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terça-feira, 29 de agosto de 2017
"O mais impressionante neste momento da história brasileira é como discursos normativos mostram rapidamente seu caráter farsesco. Nos últimos anos ouvimos vários setores da população a clamar por moralidade na política. Agora, muitos deles usam de argumentos do tipo: "Mas a queda de Temer provocará instabilidade no grande programa de retomada do crescimento". No que eles demonstram que, no Brasil, você pode fazer toda forma de crime e degradação, desde que defenda os interesses econômicos hegemônicos." (Vladimir Safatle)
"Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão."
(Álvaro de Campos)
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão."
(Álvaro de Campos)
As Revelações - agora no Facebook.
Duas manchetes no clicRBS (uma exatamente ao lado da outra):
"Piratini anuncia construção de três novos presídios"
"RS corta mais de 2 mil turmas nas escolas estaduais"
"Piratini anuncia construção de três novos presídios"
"RS corta mais de 2 mil turmas nas escolas estaduais"
"A coragem não é o oposto do desespero. Muitas vezes teremos de enfrentar o desespero, como tem acontecido a todas as pessoas sensíveis nas últimas décadas. Por isso Kierkegaard e Nietzsche, Camus e Sartre afirmam que a coragem não é a ausência do desespero, mas a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero." (Rollo May em A CORAGEM DE CRIAR)
"Alegrar-se é ser capaz de sustentar o infinito." (Viviane Mosé)
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arte,
filosofia,
literatura,
psicologia
"O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece no equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade." (Jung)
“Como líderes, precisamos encontrar maneiras de ajudar as pessoas a trabalhar com paz interior, mesmo em meio ao tumulto. Experimente começar qualquer tarefa com dois minutos de contemplação silenciosa. Veja o poder que resulta desse hábito. É incrível como tudo muda quando temos esses momentos de lembrança de Deus. Ficamos mais abertos para sugestões e reclamações. E mais sábios para a tomada de decisões. Líderes que amam também escutam com humildade e sinceridade àqueles que fazem parte da organização.” (Dadi Prakashmani)
<< Novamente, o futebol reproduz a lógica de que toda vítima de injúria racial é culpada até que se prove o contrário. Aranha, agora como atleta da Ponte Preta, voltou à Arena do Grêmio neste domingo. Dirigentes gremistas chegaram ao ponto de destacar uma câmera no estádio para acompanhar cada movimento do goleiro no decorrer da partida. Nestor Hein, diretor jurídico do clube, justificou a postura dizendo que Aranha se trata de “uma pessoa perigosa e difícil”. Ainda relembrou uma fala discriminatória do goleiro, em abril, para chamá-lo de homofóbico. Retórica torpe e ignorante, como se o fato de uma pessoa já ter cometido ato preconceituoso redimisse seus agressores de comportamento igualmente reprovável. (...) Ao longo de todo o processo, a queixa de Aranha foi desqualificada pelo Grêmio. Ele foi chamado de “macaco”, “encenador”, “mentiroso” e, agora, virou “pessoa perigosa”. Quem sofre tantas agressões, tem todo o direito de não aceitar um pedido – hipócrita, por sinal – de desculpas. Não, Romildo. As vaias a Aranha não fazem parte da cultura do futebol. Uma vítima de racismo jamais, em nenhuma circunstância, deveria ser hostilizada e vista como persona non grata no mesmo lugar onde gritos de “macaco” golpearam sua dignidade. (...) >> (Breiller Pires/El Pais)
"Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo." (Oscar Wilde)
Principais bandas de rock do Rock in Rio 2017 e os anos em que foram formadas.
1981 Pet Shop Boys
1970 Aerosmith
1977 Def Leppard
1982 Bon Jovi
1981 Tears For Fears
1985 Guns N' Roses
1964 The Who
1983 Red Hot Chili Peppers
1984 The Offspring
Só a Lady Gaga salva.
1981 Pet Shop Boys
1970 Aerosmith
1977 Def Leppard
1982 Bon Jovi
1981 Tears For Fears
1985 Guns N' Roses
1964 The Who
1983 Red Hot Chili Peppers
1984 The Offspring
Só a Lady Gaga salva.
"Arte é um órgão da vida humana que transmite a percepção racional para o campo dos sentimentos." (Leon Tolstói)
"Nunca aconteceria na Alemanha de um presidente sob suspeita de corrupção, com denúncia apresentada pela própria Procuradoria-Geral da República, não renunciar imediatamente ao cargo. Tivemos um caso notório na Alemanha [renúncia do presidente Christian Wulff, em fevereiro de 2012]. Tratava-se de 700 Euros. Mas, obviamente, assim que o procurador-geral apresentou a denúncia, estava claro para a opinião pública que o presidente tinha que renunciar. E foi o que ele fez. Aqui é outro mundo. Então eu posso entender a certa descrença que há aqui no atual desempenho do Judiciário, de alguns juízes e juízas." (Herta Däubler-Gmelin, ex-ministra da justiça da Alemanha)
Redes sociais empoderam indivíduos, mas viram nova praça de linchamento
ILUSTRADA• WALTER PORTO
"Tomara que leve um tiro na cara, vagabunda." Até hoje, mensagens assim são publicadas na página do Facebook criada para infernizar a vida de Mayara Petruso, a estudante que, quatro anos atrás, tuitou ofensas a nordestinos. Por causa dos comentários que a tornaram conhecida e odiada, ela perdeu o emprego, saiu da faculdade, mudou de São Paulo, foi condenada pela Justiça a prestar serviços comunitários e excluiu todas as suas contas em redes sociais. Nem assim foi esquecida na internet.
É um exemplo típico de linchamento virtual: em vez do apedrejamento e da violência física dos tempos medievais, a massa agride o suposto transgressor com avalanches de mensagens hostis na internet até obter seu assassinato social.
Para o mal e para o bem, "a internet colocou o poder de volta nas mãos das multidões", resume Jennifer Jacquet, professora do departamento de estudos ambientais da New York University especializada em dilemas de cooperação em larga escala.
Segundo essa especialista, o linchamento virtual de indivíduos comuns é problemático não só pela exposição pública da pessoa mas pela desproporção entre o delito e a punição, "a falta do devido processo legal e a indestrutibilidade das informações".
A agonia do linchado pode durar muito, como atesta a ex-estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky, que, em palestra no mês passado, se definiu como a primeira vítima da perda de reputação em escala global -seu envolvimento sexual com o então presidente dos EUA, Bill Clinton, eclodiu em 1998, junto com a popularização da internet no país.
Dezessete anos depois, Lewinsky diz ainda sofrer com a repercussão do episódio. Ela se emocionou ao lembrar que houve um período em que seus pais temiam que ela se suicidasse pela incapacidade de lidar com a vergonha. Eles chegavam a exigir que tomasse banho de porta aberta para que pudessem vigiá-la.
Por aqui, um sujeito que as redes sociais amaram odiar foi o mineiro Idelber Avelar, aquele professor de literatura da Universidade de Tulane (EUA) que acabou acusado de assédio sexual por duas mulheres na praça pública da internet. Segundo uma delas, ele a abordou em chats privados e subiu o tom das conversas ao enviar, sem autorização, mensagens e fotos de forte teor sexual.
O caso ainda corre na Justiça, mas ninguém esperou que a culpa ficasse provada ou que se estabelecesse a diferença entre sedução e assédio sexual para fazer o julgamento moral de Avelar, tachado de misógino e predador.
O professor disse à Folha que o episódio fez com que ele desenvolvesse um quadro de depressão, além de prejudicar sua reputação e sua carreira.
"Quebrou-se boa parte dos meus laços sociais, porque mesmo quem percebeu a injustiça passou a ter medo de se associar ao linchado", queixa-se.
O ambiente virtual favorece também a formação de aglomerações espontâneas que se dedicam tanto a fustigar pessoas específicas quanto a atacar grupos sociais.
Diretor do laboratório da natureza humana da Universidade Yale, o sociólogo e médico Nicholas Christakis explica o fenômeno com base no chamado "viés de grupo", tendência que temos a temer ou a odiar aqueles que não enxergamos como semelhantes.
É um conceito similar ao que o sociólogo americano Richard Sennett chama de tribalização: o impulso natural, animalesco, de solidariedade com os parecidos e agressão aos diferentes.
Um exemplo do modo como se manifesta essa emoção tribal foi visto logo depois da queda do avião da Germanwings nos Alpes franceses, em março. Nacionalistas espanhóis não demoraram a espalhar tuítes comemorando a tragédia que matou 150 pessoas -incluindo um grande número de catalães.
Nem por isso se pode demonizar a web, como alerta Christakis. "A internet não muda nossa humanidade, não nos está tornando mais rancorosos, mas permite que expressemos nosso ódio em maior escala", completa.
Em seu livro "Is Shame Necessary?" ("A Vergonha É Necessária?", ainda sem tradução no Brasil), a professora Jennifer Jacquet enxerga o lado positivo do fenômeno. Segundo ela, o constrangimento público facilitado pela tecnologia pode ser útil para que a sociedade civil exponha autoridades e empresas, reprovando ações que considere nocivas.
"A punição pela exposição pública age não apenas para desestimular um indivíduo a repetir comportamentos, mas para sinalizar à sociedade que um comportamento não é apropriado", reforça.
Seja como for, é melhor evitar exposição do que virar alvo de propaganda negativa na internet. É isso que aconselha Juliana Abrusio, professora do Mackenzie especializada em direito digital. Ela lembra que há mecanismos legais para pedir indenização na maioria dos casos, mas pondera a efetividade dessas medidas.
"A internet sufoca a dignidade da pessoa e não existe processo judicial que vá compensar isso", afirma. "Mesmo quem erra tem direito à dignidade."
ILUSTRADA• WALTER PORTO
"Tomara que leve um tiro na cara, vagabunda." Até hoje, mensagens assim são publicadas na página do Facebook criada para infernizar a vida de Mayara Petruso, a estudante que, quatro anos atrás, tuitou ofensas a nordestinos. Por causa dos comentários que a tornaram conhecida e odiada, ela perdeu o emprego, saiu da faculdade, mudou de São Paulo, foi condenada pela Justiça a prestar serviços comunitários e excluiu todas as suas contas em redes sociais. Nem assim foi esquecida na internet.
