Cimática. Sinestesia.
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sábado, 31 de janeiro de 2015
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Satisfação permanente não existe. E tudo bem.
(Lama Padma Samten)
Não há conforto que dure para sempre. Compreender isso é o primeiro passo para se educar a ser mais feliz.
(...)
Situação ... grave é a dos que, embotados, desistem de pensar, de amar e de fazer esforços. A mente fica afetada, o cérebro emperra, o corpo engorda e pesa, o rosto perde a expressão, a alegria o visita muito raramente. Se a opção for sentir-se desassistido, mal-amado, faminto das coisas do mundo, o sofrimento, ele, sim, será permanente.
Pior do que isso, só o estado de raiva interna e agressão contra os outros seres. Nesse caso, você percebendo ou não, vivenciará um sofrimentopermanente, e os traços de alegria que surjam serão gerados pelo sofrimento que você veja ou provoque nos outros. É a descrição dos infernos. (...)
(Lama Padma Samten)
Não há conforto que dure para sempre. Compreender isso é o primeiro passo para se educar a ser mais feliz.
(...)
Situação ... grave é a dos que, embotados, desistem de pensar, de amar e de fazer esforços. A mente fica afetada, o cérebro emperra, o corpo engorda e pesa, o rosto perde a expressão, a alegria o visita muito raramente. Se a opção for sentir-se desassistido, mal-amado, faminto das coisas do mundo, o sofrimento, ele, sim, será permanente.
Pior do que isso, só o estado de raiva interna e agressão contra os outros seres. Nesse caso, você percebendo ou não, vivenciará um sofrimentopermanente, e os traços de alegria que surjam serão gerados pelo sofrimento que você veja ou provoque nos outros. É a descrição dos infernos. (...)
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Lama Samten,
psicologia
* Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.
Um dia, no tempo da grande inflação, tomei um táxi, para uma distância relativamente curta. O motorista falou mal de toda a desonestidade que campeava no Brasil. Tinha plena consciência do que acontecia de errado. Todas as suas palavras respiravam uma intensa preocupação com a ética. Quando chegamos a nosso destino, ele pegou a tabela – naquela época o custo era expresso em URVs, ORTNs, unidades de valor que nem mesmo eram a moeda corrente – e fez a conversão num preço que, notei, estava errado. Ele tinha puxado para cima o que eu lhe devia. Não reagi, porque era mais tímido do que hoje, na época havia alguns motoristas agressivos e, afinal, não era tanto dinheiro. Mas fiquei matutando. Por que tanta ênfase na ética, a ponto de ser seu único assunto – e, depois disso, uma conduta tão antiética? Eram dois extremos convivendo na mesma pessoa, ao mesmo tempo.
Penso que aí está uma das chaves para entender nosso país. Vivemos desta contradição.
Não foi à toa que em 1989 o Brasil elegeu um presidente com base só na pregação contra a corrupção – o qual depois seria afastado como corrupto. Na sua campanha não falou em política econômica, mas apenas no combate intransigente aos marajás, funcionários que ganhavam salários excessivamente altos em sua Alagoas. Fernando Collor de Mello se tornou em 1992 o único presidente da República processado e condenado por corrupção, no tribunal competente, no caso o Senado – do qual, ironicamente, ele hoje é membro. Passam-se anos, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, constrói forte fama junto à direita brasileira como paladino da ética. Dá várias capas à revista Veja, que o celebra como exemplo de homem público – até que se descobre que está envolvido em questões eticamente condenáveis e é cassado por seus pares, em 2012, embora ainda hoje não tenha sido condenado na Justiça comum. (...)
Um dia, no tempo da grande inflação, tomei um táxi, para uma distância relativamente curta. O motorista falou mal de toda a desonestidade que campeava no Brasil. Tinha plena consciência do que acontecia de errado. Todas as suas palavras respiravam uma intensa preocupação com a ética. Quando chegamos a nosso destino, ele pegou a tabela – naquela época o custo era expresso em URVs, ORTNs, unidades de valor que nem mesmo eram a moeda corrente – e fez a conversão num preço que, notei, estava errado. Ele tinha puxado para cima o que eu lhe devia. Não reagi, porque era mais tímido do que hoje, na época havia alguns motoristas agressivos e, afinal, não era tanto dinheiro. Mas fiquei matutando. Por que tanta ênfase na ética, a ponto de ser seu único assunto – e, depois disso, uma conduta tão antiética? Eram dois extremos convivendo na mesma pessoa, ao mesmo tempo.
Penso que aí está uma das chaves para entender nosso país. Vivemos desta contradição.
Não foi à toa que em 1989 o Brasil elegeu um presidente com base só na pregação contra a corrupção – o qual depois seria afastado como corrupto. Na sua campanha não falou em política econômica, mas apenas no combate intransigente aos marajás, funcionários que ganhavam salários excessivamente altos em sua Alagoas. Fernando Collor de Mello se tornou em 1992 o único presidente da República processado e condenado por corrupção, no tribunal competente, no caso o Senado – do qual, ironicamente, ele hoje é membro. Passam-se anos, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, constrói forte fama junto à direita brasileira como paladino da ética. Dá várias capas à revista Veja, que o celebra como exemplo de homem público – até que se descobre que está envolvido em questões eticamente condenáveis e é cassado por seus pares, em 2012, embora ainda hoje não tenha sido condenado na Justiça comum. (...)
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
O erro de português que virou caso de polícia
(Pragmatismo Político)
Um erro de quem escreveu um cartaz para anunciar uma promoção numa loja de eletrodomésticos criou uma grande confusão na cidade de Guarabira, no interior da Paraíba.No cartaz estava escrito “Oferta imperdível. Chip Vivo. R$ 1 com aparelho”. Ao ler, o professor Aurélio Damião, 38, considerou a proposta irrecusável.
Com R$ 4 no bolso, ele entrou na loja e pediu chips – com os quatro aparelhos celulares correspondentes. Ele havia registrado a oferta com uma foto antes de ir ao trabalho e decidiu fazer a compra no final do expediente.
“Passei na loja e pedi: me veja quatro aparelhos de R$ 1 da promoção”, contou Damião. O atendente da loja “explicou” o anúncio. Na verdade, disseram, o redator queria dizer que os chips da operadora em questão sairiam por R$ 1 no caso da compra de qualquer celular adquirido pelo preço normal de tabela.
O caso só foi resolvido na delegacia
“Eu quis mesmo era dar mais uma lição na loja do que qualquer outra coisa. Estava escrito errado, foi um erro de português. Cheguei e falei que queria comprar quatro celulares e o gerente começou a me destratar, me chamar de maluco. Disse que eu não era louco de pegar um celular de lá. Eu falei que não queria pegar, não ia roubar. Eu estava lá para comprar. Ele se recusou a vender e eu chamei a polícia”, explica Aurélio.
Uma viatura da polícia militar chegou ao local e convidou os dois — o professor e o gerente da loja — até a delegacia. Aurélio alegou que a loja estava fazendo propaganda enganosa e que tinha por direito, como consumidor, a receber o que estava escrito no cartaz.
Na delegacia, as partes chegaram a um acordo. Damião recebeu a doação de um vale de R$ 100 para aquisição de um aparelho. Com chip. “Caso não chegassem a um acordo, teria de se usar a Justiça e as partes resolveram se entender logo”, disse um agente do 4º DP.
(Pragmatismo Político)
Um erro de quem escreveu um cartaz para anunciar uma promoção numa loja de eletrodomésticos criou uma grande confusão na cidade de Guarabira, no interior da Paraíba.No cartaz estava escrito “Oferta imperdível. Chip Vivo. R$ 1 com aparelho”. Ao ler, o professor Aurélio Damião, 38, considerou a proposta irrecusável.
Com R$ 4 no bolso, ele entrou na loja e pediu chips – com os quatro aparelhos celulares correspondentes. Ele havia registrado a oferta com uma foto antes de ir ao trabalho e decidiu fazer a compra no final do expediente.
“Passei na loja e pedi: me veja quatro aparelhos de R$ 1 da promoção”, contou Damião. O atendente da loja “explicou” o anúncio. Na verdade, disseram, o redator queria dizer que os chips da operadora em questão sairiam por R$ 1 no caso da compra de qualquer celular adquirido pelo preço normal de tabela.
O caso só foi resolvido na delegacia
“Eu quis mesmo era dar mais uma lição na loja do que qualquer outra coisa. Estava escrito errado, foi um erro de português. Cheguei e falei que queria comprar quatro celulares e o gerente começou a me destratar, me chamar de maluco. Disse que eu não era louco de pegar um celular de lá. Eu falei que não queria pegar, não ia roubar. Eu estava lá para comprar. Ele se recusou a vender e eu chamei a polícia”, explica Aurélio.
Uma viatura da polícia militar chegou ao local e convidou os dois — o professor e o gerente da loja — até a delegacia. Aurélio alegou que a loja estava fazendo propaganda enganosa e que tinha por direito, como consumidor, a receber o que estava escrito no cartaz.
Na delegacia, as partes chegaram a um acordo. Damião recebeu a doação de um vale de R$ 100 para aquisição de um aparelho. Com chip. “Caso não chegassem a um acordo, teria de se usar a Justiça e as partes resolveram se entender logo”, disse um agente do 4º DP.
Somos todos um. Luiza Rosa // Nuvens (vídeo por Sabrina Gabana)
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
domingo, 25 de janeiro de 2015
"Em nossa vida diária, nossa atenção se dispersa. Nosso corpo está em um lugar, a nossa respiração é ignorada e nossa mente está divagando. Assim que nós prestamos atenção a nossa respiração, enquanto inspiramos, estas três coisas, o corpo, respiração e mente se unem. Isso pode acontecer em apenas um ou dois segundos. Você volta para si mesmo, sua consciência une esses três elementos e você se torna totalmente presente no aqui e agora. Você está cuidando de seu corpo, você está cuidando de sua respiração e você está cuidando de sua mente." (Thich Nhat Hanh)
"Imagine um barco cheio de pessoas que atravessam o oceano. O barco é pego por uma tempestade. Se alguém entra em pânico e age precipitadamente, vai colocar em risco o barco. Mas se há pelo menos uma pessoa que está CALMA, esta pessoa pode inspirar calma nos outros. Tal pessoa pode salvar todo o barco. Esse é o poder da não-ação. Imaginem árvores de pé juntas em uma floresta. Elas não falam, mas sentem a presença umas das outras. Quando você olha para elas, poderia dizer que não estão fazendo nada. Mas elas estão crescendo e fornecendo ar limpo para os seres vivos respirarem. Em vez de descrever a meditação sentada como a prática da concentração, de olhar profundamente, e ter insight, gosto de descrevê-la como desfrutar de estar sentado sem fazer nada. Principalmente, sentar é desfrutar do prazer de sentar, estar totalmente vivo e em contato com as maravilhas do nosso corpo, o ar fresco, os sons de pessoas e aves e a mudança de cores no céu." (Thich Nhat Hanh)
"Muitos de nós continuam a tentar fazer mais e mais. Nós fazemos as coisas porque achamos que precisamos, porque queremos ganhar dinheiro, realizar algo, cuidar dos outros ou queremos fazer nossas vidas e nosso mundo melhor. Muitas vezes fazemos as coisas sem pensar, seja porque temos o hábito de fazê-las, porque alguém nos pede ou porque achamos que deveríamos. Mas se a fundação do nosso ser não for forte o suficiente, então quanto mais fizermos, mais perturbada nossa sociedade se tornará." (Thich Nhat Hanh)
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Entrevista com o técnico do Shakhtar, que trabalha com vários brasileiros.
Por Leandro Behs e Leonardo Oliveira.
"Trabalho com 13 brasileiros. Para mim, o que gera a dificuldade é a educação. Culpa dos agentes, que querem trocá-los de clube a cada ano, a fim de ganhar mais dinheiro. O jogador precisa saber que contrato assinado deve ser respeitado."
"Uma equipe brasileira está sempre preparada para vencer. Não está preparada para sofrer, para trabalhar. O jogador brasileiro sempre diz que Deus decide o resultado. Isto não é correto. Tem que trabalhar para chegar a este ponto."
