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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Não deu para entender direito, fechar por causa da tal Luíza... De qualquer forma, é uma notícia sui generis:

30 de julho de 2009
REMIX | POR PAULO GERMANO
Uma saída para o Beco


Uma vez a Luíza, que era uma patricinha típica lá da Padre Chagas, daquelas com a cabeleira entupida de mechas amarelas e o peito entregue ao silicone, uma vez a Luíza foi ao Porão do Beco.

O som mais alternativo que a Luíza tinha ouvido era, sei lá, Seu Jorge, e a única bebida alcoólica que ela curtia era, sei lá, Martini. Nada contra Seu Jorge nem Martini, é só para exemplificar que a Luíza curtia coisas que o Porão do Beco jamais ofereceu, como um pagodinho esperto, privada cheirosa e donos de academia – porque patricinhas da Padre Chagas curtem donos de academia.

Não que o Porão do Beco fosse uma chinelagem, ao contrário. Depois que ele foi inaugurado, no início de 2008, popularizou-se em Porto Alegre um gênero de festa cujo Cabaret do Beco – outro bar comandado pelo mesmo proprietário, também na Avenida Independência – alavancara dois anos antes: o underground chique.

O resultado foi o seguinte. A Luíza, duas horas após entrar no Porão, viu-se agarrada num cano de metal, daqueles muito populares em prostíbulos, berrando “Ai, gurias, eu preciso de um roqueiro!!!”. Constrangedor, de fato, mas aberrações como essa farão falta se o Porão do Beco fechar de vez. Ele e outros sete bares foram interditados pela prefeitura na semana passada, por falta de alvará.

Vitor Lucas, o dono da casa, diz que o prédio já tinha autorização para funcionar antes mesmo de ser o Beco. Mesmo assim, encaminhou à prefeitura a papelada exigida. Se em 15 dias não for liberado, Vitor desistirá do local. E aí, não há dúvida, Luíza vai chorar o fim do bar que a arrancou do pagodinho e dos donos de academia. Os roqueiros, mais ainda.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

'Gênesis', capítulo 1. Versículos:

1 No princípio criou Deus os céus e a terra. 2 E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. 3 E disse Deus: Haja luz; e houve luz. 4 E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas. 5 E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

6 E disse Deus: Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas. 7 E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi. 8 E chamou Deus à expansão Céus, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo. 9 E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi. 10 E chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares; e viu Deus que era bom. 11 E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi. 12 E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. 13 E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.

14 E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos. 15 E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi. 16 E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas. 17 E Deus os pôs na expansão dos céus para iluminar a terra, 18 E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom. 19 E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.

20 E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus. 21 E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
22 E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra. 23 E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.

24 E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi. 25 E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. 26 E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. 27 E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. 28 E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. 29 E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. 30 E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi. 31 E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.
BUARQUE, Chico. Budapeste.

Eu era um jovem louro e saudável quando adentrei a baía de Guanabara, errei pelas ruas do Rio de Janeiro e conheci Teresa. Ao ouvir cantar Teresa, caí de amores pelo seu idioma, e após três meses embatucado, senti que tinha a história do alemão na ponta dos dedos. A escrita me saía espontânea, num ritmo que não era o meu, e foi na batata da perna de Teresa que escrevi as primeiras palavras na língua nativa. No princípio ela até gostou, ficou lisonjeada quando eu lhe disse que estava escrevendo um livro nela. Depois deu para ter ciúme, deu para me recusar seu corpo, disse que eu só a procurava a fim de escrever nela, e o livro já ia pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou. Sem ela, perdi o fio do novelo, voltei ao prefácio, meu conhecimento da língua regrediu, pensei até em largar tudo e ir embora para Hamburgo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco, eu tinha me viciado em Teresa.

Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom, então fui a Copacabana procurar as putas. Pagava para escrever nelas, e talvez lhes pagasse além do devido, pois elas simulavam orgasmos que me roubavam toda a concentração. Toquei na casa de Teresa, estava casada, chorei, ela me deu a mão, permitiu que eu escrevesse umas breves palavras enquanto o marido não vinha. Passei a assediar as estudantes, que às vezes me deixavam escrever nas suas blusas, depois na dobra do braço, onde sentiam cócegas, depois na saia, nas coxas. E elas mostravam esses escritos às colegas, que muito os apreciavam, e subiam ao meu apartamento e me pediam que escrevesse o livro na cara delas, no pescoço, depois despiam a blusa e me ofereciam os seios, a barriga e as costas. E davam a ler meus escritos a novas colegas, que subiam ao meu apartamento e me imploravam para arrancar suas calcinhas, e o negro das minhas letras reluzia em suas nádegas rosadas.

Moças entravam e saíam da minha vida, e meu livro se dispersava por aí, cada capítulo a voar para um lado. Foi quando apareceu aquela que se deitou em minha cama e me ensinou a escrever de trás para diante. Zelosa dos meus escritos, só ela os sabia ler, mirando-se no espelho, e de noite apagava o que de dia fora escrito, para que eu jamais cessasse de escrever meu livro nela. E engravidou de mim, e na sua barriga o livro foi ganhando novas formas, e foram dias e noites sem pausa, sem comer um sanduíche, trancado no quartinho da agência, até que eu cunhasse, no limite das forças, a frase final: e a mulher amada, cujo leite eu já sorvera, me fez beber da água com que havia lavado sua blusa.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. 1949.


Prólogo

As páginas seguintes apresentarão, sob a forma de uma aventura composta, as histórias de alguns dos portadores simbólicos do destino de Todos. O primeiro grande estágio, o da separação ou partida, constituirá a Parte I, Capítulo I, com cinco subseções: 1) "O chamado da aventura", ou os indícios da vocação do herói; 2) "A recusa do chamado", ou a temeridade de se fugir do Deus; 3) "O auxílio sobrenatural", a assistência insuspeitada que vem ao encontro daquele que leva a efeito sua aventura adequada; 4) "A passagem pelo primeiro limiar"; e 5) "O ventre da baleia", ou a passagem para o reino da noite. O estágio das provas e vitórias da iniciação será apresentado no Capítulo II, em seis subseções: 1) "O caminho de provas", ou o aspecto perigoso dos deuses; 2) "O encontro com a deusa" (Magna Mater), ou a bênção da infância recuperada; 3) "A mulher como tentação", a realização e agonia do destino de Édipo; 4) "A sintonia com o pai"; 5) "A apoteose"; e 6) "A bênção última".

O retorno e reintegração à sociedade, que é indispensável à contínua circulação da energia espiritual no mundo e que, do ponto de vista da comunidade, é a justificativa do longo afastamento, pode se afigurar ao próprio herói como o requisito mais difícil. (...)

O terceiro dos capítulos seguintes concluirá a discussão dessas perspectivas sob seis subtítulos: 1) "A recusa do retorno", ou o mundo negado; 2) "A fuga mágica", ou a fuga de Prometeu; 3) "O resgate com ajuda externa"; 4) "A passagem pelo limiar do retorno", ou o retorno ao mundo cotidiano; 5) "Senhor dos dois mundos"; e 6) "Liberdade para viver", a natureza e função da bênção última.


O centro do mundo

O efeito da aventura bem-sucedida do herói é a abertura e a liberação do fluxo de vida no corpo do mundo. O milagre desse fluxo pode ser representado, em termos físicos, como a circulação da substância alimentar; em termos dinâmicos, como um jorro de energia; e, espiritualmente, como manifestação da graça. Essas variedades de imagens alternam-se entre si com facilidade, representando três graus de condensação de uma mesma força vital. Uma colheita abundante é o sinal da graça de Deus; a graça de Deus é o alimento do espírito; o resplandecente raio é o precursor da chuva fertilizante e, ao mesmo tempo, manifestação da energia liberada por Deus. Graça, substância alimentar, energia: esses elementos se precipitam sobre o mundo vivo e, sempre que falham, a vida se decompõe em morte.

O sol é a tigela do alimento de Deus, um cálice inexaurível, abundante em substância do sacrifício, cuja carne é, na verdade, alimento, e cujo sangue é bebida. Ele é, ao mesmo tempo, aquele que nutre a humanidade. O raio solar que aquece a terra simboliza a comunicação de energia divina ao útero do mundo — e é, mais uma vez, o eixo que une e faz girar as duas rodas. A circulação de energia pela porta do sol é contínua. Deus desce e o homem sobe através dela.

O Centro do Mundo, portanto, é ubíquo. E, sendo ele a fonte de toda a existência, nele é gerada a plenitude do bem e do mal do mundo. A feiúra e a beleza, o pecado e a virtude, o prazer e a dor, são igualmente produção sua. "Aos olhos de Deus, tudo é normal e bom e justo", declara Heráclito; "mas os homens consideram algumas coisas certas e outras erradas". Eis por que as imagens adoradas nos templos do mundo de modo algum são sempre belas, benignas ou mesmo necessariamente virtuosas. Tal como a divindade do Livro de Jó, elas ultrapassam em muito a escala dos valores humanos. E, da mesma forma, a mitologia não tem como seu maior herói o homem meramente virtuoso. A virtude não é senão o prelúdio pedagógico da percepção culminante, que ultrapassa todos os pares de opostos. A virtude subjuga o ego voltado para si mesmo e torna possível a convergência transpessoal; mas, quando esse estado é obtido, o que ocorre com a dor ou com o prazer, com o vício ou com a virtude, do nosso próprio ego ou de qualquer outro? Através de tudo, a força transcendente — que vive em tudo, que em tudo é prodigiosa, que em tudo é valiosa - da nossa profunda obediência é então percebida.

Pois, como declarou Heráclito: "Os diferentes são reunidos, e das diferenças resulta a mais bela harmonia, e todas as coisas se manifestam pela oposição". Ou, novamente, como nos diz o poeta Blake: "O rugir dos leões, o uivar dos lobos, o bramido do mar tempestuoso e a espada destrutiva são porções da eternidade demasiado grandes para o olho do homem."


Parte I: A aventura do herói
Capítulo I: A partida


1. O chamado da aventura

A aventura pode começar por um erro - aparentemente um mero acaso - que revela um mundo insuspeito, e o indivíduo entra numa relação com forças que não são plenamente compreendidas. Como Freud demonstrou, os erros não são um mero acaso; são, antes, resultado de desejos e conflitos reprimidos. São ondulações na superfície da vida, produzidas por nascentes inesperadas. E essas nascentes podem ser muito profundas — tão profundas quanto a própria alma. O erro pode equivaler ao ato inicial de um destino.