É um exemplo típico de linchamento virtual: em vez do apedrejamento e da violência física dos tempos medievais, a massa agride o suposto transgressor com avalanches de mensagens hostis na internet até obter seu assassinato social.
Para o mal e para o bem, "a internet colocou o poder de volta nas mãos das multidões", resume Jennifer Jacquet, professora do departamento de estudos ambientais da New York University especializada em dilemas de cooperação em larga escala.
Segundo essa especialista, o linchamento virtual de indivíduos comuns é problemático não só pela exposição pública da pessoa mas pela desproporção entre o delito e a punição, "a falta do devido processo legal e a indestrutibilidade das informações".
A agonia do linchado pode durar muito, como atesta a ex-estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky, que, em palestra no mês passado, se definiu como a primeira vítima da perda de reputação em escala global -seu envolvimento sexual com o então presidente dos EUA, Bill Clinton, eclodiu em 1998, junto com a popularização da internet no país.
Dezessete anos depois, Lewinsky diz ainda sofrer com a repercussão do episódio. Ela se emocionou ao lembrar que houve um período em que seus pais temiam que ela se suicidasse pela incapacidade de lidar com a vergonha. Eles chegavam a exigir que tomasse banho de porta aberta para que pudessem vigiá-la.
Por aqui, um sujeito que as redes sociais amaram odiar foi o mineiro Idelber Avelar, aquele professor de literatura da Universidade de Tulane (EUA) que acabou acusado de assédio sexual por duas mulheres na praça pública da internet. Segundo uma delas, ele a abordou em chats privados e subiu o tom das conversas ao enviar, sem autorização, mensagens e fotos de forte teor sexual.
O caso ainda corre na Justiça, mas ninguém esperou que a culpa ficasse provada ou que se estabelecesse a diferença entre sedução e assédio sexual para fazer o julgamento moral de Avelar, tachado de misógino e predador.
O professor disse à Folha que o episódio fez com que ele desenvolvesse um quadro de depressão, além de prejudicar sua reputação e sua carreira.
"Quebrou-se boa parte dos meus laços sociais, porque mesmo quem percebeu a injustiça passou a ter medo de se associar ao linchado", queixa-se.
O ambiente virtual favorece também a formação de aglomerações espontâneas que se dedicam tanto a fustigar pessoas específicas quanto a atacar grupos sociais.
Diretor do laboratório da natureza humana da Universidade Yale, o sociólogo e médico Nicholas Christakis explica o fenômeno com base no chamado "viés de grupo", tendência que temos a temer ou a odiar aqueles que não enxergamos como semelhantes.
É um conceito similar ao que o sociólogo americano Richard Sennett chama de tribalização: o impulso natural, animalesco, de solidariedade com os parecidos e agressão aos diferentes.
Um exemplo do modo como se manifesta essa emoção tribal foi visto logo depois da queda do avião da Germanwings nos Alpes franceses, em março. Nacionalistas espanhóis não demoraram a espalhar tuítes comemorando a tragédia que matou 150 pessoas -incluindo um grande número de catalães.
Nem por isso se pode demonizar a web, como alerta Christakis. "A internet não muda nossa humanidade, não nos está tornando mais rancorosos, mas permite que expressemos nosso ódio em maior escala", completa.
Em seu livro "Is Shame Necessary?" ("A Vergonha É Necessária?", ainda sem tradução no Brasil), a professora Jennifer Jacquet enxerga o lado positivo do fenômeno. Segundo ela, o constrangimento público facilitado pela tecnologia pode ser útil para que a sociedade civil exponha autoridades e empresas, reprovando ações que considere nocivas.
"A punição pela exposição pública age não apenas para desestimular um indivíduo a repetir comportamentos, mas para sinalizar à sociedade que um comportamento não é apropriado", reforça.
Seja como for, é melhor evitar exposição do que virar alvo de propaganda negativa na internet. É isso que aconselha Juliana Abrusio, professora do Mackenzie especializada em direito digital. Ela lembra que há mecanismos legais para pedir indenização na maioria dos casos, mas pondera a efetividade dessas medidas.
"A internet sufoca a dignidade da pessoa e não existe processo judicial que vá compensar isso", afirma. "Mesmo quem erra tem direito à dignidade."
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Blog do desembargador Renato Nalini
Linchamento virtual
A humanidade é cruel. Mas a crueldade pode se intensificar e ganhar requintes quando propagada pelas redes sociais. O mundo virtual desinibe, estimula o exercício da crítica e da ofensa. A ausência do alvo, uma pessoa física longe dos olhos do ofensor, faz com que este abuse. Exagere e perca o controle.
Os “linchamentos virtuais” passaram a ser um exercício comum nas redes. É o apedrejamento da antiguidade, a fogueira da Inquisição medieval. A avalanche de mensagens hostis na internet oprime, aterroriza e ocasiona o assassinato social.
Já me posicionei a favor da comunicação virtual, inclusive para propor que ela servisse à aferição imediata e sem custos da opinião da maioria. Pode ser um instrumento de implementação da Democracia direta. Substitui com vantagens a consulta formal, convencional, o exercício do sufrágio mediante comparecimento físico do eleitor ao local onde exteriorizará a sua opinião. Mas para o lado mau, a multidão já está a desempenhar o seu terrível poder.
A perseguição de algumas vítimas nas redes é desproporcional. Expõe a pessoa a um público de dimensões ignoradas, não observa o contraditório, que caracteriza o devido processo legal e, pior ainda, as informações são indestrutíveis.
A punição é praticamente eterna. Ultrapassa o prazo vitalício. Incentiva o chamado “viés de grupo”, ou seja, a tendência que se tem de temer ou odiar os que não enxergamos como semelhantes. É o fenômeno que Richard Sennet, autor de “Juntos”, chama de tribalização: um impulso natural, animalesco, de solidariedade em relação aos parecidos e agressão contra os diferentes.
Mas será que a internet nos torna mais rancorosos, mais maldosos e insensíveis? Não. Já somos assim. A internet não muda a nossa humanidade, não nos torna mais cruéis, mas permite que expressemos nosso ódio em maior escala. É o que afirma Nicholas Christakis, diretor do laboratório da natureza humana de Yale. Já a escritora Jennifer Jacquet, em seu livro “Is Shame Necessary?” (A vergonha é necessária?), enxerga um aspecto positivo: “A punição pela exposição pública age não apenas para desestimular um indivíduo a repetir comportamentos, mas para sinalizar à sociedade que uma conduta não é apropriada”. Quem sofre o linchamento moral pela internet já não consegue pensar da mesma maneira.
_______________________________________________________________________________
JOSÉ RENATO NALINI foi presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015.
Linchamento virtual
A humanidade é cruel. Mas a crueldade pode se intensificar e ganhar requintes quando propagada pelas redes sociais. O mundo virtual desinibe, estimula o exercício da crítica e da ofensa. A ausência do alvo, uma pessoa física longe dos olhos do ofensor, faz com que este abuse. Exagere e perca o controle.
Os “linchamentos virtuais” passaram a ser um exercício comum nas redes. É o apedrejamento da antiguidade, a fogueira da Inquisição medieval. A avalanche de mensagens hostis na internet oprime, aterroriza e ocasiona o assassinato social.
Já me posicionei a favor da comunicação virtual, inclusive para propor que ela servisse à aferição imediata e sem custos da opinião da maioria. Pode ser um instrumento de implementação da Democracia direta. Substitui com vantagens a consulta formal, convencional, o exercício do sufrágio mediante comparecimento físico do eleitor ao local onde exteriorizará a sua opinião. Mas para o lado mau, a multidão já está a desempenhar o seu terrível poder.
A perseguição de algumas vítimas nas redes é desproporcional. Expõe a pessoa a um público de dimensões ignoradas, não observa o contraditório, que caracteriza o devido processo legal e, pior ainda, as informações são indestrutíveis.
A punição é praticamente eterna. Ultrapassa o prazo vitalício. Incentiva o chamado “viés de grupo”, ou seja, a tendência que se tem de temer ou odiar os que não enxergamos como semelhantes. É o fenômeno que Richard Sennet, autor de “Juntos”, chama de tribalização: um impulso natural, animalesco, de solidariedade em relação aos parecidos e agressão contra os diferentes.
Mas será que a internet nos torna mais rancorosos, mais maldosos e insensíveis? Não. Já somos assim. A internet não muda a nossa humanidade, não nos torna mais cruéis, mas permite que expressemos nosso ódio em maior escala. É o que afirma Nicholas Christakis, diretor do laboratório da natureza humana de Yale. Já a escritora Jennifer Jacquet, em seu livro “Is Shame Necessary?” (A vergonha é necessária?), enxerga um aspecto positivo: “A punição pela exposição pública age não apenas para desestimular um indivíduo a repetir comportamentos, mas para sinalizar à sociedade que uma conduta não é apropriada”. Quem sofre o linchamento moral pela internet já não consegue pensar da mesma maneira.
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JOSÉ RENATO NALINI foi presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015.
Quando vergonha pública e linchamento virtual saem do controle
(Ana Freitas/Nexo)
A vergonha foi usada ao longo da história como ferramenta de controle em punições legais que determinavam açoitamento público, por exemplo, ou quando o regime nazista instituiu o uso de uma braçadeira com a estrela de David para os judeus. A professora de Estudos Ambientais da Universidade de Nova York, Jennifer Jacquet, autora do livro “Is shame necessary?: new uses for an old tool” (A vergonha é necessária?: novos usos para uma velha ferramenta), alerta para o poder que a internet coloca na mão das multidões, para o bem e para o mal. A perseguição virtual de pessoas comuns, para ela, é um problema porque muitas vezes gera consequências desproporcionais para o indivíduo em comparação à infração que ele cometeu. E é alimentado pelo viés de grupo, fenômeno social que gera sentimento de ódio ou medo em relação àqueles que consideramos diferentes. O linchamento virtual adquire outro caráter quando lembramos que as informações que publicamos e registramos na rede são difíceis de apagar. Além do impacto imediato na vida da pessoa que foi linchada, ela pode seguir sendo punida por uma mancha enorme em sua reputação pelo resto da vida: basta uma busca no Google. Jornalista Luis Nassif defendeu que “Não se pode utilizar um canhão para matar um mosquito”.