"Os brasileiros têm uma cultura deles. Em uma mesa para quatro pessoas, eles fazem de tudo para encaixar 10. É impossível fazê-los ficar com os outros. Isto eu entendi. Não posso forçá-los. São pessoas muito alegres, mas esta alegria se transforma em superficialidade, em relax. Eles ficaram surpresos quando eu proibi a batucada, as cantorias e os fones de ouvidos antes dos jogos."
"Bernard tem que demonstrar em campo que é homem. Bernard só chora. Só veio tomar dinheiro."
Por Leandro Behs e Leonardo Oliveira.
"Trabalho com 13 brasileiros. Para mim, o que gera a dificuldade é a educação. Culpa dos agentes, que querem trocá-los de clube a cada ano, a fim de ganhar mais dinheiro. O jogador precisa saber que contrato assinado deve ser respeitado."
"Uma equipe brasileira está sempre preparada para vencer. Não está preparada para sofrer, para trabalhar. O jogador brasileiro sempre diz que Deus decide o resultado. Isto não é correto. Tem que trabalhar para chegar a este ponto."
"Os brasileiros têm uma cultura deles. Em uma mesa para quatro pessoas, eles fazem de tudo para encaixar 10. É impossível fazê-los ficar com os outros. Isto eu entendi. Não posso forçá-los. São pessoas muito alegres, mas esta alegria se transforma em superficialidade, em relax. Eles ficaram surpresos quando eu proibi a batucada, as cantorias e os fones de ouvidos antes dos jogos."
"Bernard tem que demonstrar em campo que é homem. Bernard só chora. Só veio tomar dinheiro."
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
[25 MELHORES DISCOS de BRASIL e PORTUGAL em 2014]
- Oddish - Ponteiros voam feito jatos
- llOVNi - a vida eh breve
- Rua - Limbo
- Luiz Gadelha - Supérflua
- Capicua - Sereia louca
- Cadu Tenório - Vozes
- Tonto - Aliança hostil
- 5-30 - 5-30
- Mão Morta - Pelo meu relógio são horas de matar
- Plutão Já Foi Planeta - Daqui pra lá
- Criolo - Convoque seu buda
- Guta Naki - Perto como
- Ananda - Space pirate EP
- Chimi Churris - Entropia
- Adelino - Breve
- Far From Alaska - ModeHuman
- D'Alva - Batequebate
- Sensible Soccers - 8
- Yersiniose - 1911
- China - Telemática
- Nação Zumbi - Nação Zumbi
- Capitão Fausto - Pesar o sol
- Lurdez da Luz - Gana pelo bang
- Aurora - Aurora
- A Espiral de Bukowski - B1620-25i
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
A Zero Hora,
- no mínimo: diz que todas as mulheres que não têm orgasmo fingem;
- no máximo: diz que todas as mulheres não têm orgasmo e fingem.
- no mínimo: diz que todas as mulheres que não têm orgasmo fingem;
- no máximo: diz que todas as mulheres não têm orgasmo e fingem.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
"A felicidade genuína não vem do que tiramos do mundo, mas do que oferecemos ao mundo." (Alan Wallace)
Jørgen Randers co-escreveu, em 1972, o trabalho Limites Para o Crescimento, que evidenciava os impactos devastadores de um crescimento exponencial econômico e demográfico, num planeta com recursos finitos. Em 2004, publicou uma atualização pessimista do texto de 1972, mostrando que as previsões ora feitas estão vindo a ser altamente precisas. Em 2006, integrou uma comissão, na Noruega, com um plano de 15 pontos para resolver o problema do clima. (The Guardian)
"Se cada norueguês pagasse €250 (£191) a mais de imposto por ano até a próxima geração, isso poderia reduzir as emissões de gases em 2/3 até 2050 e servir de exemplo para outros países. Pra mim, esse seria um custo ridiculamente pequeno, equivalente a um aumento de 36% a 37% no total de impostos. Apesar disso, uma vasta maioria dos noruegueses [isso que estamos falando no país mais desenvolvido do mundo] foram contra esse sacrifício. Para ser franco, a maioria dos eleitores preferiram usar o dinheiro para outras coisas – como mais uma viagem de fim de semana para fazer compra em Londres ou na Suécia. Quando se fala em mais imposto, os eleitores tendem a se revoltar e, como consequência, os políticos continuam recusando a dar passos corajosos, por medo de serem catapultados de seus gabinetes nas próximas eleições. O sistema capitalista não ajuda. Ele é cuidadosamente desenhado para alocar capital nos projetos mais lucrativos. E isso é tudo de que não precisamos hoje. Precisamos de investimentos em energia solar e eólica, não em carvão ou petróleo. Mas o mercado não tomará essa iniciativa. É preciso que o Estado dê condições favoráveis, como preços alternativos ou nova regulação. Diante dessa intransponível resistência, o que podemos fazer? O primeiro passo é comunicar efetivamente aos cidadãos que o imediatismo representa uma ameaça real para a sustentabilidade da sociedade democrática. Outra sensível mudança seria aumentar o período de mandato para dar aos políticos tempo de implementar medidas impopulares antes que eles percam a eleição seguinte, e garantir que todos os trabalhadores recebam salário adequado depois que seus empregos 'sujos' forem extintos e até eles conseguirem novos e 'limpos' empregos. Uma outra ideia seria instalar uma leve ditadura, por tempo determinado em áreas mais críticas, mas acredito que essa solução não é realista no ocidente democrático." (Jørgen Randers)
"Se cada norueguês pagasse €250 (£191) a mais de imposto por ano até a próxima geração, isso poderia reduzir as emissões de gases em 2/3 até 2050 e servir de exemplo para outros países. Pra mim, esse seria um custo ridiculamente pequeno, equivalente a um aumento de 36% a 37% no total de impostos. Apesar disso, uma vasta maioria dos noruegueses [isso que estamos falando no país mais desenvolvido do mundo] foram contra esse sacrifício. Para ser franco, a maioria dos eleitores preferiram usar o dinheiro para outras coisas – como mais uma viagem de fim de semana para fazer compra em Londres ou na Suécia. Quando se fala em mais imposto, os eleitores tendem a se revoltar e, como consequência, os políticos continuam recusando a dar passos corajosos, por medo de serem catapultados de seus gabinetes nas próximas eleições. O sistema capitalista não ajuda. Ele é cuidadosamente desenhado para alocar capital nos projetos mais lucrativos. E isso é tudo de que não precisamos hoje. Precisamos de investimentos em energia solar e eólica, não em carvão ou petróleo. Mas o mercado não tomará essa iniciativa. É preciso que o Estado dê condições favoráveis, como preços alternativos ou nova regulação. Diante dessa intransponível resistência, o que podemos fazer? O primeiro passo é comunicar efetivamente aos cidadãos que o imediatismo representa uma ameaça real para a sustentabilidade da sociedade democrática. Outra sensível mudança seria aumentar o período de mandato para dar aos políticos tempo de implementar medidas impopulares antes que eles percam a eleição seguinte, e garantir que todos os trabalhadores recebam salário adequado depois que seus empregos 'sujos' forem extintos e até eles conseguirem novos e 'limpos' empregos. Uma outra ideia seria instalar uma leve ditadura, por tempo determinado em áreas mais críticas, mas acredito que essa solução não é realista no ocidente democrático." (Jørgen Randers)
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Revelação indie de 2014 e nova namorada do Robert Pattinson. FKA twigs. Ao vivo na rádio KEXP, de Seattle.
domingo, 18 de janeiro de 2015
Vá até 21:06. Sobre o cérebro pequeno dos dinossauros, que não souberam evitar sua extinção.
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sábado, 17 de janeiro de 2015
Nos anos 1980, Barbara Gonyo, fundadora de um grupo de apoio a crianças adotadas que tiveram a chance de conhecer os pais biológicos, cunhou o termo Atração Sexual Genética (GSA - sigla em inglês). Segundo ela, ele diz respeito aos intensos sentimentos amorosos e sexuais observados nas reuniões de reaproximação. Em entrevista ao The Guardian, contou que este sentimento tabu ocorre em 50% dos casos em que parentes afastados se reencontram na fase adulta. (Marie Claire)
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"Quatro piadas minhas foram colocadas fora de contexto e isso quase afundou a minha carreira. Tudo isso ocorreu por um simples motivo: eu não pedi desculpas. E sabe por que eu não me desculpei? Porque acredito que o humorista deve ser livre para arriscar, questionar e provocar. Se eu pedisse desculpas por cada tentativa, em dois meses eu estaria domesticado. Nunca mais eu te surpreenderia. Diria somente aquilo que você queria ouvir. Eu seria querido, amado e totalmente infeliz." (Rafinha Bastos)
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
[50 MELHORES MÚSICAS de 2014]
- Wye Oak - Schools Of Eyes (04:14)
- Russian Red - Michael (03:52)
- Jenny Lewis - Slippery Slopes (03:38)
- Interpol - Twice As Hard.mp3 (04:56)
- The New Pornographers - Born With a Sound (02:55)
- Karen O - Rapt (01:44)
- Timber Timbre - Curtains!? (03:44)
- St. Vincent - Rattlesnake (03:34)
- Warpaint - Love is to Die (04:51)
- The New Pornographers - Brill Bruisers (02:56)
- Sea Oleena - If I'm (05:11)
- Music Go Music - Light Of Love (05:15)
- Tv On The Radio - Careful You (05:12)
- Spoon - Inside Out (05:01)
- Manic Street Preachers - Divine Youth (03:22)
- Urban Cone - Sadness Disease (03:38)
- Elisa Ambrogio - Mary Perfectly (03:37)
- Linnea Olsson - Breaking and Shaking (03:25)
- Rammstein - Mein Herz Brennt (04:39)
- Sia - Chandelier (03:36)
- Lyla Foy - Someday (03:49)
- Elisa Ambrogio - Superstitious (03:40)
- Pr0files - Luxury (03:45)
- Russian Red - Michael (03:52)
- Elisa Ambrogio - Comers (04:02)
- Linnea Olsson - My Work (03:17)
- Peter Kernel - High Fever (03:40)
- Thurston Moore - Speak To The Wild (08:32)
- 18+ - Drawl (03:50)
- Linnea Olsson - You and I, Oh We (04:39)
- Tricky - My Palestine Girl (feat. Blue Daisy) (03:32)
- Laetitia Sadier - Butter Side Up (06:36)
- Allison Crutchfield - You.mp3 (04:18)
- Andy Stott - Violence (06:37)
- Cibo Matto - Empty Pool (04:04)
- Elisa Ambrogio - Kylie (03:52)
- Kevin Drew - It's Cool (03:51)
- 33 - Inside Stuff.mp3 (03:50)
- Ai Aso - Most Children Do (03:52)
- Lululemon - Yangmei (04:58)
- Bonfire Beach - Spit U Out.mp3 (02:40)
- Owen Pallett - The Riverbed (03:44)
- Eskmo - Aspen (04:05)
- French For Rabbits - Hard Luck Stories (03:55)
- 18+ - Jets (04:51)
- Marianne Faithfull - Late Victorian Holocaust (04:26)
- The White Birch - Lantern.mp3 (04:08)
- Roll The Dice - Aridity (04:38)
- Panda Bear - Boys Latin (04:12)
- Ballet School - Heartbeat Overdrive (04:48)
[100 MELHORES DISCOS de 2014]
- Elisa Ambrogio - The Immoralist
- Jenny Hval & Susanna - Meshes of Voice
- Russian Red - Agent Cooper
- Phantogram - Voices
- 18+ - Trust
- Mirel Wagner - When the Cellar Children See the Light of Day
- Mirah - Changing Light
- St. Vincent - St. Vincent
- Yelle - Complètement Fou
- Dum Dum Girls - Too True
- Capicua - Sereia Louca
- Anna Calvi - Strange Weather
- Loscil - Sea Island
- FKA Twigs - LP1
- Parkay Quarts - Content Nausea
- Owen Pallett - In Conflict
- Klara Lewis - Ett
- Kevin Drew - Darlings
- S. Carey - Range of Light
- Wye Oak - Shriek
- Kyoka - Is (Is Superpowered)
- The Acid - Liminal
- Sea Oleena - Shallow
- The Antlers - Familiars
- Dead Congregation - Promulgation of the Fall
- 5-30 - 5-30
- Ø - Konstellaatio
- EMA - The Future's Void
- Gazelle Twin - Unflesh
- Hookworms - The Hum
- Karen O - Crush Songs
- The Body - I Shall Die Here
- Ballet School - The Dew Lasts an Hour
- Brighter Death Now - With Promises of Death
- Behemoth - The Satanist
- Lawrence English - Wilderness of Mirrors
- Kandle - In Flames
- Mão Morta - Pelo Meu Relógio São Horas De Matar
- Donato Dozzy / Nuel - The Aquaplano Sessions
- Container - Adhesive
- Andy Stott - Faith in Strangers
- Marianne Faithfull - Give My Love to London
- Posse - Soft Opening
- Perfect Pussy - Say Yes to Love
- Camilla Sparksss - For You the Wild
- Music Go Music - Impressions
- Jenny Lewis - The Voyager
- Keaton Henson - Romantic Works
- Speedy Ortiz - Real Hair
- Swans - To Be Kind
- Lia Ices - Ices
- Sunn 0))) / Ulver - Terrestrials
- Timber Timbre - Hot Dreams
- Arca - Xen
- The Euphrates / Dan Lyth - Benthic Lines
- Anjou - Anjou
- Dean Blunt - Black Metal
- Frankie Cosmos - Zentropy
- First Aid Kit - Stay Gold
- Shintaro Sakamoto - Let's Dance Raw
- Manic Street Preachers - Futurology
- Eels - The Cautionary Tales of Mark Oliver Everett
- The New Pornographers - Brill Bruisers
- Cibo Matto - Hotel Valentine
- Arne Deforce / Mika Vainio - Hephaestus
- Bleachers - Strange Desire
- Bonnie "Prince" Billy - Singer's Grave/A Sea of Tongues
- Indian - From All Purity
- Warpaint - Warpaint
- The History of Apple Pie - Feel Something
- The Twilight Sad - Nobody Wants to Be Here and Nobody Wants to Leave
- Mozart's Sister - Being
- Hamilton Leithauser - Black Hours
- Harold Budd / Jane Maru - Jane 1-11
- Linnéa Olsson - Breaking & Shaking
- Imogen Heap - Sparks
- TOPS - Picture You Staring
- Supersilent - 12
- Ben Frost - A U R O R A
- Kevin Morby - Still Life
- Chrissie Hynde - Stockholm
- Barbie Almalbis - My New Heart
- Xiu Xiu - Unclouded Sky
- Leonard Cohen - Popular Problems
- Fear of Men - Loom
- Foo Fighters - Sonic Highways
- Conor Oberst - Upside-Down Mountain
- Thurston Moore - The Best Day
- Trent Reznor / Atticus Ross - Gone Girl [Original Motion Picture Soundtrack]
- Damon Albarn - Everyday Robots
- Peter Kernel - Thrill Addict
- Bill Callahan - Have Fun with God
- Dntel Human - Voice
- D'Angelo and the Vanguard - Black Messiah
- Lily Allen - Sheezus
- Trans Am - Volume X
- Lightfoils / Lightfolis - Hierarchy
- Actress - Ghettoville
- Little Dragon - Nabuma Rubberband
- Ne Obliviscaris - Citadel
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Pensar o atentado ao Charlie Hebdo
(Slavoj Žižek)*
É agora – quando estamos todos em estado de choque depois da carnificina na sede do Charlie Hebdo – o momento certo para encontrar coragem para pensar. Agora, e não depois, quando as coisas acalmarem, como tentam nos convencer os proponentes da sabedoria barata: o difícil é justamente combinar o calor do momento com o ato de pensar. Pensar quando o rescaldo dos eventos esfriar não gera uma verdade mais balanceada, ela na verdade normaliza a situação de forma a nos permitir evitar as verdades mais afiadas.
