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terça-feira, 13 de setembro de 2016

“Desculpe o transtorno, preciso falar do Cunha”, escreve Michel Temer
(The Piauí Herald)


Primeiramente, affinitas affinitatem non generat.

Conheci-o no culto. Essa frase pode soar eloquente demais se você imaginar alguém pregando a palavra de Deus num templo milenar de Israel. Mas o culto em questão era apenas um dos muitos que os pastores vêm comandando desde os anos 90 em decadentes cinemas das capitais. Ele fazia preces financeiras. Nunca vou esquecer: passava a sacolinha entre os fiéis humildes enquanto recitava Malaquias 3:8-10.

Quando os pastores levantavam a voz no púlpito, ele se calava. Quando contabilizavam o dízimo nos bastidores, ele os auxiliava. Quando gritavam “amém, Jesus!”, ele concordava com a cabeça. Sempre estrábico, deixava claro que conseguia manter um olho no peixe e outro no gato. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.

Passamos algumas madrugadas conversando na Telerj ao som de Sonda-me, Usa-me e Rendido Estou. De lá, migramos pro governo Garotinho. Do governo Garotinho pro PMDB, do PMDB pro Congresso.

Começamos a namorar quando ele tinha 50 e eu, 68, mas parecia que a vida começava ali. Vimos todos os episódios de House of Cards várias vezes. Testamos todas as receitas possíveis de robalo. Escolhemos diretorias em estatais como se escolhêssemos gravatas. A quatro mãos, escrevemos medidas provisórias, projetos de lei e inúmeras versões da reforma trabalhista. Fizemos uma dúzia de amigos novos e, com eles, fundamos o Blocão. Sofremos com os haters, gargalhamos com a desgraça da Dilma. Juntos, rasgamos a Constituição. Viajamos o mundo dividindo o cartão de crédito. Dos dez paraísos fiscais de que mais gosto, sete foi ele quem me apresentou. Os outros três foi ele quem inaugurou. Aprendi com ele o significado de usufrutuário, truste, Panama Papers e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho e enviando pra NSA.

Ontem, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais do que quando líamos o Regimento Interno da Câmara dos Deputados. Mais do que quando falávamos em público de nossas famílias. Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: cadê ele? Parece que, pra sempre, ele vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse tido votos, eu penso. Levaria algo de íntegro comigo.

Semana passada, consumou-se o impeachment que a gente urdiu juntos – não por acaso, fruto de um emaranhado jurídico bem mais cabeludo do que nossas cabeças já ralas. Achei que fosse chorar tudo de novo. Mas o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter orquestrado um grande golpe na vida. E de ter esse golpe documentado no Diário Oficial. Não falta nada.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cunha dando a letra:


'ARMADILHA TEMER' 
Ele está vivendo uma situação difícil, inclusive com erro de agenda. As manifestações de 2013 nunca foram sepultadas. Essa crise foi o propulsor do impeachment. Agora, Michel assumiu e, de certa forma, ele herda a crise de representatividade. Aqueles que votaram na Dilma e também no Michel — ele foi votado pelos mesmos 54 milhões — votaram num programa de governo apresentado pela Dilma que não foi cumprido. Ele precisaria compreender que ele foi votado por esses 54 milhões, que votaram em um programa de governo que a Dilma não cumpriu.

REFÉM
Há a sensação de que ele fica refém, porque ele entrega a política e o governo para aqueles que foram a oposição, que perderam a eleição para ele. É importante dizer isso: o PSDB e o DEM perderam a eleição para a Dilma e para o Michel. Se você quer legitimar o poder, tem que legitimar o poder eleito pelos 54 milhões. Quando você quer fazer o programa do PSDB e do DEM, passa a impressão de que quem está governando é o PSDB e o DEM. De uma certa forma, está trazendo para si a falta de representatividade. Os que votaram em você não reconhecem isso e aqueles que votaram no programa PSDB/DEM não entendem que o Michel é o representante legítimo para exercer isso. Nessas circunstâncias, ele está numa armadilha.

COMPORTAMENTO
Tem que ter um pacto mínimo, mas não temos mandato reformador. Temos um mandato resultante de uma crise. Não dá para se comportar como se tivesse se ganho uma eleição, com um programa que não foi discutido e apresentado à sociedade.

OS INSATISFEITOS
Vai acontecer o seguinte: nesse primeiro momento, há [nas ruas] os movimentos orquestrados pelo PT, mas daqui a pouco vão se agregar os outros, os insatisfeitos com o programa não cumprido da Dilma, os que votaram no Aécio... Isso é uma situação muito perigosa.

REELEIÇÃO
O PSDB adotou essa posição de censor depois que se divulgou a ideia de que o Michel poderia ser candidato à reeleição. Eles ficaram com a desconfiança. Não vão ser sócios de um governo que dê certo, porque se der certo o candidato é o Michel. Se der errado, serão partícipes do fracasso. Então eles vão ficar nessa posição. Votam o que for de interesse deles e criticam o que não for. Demarcaram uma diferença.

LIVRO
Vou escrever um livro sobre o impeachment. Ainda não pensei no título. Vou escrever com todos os detalhes tudo o que aconteceu dentro desse processo do qual participei. Tenho uma boa memória, né? Tenho ele rascunhado dentro da minha cabeça. Pretendo ter ele pronto até o fim desse ano. Acho que, talvez, o ponto de partida seja as manifestações de 2013. Tudo começa ali. Não espero perder o mandato mas, se acontecer, o livro vai sair mas rápido. Vou ter mais tempo.
Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice
(Gregório Duvivier)

Conheci ela no jazz. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar alguém tocando Cole Porter num subsolo esfumaçado de Nova York. Mas o jazz em questão era aquela aula de dança que todas as garotas faziam nos anos 1990 — onde ouvia-se tudo menos jazz. Ela fazia jazz. Minha irmã fazia jazz. Eu não fazia jazz mas ia buscar minha irmã no jazz. Ela estava lá.
Dançando. Nunca vou me esquecer: a música era "You Oughta Know", da Alanis.

Quando as meninas se jogavam no chão, ela ficava no alto. Quando iam pra ponta dos pés, ela caía de joelhos. Quando se atiravam pro lado, trombavam com ela que se lançava pro lado oposto. Os olhos, sempre imensos e verdes, deixavam claro que ela não fazia ideia do que estava fazendo. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.

Passamos algumas madrugadas conversando no ICQ ao som de Blink 182 e Goo Goo Dolls. De lá, migramos pro MSN. Do MSN pro Orkut, do Orkut pro inbox, do inbox pro SMS.

Começamos a namorar quando ela tinha 20 e eu 23, mas parecia que a vida começava ali. Vimos todas as séries. Algumas várias vezes. Fizemos todas as receitas existentes de risoto. Queimamos algumas panelas de comida porque a conversa tava boa. Escolhemos móveis sem pesquisar se eles passavam pela porta. Escrevemos juntos séries, peças de teatro, filmes. Fizemos uma dúzia de amigos novos e junto com eles o Porta dos Fundos. Fizemos mais de 50 curtas só nós dois —acabei de contar. Sofremos com os haters, rimos com os shippers. Viajamos o mundo dividindo o fone de ouvido. Das dez músicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três foi ela que compôs. Aprendi o que era feminismo e também o que era cisgênero, gas lighting, heteronormatividade, mansplaining e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ser casado com ela.

Um dia, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais que no final de "How I Met Your Mother". Mais que no começo de "UP". Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: cadê ela? Parece que, pra sempre, ela vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse tido um filho, eu penso. Levaria pra sempre ela comigo.

Essa semana, pela primeira vez, vi o filme que a gente fez juntos — não por acaso uma história de amor. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande amor na vida. E de ter esse amor documentado num filme — e em tantos vídeos, músicas e 
crónicas. Não falta nada.

domingo, 11 de setembro de 2016

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Roger Sterling e Ryan Lochte (separados na maternidade)

<< O conhecido “racionalista” Debasis Bhattacharya afirma que Madre Teresa fazia os pobres sofrerem para poderem receber o amor de Deus. “Mas ela nunca esperou. Quando ficou doente recorreu a serviços de saúde modernos e caros.” Do primeiro milagre que o Papa reconheceu como dela, a cura de um tumor em Mónica Besra, garante que foi uma mentira planejada: “Seu tumor não era cancerígeno, mas de tuberculose. Curou-se porque foi diagnosticado e tratado no hospital.” >> (El País)
Os 5 mitos da Justiça do Trabalho
(Por Rodrigo de Lacerda Carelli, professor da UFRJ e procurador do trabalho no RJ)

A Justiça do Trabalho vem sendo atacada por mitos, baseados em crenças ideológicas, sem qualquer vinculação rigorosa com fatos ou estudos empíricos.