Freud sugeriu que todos os momentos de ansiedade reproduzem os dolorosos sentimentos da primeira separação da mãe — a falta de fôlego, a congestão, etc, da crise do nascimento.


2. A recusa do chamado

Com freqüência, na vida real, e com não menos frequência, nos mitos e contos populares, encontramos o triste caso do chamado que não obtém resposta; pois sempre é possível desviar a atenção para outros interesses. A recusa à convocação converte a aventura em sua contraparte negativa. Aprisionado pelo tédio, pelo trabalho duro ou pela "cultura", o sujeito perde o poder da ação afirmativa dotada de significado e se transforma numa vítima a ser salva. Seu mundo florescente torna-se um deserto cheio de pedras e sua vida dá uma impressão de falta de sentido — mesmo que, tal como o rei Minos, ele possa, através de um esforço tirânico, construir um renomado império. Qualquer que seja, a casa por ele construída será uma casa da morte; um labirinto de paredes ciclópicas construído para esconder dele o seu Minotauro. Tudo o que ele pode fazer é criar novos problemas para si próprio e aguardar a gradual aproximação de sua desintegração.

Os mitos e contos de fadas de todo o mundo deixam claro que a recusa é essencialmente uma recusa a renunciar àquilo que a pessoa considera interesse próprio. O futuro não é encarado em termos de uma série incessante de mortes e nascimentos, e sim em termos da obtenção e proteção do atual sistema de ideais, virtudes, objetivos e vantagens.

A literatura psicanalítica apresenta abundantes exemplos de fixações desesperadas que representam uma impotência em abandonar o ego infantil, com sua esfera de relacionamentos e ideais emocionais. Estamos aprisionados pelos muros da infância; o pai e a mãe são guardiães das vias de acesso, e a atemorizada alma, temendo alguma punição, não consegue passar pela porta e alcançar o nascimento no mundo exterior.

A introversão voluntária é uma das marcas clássicas do gênio criador e pode ser empregada deliberadamente. Ela impulsiona as energias psíquicas para as camadas profundas e ativa o continente perdido das imagens inconscientes infantis e arquetípicas. O resultado, com efeito, pode ser uma desintegração mais ou menos completa da consciência (neurose, psicose: o destino de Dafne enfeitiçada); mas, por outro lado, se a personalidade for capaz de absorver e integrar as novas forças, experimentará um grau quase sobre-humano de autoconsciência e de autocontrole superiores. Trata-se de um princípio básico das disciplinas indianas da ioga. Também foi o caminho de muitos espíritos criativos do Ocidente25. Ela não pode ser descrita, na verdade, como resposta a nenhum chamado específico. Trata-se antes de uma deliberada e extraordinária determinação de só dar a mais profunda, elevada e rica resposta à exigência, ainda desconhecida, de algum vazio interior expectante; uma espécie de recusa total, ou rejeição dos termos de vida oferecidos. Como resultado, algum poder de transformação leva o problema a um plano de novas magnitudes, onde ele é súbita e finalmente resolvido.


3. Auxílio sobrenatural

Para aqueles que não recusaram o chamado, o primeiro encontro da jornada do herói se dá com uma figura protetora (que, com frequência, é uma anciã ou um ancião), que fornece ao aventureiro amuletos que o protejam contra as forças titânicas com que ele está prestes a deparar-se. Essa figura representa o poder benigno e protetor do destino. A fantasia uma garantia - uma promessa de que a paz do Paraíso, conhecida pela primeira vez no interior do útero materno, não se perderá, de que ela suporta o presente e está no futuro e no passado (é tanto ômega quanto alfa) e de que, embora a onipotência possa parecer ameaçada pela passagem de limiares e pelos despertares da vida, o poder protetor está, para todo o sempre, presente ao santuário do coração, e até imanente aos elementos não familiares do mundo, ou apenas por trás deles. Basta saber e confiar, e os guardiães intemporais surgirão. Tendo respondido ao seu próprio chamado, e prosseguindo corajosamente conforme se desenrolam as consequências, o herói encontra todas as forças do inconsciente do seu lado. Mãe Natureza, ela própria, dá apoio à prodigiosa tarefa. E, quando a ação do herói coincide com a ação para a qual sua própria sociedade está pronta, ele parece seguir o grande ritmo do processo histórico.

Não é tão incomum que o ajudante sobrenatural assuma a forma masculina. Nos contos de fadas, pode se tratar de algum ser que habite a floresta, algum mágico, eremita, pastor ou ferreiro, que aparece para fornecer os amuletos e o conselho de que o herói precisará. As mitologias mais elevadas desenvolvem o papel na grande figura do guia, do mestre, do barqueiro, do condutor de almas para o além.

O herói ao qual esse tipo de auxiliar aparece é, tipicamente, o herói que atendeu ao chamado. O chamado foi, na verdade, o primeiro anúncio do aparecimento desse sacerdote iniciatório.


4. A passagem pelo primeiro limiar

Tendo as personificações do seu destino a ajudá-lo e a guiá-lo, o herói segue em sua aventura até chegar ao "guardião do limiar", na porta que leva à área da força ampliada. Esses defensores guardam o mundo nas quatro direções — assim como em cima e embaixo —, marcando os limites da esfera ou horizonte de vida presente do herói. Além desses limites, estão as trevas, o desconhecido e o perigo, da mesma forma como, além do olhar paternal, há perigo para a criança e, além da proteção da sociedade, perigo para o membro da tribo. A pessoa comum está mais do que contente, tem até orgulho, em permanecer no interior dos limites indicados, e a crença popular lhe dá todas as razões para temer tanto o primeiro passo na direção do inexplorado.

As regiões do desconhecido (deserto, selva, fundo do mar, terra estranha, etc.) são campos livres para a projeção de conteúdos inconscientes.


5. O ventre da baleia

A ideia de que a passagem do limiar mágico é uma passagem para uma esfera de renascimento é simbolizada na imagem mundial do útero, ou ventre da baleia. O herói, em lugar de conquistar ou aplacar a força do limiar, é jogado no desconhecido, dando a impressão de que morreu.

O interior do templo, ou ventre da baleia, e a terra celeste, que se encontra além, acima e abaixo dos limites do mundo, são uma só e mesma coisa. Eis por que as proximidades e entradas dos templos são flanqueadas e defendidas por colossais gárgulas: dragões, leões, matadores de demônios com as espadas desembainhadas, anões rancorosos e touros alados. Eles são guardiães do limiar, a quem cabe afastar todos os que forem incapazes de encontrar os silêncios mais elevados do interior do templo. São encarnações preliminares do aspecto perigoso da presença e correspondem aos ogros mitológicos que marcam os limites do mundo convencional, ou às fileiras de dentes da baleia. Ilustram o fato de o devoto, no momento de entrar num templo, passar por uma metamorfose. Sua natureza secular permanece lá fora; ele a deixa de lado, como a cobra deixa a pele. Uma vez no interior do templo, pode-se dizer que ele morreu para a temporalidade e retornou ao Útero do Mundo, Centro do Mundo, Paraíso Terrestre. O simples fato de todos poderem passar fisicamente pelos guardiães do templo não invalida sua importância; pois se o intruso for incapaz de compreender o santuário, então permaneceu efetivamente do lado de fora. Todos os que são incapazes de compreender um deus vêem-no como um demônio e, assim, se protegem de sua aproximação. Portanto, alegoricamente, a entrada num templo e o mergulho do herói pelas mandíbulas da baleia são aventuras idênticas; as duas denotam, em linguagem figurada, o ato de concentração e de renovação da vida.

"Nenhuma criatura", escreve Ananda Coomaraswamy, "pode atingir um grau mais alto da natureza sem cessar de existir". Na verdade, o corpo físico do herói pode ser cortado, desmembrado e ter suas partes espalhadas pela terra ou pelos mares. O herói cujo apego ao ego já foi aniquilado vai e volta pelos horizontes do mundo, entra no dragão, assim como sai dele, tão prontamente como um rei circula por todos os cômodos do palácio. Aí reside seu poder de salvar; pois sua passagem e retorno demonstram em todos os contrários da fenomenalidade, permanece o Incriado-Imperecível e não há nada a temer.

E assim é que, em todo o mundo, os homens cuja função tem sido tornar visível na terra o mistério criador de vida, proveniente da morte do dragão, realizaram sobre os próprios corpos o grande ato simbólico, fragmentando a carne, tal como o corpo de Osíris, pela renovação do mundo.


Capítulo II
A iniciação


1. O caminho de provas

Tendo cruzado o limiar, o herói caminha por uma paisagem onírica povoada por formas curiosamente fluidas e ambíguas, na qual deve sobreviver a uma sucessão de provas. Essa é a fase favorita do mito-aventura. Ela produziu uma literatura mundial plena de testes e provações miraculosos. O herói é auxiliado, de forma encoberta, pelo conselho, pelos amuletos e pelos agentes secretos do auxiliar sobrenatural que havia encontrado antes de penetrar nessa região. Ou, talvez, ele aqui descubra, pela primeira vez, que existe um poder benigno, em toda parte, que o sustenta em sua passagem sobre-humana.

"Em toda tribo primitiva", escreve o dr. Géza Róheim, "encontramos o curandeiro no centro da sociedade e é fácil demonstrar que ele é neurótico ou psicótico, ou, pelo menos, que sua arte tem como fundamento o mesmo mecanismo presente à neurose ou à psicose. Os grupos humanos são influenciados pelos seus ideais grupais, sendo que estes sempre se baseiam numa situação infantil." "A situação infantil é modificada ou invertida pelo processo de amadurecimento e novamente modificada, pelo necessário ajustamento à realidade; e, no entanto, ali está, fornecendo os vínculos libidinais invisíveis, sem os quais nenhum grupo humano poderia existir." O curandeiro, por conseguinte, apenas torna visíveis e públicos os sistemas de fantasia simbólica presentes na psique de todo membro da sociedade. "Eles são os líderes desse jogo infantil e os iluminados condutores da ansiedade comum. Combatem os demônios, de maneira que os outros possam perseguir a presa, e em geral, lutar contra a realidade."

