esse tipo de personagem, num debate, quando ouve uma pergunta de que não gosta, em vez de responder ele ataca quem fez a pergunta. Ele ataca os seus inimigos preferenciais, ele diz que tudo vai se resolver - o problema na educação, o problema na saúde, o problema na ciência, o problema na cultura, tudo que está indo mal - quando a gente atacar e destruir este pequeno grupo, que em geral é minoritário e que muitas vezes é produzido como uma espécie de fantoche ou de espantalho.
Há uma reprodução das ideias do outro ou do grupo oponente de maneira que ela fica tão deformada, que ela só pode ser objeto de ódio, e aqueles que não concordam conosco, que não pertencem a esse grupo, que não fazem parte dessa massa, só podem ser considerados pessoas irracionais, idiotas, pessoas que perderam a razão, ou então pessoas corruptas, porque elas estão de alguma forma conectadas com aquele grupo invasor, com aquela laranja podre, aquele objeto que intrusivamente destrói a ordem e harmonia. Por isso, esse tipo de discurso vai enfatizar a ideia de retorno à ordem, retorno à harmonia, como faz Trump nos Estados Unidos, 'vamos voltar àquele momento em que nós fomos grandes'.
Isso incita as fantasias infantis. Quando éramos pequenos, acreditávamos sem restrições no poder protetor de um pai soberano, de um pai que pode ser muito amado, mas também muito temido; por ele, a gente renuncia o nosso arbítrio, renuncia a nossa capacidade de pensamento próprio - e confia nele. Esse tipo de discurso está baseado numa comunhão de afetos, não exatamente num programa de governo, em explicações de como as coisas vão ser feitas, e é o que a gente encontra na retórica do Bolsonaro. (…) Esse é um discurso muito cativante, porque, na hora que a gente está desamparado, na hora em que a gente está angustiado, a figura do pai protetor é uma espécie de retorno de experiências infantis.
Esse tipo de discurso infantiliza o eleitorado, o que torna o debate muito difícil. Enquanto os outros estão querendo tornar a coisa mais complexa, ver os fatos, analisar caso a caso, essa pessoa está dizendo que a isso é justamente a causa do problema, que os outros estão complicando demais. 'Vamos falar simples, vamos falar como você falaria', e, ao dizer isso, está havendo uma sedução, ele está dizendo que você vai ser representado nesse modo de fazer governo, nesse modo de pensar o estado, nesse modo de fazer política. Foi o que ocorreu nos momentos que antecederam a ascensão do fascismo na Itália, do nazismo na Alemanha, do stalinismo na União Soviética.
A adoração de um líder condutor nas massas, alguém que resolva os problemas por mim, é muito característica de uma posição infantil. Não é à toa que Wilhelm Reich, um teórico que levou adiante a psicologia de massas e a análise do fascismo, as ideias do Freud, disse que há um outro elemento que está ligado à dominação desse líder fascista, que é a forma como ele reprime a sexualidade. Ele diz 'Esse tipo de sexualidade você não deve exercer, não me venha com outras formas de satisfação'.
O que ele faz ao dizer isso? Ele não só quer irritar aqueles que têm uma outra orientação sexual, uma outra posição de gênero, mas está propagando uma anunciação de que devemos recalcar sexualidade, abafar a sexualidade; que devemos trabalhar e deixar de prazer. Para isso ele vai precisar escolher alvos. Talvez muitos não saibam, mas os homossexuais foram levados para os campos de concentração, os ciganos também, muitas etnias minoritárias também, porque seus modos de reprodução, de satisfação, e de vida familiar seriam de gozo excessivo, e esse gozo excessivo está no núcleo da ação recalcadora que discursos como esse promove."
"A importância que o Bolsonaro dá à esquerda, a importância que ele dá para o antipetismo, na apresentação discursiva dele, é um fenômeno descrito por Freud em Psicologia das Massas e Análise do Eu - é uma estratégia para aumentar a coesão grupal. Vivemos momentos de anomia social, de insegurança, de desesperança, de desalento, com as pessoas parando de procurar emprego, de violação de expectativas (o país tinha crescido, tinha dado um bom passo à frente e agora está regredindo em números e indicadores sociais). Essa é a situação ideal para uma fragilização do nosso sentimento de pertencimento, de expectativa de futuro e de ligação entre o futuro e o passado.
Nesses momentos, torna-se tentador reforçar a pertinência das pessoas aos seus grupos (sejam grupos religiosos, sejam grupos esportivos, sejam grupos de classe, sejam os grupos ligados ao gênero) por meio do ódio a um inimigo que estaria causando tudo isso. Na Alemanha nazista foram os judeus; na Europa contemporânea são os imigrantes; nos Estados Unidos, na época do macarthismo, era o perigo comunista. Precisamos, para manter a coesão grupal, para sentir que estamos seguros, de um inimigo comum. Isso reforça os laços de fraternidade. É exatamente o que fazem figuras políticas como o Bolsonaro.
Um texto muito interessante que eu recomendo é 'A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista', escrito por Theodor Adorno em 1949. Ele mostra como como a ascensão do fascismo responde a uma certa instrumentalização de frustrações: a decepção com as instituições, a decepção com um determinado estado de coisas, e incita as pessoas a valorizarem o que Adorno chama de 'o pequeno grande homem', que é aquela pessoa que fala 'como qualquer um', aquela pessoa que podia estar sentado com a gente num jantar de domingo, aquela pessoa que aparece como autêntica.
Ele fala o que pensa, então ele pode agredir os outros, ele pode diminuir os outros, mas pode porque ele não está fazendo teatro: ele está dizendo a verdade. É a ideia de uma comunicação direta, não mediada pelas instâncias institucionais, legais, discursivas, e que não responde ao diálogo sobre os fatos. Esse tipo de personagem, num debate, quando ouve uma pergunta de que não gosta, em vez de responder ele ataca quem fez a pergunta. Ele ataca os seus inimigos preferenciais, ele diz que tudo vai se resolver - o problema na educação, o problema na saúde, o problema na ciência, o problema na cultura, tudo que está indo mal - quando a gente atacar e destruir este pequeno grupo, que em geral é minoritário e que muitas vezes é produzido como uma espécie de fantoche ou de espantalho.
Há uma reprodução das ideias do outro ou do grupo oponente de maneira que ela fica tão deformada, que ela só pode ser objeto de ódio, e aqueles que não concordam conosco, que não pertencem a esse grupo, que não fazem parte dessa massa, só podem ser considerados pessoas irracionais, idiotas, pessoas que perderam a razão, ou então pessoas corruptas, porque elas estão de alguma forma conectadas com aquele grupo invasor, com aquela laranja podre, aquele objeto que intrusivamente destrói a ordem e harmonia. Por isso, esse tipo de discurso vai enfatizar a ideia de retorno à ordem, retorno à harmonia, como faz Trump nos Estados Unidos, 'vamos voltar àquele momento em que nós fomos grandes'.
Isso incita as fantasias infantis. Quando éramos pequenos, acreditávamos sem restrições no poder protetor de um pai soberano, de um pai que pode ser muito amado, mas também muito temido; por ele, a gente renuncia o nosso arbítrio, renuncia a nossa capacidade de pensamento próprio - e confia nele. Esse tipo de discurso está baseado numa comunhão de afetos, não exatamente num programa de governo, em explicações de como as coisas vão ser feitas, e é o que a gente encontra na retórica do Bolsonaro. (…) Esse é um discurso muito cativante, porque, na hora que a gente está desamparado, na hora em que a gente está angustiado, a figura do pai protetor é uma espécie de retorno de experiências infantis.
Esse tipo de discurso infantiliza o eleitorado, o que torna o debate muito difícil. Enquanto os outros estão querendo tornar a coisa mais complexa, ver os fatos, analisar caso a caso, essa pessoa está dizendo que a isso é justamente a causa do problema, que os outros estão complicando demais. 'Vamos falar simples, vamos falar como você falaria', e, ao dizer isso, está havendo uma sedução, ele está dizendo que você vai ser representado nesse modo de fazer governo, nesse modo de pensar o estado, nesse modo de fazer política. Foi o que ocorreu nos momentos que antecederam a ascensão do fascismo na Itália, do nazismo na Alemanha, do stalinismo na União Soviética.
A adoração de um líder condutor nas massas, alguém que resolva os problemas por mim, é muito característica de uma posição infantil. Não é à toa que Wilhelm Reich, um teórico que levou adiante a psicologia de massas e a análise do fascismo, as ideias do Freud, disse que há um outro elemento que está ligado à dominação desse líder fascista, que é a forma como ele reprime a sexualidade. Ele diz 'Esse tipo de sexualidade você não deve exercer, não me venha com outras formas de satisfação'.
O que ele faz ao dizer isso? Ele não só quer irritar aqueles que têm uma outra orientação sexual, uma outra posição de gênero, mas está propagando uma anunciação de que devemos recalcar sexualidade, abafar a sexualidade; que devemos trabalhar e deixar de prazer. Para isso ele vai precisar escolher alvos. Talvez muitos não saibam, mas os homossexuais foram levados para os campos de concentração, os ciganos também, muitas etnias minoritárias também, porque seus modos de reprodução, de satisfação, e de vida familiar seriam de gozo excessivo, e esse gozo excessivo está no núcleo da ação recalcadora que discursos como esse promove."
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O Brasil é responsável por 25% das mortes por tiro no planeta.
Os Estados Unidos têm 25% da população carcerária do mundo.
Os Estados Unidos têm 25% da população carcerária do mundo.
"O segundo turno só ocorre quando nenhum candidato alcança a maioria absoluta dos votos válidos (votos brancos e nulos são excluídos). Para que a eleição seja decidida no primeiro turno é preciso que o candidato obtenha 50% dos votos válidos mais 1.
Os votos nulos e brancos não são considerados votos válidos, ou seja, aqueles contabilizados pela Justiça Eleitoral na hora de verificar os candidatos eleitos. Sendo assim, mesmo que a maioria dos eleitores votem branco ou nulo, a eleição não é anulada, e vence o candidato mais votado.
