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terça-feira, 25 de novembro de 2014

"Duka pode ser explicado de forma simples a partir do fato de que, quando temos alegrias, elas são sempre, simultaneamente, sementes de sofrimento. Dizemos que esta é uma experiência cíclica — é como uma roda girando entre as polaridades de estar bem e estar mal. Gostaríamos de encontrar o freio quando estamos na região de felicidade, e gostaríamos de acelerar quando estamos tristes. Às vezes achamos que encontramos um controle de velocidade desse tipo, mas logo surgem problemas nessa tentativa de controle. (...) Ou seja, quanto maior a beleza, maior a vigilância, o sofrimento e a insegurança. Chamamos isto de duka. Não há como evitar este tipo de inquietação. Para todas as características favoráveis que percebemos no mundo, existem problemas correspondentes, exatamente no mesmo grau. (...) Cada pequeno objeto, cada pequena pedrinha na paisagem tem uma correspondência interna em nós na forma de energias que percorrem nosso corpo e nervos. A isto chamamos ventos internos. Nosso apego não é às coisas, mas aos ventos internos que elas provocam. Os ventos internos são a experiência íntima dos objetos e também dos seres. Esta dependência e apego são a base de duka. Todos os aspectos do budismo são propostos como remédios para esta doença. É por causa desta doença que surge o budismo. Observando de forma ampla o sentido de duka, percebemos que Buda a estudou detalhadamente e descobriu uma natureza que está além de toda esta complicação." (Lama Padma Samten)

domingo, 23 de novembro de 2014

"Penso que a maioria de nós fica consciente, algumas vezes, que a mente está vazia. E, estando conscientes, temos medo desse vazio. Nós nunca investigamos nesse estado de vazio, nunca entramos nele profundamente; temos medo e, então, nos desviamos dele. Nós lhe damos um nome, dizemos que é 'vazio', é 'terrível', é 'doloroso'; e esse próprio nomear já criou uma reação na mente, um medo, um escape, uma fuga. Ora, pode a mente parar de fugir, e não dar nome, não dar a isto a significação de uma palavra como vazio a respeito da qual temos memórias de prazer e dor? Podemos olhar para isto, pode a mente estar consciente desse vazio sem nomeá-lo, sem fugir dele, sem julgá-lo, mas simplesmente ficar com ele? Porque, então, isso é a mente. Então, existe apenas aquele estado de vazio com o qual todos nós estamos bem familiarizados mas que todos nós evitamos, tentando preenchê-lo com atividades, com adoração, preces, conhecimento, com toda forma de ilusão e excitação." (Krishnamurti)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"A conclusão poderia ser uma leitura fatalística de parte do título do filme. 'O fim da história' poderia significar o eclipse permanente de qualquer noção de progresso. Mas, embora o filme conte uma história dura com efeitos por vezes devastadores, 'Norte' está longe de ser um documento de desespero. Isso acontece muito porque, como em qualquer verdadeiro trabalho de arte, sua existência é um emocionante triunfo sobre a complacência, e também porque as imagens do diretor filipino Lav Diaz são ricas e encantadoras demais para criar uma sensação duradoura de pessimismo. Mas também há, além de tudo, um humanismo quase inesgotável nesse extraordinário filme. É o trabalho de um cineasta que é fascinado tanto pela decência quanto pela feiúra, e hábil para apresentar o caos da vida em uma série de imagens que são ao mesmo tempo luminosamente claras e infinitamente misteriosas." (A. O. Scott/The New York Times)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

"Eu sempre imponho em meu método uma única tomada porque meu princípio em cinema é ser muito honesto, ser verdadeiro. Também valorizo a fisicalidade do espaço como um importante elemento no cinema, na vida. A natureza é um grande ator em meu cinema. Eu quero mostrar a vida no cinema, você tem de ser capaz de ver a tela toda e também você tem que pensar que além da tela existe a vida. É um grande universo, não é apenas a tela ali. Quero que meu cinema seja a tela viva. Luto para apresentar meu cinema como parte da vida. Não é só essa coisa retangular que você vê, nas salas de cinema com refrigerante e pipoca nas mãos. Acredito que meu cinema é parte do ciclo da vida. Estamos falando da beleza e do significado da vida, estamos tentando entender a vida, estou tentando espelhar a vida em meu trabalho." (Lav Diaz, cineasta filipino)
Ranking dos países com maior número de emigrantes, de pessoas que decidiram sair de seus países e morar em outro. As Filipinas estão em 8º lugar. Mais tarde eu explico mais sobre por que destaquei esse arquipélago do sudeste asiático.