E assim é que se alguém — em qualquer sociedade — assumir por si mesmo a tarefa de fazer a perigosa jornada na escuridão, por meio da descida, intencional ou involuntária, aos tortuosos caminhos do seu próprio labirinto espiritual, logo se verá numa paisagem de figuras simbólicas (podendo qualquer delas devorá-lo). No vocabulário dos místicos, esse é o segundo estágio do Caminho, o estágio da "purificação do eu", em que os sentidos são "purificados e tornados humildes" e as energias e interesses, "concentrados em coisas transcendentais"; ou, num vocabulário mais moderno: trata-se do processo de dissolução, transcendência ou transmutação das imagens infantis do nosso passado pessoal. Em nossos sonhos, os perigos, gárgulas, provações, auxiliares secretos e guias ainda são encontrados à noite; e podemos ver refletidos, em suas formas, não apenas todo o quadro da nossa presente situação, como também a indicação daquilo que devemos fazer para ser salvos.


2. O encontro com a deusa

A aventura última, quando todas as barreiras e ogros foram vencidos, costuma ser
representada como um casamento mísico (hierógamos) da alma-herói triunfante com a
Rainha-Deusa do Mundo.

A figura mitológica da Mãe Universal imputa ao cosmo os atributos femininos da primeira, presença nutridora e protetora. A fantasia é, primariamente, espontânea; pois há uma estreita e evidente correspondência entre a atitude da criancinha com relação à mãe e a do adulto com relação ao mundo material circundante. Mas também tem havido, em numerosas tradições religiosas, uma utilização pedagógica, conscientemente controlada, dessa imagem arquetípica, para fins de purgação, estabilização e iniciação da mente na natureza do mundo visível.

A deusa é vermelha como o fogo da vida; a terra, o sistema solar, as galáxias do incomensurável espaço — tudo isso cresce no seu útero. Pois ela é a criadora do mundo, sempre mãe e sempre virgem. Ela abrange o abrangente, nutre o nutriente e é a vida de tudo o que vive.

Ela é também a morte de tudo o que morre. Todas as etapas da existência são realizadas sob sua influência, do nascimento — passando pela adolescência, maturidade e velhice — à morte. Ela é o útero e o túmulo: a porca que come seus próprios leitões. Assim sendo, ela une o "bom" e o "mau", exibindo as duas formas que a mãe rememorada assume, em termos pessoais e universais. Espera-se que o devoto contemple as duas com a mesma equanimidade. Através desse exercício, seu espírito é purgado de toda sentimentalidade e ressentimento, infantis e inadequados, e sua mente é aberta à presença inescrutável, que existe não primariamente como "boa" ou "má" com relação à sua infantil conveniência humana, seu bem-estar e sua aflição, mas sim como lei e imagem da natureza do ser.

Apenas gênios, capazes das maiores percepções, podem suportar a plena revelação do
caráter sublime da deusa. Frente a homens de menor expressão, ela reduz seu fulgor e se permite aparecer sob formas compatíveis com os poderes pouco desenvolvidos deles. A contemplação da deusa em sua plenitude pode ser um terrível acidente para todos os espiritualmente despreparados.

A mulher representa, na linguagem pictórica da mitologia, a totalidade do que pode ser conhecido. O herói é aquele que aprende. À medida que ele progride, na lenta iniciação que é a vida, a forma da deusa passa, aos seus olhos, por uma série de transfigurações: ela jamais pode ser maior que ele, embora sempre seja capaz de prometer mais do que ele já é capaz de compreender. Ela o atrai e guia e lhe pede que rompa os grilhões que o prendem. E se ele puder alcançar-lhe a importância, os dois, o sujeito do conhecimento e o seu objeto, serão libertados de todas as limitações. A mulher é o guia para o sublime auge da aventura sensual. Vista por olhos inferiores, é reduzida a condições inferiores; pelo olho mau da ignorância, é condenada à banalidade e à feiúra. Mas é redimida pelos olhos da compreensão. O herói que puder considerá-la tal como ela é, sem comoção indevida, mas com a gentileza e a segurança que ela requer, traz em si o potencial do rei, do deus encarnado, do seu mundo criado.

O encontro com a deusa (que está encarnada em toda mulher) é o teste final do talento de que o herói é dotado para obter a bênção do amor (caridade: amor jaú), que é a própria vida, aproveitada como o invólucro da eternidade.

E quando o aventureiro, nesse contexto, é, não um jovem, mas uma jovem, é ela quem,
por suas qualidades, sua beleza ou desejo ardente, se mostra apropriada para tornar-se consorte de um imortal. Então, o celeste marido desce até ela e a conduz ao seu leito quer ela queira, quer não. E se ela o tiver evitado, as vendas lhes cairão dos olhos; se o tiver procurado, seu desejo será aplacado.

O casamento místico com a rainha-deusa do mundo representa o domínio total da vida por parte do herói; pois a mulher é vida e o herói, seu conhecedor e mestre. E os testes por que passou o herói, preliminares de sua experiência e façanha últimas, simbolizaram as crises de percepção por meio das quais sua consciência foi amplificada e capacitada a enfrentar a plena posse da mãe-destruidora, de sua noiva inevitável. Com isso, ele aprendeu que ele e seu pai são um só: ele está no lugar do pai.

Assim expresso, em termos tão extremos, o problema pode parecer distante dos assuntos das criaturas humanas comuns. Não obstante, todo fracasso em lidar com uma situação da vida deve traduzir-se, no final, como restrição à consciência. As guerras e as explosões emocionais são paliativos da ignorância; os arrependimentos, iluminações que vêm tarde demais. Todo o sentido do mito onipresente da passagem do herói reside no fato de servir essa passagem como padrão geral para homens e mulheres, onde quer que se encontrem ao longo da escala. Assim sendo, o mito é formulado nos mais amplos termos. Cabe ao indivíduo, tãosomente, descobrir sua própria posição com referência a essa fórmula humana geral e então deixar que ela o ajude a ultrapassar as barreiras que lhe restringem os movimentos. Quem são e onde se encontram os ogros? São reflexos dos enigmas não resolvidos de sua própria humanidade. O que são seus ideais? São os sintomas do modo como ele percebe a vida.

No consultório do psicanalista moderno, os estágios da aventura do herói ainda vêm a lume nos sonhos e alucinações dos pacientes. Camada após camada de falta de autoconhecimento é penetrada, exercendo o analista o papel de auxiliar, de sacerdote iniciatório. E, sempre, passados os primeiros percalços da jornada, a aventura se desenvolve, seguindo uma trilha de trevas, horror, desgosto e temores fantasmagóricos.

O ponto nevrálgico da curiosa dificuldade reside no fato de que as nossas concepções conscientes a respeito do que a vida deve ser raramente correspondem àquilo que a vida de fato é. Em geral nos recusamos a admitir que exista, dentro de nós ou dos nossos amigos, de forma plena, a impulsionadora, autoprotetora, malcheirosa, carnívora e voluptuosa febre que constitui a própria natureza da célula orgânica. Em vez disso, costumamos perfumar, lavar e reinterpretar, imaginando, enquanto isso, que as moscas e todos os cabelos que estão na sopa são erros de alguma desagradável outra pessoa.

Mas quando de súbito percebemos, ou somos obrigados a observar, que tudo quanto pensamos e fazemos é temperado necessariamente pelo odor da carne, então experimentamos, não raro, um momento de repugnância: a vida, os atos da vida, os órgãos da vida, a mulher em particular, como o grande símbolo da vida, tornam-se intoleráveis à incomparavelmente pura alma.

Pois o aspecto ogro do pai é um reflexo do próprio ego da vítima — derivado da maravilhosa lembrança da proteção materna que foi deixada para trás, mas só depois de ter sido projetada, bem como do fato de a idolatria fixadora daquela inexistência pedagógica constituir por si própria a falta, no sentido de pecado, que nos mantém paralisados e que impede a alma potencialmente adulta de alcançar uma visão mais equilibrada e realista do pai e, em consequência, do mundo. A sintonia consiste, essencialmente, em levar a efeito o abandono do problemático monstro autogerado — o dragão que se considera Deus (o superego) e o dragão que se considera o Pecado (o id reprimido). Mas essa ação requer o abandono do apego ao próprio ego, e aí reside a dificuldade. Devemos ter fé em que o pai é misericordioso; assim, devemos confiar nessa misericórdia. Com isso, o centro da crença é afastado da tenaz apertada e escamosa do deus atormentador, e os ogros ameaçadores desaparecem.

É essa a provação a partir da qual o herói deve derivar esperança e garantia da figura masculina do auxiliar, por intermédio de cuja magia ele é protegido ao longo de todas as assustadoras experiências da iniciação, fragilizadora do ego, do pai. Pois, se for impossível confiar na terrível face do pai, nossa fé deve concentrar-se em algum outro lugar; e, com essa confiança necessária ao apoio, suportamos a crise — apenas para descobrir, no final de tudo, que o pai e a mãe se refletem um ao outro e são, em essência, a mesma coisa.

A ideia tradicional de iniciação combina uma introdução do candidato nas técnicas, obrigações e prerrogativas de sua vocação com um radical reajustamento de sua relação emocional com as imagens parentais. O mistagogo (pai ou pai substituto) deve entregar os símbolos do ofício tão-somente ao filho que tiver sido efetivamente purgado de todas as catexes infantis impróprias — a um filho que não se veja impossibilitado para o justo e impessoal exercício dos poderes pelos motivos inconscientes (ou, talvez, até mesmo conscientes e racionalizados) do auto-engrandecimento, da preferência pessoal ou do ressentimento. Em termos ideais, o filho investido do ofício afasta-se de sua mera condição humana e representa uma força cósmica impessoal. Ele é aquele que nasceu duas vezes: tornou-se, ele mesmo, o pai. Em consequência, agora é competente para representar, por sua vez, o papel do iniciador, do guia, da porta do sol pela qual devemos passar, das ilusões infantis do "bem" e do "mal", para uma experiência da majestade da lei cósmica, purgada da esperança e do temor, e em paz na compreensão da revelação do ser.


5. A apoteose

"Estrelas, escuridão, lâmpada, fantasma, orvalho, bolha, Um sonho, um relâmpago, e uma nuvem: Assim devemos olhar tudo o que foi feito".