Quando você vota em branco ou nulo, você deixa de votar e está colaborando para a diminuição dos números verdadeiros que cada candidato deveria ter para ganhar uma eleição, o que permite que pessoas com menos votos se elejam. Os votos em branco ou nulos impactam na diminuição da quantidade de votos válidos. A conta não é complicada de fazer: quanto mais votos nulos ou brancos, menos votos válidos um candidato precisará receber para ser eleito." (Exame)
Em palestra no TRT: "Sobre a violência, Caco Barcellos apontou que apenas 5% das mortes violentas no Brasil são cometidas em assaltos. Apesar de um discurso público que frequentemente responsabiliza os grupos marginalizados pela violência, ele trouxe dados que relacionam mais de 20% dessas mortes à ação da polícia e de grupos de extermínio. Os outros 75% das mortes estariam associadas aos “cidadãos de bem” - que se envolvem em crimes passionais, em brigas ou rixas. (...) A mortalidade juvenil oscila de 0,4/100 mil pessoas em bairros nobres de São Paulo, como Higienópolis, até 120/100 mil jovens em comunidades pobres. Essas diferenças foram apontadas também na educação, com a baixa qualidade do ensino básico público, e na diferença de renda gritante entre uma maioria de 107 milhões de brasileiros que ganham até 1,2 salários mínimos e uma minoria de 71,44 mil pessoas que recebe mais de 146 salários mínimos. Na opinião dele, o que torna o trabalho jornalístico relevante é proporcionar essas informações úteis, a partir das quais as pessoas podem construir sua opinião e contribuir para mudar a sociedade." (Álvaro Lima/Secretaria de Comunicação do TRT-RS)
No grupo Homens Unidos Contra..., fiz uma postagem que não foi aprovada. Ela dizia que o grupo é de homens unidos e que, apesar disso, há pessoas desesperadas para compartimentar: "quem aqui é espírita?", "quem aqui é ateu?", "quem aqui é mineiro?" etc. Lancei a reflexão de que é própria do ser humano essa propensão a se reunir em contraposição. Num grupo enorme de pessoas igualizadas, o indivíduo se sente perdido e precisa procurar um grupo menor para se identificar e se contrapor a outro grupo menor. Contrapor-se a alguém ausente, como o objeto do grupo, "não tem graça", não tem com quem disputar. É o espírito de tribo, que ajuda a explicar por que as torcidas de futebol são tão sólidas e perenes (e por que, por exemplo, formam-se dois grupinhos opostos nos BBBs). O administrador deve ter achado essa reflexão menos importante do que a tentativa de ver quem tem a religião ou a UF natal mais adequada pra combater o Boinorabo.
Viliano Vg Fassini escreveu:
Aos que pensam em votar no Bolso. Naro:
Se ele não vencer, por favor NÃO VENHAM pra cá.
No Reino Unido o ABORTO é legalizado e oferecido pelo Estado.
As políticas sociais tipo BOLSA VAGABUNDO são infinitamente maiores que as do Brasil.
Tem sistema de saúde, PUBLICO, GRATUITO e de QUALIDADE, talvez o melhor do mundo.
FEMINISMO não é mimimi.
O POLITICAMENTE CORRETO foi incorporado naturalmente.
Porte de ARMA NÃO é permitido ao cidadão e a maioria da POLICIA anda DESARMADA! Casamento de PESSOAS DO MESMO SEXO é legal e absolutamente normal.
CORRUPÇÃO existe e é combatida por instituições sérias (não por mitos ou herois) que punem políticos e empresários sejam eles de direita ou de esquerda.
RACISMO é crime e é combatido, NÃO é VITIMISMO.
Esse país lutou arduamente CONTRA o NAZISMO e sabe que ele não é de esquerda.
TORTURADORES e ESTUPRADORES não são idolatrados, são presos junto com os que os idolatram.
Um amiguinho do COISO chamado Nigel Farage se aproveitou de ignorantes e revoltados pra votar a favor do BREXIT, meses depois teve que se retirar da cena pois suas promessas LACRADORAS não tinham como ser cumpridas.
O consumo de DROGAS é visto como problema de saúde não de polícia e logo logo serão descriminalizadas, seguindo o modelo de Portugal (ahamm! Não vá pra lá também!!!).
Basicamente, aqui no berço do CAPITALISMO e do neoliberalismo, só tem comunistas e outras coisas que vocês vão odiar. Esse país é subdesenvolvido e moralmente depravado. Não venham!
Aliás, não adianta vir pra Alemanha, França, Irlanda também. Procurem ir pros Estados Unidos que lá tem o Trump e é mais a cara de vocês!!!
Aos que pensam em votar no Bolso. Naro:
Se ele não vencer, por favor NÃO VENHAM pra cá.
No Reino Unido o ABORTO é legalizado e oferecido pelo Estado.
As políticas sociais tipo BOLSA VAGABUNDO são infinitamente maiores que as do Brasil.
Tem sistema de saúde, PUBLICO, GRATUITO e de QUALIDADE, talvez o melhor do mundo.
FEMINISMO não é mimimi.
O POLITICAMENTE CORRETO foi incorporado naturalmente.
Porte de ARMA NÃO é permitido ao cidadão e a maioria da POLICIA anda DESARMADA! Casamento de PESSOAS DO MESMO SEXO é legal e absolutamente normal.
CORRUPÇÃO existe e é combatida por instituições sérias (não por mitos ou herois) que punem políticos e empresários sejam eles de direita ou de esquerda.
RACISMO é crime e é combatido, NÃO é VITIMISMO.
Esse país lutou arduamente CONTRA o NAZISMO e sabe que ele não é de esquerda.
TORTURADORES e ESTUPRADORES não são idolatrados, são presos junto com os que os idolatram.
Um amiguinho do COISO chamado Nigel Farage se aproveitou de ignorantes e revoltados pra votar a favor do BREXIT, meses depois teve que se retirar da cena pois suas promessas LACRADORAS não tinham como ser cumpridas.
O consumo de DROGAS é visto como problema de saúde não de polícia e logo logo serão descriminalizadas, seguindo o modelo de Portugal (ahamm! Não vá pra lá também!!!).
Basicamente, aqui no berço do CAPITALISMO e do neoliberalismo, só tem comunistas e outras coisas que vocês vão odiar. Esse país é subdesenvolvido e moralmente depravado. Não venham!
Aliás, não adianta vir pra Alemanha, França, Irlanda também. Procurem ir pros Estados Unidos que lá tem o Trump e é mais a cara de vocês!!!
"Sua turma da faculdade tem 40 alunos. Teve votação pra escolher o nome da turma. Só 10 foram. Destes, 6 votaram um nome. Você não concordou, mas não votou. A vontade de 6 pessoas foi maior que a de 34. Entendeu como funciona o sistema de votos válidos?" (Jo Fagner)
Danilo Gentili: "A imprensa, ao invés de de cumprir a função dela, que é a função de um agente de informação, ela acaba ocupando o espaço de agente político. Ao invés de o jornalista passar a informação, apurar os fatos e passar os fatos, ele fica militando por seu partido, por sua ideologia, para convencer a população da verdade que ele quer muitas vezes construir, só pra fazer propaganda ideológica. Às vezes nem é verdade, mas o jornalista hoje, no Brasil, ajuda uma mentira a virar verdade se ela for positiva pra propaganda do partido do político que ele venera. (...) As feministas e a imprensa agem juntas: o jornalista geralmente ou é uma feminista, ou é um militante do PT, ou é militante de algum movimento social. Isso acontece muito no Brasil. Muitas vezes a jornalista é feminista, as feministas tentam se passar por donas do rebanho chamado 'mulheres', tentam se passar por donas das opiniões femininas, mas não são. Nas últimas eleições, o discurso feminista, o discurso jornalístico, o argumento das feministas, dos jornalistas, era: 'Vote em mulher. Se você não votar em mulher, você é machista. Vote na Dilma, porque ela é mulher'. Sororidade - essa é a palavra que eles gostam de usar quando convém - sororidade. 'Mulher vota em mulher. Vamos colocar a mulher no poder.' E por aí vai. Então quando eu percebi o movimento da classe jornalística com as feministas, pedindo ali entre eles se o candidato deles é o Ciro Gomes ou o Haddad, eu falei: vou usar o mesmíssimo argumento que os jornalistas e as feministas usaram na última eleição, que era sororidade. 'Vote na mulher, uma feminista deve votar em mulher' - é o que eles disseram na última eleição. Só que, quando eu disse isso, subiram de uma forma biônica a hashtag não-espontânea #calabocagentili. O argumento é típico. Quando não se tem argumentos, manda calar a boca. O pessoal é autoritário. Eles não querem opinião divergente, não querem opinião contrária. Eles querem que, se você falar uma coisa de que eles não gostam, ou se eles não têm argumento, que você cale a boca. Eles não gostam da democracia, não gostam de opiniões diferentes. Isso é fato. Subiram de forma biônica a hashtag #calabocagentili. Aconteceu o movimento coordenado que sempre acontece e que tantas evidências eu tenho. A jornalista da imprensa, que é a mesma militante do movimento feminista, pegou uma hashtag biônica e noticiou como se fosse espontânea. Então eles fazem parecer que uma coisa levantada por uma minoria militante é a opinião de toda a população. E veja só como é que foram as matérias: eles então colocam apenas os militantes comentando a tag contra mim, como se essa fosse a opinião pública. Eles não colocam sequer um print de pessoas comuns me defendendo e sendo contra a tag. Muito bem. Passou-se um tempo, e a tag #falagentili foi para os trend topics mundiais. Essa, sim, de forma espontânea, porque eu não tenho militância, eu não tenho robô. Como as pessoas viram e, de forma espontânea, se manifestaram, não virou notícia. Então eles fabricam uma verdade. Qual é a verdade que eles fabricaram? Que a população, que a internet odeia quando alguém questiona um argumento feminista. Dessa maneira eles deixam a opinião pública e a classe artística intimidada a expressar qualquer opinião que não seja a opinião que eles querem que seja expressada. Por isso que você só vê artista a favor de tudo isso que aí está. Os raríssimos que se opõem, os raríssimos que questionam, eles pintam uma letra escarlate no cara e penduram no poste e falam 'Esse cara aqui é um monstro, será fuzilado'. É o Wagner Moura apoiando candidato que invade terra, que quebra vidraça, que comete crimes... Está criada aí a hegemonia de opinião na mídia. Eu ia guardar esse episódio para o documentário, mas hoje teve um outro desdobramento que eu achei legal fazer o vídeo, pra vocês ficarem espertos no modus operandi. Como é que as feministas, que nas eleições passadas estavam dizendo 'tem que votar na Dilma porque ela é mulher', estão apoiando Ciro Gomes, que é um cara que diz que a sua esposa só serve pra dormir com ele? Esse cara machista está apoiado pelas feministas e, se você ousar questionar, vão mandar #calabocagentili, com todo o apoio da imprensa. Eu acordei vendo um vídeo dele agredindo um jornalista. Zero sororidade da classe jornalística com o jornalista. Aí eu sugeri o seguinte: vamos subir a hashtag #calabocaciro, porque, veja bem, não é que ele argumentou no seu twitter, como eu fiz - ele simplesmente empurrou e agrediu um ser humano pessoalmente. Então eu pedi pra subir a hashtag #calabocaciro para ver se isso ia virar notícia como a minha tag virou. A tag subiu, ficou em primeiro, ficou lá no topo do trending topics, e a tag sumiu do twitter. Apagaram a tag do twitter, assim que ela chegou no topo dos trending topics. Não virou notícia. (....) Eu achei legal você ficar esperto, é período de eleição e você deve sempre questionar, você não vai acreditar em tudo que você lê. Outra coisa que eu sempre vou falar pra vocês, como o documentário vai mostrar, é que sempre que você ler um jornalista, vai no facebook dele. Você vai aprender a ler jornal. Lê a matéria, pega o nome do jornalista e pesquisa o jornalista. Você vai ver ele levantando bandeira vermelha, você vai ver ele militando política e partidariamente. Então eles querem regular as piadas para que as piadas virem propaganda ideológica. Se eles estão fazendo isso com o humor, com a piada, com o humorista, que não deve ser levado a sério, imagina o que eles não fazem ou querem e pretendem fazer com o resto!"