O primeiro mito é que a proteção do direito do trabalho gera desemprego, sendo necessária a flexibilização da legislação trabalhista para a criação de postos de trabalho. Segundo os estudos empíricos realizados em diversos países (por todos, Relatório de Giuseppe Bertola para a OIT – Organização Internacional do Trabalho de 2009; e da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico de 2006 e 2013), não há qualquer relação determinante entre a proteção trabalhista e a geração de empregos, no sentido que a proteção trabalhista impediria a contratação de trabalhadores ou que a flexibilização incentivaria a criação de novos postos de trabalho. Outro ponto que os estudos abrangentes demonstram é que a proteção trabalhista assegura melhor distribuição da renda, além de demonstrar que longas horas de trabalho e alta rotatividade diminuem sensivelmente a produtividade (Deakin, Malmber e Sarkar, International Labour Review 195, 2014). O discurso de que o direito do trabalho se relaciona com o nível de emprego tem origem puramente ideológica.

O segundo mito é que a legislação trabalhista é antiga, tem mais de 70 anos, e por isso ultrapassada. De fato, a Consolidação das Leis do Trabalho original é do ano de 1943, porém, dos 510 artigos que compõem a parte de direito individual do trabalho, somente 75 permanecem com a redação original, ou seja, apenas 14,7% dos dispositivos não sofreu atualização. Além disso, há dezenas de leis esparsas tratando de novas formas de contratação que não estão inseridas no bojo do diploma legal principal, a CLT.

O terceiro mito é que é a legislação trabalhista que causa excesso de processos na Justiça do Trabalho. No ano de 2015, 46,9% das ações em curso eram relativas a pagamento das verbas rescisórias (Relatório Justiça em Números 2015, Conselho Nacional de Justiça), sendo que a maior parte desses trabalhadores, provavelmente, foram encaminhados pela própria empresa à Justiça do Trabalho para conciliar e reduzir o valor que o trabalhador tem por direito a receber. Ou seja, quase a metade da demanda na Justiça do Trabalho se dá pelo simples não pagamento de verbas na dispensa do trabalhador, não tendo qualquer relação com rigidez do Direito do Trabalho.

O quarto mito é que há excesso de ações na Justiça do Trabalho. Os jornais estampam manchetes dizendo que a Justiça do Trabalho receberá cerca de três milhões de ações este ano. Esse número, em termos absolutos, realmente assusta. Mas se olharmos em termos relativos, a Justiça do Trabalho recebe 13,8% dos casos novos, muito menos processos que a Justiça Estadual (69,7%), e menos ainda que a Justiça Federal, que tem praticamente um réu, a União Federal (14%).

O quinto mito é que as súmulas do Tribunal Superior do Trabalho e a multiplicação de leis trabalhistas tornariam complexas e sem segurança as relações jurídicas. Ora, esse mito é originado da ilusão do positivismo jurídico de querer tudo regular e não dar brechas para interpretação dos juízes: o Código Prussiano, de 1794, com 19.000 artigos, e o Código Napoleônico, de 1802, com 2.280 artigos, são os exemplos mais claros da utopia e também de seu fracasso. Por óbvio esses códigos não conseguiram abarcar todas as situações da vida, e os conflitos tiveram que ser resolvidos por interpretações judiciais. Isso se dá pelo simples fato que o mundo é complexo, as relações são complexas, não havendo possibilidade de amarrá-las todas em um texto legal. As súmulas dos tribunais são apenas uma tentativa que, sabendo-se um tanto vã, buscam maior clarificação do direito. Quanto à multiplicação das leis trabalhistas, essa é oriunda do próprio processo de desconstrução do direito do trabalho: a cada passo de flexibilização, mais uma lei é criada, mais uma exceção e, assim, mais complexa se torna a aplicação do direito.

Esses mitos impedem que haja a necessária análise desprovida de paixões ideológicas. A Justiça do Trabalho e o direito do trabalho exercem importantes funções no equilíbrio das relações sociais, impedindo a emergência de conflitos abertos entre empregadores e trabalhadores. Os fatos estão esquecidos ou escondidos, os mitos se tornam senso comum, espalham-se e contaminam até mesmo membros desse ramo: hoje a Justiça do Trabalho é uma ilha cercada de mitos por todos os lados. Os náufragos, habitantes dessa ilha, são os trabalhadores e a sociedade, que só esperam que os direitos fundamentais não sejam destruídos e que seja buscada a construção de uma comunidade baseada em respeito mútuo e, por conseguinte, mínima pacificação social.
Ações afirmativas são medidas que têm por objetivo reverter a histórica situação de desigualdade e discriminação a que estão submetidos indivíduos de grupos específicos. Elas partem do reconhecimento de que alguns grupos sociais – tais como os negros, os indígenas e as mulheres – foram historicamente privados de seus direitos, resultando em uma condição de desigualdade (social, econômica, política ou cultural) acumulada que tende a se perpetuar. São ações públicas ou privadas que procuram reparar os aspectos que dificultam o acesso dessas pessoas as mais diferentes oportunidades. As ações afirmativas podem ser adotadas tanto de forma espontânea, quanto de forma compulsória – isso é, através da elaboração de medidas que as tornam obrigatórias. O fim dessas medidas é sanar uma situação de desigualdade considerada prejudicial para o desenvolvimento da sociedade como um todo.

No Brasil, muitas pessoas ligam esse tema unicamente a política de adoção de cotas raciais nas universidades. Entretanto, podemos citar outros exemplos de ações afirmativas. A criação de delegacias especializadas para o atendimento de mulheres é uma delas. Essa medida parte do reconhecimento de que as mulheres sofrem historicamente de um tipo especial de violência que resulta da sua situação estrutural de desigualdade. A criação das delegacias da mulher não resolve o problema da violência, mas o sana na medida em que parte da consciência de que é preciso uma abordagem específica para esses casos. Em empresas privadas, a reserva de uma parcela dos postos de trabalho para pessoas com deficiências físicas ou intelectuais também não é uma medida que resolve definitivamente a condição de desigualdade desse grupo. Entretanto, ela reconhece a existência do problema e colabora para a inclusão ativa dessas pessoas. Leis que exigem uma quantidade mínima de mulheres na candidatura de cargos públicos, cursinhos voltados unicamente para a população de baixa renda e a distribuição de terras e habitação para grupos vulneráveis também são exemplos de ações afirmativas já adotadas há décadas em alguns países.

O interessante dessas ações é que elas partem da necessidade de dar a noção de justiça social uma nova interpretação. Segundo uma abordagem universalista e baseada no princípio da meritocracia, ser justo é tratar todos de forma igual. No entanto, em uma sociedade permeada por uma série de desigualdades, resultantes de um processo histórico específico, a adoção desse princípio acaba apenas reproduzindo as desigualdades já existentes. As ações afirmativas partem da ideia de que é preciso reconhecer a existência das desigualdade para que se chegue na igualdade – e não atuar como se tal igualdade já existisse. O seu objetivo é sanar situações de desigualdade que são consideradas socialmente desfavoráveis, tanto para o indivíduo, quanto para o conjunto de população.
"Nunca posso defender violência contra uma pessoa. Nada justifica isto. Este é o limite da liberdade de expressão, pois além deste limite começa o mundo da barbárie. Todos podemos dizer coisas que, refletindo melhor, pensamos ser um equívoco. Cabe, então, veemente pedido de desculpas. Até ele ocorrer, somos co-autores da violência defendida. Violência é o fim do diálogo. Como professor, fico intensamente chocado quando alguém se alegra com uma aluna perdendo a visão. Fico mais chocado com alguém que, tendo os dois olhos, seja tão cego. Temos um longo caminho pela frente. Aprender a ser crítico sem destruir, aprender a ser policial sem cegar, aprender a discordar sem apoiar violência e, acima de tudo, aprender a dialogar." (Leandro Karnal)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

"Eu me ocupo falando mal dos outros para não reformar a mim mesmo e aos meus costumes. O tropeço do outro é uma forma catártica de eu transferir minha angústia. E se o outro for poderoso, se outro for rico, ou se o outro for inteligente, a sua queda causa mais prazer ainda, porque ele foi punido por ter erguido a cabeça acima do pântano no qual eu estou." (Leandro Karnal)

"Eu não sou neutro, a justiça não é neutra, o congresso não é neutro, as igrejas não são neutras. Eu, o juiz Moro, Lula, o papa Francisco, Dilma, a mãe de santo, o pároco, o sindicalista, você e a socialite: todos estamos inseridos numa classe social e manifestamos um mundo que corresponde ao que mais me beneficia. Neutralidade só existe no sabão de coco. A democracia permite que uma subjetividade não seja a única possível." (Leandro Karnal)

"Querem simplesmente desresponsabilizar o Estado de fornecer serviços a seus cidadãos para que elas possam pilhar melhor o dinheiro dos seus impostos. Pois não se engane: o projeto é criar um Estado mínimo apenas para você. Porque, enquanto o Estado é mínimo para você, ele é generoso com aqueles que usam as leis para defender seus patrimônios e investimentos. Os mesmos bancos que pagam seus consultores para falar contra seus direitos não temem em recorrer ao Estado quando os negócios vão mal. Citibank, BNP/Paribas, Deutsche Bank que o digam." (Vladimir Safatle)