Pensar significa ir adiante do pathos da solidariedade universal que explodiu nos dias que sucederam o evento e culminaram no espetáculo de domingo, 11 de janeiro de 2015, com grandes nomes políticos ao redor do globo de mãos dadas, de Cameron a Lavrov, de Netanyahu a Abbas – talvez a imagem mais bem acabada da falsidade hipócrita. O verdadeiro gesto Charlie Hebdo seria ter publicado na capa do semanário uma grande caricatura brutal e grosseiramente tirando sarro desse evento, com cartuns de Netanyahu e Abbas, Lavrov e Cameron, e outros casais se abraçando e beijando intensamente enquanto afiam facas por trás de suas costas.
Devemos, é claro, condenar sem ambiguidade os homicídios como um ataque contra a essência das nossas liberdades, e condená-los sem nenhuma ressalva oculta (como quem diria “mas Charlie Hebdo estava também provocando e humilhando os muçulmanos demais”). Devemos também rejeitar toda abordagem calcada no efeito mitigante do apelo ao “contexto mais amplo”: algo como, “os irmãos terroristas eram profundamente afetados pelos horrores da ocupação estadunidense do Iraque” (OK, mas então por que não simplesmente atacaram alguma instalação militar norte-americana ao invés de um semanário satírico francês?), ou como, “muçulmanos são de fato uma minoria explorada e escassamente tolerada” (OK, mas negros afro-descendentes são tudo isso e mais e no entanto não praticam atentados a bomba ou chacinas), etc. etc. O problema com tal evocação da complexidade do pano de fundo é que ele pode muito bem ser usado a propósito de Hitler: ele também coordenou uma mobilização diante da injustiça do tratado de Versalhes, mas no entanto era completamente justificável combater o regime nazista com todos os meios à nossa disposição. A questão não é se os antecedentes, agravos e ressentimentos que condicionam atos terroristas são verdadeiros ou não, o importante é o projeto político-ideológico que emerge como reação contra injustiças.
Nada disso é suficiente – temos que pensar adiante. E o pensar de que falo não tem absolutamente nada a ver com uma relativização fácil do crime (o mantra do “quem somos nós ocidentais, que cometemos massacres terríveis no terceiro mundo, para condenar atos como estes?”). E tem menos ainda a ver com o medo patológico de tantos esquerdistas liberais ocidentais de sentirem-se culpados de islamofobia. Para estes falsos esquerdistas, qualquer crítica ao Islã é rechaçada como expressão da islamofobia ocidental: Salman Rushdie foi acusado de ter provocado desnecessariamente os muçulmanos, e é portanto responsável (ao menos em parte) pelo fatwa que o condenou à morte etc.
O resultado de tal postura só pode ser esse: o quanto mais os esquerdistas liberais ocidentais mergulham em seu sentimento de culpa, mais são acusados por fundamentalistas muçulmanos de serem hipócritas tentando ocultar seu ódio ao Islã. Esta constelação perfeitamente reproduz o paradoxo do superego: o quanto mais você obedece o que o outro exige de você, mais culpa sentirá. É como se o quanto mais você tolerar o Islã, tanto mais forte será sua pressão em você…
É por isso que também me parecem insuficientes os pedidos de moderação que surgiram na linha da alegação de Simon Jenkins (no The Guardian de 7 de janeiro) de que nossa tarefa seria a de “não exagerar a reação, não sobre-publicizar o impacto do acontecimento. É tratar cada evento como um acidente passageiro do horror” – o atentado ao Charlie Hebdo não foi um mero “acidente passageiro do horror”. Ele seguiu uma agenda religiosa e política precisa e foi como tal claramente parte de um padrão muito mais amplo. É claro que não devemos nos exaltar – se por isso compreendermos não sucumbir à islamofobia cega – mas devemos implacavelmente analisar este padrão.
O que é muito mais necessário que a demonização dos terroristas como fanáticos suicidas heroicos é um desmascaramento desse mito demoníaco. Muito tempo atrás, Friedrich Nietzsche percebeu como a civilização ocidental estava se movendo na direção do “último homem”, uma criatura apática com nenhuma grande paixão ou comprometimento. Incapaz de sonhar, cansado da vida, ele não assume nenhum risco, buscando apenas o conforto e a segurança, uma expressão de tolerância com os outros: “Um pouquinho de veneno de tempos em tempos: que garante sonhos agradáveis. E muito veneno no final, para uma morte agradável. Eles têm seus pequenos prazeres de dia, e seus pequenos prazeres de noite, mas têm um zelo pela saúde. ‘Descobrimos a felicidade,’ dizem os últimos homens, e piscam.”
Pode efetivamente parecer que a cisão entre o Primeiro Mundo permissivo e a reação fundamentalista a ele passa mais ou menos nas linhas da oposição entre levar uma longa e gratificante vida cheia de riquezas materiais e culturais, e dedicar sua vida a alguma Causa transcendente. Não é esse o antagonismo entre o que Nietzsche denominava niilismo “passivo” e “ativo”? Nós no ocidente somos os “últimos homens” nietzschianos, imersos em prazeres cotidianos banais, enquanto os radicais muçulmanos estão prontos a arriscar tudo, comprometidos com a luta até sua própria autodestruição. O poema “The Second Comming” [O segundo advento], de William Butler Yeats parece perfeitamente resumir nosso predicamento atual: “Os melhores carecem de toda convicção, enquanto os piores são cheios de intensidade apaixonada”. Esta é uma excelente descrição da atual cisão entre liberais anêmicos e fundamentalistas apaixonados. “Os melhores” não são mais capazes de se empenhar inteiramente, enquanto “os piores” se empenham em fanatismo racista, religioso e machista.
No entanto, será que os terroristas fundamentalistas realmente se encaixam nessa descrição? O que obviamente lhes carece é um elemento que é fácil identificar em todos os autênticos fundamentalistas, dos budistas tibetanos aos amistas nos EUA: a ausência de ressentimento e inveja, a profunda indiferença perante o modo de vida dos não-crentes. Se os ditos fundamentalistas de hoje realmente acreditam que encontraram seu caminho à Verdade, por que deveriam se sentir ameaçados por não-crentes, por que deveriam invejá-los? Quando um budista encontra um hedonista ocidental, ele dificilmente o condena. Ele só benevolentemente nota que a busca do hedonista pela felicidade é auto-derrotante. Em contraste com os verdadeiros fundamentalistas, os pseudo-fundamentalistas terroristas são profundamente incomodados, intrigados, fascinados pela vida pecaminosa dos não-crentes. Tem-se a sensação de que, ao lutar contra o outro pecador, eles estão lutando contra sua própria tentação.
É aqui que o diagnóstico de Yeats escapa ao atual predicamento: a intensidade apaixonada dos terroristas evidencia uma falta de verdadeira convicção. O quão frágil não tem de ser a crença de um muçulmano para que ele se sinta ameaçado por uma caricatura besta em um semanário satírico? O terror islâmico fundamentalista não é fundado na convicção dos terroristas de sua superioridade e em seu desejo de salvaguardar sua identidade cultural-religiosa diante da investida da civilização global consumista.
O problema com fundamentalistas não é que consideramos eles inferiores a nós, mas sim que eles próprios secretamente se consideram inferiores. É por isso que nossas reafirmações politicamente corretas condescendentes de que não sentimos superioridade alguma perante a eles só os fazem mais furiosos, alimentando seu ressentimento. O problema não é a diferença cultural (seu empenho em preservar sua identidade), mas o fato inverso de que os fundamentalistas já são como nós, que eles secretamente já internalizaram nossas normas e se medem a partir delas. Paradoxalmente, o que os fundamentalistas verdadeiramente carecem é precisamente uma dose daquela convicção verdadeiramente “racista” de sua própria superioridade.
As recentes vicissitudes do fundamentalismo muçulmano confirmam o velho insight benjaminiano de que “toda ascensão do fascismo evidencia uma revolução fracassada”: a ascensão do fascismo é a falência da esquerda, mas simultaneamente uma prova de que havia potencial revolucionário, descontentamento, que a esquerda não foi capaz de mobilizar.
E o mesmo não vale para o dito “islamo-fascismo” de hoje? A ascensão do islamismo radical não é exatamente correlativa à desaparição da esquerda secular nos países muçulmanos? Quando, lá na primavera de 2009, o Taliban tomou o vale do Swat no Paquistão, o New York Times publicou que eles arquitetaram uma “revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de proprietários abastados e seus inquilinos sem terra”. Se, no entanto, ao “tirar vantagem” da condição dos camponeses, o Taliban está “chamando atenção para os riscos ao Paquistão, que permanece em grande parte feudal”, o que garante que os democratas liberais no Paquistão, bem como os EUA, também não “tirem vantagem” dessa condição e procurem ajudar os camponeses sem terra? A triste implicação deste fato é que as forças feudais no Paquistão são os “aliados naturais” da democracia liberal…
Mas como ficam então os valores fundamentais do liberalismo (liberdade, igualdade, etc.)? O paradoxo é que o próprio liberalismo não é forte o suficiente para salvá-los contra a investida fundamentalista. O fundamentalismo é uma reação – uma reação falsa, mistificadora, é claro – contra uma falha real do liberalismo, e é por isso que ele é repetidamente gerado pelo liberalismo. Deixado à própria sorte, o liberalismo lentamente minará a si próprio – a única coisa que pode salvar seus valores originais é uma esquerda renovada. Para que esse legado fundamental sobreviva, o liberalismo precisa da ajuda fraterna da esquerda radical. Essa é a única forma de derrotar o fundamentalismo, varrer o chão sob seus pés.