"Os que comem bem, dormem bem e têm boas casas acham que o governo gasta muito dinheiro em políticas sociais." (Pepe Mujica)
"Perfeito nenhum candidato será, porque são humanos e, portanto, falíveis, exatamente como qualquer um de nós, mas escolhamos pelos defeitos com os quais somos capazes de conviver e que causem menos danos à sociedade e ao país!" (Mariana Xavier @marixareal)
"Se pretendermos avançar, precisamos de algum método rápido: esse método é nosso próprio comportamento. Se quisermos um mundo equilibrado, é essencial que cada um de nós dê o exemplo, que tente viver de forma equilibrada e sinta-se feliz por isso. A nossa felicidade é a maior arma; é o processo mais radical, porque, enfim, todos buscam a felicidade. Se nós, meditando e, especialmente, desenvolvendo olhos positivos em relação aos outros seres, pudermos sentir essa alegria, então estaremos sendo radicais". (Lama Padma Samten)
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Luis Nassif responde ao Bonner:
O caso da autocrítica do PT
Minha caçula, a mais militante da família, levanta o tema “o PT não fez autocrítica”. Em vários locais dito progressistas ouvi a mesma queixa. Prova maior de que os interrogatórios da Globo são embasados em boas pesquisas de opinião. A insistência da Globonews e, depois, do Jornal Nacional, em levantar o tema, e nenhuma questão sequer sobre o programa do partido, mostra que são eficazes em sua política de pautar a discussão. Outra narrativa emplacada pela máquina da Globo é que, depois de 14 anos de campanha ininterrupta da mídia, foi o PT quem estimulou a versão de “nós contra eles”.
Vamos por partes.
O PT errou e muito na sua convivência com o presidencialismo de coalisão. O ex-Ministro Tarso Genro deve se recordar de uma conversa que tivemos, poucos meses antes de explodir o “mensalão”, em que o alertei que viria pela frente uma campanha mais ampla que a do impeachment de Fernando Collor.
Ele se espantou.
Mas era nítido. Disse-lhe que quando um exército toma a cidadela adversária, a primeira atitude do comandante é reunir a tropa e enquadrar os soldados, impedindo qualquer forma de abuso. A segunda atitude é punir exemplarmente o primeiro caso de transgressão, para servir de exemplo. Isso não ocorreu. A sem-cerimônia com que Delubio Soares entrava e saída do Planalto, era imprudência pura. Ainda mais em um partido totalmente exposto ao escrutínio da mídia e dos demais poderes.
Relatei-lhe uma conversa que tive com Collor, anos depois do impeachment. O que ele mais lamentava era ter desmontado o antigo SNI (Serviço Nacional de Investigações). Não para fiscalizar os adversários, mas para se prevenir contra a guerra de informações da mídia. No auge da campanha do impeachment, o governo ficou totalmente desarticulado ante a saraivada de denúncias, verdadeiras ou meros factoides, com que era bombardeado. Mesmo se não tivesse escândalo, a mídia criaria. Mas com o amadorismo do início de governo, ficou mais fácil. E o governo não tinha sequer a relação das pessoas que entraram na máquina pública. De fato, na montagem do governo vieram militantes de todas as partes do país, aliás, algo inevitável para um partido que estreava no poder.
Alguns meses depois estourou o escândalo de Roberto Jefferson. Aliás, foi bem no dia em que, flagrado pela mídia saindo do Palácio, Delúbio declarou que era assim mesmo, os partidos tinham que participar do governo depois das eleições.
Em suma, o PT fez o mesmo que todos os demais partidos fizeram para garantir a governabilidade, e com o amadorismo dos marinheiros de primeira viagem.
Pode-se argumentar que o caso Petrobras foi exagerado. E foi. Explodiram os preços do petróleo, foi descoberto o pré-sal, a Petrobras ganhou uma dimensão inimaginável até então e as caixinha subiram proporcionalmente ao salto da empresa. Nada foi feito para impedir a esbórnia. Quando assumiu o governo, Dilma Rousseff colocou na presidência Graça Foster com a incumbência de limpar a empresa. Mas Graça não tinha a menor familiaridade com modernos métodos de complience. Limitou-se a centralizar a liberação de pagamentos no seu gabinete, atitude inútil para identificar mutretas, e que quase paralisou a empresa.
Mas, se a autocrítica fosse o ponto central, a mais urgente seria da própria Globo, por ter criado o clima de ódio no país – ao lado da Veja -, estimulado o golpe, interferido em várias eleições. Seria de Luis Roberto Barroso porque seu apoio ao estado de exceção gerou uma enormidade de abusos em todos os quadrantes do país – fenômeno pouco divulgado pela mídia. Seria da própria Lava Jato e da Procuradoria Geral da República, por terem destruído a engenharia nacional e chocado o fenômeno Bolsonaro. Seria do STF (Supremo Tribunal Federal) por ter derrubado a cláusula de barreira que tornou mais caótico ainda o quadro partidário, além de ter aberto uma avenida para a infidelidade partidária. E pelo carnaval da AP470 que, fragilizando o governo, tornou-o mais vulnerável ainda às investidas do PMDB – repetindo o mesmo fenômeno pós-maxidesvalorização, que obrigou Fernando Henrique Cardoso a entregar parte dos ministérios para o mesmo grupo.
Nesse ponto, exige-se uma relativização do que ocorreu.
Teria sido possível a Lula o trabalho histórico de inclusão, de redução das desigualdades, de acesso dos mais pobres à universidade, se tivesse enfrentado o boicote dos partidos políticos? Evidente que não.
Aqui mesmo, várias vezes criticamos as concessões ao mercado, o câmbio excessivamente apreciado, as taxas de juros muito acima das taxas internacionais, a timidez em relação à reforma fiscal e política. Mas a contrapartida foi um trabalho inédito de combate a desigualdades históricas, um trabalho que, entre 2008 e 2010 projetou o Brasil como um exemplo para mundo. Teria sido possível sem essas concessões? Em suma, a autocrítica teria que ser das instituições como um todo – partidos, tribunais, corporações públicas, mídia – por ter exposto o país formal ao ataque perigosíssimo das hordas bárbaras.
Mas a questão, agora, não é essa. O que está em jogo é o próprio futuro da democracia e da estabilidade nacional.
PT, PSDB, Executivo, Supremo, mídia são peças integrantes do sistema institucional. O PT teve o mérito de civilizar os movimentos sociais – substituindo a violência, a rebeldia, pela disputa política. O PSDB falhou em fazer o mesmo com a direita. Terceirizou a oposição para a mídia, que só sabia exercitar o anti-petismo. Abriu uma avenida para a direita selvagem, que emerge, agora, com uma força incontrolável.
Agora, todos – PT, PSDB, mídia, instituições – são alvos dessa direita selvagem. E nenhuma delas passará incólume por um eventual governo Bolsonaro. Haverá um liberou geral para as arbitrariedades na ponta, para a rebelião de procuradores contra PGRs, de delegados contra a cúpula da PF, de juízes contra os tribunais superiores. Explodirão as arbitrariedades das polícias, dos promotores municipais, haverá o aparecimento de milícias legitimadas pelas vitórias nas eleições e pelo aval de um presidente selvagem.
Se o eleitor se recusar a votar no PT, porque não fez autocrítica da lambança na Petrobras, no Ciro, porque não fez autocrítica das mudanças recorrentes de partido, no Alckmin, por seu apoio a Temer, e por ter fechado os olhos às esbórnias do próprio PSDB, o que esperar dessas eleições? Por isso, cortem essa história de autocrítica. O que está em jogo não é premiação ou punição de quem quer que seja, mas a própria sobrevivência do Brasil como nação democrática.
O caso da autocrítica do PT
Minha caçula, a mais militante da família, levanta o tema “o PT não fez autocrítica”. Em vários locais dito progressistas ouvi a mesma queixa. Prova maior de que os interrogatórios da Globo são embasados em boas pesquisas de opinião. A insistência da Globonews e, depois, do Jornal Nacional, em levantar o tema, e nenhuma questão sequer sobre o programa do partido, mostra que são eficazes em sua política de pautar a discussão. Outra narrativa emplacada pela máquina da Globo é que, depois de 14 anos de campanha ininterrupta da mídia, foi o PT quem estimulou a versão de “nós contra eles”.
Vamos por partes.