O Bodisatva não abandona a vida. Voltando os olhos da esfera interna da verdade que transcende o pensamento (que só pode ser descrita como "vazio", já que ultrapassa a palavra) para observar mais uma vez o mundo fenomênico, ele percebe, fora de si, o mesmo oceano de existência que encontrou no seu íntimo. "A forma é o vazio, o vazio é de fato forma. O vazio não difere da forma, a forma não difere do vazio. O que for forma é também o vazio; o que for vazio, é também a forma. E o mesmo se aplica à percepção, ao nome, à concepção e ao conhecimento" (menor Prajna-Paramita-Hridaya Sutra.) Tendo ultrapassado as delusões do seu antigo ego auto-afirmativo, auto defensivo e voltado para si mesmo, ele conhece, dentro e fora, a mesma tranquilidade. Fora, ele observa o aspecto visual do magnífico vazio que transcende o pensamento, onde se encontram suas próprias experiências do ego, da forma, das percepções, da palavra, das concepções e do conhecimento. E ele fica cheio de compaixão pelos seres auto-aterrorizados que vivem no temor de seus próprios pesadelos. Ele se eleva, retorna ao seu meio e habita entre eles como um centro desprovido de ego, por meio do qual o princípio do vazio é manifesto em sua própria simplicidade. E esse é seu grande "ato compassivo"; pois, por meio dele, é revelada a verdade, segundo a qual, na compreensão daquele em quem o Fogo Tríplice do Desejo, da Hostilidade e da Ilusão se extinguiu, esse mundo é Nirvana. "Ondas de dádivas" fluem desse ser para a libertação de todos nós. "Nossa vida neste mundo é uma atividade do próprio Nirvana, não existindo a mínima diferença entre este e aquela."

Aqueles que sabem, não apenas que o Eterno vive neles, mas que eles mesmos, e todas as coisas, são verdadeiramente o Eterno, habitam os bosques de árvores que atendem aos desejos, bebem o licor da imortalidade e ouvem, em todos os lugares, a música silenciosa da harmonia universal. Esses são os imortais. As pinturas taoístas de paisagens, feitas na China e no Japão, descrevem de modo supremo o caráter celestial dessa condição terrestre. Os quatro animais benevolentes, a fênix, o unicórnio, a tartaruga e o dragão, habitam entre os jardins de salgueiros, os bambus e as ameixeiras, assim como em meio à neblina das montanhas sagradas, perto das honradas esferas. Os sábios, de corpos encarquilhados, mas de espírito eternamente jovem, meditam entre essas alturas, cavalgam animais curiosos, simbólicos, ao longo de paragens imortais, ou palestram, deliciados, diante de xícaras de chá, sobre a flauta de Lan Ts'ai-ho.

A busca da imortalidade física procede de uma incompreensão do ensinamento tradicional. O problema básico é, na realidade, aumentar a pupila, para que o corpo, com a personalidade que o acompanha, não obstrua a visão. Assim, a imortalidade é experimentada como um fato presente: "Está aqui! Está aqui!" (aforismo tântrico).

A agonia da ultrapassagem das limitações pessoais é a agonia do crescimento espiritual. A arte, a literatura, o mito, o culto, a filosofia e as disciplinas ascéticas são instrumentos destinados a auxiliar o indivíduo a ultrapassar os horizontes que o limitam e a alcançar esferas de percepção em permanente crescimento. Enquanto ele cruza limiar após limiar, e conquista dragão após dragão, aumenta a estatura da divindade que ele convoca, em seu desejo mais exaltado, até subsumir todo o cosmo. Por fim, a mente quebra a esfera limitadora do cosmo e alcança uma percepção que transcende todas as experiências da forma — todos os simbolismos, todas as divindades: a percepção do vazio inelutável.


Capítulo III
O retorno


1. A recusa do retorno

Terminada a busca do herói, por meio da penetração da fonte, ou por intermédio da graça de alguma personificação masculina ou feminina, humana ou animal, o aventureiro deve ainda retornar com o seu troféu transmutador da vida. O círculo completo, a norma do monomito, requer que o herói inicie agora o trabalho de trazer os símbolos da sabedoria, o Velocino de Ouro, ou a princesa adormecida, de volta ao reino humano, onde a bênção alcançada pode servir à renovação da comunidade, da nação, do planeta ou dos dez mil mundos.

Mas essa responsabilidade tem sido objeto de frequente recusa. Mesmo o Buda, após seu triunfo, duvidou da possibilidade de comunicar a mensagem de sua realização. Além disso, conta-se que houve santos que faleceram quando estavam no êxtase celeste. São igualmente numerosos os heróis que, segundo contam as fábulas, fixaram residência eterna na bendita ilha da sempre jovem Deusa do Ser Imortal.


2. A fuga mágica

Se o herói obtiver, em seu triunfo, a bênção da deusa ou do deus e for explicitamente encarregado de retornar ao mundo com algum elixir destinado à restauração da sociedade, o estágio final de sua aventura será apoiado por todos os poderes do seu patrono sobrenatural. Por outro lado, se o troféu tiver sido obtido com a oposição do seu guardião, ou se o desejo do herói no sentido de retornar para o mundo não tiver agradado aos deuses ou demônios, o último estágio do ciclo mitológico será uma viva, e com frequência cômica, perseguição. Essa fuga pode ser complicada por prodígios de obstrução e evasão mágicas.


3. O resgate com auxílio externo

O herói pode ser resgatado de sua aventura sobrenatural por meio da assistência externa. Isto é, o mundo tem de ir ao seu encontro e recuperá-lo. Pois a bênção do domicílio profundo não é abandonada com facilidade em favor da auto-dispersao do estado vígil. "Quem, tendo deixado o mundo", lemos, "desejaria retornar? Quem
assim estivesse, lá ficaria." E, no entanto, enquanto se estiver vivo, a vida chamará. A sociedade, que tem ciúme daqueles que dela se afastam, virá bater à sua porta.


4. A passagem pelo limiar do retorno

Os dois mundos, divino e humano, só podem ser descritos como distintos entre si — diferentes como a vida e a morte, o dia e a noite. As aventuras do herói se passam fora da terra nossa conhecida, na região das trevas; ali ele completa sua jornada, ou apenas se perde para nós, aprisionado ou em perigo; e seu retorno é descrito como uma volta do além. Não obstante — e temos diante de nós uma grande chave da compreensão do mito e do símbolo —, os dois reinos são, na realidade, um só e único reino. O reino dos deuses é uma dimensão esquecida do mundo que conhecemos. E a exploração dessa dimensão, voluntária ou relutante, resume todo o sentido da façanha do herói. Os valores e distinções que parecem importantes na vida normal desaparecem com a terrificante assimilação do eu naquilo que antes não passava de alteridade. Tal como nas histórias das ogresas canibais, o temor dessa perda da individuação pessoal pode configurar-se, para as almas não qualificadas, como todo o ônus da experiência transcendental. Mas a alma do herói avança com ousadia — e descobre as bruxas convertidas em deusas e os dragões em guardiães dos deuses.

Todavia, sempre deve restar, do ponto de vista da consciência vígil normal, uma certa inconsistência enigmática entre a sabedoria trazida das profundezas e a prudência que costuma ser eficaz no mundo da luz. Daí decorre o divórcio comum entre o oportunismo e a virtude, e a resultante degenerescência da existência humana. O martírio é para os santos, mas as pessoas comuns têm suas instituições, que não podem deixar que cresçam como lírios no campo; Pedro continua a sacar da espada, tal como no jardim, para defender o criador e mantenedor do mundo. A bênção trazida das profundezas transcendentes torna-se racionalizada, rapidamente, em nãoexistência, e aumenta em muito a necessidade de outro herói para renovar a palavra.

Como ensinar de novo, contudo, o que havia sido ensinado corretamente e aprendido de modo errôneo um milhão de vezes, ao longo dos milênios da mansa loucura da humanidade? Eis a última e difícil tarefa do herói. Como retraduzir, na leve linguagem do mundo, os pronunciamentos das trevas, que desafiam a fala? Como representar, numa superfície bidimensional, ou numa imagem tridimensional, um sentido multidimensional? Como expressar, em termos de "sim" e "não", revelações que conduzem à falta de sentido toda tentativa de definir pares de opostos? Como comunicar, a pessoas que insistem na evidência exclusiva dos próprios sentidos, a mensagem do vazio gerador de todas as coisas?

Muitos fracassos comprovam as dificuldades presentes nesse limiar que afirma a vida O primeiro problema do herói que retorna consiste em aceitar como real, depois de ter passado por uma experiência da visão de completeza, que traz satisfação à alma, as alegrias e tristezas passageiras, as banalidades e ruidosas obscenidades da vida. Por que voltar a um mundo desses? Por que tentar tornar plausível, ou mesmo interessante, a homens e mulheres consumidos pela paixão, a experiência da bem-aventurança transcendental? Assim como sonhos que se afiguraram importantes à noite podem parecer, à luz do dia, meras tolices, assim também o poeta e o profeta podem descobrir-se bancando os idiotas diante de um júri de sóbrios olhos. O mais fácil é entregar a comunidade inteira ao demônio e partir outra vez para a celeste habitação rochosa, fechar a porta e ali se deixar ficar. Mas se algum obstetra espiritual tiver, nesse entretempo, estendido a shimenawa em torno do refúgio, então o trabalho de representar a eternidade no plano temporal, e de perceber, neste, a eternidade, não pode ser evitado.


5. Senhor dos dois mundos

A liberdade de ir e vir pela linha que divide os mundos, de passar da perspectiva da aparição no tempo para a perspectiva do profundo causai e vice-versa — que não contamina os princípios de uma com os da outra e, no entanto, permite à mente o conhecimento de uma delas em virtude do conhecimento da outra — é o talento do mestre. O Dançarino Cósmico, declara Nietzsche, não se mantém pesadamente no mesmo lugar; mas, com alegria e leveza, gira e muda de posição. É possível falar apenas de um ponto por vez, mas isso não invalida o que se percebe nos demais. Os mitos não costumam apresentar numa única imagem todo o mistério do livre trânsito. Quando o apresentam, o momento é um precioso símbolo, cheio de importância, a ser tratado como um tesouro e contemplado.