Pensar os assassinatos de Paris significa abrir mão da auto-satisfação presunçosa de um liberal permissivo e aceitar que o conflito entre a permissividade liberal e o fundamentalismo é essencialmente um falso conflito – um círculo vicioso de dois polos gerando e pressupondo um ao outro. O que Max Horkheimer havia dito sobre o fascismo e o capitalismo já nos anos 1930 – que aqueles que não estiverem dispostos a falar criticamente sobre o capitalismo devem se calar sobre o fascismo – deve ser aplicada também ao fundamentalismo de hoje: quem não estiver disposto a falar criticamente sobre a democracia liberal deve também se calar sobre o fundamentalismo religioso.
* tradução de Artur Renzo.
(Slavoj Žižek)*
É agora – quando estamos todos em estado de choque depois da carnificina na sede do Charlie Hebdo – o momento certo para encontrar coragem para pensar. Agora, e não depois, quando as coisas acalmarem, como tentam nos convencer os proponentes da sabedoria barata: o difícil é justamente combinar o calor do momento com o ato de pensar. Pensar quando o rescaldo dos eventos esfriar não gera uma verdade mais balanceada, ela na verdade normaliza a situação de forma a nos permitir evitar as verdades mais afiadas.
Pensar significa ir adiante do pathos da solidariedade universal que explodiu nos dias que sucederam o evento e culminaram no espetáculo de domingo, 11 de janeiro de 2015, com grandes nomes políticos ao redor do globo de mãos dadas, de Cameron a Lavrov, de Netanyahu a Abbas – talvez a imagem mais bem acabada da falsidade hipócrita. O verdadeiro gesto Charlie Hebdo seria ter publicado na capa do semanário uma grande caricatura brutal e grosseiramente tirando sarro desse evento, com cartuns de Netanyahu e Abbas, Lavrov e Cameron, e outros casais se abraçando e beijando intensamente enquanto afiam facas por trás de suas costas.
Devemos, é claro, condenar sem ambiguidade os homicídios como um ataque contra a essência das nossas liberdades, e condená-los sem nenhuma ressalva oculta (como quem diria “mas Charlie Hebdo estava também provocando e humilhando os muçulmanos demais”). Devemos também rejeitar toda abordagem calcada no efeito mitigante do apelo ao “contexto mais amplo”: algo como, “os irmãos terroristas eram profundamente afetados pelos horrores da ocupação estadunidense do Iraque” (OK, mas então por que não simplesmente atacaram alguma instalação militar norte-americana ao invés de um semanário satírico francês?), ou como, “muçulmanos são de fato uma minoria explorada e escassamente tolerada” (OK, mas negros afro-descendentes são tudo isso e mais e no entanto não praticam atentados a bomba ou chacinas), etc. etc. O problema com tal evocação da complexidade do pano de fundo é que ele pode muito bem ser usado a propósito de Hitler: ele também coordenou uma mobilização diante da injustiça do tratado de Versalhes, mas no entanto era completamente justificável combater o regime nazista com todos os meios à nossa disposição. A questão não é se os antecedentes, agravos e ressentimentos que condicionam atos terroristas são verdadeiros ou não, o importante é o projeto político-ideológico que emerge como reação contra injustiças.
Nada disso é suficiente – temos que pensar adiante. E o pensar de que falo não tem absolutamente nada a ver com uma relativização fácil do crime (o mantra do “quem somos nós ocidentais, que cometemos massacres terríveis no terceiro mundo, para condenar atos como estes?”). E tem menos ainda a ver com o medo patológico de tantos esquerdistas liberais ocidentais de sentirem-se culpados de islamofobia. Para estes falsos esquerdistas, qualquer crítica ao Islã é rechaçada como expressão da islamofobia ocidental: Salman Rushdie foi acusado de ter provocado desnecessariamente os muçulmanos, e é portanto responsável (ao menos em parte) pelo fatwa que o condenou à morte etc.
O resultado de tal postura só pode ser esse: o quanto mais os esquerdistas liberais ocidentais mergulham em seu sentimento de culpa, mais são acusados por fundamentalistas muçulmanos de serem hipócritas tentando ocultar seu ódio ao Islã. Esta constelação perfeitamente reproduz o paradoxo do superego: o quanto mais você obedece o que o outro exige de você, mais culpa sentirá. É como se o quanto mais você tolerar o Islã, tanto mais forte será sua pressão em você…
É por isso que também me parecem insuficientes os pedidos de moderação que surgiram na linha da alegação de Simon Jenkins (no The Guardian de 7 de janeiro) de que nossa tarefa seria a de “não exagerar a reação, não sobre-publicizar o impacto do acontecimento. É tratar cada evento como um acidente passageiro do horror” – o atentado ao Charlie Hebdo não foi um mero “acidente passageiro do horror”. Ele seguiu uma agenda religiosa e política precisa e foi como tal claramente parte de um padrão muito mais amplo. É claro que não devemos nos exaltar – se por isso compreendermos não sucumbir à islamofobia cega – mas devemos implacavelmente analisar este padrão.
O que é muito mais necessário que a demonização dos terroristas como fanáticos suicidas heroicos é um desmascaramento desse mito demoníaco. Muito tempo atrás, Friedrich Nietzsche percebeu como a civilização ocidental estava se movendo na direção do “último homem”, uma criatura apática com nenhuma grande paixão ou comprometimento. Incapaz de sonhar, cansado da vida, ele não assume nenhum risco, buscando apenas o conforto e a segurança, uma expressão de tolerância com os outros: “Um pouquinho de veneno de tempos em tempos: que garante sonhos agradáveis. E muito veneno no final, para uma morte agradável. Eles têm seus pequenos prazeres de dia, e seus pequenos prazeres de noite, mas têm um zelo pela saúde. ‘Descobrimos a felicidade,’ dizem os últimos homens, e piscam.”
Pode efetivamente parecer que a cisão entre o Primeiro Mundo permissivo e a reação fundamentalista a ele passa mais ou menos nas linhas da oposição entre levar uma longa e gratificante vida cheia de riquezas materiais e culturais, e dedicar sua vida a alguma Causa transcendente. Não é esse o antagonismo entre o que Nietzsche denominava niilismo “passivo” e “ativo”? Nós no ocidente somos os “últimos homens” nietzschianos, imersos em prazeres cotidianos banais, enquanto os radicais muçulmanos estão prontos a arriscar tudo, comprometidos com a luta até sua própria autodestruição. O poema “The Second Comming” [O segundo advento], de William Butler Yeats parece perfeitamente resumir nosso predicamento atual: “Os melhores carecem de toda convicção, enquanto os piores são cheios de intensidade apaixonada”. Esta é uma excelente descrição da atual cisão entre liberais anêmicos e fundamentalistas apaixonados. “Os melhores” não são mais capazes de se empenhar inteiramente, enquanto “os piores” se empenham em fanatismo racista, religioso e machista.
No entanto, será que os terroristas fundamentalistas realmente se encaixam nessa descrição? O que obviamente lhes carece é um elemento que é fácil identificar em todos os autênticos fundamentalistas, dos budistas tibetanos aos amistas nos EUA: a ausência de ressentimento e inveja, a profunda indiferença perante o modo de vida dos não-crentes. Se os ditos fundamentalistas de hoje realmente acreditam que encontraram seu caminho à Verdade, por que deveriam se sentir ameaçados por não-crentes, por que deveriam invejá-los? Quando um budista encontra um hedonista ocidental, ele dificilmente o condena. Ele só benevolentemente nota que a busca do hedonista pela felicidade é auto-derrotante. Em contraste com os verdadeiros fundamentalistas, os pseudo-fundamentalistas terroristas são profundamente incomodados, intrigados, fascinados pela vida pecaminosa dos não-crentes. Tem-se a sensação de que, ao lutar contra o outro pecador, eles estão lutando contra sua própria tentação.
É aqui que o diagnóstico de Yeats escapa ao atual predicamento: a intensidade apaixonada dos terroristas evidencia uma falta de verdadeira convicção. O quão frágil não tem de ser a crença de um muçulmano para que ele se sinta ameaçado por uma caricatura besta em um semanário satírico? O terror islâmico fundamentalista não é fundado na convicção dos terroristas de sua superioridade e em seu desejo de salvaguardar sua identidade cultural-religiosa diante da investida da civilização global consumista.
O problema com fundamentalistas não é que consideramos eles inferiores a nós, mas sim que eles próprios secretamente se consideram inferiores. É por isso que nossas reafirmações politicamente corretas condescendentes de que não sentimos superioridade alguma perante a eles só os fazem mais furiosos, alimentando seu ressentimento. O problema não é a diferença cultural (seu empenho em preservar sua identidade), mas o fato inverso de que os fundamentalistas já são como nós, que eles secretamente já internalizaram nossas normas e se medem a partir delas. Paradoxalmente, o que os fundamentalistas verdadeiramente carecem é precisamente uma dose daquela convicção verdadeiramente “racista” de sua própria superioridade.
As recentes vicissitudes do fundamentalismo muçulmano confirmam o velho insight benjaminiano de que “toda ascensão do fascismo evidencia uma revolução fracassada”: a ascensão do fascismo é a falência da esquerda, mas simultaneamente uma prova de que havia potencial revolucionário, descontentamento, que a esquerda não foi capaz de mobilizar.
E o mesmo não vale para o dito “islamo-fascismo” de hoje? A ascensão do islamismo radical não é exatamente correlativa à desaparição da esquerda secular nos países muçulmanos? Quando, lá na primavera de 2009, o Taliban tomou o vale do Swat no Paquistão, o New York Times publicou que eles arquitetaram uma “revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de proprietários abastados e seus inquilinos sem terra”. Se, no entanto, ao “tirar vantagem” da condição dos camponeses, o Taliban está “chamando atenção para os riscos ao Paquistão, que permanece em grande parte feudal”, o que garante que os democratas liberais no Paquistão, bem como os EUA, também não “tirem vantagem” dessa condição e procurem ajudar os camponeses sem terra? A triste implicação deste fato é que as forças feudais no Paquistão são os “aliados naturais” da democracia liberal…
Mas como ficam então os valores fundamentais do liberalismo (liberdade, igualdade, etc.)? O paradoxo é que o próprio liberalismo não é forte o suficiente para salvá-los contra a investida fundamentalista. O fundamentalismo é uma reação – uma reação falsa, mistificadora, é claro – contra uma falha real do liberalismo, e é por isso que ele é repetidamente gerado pelo liberalismo. Deixado à própria sorte, o liberalismo lentamente minará a si próprio – a única coisa que pode salvar seus valores originais é uma esquerda renovada. Para que esse legado fundamental sobreviva, o liberalismo precisa da ajuda fraterna da esquerda radical. Essa é a única forma de derrotar o fundamentalismo, varrer o chão sob seus pés.
Pensar os assassinatos de Paris significa abrir mão da auto-satisfação presunçosa de um liberal permissivo e aceitar que o conflito entre a permissividade liberal e o fundamentalismo é essencialmente um falso conflito – um círculo vicioso de dois polos gerando e pressupondo um ao outro. O que Max Horkheimer havia dito sobre o fascismo e o capitalismo já nos anos 1930 – que aqueles que não estiverem dispostos a falar criticamente sobre o capitalismo devem se calar sobre o fascismo – deve ser aplicada também ao fundamentalismo de hoje: quem não estiver disposto a falar criticamente sobre a democracia liberal deve também se calar sobre o fundamentalismo religioso.
* tradução de Artur Renzo.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
A primeira música que ouço com sons de Fórmula 1.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Nick Cave Avalanche Leonard Cohen cover
sábado, 10 de janeiro de 2015
"O que fazer quando fico irritado e com raiva quando alguém não faz as coisas do modo como eu entendo que seria correto?"