Nas redes sociais, alguns debates chamaram atenção para outra consequência do linchamento virtual: quando o caso toma corpo, ele pode tomar como o único inimigo a ser combatido. Na fúria de punir alguém por ser racista, machista ou homofóbico, a discussão acaba se voltando apenas contra aquele indivíduo, e não dialoga com o problema estrutural e social que geraram aquele discurso em primeiro lugar - e prevalência do mesmo discurso no cotidiano, mas da boca de outras pessoas.
“Nessas redes sociais a gente é muito duro com o erro dos outros e pouquíssimo com o nosso. Se a gente invertesse isso, sabendo que todo mundo erra, seria muito mais simples pra todo mundo. Hoje eu penso duas vezes antes de criticar alguém.” (Milly Lacombe Jornalista, em uma entrevista à revista Trip, sobre um episódio em que foi humilhada publicamente por um erro factual em 2006.)
(Ana Freitas/Nexo)
A vergonha foi usada ao longo da história como ferramenta de controle em punições legais que determinavam açoitamento público, por exemplo, ou quando o regime nazista instituiu o uso de uma braçadeira com a estrela de David para os judeus. A professora de Estudos Ambientais da Universidade de Nova York, Jennifer Jacquet, autora do livro “Is shame necessary?: new uses for an old tool” (A vergonha é necessária?: novos usos para uma velha ferramenta), alerta para o poder que a internet coloca na mão das multidões, para o bem e para o mal. A perseguição virtual de pessoas comuns, para ela, é um problema porque muitas vezes gera consequências desproporcionais para o indivíduo em comparação à infração que ele cometeu. E é alimentado pelo viés de grupo, fenômeno social que gera sentimento de ódio ou medo em relação àqueles que consideramos diferentes. O linchamento virtual adquire outro caráter quando lembramos que as informações que publicamos e registramos na rede são difíceis de apagar. Além do impacto imediato na vida da pessoa que foi linchada, ela pode seguir sendo punida por uma mancha enorme em sua reputação pelo resto da vida: basta uma busca no Google. Jornalista Luis Nassif defendeu que “Não se pode utilizar um canhão para matar um mosquito”.
Nas redes sociais, alguns debates chamaram atenção para outra consequência do linchamento virtual: quando o caso toma corpo, ele pode tomar como o único inimigo a ser combatido. Na fúria de punir alguém por ser racista, machista ou homofóbico, a discussão acaba se voltando apenas contra aquele indivíduo, e não dialoga com o problema estrutural e social que geraram aquele discurso em primeiro lugar - e prevalência do mesmo discurso no cotidiano, mas da boca de outras pessoas.
“Nessas redes sociais a gente é muito duro com o erro dos outros e pouquíssimo com o nosso. Se a gente invertesse isso, sabendo que todo mundo erra, seria muito mais simples pra todo mundo. Hoje eu penso duas vezes antes de criticar alguém.” (Milly Lacombe Jornalista, em uma entrevista à revista Trip, sobre um episódio em que foi humilhada publicamente por um erro factual em 2006.)
A militância irresponsável que você deveria evitar
Vale a pena por a vida pessoal de pessoas em xeque de maneira irresponsável?
Existe bandas ali que tem mulheres como integrante, mulheres militantes e responsáveis de verdade, que podem ter sua imagem prejudicada de forma irreversível por causa de histórias sem averiguação ou de coisas que não têm culpa.
É muito delicado falar sobre isso porque hoje recebemos rótulos de biscoiteira e passadora de pano a troco de nada, só por tentar levantar contrapontos que devem sim ser questionados. Então é ciente da dor de cabeça que digo: e se tem pessoas ali que já resolveram as situações, refletiram e mudaram e, mesmo assim vão ser condenados sem chance nenhuma de evolução?
Eu acredito que a intenção de expor problemas que homens causam para mulheres, é gerar consciência e fazer que as pessoas passem a refletir sobre seus atos e mudar. Ninguém deve ser condenado eternamente se estiver disposto a reconhecer erros e melhorar. Se você for um Bolsominion eu até entendo o pensamento de que bandido bom é bandido morto ou que não existe perdão pra erro algum, aí nem discuto.
Caso o macho em questão ainda cause estrago na vida de pessoas, aí ele tem mais é que se lascar mesmo, ser exposto e até preso, mas é esse o caso de todos ali? Temos certeza disso? Será que não estamos amarrando pessoas em postes?
Vi a autora da matéria em seu perfil pessoal comemorando que, por conta desse caso, ela apareceu em uma revista famosa, de uma editora que apoiou a ditadura e é uma grande financiadora da desigualdade social, se é que vocês me entendem. Comemorar que está em uma revista feminina que reforça padrões estéticos e comportamentos, que se apropria de feminismo para ganhar audiência enquanto dá dicas de como ser padrão, não me parece muito coerente. Ela dizia que estava contente com a fama gerada por essa matéria. Mas vale a pena ser reconhecida por um feito tão imaturo e irresponsável?
Esse é o grande problema do feminismo hype: ninguém tem consciência de nada que está fazendo e estraga a luta como um todo. Afeta a legitimidade de quem realmente milita pela causa e, pior, pode fazer com que vítimas sejam colocadas em descrédito devido à essa banalização.
Toda luta social deve ser bem pensada.
Eu sou feminista, antifa, luto com unhas e dentes pelo que acredito. E mais, sou vítima real de abuso e agressão, já tomei soco na cara de namorado e coisas piores. No dia do #meuamigosecreto, relatei pela primeira vez, em um pequeno parágrafo, sem muitos detalhes o que eu passei e perdi amizades, sofri ameaças, ao mesmo tempo que fiquei aliviada por colocar aquilo pra fora. Entendo o que motiva um relato a ser feito e a importância disso. Sempre que posso dou suporte à mulheres que, como eu, foram vítimas, já acompanhei companheiras até a delegacia e em seus processos contra agressores, recentemente escrevi uma matéria para uma revista para tentar dar mais visibilidade á um projeto que dá assistência gratuita para mulheres em situação de abuso e têm dificuldades sócio-econômicas, fui inclusive administradora de um grupo cujo propósito era denúncias de agressão e abusos. Eu não passo pano pra ninguém, já encerrei amizades de anos por constatar que a pessoa não queria mudar. Mas aprendi também que devo me preocupar com as intenções e consequências dos meus atos. Lutas são mais intensas e tem mais camadas do que a maioria das pessoas conhecem e conseguem refletir. Estamos em uma era onde comemoramos marcas pregando diversidade sem pensar que essas mesmas marcas financiam a segregação. Também estamos em tempos de linchamento virtual inconsequente. Vi em comentários no Facebook pessoas dizendo coisas como: “Mas eu não vou com a cara do povo dessa banda, tomara que se ferrem, nunca gostei”.
Espera aí. Você acha que a pessoa deve se ferrar porque não vai com a cara ou não gosta dela sem motivo sólido? Poxa…
E o pior foi quando vi uma pessoa dizendo tranquilamente que um dos caras era estuprador, quando o relato que menciona esse cara não diz sobre estupro em momento algum e isso nunca aconteceu. Dizer que uma pessoa é acusada de estupro só porque “acha” é de um absurdo sem tamanho. Olha aonde estamos chegando com a ânsia de um bafão!
Qual o nosso direito de sentenciar uma pessoa e malhar um Judas sem nem ter nada concreto pra isso? Precisa bater em cachorro morto?
Como eu já disse, entendo a importância de expor esses casos e aplaudo muitas das mulheres que o fazem, inclusive a ex-mulher do Felipe do Apanhador Só, banda só de homens que se apropria de discurso feminista para ganhar fama. Vejo inclusive como é importante que homens passem a ter medo e pensar duas vezes antes de ser babaca com uma mulher. Também é bom mencionar como é legal a forma que outras pessoas se enxergam nos relatos e a partir daí passam a refletir sobre suas próprias situações abusivas. O que é errado é fazer isso sem pensar em consequências. Recentemente uma amiga foi processada pelo ex-namorado por causa de um relato no Facebook que não tinha nem mesmo o nome dele citado, ela perdeu a causa mesmo depois de recorrer e teve que pagar uma grana imensa pro imbecil. E essa garota tinha pelo menos condições financeiras e uma família que dava suporte, coisa que muitas meninas não têm, por isso toda cautela é necessária nesses casos. Conversar com uma pessoa que tenha noção jurídica antes de expor um caso é uma boa ideia e um bom começo para se proteger. Analisar se terá condições psicológicas e suporte pra enfrentar tudo que possa vir também é uma boa. Muita gente não aguenta a pressão que vem depois e se afoga em depressão. Isso é coisa séria!
Desejo com sinceridade que a casa de macho babaca caia cada vez mais, mas também desejo dar uma segunda chance pra quem se propõe a refletir e mudar. Casos onde envolvem estupro e crimes contra vulneráveis, são mais graves, é de competência judicial e deve ser pago conforme a lei. Mas acredito que tem outras situações fora desse patamar onde uma boa reflexão sobre privilégios e empatia pode ser muito produtiva. Tem que sofrer consequências sim, mas se a pessoa se propor a mudar, por que apedrejar pra sempre? O que a gente quer é que ele pare de prejudicar outras companheiras. Se o cara voltar a insistir no erro, aí é outra história.
Ser papagaio é a pior coisa que podemos ser em tempos de ódio social. Antes de compartilhar uma matéria ou replicar uma informação, é nossa responsabilidade pensar se aquilo é prudente e se as informações são verídicas. Caso contrário seremos mais um agente de disseminação de ódio gratuito. Não julgo quem compartilhou essa matéria porque as mulheres estão cansadas de tanto absurdo vindo de homens que saem impunes devido à fama ou por causa da casca de esquerdomacho bonzinho.
De tudo, pelo menos essa questão da impunidade foi colocada em foco e será mais discutida. Isso é muito bom. Mas as consequências da imaturidade e irresponsabilidade que uma matéria como a do Apoie a Cena podem causar são muito sérias. Entendo a intenção da matéria, ela poderia ser muito boa se feita com responsabilidade, com mais consciência e pesquisa e, principalmente, com considerações colocadas sobre como devemos lidar com aquelas informações ao invés de apenas soltá-las.