O PT errou e muito na sua convivência com o presidencialismo de coalisão. O ex-Ministro Tarso Genro deve se recordar de uma conversa que tivemos, poucos meses antes de explodir o “mensalão”, em que o alertei que viria pela frente uma campanha mais ampla que a do impeachment de Fernando Collor.
Ele se espantou.
Mas era nítido. Disse-lhe que quando um exército toma a cidadela adversária, a primeira atitude do comandante é reunir a tropa e enquadrar os soldados, impedindo qualquer forma de abuso. A segunda atitude é punir exemplarmente o primeiro caso de transgressão, para servir de exemplo. Isso não ocorreu. A sem-cerimônia com que Delubio Soares entrava e saída do Planalto, era imprudência pura. Ainda mais em um partido totalmente exposto ao escrutínio da mídia e dos demais poderes.
Relatei-lhe uma conversa que tive com Collor, anos depois do impeachment. O que ele mais lamentava era ter desmontado o antigo SNI (Serviço Nacional de Investigações). Não para fiscalizar os adversários, mas para se prevenir contra a guerra de informações da mídia. No auge da campanha do impeachment, o governo ficou totalmente desarticulado ante a saraivada de denúncias, verdadeiras ou meros factoides, com que era bombardeado. Mesmo se não tivesse escândalo, a mídia criaria. Mas com o amadorismo do início de governo, ficou mais fácil. E o governo não tinha sequer a relação das pessoas que entraram na máquina pública. De fato, na montagem do governo vieram militantes de todas as partes do país, aliás, algo inevitável para um partido que estreava no poder.
Alguns meses depois estourou o escândalo de Roberto Jefferson. Aliás, foi bem no dia em que, flagrado pela mídia saindo do Palácio, Delúbio declarou que era assim mesmo, os partidos tinham que participar do governo depois das eleições.
Em suma, o PT fez o mesmo que todos os demais partidos fizeram para garantir a governabilidade, e com o amadorismo dos marinheiros de primeira viagem.
Pode-se argumentar que o caso Petrobras foi exagerado. E foi. Explodiram os preços do petróleo, foi descoberto o pré-sal, a Petrobras ganhou uma dimensão inimaginável até então e as caixinha subiram proporcionalmente ao salto da empresa. Nada foi feito para impedir a esbórnia. Quando assumiu o governo, Dilma Rousseff colocou na presidência Graça Foster com a incumbência de limpar a empresa. Mas Graça não tinha a menor familiaridade com modernos métodos de complience. Limitou-se a centralizar a liberação de pagamentos no seu gabinete, atitude inútil para identificar mutretas, e que quase paralisou a empresa.
Mas, se a autocrítica fosse o ponto central, a mais urgente seria da própria Globo, por ter criado o clima de ódio no país – ao lado da Veja -, estimulado o golpe, interferido em várias eleições. Seria de Luis Roberto Barroso porque seu apoio ao estado de exceção gerou uma enormidade de abusos em todos os quadrantes do país – fenômeno pouco divulgado pela mídia. Seria da própria Lava Jato e da Procuradoria Geral da República, por terem destruído a engenharia nacional e chocado o fenômeno Bolsonaro. Seria do STF (Supremo Tribunal Federal) por ter derrubado a cláusula de barreira que tornou mais caótico ainda o quadro partidário, além de ter aberto uma avenida para a infidelidade partidária. E pelo carnaval da AP470 que, fragilizando o governo, tornou-o mais vulnerável ainda às investidas do PMDB – repetindo o mesmo fenômeno pós-maxidesvalorização, que obrigou Fernando Henrique Cardoso a entregar parte dos ministérios para o mesmo grupo.
Nesse ponto, exige-se uma relativização do que ocorreu.
Teria sido possível a Lula o trabalho histórico de inclusão, de redução das desigualdades, de acesso dos mais pobres à universidade, se tivesse enfrentado o boicote dos partidos políticos? Evidente que não.
Aqui mesmo, várias vezes criticamos as concessões ao mercado, o câmbio excessivamente apreciado, as taxas de juros muito acima das taxas internacionais, a timidez em relação à reforma fiscal e política. Mas a contrapartida foi um trabalho inédito de combate a desigualdades históricas, um trabalho que, entre 2008 e 2010 projetou o Brasil como um exemplo para mundo. Teria sido possível sem essas concessões? Em suma, a autocrítica teria que ser das instituições como um todo – partidos, tribunais, corporações públicas, mídia – por ter exposto o país formal ao ataque perigosíssimo das hordas bárbaras.
Mas a questão, agora, não é essa. O que está em jogo é o próprio futuro da democracia e da estabilidade nacional.
PT, PSDB, Executivo, Supremo, mídia são peças integrantes do sistema institucional. O PT teve o mérito de civilizar os movimentos sociais – substituindo a violência, a rebeldia, pela disputa política. O PSDB falhou em fazer o mesmo com a direita. Terceirizou a oposição para a mídia, que só sabia exercitar o anti-petismo. Abriu uma avenida para a direita selvagem, que emerge, agora, com uma força incontrolável.
Agora, todos – PT, PSDB, mídia, instituições – são alvos dessa direita selvagem. E nenhuma delas passará incólume por um eventual governo Bolsonaro. Haverá um liberou geral para as arbitrariedades na ponta, para a rebelião de procuradores contra PGRs, de delegados contra a cúpula da PF, de juízes contra os tribunais superiores. Explodirão as arbitrariedades das polícias, dos promotores municipais, haverá o aparecimento de milícias legitimadas pelas vitórias nas eleições e pelo aval de um presidente selvagem.
Se o eleitor se recusar a votar no PT, porque não fez autocrítica da lambança na Petrobras, no Ciro, porque não fez autocrítica das mudanças recorrentes de partido, no Alckmin, por seu apoio a Temer, e por ter fechado os olhos às esbórnias do próprio PSDB, o que esperar dessas eleições? Por isso, cortem essa história de autocrítica. O que está em jogo não é premiação ou punição de quem quer que seja, mas a própria sobrevivência do Brasil como nação democrática.
"Olá, meu nome é Stephen Fry e estou aqui para falar sobre o Sr. Bolsonaro. (...) Eu venho assistindo à forte ascensão dele na política brasileira com algum alarme. Eu o conheci, eu o entrevistei, a entrevista está disponível para vocês assistirem no YouTube, se vocês quiserem. Eu tenho que dizer, como fiz na época, foi um dos confrontos mais sinistros que já tive com um ser humano. Eu realmente senti que estava encarando dois olhos bastante mortos e apavorantes. E o que a câmera não mostrou foi a sua gangue, seu grupo de proteção, seus guarda-costas - eles eram bem assustadores. Ele vive em um mundo de fantasia, de militarismo, o que eu considero profundamente perturbador. Tenebroso. (...) Eu não entendo, realmente, de onde ele tira isso. Parece ser de um lugar muito sombrio, assustador e incrivelmente ignorante. Se é para o mundo ser mais feliz, não será andando para trás. Nunca foi e nunca será. As declarações dele, o discurso que ele usa contra os negros, mulheres e a comunidade LGBTQ é genuinamente aterrorizante e resultará em mais cabeças quebradas nas calçadas, mais sangue derramado, mais tortura, mais morte, mais infelicidade, menos aceitação, mais pais chorando... e isso não pode ser certo. Com certeza, o Brasil é melhor do que isso. O Brasil é melhor do que Bolsonaro."
“A pressão e a crítica é imensa e colossal. Os checadores profissionais [de fake news] do Brasil estão ameaçados de morte. E não é só por um lado, é por todos os lados. Isso é extremamente grave.”
Vale a pena ler a reportagem na íntegra!
"Os grupos masculinos se unem facilmente ao redor de ideias contraditórias: 1) não existe desejo sexual feminino; 2) se existe, é coisa de puta; 3) puta gosta de homem boçal que nem a gente; 4) só nós sabemos dar prazer a estas putas todas, e quanto mais formos boçais, melhor. Você acha isso exagerado? Pois bem, investigue um pouco como se formam e funcionam (na África do Sul ou na Índia, por exemplo) os grupos de 'estupro corretivo' para mulheres lésbicas. A ideia é que as estupradas gostarão tanto que voltarão direto para a heterossexualidade." (Contardo Calligaris)
"As 'formas de domínio' são mais daninhas, mais invasivas e menos óbvias do que as grandes estruturas da sociedade na qual vivemos. Ou seja, as formas de domínio nos atormentam e nos constrangem, que a gente esteja num regime capitalista ou comunista. Não adianta mudar o sistema político ou a organização do trabalho sem revelar e combater as formas ocultas de domínio sobre as vidas concretas." (Contardo Calligaris)
14 lições para identificar o neofascismo e o fascismo eterno
(Umberto Eco)
' ' Considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características podem não ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.
1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. (...) Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas.
2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. (...) O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.
3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. (...) A suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.
4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.
5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.
6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.
7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior (...).
8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. (...) Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.
9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.
10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. (...) No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.
11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte (...). O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte.
12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma inveja pênis permanente.
13. (...) Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. (...)
14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. (...) Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. (...) ' '
(Umberto Eco)
' ' Considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características podem não ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.
1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. (...) Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas.
2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. (...) O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.
3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. (...) A suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.
4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.
5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.
6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.
7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior (...).
8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. (...) Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.
9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.
10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. (...) No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.
11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte (...). O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte.
12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma inveja pênis permanente.
13. (...) Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. (...)
14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. (...) Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. (...) ' '
' ' Os candidatos da direita – que costumam chamar-se de “centro-direita” ou de “centro“ – são os ultraliberais e estão presentes em vários partidos. Para eles o que importa não é discutir os seus programas de governo, pois seriam rechaçados pela grande maioria do eleitorado. O que eles querem é que tudo que é indispensável para a vida vire mercadoria, privatizando saúde, educação, serviços públicos, estatais de infraestrutura, recursos naturais, e o que mais for do interesse do mercado. Querem também rebaixar os salários, gerando desemprego, precarizando as relações de trabalho, reduzindo as aposentadorias, criminalizando os movimentos sociais e quebrando as pernas dos sindicatos para que não protestem. ' ' (Editorial do Le Monde Diplomatique)
"Tudo o que realmente valeu a pena, na nossa história, um dia foi impossível. A esquerda aposta no que hoje parece impossível, no que hoje parece impensável." (Vladimir Safatle)
' ' Uma das coisas que mais me chamou atenção no grupo foi uma mistura de medo do comunismo associado ao medo do feminismo. “Minha bandeira jamais será vermelha”, disse uma apoiadora. Na verdade, parecia querer dizer “minha vagina jamais será peluda”. Há um permanente terror de que a ditadura do proletariado se torne a ditadura da baranga. Eduardo Bolsonaro, inclusive, declarou recentemente que as mulheres de esquerda são feias, pouco higiênicas e com cabelo no sovaco. Para um público fã de seu pai, declarações como essa são completamente normais.