(Jetsunma Tenzin Palmo/Tradução livre de Jigmé Chöedzin)
Se o solo do mundo inteiro estivesse coberto de espinhos teríamos duas opções, uma é cobri-lo totalmente com couro, de modo que pudéssemos andar confortavelmente - o que não é possível; ou poderíamos pegar um pedaço de couro e colocar sobre a sola dos nossos pés fazendo uma sandália - quando então poderíamos andar em qualquer lugar sem nos machucar.
Do mesmo modo, o mundo todo é cheio de “pessoas difíceis”, todos tem suas pessoalidades, todos tem seus “gosto e não gosto”, e todos acreditam que estão com a razão.
Não há como mudarmos as pessoas para que todos concordem conosco – e não precisamos disto. A única coisa que precisamos é mudar nossa própria atitude e aprendermos com as pessoas e com situações difíceis, pois o que precisamos é internamente nutrir gratidão por elas estarem nos permitindo praticar paciência. Afinal, como poderíamos aprender a ser tolerantes se todos fossem tão legais conosco?
Ao invés de sentir ressentimento quando nos deparamos com pessoas que fazem as coisas diferente do que gostaríamos, devemos sentir gratidão por termos a oportunidade de aprendermos a ter uma mente mais aberta, gratidão pela oportunidade de aprender a não ficar chateado toda vez que alguém não diz algo que ‘eu gostaria’ que dissesse, ou aprender a não ficar com raiva quando alguém não faz as coisas do jeito que ‘eu quero’ que faça.
Nessas situações, ao invés de sentir ressentimento e raiva devemos sentir gratidão, pois estas pessoas ou situações nos ajudam a crescer, elas nos ajudam a deixar de ser infantis; pois é assim que as crianças agem, quando elas tem o que querem estão felizes e animadas, mas quando as coisas seguem de um jeito que não as agrada elas gritam e esperneiam. Quando temos quatro anos tudo bem fazermos isso, mas quando temos quarenta... - Por favor!!!
Precisamos crescer.
O Buda sempre se referiu às pessoas ordinárias, às pessoas não-iluminadas como nós, como ‘pessoas infantis’, exortando que o caminho espiritual é o caminho para o amadurecimento, o caminho para o crescimento.
Assim, precisamos crescer, precisamos parar de apenas nos sentirmos felizes quando todos fazem o que queremos, e nos afundarmos em irritação e raiva quando as pessoas nos desagradam.
(Jetsunma Tenzin Palmo/Tradução livre de Jigmé Chöedzin)
Se o solo do mundo inteiro estivesse coberto de espinhos teríamos duas opções, uma é cobri-lo totalmente com couro, de modo que pudéssemos andar confortavelmente - o que não é possível; ou poderíamos pegar um pedaço de couro e colocar sobre a sola dos nossos pés fazendo uma sandália - quando então poderíamos andar em qualquer lugar sem nos machucar.
Do mesmo modo, o mundo todo é cheio de “pessoas difíceis”, todos tem suas pessoalidades, todos tem seus “gosto e não gosto”, e todos acreditam que estão com a razão.
Não há como mudarmos as pessoas para que todos concordem conosco – e não precisamos disto. A única coisa que precisamos é mudar nossa própria atitude e aprendermos com as pessoas e com situações difíceis, pois o que precisamos é internamente nutrir gratidão por elas estarem nos permitindo praticar paciência. Afinal, como poderíamos aprender a ser tolerantes se todos fossem tão legais conosco?
Ao invés de sentir ressentimento quando nos deparamos com pessoas que fazem as coisas diferente do que gostaríamos, devemos sentir gratidão por termos a oportunidade de aprendermos a ter uma mente mais aberta, gratidão pela oportunidade de aprender a não ficar chateado toda vez que alguém não diz algo que ‘eu gostaria’ que dissesse, ou aprender a não ficar com raiva quando alguém não faz as coisas do jeito que ‘eu quero’ que faça.
Nessas situações, ao invés de sentir ressentimento e raiva devemos sentir gratidão, pois estas pessoas ou situações nos ajudam a crescer, elas nos ajudam a deixar de ser infantis; pois é assim que as crianças agem, quando elas tem o que querem estão felizes e animadas, mas quando as coisas seguem de um jeito que não as agrada elas gritam e esperneiam. Quando temos quatro anos tudo bem fazermos isso, mas quando temos quarenta... - Por favor!!!
Precisamos crescer.
O Buda sempre se referiu às pessoas ordinárias, às pessoas não-iluminadas como nós, como ‘pessoas infantis’, exortando que o caminho espiritual é o caminho para o amadurecimento, o caminho para o crescimento.
Assim, precisamos crescer, precisamos parar de apenas nos sentirmos felizes quando todos fazem o que queremos, e nos afundarmos em irritação e raiva quando as pessoas nos desagradam.
"Enquanto o Ocidente pilhar e destruir os países árabes, o terreno para a radicalização de jovens muçulmanos estará sempre fértil. Há uma fórmula certeira para acabar com a fábrica de extremistas: os americanos e aliados darem o fora dos países árabes. Mas quem quer falar disso?" (Paulo Nogueira/Diário do Centro do Mundo)
"As intenções da campanha #NotInMyName são boas, mas encoraja muçulmanos que vivem em países ocidentais a se dissociar do Estado Islâmico e se entrincheirar numa posição oposta. A campanha acaba dizendo que os muçulmanos são, de alguma forma, responsáveis pelas atrocidades no Iraque, e que eles devem se pronunciar contrariamente para provar que não o fizeram. Ao invés disso, devemos nos fazer as difíceis perguntas: o Estado Islâmico poderia existir hoje sem a devastação da Guerra do Iraque, sem mais de uma década de sanções ocidentais que mataram meio milhão de crianças no Iraque, ou, antes disso, sem o irrestrito apoio ao ditador Saddam Hussein? Em vez de descobrirmos as causas enraizadas desses conflitos brutais, parece que estamos nos focando apenas nos sintomas. Infelizmente, a campanha #NotInMyName desvia a atenção das causas fundamentais que têm levado à situação atual." (Mehreen Faruqi, muçulmana que escreve para o jornal britânico The Guardian e vive na Austrália)
"Não estamos acostumados a ficar conosco mesmos e agimos como se não gostássemos de nós, tentando escapar de nós mesmos." (Thich Nhât Hanh)
"Não é todo mundo que percebe, mas as árvores dançam. Para notar é necessário estar em outra dimensão temporal. Elas dançam o tempo. Sutis, movem-se enquanto crescem, espiralando-se em direção às suas extremidades, deixando-se levar pelas lufadas incessantes de ar. Adentrando a terra, as raízes aprofundam-se em simetria aos galhos irrompendo a atmosfera. É na escuridão invisível que o movimento se adensa, testa firme os diferentes pontos de resistência da solidez mineral, conduzindo suas curvas subterrâneas. Não há instinto de performance ali. Há o puro prazer de existir. Menos em dias de tempestade, quando elas se deixam possuir pelo furor do vento e exultam freneticamente, farfalhando sua folhas, gemendo seus galhos. Na calmaria que se segue, a quietude permite entrever o êxtase doce com que elas se entregam ao derramar lento do tempo. Talvez ali, observando os vestígios solidificados em casca, seja possível permitir-se também esse dançar (quase) imóvel." (Laura Backes)
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Juventud sónica - Blues de lo ganador
Festejamos o fim do ano velho, que sabemos como foi, nele vivemos, mas que "finalmente!" acabou, e comemoramos o ano novo que não sabemos como vai ser, prevemos que será maravilhoso, mas que terá por destino ser o ano velho a rejeitar daqui a 364 dias. Obsolescência programada. Não é à toa que o capitalismo, o consumismo e a descartabilidade são tão perfeitos pra nós.
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"O instinto do rebanho avalia o centro e a média como o que há de superior e mais precioso: o lugar onde se encontra a maioria; a maneira como ela aí se encontra. O rebanho considera a exceção, tanto a que se encontra abaixo como a que se encontra acima dele, como algo que assume contra ele atitudes hostis e nocivas. No centro o temor cessa; não se está sozinho; não há lugar para equívocos: ali há igualdade; ali não se sente como uma censura sua própria existência, mas como existência verdadeira; ali reina o contentamento. A desconfiança dirige-se às exceções: ser uma exceção é considerado um crime, uma falta." (NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Vontade de potência. Capítulo 207.)
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A delicadeza dos dias
(Eliane Brum)
(...)
Temos vivido nesse mundo de acontecimentos, de espasmo em espasmo. Estamos intoxicados por acontecimentos, entupidos de imagens. Há sempre algo acontecendo com muitos pontos de exclamação – ou fingindo acontecer para que de fato nada aconteça. E há a nossa reação nas redes sociais – às vezes uma ilusão de ação. E nas viradas de ano há ainda as resoluções, que também pressupõem uma ação.
Mas o que é preciso para, de fato, se mover? Penso que, para que exista uma mudança real de posição e de lugar, é preciso perceber o pequeno, o quase invisível de nossa realidade externa e interna. É pelos detalhes que enxergamos a trama maior, é na soma das sutilezas que a vida se desenrola, são as subjetividades que determinam um destino. É preciso desacontecer um pouco para ser capaz de alcançar a delicadeza dos dias.
Nesse tempo em que ninguém tem tempo para ter tempo, a delicadeza de uma vida parece ter sido relegada à ficção. É no cinema e na literatura que nos enternecemos e derrubamos nossas lágrimas ao testemunhar as sutilezas que esquecemos de enxergar ou não somos capazes de enxergar nos nossos dias de autômatos. Os personagens da ficção têm mais carne que nós, precisamos deles para nos lembrar de quem somos. Os robôs já estão aí, temos agora de reinventar os humanos.
O exemplo extremo talvez seja o dos pais que se esquecem dos filhos trancados no carro, bebês que acabam morrendo por asfixia ou por insolação no banco de trás. Já foi dito que esse fenômeno seria uma marca do autocentrismo ou do narcisismo que assinalaria a paternidade desse momento histórico. O filho como uma desimportância, um atrapalho, no máximo um troféu da potência do pai. Minha hipótese é outra.
Acho que esses pais estão automatizados, como estamos todos. Tão incapazes de enxergar as diferenças de dias que parecem iguais, que acabam deixando de ver algo tão grande quanto a presença de um bebê no banco de trás. Não é que se esqueçam dos filhos, porque para esquecer, assim como para lembrar, é preciso estar presente. Presos no pesadelo de estarem vivendo sempre o mesmo dia, esses pais estão ausentes de si, numa espécie de transe mortífero. São despertados para a vida pela morte do filho. (...)
(Eliane Brum)
(...)
Temos vivido nesse mundo de acontecimentos, de espasmo em espasmo. Estamos intoxicados por acontecimentos, entupidos de imagens. Há sempre algo acontecendo com muitos pontos de exclamação – ou fingindo acontecer para que de fato nada aconteça. E há a nossa reação nas redes sociais – às vezes uma ilusão de ação. E nas viradas de ano há ainda as resoluções, que também pressupõem uma ação.
Mas o que é preciso para, de fato, se mover? Penso que, para que exista uma mudança real de posição e de lugar, é preciso perceber o pequeno, o quase invisível de nossa realidade externa e interna. É pelos detalhes que enxergamos a trama maior, é na soma das sutilezas que a vida se desenrola, são as subjetividades que determinam um destino. É preciso desacontecer um pouco para ser capaz de alcançar a delicadeza dos dias.
Nesse tempo em que ninguém tem tempo para ter tempo, a delicadeza de uma vida parece ter sido relegada à ficção. É no cinema e na literatura que nos enternecemos e derrubamos nossas lágrimas ao testemunhar as sutilezas que esquecemos de enxergar ou não somos capazes de enxergar nos nossos dias de autômatos. Os personagens da ficção têm mais carne que nós, precisamos deles para nos lembrar de quem somos. Os robôs já estão aí, temos agora de reinventar os humanos.
O exemplo extremo talvez seja o dos pais que se esquecem dos filhos trancados no carro, bebês que acabam morrendo por asfixia ou por insolação no banco de trás. Já foi dito que esse fenômeno seria uma marca do autocentrismo ou do narcisismo que assinalaria a paternidade desse momento histórico. O filho como uma desimportância, um atrapalho, no máximo um troféu da potência do pai. Minha hipótese é outra.