Minha intenção escrevendo tudo isso é incentivar que a sejamos mais inteligentes no combate ás injustiças sociais e de gênero, conscientes de que cada ato envolve um todo e que para alcançar resultados eficazes, devemos pensar nesse todo. Deve sim haver veemência, ninguém tem que ficar em cima de muro, mas pensar antes de agir é mais que fundamental.
Toda militância deve ser inteligente, isso o hype nunca vai te ensinar.
Vale a pena por a vida pessoal de pessoas em xeque de maneira irresponsável?
Existe bandas ali que tem mulheres como integrante, mulheres militantes e responsáveis de verdade, que podem ter sua imagem prejudicada de forma irreversível por causa de histórias sem averiguação ou de coisas que não têm culpa.
É muito delicado falar sobre isso porque hoje recebemos rótulos de biscoiteira e passadora de pano a troco de nada, só por tentar levantar contrapontos que devem sim ser questionados. Então é ciente da dor de cabeça que digo: e se tem pessoas ali que já resolveram as situações, refletiram e mudaram e, mesmo assim vão ser condenados sem chance nenhuma de evolução?
Eu acredito que a intenção de expor problemas que homens causam para mulheres, é gerar consciência e fazer que as pessoas passem a refletir sobre seus atos e mudar. Ninguém deve ser condenado eternamente se estiver disposto a reconhecer erros e melhorar. Se você for um Bolsominion eu até entendo o pensamento de que bandido bom é bandido morto ou que não existe perdão pra erro algum, aí nem discuto.
Caso o macho em questão ainda cause estrago na vida de pessoas, aí ele tem mais é que se lascar mesmo, ser exposto e até preso, mas é esse o caso de todos ali? Temos certeza disso? Será que não estamos amarrando pessoas em postes?
Vi a autora da matéria em seu perfil pessoal comemorando que, por conta desse caso, ela apareceu em uma revista famosa, de uma editora que apoiou a ditadura e é uma grande financiadora da desigualdade social, se é que vocês me entendem. Comemorar que está em uma revista feminina que reforça padrões estéticos e comportamentos, que se apropria de feminismo para ganhar audiência enquanto dá dicas de como ser padrão, não me parece muito coerente. Ela dizia que estava contente com a fama gerada por essa matéria. Mas vale a pena ser reconhecida por um feito tão imaturo e irresponsável?
Esse é o grande problema do feminismo hype: ninguém tem consciência de nada que está fazendo e estraga a luta como um todo. Afeta a legitimidade de quem realmente milita pela causa e, pior, pode fazer com que vítimas sejam colocadas em descrédito devido à essa banalização.
Toda luta social deve ser bem pensada.
Eu sou feminista, antifa, luto com unhas e dentes pelo que acredito. E mais, sou vítima real de abuso e agressão, já tomei soco na cara de namorado e coisas piores. No dia do #meuamigosecreto, relatei pela primeira vez, em um pequeno parágrafo, sem muitos detalhes o que eu passei e perdi amizades, sofri ameaças, ao mesmo tempo que fiquei aliviada por colocar aquilo pra fora. Entendo o que motiva um relato a ser feito e a importância disso. Sempre que posso dou suporte à mulheres que, como eu, foram vítimas, já acompanhei companheiras até a delegacia e em seus processos contra agressores, recentemente escrevi uma matéria para uma revista para tentar dar mais visibilidade á um projeto que dá assistência gratuita para mulheres em situação de abuso e têm dificuldades sócio-econômicas, fui inclusive administradora de um grupo cujo propósito era denúncias de agressão e abusos. Eu não passo pano pra ninguém, já encerrei amizades de anos por constatar que a pessoa não queria mudar. Mas aprendi também que devo me preocupar com as intenções e consequências dos meus atos. Lutas são mais intensas e tem mais camadas do que a maioria das pessoas conhecem e conseguem refletir. Estamos em uma era onde comemoramos marcas pregando diversidade sem pensar que essas mesmas marcas financiam a segregação. Também estamos em tempos de linchamento virtual inconsequente. Vi em comentários no Facebook pessoas dizendo coisas como: “Mas eu não vou com a cara do povo dessa banda, tomara que se ferrem, nunca gostei”.
Espera aí. Você acha que a pessoa deve se ferrar porque não vai com a cara ou não gosta dela sem motivo sólido? Poxa…
E o pior foi quando vi uma pessoa dizendo tranquilamente que um dos caras era estuprador, quando o relato que menciona esse cara não diz sobre estupro em momento algum e isso nunca aconteceu. Dizer que uma pessoa é acusada de estupro só porque “acha” é de um absurdo sem tamanho. Olha aonde estamos chegando com a ânsia de um bafão!
Qual o nosso direito de sentenciar uma pessoa e malhar um Judas sem nem ter nada concreto pra isso? Precisa bater em cachorro morto?
Como eu já disse, entendo a importância de expor esses casos e aplaudo muitas das mulheres que o fazem, inclusive a ex-mulher do Felipe do Apanhador Só, banda só de homens que se apropria de discurso feminista para ganhar fama. Vejo inclusive como é importante que homens passem a ter medo e pensar duas vezes antes de ser babaca com uma mulher. Também é bom mencionar como é legal a forma que outras pessoas se enxergam nos relatos e a partir daí passam a refletir sobre suas próprias situações abusivas. O que é errado é fazer isso sem pensar em consequências. Recentemente uma amiga foi processada pelo ex-namorado por causa de um relato no Facebook que não tinha nem mesmo o nome dele citado, ela perdeu a causa mesmo depois de recorrer e teve que pagar uma grana imensa pro imbecil. E essa garota tinha pelo menos condições financeiras e uma família que dava suporte, coisa que muitas meninas não têm, por isso toda cautela é necessária nesses casos. Conversar com uma pessoa que tenha noção jurídica antes de expor um caso é uma boa ideia e um bom começo para se proteger. Analisar se terá condições psicológicas e suporte pra enfrentar tudo que possa vir também é uma boa. Muita gente não aguenta a pressão que vem depois e se afoga em depressão. Isso é coisa séria!
Desejo com sinceridade que a casa de macho babaca caia cada vez mais, mas também desejo dar uma segunda chance pra quem se propõe a refletir e mudar. Casos onde envolvem estupro e crimes contra vulneráveis, são mais graves, é de competência judicial e deve ser pago conforme a lei. Mas acredito que tem outras situações fora desse patamar onde uma boa reflexão sobre privilégios e empatia pode ser muito produtiva. Tem que sofrer consequências sim, mas se a pessoa se propor a mudar, por que apedrejar pra sempre? O que a gente quer é que ele pare de prejudicar outras companheiras. Se o cara voltar a insistir no erro, aí é outra história.
Ser papagaio é a pior coisa que podemos ser em tempos de ódio social. Antes de compartilhar uma matéria ou replicar uma informação, é nossa responsabilidade pensar se aquilo é prudente e se as informações são verídicas. Caso contrário seremos mais um agente de disseminação de ódio gratuito. Não julgo quem compartilhou essa matéria porque as mulheres estão cansadas de tanto absurdo vindo de homens que saem impunes devido à fama ou por causa da casca de esquerdomacho bonzinho.
De tudo, pelo menos essa questão da impunidade foi colocada em foco e será mais discutida. Isso é muito bom. Mas as consequências da imaturidade e irresponsabilidade que uma matéria como a do Apoie a Cena podem causar são muito sérias. Entendo a intenção da matéria, ela poderia ser muito boa se feita com responsabilidade, com mais consciência e pesquisa e, principalmente, com considerações colocadas sobre como devemos lidar com aquelas informações ao invés de apenas soltá-las.
Minha intenção escrevendo tudo isso é incentivar que a sejamos mais inteligentes no combate ás injustiças sociais e de gênero, conscientes de que cada ato envolve um todo e que para alcançar resultados eficazes, devemos pensar nesse todo. Deve sim haver veemência, ninguém tem que ficar em cima de muro, mas pensar antes de agir é mais que fundamental.
Toda militância deve ser inteligente, isso o hype nunca vai te ensinar.
A misandria, o feminismo e o discurso de ódio
(Marina Legroski)
(...) A misandria é entendida como uma prática de defesa e empoderamento de mulheres vítimas de abusos e não como uma tática feminista obrigatória.
Fazendo um processo de pegar a parte pelo todo, a misandria parte do princípio que as atitudes que um homem teve seriam as mesmas que outro homem teria, uma vez que estão todos interligados e abençoados pelo discurso patriarcal que protege os homens na sociedade. Então, se um homem foi capaz de dizer ou fazer determinada coisa, todos os outros seriam. E se eu posso odiar um homem pelo que ele fez comigo, eu posso odiar a todos porque todos seriam iguais, agindo dentro do mesmo padrão de comportamento ditado pelas práticas sociais. E é neste ponto que eu afirmo que, enquanto feminista, não endosso a misandria. Não condeno e não deslegitimo, mas não adoto como prática minha.
E isso não porque eu não tenha empatia pelas vítimas do machismo opressor (tendo mesmo eu sido uma delas já que nasci mulher, com a sorte de nascer cis, branca, heterossexual) ou porque não entenda o empoderamento que isso pode gerar nas vítimas ou mesmo porque queira defender os homens e me compadeça das male tears.
Se, por um lado, todos os homens se beneficiam com o discurso do patriarcado, isso não significa que todos eles se sintam confortáveis com a opressão contra as mulheres. Aquilo que se entende por categoria política “homem” não é apenas formada por homens, mas por mulheres que replicam e endossam discursos do patriarcado.
(...) Na maior parte do tempo, é engraçado ver como as pessoas pensam de um jeito torto. Por outro lado, há conteúdos misândricos que apenas perpetuam papeis de gênero e eu mesma não consigo me sentir representada por isso.