"A crise se tornou um modo de existência. Dentro desse modelo, que só se intensificou para uma situação na qual viveremos em crise contínua, o discurso da crise terá duas funções: a primeira é uma função econômica, a segunda é uma função moral, que é a pior de todas. Tem uma função econômica porque dirá que a crise não passa e, por conta disso, faz-se uma espécie de flexibilização contínua de todas as regras e direitos trabalhistas. Aí se faz uma Reforma da Previdência hoje e daqui a cinco anos outra, daqui a dez anos mais uma e para sempre até não ter mais o sistema de previdência, e isso também com os direitos trabalhistas, até não haver mais direito trabalhista algum. Esse é o horizonte. Agora, tem uma questão que é interessante: por que se tem uma passividade da população em relação a isso? Porque a crise é um discurso moral. Um discurso moral é mais ou menos um jogo de virtudes: só aquele que tem a virtude da coragem sobreviverá, ou seja, se tem coragem de assumir riscos, de ter sua força empreendedora de operar inovações, então a crise não o afetará; a crise afeta aqueles que são paralisados – os covardes – ou aqueles que agem como crianças mimadas e que esperam o amparo de algum tipo de Estado protetor ou Estado-providência. O sujeito que se vê fracassado economicamente se vê fracassado moralmente. Assim vai se criando uma situação na qual a responsabilidade da impossibilidade de inserção econômica é colocada nas costas, única e exclusivamente, dos indivíduos. Não é por outra razão que temos patologias da ação da disfunção dos indivíduos, como a depressão. O que é interessante é a incapacidade de desenvolver um trabalho sistemático para quebrar esse tipo de argumento." (Vladimir Safatle)

"As escolas são fechadas por duas razões: primeiro, porque a casta que nos governa é uma casta que consegue se perpetuar, ela não tem mais nenhum tipo de medo – porque a relação que o político tem que ter com a sociedade é de medo, se o político não teme mais a sociedade, acabou." (Vladimir Safatle)

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Falsa democracia
(José Saramago)

"A angústia é, precisamente, [para Kierkegaard] a consciência dessa liberdade sem freios, sem bordas e sem qualquer segurança - a tontura diante do abismo de possibilidades que se abre diante de nós a cada segundo." (José Francisco Botelho/Vida Simples)
"Todo gesto de cavalheiro é um exercício de domínio sobre o feminino. Eu pago a sua conta porque você é incompetente financeiramente e eu ganho mais. Eu abro a porta porque você é tão fraca que não conseguirá abrir esta porta. Eu ponho o meu casaco sobre você porque você é frágil - e curiosamente as mulheres resistem mais a infecção do que os homens. Há sempre mais mulheres do que homens, exceto na China, onde se pratica infanticídio de meninas. Eu ando na parte externa da calçada e você na parte interna porque, se vier um carro, você é tão lenta e tão lerda e tão tapada que não vai ver o carro vindo." (Leandro Karnal)
"Queria lançar essa dúvida: todo nacionalismo, todo desgaste de corpos e todos os gastos seriam bons motivos? Pelo menos, resta esta voz solitária dizendo… talvez não valha a pena. Seria possível reorganizar tudo, buscando saúde em vez de performances desgastantes? Que eu possa separar saúde de esporte é um dos pontos mais inquietantes do nosso mundo. (...) As pessoas que deixam uma vida medíocre e lutam por marcas melhores não legitimariam essa entrega? O lado bom do esporte (superação, melhoria, ascensão…) não justificaria tudo? O jogo de interesses econômicos não estaria também presente no Prêmio Nobel ou em todas as causas boas que abraçamos? Provavelmente sim. Olho hoje para estes atletas como mártires da sua força de vontade, da sua vaidade, do seu mérito, do seu treino obsessivo e das suas metas. A fé dos mártires sempre foi maior do que a fé comum. Por isso eles brilham em altares e pódios, e nós rastejamos no lodo. Atletas olímpicos seriam as vítimas finais da admiração que temos por tudo que nunca conseguiremos ser? O mundo é um lugar complexo. Por alguns instantes, aqueles jovens brilharam alto e uniram seus compatriotas em uma explosão de orgulho e felicidade. Ter articulações desgastadas parece um preço pequeno para tanta recompensa. Eles são foguetes que ficam deixando pedaços para atingir a Lua. Muitos chegam lá. Outros, como eu, ficam na Terra dizendo que é um esforço excessivo." (Leandro Karnal)
"Como uma criança no cinema, ficamos presos na ilusão. A partir disto vem nossa vaidade, ambição, e insegurança. Nos apaixonamos pelas ilusões que criamos e desenvolvemos excessivo orgulho da nossa aparência, nossos bens, e nossas realizações. É como ao usarmos uma máscara pensarmos com orgulho que a máscara somos nós mesmos." (Dzongsar Khyentse Rinpoche)
"Despertar significa acordar da tagarelice da mente, porque a tagarelice da mente é uma forma de hipnose - uma auto-hipnose." (Eckhart Tolle)
Para operações individuais, utilize os terminais de auto-arrependimento.
"Jamais diga a verdade se você pode mentir para obter alguma vantagem, nem que seja de cinco reais." (Clóvis de Barros Filho)

"O Princípio de Proteção se refere ao critério fundamental que orienta o Direito do Trabalho, pois este, ao invés de inspirar-se propósito de igualdade, responde ao objetivo de estabelecer um amparo preferencial a uma das partes: o trabalhador. Enquanto no direito comum uma constante preocupação parece assegurar a igualdade jurídica entre os contratantes, no Direito do Trabalho a preocupação central parece ser a de proteger das partes com o objetivo de, mediante essa proteção, alcançar uma igualdade substancial e verdadeira entre as partes. (...) O Direito do Trabalho surgiu como consequência de que a liberdade de contrato entre pessoas com poder e capacidade econômica desiguais conduzia a diferentes formas de exploração. Inclusive mais abusivas e iníquas. O legislador não pôde mais manter a ficção de igualdade existente entre as partes do contrato de trabalho e inclinou-se para uma compensação dessa desigualdade econômica desfavorável ao trabalhador com uma proteção jurídica a ele favorável. O Direito do Trabalho responde fundamentalmente ao propósito de nivelar desigualdades. Como dizia Couture: o procedimento lógico para corrigir desigualdades é o de criar outras desigualdades." (Plá Rodrigues)
"Por força do princípio da proteção, Direito do Trabalho se estrutura em seu interior, com suas normas, institutos, princípios e presunções próprias, uma teia de proteção à parte hipossuficiente na relação empregatícia, buscando retificar tanto o desequilíbrio inerente ao plano fático do contrato de trabalho, quanto a atentar à constatação fática da diferenciação socioeconômica e de poder substantivas entre os dois sujeitos da relação jurídica, por força da qual o sujeito empregador age naturalmente como um ser coletivo, isto é, um agente socioeconômico cujas ações - ainda que intraempresariais - têm a natural aptidão de produzir impacto na comunidade mais ampla. Pode-se afirmar que, sem a ideia protetiva-retificadora, o direito individual do Trabalho não se justificaria histórica e cientificamente." (Maurício Godinho Delgado)
Águia tônica.
"A meritocracia só existe porque as pessoas adoram o enredo de terem ~chegado lá~, terem feito ~grandes conquistas~ exclusivamente por mérito próprio. Bem resumidamente, meritocracia é uma sensível questão de ego." (Augusto Darde)
- nossa casa tá pegando fogo.
- azar, não fui eu quem contratou essa construtora.
- vamos morrer.
- quem mandou tu escolher essa construtora?
- tu também vai morrer.
- bem feito pra ti.

(Angélica Freitas)
"Ninguém pode ser protegido por ser mulher." (Janaína Paschoal)

"O golpista é Deus." (J.P.)
Senador Paulo JACOBY Rocha (PT).

PT significa Pwin Teaks, ou Twin Peaks "ao contrário": Peaks Twin.

"Acolher o desamparo é coisa para poucos: os que estiverem dispostos a lidar com o próprio. Convém não esquecer de que precisamos maternar-nos uns aos outros." (Diana Corso)
Daniela – Tem uma questão que eu sou mãe de dois filhos que estão vivendo muito forte esse momento do ódio. Eu tenho um filho de 4 anos. Ele é muito pequeno para ter tanto ódio. Ele foi educado num berço de amor, de paz, eu sou professora de yoga, eu pratico yoga, eu tenho amigos o tempo inteiro meditando, praticando yoga, cantando mantras – isso não adianta nada! Porque ele continua o mesmo endiabrado. Então o que é esse ódio? Esse ódio é inerente ao ser humano? Não é nas escolas, não é nem na televisão que ele aprende isso. Como que a gente lida com isso? Porque, se eu vou com todo o amor do mundo "Meu filho, não faça assim", isso não resolve, ele fica com mais raiva. Então, como que lida com isso? A gente tem que dizer "Cai fundo nesse ódio", porque não vai resolver mesmo? Ou a gente começa um movimento da paz? A gente ensina a meditar, a gente ensina que a conexão com o superior, com o divino, isso vai trazer uma paz; a gente vai fazendo uma onda que vai pegando todo mundo? Queria uma sugestão tua.