Acho que esses pais estão automatizados, como estamos todos. Tão incapazes de enxergar as diferenças de dias que parecem iguais, que acabam deixando de ver algo tão grande quanto a presença de um bebê no banco de trás. Não é que se esqueçam dos filhos, porque para esquecer, assim como para lembrar, é preciso estar presente. Presos no pesadelo de estarem vivendo sempre o mesmo dia, esses pais estão ausentes de si, numa espécie de transe mortífero. São despertados para a vida pela morte do filho. (...)
"Não sei quem inventou que o servidor público não trabalha. Sinceridade? Os caras trabalham pra caramba! E tem mais, o nível técnico é altíssimo! Superior, inclusive, aos encontrados no setor privado. Se quiser tem trabalho para as 24 horas do dia. O serviço público é igual ao de qualquer empresa do setor privado. Existem 1/3 dos funcionários que não produzem (por estarem no local errado ou por desmotivação), 1/3 que cumprem seu papel e ponto e os últimos 1/3 que trabalham dobrado pelos que não produzem." (Seneri Paludo, engenheiro agrônomo que encerrou seu trabalho como secretário de ministério)
O melhor personagem de cinema em todos os tempos, na minha opinião, é Rud, interpretado pelo ator Jesper Asholt em 'Mifunes sidste sang' (1999), um filme dirigido por Søren Kragh-Jacobsen para o movimento Dogma 95.
"A coisa que você precisa entender sobre Gone Girl (Garota Exemplar) é que o filme é um espelho." (Todd VanDerWerff)
"Cada ser é discípulo de si mesmo e responsável por sua própria salvação." (Marília Balbi)
Men, women & children (2014, Jason Reitman)
"O elenco tenta com afinco fazer a quebra das caricaturas bidimensionais, mas eles são essencialmente inaptos a fazer muita coisa com o material inconsistente do filme. Gradualmente, vai se tornando difícil desenvolver qualquer simpatia ou preocupação com com esses personagens sem vida." (Patricia Tobin)
"O elenco tenta com afinco fazer a quebra das caricaturas bidimensionais, mas eles são essencialmente inaptos a fazer muita coisa com o material inconsistente do filme. Gradualmente, vai se tornando difícil desenvolver qualquer simpatia ou preocupação com com esses personagens sem vida." (Patricia Tobin)
"Houve um ataque à liberdade de expressão, mas não é este o objetivo estratégico. Por que não atacam a direita anti-islâmica? Porque não interessa. Querem criar uma confusão que visa comprometer todo o sistema. Se atacassem só os fascistas seria uma espécie de limpeza, que até interessaria (risos). Mas o que os terroristas querem é movimentar a opinião massiva. Eles sabem que o sentimento xenófobo vai se exacerbar, e isso pode gerar políticas militaristas de intervenção no Oriente Médio – isso tudo interessa ao Estado Islâmico, um grupo que não está ligado à idéia de construir um Estado, está ligado em construir guerra. É improdutivo atacar os fascistas, dentro do ponto vista da tática de gerar o terror, a confusão é o que interessa, o irracionalismo. O que embasa o desejo terrorista não é uma construção racional de um coletivo árabe de uma liberdade de expressão, a ideia é outra, de propor uma ideia de guerra jihadista contra o mundo. É uma ideia louca, que é alimentada por Bushes da vida, Olavos de Carvalho da vida. Tentar construir a ideia de um choque de culturas, onde um precisa prevalecer dentro dessa lógica. ‘O que deve prevalecer é o nosso lado, precisamos destruir o outro’. Acho que continua em marcha o projeto de irracionalismo. 11/9 salvou a vida do Bush, um político medíocre e desprestigiado que vinha de uma eleição contestada. Foi transformado em herói e abraçou as táticas militaristas e intervencionistas. Penso porque esses fdp fizeram isso. É que no final das contas o fundamentalismo e os grupos de ultra-direita xenófobos se alimentam. Foram feitos um para o outro. Haja entendimento real ou não, na prática a porra louquice atende ao clamor da porra louquice. Mas não sei se isso é coisa de malucos. Pode ser um jogo muito mais frio do que a gente pensa, e é isso que me aterroriza – ver que não é maluquice. Esse jogo frio pode envolver dinheiro, poder político e controle militar." (Laerte)
"O caso do Rafinha Bastos não tem a ver com liberdade de expressão. Tem a ver com o papel subalterno da mulher. Wanessa Camargo não abriu a boca durante todo o processo, que foi movido até pelo feto dela. O autor era o marido dela, era uma briga de homem. Uma briga idiota, que podia ser respondida com um simples 'Rafinha, cresça e apareça'. Mas não, virou um processo porque a honra do marido foi ultrajada. E era um cara rico. Uma coisa de poder econômico e de poder machista que envolveu o Rafinha. Acho a piada idiota, mas fiquei do lado do Rafinha." (Laerte)
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"Uma coisa é se indignar, com toda razão, contra o ato terrorista que dizimou os melhores chargistas franceses. Outra coisa é procurar analiticamente entender porque tais eventos terroristas acontecem. Eles não caem do céu azul. Atrás deles há um céu escuro, feito de histórias trágicas, matanças massivas, humilhações e discriminações, quando não de verdadeiras guerras preventivas que sacrificaram vidas de milhares e milhares de pessoas." (Leonardo Boff)
Por que não sou Charlie Hebdo - Je ne suis pas Charlie
(Plínio 'Zuni' Zunica)
Nada justifica o massacre na redação do jornal Charlie Hebdo, mas algumas generalizações e relativizações na cabeça da sociedade são tão perigosas quanto kalashnikovs na mão de fundamentalistas.
O caso Charlie Hebdo levantou grandes discussões. Há politicos, instituições, governos, jornalistas e comentaristas de facebook de todas as estirpes falando sobre o assunto em tribunas, periódicos e mesas de bar. Todos são unânimes em condenar a brutalidade dos ataques, porém as divergências de opinião são maiores do que as concordâncias.
Enquanto muitos discursos falam sobre o perigo da amplificação do ódio contra comunidades muçulmanas na França e ao redor do mundo, não faltam aqueles que de pronto condenem a “selvageria e brutalidade” da religião islâmica e dos povos árabes, engrossando as fileiras de fundamentalistas nacionalistas que organizam marchas xenófobas contra a “islamização da Europa”, a favor das intervenções militares criminosas dos estados ricos do Ocidente nos países do Oriente Médio e África e respaldando o racismo que tornou possível e aceitavel a longa série de políticas coloniais e práticas exploratórias que sustentaram a economia e poder da França desde que esta se tornou um Estado-Nação.
Entretanto, não quero falar agora sobre as divergências de opinião, e sim sobre o consenso, expresso no slogan “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie), que inundou as redes sociais e capas de jornais ao redor do planeta. O slogan é atrelado à ideia de que o que ocorreu ontem na França implica um atentado contra a liberdade de imprensa e valores democráticos ocidentais; implica dizer que toda imprensa é livre pra publicar irresponsavelmente qualquer conteúdo; implica dizer que o direito de zombar de uma religião é o mesmo que lutar pelo estado laico; e implica, principalmente, que o ataque foi simplesmente resultado do extremismo (ou da falta de senso de humor) religioso diante de uma critica “ácida e sagaz”, excetuando-se todo o contexto de marginalização e discriminação da comunidade muçulmana na França. Principalmente, implica ignorar a que se propõem e quais os efeitos dessas charges no contexto político-ideológico de um país com níveis alarmantes de racismo.
O argumento mais comum que encontrei nas redes sociais e comentários de jornais on-line é o de que o Charlie Hebdo fazia charges ofensivas sobre todas as religiões e que, portanto, se cristãos conseguem ver charges com Jesus e levar como uma piada, então muçulmanos também deveriam. Esse é um argumento raso porque coloca no mesmo patamar a situação das comunidades muçulmanas e das comunidades cristãs na Europa, ao mesmo tempo que reforça a ideia de superioridade ocidental racionalista. É o mesmo simplismo de quem diz que chamar um branco de “palmito” tem o mesmo peso de chamar um negro de “macaco”. Não é só uma piada.
A quem serve a islamofobia?
No dia anterior ao massacre de Charlie Hebdo aconteceram duas marchas na Alemanha: uma pela expulsão de árabes e muçulmanos do país e outra contra o discurso xenófobo da direita ultra-nacionalista alemã. Esse tipo de manifestações populares contra minorias étnicas fica cada dia mais comum em toda a Europa, e a França, sempre avant-garde, é um dos maiores focos de marchas e movimentos racistas, machistas e xenófobos na Europa.
Na França a “Questão Muçulmana” é uma obsessão prioritária dos grupos de direita. O jornalista Edwy Planel, autor do livro “Pelos Muçulmanos” (título dado em alusão ao artigo “Pelos Judeus”, escrito por Emile Zolá em sobre o caso Dreyfus), aponta os ataques à comunidade muçulmana como sendo a principal plataforma de discurso eleitoral na França de hoje.
Nicolas Sarkozy é um exemplo claro da presença do discusro racista na política francesa. Podemos citar seu discurso na Universidade de Dakar, em julho de 2007, quando disse:
Vamos lembrar que quando fala do “homem africano” (como se todos os povos de África fossem um único grupo homogêneo) Sarkozy alude especialmente à população muçulmana, uma vez que a França invadiu e colonizou a Argélia e o Marrocos, de onde vêm a maior parte dos imigrantes islâmicos da França.
Atualmente vem ganhando muito espaço ideológico o partido de extrema direita Frente Nacional, cuja principal voz é Marine LePen, famosa pelo discurso islamofóbico e pelas políticas anti-imigração. Le Pen, forte candidata para as próximas eleições presidenciais, declarou hoje, no embalo do ataque de ontem, que “a França está sendo atacada”, e aproveitou para reforçar sua proposta de instaurar a pena de morte no país.
O professor Reginaldo Nasser aponta, em artigo publicado ontem, para o perigo do uso do caso Charlie para fortalecer as políticas ultra-nacionalistas francesas:
Portanto, a mobilização massiva criada em torno do slogan "Je suis Charlie", se for ausente de uma crítica séria sobre a situação dos muçulmanos na Europa e as razões da islamofobia na França, tende a ser apenas combustível para a xenofobia e os partidos ultra-conservadores.
A quem serve a liberdade de expressão?
Aqueles que ostentam orgulhosos o slogan “Eu sou Charlie” se dizem advogar pela liberdade de expressão, porém não questionam o que significa essa liberdade de expressão nem tampouco quem tem direito a essa liberdade. Ninguém se preocupa com a censura à liberdade de expressão religiosa islâmica na França.
Em 1989 o jornal “Le Nouvel Observateur” publicou uma capa contra o uso do hijab, o véu muçulmano, nas escolas. Isso levou a uma discussão que culminou na lei de 2004 proibindo que meninas islâmicas usando lenços frequentassem as aulas, e desde 2011 há uma circular do Ministério da Educação recomendando que se impeça a presença de mães usando hijabs na área em torno dos colégios. Nunca houve proibição do uso de crucifixos ou camisas com slogans cristãos. A esquerda francesa (e a maior parte da esquerda ocidental) se mostrou favorável a esta lei ou, na melhor das hipóteses, silenciou sobre ela, sob o pretexto da defesa do Estado Laico. Esquecem-se que o laicismo serve para preservar o direito à liberdade de exercício de pensamento religioso ou à liberdade de não exercer nenhuma crença religiosa. E esquecem-se de que o islã não é apenas uma crença religiosa, mas também um referencial de identidade de toda uma comunidade historicamente oprimida, remetendo a questões religiosas, culturais, étnicas e políticas.
Proibir a expressão de sua religião é censura. Proibir a expressão de seus sua identidade cultural é eugenia. Imaginem, por exemplo, uma lei brasileira proibindo o uso de turbantes e símbolos da Umbanda e Candomblé em áreas públicas. Seria uma conquista do estado laico ou (mais) um ataque às crenças afro-brasileiras?