domingo, 16 de novembro de 2014

"Minha imagem observa sua imagem, se for possível observá-la, e isto é chamado relação, mas é entre duas imagens, uma relação que não existe porque ambas são imagens. Estar em relação significa estar em contato. O contato deve ser uma coisa direta, não entre duas imagens. Isto requer muita atenção, uma conscientização, olhar o outro sem a imagem que tenho sobre a pessoa, a imagem sendo minhas memórias daquela pessoa, como ela me insultou, como me agradou, me deu prazer, isto ou aquilo. Só quando não existem imagens entre os dois, existe relação." (Krishnamurti)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

"A pessoa tem uma ideia de si mesma, uma imagem de si mesma: o que se deveria ser, o que se é, ou o que não deveria ser. Por que a pessoa cria uma imagem de si mesma? Porque a pessoa nunca estudou o que ela é de fato. Nós pensamos que devemos ser isto ou aquilo: o ideal, o herói, o exemplo. O que desperta raiva é que nosso ideal, a ideia que temos de nós mesmos é atacada. E nossa ideia sobre nós é nossa fuga do fato do que somos. Mas quando você observa o fato real do que você é, ninguém pode feri-lo: é um fato.E você não ter imagem de você mesmo demanda atenção, tremenda seriedade. Só o atento, o sério, vive; as pessoas que têm imagens delas mesmas, não." (Krishnamurti)
"Como bem salienta Jeremy Waldron: 'é possível que diferentes juízes alcancem diferentes resultados, mesmo quando eles acreditam estarem diante da resposta correta, e nada sobre a ontologia de respostas corretas dá a nenhum deles razão para pensar que sua visão pessoal é mais correta do que qualquer outra visão'. Levando em consideração que as pessoas, mesmo quando acreditam na existência de uma resposta correta sobre direitos fundamentais, podem discordar moralmente umas das outras - e elas normalmente discordam - então a objetividade moral passa a ser irrelevante neste tópico. E esse é o principal ponto: os juízes discordam sobre interpretação judicial na mesma proporção em que as pessoas comuns discordam sobre a moralidade coletiva. A única certeza é que a população vai ser diretamente afetada por alguma concepção particular de direitos acolhida pela maioria dos membros das Cortes Constitucionais. Não há nenhuma garantia que o ponto de vista adotado pelos juízes seja superior ao dos outros membros da sociedade. Por fim, a última crítica refere-se à inadequação da via judicial para a solução dos conflitos constitucionais que envolvem desacordos razoáveis. De acordo com estudos realizados por Lon Fuller, o método jurídico utiliza-se necessariamente da dicotomia entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o culpado e o inocente, o que significa dizer que as Cortes estão aptas a tratar de casos que possam ser respondidos por meio de um código binário." (Jorge Octávio Lavocat Galvão)
"Um dado curioso: embora as piadas normalmente envolvam homem e sogra, a verdadeira tensão ocorre com mais frequência entre esposa e sogra (mãe do marido). São duas mulheres batalhando o amor do marido. A solução? É o marido ficar do lado da mulher e contra a mãe. A mãe pode ficar magoada. Mas provavelmente vai acabar adaptando-se à realidade de que a unidade familiar do filho, onde ele tem o papel de marido, é mais importante para ele. É absolutamente crucial para o casamento que o marido seja firme nessa questão, mesmo que ele se sinta injustamente envolvido e que sua mãe não consiga aceitar a nova realidade." (John Gottman e Nan Silver)
"Resolver os problemas que têm solução envolve cinco passos, na seguinte ordem: abordar o problema moderadamente; tentar corrigir os próprios erros e aceitar iguais tentativas do outro; acalmar-se e acalmar o parceiro; fazer concessões mútuas e tolerar as falhas um do outro. A abordagem inicial deve ser feita de modo moderado, desacompanhada de qualquer crítica ou desrespeito, a fim de que as discussões terminem também num tom moderado. É crucial evitar uma abordagem ríspida, pois isso intensifica a negatividade, e contribui para que o conflito não seja solucionado. É de suma importância que o foco da situação seja a solução do problema, e não a tentativa de modificar o cônjuge." (John Gottman e Nan Silver)


