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sábado, 8 de novembro de 2014

Pervert's guide to ideology
(Slavoj Žižek)

"Eles Vivem" de 1988 é sem sombra de dúvidas uma das obras primas esquecidas da esquerda de Hollywood. O filme conta a estória de John Nada. "Nada", óbvio, em espanhol quer dizer "nada" ["nothing"]. Um cara simples, desprovido de bens materiais. Um trabalhador sem-teto em Los Angeles, que andando por aí certa vez entra numa igreja abandonada e encontra lá uma caixa estranha cheia de óculos escuros. E quando ele coloca um dos óculos, caminhando pelas ruas da cidade, ele se dá conta de algo esquisito: esses óculos funcionam como óculos de crítica à ideologia. Eles permitem que você veja a real mensagem por trás de toda propaganda, publicidade reluzente, pôsteres etc. Você vê um grande outdoor te dizendo "tenha as férias da sua vida" e, quando você coloca os óculos, tudo o que você vê é um quadro com fundo branco e letras cinza: CASE E REPRODUZA.

Vivemos, é o que nos dizem, em uma sociedade pós-ideológica. Somos interpelados, ou seja, uma autoridade social se dirige a nós não como sujeitos que deveriam cumprir suas tarefas, se sacrificar, mas como sujeitos de prazeres: "Descubra seu verdadeiro potencial." "Seja você mesmo." "Viva uma vida prazerosa." Quando você põe os óculos você vê a ditadura embutida na democracia, a ordem invisível que sustenta sua aparente liberdade. A explicação para a existência dos estranhos óculos da ideologia é a história padrão dos "Alienígenas Invasores de Corpos". A humanidade já está sob o controle dos extraterrestres. De acordo com nosso senso comum,  imaginamos a ideologia como algo turvando, confundindo nossa visão direta. A ideologia bem poderia ser óculos que distorcem nossa visão e a crítica da ideologia deveria ser o contrário. Tipo, você retira os óculos de modo a poder finalmente enxergar as coisas do jeito que realmente são.

Esta é precisamente a suprema ilusão: a ideologia não nos é simplesmente imposta; ideologia é nossa relação espontânea com o mundo social, é como percebemos seu significado. Nós, de certa forma, gostamos da nossa ideologia. Sair da ideologia machuca. É uma experiência dolorosa. Você tem que se esforçar para conseguir. Isto é apresentado de um modo maravilhoso numa cena posterior do filme, quando John Nada tenta obrigar seu melhor amigo, John Armitage a também usar os óculos. E esta é a cena mais estranha no filme. A luta leva oito, nove minutos. Isso pode parecer irracional, por que este cara rejeita tão violentamente colocar os óculos? É como se ele estivesse bem consciente que, espontaneamente, ele vive em uma mentira. Que os óculos o farão perceber a verdade, mas que essa verdade pode ser dolorosa, pode despedaçar muitas de suas ilusões. Este é um paradoxo que temos que aceitar. A violência extrema da libertação. Você deve ser forçado a ser livre. Se você só confia no seu senso espontâneo de bem-estar, você nunca vai ser livre. A liberdade dói.

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E se você lesse os propagandistas católicos inteligentes, e se você tentasse realmente decifrar qual proposta eles te oferecem? Não é proibir (neste caso, os prazeres sexuais). Este é um contrato bem mais cínico, por assim dizer, entre a igreja, como instituição, e o crente perturbado, neste caso, pelos desejos sexuais. É essa obscena permissão oculta que você recebe: você está protegido pelo divino Grande Outro, você pode fazer o que você quiser fazer. Goze! Este contrato obsceno não pertence ao cristianismo em si; ele pertence à Igreja Católica como instituição. É a lógica da instituição em seu mais puro estado. Mais uma vez, esta é a chave para o funcionamento da ideologia. Não somente a mensagem explícita: renuncie, sofra etc., mas a verdadeira mensagem oculta: FINJA renunciar, e poderá ter tudo.

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Meus amigos psicanalistas estão me dizendo que, tipicamente, hoje os paciente que vão ao analista resolver seus problemas sentem-se culpados, não pelos prazeres excessivos, não porque cedem a prazeres que vão contra ao seus sensos de dever ou moralidade, ou seja lá o que for. Pelo contrário, sentem-se culpados por não desfrutarem o suficiente. Por não conseguirem gozar. Um desejo não é nunca simplesmente o desejo por uma certa coisa. É também o desejo pelo próprio desejo. Um desejo de continuar desejando. Talvez o pior horror para um desejo seja a sua completa realização, de modo que eu não mais deseje. A experiência mais melancólica é a experiência da perda do desejo em si.