As postagens de um grupo fechado são fixadas [obcecadas] em mostrar mulheres cis ou trans antibolsonaro, e que são negras e gordas como sinônimos de algo abjeto, sujo e depravado. Alguns comentários: “Tirem essa berração da rede social isso faz mal as famílias brasileiras repetindo isso veio do inferno 666” ou “Ela é feita de bosta? não ver o tamanho dela e a cara de suja, não tem aspectos de limpa. Mulher suja. #Elanuncavainosrepresentar mulher de direita é limpa educada”. Impressiona o fato de que não há contestação interna desses comentários. O preconceito é normalizado.
Quando circulou uma imagem de uma mulher que protestava no ato #elenão e portava um cartaz com um erro de português, as mulheres a chamaram de retardada, anta, analfabeta, petista e peluda – e, às vezes, tudo junto. Com a cereja do bolo do comentário de um rapaz: “essa não merece ser estuprada”. Nenhuma contestação. ' ' (Rosana Pinheiro-Machado)
As postagens de um grupo fechado são fixadas [obcecadas] em mostrar mulheres cis ou trans antibolsonaro, e que são negras e gordas como sinônimos de algo abjeto, sujo e depravado. Alguns comentários: “Tirem essa berração da rede social isso faz mal as famílias brasileiras repetindo isso veio do inferno 666” ou “Ela é feita de bosta? não ver o tamanho dela e a cara de suja, não tem aspectos de limpa. Mulher suja. #Elanuncavainosrepresentar mulher de direita é limpa educada”. Impressiona o fato de que não há contestação interna desses comentários. O preconceito é normalizado.
Quando circulou uma imagem de uma mulher que protestava no ato #elenão e portava um cartaz com um erro de português, as mulheres a chamaram de retardada, anta, analfabeta, petista e peluda – e, às vezes, tudo junto. Com a cereja do bolo do comentário de um rapaz: “essa não merece ser estuprada”. Nenhuma contestação. ' ' (Rosana Pinheiro-Machado)
"Toda vez que você diz que com porte de armas legalizado a mulher vai poder se defender de um estuprador, você está esquecendo um detalhe: boa parte dos abusos acontecem DENTRO de casa. Se já é difícil para uma mulher denunciar agora, imagina com uma arma apontada pra cabeça. E pelo amor de Deus, que ideia mais ridícula. Eu não quero um presidente que me diga que eu posso matar alguém pra me defender. Eu não quero atirar em ninguém. Eu quero medidas de segurança que me permitam andar tranquila na rua." (Mississippi Queen @kmlrbro)
' ' Felipe Miranda, economista e sócio-fundador da Empiricus (uma importante publicação que sugere investimentos e estratégias para seus 200.000 assinantes), esclarece qual a métrica para o julgamento: “Eu, pessoa física, não tenho dúvidas de que a democracia é melhor. Mas há ditaduras, como a da China, em que os mercados financeiros se comportam muito bem”, argumenta. “Não há uma relação histórica entre democracia e crescimento econômico, que se traduz em lucro para empresas e alta das ações”, acrescenta. A prioridade é que uma reforma da Previdência e um ajuste fiscal sejam realizados para, na avaliação do mercado, reacender o motor econômico. Avaliando uma situação hipotética, diz que, caso o Congresso fosse fechado e uma reforma da Previdência aprovada na marra, a bolsa subiria. ' ' (MSN)
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
Vladimir Safatle:
Eu queria fazer uma apresentação insistindo em dois eixos: um eixo mais sócio-histórico e um mais psicológico, desse tipo de fenômeno, desse tipo de violência que agora é parte constitutiva da nossa esfera política. Acho que é claro que a nossa situação lembra de maneira muito evidente uma colocação que se pode encontrar na Dialética do Esclarecimento, em que Adorno e Horkheimer vão dizer mais ou menos o seguinte: tem certas situações históricas em que é muito estúpido ser inteligente. O nazismo, quando estava em ascensão, sempre encontrava pessoas que davam descrições muito precisas sobre a impossibilidade de o nazismo ocorrer. O interesse dos cervejeiros bávaros não batia com o interesse de outros grupos econômicos e, no final das contas, tudo era muito claro como o dia, e ninguém queria ver. Eu começaria dizendo isso porque é muito claro que nós temos um golpe militar em marcha. Como ele vai se dar, em que nível vai se dar, de que maneira vai se dar, isso é imprevisto, inclusive pelos próprios atores que estão dentro desse processo. Mas que é muito óbvio que não há outra saída, dentro de uma certa lógica, a não ser uma intervenção autoritária dentro do cenário brasileiro, isso é muito claro.
Eu queria fazer um apanhado para para tentar dar uma hipótese de como nós chegamos até aqui. Porque é muito evidente também que nós tivemos uma escolha a respeito do que seria a pós-ditadura, a saída da ditadura militar, e essa escolha foi uma catástrofe, foi completamente catastrófica. A Nova República foi um sistema de pactos e conciliações que se baseava basicamente na absorção de setores fundamentais da política da ditadura dentro dos consórcios de governo. Os dois verdadeiros governos da Nova República, o governo do Fernando Henrique e o governo Lula, não se diferenciaram dentro desse espectro. A nossa Constituição de 1988, por exemplo, é uma constituição em que o setor militar chegou com 28 propostas fechadas, inclusive com a proposta que definia qual era a função das Forças Armadas. Em qualquer situação normal, seria simplesmente de defesa externa de fronteiras e de segurança do país, e nunca de garantidora da ordem, tal como eles apareceram agora no art. 142, que é continuamente utilizado para dar um viés constitucionalista a uma intervenção militar mais brutal.
Dentro desse horizonte, era claro que esse sistema de pactos parecia um arranjo político astuto e, se vocês pensarem de uma maneira um pouco global, a gente vai ver que um dos resultados desse sistema de pactos da Nova República foi o fato de o Brasil não ter sido um laboratório neoliberal. Embora saibamos que tivemos levas e levas de ajuste neoliberal, foram ajustes muito menores do que os que ocorreram em vários outros países. Vejam a situação que nós temos hoje, em 2018: uma economia em que, dos quatro principais bancos, dois são estatais; em que, das quatro principais empresas, duas são estatais; que tem um sistema de universidades federais, 57 que são completamente gratuitas; é bom que ninguém saiba, mas o Brasil é o último país onde as universidades são completamente gratuitas. O Brasil pode ser um dos pouquíssimos países das dez maiores economias que tem um sistema público universal e gratuito de saúde. Por mais que tenha problemas, ele é um sistema que cobre 206 milhões de pessoas em uma área de 8.500.000 km². Não há nenhum país, a não ser a China, que oferece isso para a sua população. Não há mais nenhum.
É sempre bom a gente lembrar que, do ponto de vista dos ajustes neoliberais, o Brasil é um tipo de aberração. Isso foi resultado um pouco da Nova República, que é um sistema de freios duplo. Você não teria grandes transformações sociais, então os processos de concentração de renda permaneceram, mesmo nos momentos em que o índice Gini caiu. Então todo o esforço do lulismo foi simplesmente para colocar o Brasil no mesmo nível de desigualdade em que nós estávamos em 1960. Não houve grandes transformações sociais, mas também não houve grandes regressões. As regressões brutais não ocorreram. Então ficou evidente para o setor da elite da elite brasileira que a única possibilidade de um choque neoliberal seria fora do sistema de acordos e pactos da Nova República, e esse sistema de pactos ruiu em 2013. É muito claro que desde 2013 o país não tem mais nenhuma orientação política clara. Por que ele ruiu em 2013? Porque foi o primeiro momento em que ficou muito evidente que parcelas significativas da população estavam em um nível de frustração relativa brutal.
Esse conceito de Alexis de Tocqueville, de frustração relativa, significa uma frustração em relação àquilo que se poderia alcançar. O saldo da Experiência Lula foi, entre outras coisas, criar um nível de expectativa, porque você teve ascensão social, 42 mil pessoas entraram no elevador de ascensão social, 60% de ganhos reais do salário mínimo. Lembrem o que nos diziam em 2012 e 2013, e não só aqui no Brasil, mas no mundo inteiro: que o Brasil seria a quinta economia do mundo hoje, agora, em 2018. Isso era uma análise do Banco Mundial do Fundo Monetário Internacional. Isso não é uma análise do governo, simplesmente. É um país que teria, graças à Copa do Mundo, graças às Olimpíadas, um repaginamento de toda a sociedade, de toda a infra-estrutura da sociedade. Só que em 2013 ficou evidente que isso não ocorreria, que o Brasil tinha chegado num teto, que não tinha como continuar esse processo. E dentro desse horizonte você teve um tipo de desidentificação popular com o governo e com um horizonte político do Brasil, que era o horizonte de conciliação da Nova República, que deixou muito claro que o próximo passo seria em direção à radicalização política. Esse seria o próximo passo.
Só que quem deu esse próximo passo foi a direita, não foi a esquerda. Então o que fez a direita? Ela se descolou do seu consórcio conservador, que era o consórcio operado pelo PSDB, que era um consórcio de "transformistas". O PSDB não nasceu do horizonte conservador. José Serra, Fernando Henrique, todos eles foram cooptados, e, por serem cooptados, eles nunca foram a expressão mais bem acabada do conservadorismo nacional. Este teve que ficar como célula dormente no interior desses consórcios, à espera, de uma certa maneira, de algo como esse horizonte possível de radicalização, que ocorreu. Mas ocorreu de que forma? Bem, do lado da direita, você teve um abandono do PSDB. Essa eleição de 2018 vai ser, entre outras coisas, a eleição na qual o PSDB vai desaparecer do espectro. Eles não vão conseguir fazer o presidente, é muito provável que não consigam fazer o governador de São Paulo... talvez eles consigam fazer o governador de Minas Gerais, é a única coisa, e a bancada deve diminuir. Porque ele já não tem mais função dentro desse horizonte. Essa função de dar um rosto mais 'humano' ao pensamento conservador nacional desaparece e, com isso, desaparece o seu principal ator, criando uma situação muito parecida com o que aconteceu, por exemplo, no cenário europeu, onde você teve uma direita que se descola, uma de extrema direita que se descola, em vários momentos, de vários setores da direita tradicional e vai ganhando força, obrigando a direita tradicional a se reconstruir, de uma maneira ou de outra.