"São seis os sinais que evidenciam um divórcio à vista. O primeiro sinal é a abordagem ríspida, que é o pior modo de iniciar uma discussão. O segundo sinal é representado pelos 'quatro cavaleiros do Apocalipse': crítica, desprezo, defensividade e incomunicabilidade. O terceiro sinal é a saturação, ou seja, um cônjuge saturado foi atingido pela negatividade de outro de forma tão opressiva que o deixou traumatizado. O quarto sinal é a linguagem corporal, e o quinto, as tentativas de reparação sem sucesso. O sexto sinal são as recordações desagradáveis sobre aspectos do passado." (John Gottman e Nan Silver)


<< A pesquisadora Julie Gottman detectou um ciclo de ações e reações que mais comumente levam casais a sucumbir à infidelidade [que, segundo ela, pode ser de 10 tipos, inclusive a física]. Chama o primeiro estágio de “estado de negatividade”. Tem início quando um dos dois deixa de dar atenção ou apoio ao outro. As situações podem ser as mais variadas – de faltas sérias, como não estar presente na morte de um parente do outro, a descuidados banais, como se esquecer de cumprir uma tarefa doméstica. Quando o sentimento de mágoa por essa falta não é expressado, ele também não é esquecido. O lado magoado passa a provocar o outro. Isso torna os atritos mais frequentes e leva ambos a assumir uma atitude defensiva. A comunicação fica mais difícil e está instalado o estado de negatividade. >>

sábado, 8 de novembro de 2014

Pervert's guide to ideology
(Slavoj Žižek)

"Eles Vivem" de 1988 é sem sombra de dúvidas uma das obras primas esquecidas da esquerda de Hollywood. O filme conta a estória de John Nada. "Nada", óbvio, em espanhol quer dizer "nada" ["nothing"]. Um cara simples, desprovido de bens materiais. Um trabalhador sem-teto em Los Angeles, que andando por aí certa vez entra numa igreja abandonada e encontra lá uma caixa estranha cheia de óculos escuros. E quando ele coloca um dos óculos, caminhando pelas ruas da cidade, ele se dá conta de algo esquisito: esses óculos funcionam como óculos de crítica à ideologia. Eles permitem que você veja a real mensagem por trás de toda propaganda, publicidade reluzente, pôsteres etc. Você vê um grande outdoor te dizendo "tenha as férias da sua vida" e, quando você coloca os óculos, tudo o que você vê é um quadro com fundo branco e letras cinza: CASE E REPRODUZA.

Vivemos, é o que nos dizem, em uma sociedade pós-ideológica. Somos interpelados, ou seja, uma autoridade social se dirige a nós não como sujeitos que deveriam cumprir suas tarefas, se sacrificar, mas como sujeitos de prazeres: "Descubra seu verdadeiro potencial." "Seja você mesmo." "Viva uma vida prazerosa." Quando você põe os óculos você vê a ditadura embutida na democracia, a ordem invisível que sustenta sua aparente liberdade. A explicação para a existência dos estranhos óculos da ideologia é a história padrão dos "Alienígenas Invasores de Corpos". A humanidade já está sob o controle dos extraterrestres. De acordo com nosso senso comum,  imaginamos a ideologia como algo turvando, confundindo nossa visão direta. A ideologia bem poderia ser óculos que distorcem nossa visão e a crítica da ideologia deveria ser o contrário. Tipo, você retira os óculos de modo a poder finalmente enxergar as coisas do jeito que realmente são.

Esta é precisamente a suprema ilusão: a ideologia não nos é simplesmente imposta; ideologia é nossa relação espontânea com o mundo social, é como percebemos seu significado. Nós, de certa forma, gostamos da nossa ideologia. Sair da ideologia machuca. É uma experiência dolorosa. Você tem que se esforçar para conseguir. Isto é apresentado de um modo maravilhoso numa cena posterior do filme, quando John Nada tenta obrigar seu melhor amigo, John Armitage a também usar os óculos. E esta é a cena mais estranha no filme. A luta leva oito, nove minutos. Isso pode parecer irracional, por que este cara rejeita tão violentamente colocar os óculos? É como se ele estivesse bem consciente que, espontaneamente, ele vive em uma mentira. Que os óculos o farão perceber a verdade, mas que essa verdade pode ser dolorosa, pode despedaçar muitas de suas ilusões. Este é um paradoxo que temos que aceitar. A violência extrema da libertação. Você deve ser forçado a ser livre. Se você só confia no seu senso espontâneo de bem-estar, você nunca vai ser livre. A liberdade dói.

