Daniela – Tem uma questão que eu sou mãe de dois filhos que estão vivendo muito forte esse momento do ódio. Eu tenho um filho de 4 anos. Ele é muito pequeno para ter tanto ódio. Ele foi educado num berço de amor, de paz, eu sou professora de yoga, eu pratico yoga, eu tenho amigos o tempo inteiro meditando, praticando yoga, cantando mantras – isso não adianta nada! Porque ele continua o mesmo endiabrado. Então o que é esse ódio? Esse ódio é inerente ao ser humano? Não é nas escolas, não é nem na televisão que ele aprende isso. Como que a gente lida com isso? Porque, se eu vou com todo o amor do mundo "Meu filho, não faça assim", isso não resolve, ele fica com mais raiva. Então, como que lida com isso? A gente tem que dizer "Cai fundo nesse ódio", porque não vai resolver mesmo? Ou a gente começa um movimento da paz? A gente ensina a meditar, a gente ensina que a conexão com o superior, com o divino, isso vai trazer uma paz; a gente vai fazendo uma onda que vai pegando todo mundo? Queria uma sugestão tua.
Leandro Karnal – Eu acho que você traz à tona, Daniela, as contradições difíceis da reflexão sobre o tempo. Como professor eu poderia lhe dizer, para tranquilizá-la, que não há ação direta da escola e dos pais sobre a personalidade dos filhos. Eles são o que são, independentemente da escola e dos pais. Pais violentos e agressivos podem dar origem a crianças absolutamente tranquilas. E pais tranquilos podem dar resultado a crianças diferentes. Eu acho que o que você está chamando de ódio, como eu não conheço o seu filho e nem você, pode ser especificamente uma reação mais energética que você não gostaria de ter. Se meditação provocasse paz transcendental, países de ascendência budista, como a Tailândia, teriam uma história de tranquilidade absoluta. O budismo nasceu na fronteira do Nepal com a Índia, e algumas das violências mais impressionantes do mundo vêm dessa região, onde iogues meditam anos a fio. Eu poderia dizer, talvez não exatamente para brincar, mas pode ser ódio dele de cheiro de incenso. Ele pode ser alérgico a incenso e, cada vez que se acende incenso e você medita com mantra do Ohm, ele fica com tanto ódio, que ele vai... Eu poderia dizer, agora brincando, experimenta jogar água benta, algo deve acontecer. Mas nós tendemos a registrar como hiperatividade, dar Ritalina, a todas as crianças que são mais ativas do que nós. Então, quando a criança fala mas alto que você, corre mais do que você e dorme menos do que você, ela deve ter hiperatividade e deve ser levada ao médico para dar remédios calmantes. Ao se dar Ritalina ou ao se dar coisas mais fortes, você está reconhecendo talvez uma condição médica que só um profissional poderia determinar (o que é possível, há crianças hiperativas), mas também seria possível pensar que você está reconhecendo a diferença. Uma diferença que pode levar, numa reflexão bastante budista, ao caráter que ninguém é responsável por ninguém, que cada um tem o seu caminho. Há uma trajetória que o seu filho precisa fazer. Você não deve incentivar, até porque não é necessário. Há uma violência que você identifica nele e talvez haja uma violência que ele identifica em você, que é querer que ele se molde a você. E ele responde com uma violência também, e defende o espaço dele, que é autônomo, e dizendo que a maneira que ele tem de chamar a atenção numa casa de intelectuais é indo mal nos estudos. Numa casa de lutadores de jiu-jitsu, é fazendo ballet. Numa casa em que a mãe faz yoga e é uma pessoa tranquila, é dizendo "Eu não faço, sou absolutamente violento". Ele está dizendo "Volte a atenção para mim, olhe para mim, eu quero ser diferente". Para ser professor, ou para ser mãe ou pai, uma tarefa é a paciência. A paciência de quem planta carvalho, e não eucalipto – metáfora do Rubem Alves. A paciência para saber que, para ensinar seu filho a escovar os dentes, eu profetizo 15 anos ininterruptos, 4 vezes ao dia, de briga, e ele só aprenderá quando começar a beijar. Se você tiver falado ou não, tanto faz. Esta é a paciência para educar, ela é muito difícil. Talvez a gente tenha inventado o amor materno – uma invenção de 300 anos na história, é uma invenção recente na história humana, que as mães devam amar os filhos, e ainda não totalmente difundida, haja vista alguns episódios – porque é muito difícil amar as pessoas apesar delas. Então eu não sei se é a natureza dele ser violento. Você deve insistir até os últimos dias que ele deve respeitar os outros, que o caminho de ouvir é o melhor, que ele não é o único no mundo, e ter uma esperança brutal que essa mensagem seja ouvida. Deve ser uma luta constante, porque essa utopia de poder melhor alguém é que torna possível a educação, mas, como qualquer utopia, ela serve para tentar agir no presente, ela nunca serve para ser um ponto de chegada. Seremos todos derrotados, sempre, todos os professores, todos os pais, mas todos temos consciência de que houve alguém querendo fazer algo de bom e querendo modificar. Eu diria "Não pare de tentar, mas não vai dar certo". É só para animá-la, neste final.
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segunda-feira, 5 de setembro de 2016
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