Leandro Karnal – Eu acho que você traz à tona, Daniela, as contradições difíceis da reflexão sobre o tempo. Como professor eu poderia lhe dizer, para tranquilizá-la, que não há ação direta da escola e dos pais sobre a personalidade dos filhos. Eles são o que são, independentemente da escola e dos pais. Pais violentos e agressivos podem dar origem a crianças absolutamente tranquilas. E pais tranquilos podem dar resultado a crianças diferentes. Eu acho que o que você está chamando de ódio, como eu não conheço o seu filho e nem você, pode ser especificamente uma reação mais energética que você não gostaria de ter. Se meditação provocasse paz transcendental, países de ascendência budista, como a Tailândia, teriam uma história de tranquilidade absoluta. O budismo nasceu na fronteira do Nepal com a Índia, e algumas das violências mais impressionantes do mundo vêm dessa região, onde iogues meditam anos a fio. Eu poderia dizer, talvez não exatamente para brincar, mas pode ser ódio dele de cheiro de incenso. Ele pode ser alérgico a incenso e, cada vez que se acende incenso e você medita com mantra do Ohm, ele fica com tanto ódio, que ele vai... Eu poderia dizer, agora brincando, experimenta jogar água benta, algo deve acontecer. Mas nós tendemos a registrar como hiperatividade, dar Ritalina, a todas as crianças que são mais ativas do que nós. Então, quando a criança fala mas alto que você, corre mais do que você e dorme menos do que você, ela deve ter hiperatividade e deve ser levada ao médico para dar remédios calmantes. Ao se dar Ritalina ou ao se dar coisas mais fortes, você está reconhecendo talvez uma condição médica que só um profissional poderia determinar (o que é possível, há crianças hiperativas), mas também seria possível pensar que você está reconhecendo a diferença. Uma diferença que pode levar,  numa reflexão bastante budista, ao caráter que ninguém é responsável por ninguém, que cada um tem o seu caminho. Há uma trajetória que o seu filho precisa fazer. Você não deve incentivar, até porque não é necessário. Há uma violência que você identifica nele e talvez haja uma violência que ele identifica em você, que é querer que ele se molde a você. E ele responde com uma violência também, e defende o espaço dele, que é autônomo, e dizendo que a maneira que ele tem de chamar a atenção numa casa de intelectuais é indo mal nos estudos. Numa casa de lutadores de jiu-jitsu, é fazendo ballet. Numa casa em que a mãe faz yoga e é uma pessoa tranquila, é dizendo "Eu não faço, sou absolutamente violento". Ele está dizendo "Volte a atenção para mim, olhe para mim, eu quero ser diferente". Para ser professor, ou para ser mãe ou pai, uma tarefa é a paciência. A paciência de quem planta carvalho, e não eucalipto – metáfora do Rubem Alves. A paciência para saber que, para ensinar seu filho a escovar os dentes, eu profetizo 15 anos ininterruptos, 4 vezes ao dia, de briga, e ele só aprenderá quando começar a beijar. Se você tiver falado ou não, tanto faz. Esta é a paciência para educar, ela é muito difícil. Talvez a gente tenha inventado o amor materno – uma invenção de 300 anos na história, é uma invenção recente na história humana, que as mães devam amar os filhos, e ainda não totalmente difundida, haja vista alguns episódios – porque é muito difícil amar as pessoas apesar delas. Então eu não sei se é a natureza dele ser violento. Você deve insistir até os últimos dias que ele deve respeitar os outros, que o caminho de ouvir é o melhor, que ele não é o único no mundo, e ter uma esperança brutal que essa mensagem seja ouvida. Deve ser uma luta constante, porque essa utopia de poder melhor alguém é que torna possível a educação, mas, como qualquer utopia, ela serve para tentar agir no presente, ela nunca serve para ser um ponto de chegada. Seremos todos derrotados, sempre, todos os professores, todos os pais, mas todos temos consciência de que houve alguém querendo fazer algo de bom e querendo modificar. Eu diria "Não pare de tentar, mas não vai dar certo". É só para animá-la, neste final.

domingo, 4 de setembro de 2016

"Um monge no Butão me disse que a ofensa é como uma brasa que você pega na mão para atirar em alguém. Talvez você acerte a pessoa-alvo, mas em 100% das vezes você queima a sua mão. O primeiro a se machucar com a ofensa é você mesmo." (Leandro Karnal)




Sobre a raiva 
(Sarah Doering)


O ódio, deveras, nunca, até agora, dissipou o ódio. Só o amor dissipa o ódio. O ódio só leva à vingança e a vingança leva a mais ódio. Um ciclo de sofrimento é colocado em movimento e pode continuar indefinidamente. Muitos lugares no mundo hoje são uma triste evidência dessa verdade. Os ensinamentos do Buda levam a raiva muito a sério, porque a raiva causa muito sofrimento. Mesmo quando, por conta da raiva, nenhuma ação é executada e aparentemente ela é controlada, uma pessoa que esteja enraivecida pode num instante mudar o ambiente ao entrar num cômodo. Ela traz consigo um calafrio invisível. Quem quer que esteja por perto se contrai e se retrai tornando-se menos espontâneo e mais defensivo. Isso ocorre inconscientemente. Parece claramente uma resposta no nível celular à qualidade de energia que a raiva emite.

O que é ignorado, com frequência, sobre os efeitos desastrosos da raiva no entanto, é o dano que ela causa à própria pessoa. A primeira pessoa ferida é sempre aquela que está com raiva. Uma mente com raiva é uma mente com sofrimento. Uma mente enraivecida fica agitada e tensa. Ela fica contraída e estreita. A qualidade da consciência muda. O julgamento e a perspectiva deixam de existir. Todo o bom senso desaparece. A pessoa se sente inquieta e compelida. Nada é satisfatório. O sono é difícil. O corpo fica tenso. A noção do eu é engrandecida e da mesma forma a noção do outro. Uma das razões porque a raiva é tão dolorosa é porque instantaneamente cria uma tamanha separação entre o eu e os outros. Uma barreira é estabelecida entre os dois, incapaz de ser superada.

A raiva pode ser prazerosa. Há um forte sentimento de justiçamento. Pensamentos de auto-justificação assumem o comando. Mas, subjacente ao prazer gerado por esses pensamentos auto-justificativos encontra-se a dor de uma mente tão rigorosamente constrita que está fechada a qualquer enlace humano.

As consequências da raiva são sérias. A raiva age como um veneno na mente. Ela gera karma ruim e prejudicial. Cada pensamento ou palavra, ou ação enraivecida tem o seu efeito correspondente. Algumas vezes pensamos que ao fazer algo, especialmente se ninguém mais toma conhecimento, aquela ação simplesmente desaparece. Essa noção pode ser um tanto reconfortante se estivermos incertos quanto à bondade daquilo que foi feito.

A ação aparentemente desaparece. O pensamento foi pensado. A palavra foi dita. A ação ocorreu e se foi. Mas aquela ação coloca em movimento uma cadeia de efeitos subsequentes que persistem. Tal qual as ondas que correm em todas as direções quando uma pedra é arremessada num lago, da mesma maneira, cada ação intencional tem resultantes que se movem através do espaço e tempo e afetam tudo aquilo que tocarem. Estamos atados àquilo que fizemos e aos efeitos do que causamos. Em outras palavras, somos os herdeiros do nosso karma.

Os resultados de uma ação são sempre da mesma natureza que a intenção que a realizou. Como quando plantamos uma semente de maçã, o único tipo de árvore que irá crescer é uma macieira. E aquela árvore irá gerar apenas um tipo de fruto – maçãs. Uma semente de maçã não produz uma laranja ou um pêssego. Assim, do mesmo modo, se uma semente de raiva tiver sido plantada na mente, o sofrimento certamente virá depois. Pois, um dia quando as condições forem apropriadas, aquela semente de raiva irá amadurecer e gerar os frutos enraivecidos. E quando chegar o momento apropriado, os efeitos da raiva irão regressar como um bumerangue e golpear-nos uma vez mais.
A raiva, com frequência, é comparada ao fogo. Este queima tudo aquilo que lhe dá suporte e depois aparentemente se extingue. Mas o fogo algumas vezes pode ficar latente, escondido, até que as circunstâncias se juntem e façam com que o fogo irrompa novamente.

A lei de karma também diz algo mais que é grave. Diz que ao longo do tempo a nossa personalidade e caráter são moldados por aquilo que pensamos e dizemos e fazemos. Cada momento de raiva aprofunda a marca da raiva no contínuo mental. Isso significa que cada vez que sentirmos raiva, será mais fácil sentir raiva outra vez. Uma reação enraivecida, repetida com frequência, pouco a pouco se torna um hábito. Começamos a perceber cada vez menos coisas que nos dão prazer, tanto na nossa vida como nos outros, e nos tornamos cada vez mais irritadiços e negativos. E não é de se estranhar que as pessoas comecem a nos evitar e que nos sintamos isolados e solitários. Enquanto isso, as coisas desagradáveis continuam acontecendo e somos incapazes de compreender que elas são o resultado das nossas próprias ações.
Como funciona a não-violência 
(Wiki)

As ideias não-violentas são radicalmente diferentes das ideias convencionais sobre resolução de conflitos. No entanto, seus princípios fazem parte do senso comum:

- O poder daqueles que dirigem uma nação depende da aderência e consentimento dos cidadãos comuns. Sem uma burocracia, um exército ou uma força policial para pôr em prática os objetivos estipulados pela classe dominante, as leis perdem força se não encontram respaldo no cidadão comum. A não-violência ensina que o poder de uns depende da cooperação de muitos outros. Assim, a não-violência faz desmoronar o poder dos dirigentes quando consegue extinguir grande parte desta cooperação — um punhado de pessoas não pode mandar em milhões de outras se elas se recusarem a obedecer. Em ações político-reivindicatórias, não-violência e desobediência civil geralmente se somam.