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E se você lesse os propagandistas católicos inteligentes, e se você tentasse realmente decifrar qual proposta eles te oferecem? Não é proibir (neste caso, os prazeres sexuais). Este é um contrato bem mais cínico, por assim dizer, entre a igreja, como instituição, e o crente perturbado, neste caso, pelos desejos sexuais. É essa obscena permissão oculta que você recebe: você está protegido pelo divino Grande Outro, você pode fazer o que você quiser fazer. Goze! Este contrato obsceno não pertence ao cristianismo em si; ele pertence à Igreja Católica como instituição. É a lógica da instituição em seu mais puro estado. Mais uma vez, esta é a chave para o funcionamento da ideologia. Não somente a mensagem explícita: renuncie, sofra etc., mas a verdadeira mensagem oculta: FINJA renunciar, e poderá ter tudo.

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Meus amigos psicanalistas estão me dizendo que, tipicamente, hoje os paciente que vão ao analista resolver seus problemas sentem-se culpados, não pelos prazeres excessivos, não porque cedem a prazeres que vão contra ao seus sensos de dever ou moralidade, ou seja lá o que for. Pelo contrário, sentem-se culpados por não desfrutarem o suficiente. Por não conseguirem gozar. Um desejo não é nunca simplesmente o desejo por uma certa coisa. É também o desejo pelo próprio desejo. Um desejo de continuar desejando. Talvez o pior horror para um desejo seja a sua completa realização, de modo que eu não mais deseje. A experiência mais melancólica é a experiência da perda do desejo em si.

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As fantasias não são só uma questão privada dos indivíduos. Fantasias são a matéria central de que são feitas as nossas ideologias. A fantasia é, numa perspectiva psicanalítica, fundamentalmente uma mentira. Não uma mentira no sentido de que é só uma fantasia, não uma realidade, mas uma mentira no sentido de que a fantasia encobre uma certa falha na consistência. Quando as coisas estão turvas, quando não podemos ver bem, a fantasia nos dá uma resposta fácil. A forma mais comum da fantasia é construir uma cena não uma cena em que eu consigo o que eu desejo, mas uma cena na qual eu possa me imaginar desejado pelos outros.

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Violência nunca é só violência abstrata. É um tipo de intervenção brutal no real para encobrir uma certa impotência no que tange ao que podemos chamar de mapeamento cognitivo. Você carece de uma clara compreensão do que está havendo, de onde estamos.

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Estamos conscientes de que quando compramos um capuccino da Starbucks, também estamos comprando um montão de ideologia. Qual ideologia? Sabe, quando você entra numa loja da Starbucks há alguns pôsteres cuja mensagem é: Sim, nosso cappuccino é mais caro que os outros, mas (e aí vem a historinha) sempre damos um por cento de todo o nosso faturamento para crianças da Guatemala, para mantê-las saudáveis, para fornecer água a alguns agricultores do Saara, ou pra salvar as florestas, ou pro cultivo de café orgânico. O que a Starbucks te proporciona é ser um consumista, ser um consumidor sem nenhum peso na consciência, porque o preço de tomar uma atitude, na luta contra o consumismo já está incluído no preço da mercadoria. Tipo, você paga um pouco a mais e você não é mais só um consumista mas também faz a sua parte com relação ao meio-ambiente as crianças pobres famintas da África etc.

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O filosofo alemão Walter Benjamin disse uma coisa muito profunda. Ele diz que nós vivemos a história, o que significa que somos seres da história, não quando estamos engajados em algo, quando as coisas acontecem, só quando nós vemos esses restos, esses dejetos da cultura sendo reapropriados pela natureza, é nesse ponto que temos uma intuição do que é a história.

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A coisa realmente perturbadora em "Batman: O Cavaleiro das Trevas" é que ele eleva a mentira à posição de um princípio social geral, um princípio da organização da nossa vida politica e social. Como se para nossa sociedade poder permanecer estável, poder funcionar, só conseguiria estando baseada na mentira. É como se contar a verdade, e este contar a verdade personificado no Coringa, significasse desvirtuamento, desintegração da ordem social. É a velha sabedoria conservadora posta muito tempo atrás por filósofos desde Platão, principalmente e então, Immanuel Kant, Edmond Burke etc. Esta ideia de que a verdade é forte demais. Que um político deveria ser um cínico que, apesar de saber a verdade, conta às pessoas comuns o que Platão chamou de "uma nobre fábula", uma mentira.