Acredito que existe um perigo no fato de tratar indivíduos massificadamente, agrupando todos em grupos supostamente homogêneos. “Os homens cis” não são um coletivo homogêneo, são uma infinidade de pessoas com vivências, experiências, esperanças, opiniões, discursos que podem ou não se sobrepor, podem ou não se contradizer. Não acredito em “os homens” enquanto categoria, do mesmo jeito que repudio a ideia de “as mulheres” enquanto categoria, ou “os judeus”, “os gays”, “os pobres”, “os coxinhas”. É prerrogativa da ideia de categorização uma homogeneização que passe por cima das diferenças. Se somos contra os papeis de gênero binários, contra a sexualidade binária, contra a imagem tradicional de família (papai, mamãe e casal de filhos), é porque somos contra a homogeneização simplificadora e porque entendemos que é na diversidade que a graça acontece. Ora, por mais terríveis e atrozes que possam ser as atitudes machistas, e por mais que filosoficamente elas estejam ligadas aos homens, não é a todos os homens. Supor que um homem agiria da mesma forma que outro homem agiria é supor uma homogeneização que não existe e praticamente supor que o indivíduo é assujeitado e incapaz de pensar, agir e responder por si próprio.
Além disso, é fato que os homens são vítimas de violência por parte de homens e mulheres, notadamente dos que propagam o discurso patriarcal. Já ouvi diversos relatos de homens forçados a transar e que se sentiram mal por isso, homens que foram ridicularizados por não saber x ou y que supostamente um homem deveria saber ou por estar fora de qualquer tipo de padrão do que “se espera de um homem”. Não estou defendendo male tears: estou dizendo que quando eu pego um ser humano que foi vítima e ridicularizo a situação (qualquer que seja) que o fez se sentir oprimido e, ao invés de tentar entender e ajudar, faço ele de mártir por todo o sofrimento que (outros) homens causaram às mulheres, eu estou tendo uma atitude nada empática e de forma alguma contribuo com a mudança do mundo. Contribuo pra criar um traumatizado que sente que não tem apoio em lugar nenhum. E isso pode gerar ódio nele, num ciclo sem fim…
Se existe um objetivo ao qual eu, enquanto mulher, feminista, vegetariana, esquerdista etc quero chegar, ele é o fim da opressão contra toda e qualquer categoria, seja ela a minoria ou a maioria, seja ela a classe do opressor ou a classe do oprimido. Acredito profundamente que homens e mulheres merecem o mesmo tratamento em todos os âmbitos e sonho com o fim da opressão dos papeis de gênero homens e mulheres cis e trans. É claro que os mascus que infernizam a vida das feministas estão completamente errados e merecem punição por isso. Mas a maioria das pessoas que repete discursos só o faz porque estes discursos estão enraizados nas suas próprias crenças e nunca refletiram sobre isso. Neste sentido, outras vertentes do feminismo (radical ou não) procuram, sem ódio contra categorias ou indivíduos, promover o debate. Acredito que, por meio da argumentação e da nossa própria prática, podemos mudar as atitudes dos outros sem violência.
E principalmente não gosto da ideia do oprimido querer se tornar opressor.
(Marina Legroski)
(...) A misandria é entendida como uma prática de defesa e empoderamento de mulheres vítimas de abusos e não como uma tática feminista obrigatória.
Fazendo um processo de pegar a parte pelo todo, a misandria parte do princípio que as atitudes que um homem teve seriam as mesmas que outro homem teria, uma vez que estão todos interligados e abençoados pelo discurso patriarcal que protege os homens na sociedade. Então, se um homem foi capaz de dizer ou fazer determinada coisa, todos os outros seriam. E se eu posso odiar um homem pelo que ele fez comigo, eu posso odiar a todos porque todos seriam iguais, agindo dentro do mesmo padrão de comportamento ditado pelas práticas sociais. E é neste ponto que eu afirmo que, enquanto feminista, não endosso a misandria. Não condeno e não deslegitimo, mas não adoto como prática minha.
E isso não porque eu não tenha empatia pelas vítimas do machismo opressor (tendo mesmo eu sido uma delas já que nasci mulher, com a sorte de nascer cis, branca, heterossexual) ou porque não entenda o empoderamento que isso pode gerar nas vítimas ou mesmo porque queira defender os homens e me compadeça das male tears.
Se, por um lado, todos os homens se beneficiam com o discurso do patriarcado, isso não significa que todos eles se sintam confortáveis com a opressão contra as mulheres. Aquilo que se entende por categoria política “homem” não é apenas formada por homens, mas por mulheres que replicam e endossam discursos do patriarcado.
(...) Na maior parte do tempo, é engraçado ver como as pessoas pensam de um jeito torto. Por outro lado, há conteúdos misândricos que apenas perpetuam papeis de gênero e eu mesma não consigo me sentir representada por isso.
Acredito que existe um perigo no fato de tratar indivíduos massificadamente, agrupando todos em grupos supostamente homogêneos. “Os homens cis” não são um coletivo homogêneo, são uma infinidade de pessoas com vivências, experiências, esperanças, opiniões, discursos que podem ou não se sobrepor, podem ou não se contradizer. Não acredito em “os homens” enquanto categoria, do mesmo jeito que repudio a ideia de “as mulheres” enquanto categoria, ou “os judeus”, “os gays”, “os pobres”, “os coxinhas”. É prerrogativa da ideia de categorização uma homogeneização que passe por cima das diferenças. Se somos contra os papeis de gênero binários, contra a sexualidade binária, contra a imagem tradicional de família (papai, mamãe e casal de filhos), é porque somos contra a homogeneização simplificadora e porque entendemos que é na diversidade que a graça acontece. Ora, por mais terríveis e atrozes que possam ser as atitudes machistas, e por mais que filosoficamente elas estejam ligadas aos homens, não é a todos os homens. Supor que um homem agiria da mesma forma que outro homem agiria é supor uma homogeneização que não existe e praticamente supor que o indivíduo é assujeitado e incapaz de pensar, agir e responder por si próprio.
Além disso, é fato que os homens são vítimas de violência por parte de homens e mulheres, notadamente dos que propagam o discurso patriarcal. Já ouvi diversos relatos de homens forçados a transar e que se sentiram mal por isso, homens que foram ridicularizados por não saber x ou y que supostamente um homem deveria saber ou por estar fora de qualquer tipo de padrão do que “se espera de um homem”. Não estou defendendo male tears: estou dizendo que quando eu pego um ser humano que foi vítima e ridicularizo a situação (qualquer que seja) que o fez se sentir oprimido e, ao invés de tentar entender e ajudar, faço ele de mártir por todo o sofrimento que (outros) homens causaram às mulheres, eu estou tendo uma atitude nada empática e de forma alguma contribuo com a mudança do mundo. Contribuo pra criar um traumatizado que sente que não tem apoio em lugar nenhum. E isso pode gerar ódio nele, num ciclo sem fim…
Se existe um objetivo ao qual eu, enquanto mulher, feminista, vegetariana, esquerdista etc quero chegar, ele é o fim da opressão contra toda e qualquer categoria, seja ela a minoria ou a maioria, seja ela a classe do opressor ou a classe do oprimido. Acredito profundamente que homens e mulheres merecem o mesmo tratamento em todos os âmbitos e sonho com o fim da opressão dos papeis de gênero homens e mulheres cis e trans. É claro que os mascus que infernizam a vida das feministas estão completamente errados e merecem punição por isso. Mas a maioria das pessoas que repete discursos só o faz porque estes discursos estão enraizados nas suas próprias crenças e nunca refletiram sobre isso. Neste sentido, outras vertentes do feminismo (radical ou não) procuram, sem ódio contra categorias ou indivíduos, promover o debate. Acredito que, por meio da argumentação e da nossa própria prática, podemos mudar as atitudes dos outros sem violência.
E principalmente não gosto da ideia do oprimido querer se tornar opressor.
Retweeted Yoko Ono (@yokoono):
They may be refusing to listen, but they are hearing it. Oh, yes. So don't worry and keep talkin'.
They may be refusing to listen, but they are hearing it. Oh, yes. So don't worry and keep talkin'.
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Hold your anti-hate feeling strongly inside you. That will communicate more than whatever you say to them, and affect them as well.
Hold your anti-hate feeling strongly inside you. That will communicate more than whatever you say to them, and affect them as well.
Marcelli Cipriani:
(...) justiçamento como fenômeno coletivo, algo que tem perpassado a realidade social/virtual com cada vez mais frequência, sendo progressivamente banalizado e naturalizado. (...) Não tateio esse assunto como militante feminista, mas como socióloga que também é feminista, é esse o meu local de partida e o tipo de olhar que pretendo desenvolver. (...)
Não há como ter certeza, a priori, da veracidade de denúncias feitas fora da institucionalidade e de suas balizas (como a presunção de inocência), ainda que elas sejam referentes a violências caras aos movimentos de mulheres (estupro, pedofilia, abusos, etc.). Os riscos de partir dessa premissa, obviamente, são altíssimos, além de irreparáveis.
Apesar de ter havido a partilha generalizada da noção de que o escracho é relevante porque impacta a vida real de muitas mulheres, se seguiu insistindo na afirmação de que ele não gera qualquer impacto considerável na vida das pessoas que o sofreram. Foi comum ler a ideia de que "ninguém morreu" ou de que "não houve consequências sérias", o que é algo explicitamente desmentido pelos trabalhos feitos sobre o assunto e que demonstram um sem-fim de casos que vão desde agressões físicas a depressão e ansiedade generalizada, desbocando até no suicídio de pessoas justiçadas virtualmente.
Pode ser porque é difícil mesurar os resultados de milhares de comentários incitando violências das mais diversas e desqualificações generalizadas sobre a existência inteira de alguém, quando se é responsável por apenas um ou dois destes. (...) efeitos concretos nas vidas das pessoas, que podem perdurar indefinidamente e alcançar seus círculos de amizade e familiares, além de afetar o trabalho coletivo de várias pessoas que se encontram envolvidas nas práticas profissionais dos denunciados, e que nada têm a ver com o ocorrido.