- Só por meios justos pode-se alcançar um fim justo. Quando Gandhi disse que os meios podem ser comparados a raízes e o fim a uma árvore, referia-se ao objeto central de uma filosofia que alguns denominam “Política Prefigurativa”. Os propositores da não-violência explicam que as ações do presente inevitavelmente repercutirão na forma como a sociedade se organizará no futuro. É irracional tentar construir uma sociedade pacífica pela violência, ou uma sociedade honesta pela desonestidade (que também é uma forma de violência). O que começa mal não pode acabar bem.

- Devemos respeitar e amar nossos oponentes. Este é o princípio que mais se aproxima das justificativas religiosas e espirituais para a não-violência.

O fim não justifica os meios

- Ouve-se frequentemente que os fins justificam os meios, insinuando-se que certos fins podem ou devem ser alcançados por métodos não convencionais, ou antiéticos, ou violentos. Isto é muito usado para tentar minimizar excessos na guerra, na justificação de leis opressivas (como o AI-5 no Brasil, ou a Lei Patriota nos Estados Unidos), na repressão imposta a grupos sociais, religiosos ou étnicos, ou ainda, embora em crescente desuso, na justificação de sistemas e métodos educacionais excessivamente rigorosos e punitivos.

- A não-violência entende que o fim resulta dos meios, num ciclo de causas e efeitos que se correlacionam e se estendem numa espiral evolutiva. Desta forma, a paz não pode ser obtida por métodos violentos e repressivos. Uma “paz” que se pretenda obter pela opressão cessa assim que os instrumentos repressivos deixam de ser usados. Não haverá uma paz real enquanto ela não se estender a todos os indivíduos de uma sociedade.
A Importância da Psicologia na Construção da Subjetividade Humana sobre a Pena de Morte
(Valeria Calixto Tauil)

Resumo: O presente trabalho busca refletir sobre a pena de morte, cujo caráter é psicossocial e político.

O tema escolhido para estudo dessa pesquisa foi motivado pelo trabalho elaborado na pesquisa de iniciação científica que aborda o tema: A Psicologia na Sociedade do Extermínio: Um Estudo Sobre a Pena de Morte na Construção da Subjetividade Humana (2011), do qual sou parte integrante. A pesquisa apresenta a proposta de verificar como a população, de forma geral, enxerga o fenômeno da pena de morte.

Refletir sobre o poder da vida ou da morte, da forma como se constrói a idéia de punição, de exclusão do convívio social é importante para que não se siga o modelo do maniqueísmo, que divide o bem e o mal, modo de pensar esse que aparece quando o homem vive uma situação desesperadora, limítrofe. Em tal situação, a idéia de exterminar o mal, o “culpado”, como forma de garantir a justiça, acaba por segregar e criar a classe do bem e a do mal, levando a vingança como forma de compensação e como castigo exemplar.

Dessa forma, a responsabilidade recai sobre um indivíduo, eximindo a obrigação da coletividade de responder sobre suas ações que desencadeiam a violência que assola a sociedade.

De certa forma, a vivência de uma situação violenta com alguém próximo ou consigo mesmo, transforma conceitos sobre justiça por ser atravessado pela emoção. Cria-se, assim, um sentimento de impotência ou de revolta diante de tais atos, levando o indivíduo à uma situação limítrofe, em que pode simbolicamente construir um campo de insegurança, instaurando-se medo, como pode criar o desejo de solicitação de medidas de segurança mais drásticas a organização jurídica social ou ainda um desejo ardente de vingança.
Violência urbana: avaliação de vítimas e pessoas que tiveram acesso à informação
(Bianca Izoton Coelho*; Daniela Moraes de Oliveira; Edinete Maria Rosa; Lídio de Souza / Universidade Federal do Espírito Santo)


A pesquisa objetivou conhecer as experiências com a violência urbana através de entrevistas realizadas com 17 pessoas &– vítimas e pessoas que com elas mantinham diferentes graus de proximidade &– por meio da metodologia de investigação em rede, em que os entrevistados indicavam outros que souberam da ocorrência.


Resultados

Consequências da violência

No que concerne às experiências vividas pelas vítimas dos casos de violência estudados, observou-se a emergência de uma visão diferente daquela que considera que as vítimas sofrem maiores agravos. Nos casos estudados, verificou-se que todas as pessoas que souberam do ocorrido pela própria vítima (P1a, P1b, P1c, P1d e P1e) demonstraram uma sensibilidade maior à situação, sensibilidade que pode ser decorrente das ligações afetivas com as vítimas, bem como de um imaginário social que difunde insegurança.

Eu senti isso, eu senti muita insegurança, não dormi direito, fiquei impressionada. Toda hora eu ficava tentando imaginar a cena do que ela passou. 'Como que será que foi?' (P1a) 
... eu fiquei abaladíssima com esse negócio que aconteceu com a L. (P1b)


Discussão e Conclusão

Em suma, Costa (1993) procura esclarecer:

É daí que nasce o medo social, o pânico com características fóbicas. Posto que o inimigo está em todo lugar e pode apresentar-se nas situações mais imprevistas, sob qualquer aparência, tem-se que nomeá-lo e dar-lhe uma visibilidade imaginária qualquer. A palavra violência vira uma entidade. O invisível e imprevisível parecem dessa maneira corporificar-se. (p.86)

Por outro lado, para as vítimas que vivenciaram de forma direta a violência, a intermediação do imaginário parece ser desnecessária. O caso de violência não é vivido apenas como uma ilusão ou hipótese, mas sim concretamente, de forma mais conectada à realidade, o que não significa que seja vivenciado de modo menos impactante. Constata-se apenas que fantasiam menos e dramatizam menos o ocorrido.
"Sempre achei curiosa a postura de pessoas da classe média/alta (a antiga), que acham que a sua maior ~contribuição~ social é seguir as regras e "se encaixar". Sem sermos cínicos, realizam estas atividades não para "cumprirem seu papel na sociedade", mas apenas em benefício próprio e de suas famílias, não há altruísmo algum, é apenas sistema. Não creio que seja algo condenável, é ok, aliás, que todos sejam felizes da maneira que puderem, mas o que não dá e se tornou inaceitável, é algumas pessoas dessa mesma parcela da sociedade ficarem enchendo a boca pra dizer que fazem "muita coisa", "levam o país nas costas" e ainda por cima, generalizarem, criticarem e atrapalharem quem tem outra postura, quem, por exemplo, se envolve em atividades que buscam a redução do abismo social do país, ou quem trabalha e luta (sim, luta) por mecanismos de redistribuição de renda e de criação de possibilidades de mobilidade social via cultura ou outras áreas de atuação.
Não se confundam e procurem saber mais sobre os temas de alinhamento partidário de bandeiras supostamente de "direita" e "esquerda", e da diferença que é tratar sobre Visões de mundo e alinhamento Ideológico de Direita e Esquerda. A não ser que a pessoa assuma um posicionamento abertamente elitista, se ela deseja mudança num país com com tanta pobreza fruto da concentração de renda, não é o momento de atrapalhar e criminalizar aqueles que estão defendendo a necessidade de políticas públicas mais humanas e de igualdade social. >> (Leonardo Márquez Brawl)
<< Recentemente, o Neoliberalismo recebeu críticas de um de seus maiores defensores, o Fundo Monetário Internacional (FMI), em artigo publicado por três economistas da instituição. "Em vez de gerar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, colocando em risco uma expansão duradoura", argumentaram seus autores. O fato é: a continuar essa exploração indevida e sem controle, sem espaço para o social sem ser na forma de esmola, o confronto interno será inevitável. Esse confronto não será, apesar de possível, necessariamente uma guerra civil. Virá na forma do aumento da violência do 99% em cima de si mesmo e, transpostas as barreiras de segurança, em cima do 1%. Testemunharemos mais assaltos, mais roubos, mais crimes e mais mazelas sociais de que tanto tememos e que também afetará, consequentemente, o 1%. >> (Miguel Gouveia)

Ao se sentir vítima de uma crítica (ao invés de assumir que errou e pedir desculpas - ou argumentar para o outro que a crítica não procede), o sujeito acaba sendo vítima de si mesmo, talvez do vício de haver um peso constante sobre si. A leveza pressupõe movimento, ação, coisas que são mais difíceis e cansativas do que ficar parado no mesmo lugar - e haver um porquê para isso.