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Esta é a tragédia da nossa condição: para podermos existir completamente como indivíduos, precisamos da ficção de um Grande Outro. Deve haver uma instância que registra nossas questões. Uma instância onde as verdades sobre nós mesmos será inscrita, aceita. Uma instância a quem podemos confessar. Mas, e se não existisse uma tal instância? Este é o maior desespero de muitas mulheres estupradas na guerra pós Iugoslávia na Bósnia no começo dos anos noventa. Elas sobreviveram às suas terríveis experiências e o que as manteve vivas foi a ideia de que elas deviam sobreviver pra contar a verdade. Quando elas sobreviveram, descobriram algo terrível: não havia ninguém para realmente ouvi-las. Ou algum parente fazia insinuações obscenas do tipo "tem certeza de que você não gostou nem um pouquinho do estupro?" etc.

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Eu acho que Kafka estava certo quando ele disse que, para um homem moderno secular não-religioso, a burocracia estatal é o único contato que resta com a dimensão divina. Nesta cena de "Brasil - o Filme", o que vemos é a ligação íntima entre burocracia e gozo. O que a impenetrável onipotência da burocracia abriga é o gozo divino. A intensa pressa do trabalho burocrático não serve pra nada. É a encenação de sua própria falta de sentido. que gera um gozo intenso, pronto a se reproduzir eternamente. O reverso disso está nessa cena maravilhosa lá do começo do filme. O herói que tem um problema no seu apartamento com o encanamento tenta contatar a Agência do Estado para consertar. É claro, aparecem dois caras, eles só querem formulários para preencher, eles não fazem nada. E então uma figura subversiva aparece: um tipo de encanador clandestino, interpretado por Robert De Niro, que diz a ele "Só precisa me dizer qual o problema", e garante resolvê-lo rapidinho. Esta é a maior ofensa à burocracia.
"No filme Tubarão, do Steven Spielberg, um tubarão começa a atacar as pessoas na praia. O que esse tubarão significa? Pessoas comuns em todos os países têm uma multiplicidade de medos. Nós temos medos de todos os tipos. Temos medo dos imigrantes, ou que as pessoas que consideramos inferiores nos ataquem, nos roubem, que pessoas violentem nossas crianças, temos medo de desastres naturais, tornados, terremotos, maremotos, temos medo de políticos corruptos, temos medo de grandes companhias, que podem fazer basicamente o que quiserem com a gente. A função do tubarão é unificar todos esses medos, de modo que possamos trocar todos esses medos por apenas um. Assim, nossa relação com a realidade fica mais simples. É o mesmo mecanismo do tubarão do filme. Você tem uma quantidade imensa de medos, e essas multiplicidade de medos confunde você, como se você simplesmente não soubesse o que quer dizer dessa confusão toda. Então você substitui essa enorme bagunça por uma figura clara." (Slavoj Žižek)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

"Precisamos de muita energia para provocar uma mudança em nós mesmos e, assim, mudar a sociedade; mas gastamos nossa energia pelo conflito, pela resistência, pelo conformismo, aceitação e obediência. É um desperdício de energia quando tentamos nos adaptar a um padrão. Para conservar energia devemos estar cônscios de nós mesmos, como dissipamos energia. Este é um problema antigo, pois a maior parte dos seres humanos é indolente; eles preferem aceitar, obedecer e seguir." (Krishnamurti)


"Não sei se vocês perceberam que ao encarar um fato há uma liberação de energia, psicologicamente. A maior parte de nossas vidas é gasta no conflito. Nós não encaramos os fatos, mas corremos deles, em busca de várias formas de fuga. Isto é energia dissipada, e o resultado dessa dissipação é confusão. Se a pessoa não foge, se não traduz o fato em termos de seu próprio prazer e dor, mas meramente observa, então esse ato de puro olhar em que não há resistência é a liberação de energia." (Krishnamurti)