Novamente, a importância da institucionalidade é produzir esse tipo de baliza: que a pena seja proporcional ao fato (e não esteja pautada pelo clamor social, independentemente do quão repulsivo for o ocorrido), e que ela não transcenda a pessoa do condenado, limitando-se àquele que cometeu o "delito" e não atingindo terceiros. (...) A noção coletiva de que "a consequência foi justa" normalmente esbarrou na retórica de que "o fato foi pior" (o que supõe a legitimidade moral de determinar qual a punição necessária a determinado ato, vinculando-se à ideia de justiça privada, que pode ser articulada por quem quer que seja, diante do ato condenável que for e atingindo qualquer pessoa, inclusive a partir de noções que seriam imediatamente rechaçadas por pessoas progressistas e tomadas como formas de violência ou autoritarismo se mudássemos as variáveis dessa equação). Ou, ainda, de que o escracho é justificável porque "mulheres são agredidas todos os dias", o que parece uma falsa questão, já que não soa absurdo questionar sobre, até que ponto, o justiçamento promove algum efeito sobre essas mulheres que se encontram em situação de violência cotidiana.
Não parece que a retórica de que "agora os demais vão ficar com medo de serem escrotos" seja realmente aplicável, vide tanto ao primeiro ponto (o escracho não funciona de forma "democrática"), quanto porque a própria prática circula dentro de um recorte específico, onde não necessariamente se encontram mulheres mais vulneráveis e que não têm ferramentas de libertação à sua disposição, mas onde estão aquelas que já compactuam com essas ideias, e que já detêm alguma agência não só para compreenderem um contexto de abuso, mas até, em muitos casos, para se desvincularem dele.
No mais, parece uma saída focada no individualismo e no imediatismo: (...) não importa o que seja dito, já há a pecha absoluta da desumanização. As desculpas eventualmente oferecidas são engolidas pela própria lógica do escracho e servem para realimentá-lo, já que, de nossas leituras, somos capazes de atestar que não foram genuínas o bastante, que não podem ser sinceras, que não servem de nada. Se cria, assim, um ciclo sem fim, onde não se sabe o que fazer com a retratação, onde se perde a possibilidade de arrependimento ou da própria ressocialização (assim como da mudança temporal e da noção processo, visto que se resgata fatos que ocorreram há três, cinco, dez anos para atestar a condição presente do indivíduo), e onde a retratação ao ato só reforça a essência execrável do sujeito. Assim, a sentença é imutável e absoluta: não há o que fazer dali para frente, e a única solução é o extermínio. (...)
Os carimbos identitários atingiram um patamar não antes visto. (...) A identidade virou, assim, mais do que "mulher" ou "homem", mas "mulher feminista" e "mulher que passa pano para macho" -- como se essa polarização fosse realmente verificável, e não uma ficção construída sob o clima de cruzada moral binária que atravessou as redes como um todo. Novamente, a ideia de que quem ousasse questionar a prática do escracho/justiçamento o fazia porque era homem foi corriqueira, aplastando e engolindo uma multiplicidade subjetiva de mulheres, como se o movimento feminista se reproduzisse em uma homogeneidade de condutas e formas de pensamento, e não em uma articulação político-estratégica capaz de abarcar a pluralidade de opiniões e o dissenso. (...)
Para além de tudo isso, ainda é preciso pensar como essas práticas produzem, ou deixam de produzir, articulações mais amplas com impactos sociais duráveis no machismo e, por outro lado, como podem (independentemente de nossa vontade), trazer consequências negativas à própria ideia de emancipação. Aí, se pode refletir, por exemplo, sobre como o escracho desloca o foco incansavelmente ao homem e não à mulher e à criação de formas para que ela possa identificar os sinais de relacionamentos violentos, estando mais apta a evitá-los; no aprofundamento das capacidades de agência (que exige uma saída da posição passiva) e não na reafirmação do lugar vitimização, que reforça a hipossuficiência (e que poderia ser deslocada para o da vulnerabilidade); na criação de mecanismos que não incorram nos riscos de falsos julgamentos, danos irreparáveis como os já vistos em outros casos, de reforços punitivistas, ou mesmo de descrédito generalizado nas instituições (que ainda são os únicos mecanismos à disposição da maioria das mulheres, e que precisam se tornar alinhados para o seu acolhimento).
Tão importante quanto isso, é preciso questionar as consequências de longo prazo desse tipo de tática no interior de uma estratégia libertadora, considerando-se os riscos eminentes de que a criação de identidades fixas e imutáveis (o abusador/o agressor/o monstro) gere um movimento oposto, no sentido de abrir espaço para uma ressignificação neutra (ou mesmo positiva) desses selos por parte dos homens. Corremos o risco, independentemente da validade de nossas razões, de fazer com que eles acabem, ao invés de assumindo um mea-culpa, acatando as pechas que lhes são lançadas e adentrando nas nossas lógicas, simplesmente as rechaçando, reconhecendo que são irrecuperáveis e perdendo a vergonha de se afirmarem como tal, como já vem sendo refletido em outros contextos (especialmente nos Estados Unidos). (...)
"Entendo, e respeito. Acho até que quem sofrerá intimamente será ela, não ele. O meu ponto é que nada disso me parece uma superação de um trauma, ou uma tentativa disso, mas uma vingança pessoal mesmo, boba e imatura. Caso leia as últimas postagens dela, há uma vibração em torno disso, inclusive com ameaças contra ele e os integrantes da banda. O que ela tem tentado fazer é dizer que isso é um processo de libertação, mas eu observei de outra forma, pois dizer que vai falar mais coisas caso tentem defender a banda parece sincero pra você? Por que escondeu essas coisas? Por que prolongar isso? O que importava, a princípio, não eram as denúncias? Agora ela só denuncia se a irritarem? Pra mim, ela está mais presa do que antes. (...) Acho que um dos piores desdobramentos dessa figura estática do homem é que, se ela existe, se o homem é um produto imutável, parado no tempo, com um destino unicamente opressor, inevitavelmente as mulheres também ocupam a posição de vítima por determinação natural. Tal tentativa de engessar o homem nessa identidade homogênea, contraditoriamente, vai de encontro às tentativas do feminismo de emergir formas plurais de ser mulher. Tem sido necessário notar que o combate às supostas essências deve vir acompanhado da alteridade, ou, como temos visto, a prática se torna uma política sem lógica. Outro problema é que essa acusação de passar pano pra homem, como se, enfim, o discurso conservador daquela postagem não falasse exatamente sobre isso, no sentido literal, do fracasso dessa mulher subserviente, é que noto uma tentativa de impor a narrativa coletiva, de uma cartilha muito bem vedada, que já está esgotada no sentido de suas definições, em cima das produções individuais - e isso, com maior ou menor rigor, tem sufocado as opiniões que divergem. Acho mais propositivo pensar um movimento que considere mais as trocas, os encontros, que valorize esse dissenso." (Sofia Favero, psicóloga)
Marshall Rosenberg, criador do método da Comunicação Não Violenta:
O tipo de mundo em que eu quero viver requer algumas mudanças sociais bastante significantes, mas as mudanças que eu quero ver acontecerem provavelmente não acontecerão a menos que as pessoas que trabalham para alcança-las manifestarem uma espiritualidade diferente daquela que criou as dificuldades em que vivemos hoje. Então, nosso treinamento é desenhado para ajudar as pessoas a se certificarem de que a espiritualidade que as guia é de sua própria escolha, e não uma que tenha sido internalizada através da cultura. E que elas continuem criando mudanças sociais a partir desta espiritualidade.
Eu acredito que é importante que as pessoas vejam que a espiritualidade está na base da Comunicação Não-Violenta e que elas aprendam a mecânica do processo da CNV com isto em mente. É de fato uma prática espiritual que eu estou tentando propor como um modo de vida. Mesmo que nós não mencionemos isto, as pessoas são seduzidas pela prática. Ainda que elas pratiquem a CNV como uma técnica mecânica, elas começam a experimentar coisas entre elas mesmas e outras pessoas que elas não eram capazes de experimentar antes. Então, elas acabam por atingir a espiritualidade do processo. Elas começam a ver que ele é mais que um processo de comunicação, e percebem que, na realidade, é uma tentativa de manifestar nossa espiritualidade. Eu tentei integrar a espiritualidade ao processo da CNV de uma forma que vai de encontro à minha necessidade de não destruir a beleza dele através do pensamento filosófico abstrato.