O sentido é bem claro; é o sentido de toda prática religiosa. O indivíduo, por meio de prolongadas disciplinas espirituais, renuncia completamente aos vínculos com suas limitações e idiossincrasias, esperanças e temores pessoais, já não resiste à auto-aniquilação, que constitui o pré-requisito do renascimento na percepção da verdade, e assim fica pronto, por fim, para a grande sintonia. Suas ambições pessoais estão dissolvidas, razão por que ele já não tenta viver, mas simplesmente relaxa diante de tudo o que venha a se passar nele; ele se torna, por assim dizer, um anônimo. A Lei vive nele com seu próprio consentimento irrestrito.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Coisas que Eugenio Mussak contou para nós na edição de julho da revista Vida Simples.

"O processo de brincar não torna o brinquedo um mero utensílio de distração, mas um gerador de situações imaginárias." (Lev Vygotsky)

"Brincar é a condição fundamental para ser sério." (Arquimedes)

"Se você, adulto ciente e responsável, ainda não desatou a brincar, é porque ainda lhe falta maturidade." (Eugenio Mussak)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Um monge aproximou-se de seu mestre — que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da Lua — com uma grande dúvida:

"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"

O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."

O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"

"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."

"Então," o monge perguntou, "por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"

"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."

O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

(Dharmanet/Zen)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A FALA CORRETA
(Do livro “A Essência dos ensinamentos de Buda” – Thich Nhat Hanh)

Em nossa época, a comunicação entre as pessoas se torna cada vez mais difícil. Os pais não conseguem falar com seus filhos, os maridos com suas mulheres e os sócios com seus parceiros. A comunicação parece estar bloqueada. Estamos numa situação difícil, não apenas entre países, mas também entre pessoas. O enunciado clássico da Fala Correta é o seguinte:

(1) Falar sempre a verdade.

(2) Não falar coisas contraditórias deliberadamente. Não devemos dizer uma determinada coisa a uma pessoa e uma coisa diferente a outra pessoa. É claro que podemos descrever a verdade de várias formas, para que o ouvinte entenda o que estamos dizendo, mas é preciso ser sempre fiel à verdade.

(3) Não falar com crueldade. Não devemos gritar, caluniar, amaldiçoar, provocar sofrimento nem gerar ódio. Mesmo aqueles que têm um bom coração e não querem ferir ninguém muitas vezes permitem que saiam palavras tóxicas de sua boca. Quando dizemos algo venenoso, isso em geral se origina da força do hábito. As palavras são muito poderosas. Elas podem gerar um complexo em uma pessoa. É preciso não se esquecer disto.

(4) Não exagerar nem retocar os fatos. Não devemos dramatizar de forma desnecessária, querendo que as coisas pareçam melhores, piores ou mais urgentes do que realmente são.

A Fala Correta se baseia no Pensamento Correto. A fala é o nosso pensamento, expresso sob a forma de som. Quando falamos, nossos pensamentos deixam de ser particulares. É claro que existem coisas que pensamos e não dizemos, e uma parte de nós faz o papel de censor.

Algumas vezes, os blocos de dor que existem incrustados dentro de nós se expressam na fala (ou nos atos), sem terem antes passado pelo pensamento. Ou seja, não conseguimos mais reprimir o sofrimento acumulado já. Quando expressamos dor, podemos ferir a nós mesmos ou aos outros. Se não praticarmos a Atenção Plena Correta, não saberemos o que está se acumulando dentro de nós. Não queremos realmente ferir ninguém, mas acabamos dizendo coisas que ferem. Temos a intenção de só dizer palavras de reconciliação e perdão, e logo em seguida dizemos algo cruel. Para regar as sementes da paz que existem em nós, precisamos praticar a Atenção Plena Correta enquanto estamos caminhando, sentados, de pé etc. Com a Atenção Plena Correta conseguimos ver claramente nossos pensamentos e sentimentos, e identificar o que nos ajuda e o que nos machuca. Quando os pensamentos saem de nossa mente sob a forma de palavras, se a Atenção Plena Correta as acompanhar, teremos consciência do que dizemos, e se isto é útil ou pernicioso.

O alicerce da Fala Correta é ouvir com atenção. Se não conseguimos escutar com consciência, não podemos praticar a Fala Correta. Não importa o que dissermos, estaremos apenas relatando nossas próprias ideias, sem realmente responder ao que o outro disse. A escuta compassiva auxilia a cura. Quando alguém nos ouve desta forma, sentimos alívio imediato. Um bom terapeuta sempre pratica a escuta compassiva. Temos que aprender a também fazer a mesma coisa, para poder ajudar aqueles que amamos, resgatando a comunicação com eles.

Quando a comunicação é cortada, todos sofremos. Quando ninguém nos ouve ou entende, viramos uma bomba prestes a explodir. Restaurar a comunicação é uma tarefa urgente. Às vezes bastam dez minutos de escuta atenta para transformar uma pessoa e devolver o sorriso aos seus lábios. A pessoa que ouve os lamentos do mundo tem a qualidade do verdadeiro ouvinte compassivo, que não julga nem reage. Quando ouvimos com todo o nosso ser, conseguimos desarmar diversas bombas-relógio. Se a outra pessoa acha que estamos criticando o que ela está dizendo, seu sofrimento não será aliviado. Quando o terapeuta pratica o Ouvir Correto, seus pacientes têm a coragem de lhe dizer coisas que nunca disseram antes a ninguém. A escuta verdadeira nutre quem fala e quem ouve.

Já perdemos a capacidade de dizer as coisas com calma, e nos irritamos com demasiada facilidade. A cada vez que abrimos a boca, nossa fala soa amarga ou azeda. Sabemos que isso é verdade, que perdemos a capacidade de falar com bondade. Este é o Quarto Treinamento da Atenção Plena, fundamental para a manutenção de relacionamentos pacíficos e amorosos. Se você não conseguir aprender isto, também não conseguirá atingir a felicidade, a harmonia e o amor.

Se no meio da escuta surgir raiva ou irritação, você não conseguirá continuar escutando. Nossa prática consiste em perceber cada vez que a raiva ou a irritação surgirem, e inspirar e expirar de forma consciente, mantendo a compaixão sempre presente. Só com compaixão podemos realmente ouvir uma outra pessoa. Não importa o que a pessoa está dizendo, mesmo que existam muitas informações errôneas e muita injustiça na forma como a pessoa descreve as coisas, e mesmo que ela condene ou culpe você, continue calmamente inspirando e expirando. Mantenha a sua compaixão por uma hora. Esta é a escuta compassiva, e se você conseguir mantê-la por uma hora, o outro se sentirá aliviado.

Algumas vezes falamos de maneira intempestiva e criamos pontos de bloqueio nas outras pessoas. Dizemos: “Mas eu só estava dizendo a verdade.” Talvez o que foi dito seja a verdade, mas se esta forma de falar causa sofrimento desnecessário, então certamente não é a Fala Correta. A verdade deve ser apresentada de uma forma que o outro seja capaz de aceitar. Palavras que ferem ou destroem não representam a Fala Correta. Antes de falar, compreenda a pessoa com quem você está falando. Considere cada palavra cuidadosamente, antes de dizer qualquer coisa, para que sua fala seja correta na forma e conteúdo. O Quarto Treinamento da Atenção Plena também está ligado à fala amorosa. Você tem o direito de dizer à outra pessoa tudo o que sente em seu coração, desde que usando apenas a fala amorosa. Se não for capaz de falar calmamente, então não fale. “Sinto muito, meu caro, mas é melhor conversar outro dia. Hoje eu não estou em meus melhores dias, e posso dizer algo que não seja bom. Vamos conversar outro dia.” Abra a boca e fale apenas quando estiver certo de que pode usar uma fala calma e amorosa. Muitas vezes é preciso treinarmos longamente para conseguir fazer isso.

Uma outra forma de falar é escrever cartas. Uma carta pode ser mais segura do que uma conversa, porque há mais tempo para ler o que se escreveu antes de enviar. Quando lemos nossas palavras, visualizamos a outra pessoa recebendo a carta e podemos avaliar se aquilo que escrevemos é adequado e se está bem expresso. Sua carta deve regar as sementes da transformação da outra pessoa e despertar alguma coisa em seu coração, isto pode ser chamado de Fala Correta. Se alguma frase causar mal-entendido ou descontentamento, troque-a por outra. A Atenção Plena Correta mostrará se você está expressando a verdade de um modo hábil. Depois de colocar a carta no correio, não é mais possível tirá-la de lá, por isso temos que ler bem antes de enviar. Uma carta enviada desta forma irá beneficiar tanto o remetente quanto o destinatário.

À medida que nossa prática de meditação se aprofunda, ficamos cada vez menos presos a palavras. Aptos a praticar o silêncio, sentimo-nos livres como pássaros, em contato com a essência das coisas. O fundador de uma das escolas vietnamitas de zen budismo escreveu: “Não me perguntem mais nada, porque minha essência não usa palavras.” Para conseguir praticar a fala consciente, às vezes é preciso também praticar o silêncio. Só então poderemos ter clareza sobre nossos próprios pontos de vista e sobre os bloqueios responsáveis por nossa forma de pensar. O silêncio é o momento adequado para contemplar em profundidade. Há momentos em que o silêncio é a verdade, e isso é chamado de “silêncio trovejante”.

Confúcio disse: “Os céus não dizem nada.” Isso também significa que os céus nos dizem muita coisa – e ainda assim não conseguimos entender. Se ouvirmos com a mente em silêncio, a canção de cada pássaro e o vento de cada árvore terão algo a nos dizer. No Sukhavati Sutra é dito que cada vez que o vento sopra nas árvores, um milagre se produz. Se escutarmos esse som cuidadosamente, ouviremos o Buda ensinando as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo. A Atenção Plena Correta é uma prática que também nos ajuda a desacelerar, para poder ouvir os pássaros, as árvores e até mesmo nossa própria mente. Desta forma, quando dissermos algo bondoso ou, ao contrário, palavras impacientes, sempre teremos plena consciência do que dissemos.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Tive uma ideia para uma obra que envolve uma janela veneziana. Mas como vou conseguir uma janela veneziana? É praticamente impossível.