"O passado não é apenas os muitos ontens, mas também, cada minuto que vai sendo acumulado, a memória da coisa que acabou um segundo atrás. Este acúmulo na mente é, também, destrutivo da energia. Então, para despertar esta energia, a mente não deve ter resistência, nem motivo, nem objetivo em vista, e ela não deve estar presa no tempo como ontem, hoje e amanhã. Aí a energia está se renovando constantemente e, por isso, não se degenerando. Tal mente não está comprometida, ela é completamente livre, e só tal mente pode encontrar o inominável, essa coisa extraordinária que está além das palavras. A mente deve se libertar do conhecido para entrar no desconhecido." (Krishnamurti)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

"Diante de um mundo que é ininteligível e problemático, nossa tarefa é clara: precisamos tornar este mundo ainda mais ininteligível, ainda mais enigmático." (Heidegger)
O Arnaldo Jabor plagiou a si mesmo. Copiou parágrafos inteiros e frases inteiras de um texto seu de 24/11/1998 (Onde estão os hippies agora que precisamos deles?) – que eu conheço bem porque tenho guardado o recorte do jornal dentro do meu livro Obras Incompletas, do Nietzsche – para um texto seu de hoje, 04/11/2014 (Fim de jogo), 16 anos depois. Sem dar refrência, sem mencionar a origem.

sábado, 1 de novembro de 2014

"Vou dar um exemplo. Se você digitar Bolsa Família no Google Imagens, a foto mais comum que vai aparecer é de uma pessoa sorrindo e segurando o cartão do programa. Para muitas dessas pessoas esse cartão mostra que estão vinculadas ao Estado pela primeira vez. Pessoas pobres muitas vezes não se sentem parte de um país. São subjugadas, tratadas como se fossem de fora. O cartão estabelece uma relação legal e formal com o Estado. Equivale a dizer: ‘O País valoriza você e sua família e por isso estamos repassando esses recursos.’ A pessoa passa a ser cidadã de um país e, consequentemente, começa a valorizar a educação dos filhos, a criá-los bem nutridos, e os filhos, por outro lado, passam a cuidar mais de suas mães. Cria-se, assim, uma relação de mútua responsabilidade. Esse é um dos aspectos centrais do Bolsa Família. " (Arup Banerji, 51 anos, economista indiano que é diretor do Banco Mundial)
"Portland tomou algumas decisões, nos anos 70, que começaram a distingui-la de quase todas as outras cidades americanas. Enquanto a maioria das outras cidades estava incentivando uma expansão de pneus sobressalentes sem planejamento, Portland instituiu um limite de crescimento urbano. Enquanto a maioria das cidades estava ampliando suas estradas, removendo árvores e estacionamentos paralelos às calçadas, para que o o tráfego de carros aumentasse, Portland instituiu um programa de ruas estreitas. E, enquanto a maioria das cidades estava investindo em mais estradas e em mais rodovias, eles, na verdade, investiam em bicicletas e caminhadas. E gastaram 60 milhões de dólares em bicicletários, o que parece muito dinheiro, mas foram gastos ao longo de 30 anos, então, 2 milhões de dólares por ano -- não é muito -- e a metade do preço de um único trevo rodoviário que eles decidiram reformar na cidade." (Jeff Speck)
"As cidades são prejudiciais à saúde, às liberdades, e aos princípios morais do homem. Se continuarmos nos empilhar uns nos outros nas cidades, como fazem na Europa, nós nos tornaremos tão corruptos como eles são na Europa e passaremos a comer uns os outros como eles fazem lá." (Thomas Jefferson)
"A direita brasileira vai na direção da direita norte-americana, que não está mais interessada em constituir maiorias de governo; está interessada em impedir que aconteçam governos. Não quer constituir políticas no Legislativo e ignora o voto do eleitor médio. Ela não precisa de voto porque está sendo financiada diretamente pelas grandes corporações. Por isso, seus integrantes podem se dar ao luxo de ter posições nítidas e inegociáveis. E partem para cima, tornando impossível qualquer mudança de status quo. Há uma direita no Brasil que está indo nessa direção. A esquerda não pode fazer isso porque tem que governar, constituir maiorias, transigir, negociar, transformar tudo em um mingau. Nesse confronto, surge o que sociólogos nos EUA classificam como uma 'polarização assimétrica', com um lado sem freios e outro tentando contemporizar. A lenga-lenga do Brasil polarizado é apenas uma lenga-lenga, um teatro. Nos Estados Unidos, democratas e liberais se caracterizam pela moderação – como a esquerda oficial no Brasil, que é moderada. O outro lado não é moderado. Por isso a polarização é assimétrica." (Paulo Eduardo Arantes, filósofo e professor aposentado da USP)