Na esteira das liberdades de expressão negadas pelo governo francês intrinsecamente conectadas ao Islã está a abominação legislativa sancionada no ano passado, quando a França tornou-se o primeiro país do mundo a proibir manifestações de apoio à Palestina, durante os bombardeios israelenses à Faixa de Gaza, que assassinaram 1.951 pessoas e feriram 10.193 civis. Qualquer pessoa que participasse de um protesto contra os crimes de guerra de Israel – práticas de Terrorismo de Estado respaldadas ideologicamente por políticos e formadores de opinião entre a população israelense através de fundamentalismo nacionalista e argumentos de fundamentalismo religioso judaico e islamofobia – seria preso por um ano ou pagaria multa de 15 mil euros. Se o manifestante cobrisse o rosto durante o protesto, a pena subia pra três anos de detenção.
Cabe ressaltar aqui que não sei qual foi o posicionamento do jornal Charlie Hebdo sobre esse caso em particular, mas certamente a comunidade internacional não se manifestou tão passionalmente sobre o direito dos franceses à liberdade de expressar apoio aos palestinos.
Então, cabe a pergunta:
A quem faz rir o humor de Charlie Hebdo?
Não existe piada sem um alvo, e o senso de humor tem poder político por natureza. Piadas podem ser um meio de constestação ou de sedimentação do senso comum, do status quo dominante. Quando um humorista faz uma piada racista, está endossando o racismo de quem ri, criando no riso um lugar seguro para que os estereótipos racistas cresçam, legitimando ignorância e raiva disfarçados de senso de humor. As pessoas formam suas concepções de mundo, de certo e errado, de verdade e justiça, muito mais através de piadas e slogans simplistas do que de resoluções da ONU e tratados de sociologia.
Me lembro que, quando era criança, meu pai comprava livros de piadas em bancas de jornal e passava o dia atormentando minha mãe com piadas machistas sobre loiras burras e mulheres caricaturizadas da pior forma possível. Eram sessões ininterruptas de ofensas, mas que ela ouvia com um sorriso amarelo, uma vez que “era só piada”. Da mesma forma, ele contava as piadas mais ofensivas possíveis sobre negros, sempre respaldado pelo fato de que “não era o que ele pensava”, e sim “só o que estava escrito nos livros de piada”. Foram anos desse tipo de piada “inocente”, até o dia em que, sem tom de piada ou riso suave, ele me proibiu de namorar mulheres negras.
É muito comum que se veja, no Brasil, “humoristas” como Danilo Gentili e Rafinha Bastos, vindos de uma mesma escola de racismo, machismo e homofobia que geraram o riso bobo de Costinha e Renato Aragão, defenderem seu direito de ser promover discurso de ódio como se isso fosse “liberdade de expressão”. E, mais triste ainda, é muito comum ver a população brasileira defendendo essa “liberdade” de humilhar, ofender e sedimentar preconceitos contra minorias, sob o rótulo falsamente liberal (e bastante estúpido) de “politicamente incorreto”. Muitas vezes eles dizem que estão fazendo humor político, “expondo o racismo” ao fazer piadas racistas. Esse é um argumento preguiçoso e altamente hipócrita pra manter seu direito de ser um racista alegre e ainda posar de Voltaire do facebook.
O humor das charges do jornal Charlie Hebdo estão na mesma esteira de qualquer senso de humor racista. Os defensores do “Je suis Charlie” não cansam de dizer que são a revista é o Pasquim Francês. Dizem que as caricaturas são ácidas e corajosas, atacando todas as religiões e expondo a homofobia e o fundamentalismo do islã. Porém, o que as caricaturas de Mohammad fazem é respaldar o ódio e a ignorância sobre o islã, as comunidades muçulmanas francesas e os povos árabes.
Na caricatura em que o profeta Mohammad aparece beijando um cartunista branco não há contestação nem levantamento de discussão. Não é um canal de diálogo com as comunidades muçulmanas para contestar as posturas homofóbicas da religião e de suas muitas multi-culturais comunidades ao redor do mundo. É apenas um desenho de um homem branco europeu beijando o símbolo máximo de uma religião pertencente a outro povo. Não é assim que se levanta um debate, não é assim que se dialoga e não é assim que se contesta. Tudo o que a caricatura faz é zombar do Islã (cuja crença considera ofensivo representar graficamente seu profeta), cortar os possíveis canais de discussão com a comunidade que criticam e aumentar os preconceitos dos franceses islamofóbicos, que assim se sentem superiores aos seus vizinhos islâmicos. Não é um discurso que contesta a homofobia das comunidades islâmicas, e sim uma agressão que contesta a legitimidade de uma comunidade marginalizada e que não dá voz essa comunidade. Esse tipo de agressão só torna mais dificil que a sociedade em geral ouça os muçulmanos que buscam combater o discurso conservador dentro da sua religião, a despeito de professarem sua fé.
Em outra caricatura, um muçulmano segura um Corão enquanto balas atravessam o livro e o seu corpo. A legenda diz “O Corão é uma merda”. Isso não levanta debate nenhum, apenas diz “sua religião é uma merda”, o que implica dizer, no caso, “sua sociedade muçulmana, sua história muçulmana, seus parentes e crenças muçulmanas, são uma merda”.
As caricaturas da Hebdo retratam muçulmanos como sendo terroristas, estúpidos e perigosos. As pessoas se acostumam a pensar nessas imagens quando pensam em muçulmanos, e isso gera medo, ódio, deboche e xenofobia. Eu, enquanto estudante de língua árabe, perdi a conta de quantas vezes ouvi tanto piadas imbecis quanto preocupações sérias de meus amigos que pensavam que eu vivia em uma terra de selvagens e fundamentalistas perigosos.
Esse tipo de humor raso e infantil não é razão para que se assassinem seus perpretadores. Eu não defenderia que militantes feministas armadas invadissem o Comedians e assassinassem Rafinha Bastos. Ainda assim, elas têm todo o direito de se sentir ultrajadas, agredidas e ofendidas quando ele usa seu poder de discurso para convencer sua plateia de que mulheres feias devem ser estupradas e ficar agradecidas pela “caridade”. Mais importante, é preciso ter em mente que, sendo elas o grupo diretamente atingido pelas piadas infelizes dele, é a elas que a sociedade deve ouvir. Não me cabe o direito de julgar se uma mulher pode ou não se sentir ofendida com uma piada machista, e não me cabe dizer se um muçulmano deve se sentir ultrajado por uma piada islamofóbica, porque existe todo um contexto social por trás dessas piadas que eu não compreendo e do qual eu não sou a vítima.
Acreditar que as reações de muçulmanos às caricaturas é simples extremismo é dizer que “é só uma piada”. Não é. A reação tem a ver com todo o contexto de discriminação social e econômica, com as humilhações diárias que essa população sofre nos países europeus, com a invisibilidade de sua identidade, com o histórico colonial e também com as atuais politicas intervencionistas dos países ocidentais no Oriente Médio e África, que se negam a ouvir as vozes árabes e africanas enquanto financiam grupos extremistas e assassinam populações civis com drones e “democracias”.
Um relatório do Observatório Europeu do racismo e Xenofobia aponta que, na França, a chance de alguém de origem árabe/muçulmana conseguir um emprego é cinco vezes menor do que um caucasiano com as mesmas qualificações; possuem menos acesso à educação formal, vivem nas áreas mais sucateadas das cidades e estão sujeitos a todo tipo de discriminação e violência física. O relatório aponta o sentimento de desespero e exclusão social do jovem muçulmano que vê sua possibilidade de progressão social dificultada por racismo e xenofobia.
O massacre que ocorreu ontem foi um crime horrível de terror e silenciamento, cometido por alguém que não sabemos ainda quem é (e nada impede que seja uma operação de false flag) nem com qual intenção. Um crime horrível e abominável, como foram horríveis e abomináveis os crimes de terror e silenciamento promovidos pelo Mossad quando assassinou o cartunista Naji Al-Ali, ou quando Bashar Al-Assad mandou quebrar as mãos do cartunista Ali Ferzat, ou todos os dias quando a polícia militar de Geraldo Alckmin aterroriza e assassina os jovens que imprimem sua critica e revolta com latas de spray nas paredes da minha cidade. Todos são crimes horríveis de silenciamento, e todos devem ser condenados, mas cada um tem suas particularidades, razões e contextos próprios e únicos, e não podemos cair no erro de diluir nossa crítica no simplismo maniqueísta, ou corremos o risco de que a voz que queremos dar à democracia seja um megafone para os absurdos da teoria de "choque de civilizações" de Huntington.
Por tudo isso, eu Não sou Charlie.
(Plínio 'Zuni' Zunica)
Nada justifica o massacre na redação do jornal Charlie Hebdo, mas algumas generalizações e relativizações na cabeça da sociedade são tão perigosas quanto kalashnikovs na mão de fundamentalistas.
O caso Charlie Hebdo levantou grandes discussões. Há politicos, instituições, governos, jornalistas e comentaristas de facebook de todas as estirpes falando sobre o assunto em tribunas, periódicos e mesas de bar. Todos são unânimes em condenar a brutalidade dos ataques, porém as divergências de opinião são maiores do que as concordâncias.
Enquanto muitos discursos falam sobre o perigo da amplificação do ódio contra comunidades muçulmanas na França e ao redor do mundo, não faltam aqueles que de pronto condenem a “selvageria e brutalidade” da religião islâmica e dos povos árabes, engrossando as fileiras de fundamentalistas nacionalistas que organizam marchas xenófobas contra a “islamização da Europa”, a favor das intervenções militares criminosas dos estados ricos do Ocidente nos países do Oriente Médio e África e respaldando o racismo que tornou possível e aceitavel a longa série de políticas coloniais e práticas exploratórias que sustentaram a economia e poder da França desde que esta se tornou um Estado-Nação.
Entretanto, não quero falar agora sobre as divergências de opinião, e sim sobre o consenso, expresso no slogan “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie), que inundou as redes sociais e capas de jornais ao redor do planeta. O slogan é atrelado à ideia de que o que ocorreu ontem na França implica um atentado contra a liberdade de imprensa e valores democráticos ocidentais; implica dizer que toda imprensa é livre pra publicar irresponsavelmente qualquer conteúdo; implica dizer que o direito de zombar de uma religião é o mesmo que lutar pelo estado laico; e implica, principalmente, que o ataque foi simplesmente resultado do extremismo (ou da falta de senso de humor) religioso diante de uma critica “ácida e sagaz”, excetuando-se todo o contexto de marginalização e discriminação da comunidade muçulmana na França. Principalmente, implica ignorar a que se propõem e quais os efeitos dessas charges no contexto político-ideológico de um país com níveis alarmantes de racismo.
O argumento mais comum que encontrei nas redes sociais e comentários de jornais on-line é o de que o Charlie Hebdo fazia charges ofensivas sobre todas as religiões e que, portanto, se cristãos conseguem ver charges com Jesus e levar como uma piada, então muçulmanos também deveriam. Esse é um argumento raso porque coloca no mesmo patamar a situação das comunidades muçulmanas e das comunidades cristãs na Europa, ao mesmo tempo que reforça a ideia de superioridade ocidental racionalista. É o mesmo simplismo de quem diz que chamar um branco de “palmito” tem o mesmo peso de chamar um negro de “macaco”. Não é só uma piada.
A quem serve a islamofobia?
No dia anterior ao massacre de Charlie Hebdo aconteceram duas marchas na Alemanha: uma pela expulsão de árabes e muçulmanos do país e outra contra o discurso xenófobo da direita ultra-nacionalista alemã. Esse tipo de manifestações populares contra minorias étnicas fica cada dia mais comum em toda a Europa, e a França, sempre avant-garde, é um dos maiores focos de marchas e movimentos racistas, machistas e xenófobos na Europa.
Na França a “Questão Muçulmana” é uma obsessão prioritária dos grupos de direita. O jornalista Edwy Planel, autor do livro “Pelos Muçulmanos” (título dado em alusão ao artigo “Pelos Judeus”, escrito por Emile Zolá em sobre o caso Dreyfus), aponta os ataques à comunidade muçulmana como sendo a principal plataforma de discurso eleitoral na França de hoje.
Nicolas Sarkozy é um exemplo claro da presença do discusro racista na política francesa. Podemos citar seu discurso na Universidade de Dakar, em julho de 2007, quando disse:
O drama da África é que o homem africano não entrou totalmente na história. O camponês africano, que desde milhares de anos vive conforme as estações, cujo ideal de vida é estar em harmonia com a natureza, só conhece o eterno recomeço do tempo ritmado pela repetição sem fim dos mesmos gestos e das mesmas palavras. Nesse imaginário onde tudo recomeça sempre, não há lugar nem para a aventura humana, nem para a ideia de progresso. Nesse universo onde a natureza comanda tudo, o homem escapa à inquietude da história que inquieta o homem moderno. Mas o homem permanece imóvel no meio de uma ordem imutável, onde tudo parece ser escrito antes. Nunca ele se lança em direção ao futuro. Nunca não lhe vem à ideia de sair da repetição para se inventar um destino.