Pois ontem apareceu uma, completa, na porta do meu edifício. Mais precisamente do outro lado da rua, dentro de uma daquelas caçambas de entulho. Recolhi as peças enviadas por Deus e guardei-as no meu apartamento. Um mendigo viu a ação e esperou para separar as vidrças para ele. E este é mais um exemplo inequívoco da existência do amado Acaso, aquele que não é por acaso. Outra conclusão a que cheguei é que é para eu fazer aquela obra, realizar aquela ideia. Obrigado.
"Às vezes, a fase te sacrifica." (Adenor Bacchi)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Mês passado, o selo internético Sinewave ultrapassou a marca de 10 mil downloads. Foram cerca de 10.380 albuns baixados, em uma média de 400 discos por semana. Num tempo em que algumas netlabels estão fechando, aqui e em Portugal, é bonito saber que uma - no Brasil - está prosperando.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Criei uma mixtape para o site do selo virtual Sinewave, uma discotecagem de 68:28 num arquivo único de MP3 128 kbps. Acabei de enviar para aprovação. (Udpate: foi aprovada para publicação em 18 de agosto!) Propus para eles, também, o relançamento de 'Eu contenho...', do input_output, e 'Térreo', do Hotel, bem como o lançamento do 'Segundo andar' da edificação de quartos para moradia temporária. Voltando à fita-mistura, ela foi feita com as seguintes 16 músicas.

- SPARKLEHORSE & DANGER MOUSE - Dark night of the soul (feat. Vic Chesnutt)
- TORTOISE - Gigantes
- ARVE HENRIKSEN - Evocation
- LAVAJATO - Servir melhor para servir sempre
- THE KISSAWAY TRAIL - Forever turned out to be too long
- SCARLETT JOHANSSON - Town with no cheer
- LABIRINTO - Silêncio póstumo
- TO ROCOCO ROT - Micromanaged
- HUSKY RESCUE - Blueberry tree (part I)
- THE TWILIGHT SAD - Cold days from the birdhouse
- S.O.M.A. - Baile das máscaras
- RYOJI IKEDA - Data.syntax
- EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN - Die wellen
- PAN SONIC - Rutina
- ANDINA - Lamento
- FIREFRIEND - Dubster (input_output remix)








A complicada arte de ver
Rubem Alves


Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...

terça-feira, 21 de julho de 2009

"O reino dos especialistas é o reino das mais ocas ideias gerais, sendo que a mais oca de todas é a de que não há necessidade de ideia geral." (Edgar Morin)


É bom o filme 'Thumbsucker' (2005), estreia em longa-metragem do diretor Mike Mills - não, não é o melhor backing vocal do mundo, baixista do R.E.M. Ele dirigiu DVDs de Pulp, Air e Moby. No Brasil, o título é 'Impulsividade'. A trilha sonora é de Polyphonic Spree e Elliot Smith. Com Vince Vaughn, Vincent D'Onofrio e Tilda Swinton.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Estou fazendo uma pesquisa obsessiva de artes plásticas. Criei um Picasa para reunir o material por mim selecionado.
steve roden
forms of paper, 2001




forms of paper

label: line
cd in printed folder in vinyl sleeve / edition: 500 (sold out)

1. forms of paper, 54:01

an audio document of an installation for the los angeles public library created using electronically transformed sounds of turning book pages.
MORIN, Edgar. A cabeça bem feita. 1999.


(...) Efetivamente, a inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fraciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento corretivo ou de uma visão a longo prazo. Sua insuficiência para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas que enfrentamos. (...)

Em vez de corrigir esses desenvolvimentos, nosso sistema de ensino obedece a eles. Na escola primária nos ensinam a isolar os objetos (de seu meio ambiente), a separar as disciplinas (em vez de reconhecer suas correlações), a dissociar os problemas, em vez de reunir e integrar. Obrigam-nos a reduzir o complexo ao simples, isto é, a separar o que está ligado; a decompor, e não a recompor; e a eliminar tudo que causa desordens ou contradições em nosso entendimento.

(O pensamento que recorta, isola, permite que especialistas e experts tenham ótimo desempenho em seus compartimentos, e cooperem eficazmente nos setores não complexos de conhecimento, notadamente os que concernem ao funcionamento das máquinas artificiais; mas a lógica a que eles obedecem estende à sociedade e as relações humanas os constrangimentos e os mecanismos inumanos da máquina artificial e sua visão determinista, mecanicista, quantitativa, formalista; e ignora, oculta ou dilui tudo que é subjetivo, afetivo, livre, criador.)

Em tais condições, as mentes jovens perdem suas aptidões naturais para contextualizar os saberes e integrá-los em seus conjuntos.


CAPÍTULO 3
A CONDIÇÃO HUMANA


Assim como a vida terrestre é extremamente marginal no cosmo, somos marginais na vida. O homem surgiu marginalmente no mundo animal, e seu desenvolvimento marginalizou-o ainda mais. Somos (aparentemente) os únicos seres vivos, na terra, que dispõem de um aparelho neurocerebral hipercomplexo, e os únicos que dispõem de uma linguagem de dupla articulação para comunicar-se, de indivíduo a indivíduo. Os únicos que dispõem da consciência...

Abrir-se ao cosmo é entrar na aventura desconhecida, onde talvez sejamos, ao mesmo tempo, desbravadores e desviantes; abrir-se à physis é ligar-se ao problema da organização das partículas, átomos, moléculas, macromoléculas, que se encontram no interior das células de cada um de nós; abrir-se para a vida é abrir-se também para as nossas vidas. As ciências do homem retiraram toda significação biológica a estes termos: ser jovem, velho, mulher, homem, nascer, existir, ter pai e mãe, morrer essas palavras remetem apenas a categorias socioculturais. Só readquirem sentido vivo quando as conceituamos em nossa vida privada. A Antropologia que exclui a vida de nossa vida privada é uma Antropologia privada de vida.

Trazemos, dentro de nós, o mundo físico, o mundo químico, o mundo vivo, e, ao mesmo tempo, deles estamos separados por nosso pensamento, nossa consciência, nossa cultura. Assim, Cosmologia, ciências da Terra, Biologia, Ecologia permitem situar a dupla condição humana: natural e metanatural.

Estamos, a um só tempo, dentro e fora da natureza. Somos seres, simultaneamente, cósmicos, físicos, biológicos, culturais, cerebrais, espirituais... Somos filhos do cosmo, mas, até em consequência de nossa humanidade, nossa cultura, nosso espírito, nossa consciência, tornamonos estranhos a esse cosmo do qual continuamos secretamente íntimos. Nosso pensamento, nossa consciência, que nos fazem conhecer o mundo físico, dele nos distanciam ainda mais.

À nossa ascendência cósmica, à nossa constituição física, temos de acrescentar nossa implantação terrestre. A Terra foi produzida e organizada na dependência do Sol, constituiu-se em complexo biofísico, a partir do momento em que sua biosfera se desenvolveu. Da Terra nasceu, efetivamente, a vida e, na evolução multiforme da vida multicelular, nasceu a animalidade; depois, o mais recente desenvolvimento de um ramo do mundo animal tornou-se humano. Nós domamos a natureza vegetal e animal, pensamos ser senhores e donos da Terra, os conquistadores, mesmo, do cosmo. Mas – como começamos a tomar consciência – dependemos de modo vital da biosfera terrestre e devemos reconhecer nossa muito física e muito biológica identidade terrena.

A Terra é a totalidade complexa físico-biológica-antropológica, onde a vida é uma emergência da história da Terra, e o homem, uma emergência da história da vida terrestre. A relação do homem com a natureza não pode ser concebida de forma reducionista, nem de forma disjuntiva. Tudo isso nos coloca diante do caráter duplo e complexo do que é humano: a humanidade não se reduz absolutamente à animalidade, mas, sem animalidade, não há humanidade.

O ser humano nos é revelado em sua complexidade: ser, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural. O cérebro, por meio do qual pensamos, a boca, pela qual falamos, a mão, com a qual escrevemos, são órgãos totalmente biológicos e, ao mesmo tempo, totalmente culturais. O que há de mais biológico – o sexo, o nascimento, a morte – é, também, o que há de mais impregnado de cultura. Nossas atividades biológicas mais elementares – comer, beber, defecar – estão estreitamente ligadas a normas, proibições, valores, símbolos, mitos, ritos, ou seja, ao que há de mais especificamente cultural; nossas atividades mais culturais – falar, cantar, dançar, amar, meditar – põem em movimento nossos corpos, nossos órgãos; portanto, o cérebro.

Paradoxalmente, são as ciências humanas que, no momento atual, oferecem a mais fraca contribuição ao estudo da condição humana, precisamente porque estão desligadas, fragmentadas e compartimentadas. Essa situação esconde inteiramente a relação indivíduo/espécie/sociedade, e esconde o próprio ser humano. Tal como a fragmentação das ciências biológicas anula a noção de vida, a fragmentação das ciências humanas anula a noção de homem. Assim, Lévi-Strauss acreditava que o fim das ciências humanas não é revelar o homem, mas dissolvê-lo em estruturas.

Seria preciso conceber uma ciência antropossocial religada, que concebesse a humanidade em sua unidade antropológica e em suas diversidades individuais e culturais.

À espera dessa religação – desejada pelas ciências, mas ainda fora de seu alcance –, seria importante que o ensino de cada uma delas fosse orientado para a condição humana. Assim, a Psicologia, tendo como diretriz o destino individual e subjetivo do ser humano, deveria mostrar que Homo sapiens também é, indissoluvelmente, Homo démens, que Homo faber é, ao mesmo tempo, Homo ludens, que Homo economicus é, ao mesmo tempo, Homo mythologicus, que Homo prosaicus é, ao mesmo tempo, Homo poeticus. A Sociologia seria orientada para nosso destino social, a Economia para nosso destino econômico; um ensino sobre os mitos e as religiões seria orientado para o destino mítico-religioso do ser humano. De fato, as religiões, mitos, ideologias devem ser considerados em seu poder e ascendência sobre as mentes humanas, e não mais como "superestruturas".

Quanto à contribuição da História para o conhecimento da condição humana, ela deve incluir o destino, a um só tempo, determinado e aleatório da humanidade.