Exclusão e racismo ambiental
(Paulo Saldiva)

Vamos pensar que o planeta é um indivíduo. Cada país é um órgão e nós somos as bilhões de células que constituem esse órgão. Vamos descrever a doença planetária. O paciente está com febre, está esquentando; tem dependência química de uma droga chamada petróleo; uma obstrução arterial difusa, porque tem uns congestionamentos nas nossas artérias obstruindo o fluxo; uma obstrução de vias aéreas, pela qualidade do ar, que é ruim; diabetes, porque eu não uso energia eficientemente; insuficiência renal, porque eu não consigo colocar para fora os meus dejetos; alguns tremores de terra, uma certa flatulência externada sob a forma de tornados e tufões; uma certa impotência, vamos admitir, entre quatro paredes, porque a gente não consegue tomar uma atitude necessária para resolver isso; e uma disfunção cognitiva, como se fosse um Alzheimer precoce, porque os neurônios dirigentes acham que o planeta não vai esquentar mais do que alguns centésimos de grau ate as próximas eleições.

Esse e o quadro clinico do paciente. E, se o organismo está doente, as células estão doentes. Na cidade de São Paulo, morrem 4 mil pessoas a mais por ano devido a poluição do ar. Por AIDS é um pouquinho menos de mil. Tuberculose, 500. Por que que a gente não considera a poluição como um problema de saúde? Quem legisla sobre meio ambiente é o Ministério do Meio Ambiente, que nada entende de saúde; e, por sua vez, a Saúde não entende o meio-ambiente como sendo parte dela. Quando esquentar o planeta de acordo com os modelos climatológicos, se estiverem certos, onde que vai desertificar? Onde já é semi-árido. 30% da população do planeta vive em rios que nascem nos Himalaias, nas geleiras dos Himalaias. Quando acabar a água para esse povo, para onde eles vão? Nós vamos aumentar o cinturão de pobreza em torno das cidades. A malária aumentando, invadindo regiões temperadas, dengue. Todas as doenças carregadas por mosquitos vão afetar o homem, mas vão afetar igualmente? Elas vão afetar de forma homogênea? 40cm a mais de nível do mar vão afetar igualmente a Holanda e a Samoa?

Essa é uma questão central que tem que ser colocada porque há o homem agressor. Mas também há o homem impactado. Será que a dose da pessoa que está dentro do carro com ar condicionado, funcionando no modo de recirculação interna, tem a mesma dose do indivíduo que está no ponto de ônibus, esperando? O tempo de permanência das pessoas no corredor de tráfego quando se é mais pobre é muito pior, muito maior. A dose é maior. O ônibus velho, que não pode rodar no corredor 9 de Julho, ele desaparece no ar? Não, ele vai para a periferia, ou vai para cidades de menor porte. O aterro sanitário São João, que está se esgotando, está fazendo com que São Paulo exporte lixo para outras cidades, que recebem por isso. Isso eu chamo de "racismo ambiental".

O modelo dominante hoje no mundo é "ordem pela força". Não é "ordem pelo compartilhamento". E no modelo de ordem pela força, a força econômica determina esse poder. E isso explica que nós praticamos uma forma de racismo que para mim não tem justificativa ética, como qualquer outro racismo. O caminhão vendido no Brasil polui 90% mais do que o mesmo modelo vendido na Suécia - e fabricado no Brasil. Qual é a razão de saúde para explicar que o pulmão do brasileiro é 90% mais resistente do que o sueco? Ou que os bebês, ou que os idosos? O presidente da Exxon diz o seguinte: "Olha, nos tiramos petróleo a 3 dólares o barril na Arábia Saudita e vendemos a 80 dólares o barril na bolsa de Londres. Não há nada que desloque esse tipo de lucro". Embora todo o mundo se diga sustentável, e todas as companhias de petróleo coloquem isso numa maquiagem verde, e fazem ações de sustentabilidade - eles preservam animais silvestres, eles dão lustro no casco da tartaruga do Tamar, e fazem permanente no mico-leão-dourado - mas nada que interfira na sua estratégia de negócio!

Vamos colocar esse raciocínio numa indústria farmacêutica. Eu me responsabilizaria então pelos efeitos colaterais dos remédios até o momento em que eles chegassem na prateleira. Depois que vendeu, não é mais comigo. Por sua vez, as companhias de carro, que também são, na sua maior parte, sustentáveis, dizem o seguinte... o presidente da GM disse que nos EUA eles não conseguiam vender mais carros porque eles têm 760 veículos por mil habitantes. Então, tem bebê que não guia, tem doente que não guia, então dá mais ou menos um pouquinho mais do que um carro por habitante. Então eles não conseguem mais crescer lá, só podem crescer canibalizando o outro. Na Índia, tem ao redor de 30 a 40 veículos por mil habitantes. Vamos vender carro na Índia! Mas o custo de rua, o custo de ponte, o aquecimento: não é com eles. Pode esturricar a foca, nós vamos vender carro na Índia.

No Brasil, como nós temos 300 veículos por mil habitantes, tem a possibilidade de dobrar, um pouquinho mais do que dobrar. Dobrar, num cenário como esse! A nossa mobilidade chegou a 12km/h na cidade de São Paulo. Se os bandeirantes viessem teletransportados numa máquina do tempo e andando em tropas de mulas, chegariam primeiro que a gente. Então eu tenho um modelo que mata gente, aquece, atropela o planeta do ponto de vista ambiental e não traz vantagem nenhuma em termos de mobilidade. Essa questão é central e afeta predominantemente gente pobre. Nós deveríamos discutir francamente os aspectos éticos dessa questão. O fato de que quem vai pagar a conta são as pessoas que menos contribuíram não tem justificativa moral ou ética de forma alguma.

Nós temos que trabalhar com a noção de limites, assim como nos temos limites para colesterol, o quanto posso comer de gordura trans, o quanto eu posso beber. Debaixo de cada coisa do carro deveria ter: "Esse modelo contribui para o aquecimento global", assim como tem para o cigarro. "Contribui para a emissão de poluentes, e contribui para entupir as artérias da cidade". Porque ele ocupa muito mais espaço do que outro. Se eu vender o ovomóvel a corda, uma coisa que desse corda, um triciclo que andasse a 20km/h, ninguém compraria - embora possa andar mais depressa do que o carro que está marcado para andar a 200km/h. No programa de rádio Ouvinte Repórter, alguém liga e fala "Eu estou congestionado aqui na radial", o outro também fala "Eu também estou aqui"… Mas eu nunca vi ninguém falar: "Não pega o Butantã/USP porque está lotado", "Não pega o metrô da Zona Leste que está lotado". Eu acho que e nosso papel dar espaço para esse pessoal.

- E se eu resolver "acelerar" seu sonho? - perguntou Luciano Huck, para mais uma vítima sua.

Esses programas fazem pior do que acelerar um sonho: eles atalham e realizam o sonho do outro. Não passa pela cabeça deles que podem estar destruindo o sonho alheio? É parte vital de um sonho a escalada até o objetivo, o esforço empreendido para chegar até lá. O caminho pode ser até mais importante do que a chegada. Aí aparece um bundão e te entrega o final. Imagina a frustração. E pior: a pessoa vai aderir ao roteiro e vai aparentemente ficar feliz, e então demorar até se dar conta de que teve/tem alguma coisa errada.

"Todo problema que começa com 'eu' é meu", vídeo com Leandro Karnal.
Golpe
(Alexandre Haubrich)


Os governos do PT não democratizaram a mídia. Verdade. E ainda assim é golpe.

Os governos do PT enriqueceram os banqueiros. Verdade. E ainda assim é golpe.

Os governos do PT favoreceram o latifúndio. Verdade. E ainda assim é golpe.

O governo Dilma não respeitou as mobilizações populares das chamadas "Jornadas de Junho" e parte do PT até hoje considera ilegítimo aquele processo. Verdade. E ainda assim é golpe.

O governo Dilma não respeitou os movimentos que questionaram e lutar contra a realização da Copa do Mundo e contra os muitos males dos megaeventos. Verdade. E ainda assim é golpe.

Dilma não conseguiu manter sua base parlamentar. Verdade. E ainda assim é golpe.

Desde o primeiro governo de Lula, o PT aliou-se com setores do que há de pior na política brasileira, com as elites políticas e econômicas e com figuras como Sarney e Renan. Verdade. E ainda assim é golpe.

Parte dos projetos que Temer vem tentando implementar já eram defendidos e propostos por Dilma, atacando direitos dos trabalhadores e privatizando o Estado brasileiro. Verdade. E ainda assim é golpe.

Muitos movimentos ligados ao PT abriram mão de construir lutas ao longo dos últimos 13 anos para ajudar na garantia da "governabilidade". Verdade. E ainda assim é golpe.

Setores do próprio PT abandonaram Dilma. Verdade. E ainda assim é golpe.

Setores do próprio PT (inclusive o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad) tergiversam para falar em "golpe" por puro interesse eleitoral. Verdade. E ainda assim é golpe.

Há corrupção no governo. Verdade. E ainda assim é golpe.

Impeachment sem crime de responsabilidade é golpe. A grande conspiração liderada por Cunha e Temer, com forte apoio midiático e judiciário, com respaldo de setores da classe média que são contra os direitos dos mais pobres porque não querem ver seus privilégios transformados em direitos dos outros, com suporte de muita gente que foi às ruas de verde e amarelo sem compreender para onde estava apontando sua indignação e para onde estava apontando o futuro do país...essa grande conspiração trata-se de um golpe parlamentar, e, mesmo que se confirme com a votação no Senado, ficará assim marcada para a História e manterá sem qualquer legitimidade o possível governo de Michel Temer.

