(...) justiçamento como fenômeno coletivo, algo que tem perpassado a realidade social/virtual com cada vez mais frequência, sendo progressivamente banalizado e naturalizado. (...) Não tateio esse assunto como militante feminista, mas como socióloga que também é feminista, é esse o meu local de partida e o tipo de olhar que pretendo desenvolver. (...)
Não há como ter certeza, a priori, da veracidade de denúncias feitas fora da institucionalidade e de suas balizas (como a presunção de inocência), ainda que elas sejam referentes a violências caras aos movimentos de mulheres (estupro, pedofilia, abusos, etc.). Os riscos de partir dessa premissa, obviamente, são altíssimos, além de irreparáveis.
Apesar de ter havido a partilha generalizada da noção de que o escracho é relevante porque impacta a vida real de muitas mulheres, se seguiu insistindo na afirmação de que ele não gera qualquer impacto considerável na vida das pessoas que o sofreram. Foi comum ler a ideia de que "ninguém morreu" ou de que "não houve consequências sérias", o que é algo explicitamente desmentido pelos trabalhos feitos sobre o assunto e que demonstram um sem-fim de casos que vão desde agressões físicas a depressão e ansiedade generalizada, desbocando até no suicídio de pessoas justiçadas virtualmente.
Pode ser porque é difícil mesurar os resultados de milhares de comentários incitando violências das mais diversas e desqualificações generalizadas sobre a existência inteira de alguém, quando se é responsável por apenas um ou dois destes. (...) efeitos concretos nas vidas das pessoas, que podem perdurar indefinidamente e alcançar seus círculos de amizade e familiares, além de afetar o trabalho coletivo de várias pessoas que se encontram envolvidas nas práticas profissionais dos denunciados, e que nada têm a ver com o ocorrido.
Novamente, a importância da institucionalidade é produzir esse tipo de baliza: que a pena seja proporcional ao fato (e não esteja pautada pelo clamor social, independentemente do quão repulsivo for o ocorrido), e que ela não transcenda a pessoa do condenado, limitando-se àquele que cometeu o "delito" e não atingindo terceiros. (...) A noção coletiva de que "a consequência foi justa" normalmente esbarrou na retórica de que "o fato foi pior" (o que supõe a legitimidade moral de determinar qual a punição necessária a determinado ato, vinculando-se à ideia de justiça privada, que pode ser articulada por quem quer que seja, diante do ato condenável que for e atingindo qualquer pessoa, inclusive a partir de noções que seriam imediatamente rechaçadas por pessoas progressistas e tomadas como formas de violência ou autoritarismo se mudássemos as variáveis dessa equação). Ou, ainda, de que o escracho é justificável porque "mulheres são agredidas todos os dias", o que parece uma falsa questão, já que não soa absurdo questionar sobre, até que ponto, o justiçamento promove algum efeito sobre essas mulheres que se encontram em situação de violência cotidiana.
Não parece que a retórica de que "agora os demais vão ficar com medo de serem escrotos" seja realmente aplicável, vide tanto ao primeiro ponto (o escracho não funciona de forma "democrática"), quanto porque a própria prática circula dentro de um recorte específico, onde não necessariamente se encontram mulheres mais vulneráveis e que não têm ferramentas de libertação à sua disposição, mas onde estão aquelas que já compactuam com essas ideias, e que já detêm alguma agência não só para compreenderem um contexto de abuso, mas até, em muitos casos, para se desvincularem dele.
No mais, parece uma saída focada no individualismo e no imediatismo: (...) não importa o que seja dito, já há a pecha absoluta da desumanização. As desculpas eventualmente oferecidas são engolidas pela própria lógica do escracho e servem para realimentá-lo, já que, de nossas leituras, somos capazes de atestar que não foram genuínas o bastante, que não podem ser sinceras, que não servem de nada. Se cria, assim, um ciclo sem fim, onde não se sabe o que fazer com a retratação, onde se perde a possibilidade de arrependimento ou da própria ressocialização (assim como da mudança temporal e da noção processo, visto que se resgata fatos que ocorreram há três, cinco, dez anos para atestar a condição presente do indivíduo), e onde a retratação ao ato só reforça a essência execrável do sujeito. Assim, a sentença é imutável e absoluta: não há o que fazer dali para frente, e a única solução é o extermínio. (...)
Os carimbos identitários atingiram um patamar não antes visto. (...) A identidade virou, assim, mais do que "mulher" ou "homem", mas "mulher feminista" e "mulher que passa pano para macho" -- como se essa polarização fosse realmente verificável, e não uma ficção construída sob o clima de cruzada moral binária que atravessou as redes como um todo. Novamente, a ideia de que quem ousasse questionar a prática do escracho/justiçamento o fazia porque era homem foi corriqueira, aplastando e engolindo uma multiplicidade subjetiva de mulheres, como se o movimento feminista se reproduzisse em uma homogeneidade de condutas e formas de pensamento, e não em uma articulação político-estratégica capaz de abarcar a pluralidade de opiniões e o dissenso. (...)
Para além de tudo isso, ainda é preciso pensar como essas práticas produzem, ou deixam de produzir, articulações mais amplas com impactos sociais duráveis no machismo e, por outro lado, como podem (independentemente de nossa vontade), trazer consequências negativas à própria ideia de emancipação. Aí, se pode refletir, por exemplo, sobre como o escracho desloca o foco incansavelmente ao homem e não à mulher e à criação de formas para que ela possa identificar os sinais de relacionamentos violentos, estando mais apta a evitá-los; no aprofundamento das capacidades de agência (que exige uma saída da posição passiva) e não na reafirmação do lugar vitimização, que reforça a hipossuficiência (e que poderia ser deslocada para o da vulnerabilidade); na criação de mecanismos que não incorram nos riscos de falsos julgamentos, danos irreparáveis como os já vistos em outros casos, de reforços punitivistas, ou mesmo de descrédito generalizado nas instituições (que ainda são os únicos mecanismos à disposição da maioria das mulheres, e que precisam se tornar alinhados para o seu acolhimento).
Tão importante quanto isso, é preciso questionar as consequências de longo prazo desse tipo de tática no interior de uma estratégia libertadora, considerando-se os riscos eminentes de que a criação de identidades fixas e imutáveis (o abusador/o agressor/o monstro) gere um movimento oposto, no sentido de abrir espaço para uma ressignificação neutra (ou mesmo positiva) desses selos por parte dos homens. Corremos o risco, independentemente da validade de nossas razões, de fazer com que eles acabem, ao invés de assumindo um mea-culpa, acatando as pechas que lhes são lançadas e adentrando nas nossas lógicas, simplesmente as rechaçando, reconhecendo que são irrecuperáveis e perdendo a vergonha de se afirmarem como tal, como já vem sendo refletido em outros contextos (especialmente nos Estados Unidos). (...)

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