Vamos lembrar que quando fala do “homem africano” (como se todos os povos de África fossem um único grupo homogêneo) Sarkozy alude especialmente à população muçulmana, uma vez que a França invadiu e colonizou a Argélia e o Marrocos, de onde vêm a maior parte dos imigrantes islâmicos da França.
Atualmente vem ganhando muito espaço ideológico o partido de extrema direita Frente Nacional, cuja principal voz é Marine LePen, famosa pelo discurso islamofóbico e pelas políticas anti-imigração. Le Pen, forte candidata para as próximas eleições presidenciais, declarou hoje, no embalo do ataque de ontem, que “a França está sendo atacada”, e aproveitou para reforçar sua proposta de instaurar a pena de morte no país.
O professor Reginaldo Nasser aponta, em artigo publicado ontem, para o perigo do uso do caso Charlie para fortalecer as políticas ultra-nacionalistas francesas:
Há de fato uma situação conturbada na França e que vai piorar a partir de agora, os preconceitos com os imigrantes podem aumentar e reforçar um sentimento nacionalista. Le Pen é a representante de um pensamento xenófobo no país. Mas temos que esperar ainda pra ver quais serão dos desdobramentos quando se descobrir os culpados.
Portanto, a mobilização massiva criada em torno do slogan "Je suis Charlie", se for ausente de uma crítica séria sobre a situação dos muçulmanos na Europa e as razões da islamofobia na França, tende a ser apenas combustível para a xenofobia e os partidos ultra-conservadores.
A quem serve a liberdade de expressão?
Aqueles que ostentam orgulhosos o slogan “Eu sou Charlie” se dizem advogar pela liberdade de expressão, porém não questionam o que significa essa liberdade de expressão nem tampouco quem tem direito a essa liberdade. Ninguém se preocupa com a censura à liberdade de expressão religiosa islâmica na França.
Em 1989 o jornal “Le Nouvel Observateur” publicou uma capa contra o uso do hijab, o véu muçulmano, nas escolas. Isso levou a uma discussão que culminou na lei de 2004 proibindo que meninas islâmicas usando lenços frequentassem as aulas, e desde 2011 há uma circular do Ministério da Educação recomendando que se impeça a presença de mães usando hijabs na área em torno dos colégios. Nunca houve proibição do uso de crucifixos ou camisas com slogans cristãos. A esquerda francesa (e a maior parte da esquerda ocidental) se mostrou favorável a esta lei ou, na melhor das hipóteses, silenciou sobre ela, sob o pretexto da defesa do Estado Laico. Esquecem-se que o laicismo serve para preservar o direito à liberdade de exercício de pensamento religioso ou à liberdade de não exercer nenhuma crença religiosa. E esquecem-se de que o islã não é apenas uma crença religiosa, mas também um referencial de identidade de toda uma comunidade historicamente oprimida, remetendo a questões religiosas, culturais, étnicas e políticas.
Proibir a expressão de sua religião é censura. Proibir a expressão de seus sua identidade cultural é eugenia. Imaginem, por exemplo, uma lei brasileira proibindo o uso de turbantes e símbolos da Umbanda e Candomblé em áreas públicas. Seria uma conquista do estado laico ou (mais) um ataque às crenças afro-brasileiras?
Na esteira das liberdades de expressão negadas pelo governo francês intrinsecamente conectadas ao Islã está a abominação legislativa sancionada no ano passado, quando a França tornou-se o primeiro país do mundo a proibir manifestações de apoio à Palestina, durante os bombardeios israelenses à Faixa de Gaza, que assassinaram 1.951 pessoas e feriram 10.193 civis. Qualquer pessoa que participasse de um protesto contra os crimes de guerra de Israel – práticas de Terrorismo de Estado respaldadas ideologicamente por políticos e formadores de opinião entre a população israelense através de fundamentalismo nacionalista e argumentos de fundamentalismo religioso judaico e islamofobia – seria preso por um ano ou pagaria multa de 15 mil euros. Se o manifestante cobrisse o rosto durante o protesto, a pena subia pra três anos de detenção.
Cabe ressaltar aqui que não sei qual foi o posicionamento do jornal Charlie Hebdo sobre esse caso em particular, mas certamente a comunidade internacional não se manifestou tão passionalmente sobre o direito dos franceses à liberdade de expressar apoio aos palestinos.
Então, cabe a pergunta:
A quem faz rir o humor de Charlie Hebdo?
Não existe piada sem um alvo, e o senso de humor tem poder político por natureza. Piadas podem ser um meio de constestação ou de sedimentação do senso comum, do status quo dominante. Quando um humorista faz uma piada racista, está endossando o racismo de quem ri, criando no riso um lugar seguro para que os estereótipos racistas cresçam, legitimando ignorância e raiva disfarçados de senso de humor. As pessoas formam suas concepções de mundo, de certo e errado, de verdade e justiça, muito mais através de piadas e slogans simplistas do que de resoluções da ONU e tratados de sociologia.
Me lembro que, quando era criança, meu pai comprava livros de piadas em bancas de jornal e passava o dia atormentando minha mãe com piadas machistas sobre loiras burras e mulheres caricaturizadas da pior forma possível. Eram sessões ininterruptas de ofensas, mas que ela ouvia com um sorriso amarelo, uma vez que “era só piada”. Da mesma forma, ele contava as piadas mais ofensivas possíveis sobre negros, sempre respaldado pelo fato de que “não era o que ele pensava”, e sim “só o que estava escrito nos livros de piada”. Foram anos desse tipo de piada “inocente”, até o dia em que, sem tom de piada ou riso suave, ele me proibiu de namorar mulheres negras.
É muito comum que se veja, no Brasil, “humoristas” como Danilo Gentili e Rafinha Bastos, vindos de uma mesma escola de racismo, machismo e homofobia que geraram o riso bobo de Costinha e Renato Aragão, defenderem seu direito de ser promover discurso de ódio como se isso fosse “liberdade de expressão”. E, mais triste ainda, é muito comum ver a população brasileira defendendo essa “liberdade” de humilhar, ofender e sedimentar preconceitos contra minorias, sob o rótulo falsamente liberal (e bastante estúpido) de “politicamente incorreto”. Muitas vezes eles dizem que estão fazendo humor político, “expondo o racismo” ao fazer piadas racistas. Esse é um argumento preguiçoso e altamente hipócrita pra manter seu direito de ser um racista alegre e ainda posar de Voltaire do facebook.
O humor das charges do jornal Charlie Hebdo estão na mesma esteira de qualquer senso de humor racista. Os defensores do “Je suis Charlie” não cansam de dizer que são a revista é o Pasquim Francês. Dizem que as caricaturas são ácidas e corajosas, atacando todas as religiões e expondo a homofobia e o fundamentalismo do islã. Porém, o que as caricaturas de Mohammad fazem é respaldar o ódio e a ignorância sobre o islã, as comunidades muçulmanas francesas e os povos árabes.
Na caricatura em que o profeta Mohammad aparece beijando um cartunista branco não há contestação nem levantamento de discussão. Não é um canal de diálogo com as comunidades muçulmanas para contestar as posturas homofóbicas da religião e de suas muitas multi-culturais comunidades ao redor do mundo. É apenas um desenho de um homem branco europeu beijando o símbolo máximo de uma religião pertencente a outro povo. Não é assim que se levanta um debate, não é assim que se dialoga e não é assim que se contesta. Tudo o que a caricatura faz é zombar do Islã (cuja crença considera ofensivo representar graficamente seu profeta), cortar os possíveis canais de discussão com a comunidade que criticam e aumentar os preconceitos dos franceses islamofóbicos, que assim se sentem superiores aos seus vizinhos islâmicos. Não é um discurso que contesta a homofobia das comunidades islâmicas, e sim uma agressão que contesta a legitimidade de uma comunidade marginalizada e que não dá voz essa comunidade. Esse tipo de agressão só torna mais dificil que a sociedade em geral ouça os muçulmanos que buscam combater o discurso conservador dentro da sua religião, a despeito de professarem sua fé.
Em outra caricatura, um muçulmano segura um Corão enquanto balas atravessam o livro e o seu corpo. A legenda diz “O Corão é uma merda”. Isso não levanta debate nenhum, apenas diz “sua religião é uma merda”, o que implica dizer, no caso, “sua sociedade muçulmana, sua história muçulmana, seus parentes e crenças muçulmanas, são uma merda”.
As caricaturas da Hebdo retratam muçulmanos como sendo terroristas, estúpidos e perigosos. As pessoas se acostumam a pensar nessas imagens quando pensam em muçulmanos, e isso gera medo, ódio, deboche e xenofobia. Eu, enquanto estudante de língua árabe, perdi a conta de quantas vezes ouvi tanto piadas imbecis quanto preocupações sérias de meus amigos que pensavam que eu vivia em uma terra de selvagens e fundamentalistas perigosos.
Esse tipo de humor raso e infantil não é razão para que se assassinem seus perpretadores. Eu não defenderia que militantes feministas armadas invadissem o Comedians e assassinassem Rafinha Bastos. Ainda assim, elas têm todo o direito de se sentir ultrajadas, agredidas e ofendidas quando ele usa seu poder de discurso para convencer sua plateia de que mulheres feias devem ser estupradas e ficar agradecidas pela “caridade”. Mais importante, é preciso ter em mente que, sendo elas o grupo diretamente atingido pelas piadas infelizes dele, é a elas que a sociedade deve ouvir. Não me cabe o direito de julgar se uma mulher pode ou não se sentir ofendida com uma piada machista, e não me cabe dizer se um muçulmano deve se sentir ultrajado por uma piada islamofóbica, porque existe todo um contexto social por trás dessas piadas que eu não compreendo e do qual eu não sou a vítima.
Acreditar que as reações de muçulmanos às caricaturas é simples extremismo é dizer que “é só uma piada”. Não é. A reação tem a ver com todo o contexto de discriminação social e econômica, com as humilhações diárias que essa população sofre nos países europeus, com a invisibilidade de sua identidade, com o histórico colonial e também com as atuais politicas intervencionistas dos países ocidentais no Oriente Médio e África, que se negam a ouvir as vozes árabes e africanas enquanto financiam grupos extremistas e assassinam populações civis com drones e “democracias”.
Um relatório do Observatório Europeu do racismo e Xenofobia aponta que, na França, a chance de alguém de origem árabe/muçulmana conseguir um emprego é cinco vezes menor do que um caucasiano com as mesmas qualificações; possuem menos acesso à educação formal, vivem nas áreas mais sucateadas das cidades e estão sujeitos a todo tipo de discriminação e violência física. O relatório aponta o sentimento de desespero e exclusão social do jovem muçulmano que vê sua possibilidade de progressão social dificultada por racismo e xenofobia.
O massacre que ocorreu ontem foi um crime horrível de terror e silenciamento, cometido por alguém que não sabemos ainda quem é (e nada impede que seja uma operação de false flag) nem com qual intenção. Um crime horrível e abominável, como foram horríveis e abomináveis os crimes de terror e silenciamento promovidos pelo Mossad quando assassinou o cartunista Naji Al-Ali, ou quando Bashar Al-Assad mandou quebrar as mãos do cartunista Ali Ferzat, ou todos os dias quando a polícia militar de Geraldo Alckmin aterroriza e assassina os jovens que imprimem sua critica e revolta com latas de spray nas paredes da minha cidade. Todos são crimes horríveis de silenciamento, e todos devem ser condenados, mas cada um tem suas particularidades, razões e contextos próprios e únicos, e não podemos cair no erro de diluir nossa crítica no simplismo maniqueísta, ou corremos o risco de que a voz que queremos dar à democracia seja um megafone para os absurdos da teoria de "choque de civilizações" de Huntington.
Por tudo isso, eu Não sou Charlie.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Ansiedade: qualquer um pode meditar?
Monja Isshin na TVCom. Ótima conversa.
Monja Isshin na TVCom. Ótima conversa.
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