E pior: não é um golpe apenas contra Dilma ou contra o PT. Porque não tiram Dilma pelos problemas de seu governo, mas por seus poucos méritos. Porque os de cima tiram Dilma para empurrar os de baixo mais para baixo. Porque a velha direita tira Dilma para empurrar a esquerda ainda mais para a marginalidade política, e abre um precedente que poderá derrubar a qualquer momento qualquer governo com caráter popular. Porque o grande empresariado tira Dilma para acelerar os ataques contra os trabalhadores.

É assim, de cima x de baixo, direita x esquerda, capital x trabalho, que se configura a disputa em torno do golpe. Dilma é apenas uma peça desse tabuleiro. Embora ela também jogue seu jogo, o que nos toca é um jogo muito maior, chamado luta de classes. E, mesmo que não queiramos jogar o jogo do poder e da governabilidade ao lado de Dilma (e eu, por exemplo, não quero), devemos ter a responsabilidade de nos posicionarmos nesse jogo maior. Parte desse posicionamento é reconhecer a existência desse jogo, entender suas dinâmicas, perceber a jogada dos que estão do lado de lá e chamá-la pelo nome, para podermos analisar qual deve ser nosso movimento seguinte. E a jogada deles contra todos nós está clara: É GOLPE.
[100 ATLETAS MAIS BONITAS DAS OLIMPÍADAS RIO 2016]

01. Maria Andrejczyk - POL - atletismo
02. Mirela Demireva - BUL - atletismo
03. Giulia Steingruber - SUI - ginástica artística
04. Angelica Kvieczynski - BRA - ginástica rítmica
05. Yana Egorian - RUS - esgrima
06. Aya Ohori - JAP - badminton
07. Sorn Seavmey - CBJ - taekwondo
08. Aida Román - MÉX - tiro com arco
09. Eliza McCartney - NZL - atletismo
10. Ellen Hoog - HOL - hóquei
11. Cristina Neagu - ROM - handebol
12. Cassandre Beaugrand - FRA - atletismo
13. Ki Bo Bae - KOR - tiro com arco
14. Louisa Necib - FRA - futebol
15. Yael Castiglione - ARG - vôlei
16. Yusra Mardini - SÍR - natação
17. Marie-Laurence Jungfleisch - ALE - salto com vara
18. Genzebe Dibaba - ETI - atletismo
19. Sam Quek - GBR - hóquei
20. Floria Gueï - FRA - atletismo
21. Ayane Kurihara - JAP - badminton
22. Izabella Chiappini - BRA - polo aquático
23. Sarah Hunter - GBR - rugby
24. Irene Verasio - ARG - vôlei de praia
25. Anna Korakaki - GRE - tiro esportivo
26. Yamila Nizetich - ARG - vôlei
27. Salma Maricruz Ramos - MÉX - tiro esportivo
28. Karakas Hedvig - HUN - judô
29. Nicole Regnier - COL - futebol
30. Ivana Maksimović - SRB - tiro esportivo
31. Ian Lariba - FIL - tênis de mesa
32. Chun In Gee - KOR - golfe
33. Brenda Martinez - EUA - atletismo
34. Marie Laura Meza - COS - natação
35. Chan Hao-Ching - TPE - tênis
36. Naomi Van As - HOL - hóquei
37. Vivian Cheruiyot - KEN - atletismo
38. Bernadette Szocs - ROM - tênis de mesa
39. Lourdes Mohedano - ESP - ginástica rítmica
40. Line Kjœrsfeldt - DIN - badminton
41. Anna Espar - ESP - polo aquático
42. Orsi Toth - ITA - vôlei de praia
43. Heather Olver - GBR - badminton
44. Zhao Lina - CHI - futebol
45. Çağla Büyükakçay - TUR - tênis
46. Elizabeth Gleadle - CAN - atletismo
47. Daria Vdovina - RÚS - tiro esportivo
48. TIna Roe Skaar - NOR - taekwondo
49. Agata Forkasiewicz - POL - atletismo
50. Eythora Thorsdottir - HOL - ginástica artística
51. Chloé Tutton - GBR - natação
52. Mariana Pajón - COL - ciclismo BMX
53. Mireia Belmonte - ESP - natação
54. Nadine Visser - HOL - atletismo
55. Yuliya Levchenko - UCR - atletismo
56. Leryn Franco - PAR - atletismo
57. Laura Glauser - FRA - handebol
58. Rose-Kaying Woo - CAN - ginástica artística
59. Shelley Olds - EUA - ciclismo
60. Lisa Perterer - AUT - triatlo
61. Alexandra Raisman - EUA - ginástica artística
62. Penny Oleksiak - CAN - natação
63. Edina Gangl - HUN - polo aquático
64. Aliya Mustafina - RUS - ginástica artística
65. Signe Marie Store - NOR - luta olímpica
66. Danka Kovinić - MÔN - tênis
67. Elodie Clouvel - FRA - pentatlo
68. Saori Kimura - JAP - vôlei
69. Blair Evans - AUS - natação
70. Sabina Mikina - AZE - esgrima
71. Chiara Tabani - ITA - polo aquático
72. Lyubomira Kasanova - SVK - tênis
73. Varvara Filiou - GRE - ginástica rítmica
74. Kimberly Hill - EUA - vôlei
75. Baean Jouma - SÍR - natação
76. Katerina Nikoloska - MAC - judô
77. Nicola Muscat - MAL - natação
78. Ewa Swoboda - POL - atletismo
79. Murielle Ahouré - CMF - atletismo
80. Linda Bolder - ISR - judô
81. Kristina Prozhenko - TJK - atletismo
82. Amy Cozad - EUA - saltos ornamentais
83. Luiza Saidyieva - CAZ - tiro com arco
84. Loredana Dinu - ROM - esgrima
85. Tijana Boskovic - SRB - vôlei
86. Laura Trott - GBR - ciclismo
87. Beth Potter - GBR - atletismo
88. Caroline Marton - AUS - taekwondo
89. Isabela Onyshko - CAN - ginástica artística
90. Katerine Savard - CAN - natação
91. Laura Marino - FRA - saltos ornamentais
92. Alyssa Conley - RSA - atletismo
93. Melissa Tapper - AUS - tênis de mesa
94. Helen Louise Maroulis - EUA - luta olímpica
95. Cynthia Vescan - FRA - luta olímpica
96. Abbey D'Agostino - EUA - atletismo
97. Mi-sun Choi - KOR - tiro com arco
98. Daniela Gimenez - ARG - natação paralímpica
99. Son Yeon-jae - KOR - ginástica rítmica


Os meios hábeis para ação no mundo
(Lama Padma Samten)

Transcrito por Douglas Dickel do vídeo do retiro homônimo em 21/08/2016, 
no Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB) de Curitiba.

Aparentemente, sem desenvolvermos uma atitude adequada, parece que não tem solução. Se nós não nos preocuparmos em não produzir sofrimento e em produzir benefício para as pessoas, se nós não olharmos em volta desse modo, haverá grandes dificuldades. De modo geral, a gente pega aquilo que é favorável para nós, e empurra o sofrimento para adiante. Muito parecido com a questão do lixo. A gente pega o que a gente quer e descarta, para o infinito, o resto. O infinito, no caso, é o que está em volta, é aquilo para o que a gente não olha. Trazemos para dentro da nossa bolha o que é bom para nós e descartamos o que não serve. É quase como a ameba.

Independentemente disso, quando causamos sofrimento para os outros seres, eles nós olham atravessado e geram anticorpos, geram proteção com relação a nós. Como nós não trouxemos benefício, nós não criamos nenhuma aliança. Assim, é muito difícil andar. A essência do movimento é criar alianças positivas e resolver todas as negatividades que eventualmente possam surgir. Surgem relações favoráveis que sustentam o nosso caminho. As pessoas do Bloco -1 não têm essa habilidade, elas têm uma ideologia oposta. Do tipo ‘aqui todo mundo apronta com todo mundo; logo, aquele que não apronta se dá mal’. A questão é assim: ‘como aprontar mais rápido, antes que o outro consiga’. Se nós chegamos com uma bandeira de paz, eles já vão nos roubar a carteira – e levar a bandeira junto. Aquilo ali é rápido. É um pouco difícil de raciocinar nesse processo, mas existe método de trazer benefício para esses seres também.

