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terça-feira, 29 de agosto de 2017

"Em Considering Hate, os acadêmicos e ativistas Kay Whitlock e Michael Bronski insistem em um novo entendimento do ódio – e um novo paradigma político centrado na bondade e na justiça. Não importa onde nos localizemos no universo político (esquerda, direita, centro, radicais, conservadores, qual seja!), há um impulso intenso em nos definirmos através de nossos inimigos – as pessoas que “odiamos”. Elas são a personificação da violência e da injustiça. De fato, elas são, com frequência, representadas como sendo as fontes da violência e da injustiça, camuflando as raízes estruturais destas forças. Enquanto isso, nós quase sempre enquadramos estes inimigos como sendo os perpetradores do “ódio”. Todos nós temos maior tendência a ver o ódio como originado em outro lugar – não dentro de nós, mas no interior de um outro inferior, que podemos desprezar e nos distanciar. Nossas realidades políticas se tornam determinadas por nossos adversários. (...) Algo de que eu realmente gostei no livro [Considering Hate] foi a ênfase em como rotular pessoas como “sociopatas” e “más” isenta a “nós” no que se relaciona a pensar sobre as raízes atuais da violência." (Maya Schenwar)


Kay Whitlock e Michael Bronski:
Há uma tentação de nos definirmos, de maneira significativa, por quem não somos. Como indivíduos, grupos, instituições e mesmo sociedades, encontramos muito mais significado ao nos opormos a inimigos determinados – aqueles que, literal e simbolicamente, nos ameaçam e desagradam. Ironicamente, nosso próprio desgosto se torna prova de nosso maior mérito. Nós não somos eles, essas pessoas terríveis. Por definição, tudo o que fizermos está, então, justificado. Então você pode ver a armadilha. Quando nossa identidade está significantemente determinada por aqueles que odiamos, a necessidade de controlar, excluir, punir e, por vezes, até erradicar este inimigo se intensifica. Esta necessidade obsessiva de administrar nossos inimigos restringe nossa visão de uma boa sociedade. 
As consequências são enormes e, na maior parte das vezes, não reconhecidas pelos indivíduos e pela sociedade. No nível mais simples – e, provavelmente, mais amplo – a dicotomização entre “nós” e “eles” perpetua a ideia de que, nacional e globalmente, o conceito de um sentimento maior de uma comunidade autossustentável e mutualmente apoiadora é impossível. É ingênuo acreditarmos que todas as pessoas em todos os lugares se darão bem. Mas a crença de que a dicotomia entre “nós” e “eles” deve existir em qualquer constelação social, política, sexual, de gênero, étnica ou racial está profundamente enraizada – e passivamente aceita – na consciência coletiva ocidental. Obviamente, o outro problema imediato é que “nós” e “eles” permite que algumas pessoas e grupos – os “nós” – sempre desloquem a existência da violência para o outro.  
Como afirmamos no livro [Considering Hate], as pessoas geralmente não pensam em si mesmas como alguém que odeia, apenas como objetos de “ódio”. É claro que, uma vez que você veja a si mesmo como “odiado”, é perfeitamente OK, como auto-proteção, odiar de volta – é apenas uma “reação razoável”. Como resultado, o deslocamento complexo do ódio para o outro justifica a violência que é dirigida a ele. Não surpreende, então, que os grupos marginalizados sejam os alvos mais frequentes daquilo que a sociedade acredita ser “violência por ódio” – e sejam massivamente atingidos pelas formas estruturais de violência. Dito isto, a divisão entre “nós” e “eles” também influencia como contextualizamos a violência. A realidade é que o que chamamos de violência é um conjunto complexo de ações e motivos. Simplesmente dizer que machucar, bater, ferir ou matar alguém (ou algum grupo) é “violência” e que isto é “ruim” (mesmo que justificável) não leva em conta os diferenciais sociais de poder e as lutas por sobrevivência das pessoas abusadas e subjugadas. O uso político da força nunca é simples, e a insistência redutiva no “nós” e “eles” obscurece este fato. 
O impulso para localizar “vítimas perfeitas” que sejam consideradas completamente “inocentes” e, assim, dignas de justiça e compaixão – está enraizado nas ideias de individualismo e excepcionalismo. O individualismo nega as desigualdades estruturais. O excepcionalismo reúne crenças na virtude e na inocência predeterminadas de indivíduos ou nações que alegadamente possuem um caráter moral especial e sem falhas. É um jeito fácil e falso de distinguir entre “nós” – as boas pessoas – e “eles”, as pessoas más. Não há lugar para a fluidez ou a complexidade. Esta triagem se origina da ideologia supremacista e de suas hierarquias por valor baseadas em raça, classe, gênero, conformidade de gênero, habilidades físicas e mentais, cultura e religião. 
Lewis Hyde usa a frase “inteligência disruptiva” no livro Trickster Makes This World. Ele argumenta que os trickster, ao usarem insights disruptivos, são violadores das fronteiras e agentes culturais que arrancam a tampa e expõe a “retidão inflada” para mostrar as crueldades que com frequência estão escondidas nela. Mesmo quando expõe contradições hipócritas, o insight disruptivo abre espaço para novas possibilidades. É o significado desta energia que nos interessa. 
A “inteligência disruptiva” é, por sua natureza, esquiva. Ela resiste à descrição, tomando um grande número de formas, a depender da realidade daquilo com que está rompendo. Este capítulo explorou inúmeras revisões, porque nós continuamos dando exemplos perfeitos que, precisamente porque são concretos, limitaram o enorme escopo da ideia. A energia da inteligência disruptiva não deriva apenas de um argumento político convincente e da organização. Basicamente, ela pode ser qualquer coisa – um livro, um poema, uma pergunta direta, um gesto, um olhar, um sinal de protesto, um slogan, uma postura irônica – que empurra o leitor, ouvinte, audiência ou pessoa na rua para fora de seu abraço frequentemente passivo com a realidade aceita. 
“Segurança” é uma ideia muito reconfortante para as pessoas – e ela pode significar qualquer coisa, desde certificar-se de que sua porta da frente está trancada até mulheres tendo aulas de autodefesa e famílias vivendo em comunidades, passando por indivíduos portando armas. O tráfico do medo na mídia e no discurso político aumentou drasticamente a necessidade de “sentir-se seguro”, em oposição a estar seguro. A inteligência disruptiva – que estraçalha ou desaloja uma realidade falsa, aceita – tem o potencial de atravessar isto. 
James Baldwin, um brilhante fornecedor de inteligência disruptiva, disse: “A arte existe para provar e para nos ajudar a suportar o fato de que toda a segurança é uma ilusão”. Não podemos controlar o desconhecido. E “segurança” certamente não pode se originar nas políticas do medo e nas ideias de competição entre quem odeia mais e quem é mais odiado.

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