Só que aí tem um elemento, que é o elemento complexificador da situação nacional, e eu acho que é um elemento um pouco explosivo. Por que a extrema direita europeia bateu num teto? Porque ela era antiliberal, porque ela nunca foi uma direita neoliberal ou, muito menos, ultraliberal. E, depois de 2008, a extrema direita europeia percebeu que ela deveria fazer um modelo de proposição político-econômica que, em sua forma, tinha raízes na história da extrema direita europeia desde o fascismo, que era absorver pautas populares dentro de uma política econômica. Quem faz discurso contra banco, contra tecnocracia, na Europa, em larga medida, pelo menos um dos setores, é a extrema direita. Isso aconteceu com a extrema direita francesa, que, ao trocar de liderança, criou um discurso muito mais econômico do que antes, em que as pautas culturais se alinham agora a um eixo econômico muito claro, um eixo de economia popular. Então você tem uma direita antiliberal. Essa foi, de uma certa forma, a consolidação, mas também o seu limite, porque isso fez com que todos os setores fundamentais do neoliberalismo, ou seja, a imprensa, a política tradicional, o sistema financeiro e o empresariado, nunca se aliassem à extrema direita de maneira explícita, tentando organizar um outro espaço para esse liberalismo. Isso tem por exemplo no modelo francês, em que o outro espaço do liberalismo criou uma espécie de neoliberalismo brutal das suas ações, como sempre, com níveis de violência absolutamente explícitos, mas com discurso humano. O horizonte era muito explícito, de reacomodação.
Só que o que acontece no caso brasileiro? O Brasil retoma uma certa tradição latino-americana, que é uma tradição que foi tentada inicialmente no Chile do Pinochet, no final dos anos 70, que é uma extrema direita hiper-neoliberal. Aqui nós temos um candidato com 26% de votos, e tenho certeza que seus eleitores não sabem qual é o programa econômico dele, não sabem o que significa o programa econômico dele, até porque ele tem essa generalidade do tipo 'Vou privatizar tudo'. Não existe uma análise de impacto sobre o que significa privatizar cada setor, o que se ganha o que se perde; não tem uma organização mínima sobre um projeto que nunca foi implementado em nenhum país do mundo. Não tem nenhum país do mundo que procurou privatizar tudo. É óbvio que na verdade é um discurso des-solidarização social, nada mais do que isso. Um discurso no qual a solidariedade social é eliminada de uma maneira brutal, porque o ator da solidariedade social no Brasil é o Estado, mas o Estado é corrupto, então de nada adianta tentar... é melhor uma situação de atomismo geral, na qual, afinal de contas, ninguém tira o seu dinheiro, já que não tem mais imposição, não tem mais sistema de imposto. Então é cada um por si, não é mais todos contra o Estado.
É claro que, dentro desse horizonte, você cria uma direita que é uma extrema direita que, ao mesmo tempo, é ultraliberal e tem todos os seus discursos pautados numa mobilização contínua de uma espécie de conflito contínuo com os setores mais vulneráveis da sociedade. Mas um tipo de conflito que é muito engraçado, porque ele é típico de um certo modelo de circulação de discurso próprio do fascismo, mas não no seu sentido autoritário: no seu sentido irônico. Adorno tem um texto sobre ideologia em que ele vai insistir sobre o que era a especificidade do discurso fascista. Uma especificidade era que ninguém acreditava, ninguém levava a sério. E é exatamente porque ninguém levava a sério que o discurso podia circular. Ele tinha um lado cômico, ainda mais o fascismo italiano. E não é por outra razão que todas as figuras autoritárias que apareceram nos últimos 15 anos são cômicas. Berlusconi, Trump, Sarkozy e Bolsonaro: todos eles têm esse traço em comum, que significa que seria insuportável ter que se mobilizar levando a sério o discurso. Então é muito mais fácil você falar 'Isso é só discurso, isso é só uma brincadeira, isso não é sério, ninguém vai fazer, de fato, isso, dessa forma'. Dessa maneira, você pode, entre outras coisas, criar um modelo que já foi o modelo mesmo da ditadura brasileira. O Brasil é um país que assinava tratados de direitos humanos, todos foram assinados na ditadura militar, enquanto ele torturava e negava que existia a tortura - e nega que existia tortura até hoje, porque ninguém foi preso. Então você pode criar esse jogo de aparência, que é um elemento fundamental para que essa situação se sustente.
É sempre bom a gente perguntar, quando tem uma extrema direita em ascensão, onde a esquerda traiu. Porque não tem uma extrema direita que cresça lá onde a esquerda não trai o seu destino. É sempre esta questão, e onde nós erramos nesse ponto? Desde 2013, o discurso da esquerda deveria ser um discurso de radicalização, porque é a única possibilidade de você criar um sistema de balança. E não foi isso que aconteceu. Nós saímos à luta sendo aqueles que defendiam os direitos. Ou seja, nós criamos uma esquerda legalista. Enquanto a direita era uma direita de ruptura, que falava muito 'Nós não queremos nada disso, e danem-se as leis, porque, afinal de contas, nós estamos querendo combater a corrupção do Estado, e as leis foram feitas para isso, então que as leis sejam superadas'. Esse sempre foi um discurso da esquerda, ela sempre teve essa posição antilegalista. O que é o sistema jurídico? O que são as leis? Por que elas foram feitas? Para quem elas foram feitas? Em que condição elas foram feitas? Então nós vivemos durante anos com a esquerda falando 'Pô, mas isso juridicamente é incorreto, vamos entrar com recurso!'.
Era óbvio que nós tínhamos perdido um horizonte, que é de promessa de transformação, que a direita absorveu. Essa posição antipolítica da direita foi inventada pela esquerda, essa era nossa posição, nós sempre fomos antipolíticos no sentido da política tal como ela funcionou até hoje, como ela funciona dentro do seu processo de legalidade normal. E, no entanto, nós perdemos essa radicalidade, e essa radicalidade está hoje do outro lado. Este elemento é um elemento decisivo de reconfiguração das forças políticas, porque lá onde a esquerda se reconfigurou e conseguiu retomar a radicalidade do seu discurso, ocorre um sistema de balanças. A Inglaterra hoje tem um Partido Trabalhista mais radical da sua história, um partido trabalhista cujo programa é, em vários pontos, mais radical do que o programa do PSOL, o que é um dado bastante bastante significativo. Leiam o que eles falam sobre a reforma do sistema financeiro, sobre as taxações do sistema financeiro, sobre a limitação do sistema financeiro. Desde Oliver Cromwell, não há um programa tão radical na Inglaterra, desde 1641.
Veja o caso norte-americano: segundo as pesquisas do Gallup, quem é o político mais mais popular nos Estados Unidos hoje? É um político que se diz socialista, num país em que, até ontem, socialismo era a pior palavra que você podia fazer circular: Bernie Sanders. Veja o caso da eleição francesa. Foram 20% dos votos de uma extrema direita e foram 19,5% dos votos de uma de uma esquerda muito mais radical do que foi o Partido Socialista até hoje. Juntando os dois, dá 40%. Veja o caso da Holanda. Teve uma eleição para o parlamento holandês. Durante semanas e semanas, tivemos a imprensa mundial falando da irresistível ascensão conservadora. No final, com o resultado das eleições, o Partido Ecologista Radical foi o que mais cresceu. Veja o caso espanhol. Por mais que o Podemos tenha lá suas questões, ele conseguiu se consolidar como uma força de mais ou menos 20% dos votos, remodelando completamente a balança. Onde teve essa radicalização, a esquerda se recolocou e conseguiu veicular mais claramente qual era a sua função dentro desse espectro.
Há um golpe em marcha, porque este programa neoliberal, tal como foi abraçado, só pode ser implementado no Brasil à bala, não tem outra saída. Ele nunca vai ganhar uma eleição, como nunca ganhou uma eleição. Os atores da ditadura militar, pela primeira vez, desde o fim da ditadura, acreditam que podem governar diretamente, sem mais mediações. São os cinco atores: o agronegócio, as igrejas conservadoras, a imprensa conservadora, as forças armadas e o empresariado nacional, junto com o setor financeiro. Esses cinco atores, juntos, deram o golpe civil militar. Então são esses que hoje estão em volta da candidatura Bolsonaro. 'Agora nós não precisamos de mediadores. Agora nós vamos sozinhos em direção à vitória eleitoral' - que eles acreditam que vão conseguir. Ou, se não conseguir, eles vão jogar a carta do caos, 'Está vendo, não tem condições de eleição!'. As Forças Armadas já indicaram que o resultado talvez não seja a coisa mais importante. Ou seja, é muito explícito que eles já fizeram uma escolha. Talvez só nós que não quisemos acreditar até agora. Mas a escolha já foi feita. A questão não é quem vai ganhar a eleição, porque, ganhando ou não ganhando, eles vão empurrar goela abaixo da sociedade brasileira este programa, de uma forma ou de outra, ou com o golpe militar explícito, ou com o estado tutelado, uma espécie de Turquia mais ou menos soft, mas o processo já foi colocado de uma maneira muito evidente.
Mais do que isso, é muito explícito que nós estamos na linha de frente: a classe intelectual, as universidades, os estudantes, todos aparecemos, no interior desse novo imaginário, exatamente como os primeiros a serem abatidos, porque é uma forma de vida que vai ser combatida. Todas as questões ligadas à sexualidade são absolutamente centrais, ganharam centralidade. Todas as questões ligadas a uma espécie de redeterminação ou de visibilidade das classes que até então eram vulneráveis, eram invisíveis - porque todos eles falam que o problema é a visibilidade. 'Não sou contra homossexual, o problema é o kit gay na escola'. Na verdade, estão querendo dizer 'Homossexual a gente sempre soube que sempre teve, mas eles eram muito discretos, ninguém ficava aparecendo, mostrando'. Esse sempre foi o problema. 'Eu posso aceitar que existam, desde que vocês sejam invisíveis'. Agora, aparecer, ganhar visibilidade, ganhar existência, exigir reconhecimento social, remodelar completamente o campo da visibilidade social - isso é o inaceitável - a existência real, de fato.