A poesia, que faz parte da literatura e, ao mesmo tempo, é mais que a literatura, leva-nos à dimensão poética da existência humana. Revela que habitamos a Terra, não só prosaicamente – sujeitos à utilidade e à funcionalidade –, mas também poeticamente, destinados ao deslumbramento, ao amor, ao êxtase. Pelo poder da linguagem, a poesia nos põe em comunicação com o mistério, que está além do dizível.


A filosofia da vida

O aprendizado da vida deve dar consciência de que a “verdadeira vida”, para usar a expressão de Rimbaud, não está tanto nas necessidades utilitárias – às quais ninguém consegue escapar –, mas na plenitude de si e na qualidade poética da existência, porque viver exige, de cada um, lucidez e compreensão ao mesmo tempo, e, mais amplamente, a mobilização de todas as aptidões humanas.

Quando conservamos e descobrimos novos arquipélagos de certezas, devemos saber que navegamos em um oceano de incertezas.


A incerteza humana

A condição humana está marcada por duas grandes incertezas: a incerteza cognitiva e a incerteza histórica.

Há três princípios de incerteza no conhecimento:

– o primeiro é cerebral: o conhecimento nunca é um reflexo do real, mas sempre tradução e construção, isto é, comporta risco de erro;

– o segundo é físico: o conhecimento dos fatos é sempre tributário da interpretação;

– o terceiro é epistemológico: decorre da crise dos fundamentos da certeza, em filosofia (a partir de Nietzsche), depois em ciência (a partir de Bachelard e Popper).

Conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza.

Não há leis da História. Pelo contrário, há o fracasso de todos os esforços para cristalizar a história humana, eliminar dela acontecimentos e acidentes, submetê-la ao jugo de um determinismo econômico-social e/ou levá-la a obedecer a um progresso telecomandado.

Preparar-se para nosso mundo incerto é o contrário de se resignar a um ceticismo generalizado.

É esforçar-se para pensar bem, é exercitar um pensamento aplicado constantemente na luta contra falsear e mentir para si mesmo, o que nos leva, uma vez mais, ao problema da “cabeça bem-feita”.

É também estar consciente da ecologia da ação.

A ecologia da ação tem, como primeiro princípio, o fato de que toda ação, uma vez iniciada, entra num jogo de interações e retroações no meio em que é efetuada, que podem desviá-la de seus fins e até levar a um resultado contrário ao esperado. O segundo princípio da ecologia da ação diz que as conseqüências últimas da ação são imprevisíveis.

Cada um deve estar plenamente consciente de que sua própria vida é uma aventura, mesmo quando se imagina encerrado em uma segurança burocrática; todo destino humano implica uma incerteza irredutível, até na absoluta certeza, que é a da morte, pois ignoramos a data. Cada um deve estar plenamente consciente de participar da aventura da humanidade, que se lançou no desconhecido em velocidade, de agora em diante, acelerada.


A identidade terrena

Hoje, podemos conceber, ao mesmo tempo:

1. Uma comunidade de destino, no sentido em que todos os humanos estão sujeitos às mesmas ameaças mortais da arma nuclear (que continua a ser disseminada) e ao mesmo perigo ecológico da biosfera, que se agrava com o “efeito estufa” provocado pelo aumento do CO2 na atmosfera, os desmatamentos em larga escala das grandes florestas tropicais produtoras de nosso oxigênio comum, a esterilização dos oceanos, mares e rios fornecedores de alimentos, as poluições sem conta, as catástrofes sem limites. A tudo isso, acrescente-se ainda a explosão mundial de novos vírus e antigos micróbios fortalecidos, a incontrolável transformação da economia mundial; finalmente, e sobretudo, a ameaça mundial polimorfa que retoma e produz a aliança entre duas barbáries: a barbárie de destruição e morte, que vem do fundo das eras, e a barbárie anônima e fria do mundo técnico-econômico.

2. Uma identidade humana comum: por mais diferentes que sejam seus genes, solos, comunidades, ritos, mitos e idéias, o Homo sapiens tem uma identidade comum a todos os seus representantes: pertence a uma unidade genética de espécie, que torna possível a interfecundação entre todos os homens e mulheres, não importando a “raça”; essa unidade genética prolonga-se em unidade morfológica, anatômica, psicológica; a unidade cerebral do Homo sapiens manifesta-se na organização singular de seu cérebro, em relação ao dos outros primatas; enfim, existe uma unidade psicológica e afetiva: risos, lágrimas, sorrisos são diversamente modulados, é claro, inibidos ou desinibidos, segundo as culturas; mas, a despeito da extrema diversidade dessas culturas e dos modelos de personalidade que elas impõem, risos, lágrimas, sorrisos são universais, e seu caráter inato manifesta-se nos surdosmudos-cegos de nascença, que sorriem, choram, riem sem que tenham podido imitar quem quer que seja.

3. Uma comunidade de origem terrestre, a partir de nossa ascendência e identidade antropóide, mamífera, vertebrada, que nos torna filhos da vida e filhos da Terra.


CAPÍTULO 7
OS TRÊS GRAUS

EXAMINEMOS aqui, muito sucintamente, como divisar as finalidades enunciadas nos capítulos precedentes, para os três graus de ensino.

Primário

O que é uma coisa? É preciso ensinar que as coisas não são apenas coisas, mas também sistemas que constituem uma unidade, a qual engloba diferentes partes2. Não mais objetos fechados, mas entidades inseparavelmente ligadas a seu meio ambiente, que só podem ser realmente conhecidas quando inseridas em seu contexto. No que diz respeito aos seres vivos, eles se comunicam, entre si e com o meio ambiente—comunicações que fazem parte de sua organização e de sua própria natureza.

Secundário

A Filosofia deveria ter, como um de seus pontos capitais, a reflexão sobre o conhecimento científico e não científico, e sobre o papel da tecnociência, maximizado em nossas sociedades.
Mas que barbaridade o que fazem com cara de pau. Charles Kiefer conta:

"Neste semestre, uma aluna apresentou-me contos suspeitos, excessivamente bem construídos, com extraordinário equilíbrio entre meios expressivos e procedimentos construtivos. No primeiro, concedi-lhe a presunção de inocência. Talvez, na prova escrita, em sala de aula, ela estivesse indisposta, e depois, em casa, visitada pelas musas, fosse capaz de gerar grandes e poderosos textos. Nunca se sabe. Já tive alunos que saíram do nada literário e se converteram em bons romancistas. Evidente que não em menos de dois meses, como era o caso. No terceiro trabalho, produzido em aula, a aluna não manifestou, mais uma vez, grande talento. No entanto, o quarto conto, feito em casa, foi uma revelação. A voz narrativa era de escritor português, provavelmente do início do século XX. Como atento leitor que sou, destaquei várias expressões portuguesas típicas utilizadas no conto. Em aula, depois, perguntei para a suposta autora o significado daqueles sintagmas. Não sabia, afirmou ela, publicamente. Diante de meu espanto (como alguém podia escrever coisas que não sabia o que eram?), ouvi uma explicação muito criativa: ela confessava, ao professor e aos trinta colegas, que incorporava espíritos! No primeiro conto suspeito, fora visitada por um escritor francês do século XIX; e, no segundo, por um escritor português!"

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Artes Plásticas x Artes Visuais

Unicamp - Aproveitando a presente reforma curricular, faremos a mudança de nome de curso, optando por Artes Visuais, que é mais abrangente [por quê?] e corresponde mais diretamente ao estado da arte na contemporaneidade [por quê?] do que o termo Artes Plásticas.

ANPAP - É nesse mesmo sentido que o termo artes plásticas, antes empregado, cede lugar ao termo artes visuais, adotado mais recentemente [rá!], o qual amplia o leque de possibilidades do artista [por quê?]. A distinção entre os dois termos refere-se ao caráter das novas linguagens da arte contemporânea. Enquanto o termo Plásticas evoca procedimentos mais tradicionais, como o Desenho, Gravura, Escultura e Pintura, o termo Visuais, refere-se a linguagens artísticas mais contemporâneas, como Fotografia, Objeto, Instalação e Vídeo-Arte. Assim, o termo visuais refere-se a procedimentos variados que utilizam uma diversidade de meios expressivos, ampliando as possibilidades da obra de arte, que passa a incorporar não somente técnicas diferenciadas, mas igualmente conceitos inovadores. A liberdade estética de que goza o artista contemporâneo estende-se igualmente ao público, que deve construir novos critérios de apreciação da obra de arte. Da mesma forma, as tentativas de definição e caracterização da arte contemporânea continuam abertas, pois que nos encontramos em meio a esse movimento.


Ofereço R$ 100 a quem me explicar qual a diferença semântica entre "plástico" e "visual" e me convencer de que é apenas uma questão de moda da palavra, da moda de trocar por uma palavra mais atual, porque a outra está culturalmente ligada a um passado que precisa ser negado.

- Ah, se eu chamar o que eu faço de artes plásticas eu vou estar limitado, MAS, se eu chamar de artes visuais, AÍ SIM, eu posso tudo. TUDO!!!!
Waltercio Caldas - Velázquez

"O livro é atacado como um todo: texto e imagens estão fora de foco. Precisão e nitidez estão, no mundo das sensações, associadas à certeza do que vemos, à verdade das coisas. Logo no início, Waltercio nos retira esse chão sobre o qual apoiamos nossas impressões visuais. Mesmo aquele olho acostumado a enxergar bem confronta-se com o mundo nebuloso em que as imagens iluminadas se confundem com suas sombras, os contornos desaparecem e não há mais nenhum resquício das linhas, as cores perdem suas fronteiras e a saturação a que estamos acostumados. Assim, o livro de Waltercio tira os óculos mesmo dos que nunca deles precisaram. O naturalismo e o realismo, capazes de tratar de forma neutra a exterioridade do mundo, que determinaram, para Velázquez, um lugar único no século do Barroco, desaparecem, e como um paradoxo, ausentes, tornam-se presentes como referência. A construção desse cenário gráfico, que trata de modo homogêneo texto e ilustrações, obedece a um teatro. Todas as figuras humanas das ilustrações, uma por uma, foram retiradas. Espaço, objetos e animais foram deixados, tocados apenas pela imprecisão da imagem desfocada." (Duarte, Paulo Sergio in Waltercio Caldas, Cosac & Naify, São Paulo)
Outro mestre da cor.



Henry Matisse - The dream (1940)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Pesquisa mostra perfil do leitor brasileiro
Juliana D.