"Quase todas as religiões e mitologias que eu estudei trazem uma mensagem bastante similar, uma que Joseph Campbell, o mitólogo, resume em alguns de seus trabalhos: nunca faça nada que não seja um jogo [play]. E o que ele quer dizer por jogo é aquilo que contribui com empenho para a vida. Então, não faça nada para evitar punição, não faça nada por recompensas, não faça nada por culpa, vergonha, ou pelos viciosos conceitos de dever e obrigação. O que você fizer será um jogo quando você conseguir ver o que enriquece a vida. Eu tiro esta mensagem não só de minha compreensão sobre os ensinamentos do Buda, mas também do que aprendi sobre o Islã, o Cristianismo e o Judaísmo. Eu acredito que seja uma linguagem natural. Faça aquilo que contribui com a vida." (Marshall Rosenberg, criador do método da Comunicação Não Violenta)
<< Defensores das táticas black-bloc acreditam que os apelos à ação não-violenta são para os privilegiados e traidores. Sobre os chamados para um protesto pacífico, um defensor das ações black-bloc disse: "Este tipo de argumento pode levar a algo como ‘sente e espere que passe’. E não vai passar". Em última instância, contudo, as táticas black-bloc com frequência prejudicam as causas pelas quais estes ativistas alegam estar lutando. Ainda que confrontos violentos por vezes tenham produzido vantagens táticas de curto-prazo, elas quase sempre trazem custos dolorosos a longo prazo para os movimentos que buscam por mudanças – e as comunidades que eles se propõem a representar. Praticantes experientes da violência sabem que, para realmente se suprimir as divergências, é necessário ganhar a batalha política mais ampla por legitimidade. Não se compete por legitimidade nos extremos ideológicos, mas no centro – uma audiência que, geralmente, não pode ser persuadida a tomar ações violentas para seguir vigilantes mascarados até um futuro utópico desconhecido. Líderes precisam de pretextos para convencer o centro que é necessário que ocorra uma repressão intensa aos dissidentes. Historicamente, os governos têm explorado facilmente os ataques violentos para reafirmar sua legitimidade e suprimir grandes movimentos de dissidência não-violenta. Este é o paradoxo crucial da resistência: quanto mais opressor o adversário, mais a resistência deve se opor a jogar seu jogo. O custo estratégico das ações violentas reside no fato delas transformarem a luta em um tabuleiro de xadrez, no qual o regime tem uma vantagem clara. A história nos oferece amplas provas de como o fascismo responde a ações violentas no âmbito de movimentos mais amplos de resistência civil. >> (Erica Chenoweth)
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"Em Considering Hate, os acadêmicos e ativistas Kay Whitlock e Michael Bronski insistem em um novo entendimento do ódio – e um novo paradigma político centrado na bondade e na justiça. Não importa onde nos localizemos no universo político (esquerda, direita, centro, radicais, conservadores, qual seja!), há um impulso intenso em nos definirmos através de nossos inimigos – as pessoas que “odiamos”. Elas são a personificação da violência e da injustiça. De fato, elas são, com frequência, representadas como sendo as fontes da violência e da injustiça, camuflando as raízes estruturais destas forças. Enquanto isso, nós quase sempre enquadramos estes inimigos como sendo os perpetradores do “ódio”. Todos nós temos maior tendência a ver o ódio como originado em outro lugar – não dentro de nós, mas no interior de um outro inferior, que podemos desprezar e nos distanciar. Nossas realidades políticas se tornam determinadas por nossos adversários. (...) Algo de que eu realmente gostei no livro [Considering Hate] foi a ênfase em como rotular pessoas como “sociopatas” e “más” isenta a “nós” no que se relaciona a pensar sobre as raízes atuais da violência." (Maya Schenwar)
Há uma tentação de nos definirmos, de maneira significativa, por quem não somos. Como indivíduos, grupos, instituições e mesmo sociedades, encontramos muito mais significado ao nos opormos a inimigos determinados – aqueles que, literal e simbolicamente, nos ameaçam e desagradam. Ironicamente, nosso próprio desgosto se torna prova de nosso maior mérito. Nós não somos eles, essas pessoas terríveis. Por definição, tudo o que fizermos está, então, justificado. Então você pode ver a armadilha. Quando nossa identidade está significantemente determinada por aqueles que odiamos, a necessidade de controlar, excluir, punir e, por vezes, até erradicar este inimigo se intensifica. Esta necessidade obsessiva de administrar nossos inimigos restringe nossa visão de uma boa sociedade.
As consequências são enormes e, na maior parte das vezes, não reconhecidas pelos indivíduos e pela sociedade. No nível mais simples – e, provavelmente, mais amplo – a dicotomização entre “nós” e “eles” perpetua a ideia de que, nacional e globalmente, o conceito de um sentimento maior de uma comunidade autossustentável e mutualmente apoiadora é impossível. É ingênuo acreditarmos que todas as pessoas em todos os lugares se darão bem. Mas a crença de que a dicotomia entre “nós” e “eles” deve existir em qualquer constelação social, política, sexual, de gênero, étnica ou racial está profundamente enraizada – e passivamente aceita – na consciência coletiva ocidental. Obviamente, o outro problema imediato é que “nós” e “eles” permite que algumas pessoas e grupos – os “nós” – sempre desloquem a existência da violência para o outro.
Como afirmamos no livro [Considering Hate], as pessoas geralmente não pensam em si mesmas como alguém que odeia, apenas como objetos de “ódio”. É claro que, uma vez que você veja a si mesmo como “odiado”, é perfeitamente OK, como auto-proteção, odiar de volta – é apenas uma “reação razoável”. Como resultado, o deslocamento complexo do ódio para o outro justifica a violência que é dirigida a ele. Não surpreende, então, que os grupos marginalizados sejam os alvos mais frequentes daquilo que a sociedade acredita ser “violência por ódio” – e sejam massivamente atingidos pelas formas estruturais de violência. Dito isto, a divisão entre “nós” e “eles” também influencia como contextualizamos a violência. A realidade é que o que chamamos de violência é um conjunto complexo de ações e motivos. Simplesmente dizer que machucar, bater, ferir ou matar alguém (ou algum grupo) é “violência” e que isto é “ruim” (mesmo que justificável) não leva em conta os diferenciais sociais de poder e as lutas por sobrevivência das pessoas abusadas e subjugadas. O uso político da força nunca é simples, e a insistência redutiva no “nós” e “eles” obscurece este fato.
O impulso para localizar “vítimas perfeitas” que sejam consideradas completamente “inocentes” e, assim, dignas de justiça e compaixão – está enraizado nas ideias de individualismo e excepcionalismo. O individualismo nega as desigualdades estruturais. O excepcionalismo reúne crenças na virtude e na inocência predeterminadas de indivíduos ou nações que alegadamente possuem um caráter moral especial e sem falhas. É um jeito fácil e falso de distinguir entre “nós” – as boas pessoas – e “eles”, as pessoas más. Não há lugar para a fluidez ou a complexidade. Esta triagem se origina da ideologia supremacista e de suas hierarquias por valor baseadas em raça, classe, gênero, conformidade de gênero, habilidades físicas e mentais, cultura e religião.
Lewis Hyde usa a frase “inteligência disruptiva” no livro Trickster Makes This World. Ele argumenta que os trickster, ao usarem insights disruptivos, são violadores das fronteiras e agentes culturais que arrancam a tampa e expõe a “retidão inflada” para mostrar as crueldades que com frequência estão escondidas nela. Mesmo quando expõe contradições hipócritas, o insight disruptivo abre espaço para novas possibilidades. É o significado desta energia que nos interessa.
A “inteligência disruptiva” é, por sua natureza, esquiva. Ela resiste à descrição, tomando um grande número de formas, a depender da realidade daquilo com que está rompendo. Este capítulo explorou inúmeras revisões, porque nós continuamos dando exemplos perfeitos que, precisamente porque são concretos, limitaram o enorme escopo da ideia. A energia da inteligência disruptiva não deriva apenas de um argumento político convincente e da organização. Basicamente, ela pode ser qualquer coisa – um livro, um poema, uma pergunta direta, um gesto, um olhar, um sinal de protesto, um slogan, uma postura irônica – que empurra o leitor, ouvinte, audiência ou pessoa na rua para fora de seu abraço frequentemente passivo com a realidade aceita.
“Segurança” é uma ideia muito reconfortante para as pessoas – e ela pode significar qualquer coisa, desde certificar-se de que sua porta da frente está trancada até mulheres tendo aulas de autodefesa e famílias vivendo em comunidades, passando por indivíduos portando armas. O tráfico do medo na mídia e no discurso político aumentou drasticamente a necessidade de “sentir-se seguro”, em oposição a estar seguro. A inteligência disruptiva – que estraçalha ou desaloja uma realidade falsa, aceita – tem o potencial de atravessar isto.
James Baldwin, um brilhante fornecedor de inteligência disruptiva, disse: “A arte existe para provar e para nos ajudar a suportar o fato de que toda a segurança é uma ilusão”. Não podemos controlar o desconhecido. E “segurança” certamente não pode se originar nas políticas do medo e nas ideias de competição entre quem odeia mais e quem é mais odiado.
Aikidô social
(Georg Tarne)
Aikidô é uma arte marcial na qual você não tenta contra-atacar ou superar a força da pessoa oponente, mas sim utilizar a própria força dela e redirecioná-la – buscando defender-se, sem machucá-la.
Aikidô social refere-se a deixar de ver a “oposição” como inimiga e, ao invés disso, buscar unir-se a ela contra um problema em comum.
Por que isso é tão importante?
Porque não importa se é numa amizade, na relação de vizinhança ou na relação entre países: se você só disser “eu odeio isso”, mas não disser “Como podemos trabalhar em conjunto para que VOCÊ possa conseguir o que precisa de uma maneira que NÓS também consigamos o que precisamos?”, você não conseguirá muito.
(E apenas a favor da clareza: ter respeito pelas necessidades da outra pessoa não significa aceitar as suas estratégias. "Sim, eu entendo que você está magoada e que quer ser ouvida e respeitada. Mas eu ainda vou usar minha força para impedi-la de bater em quem quer que seja, enquanto nós tentamos descobrir um jeito de fazer a sua necessidade de ser ouvida e respeitada ser satisfeita").
Como Buckminster Fuller disse: “Você nunca mudará as coisas lutando contra a realidade existente. Para mudar algo, construa um novo modelo que tornará o modelo existente obsoleto”.
Isto funciona muito bem quando você criou conexão com seu aikido social – se torna bem mais árduo se você não fez isto.
Além disso, se você está criando um sistema alternativo – como uma ecovila – estas habilidades de resolução de conflitos se tornam bastante úteis. De outra forma, você estará, sem saber, reconstruindo todos os sistemas de dominação dos quais você quis escapar em primeiro lugar, como visto em muitas das comunas nos anos 1960 e 1970. É por isto que muitas ecovilas que eu conheço se focam especialmente nestas habilidades de relacionamento.
(Georg Tarne)
Aikidô é uma arte marcial na qual você não tenta contra-atacar ou superar a força da pessoa oponente, mas sim utilizar a própria força dela e redirecioná-la – buscando defender-se, sem machucá-la.
Aikidô social refere-se a deixar de ver a “oposição” como inimiga e, ao invés disso, buscar unir-se a ela contra um problema em comum.
Por que isso é tão importante?
Porque não importa se é numa amizade, na relação de vizinhança ou na relação entre países: se você só disser “eu odeio isso”, mas não disser “Como podemos trabalhar em conjunto para que VOCÊ possa conseguir o que precisa de uma maneira que NÓS também consigamos o que precisamos?”, você não conseguirá muito.
(E apenas a favor da clareza: ter respeito pelas necessidades da outra pessoa não significa aceitar as suas estratégias. "Sim, eu entendo que você está magoada e que quer ser ouvida e respeitada. Mas eu ainda vou usar minha força para impedi-la de bater em quem quer que seja, enquanto nós tentamos descobrir um jeito de fazer a sua necessidade de ser ouvida e respeitada ser satisfeita").
Como Buckminster Fuller disse: “Você nunca mudará as coisas lutando contra a realidade existente. Para mudar algo, construa um novo modelo que tornará o modelo existente obsoleto”.