O horizonte de brutalização da política brasileira não vai desaparecer, não vai sumir; ele vai se aprofundar depois dessa eleição. E a pior coisa que pode acontecer para nós é não estarmos preparados para esse horizonte, no qual o que vai contar não são os argumentos, são os jogos de força. Eu sempre achei um pouco surreal essa ideia de que nós podemos dialogar com o outro lado, ou convencer por argumentações. Isso tem algo de uma espécie de iluminismo pueril, 'O outro é desse jeito porque ele ainda não entendeu realmente meus argumentos'. É claro que não é essa a questão, nós temos adesões a formas de vida muito radicalmente diferentes. É isso que define o julgamento, não é um vício de argumentação. É uma adesão clara e tácita, absolutamente explícita, a certas formas de vida. Nós podemos tentar desconstituir os afetos que de uma certa maneira sustentam as tais formas de vida, mas não através da argumentação, até porque o campo político nunca foi um campo de argumentação. Não sei também quem imaginou isso em algum momento, que era a procura do melhor argumento que definia então as escolhas no interior do campo político.
Dentro desse horizonte, o que nos compete é compreender, afinal de contas, o que a política realmente é, daqui pra frente. Ela vai ser um espaço violento, de um jogo violento, onde o jogo só pode parar se você tiver aquele sistema que funcionava, mais ou menos, na Guerra Fria, de coexistência pacífica: 'Se você der um passo, a gente vai dar um passo', então ninguém dava passo nenhum, e então o jogo se paralisava. É a única saída que a gente tem.
Eu queria fazer uma apresentação insistindo em dois eixos: um eixo mais sócio-histórico e um mais psicológico, desse tipo de fenômeno, desse tipo de violência que agora é parte constitutiva da nossa esfera política. Acho que é claro que a nossa situação lembra de maneira muito evidente uma colocação que se pode encontrar na Dialética do Esclarecimento, em que Adorno e Horkheimer vão dizer mais ou menos o seguinte: tem certas situações históricas em que é muito estúpido ser inteligente. O nazismo, quando estava em ascensão, sempre encontrava pessoas que davam descrições muito precisas sobre a impossibilidade de o nazismo ocorrer. O interesse dos cervejeiros bávaros não batia com o interesse de outros grupos econômicos e, no final das contas, tudo era muito claro como o dia, e ninguém queria ver. Eu começaria dizendo isso porque é muito claro que nós temos um golpe militar em marcha. Como ele vai se dar, em que nível vai se dar, de que maneira vai se dar, isso é imprevisto, inclusive pelos próprios atores que estão dentro desse processo. Mas que é muito óbvio que não há outra saída, dentro de uma certa lógica, a não ser uma intervenção autoritária dentro do cenário brasileiro, isso é muito claro.
Eu queria fazer um apanhado para para tentar dar uma hipótese de como nós chegamos até aqui. Porque é muito evidente também que nós tivemos uma escolha a respeito do que seria a pós-ditadura, a saída da ditadura militar, e essa escolha foi uma catástrofe, foi completamente catastrófica. A Nova República foi um sistema de pactos e conciliações que se baseava basicamente na absorção de setores fundamentais da política da ditadura dentro dos consórcios de governo. Os dois verdadeiros governos da Nova República, o governo do Fernando Henrique e o governo Lula, não se diferenciaram dentro desse espectro. A nossa Constituição de 1988, por exemplo, é uma constituição em que o setor militar chegou com 28 propostas fechadas, inclusive com a proposta que definia qual era a função das Forças Armadas. Em qualquer situação normal, seria simplesmente de defesa externa de fronteiras e de segurança do país, e nunca de garantidora da ordem, tal como eles apareceram agora no art. 142, que é continuamente utilizado para dar um viés constitucionalista a uma intervenção militar mais brutal.
Dentro desse horizonte, era claro que esse sistema de pactos parecia um arranjo político astuto e, se vocês pensarem de uma maneira um pouco global, a gente vai ver que um dos resultados desse sistema de pactos da Nova República foi o fato de o Brasil não ter sido um laboratório neoliberal. Embora saibamos que tivemos levas e levas de ajuste neoliberal, foram ajustes muito menores do que os que ocorreram em vários outros países. Vejam a situação que nós temos hoje, em 2018: uma economia em que, dos quatro principais bancos, dois são estatais; em que, das quatro principais empresas, duas são estatais; que tem um sistema de universidades federais, 57 que são completamente gratuitas; é bom que ninguém saiba, mas o Brasil é o último país onde as universidades são completamente gratuitas. O Brasil pode ser um dos pouquíssimos países das dez maiores economias que tem um sistema público universal e gratuito de saúde. Por mais que tenha problemas, ele é um sistema que cobre 206 milhões de pessoas em uma área de 8.500.000 km². Não há nenhum país, a não ser a China, que oferece isso para a sua população. Não há mais nenhum.
É sempre bom a gente lembrar que, do ponto de vista dos ajustes neoliberais, o Brasil é um tipo de aberração. Isso foi resultado um pouco da Nova República, que é um sistema de freios duplo. Você não teria grandes transformações sociais, então os processos de concentração de renda permaneceram, mesmo nos momentos em que o índice Gini caiu. Então todo o esforço do lulismo foi simplesmente para colocar o Brasil no mesmo nível de desigualdade em que nós estávamos em 1960. Não houve grandes transformações sociais, mas também não houve grandes regressões. As regressões brutais não ocorreram. Então ficou evidente para o setor da elite da elite brasileira que a única possibilidade de um choque neoliberal seria fora do sistema de acordos e pactos da Nova República, e esse sistema de pactos ruiu em 2013. É muito claro que desde 2013 o país não tem mais nenhuma orientação política clara. Por que ele ruiu em 2013? Porque foi o primeiro momento em que ficou muito evidente que parcelas significativas da população estavam em um nível de frustração relativa brutal.
Esse conceito de Alexis de Tocqueville, de frustração relativa, significa uma frustração em relação àquilo que se poderia alcançar. O saldo da Experiência Lula foi, entre outras coisas, criar um nível de expectativa, porque você teve ascensão social, 42 mil pessoas entraram no elevador de ascensão social, 60% de ganhos reais do salário mínimo. Lembrem o que nos diziam em 2012 e 2013, e não só aqui no Brasil, mas no mundo inteiro: que o Brasil seria a quinta economia do mundo hoje, agora, em 2018. Isso era uma análise do Banco Mundial do Fundo Monetário Internacional. Isso não é uma análise do governo, simplesmente. É um país que teria, graças à Copa do Mundo, graças às Olimpíadas, um repaginamento de toda a sociedade, de toda a infra-estrutura da sociedade. Só que em 2013 ficou evidente que isso não ocorreria, que o Brasil tinha chegado num teto, que não tinha como continuar esse processo. E dentro desse horizonte você teve um tipo de desidentificação popular com o governo e com um horizonte político do Brasil, que era o horizonte de conciliação da Nova República, que deixou muito claro que o próximo passo seria em direção à radicalização política. Esse seria o próximo passo.
Só que quem deu esse próximo passo foi a direita, não foi a esquerda. Então o que fez a direita? Ela se descolou do seu consórcio conservador, que era o consórcio operado pelo PSDB, que era um consórcio de "transformistas". O PSDB não nasceu do horizonte conservador. José Serra, Fernando Henrique, todos eles foram cooptados, e, por serem cooptados, eles nunca foram a expressão mais bem acabada do conservadorismo nacional. Este teve que ficar como célula dormente no interior desses consórcios, à espera, de uma certa maneira, de algo como esse horizonte possível de radicalização, que ocorreu. Mas ocorreu de que forma? Bem, do lado da direita, você teve um abandono do PSDB. Essa eleição de 2018 vai ser, entre outras coisas, a eleição na qual o PSDB vai desaparecer do espectro. Eles não vão conseguir fazer o presidente, é muito provável que não consigam fazer o governador de São Paulo... talvez eles consigam fazer o governador de Minas Gerais, é a única coisa, e a bancada deve diminuir. Porque ele já não tem mais função dentro desse horizonte. Essa função de dar um rosto mais 'humano' ao pensamento conservador nacional desaparece e, com isso, desaparece o seu principal ator, criando uma situação muito parecida com o que aconteceu, por exemplo, no cenário europeu, onde você teve uma direita que se descola, uma de extrema direita que se descola, em vários momentos, de vários setores da direita tradicional e vai ganhando força, obrigando a direita tradicional a se reconstruir, de uma maneira ou de outra.
Só que aí tem um elemento, que é o elemento complexificador da situação nacional, e eu acho que é um elemento um pouco explosivo. Por que a extrema direita europeia bateu num teto? Porque ela era antiliberal, porque ela nunca foi uma direita neoliberal ou, muito menos, ultraliberal. E, depois de 2008, a extrema direita europeia percebeu que ela deveria fazer um modelo de proposição político-econômica que, em sua forma, tinha raízes na história da extrema direita europeia desde o fascismo, que era absorver pautas populares dentro de uma política econômica. Quem faz discurso contra banco, contra tecnocracia, na Europa, em larga medida, pelo menos um dos setores, é a extrema direita. Isso aconteceu com a extrema direita francesa, que, ao trocar de liderança, criou um discurso muito mais econômico do que antes, em que as pautas culturais se alinham agora a um eixo econômico muito claro, um eixo de economia popular. Então você tem uma direita antiliberal. Essa foi, de uma certa forma, a consolidação, mas também o seu limite, porque isso fez com que todos os setores fundamentais do neoliberalismo, ou seja, a imprensa, a política tradicional, o sistema financeiro e o empresariado, nunca se aliassem à extrema direita de maneira explícita, tentando organizar um outro espaço para esse liberalismo. Isso tem por exemplo no modelo francês, em que o outro espaço do liberalismo criou uma espécie de neoliberalismo brutal das suas ações, como sempre, com níveis de violência absolutamente explícitos, mas com discurso humano. O horizonte era muito explícito, de reacomodação.