A inteligência dos Infernos é a inteligência búdica também. Essencialmente temos uma natureza búdica. Tirando a complicação, o que sobra é a natureza búdica. Como a complicação é muito grande, a gente não consegue encontrar a natureza búdica. Mas se a gente for limpando, limpando, limpando... aparece a natureza búdica. A mente negativa brilha nos Infernos porque ela está dentro de uma bolha, operando também sobre referenciais construídos. Mas ali dentro não existe nenhum princípio ativo que não seja a natureza primordial. Se dividirmos entre bem e mal, imaginando que o princípio do mal está em algum lugar, nós vamos nos atrapalhar. Se imaginarmos que aquilo com o que estamos lidando, diante de nós, não é produzido pela natureza luminosa da mente, vamos nos atrapalhar. Precisamos entender que estamos lidando com inteligências búdicas em todas as direções. Essas naturezas búdicas estão operando dentro de avídia. Elas estão presas em bolhas de realidade, como se fossem jogos de tabuleiro, estão presas dentro daquele mundo de regras. Ali dentro elas atuam com a lógica daquele processo. Os infernos têm uma lógica específica, é um jogo específico. E aquelas pessoas não estão enganadas, estão esquecidas de sua natureza.

Quando ouvimos falar de delusão como a fonte de todos os problemas, imediatamente queremos achar um jeito de acabar com ela. Mas ela é a própria liberdade e a natureza criativa da mente. Em sânscrito, delusão é Avídia. Avídia é Prajna (sabedoria) ao avesso. Avídia é o que impede Prajna, Prajna é o reconhecimento do que está além de Avídia, ou a liberdade em meio a Avídia. Mas na verdade não são duas coisas, é apenas o mesmo cachorro atacando ou protegendo. Delusão tecnicamente é quando olhamos para uma coisa e esquecemos todas as outras. Ou seja, exatamente porque vemos, somos cegos. Exatamente porque um objeto surge, ignoramos todos os outros. Ela é a fonte das tendências cármicas, da identidade, das situações da vida e da morte.
http://tzal.org/delusao-como-a-mente-se-engana/

É importante entendermos o inferno como um mundo inteligente. As pessoas que estão ali dentro têm aquele brilho, uma capacidade de viver naquele mundo. Se estamos presos nas bolhas, vamos entender que precisamos atravessas aquelas paredes e manifestar a inteligência búdica além das bolhas. Assim nós vamos ultrapassando a Avídia. Avídia é a prisão, é The Wall, a parede que nos limita, que nos impede a visão. A moralidade nos ajuda nisso. A ética. Um outro balizamento. Esse outro balizamento se choca, por muitas vezes, com as paredes das nossas bolhas, e essa tensão é útil, porque começamos a atravessar as bolhas. A base do comportamento ético está em não trazer sofrimento aos seres e trazer benefício a eles. É fácil imaginarmos que, se tivermos um balizamento desse tipo, as coisas deverão melhorar. Por outro lado, assim, não conseguimos atuar perfeitamente dentro das nossas bolhas, porque elas incluem bater no outro, quebrar o outro, rir do outro e ter vantagem em relação ao outro.

Quando chegamos no bordo da bolha, vemos que ela é mais forte do que o nosso balizamento. Progressivamente descobrimos que não precisaríamos ter feito isso, que não precisaríamos ter feito aquilo etc. Descobrimos que precisamos dirigir a mente e dirigir a energia. Primeiro descobrimos que precisamos dirigir a mente. Depois descobrimos que a mente sozinha não tem força suficiente. Lembramos todas as palavras sobre o que devemos fazer, pela mente não há nenhuma dúvida, aquilo é o melhor mesmo, mas na hora de fazer a energia nos arrasta, e ela não precisa nenhuma razão - ainda dá uma risadinha. A energia é uma inteligência própria. Aí vem a prática de meditação. Todo mundo que pratica meditação vai avançar mais rápido. É o exercício de desenvolver a capacidade de manter a energia de modo autônomo, independente das bolhas. Se desenvolvermos essa capacidade de manter a mente e a energia autônomas, nós conseguimos atravessar as paredes das bolhas. Precisamos estabilizar a mente livre da bolha para poder olhar para as coisas e ver além das aparências - além das aparências que brotam das bolhas.

Depois do jogo, a pessoa diz 'Enfim, esse jogo é apenas um jogo'. A prática de meditação nos produz a habilidade de não entrar na bolha. Mas, se a pessoa construir isso da meditação de modo artificial, a bolha vai vencer. [Cria-se a bolha da 'pessoa que medita'.] O que dá consistência ao bordo da bolha é o gosto-ou-não-gosto. O jogo co-emerge com a minha mente. Surge uma dualidade. Não é que o jogo surge. Surge o jogo e a mente que vê aquilo como um jogo. A natureza luminosa da mente ampla produz a mente estreita que vê o jogo - e produz o jogo que é visto pela mente. Se não houver a mente que joga, não há o jogo diante. Mas tanto o jogo é a mente como o jogo-que-vê-a-mente é a mente. A mente se divide entre a aparência da bolha e quem vê a bolha. Podemos, assim, dizer que as aparências são vacuidade, as formas são vazias. Se meditamos e não somos arrastados, podemos olhar para as aparências e gerar algum nível de sabedoria. Quando tentamos não pensar, descobrimos que surgem pensamentos constantes. A nossa mente está constantemente fazendo brotar aparências internas. As aparências internas são o movimento da mente. E a observação disso é a lucidez. E a estabilidade é a continuidade dessa lucidez.

O segredo dessa prática é a posição onde estamos. Se estamos num lugar não construído, conseguimos ver as aparências como aparências que surgem e se movimentam. Se estamos dentro de uma bolha, tão logo surgem as aparências, gostamos ou não gostamos, queremos ou não queremos, movimentamo-nos a partir delas. Isso é sonho. Quando estamos sonhando, à noite, surgem aparências na nossa mente que produzem uma reação. Reagimos ao conteúdo delas. Ali, não pensamos que as aparências são de um sonho. Daquelas aparências nós produzimos outras, e pensamos sobre aquilo, e assim vamos andando.

Rigpa: É uma pura vacuidade onde nada de particular existe, onde claridade e vazio são indivisíveis; nem é eterno, pois que nada existe verdadeiramente, nem é o nada, pois que ele é claro e vivo. Não se reduz ao um, estando presente e consciente em tudo, e não é múltiplo, porque tem um único sabor na inseparabilidade. http://www.nossacasa.net/shunya/default.asp?menu=1166 

Se repousamos numa bolha mais ampla, é melhor, mas ainda não é rigpa. Se praticamos meditação, nós passamos a repousar em bolhas mais amplas, depois mais amplas, depois mais amplas, até que repousamos na 'bolha ampla', que não tem condicionantes. Quando isso se estabelece, como vamos trazer essa abordagem para o Bloco -1? Acho que é possível também. As pessoas que estão no Bloco -1, mesmo não entendendo, elas aspiram à felicidade e aspiram a se livrar do sofrimento. A felicidade seria matar o outro, por exemplo. Após um tempo de prática, temos um referencial para entender que erros existem.

A primeira forma de ação é Ação de Poder: não oscilar. É uma definição maravilhosa. Poder não é impor alguma coisa sobre o outro; poder é não se perturbar. Por exemplo, se nós estivermos diante de uma magia das aparências, o poder é não ser envolvido pela magia das aparências. Se eu me prender à magia das aparências, eu estou preso como qualquer outra pessoa. O Buda manifesta um corpo dentro de um mundo de sonho, para beneficiar seres de sonho. Se ele entrar no sonho, se ele ficar preso dentro do sonho, ele não tem como acordar as pessoas. Então isso é poder. A prática de poder é ampliada e estruturada a partir de meditação. A ação de poder não está estruturada porque está tudo perfeito ao redor. A ação de poder se amplia justamente com a perturbação que possa acontecer ao redor. A ação de poder é treinada especialmente no cotidiano. Nós estamos nos movimentando? Nós estamos treinando diretamente ação de poder. Capacidade de manter equilíbrio, lucidez, no meio do movimento. Se tivermos isso, pode ser que consigamos ajudar os seres. Se não tivermos isso, somos arrastados com eles. Está cheio de gente que vai salvar alguém que está morrendo afogado e morre junto.

O segundo ponto é a Ação Tranquilizadora. Ser capaz de reduzir o impacto da bolha sobre a pessoa. Tornar aquilo menos denso, menos hostil. A terceira ação é ajudar a pessoa a manifestar qualidades que estão obstruídas, Ação Incrementadora. Em quarto lugar vem a Ação Irada, a ação que faz ruir a caverna das aparências, furar a bolha, tirar o chão do outro, o conjunto de referenciais sobre os quais ele está atuando. Por compaixão, surge a ação irada. Ela não brota como uma ação negativa, como alguma coisa contra alguém; pelo contrário. Então tudo o que vamos fazer como ação no mundo tem esses quatro aspectos.

Essas ações surgem dentro do contexto das cinco sabedorias. A capacidade de reconhecer o outro no mundo dele é a sabedoria do espelho. As ações das pessoas não estão erradas. Elas são ações que brotam dentro de suas próprias bolhas de realidade. Elas são totalmente inteligíveis ali dentro, elas são razoáveis, elas têm sentido. Não podemos olhar as ações dos outros a partir da nossa bolha. A mente, de modo geral, não se engana. Quando a mente se engana, ela vê o engano e se ajusta. Aquilo que chamamos de engano é a operação em outras bolhas diferentes das nossas. A mente olha para as coisas e se move, só que ela se move dentro da estrutura de referenciais em que ela está operando. Precisamos entender isso. Senão, como podemos falar e sermos ouvidos?