O brasileiro lê cerca de 1,8 livros por ano; uma média bem insignificante se comparada a dos franceses, os quais lêem cerca de 7 a 10 livros no mesmo período, segundo dados da Unesco. Isso também se deve ao fato do preço acessível das obras francesas, que custam cerca de três Euros na França; menos até mesmo que um café, na Cidade Luz. A principal indústria cultural francesa é a leitura. O Instituto Pró-Livro resolveu aprofundar o perfil do leitor no Brasil e fez uma pesquisa intitulada Retratos da Leitura no Brasil, na qual avalia o hábito da leitura entre os brasileiros. Foram considerados leitores, as pessoas que haviam lido, pelo menos, um livro nos últimos três meses. Já o "não-leitor" é aquele que respondeu negativamente a essa pergunta (ainda que tenha lido ocasionalmente ou em outros meses do ano).

Para cerca de 45,2 milhões (26% dos entrevistados), leitura significa conhecimento. O mesmo percentual de entrevistados não respondeu a pergunta ou não soube opinar. Segundo dados da pesquisa, uma entre cada quatro pessoas não faz a menor ideia sobre o papel da leitura. (...)

Chega a ser realmente triste quando se olha os dados da pesquisa referentes ao fato de se vencer na vida através da leitura: 60% dos entrevistados disseram que não conheceram ninguém que tenha vencido por conta do hábito de ler, o que significa duas em cada três pessoas dentro da amostragem da pesquisa - 172.731.959 pessoas (92% da população).

A maioria dos brasileiros gostam de assistir televisão (77%) ou ouvir música (53%). Ler está em quarto lugar, atrás de descansar e ouvir rádio. (...)

Quanto ao que gostam de ler, as revistas são campeãs (52%), em seguida estão os livros (50%) e os jornais (48%). Os romances (32%), os livros didáticos (34%) e a Bíblia (45%) são os gêneros mais lidos. As mulheres lêem mais a Bíblia (49%), livros didáticos (44%) e religiosos (30%), enquanto os homens preferem ler livros sobre história, política e ciências sociais (27%). (...)

Os três escritores mais prestigiados pelos leitores são Monteiro Lobato, Paulo Coelho e Jorge Amado. Machado de Assis encontra-se na quarta colocação seguido por Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade e Erico Verissimo.

O livro mais importante da vida dos brasileiros é a Bíblia. Em segundo lugar, está o 'Sítio do pica-pau amarelo'; em terceiro 'Chapeuzinho Vermelho'; em quarto, 'Harry Potter' e, em quinto, 'O pequeno príncipe'.
Casaco 100% feito de PET, que está sendo vendido pelo Radiohead, por £45.

Apesar de o Acordo Ortográfico ter sido aprovado já em todos os países lusófonos, inclusive o Brasil, o que vale aqui, como lei, é o Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa (VOLP), editado pela Academia Brasileira de Letras, especificamente pelo imortal Evanildo Bechara. O VOLP mais atualizado é de março deste ano, pós-acordo, e contém divergências quanto ao acordo, por exemplo, a manutenção da acentuação das paroxítonas com "i" tônico em hiato precedido de ditongo crescente, porque pode ser eventualmente separado (ex.: Gu-a-í-ba).

A ortografia oficial de cada palavra pode ser verificada na busca do VOLP anterior. O atualizado ainda não foi disponibilizado online, a fim de que o livro, que é caro, seja bem vendido...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

"Durante o longo período em que manteve o nome Smog como álibi, Bill Callahan expôs pedaços obscuros da psique, que alguém com mais prudência não partilharia com o diário nem num desabafo de bêbados. Fê-lo de forma múltipla e geralmente crua. (...) Oscilando entre a lo-fi perturbada e uma americana com temperamento próprio, Bill Callahan evitou deixar no lugar do réu um músico facilmente identificável. As acusações recaíram todas sobre Smog, e o plano de evasão não poderia ser mais perfeito: a sua marcha fúnebre ('One less star') estava pronta desde 1993, e os rios, úteis à ocultação dos segredos e pecados, traçados por todas as canções. A saga criminosa e uma das obras maiores da década anterior permanecem em 10 + 1 (o disco de transição 'A river ain't too much love') álbuns que o tempo ainda demorará a digerir.

"Bill Callahan renasceu no coração da baleia e galopa agora num cavalo que aspira a ser águia. A adoção do nome próprio, assumida em 'Woke on a whaleheart' (2005), coincidiu com o aprumar da canção, que, a partir daí, incluiria arranjos de primeiro nível e uma lucidez impossível na temporada tóxica de Smog. Com a chegada, já este ano, do excepcional 'Sometimes I wish we were an eagle', confirma-se uma nova abordagem tão fértil quanto recompensadora. Só assim se chega ao sumário contemplativo de 'Jim Cain', à epifania de 'Eid ma clack shaw' (tema incontornável) ou à constatação de que toda a fé tem o seu tempo, tal como o escutamos no brando repousar de 'Faith/Void'. Todos reforçam a blindagem de 'Sometimes I wish we were an eagle' [Nota do Douglas: melhor disco do ano até agora na minha opinião] como clássico prestes a acontecer." (Miguel Arsénio/Bodyspace.net)


Sasha Grey, 21 anos, é um fenômeno. Ela é estrela da indústria pornográfica e tem projeto musical experimental, com influência de Throbbing Gristle. Chama-se aTelecine. Participou cantando no disco deste ano dos Current 93 (um dos melhores do ano até agora na minha opinião), estrelou clipe e encarte dos Smashing Pumpkins, é atriz no novo filme do Steven Soderbergh, 'The girlfriend experience', e tem como co-empresário (?) o guitarrista Dave Navarro.



No ano passado, Sasha foi a artista mais jovem a receber o prêmio de melhor atriz pornô da Adult Video News (AVN). Já acumula 10 prêmios AVN. Em entrevista à revista Ele & Ela, em 2006, ela disse que nasceu em Fortaleza, no Ceará. Mas também já se disse que ela nasceu em Sacramento, na Califórnia, e em Gary, no estado de Indiana. Veja abaixo como é fácil ter essa dúvida.


Exibir mapa ampliado

Os cinco filmes preferidos da Sasha são:

Herzog - Stroszek
Catherine Breillat - Fat girl
Godard - Pierrot le fou
Cassavetes - A woman under the influence
Carpenter - Fuga de Nova York


Rolling Stone, com supressões minhas:

Aos 21 anos, ela já conseguiu dar seu pulo do gato: é a princesa reinante da indústria do entretenimento adulto, premiada como Atriz do Ano de 2008 pela revista Adult Video News; é musa de estrelas do rock, apareceu em clipes do Smashing Pumpkins e do The Roots; e, o mais impressionante, ela pode vir a causar sensação em outro ramo - estreou no cinema como a protagonista de The Girlfriend Experience, filme de Steven Soderbergh em cartaz nos Estados Unidos.

Com 1,70 metro, 50 quilos e cabelo preto liso que chega até a região lombar, o corpo nu de Sasha é um primor, natural; sua pele lisa não tem marcas nem tatuagens (seu físico se parece com o da atriz Kate Beckinsale, e seu jeito é uma mistura de languidez e arrogância brutal). "Até onde eu sei, meninas do tipo 'suicide girls', com cabelo preto e tatuagens, são as novas loiras com peitão de silicone", ela fala. "Aquelas mulheres são todas iguais, idiotas."

"Adoro o fato de Sasha ser intimidadora, poderosa e introspectiva", diz o guitarrista Dave Navarro, ex-Red Hot Chili Peppers e Jane's Addiction, que dirigiu Sasha no pornô Broken e hoje é o coempresário dela. "Quando se está perto, você não sabe o que ela está pensando, mas fica morrendo de vontade de saber."

No futuro, pode ser que Sasha venha a travar muitas batalhas contra a sociedade, mas, hoje, só está atrás de uma: a liberação da sexualidade feminina. "Quero dizer às garotas que sexo é legal", ela diz. "Tudo bem ser vagabunda. Não precisa ter vergonha. As pessoas acham que as mulheres não conseguem entender o sexo, que haverá consequências pelas nossas ações, mas nós somos capazes de ser tão analíticas quanto qualquer um."

Ela é famosa por ter pedido ao ator que contracenava com ela em sua cena de estreia que lhe desse um soco no estômago. Ela afirma que tem orgasmos genuínos pelo menos três quartos do tempo quando está em cena. "Muitas mulheres que fazem pornô fingem, mas eu nunca peguei Sasha fazendo isso", diz o ator Randy Spears. "Quando ela diz coisas fortes na frente da câmera, ela fala sério, porque está tentando nos matar. Nessa hora, ela só vai desistir se isso acontecer."

Menina com jeito de menino, um tanto reservada, nunca brincou de Barbie; preferia escutar Beatles e Rolling Stones, depois Black Sabbath e Led Zeppelin, seguidos por Skinny Puppy e Nine Inch Nails. "Teve uma menina que disse: 'Sempre tive medo de que você fosse me bater', e eu nunca tinha falado com ela", Sasha ri. "É engraçado como a gente passa uma impressão para alguém sem nunca ter dito nada."

Participei de uma matéria do Danilo Fantinel para o blog Volume, sobre o Dia Mundial do Rock e o livro dos 1001 discos. Exaltei Nick Drake.

  

Quando começou a baixar os discos?

24 de junho.

 

Quantos já baixou?

13.

 

Desses, quantos eram de rock (seja qual for a vertente...)?

Não sei dizer. De um (indubitavelmente rock) a dez.

 

Quais os mais raros na sua opinião?

São esses:

Moss side story, de Barry Adamson

Back At The Chicken Shack, de Jimmy Smith

Oedipus Shmoedipus, de Barry Adamson

Qui sème le vent récolte le tempo, de Mc Solaar

 

Dos que baixou, quais os três melhores?

Pink moon, de Nick Drake

Five leaves left, de Nick Drake

Songs from a room, de Leonard Cohen

 

Quais os três que você não gostou?

Gostei MENOS (não cheguei a não gostar):

The new tango, de Astor Piazzolla & Gary Burton

Scott 2, de Scott Walker

Scott 4, de Scott Walker

 

Quais os discos você nunca encontrou na internet?

Bailarina, do Mechanosphere, projeto do vocalista dos Mão Morta.