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As fantasias não são só uma questão privada dos indivíduos. Fantasias são a matéria central de que são feitas as nossas ideologias. A fantasia é, numa perspectiva psicanalítica, fundamentalmente uma mentira. Não uma mentira no sentido de que é só uma fantasia, não uma realidade, mas uma mentira no sentido de que a fantasia encobre uma certa falha na consistência. Quando as coisas estão turvas, quando não podemos ver bem, a fantasia nos dá uma resposta fácil. A forma mais comum da fantasia é construir uma cena não uma cena em que eu consigo o que eu desejo, mas uma cena na qual eu possa me imaginar desejado pelos outros.

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Violência nunca é só violência abstrata. É um tipo de intervenção brutal no real para encobrir uma certa impotência no que tange ao que podemos chamar de mapeamento cognitivo. Você carece de uma clara compreensão do que está havendo, de onde estamos.

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Estamos conscientes de que quando compramos um capuccino da Starbucks, também estamos comprando um montão de ideologia. Qual ideologia? Sabe, quando você entra numa loja da Starbucks há alguns pôsteres cuja mensagem é: Sim, nosso cappuccino é mais caro que os outros, mas (e aí vem a historinha) sempre damos um por cento de todo o nosso faturamento para crianças da Guatemala, para mantê-las saudáveis, para fornecer água a alguns agricultores do Saara, ou pra salvar as florestas, ou pro cultivo de café orgânico. O que a Starbucks te proporciona é ser um consumista, ser um consumidor sem nenhum peso na consciência, porque o preço de tomar uma atitude, na luta contra o consumismo já está incluído no preço da mercadoria. Tipo, você paga um pouco a mais e você não é mais só um consumista mas também faz a sua parte com relação ao meio-ambiente as crianças pobres famintas da África etc.

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O filosofo alemão Walter Benjamin disse uma coisa muito profunda. Ele diz que nós vivemos a história, o que significa que somos seres da história, não quando estamos engajados em algo, quando as coisas acontecem, só quando nós vemos esses restos, esses dejetos da cultura sendo reapropriados pela natureza, é nesse ponto que temos uma intuição do que é a história.

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A coisa realmente perturbadora em "Batman: O Cavaleiro das Trevas" é que ele eleva a mentira à posição de um princípio social geral, um princípio da organização da nossa vida politica e social. Como se para nossa sociedade poder permanecer estável, poder funcionar, só conseguiria estando baseada na mentira. É como se contar a verdade, e este contar a verdade personificado no Coringa, significasse desvirtuamento, desintegração da ordem social. É a velha sabedoria conservadora posta muito tempo atrás por filósofos desde Platão, principalmente e então, Immanuel Kant, Edmond Burke etc. Esta ideia de que a verdade é forte demais. Que um político deveria ser um cínico que, apesar de saber a verdade, conta às pessoas comuns o que Platão chamou de "uma nobre fábula", uma mentira.

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Esta é a tragédia da nossa condição: para podermos existir completamente como indivíduos, precisamos da ficção de um Grande Outro. Deve haver uma instância que registra nossas questões. Uma instância onde as verdades sobre nós mesmos será inscrita, aceita. Uma instância a quem podemos confessar. Mas, e se não existisse uma tal instância? Este é o maior desespero de muitas mulheres estupradas na guerra pós Iugoslávia na Bósnia no começo dos anos noventa. Elas sobreviveram às suas terríveis experiências e o que as manteve vivas foi a ideia de que elas deviam sobreviver pra contar a verdade. Quando elas sobreviveram, descobriram algo terrível: não havia ninguém para realmente ouvi-las. Ou algum parente fazia insinuações obscenas do tipo "tem certeza de que você não gostou nem um pouquinho do estupro?" etc.

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Eu acho que Kafka estava certo quando ele disse que, para um homem moderno secular não-religioso, a burocracia estatal é o único contato que resta com a dimensão divina. Nesta cena de "Brasil - o Filme", o que vemos é a ligação íntima entre burocracia e gozo. O que a impenetrável onipotência da burocracia abriga é o gozo divino. A intensa pressa do trabalho burocrático não serve pra nada. É a encenação de sua própria falta de sentido. que gera um gozo intenso, pronto a se reproduzir eternamente. O reverso disso está nessa cena maravilhosa lá do começo do filme. O herói que tem um problema no seu apartamento com o encanamento tenta contatar a Agência do Estado para consertar. É claro, aparecem dois caras, eles só querem formulários para preencher, eles não fazem nada. E então uma figura subversiva aparece: um tipo de encanador clandestino, interpretado por Robert De Niro, que diz a ele "Só precisa me dizer qual o problema", e garante resolvê-lo rapidinho. Esta é a maior ofensa à burocracia.

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