Só que o que acontece no caso brasileiro? O Brasil retoma uma certa tradição latino-americana, que é uma tradição que foi tentada inicialmente no Chile do Pinochet, no final dos anos 70, que é uma extrema direita hiper-neoliberal. Aqui nós temos um candidato com 26% de votos, e tenho certeza que seus eleitores não sabem qual é o programa econômico dele, não sabem o que significa o programa econômico dele, até porque ele tem essa generalidade do tipo 'Vou privatizar tudo'. Não existe uma análise de impacto sobre o que significa privatizar cada setor, o que se ganha o que se perde; não tem uma organização mínima sobre um projeto que nunca foi implementado em nenhum país do mundo. Não tem nenhum país do mundo que procurou privatizar tudo. É óbvio que na verdade é um discurso des-solidarização social, nada mais do que isso. Um discurso no qual a solidariedade social é eliminada de uma maneira brutal, porque o ator da solidariedade social no Brasil é o Estado, mas o Estado é corrupto, então de nada adianta tentar... é melhor uma situação de atomismo geral, na qual, afinal de contas, ninguém tira o seu dinheiro, já que não tem mais imposição, não tem mais sistema de imposto. Então é cada um por si, não é mais todos contra o Estado.
É claro que, dentro desse horizonte, você cria uma direita que é uma extrema direita que, ao mesmo tempo, é ultraliberal e tem todos os seus discursos pautados numa mobilização contínua de uma espécie de conflito contínuo com os setores mais vulneráveis da sociedade. Mas um tipo de conflito que é muito engraçado, porque ele é típico de um certo modelo de circulação de discurso próprio do fascismo, mas não no seu sentido autoritário: no seu sentido irônico. Adorno tem um texto sobre ideologia em que ele vai insistir sobre o que era a especificidade do discurso fascista. Uma especificidade era que ninguém acreditava, ninguém levava a sério. E é exatamente porque ninguém levava a sério que o discurso podia circular. Ele tinha um lado cômico, ainda mais o fascismo italiano. E não é por outra razão que todas as figuras autoritárias que apareceram nos últimos 15 anos são cômicas. Berlusconi, Trump, Sarkozy e Bolsonaro: todos eles têm esse traço em comum, que significa que seria insuportável ter que se mobilizar levando a sério o discurso. Então é muito mais fácil você falar 'Isso é só discurso, isso é só uma brincadeira, isso não é sério, ninguém vai fazer, de fato, isso, dessa forma'. Dessa maneira, você pode, entre outras coisas, criar um modelo que já foi o modelo mesmo da ditadura brasileira. O Brasil é um país que assinava tratados de direitos humanos, todos foram assinados na ditadura militar, enquanto ele torturava e negava que existia a tortura - e nega que existia tortura até hoje, porque ninguém foi preso. Então você pode criar esse jogo de aparência, que é um elemento fundamental para que essa situação se sustente.
É sempre bom a gente perguntar, quando tem uma extrema direita em ascensão, onde a esquerda traiu. Porque não tem uma extrema direita que cresça lá onde a esquerda não trai o seu destino. É sempre esta questão, e onde nós erramos nesse ponto? Desde 2013, o discurso da esquerda deveria ser um discurso de radicalização, porque é a única possibilidade de você criar um sistema de balança. E não foi isso que aconteceu. Nós saímos à luta sendo aqueles que defendiam os direitos. Ou seja, nós criamos uma esquerda legalista. Enquanto a direita era uma direita de ruptura, que falava muito 'Nós não queremos nada disso, e danem-se as leis, porque, afinal de contas, nós estamos querendo combater a corrupção do Estado, e as leis foram feitas para isso, então que as leis sejam superadas'. Esse sempre foi um discurso da esquerda, ela sempre teve essa posição antilegalista. O que é o sistema jurídico? O que são as leis? Por que elas foram feitas? Para quem elas foram feitas? Em que condição elas foram feitas? Então nós vivemos durante anos com a esquerda falando 'Pô, mas isso juridicamente é incorreto, vamos entrar com recurso!'.
Era óbvio que nós tínhamos perdido um horizonte, que é de promessa de transformação, que a direita absorveu. Essa posição antipolítica da direita foi inventada pela esquerda, essa era nossa posição, nós sempre fomos antipolíticos no sentido da política tal como ela funcionou até hoje, como ela funciona dentro do seu processo de legalidade normal. E, no entanto, nós perdemos essa radicalidade, e essa radicalidade está hoje do outro lado. Este elemento é um elemento decisivo de reconfiguração das forças políticas, porque lá onde a esquerda se reconfigurou e conseguiu retomar a radicalidade do seu discurso, ocorre um sistema de balanças. A Inglaterra hoje tem um Partido Trabalhista mais radical da sua história, um partido trabalhista cujo programa é, em vários pontos, mais radical do que o programa do PSOL, o que é um dado bastante bastante significativo. Leiam o que eles falam sobre a reforma do sistema financeiro, sobre as taxações do sistema financeiro, sobre a limitação do sistema financeiro. Desde Oliver Cromwell, não há um programa tão radical na Inglaterra, desde 1641.
Veja o caso norte-americano: segundo as pesquisas do Gallup, quem é o político mais mais popular nos Estados Unidos hoje? É um político que se diz socialista, num país em que, até ontem, socialismo era a pior palavra que você podia fazer circular: Bernie Sanders. Veja o caso da eleição francesa. Foram 20% dos votos de uma extrema direita e foram 19,5% dos votos de uma de uma esquerda muito mais radical do que foi o Partido Socialista até hoje. Juntando os dois, dá 40%. Veja o caso da Holanda. Teve uma eleição para o parlamento holandês. Durante semanas e semanas, tivemos a imprensa mundial falando da irresistível ascensão conservadora. No final, com o resultado das eleições, o Partido Ecologista Radical foi o que mais cresceu. Veja o caso espanhol. Por mais que o Podemos tenha lá suas questões, ele conseguiu se consolidar como uma força de mais ou menos 20% dos votos, remodelando completamente a balança. Onde teve essa radicalização, a esquerda se recolocou e conseguiu veicular mais claramente qual era a sua função dentro desse espectro.
Há um golpe em marcha, porque este programa neoliberal, tal como foi abraçado, só pode ser implementado no Brasil à bala, não tem outra saída. Ele nunca vai ganhar uma eleição, como nunca ganhou uma eleição. Os atores da ditadura militar, pela primeira vez, desde o fim da ditadura, acreditam que podem governar diretamente, sem mais mediações. São os cinco atores: o agronegócio, as igrejas conservadoras, a imprensa conservadora, as forças armadas e o empresariado nacional, junto com o setor financeiro. Esses cinco atores, juntos, deram o golpe civil militar. Então são esses que hoje estão em volta da candidatura Bolsonaro. 'Agora nós não precisamos de mediadores. Agora nós vamos sozinhos em direção à vitória eleitoral' - que eles acreditam que vão conseguir. Ou, se não conseguir, eles vão jogar a carta do caos, 'Está vendo, não tem condições de eleição!'. As Forças Armadas já indicaram que o resultado talvez não seja a coisa mais importante. Ou seja, é muito explícito que eles já fizeram uma escolha. Talvez só nós que não quisemos acreditar até agora. Mas a escolha já foi feita. A questão não é quem vai ganhar a eleição, porque, ganhando ou não ganhando, eles vão empurrar goela abaixo da sociedade brasileira este programa, de uma forma ou de outra, ou com o golpe militar explícito, ou com o estado tutelado, uma espécie de Turquia mais ou menos soft, mas o processo já foi colocado de uma maneira muito evidente.
Mais do que isso, é muito explícito que nós estamos na linha de frente: a classe intelectual, as universidades, os estudantes, todos aparecemos, no interior desse novo imaginário, exatamente como os primeiros a serem abatidos, porque é uma forma de vida que vai ser combatida. Todas as questões ligadas à sexualidade são absolutamente centrais, ganharam centralidade. Todas as questões ligadas a uma espécie de redeterminação ou de visibilidade das classes que até então eram vulneráveis, eram invisíveis - porque todos eles falam que o problema é a visibilidade. 'Não sou contra homossexual, o problema é o kit gay na escola'. Na verdade, estão querendo dizer 'Homossexual a gente sempre soube que sempre teve, mas eles eram muito discretos, ninguém ficava aparecendo, mostrando'. Esse sempre foi o problema. 'Eu posso aceitar que existam, desde que vocês sejam invisíveis'. Agora, aparecer, ganhar visibilidade, ganhar existência, exigir reconhecimento social, remodelar completamente o campo da visibilidade social - isso é o inaceitável - a existência real, de fato.
O horizonte de brutalização da política brasileira não vai desaparecer, não vai sumir; ele vai se aprofundar depois dessa eleição. E a pior coisa que pode acontecer para nós é não estarmos preparados para esse horizonte, no qual o que vai contar não são os argumentos, são os jogos de força. Eu sempre achei um pouco surreal essa ideia de que nós podemos dialogar com o outro lado, ou convencer por argumentações. Isso tem algo de uma espécie de iluminismo pueril, 'O outro é desse jeito porque ele ainda não entendeu realmente meus argumentos'. É claro que não é essa a questão, nós temos adesões a formas de vida muito radicalmente diferentes. É isso que define o julgamento, não é um vício de argumentação. É uma adesão clara e tácita, absolutamente explícita, a certas formas de vida. Nós podemos tentar desconstituir os afetos que de uma certa maneira sustentam as tais formas de vida, mas não através da argumentação, até porque o campo político nunca foi um campo de argumentação. Não sei também quem imaginou isso em algum momento, que era a procura do melhor argumento que definia então as escolhas no interior do campo político.
Dentro desse horizonte, o que nos compete é compreender, afinal de contas, o que a política realmente é, daqui pra frente. Ela vai ser um espaço violento, de um jogo violento, onde o jogo só pode parar se você tiver aquele sistema que funcionava, mais ou menos, na Guerra Fria, de coexistência pacífica: 'Se você der um passo, a gente vai dar um passo', então ninguém dava passo nenhum, e então o jogo se paralisava. É a única saída que a gente tem.
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