Isto funciona muito bem quando você criou conexão com seu aikido social – se torna bem mais árduo se você não fez isto.
Além disso, se você está criando um sistema alternativo – como uma ecovila – estas habilidades de resolução de conflitos se tornam bastante úteis. De outra forma, você estará, sem saber, reconstruindo todos os sistemas de dominação dos quais você quis escapar em primeiro lugar, como visto em muitas das comunas nos anos 1960 e 1970. É por isto que muitas ecovilas que eu conheço se focam especialmente nestas habilidades de relacionamento.
Muito bom. Doc sobre machismo, sob diversos ângulos e vetores.
"Precisamos Falar com os Homens?"
"Precisamos Falar com os Homens?"
A Naomi Watts está mais bonita hoje do que 15 anos atrás.
A Liv Tyler está mais bonita hoje do que 15 anos atrás.
A Liv Tyler está mais bonita hoje do que 15 anos atrás.
"Ataque é veneno: só funciona se eu tomar. Se eu me conheço, ninguém me ataca, ninguém me ofende." (Leandro Karnal)
"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana." (Carl Gustav Jung)
"No Brasil, toda a reflexão e ação política parece atualmente ter os olhos única e exclusivamente voltados para o ano de 2018. (...) Seria suprema ingenuidade acreditar que esses que agora nos governam, esses senhores de uma guerra civil não declarada, esses mesmos que têm consciência absoluta de que nunca ganhariam uma eleição majoritária no Brasil para impor suas políticas aceitem ir embora de bom grado em 2018. Melhor seria se estivéssemos envolvidos em um luta clara pela recusa dos modelos de "governabilidade" que nos destruíram. Ou quebra tudo, ou a resistência vai ser existencial. Como viver em um purgatório moral, onde os canalhas venceram, os bons se calam, apenas os loucos falam e todos estão surdos?" (Vladimir Safatle)
<< Foi numa festa. Estava conversando com alguns amigos e comentei a respeito de algo que a minha psicóloga havia me dito. Um deles arregalou os olhos e disse “você tem uma psicóloga?”. Respondi tranquilamente que sim e perguntei o porquê do espanto. Ele disse que, ao ler meus textos, eu sempre pareci uma pessoa muito bem resolvida e que nunca imaginou que eu precisasse de terapia. (...) Ainda há quem pense que é preciso estar deprimido ou descontrolado para procurar este tipo de apoio. Mas não. Você pode estar ótimo. Mas pode ficar ainda melhor. Nós não fazemos ideia de quanta coisa a gente deixa mal resolvida no nosso caminho, nem do quanto elas influenciam as atitudes que temos hoje. Todas as vezes que dizemos “eu sou assim” para justificar nossos defeitos, é importante sabermos que poderíamos não ser assim. Poderíamos ser melhores e mais felizes. É, de fato, algo viável. (...) Mas fazer terapia ainda causa espanto. Terapia ainda é vista por muitos como sinal de fraqueza, de segredos ou de desequilíbrio. >> (Ruth Manus)
terça-feira, 15 de agosto de 2017
Programa-060 by Revelações*DouglasDickel on Mixcloud
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
Sei que parece exagero, mas não é. O preço de salvar Temer da Justiça vai ser muito alto. Se seguirmos nesse rumo por mais uma década, já era.
O Brasil está sob ataque, em vias de se acabar.
Quando digo “se acabar”, não é assim cataclismicamente, num cogumelo nuclear. É algo mais gradual: ir se acabando, se esvaindo, se descolorindo nas fotos aéreas, se consumindo em fumaça e buracos e sangue e deserto e entulho. Se seguirmos no rumo em que estamos, daqui a uma década, as fotos de satélite de boa parte do Brasil mostrarão terra arrasada.
Antes que você me acuse de estar exagerando, talvez valha ler este texto, no qual o mineiro Bruno Carazza desvenda, entre um verso e outro de Drummond, os interesses por trás das mudanças das regras que estão acontecendo agora na mineração.
Dezenas de parlamentares, todos financiados por empresas em cuja existência a maioria de nós nem pensa (Companhia Brasileira de Mineração e Metalurgia, Companhia Brasileira de Alumínio, Anglo Gold, Votorantim, Vale, Kinross Mineração, Flapa Mineração, LMA Mineração, Mineração Polaris, Usiminas, Gerdau, Vallourec, Magnesita), estão reescrevendo a lei, sem perguntar para mais ninguém, sem nenhum debate, sem nenhuma pesquisa científica independente, sem nem convidar o sujeito que mora no lugar que será afetado. A mudança acontece por decreto.
Não é um caso isolado. Vem aí, talvez já na semana que vem, um novo sistema de regras para os agrotóxicos – aliás, “agrotóxicos” não, chamemos de “defensivos fitossanitários”, como querem os distintos parlamentares que estão reescrevendo a lei, todos eles financiados por empresas de agrotóxicos e outros industriais da agricultura. Os especialistas que estão acompanhando o tema dizem que uma das mudanças que querem nos empurrar pela goela é legalizar os agrotóxicos que matam lentamente, causando doenças crônicas como o câncer – só haveria fiscalização contra o envenenamento agudo, súbito. As empresas seriam poupadas de ter que fazer pesquisas de longo prazo. Ao que tudo indica, vem por decreto também, imposto de cima para baixo pelo governo, sem nenhum convite ao debate público, por mais que o câncer caiba a cada um de nós.
O mesmo vem acontecendo na legislação ambiental e climática e na proteção da terra indígena. Congressistas, praticamente todos eles envolvidos em escândalos de corrupção, absolutamente todos recebendo milhões de empresas com interesses financeiros de curto prazo bem específicos, estão a cargo de reescrever as regras. A abertura à discussão pública é inexistente.
Mas, quando falo em destruição, não me refiro só ao aspecto ambiental. A indústria bélica banca um bom número de bandidos ou suspeitos de bandidagem que agem todo dia em Brasília para garantir que haja cada vez mais armas no país, que já é aquele em que mais há assassinatos por arma de fogo no mundo. Brasília trabalha com afinco para o Brasil ficar mais violento do que já é.
Outra bancada fortíssima é sustentada por grandes indústrias da fé – igrejas imensas que financiam políticos para conseguirem isenções fiscais cada vez maiores, e também para descolar contratos lucrativos nas áreas de educação, saúde, assistência social. Também aí, uma indústria específica se acopla ao Estado como sanguessuga, chupando dinheiro público para si, em prejuízo do resto da sociedade.
O Congresso hoje está inteiramente dominado pela chamada Bancada BBB – Bala, Boi e Bíblia –, base de sustentação de Temer. Temer está nu em praça pública, fraco de não se aguentar em pé, e por isso ficou sujeito à chantagem aberta. Está loteando o futuro do Brasil em troca de uns meses a mais no cargo.
Em paralelo a esse ataque, vêm as restrições orçamentárias, com a crise econômica. Enquanto a Bancada BBB mama com gosto no orçamento público, os recursos vão rareando em outras áreas, que não têm lobby tão forte porque não compram políticos. Educação, ciência, tecnologia e inovação têm enfrentado fundos talhos em seus orçamentos. É também dessa maneira que se manifesta a destruição do Brasil: como se sabe, sem educação ou ciência, um país não tem futuro, ainda mais no século 21.
Não pense, no entanto, que estou atribuindo toda essa tragédia à turma de Temer. Nos tempos de Dilma, o saque já vinha ocorrendo de maneira acelerada. Como me explicou uma entrevistada que está me ajudando a entender o tema dos agrotóxicos, a engenheira agrônoma Marina Lacôrte, “no tempo do PT havia ao menos uma dualidade”. O grosso do poder já estava nas mãos de empresas específicas que financiavam centenas de parlamentares – de JBS e Odebrecht para baixo. Mas havia ao menos um pouco de militância para contrabalançar e o governo eventualmente abria pequenas brechas de participação pública. Agora não há mais freio ou contrapeso algum. A raposa foi promovida a diretora-geral de segurança no galinheiro.
Tudo isso vai reforçando e de certa forma perpetuando um problema antigo do Brasil: seguimos sendo um país sem inovação, que vive apenas de vender produtos primários, extraídos da natureza de maneira violenta e comercializados como commodity no mercado internacional. Não há jeito pior de existir no mundo. Commodity é um produto sem tecnologia alguma, sem criatividade, sem complexidade, sem valor agregado, sem nada de especial, refém das oscilações do mercado internacional.
Se você tiver interesse em entender esse fenômeno com mais profundidade, recomendo que passe umas horas fuçando o espetacular website do Observatório de Complexidade Econômica, do MIT. Note como os países bem sucedidos do mundo são aqueles de altíssima complexidade econômica, que lucram com indústrias que têm longas cadeias de produção, e que, portanto, empregam muita gente e enriquecem a sociedade toda. É o caso do Japão, da Coreia, do norte da Europa, dos Estados Unidos, do Canadá. O Brasil, ao contrário, tem complexidade econômica muito abaixo do que se esperaria de um país com esse tamanho de economia. Vivemos de exportar soja, carne, petróleo, café, minério, produtos cujas cadeias destroem muito, produzem pouco valor e empregam pouca gente (a exceção a essa regra é a Embraer, única empresa brasileira de altíssima tecnologia que não faz feio em termos de mercado).
São essas indústrias de produtos primários que sequestraram o nosso sistema político e que o colocaram para trabalhar para si, em prejuízo do resto de nós. Nada contra eles defenderem seus interesses. Tudo contra um sistema político que faz com que apenas esses interesses míopes contem, e que deixe de lado todos os outros interesses da nação.
A situação é trágica, mas não é irreversível. Mais uma década de devastação e sucateamento provavelmente liquidarão quaisquer chances do Brasil neste século. Por sorte, há pelo caminho uma ou duas oportunidades de mudar de rumo antes que o pior aconteça. A mais importante delas é no ano que vem, na eleição geral. Para mim, o que está em jogo em 2018 é manter alguma chance de salvar este país da destruição. Não voto em ninguém que não faça dessa tarefa a mais absoluta das prioridades.
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Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010. Escreve quinzenalmente, às sextas-feiras, sobre a vida e suas complexidades.
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