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quinta-feira, 30 de abril de 2009
"A arte não imita a vida. Ela produz outra vida." (Charles Kiefer)
quarta-feira, 29 de abril de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
Gravei um cover de Nick Cave hoje, em casa. Como exercício de Rewire (Cubase + Reason) - pois eu comecei finalmente os trabalhos para um segundo disco do input_output - e como homenagem ao meu amor pelo cinema - a música é tema do filme 'The proposition', escrito pelo próprio Nick Cave - e ao Tony, que teve esse 'A proposição' como inspiração para escrever seu primeiro e elogiado romance, 'Areia nos dentes'. A trilha é do Nick Cave e do Warren Ellis, os dois mais próximos da câmera na foto acima, dos Grinderman. Ambos são impressionantes, filme e trilha.
Douglas Dickel - The proposition
sábado, 25 de abril de 2009
TLÖN, UQBAR, ORBIS TERTIUS
(Jorge Luis Borges)
Devo a conjunção de um espelho e de uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar. O espelho inquietava o fundo de um corredor numa quinta da Rua Gaona, em Ramo Mejía; a enciclopédia falazmente se chama The Anglo-American Cyclopedia (New York, 1917) e é uma reimpressão literal, mas também tardia, da Encyclopedia Britannica de 1902. O acontecimento ocorreu faz uns cinco anos. Bioy Casares jantara comigo naquela noite e demorou-nos uma vasta polêmica sobre a elaboração de um romance na primeira pessoa, cujo narrador omitisse ou desfigurasse os fatos e incorresse em diversas contradições, que permitissem a poucos leitores - a muito poucos leitores - a adivinhação de uma realidade atroz ou banal. Do fundo remoto do corredor, o espelho nos espreitava. Descobrimos (na noite alta esta descoberta é inevitável) que os espelhos têm algo de monstruoso. Então Bioy Casares recordou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número de homens. Perguntei-lhe a origem dessa memorável sentença e ele me respondeu que The Anglo-American Cyclopedia a consignava, em seu artigo sobre Uqbar. A quinta (que havíamos alugado mobiliada) possuía um exemplar dessa obra. Nas últimas páginas do volume XLVI achamos um artigo sobre Upsala; nas primeiras do XLVII, um sobre Ural-Altaic Languages, mas nem uma palavra a respeito de Uqbar. Bioy, um pouco perturbado, consultou os volumes do índice. Esgotou em vão todas as lições imagináveis: Ukbar, Ucbar, Ooqbar, Ouqbahr... Antes de sair, explicou-me que era uma região do Iraque ou da Ásia menor. Confesso que assenti com certo mal-estar. Conjeturei que esse país indocumentado e esse heresiarca anônimo eram uma ficção improvisada pela modéstia de Bioy para justificar um frase. O exame estéril de um dos Atlas de Justus Perthes fortaleceu minha dúvida.
No dia seguinte, Bioy me telefonou de Buenos Aires. Disse-me que tinha à vista o artigo sobre Uqbar, no volume XLVI da Enciclopédia. Não constava o nome do heresiarca, mas sim a notícia de sua doutrina, formulada em palavras quase idênticas às repetidas por ele, ainda que - talvez - literariamente inferiores. Ele recordara: Copulation and mirrors are abominable. O texto da Enciclopédia dizia: Para um desses gnósticos, o universo visível era uma ilusão ou (mais precisamente) um sofisma. Os espelhos e a paternidade são abomináveis (mirrors and fatherhood are abominable) porque o multiplicam e o divulgam. Eu lhe disse, sem faltar à verdade, que gostaria de ver esse artigo. Em poucos dias ele o trouxe. O que me surpreendeu, porque os escrupulosos índices cartográficos da Erdkunde de Ritter ignoravam completamente o nome de Uqbar.
O volume que Bioy trouxe era efetivamente o XLVI da Anglo-American Cyclopedia. No ante-rosto e na lombada, a indicação alfabética (Tor - Ups) era a de nosso exemplar, mas em vez de 917 páginas constava de 921. Essas quatro páginas adicionais compreendiam o artigo sobre Uqbar; não previsto (como terá o leitor observado) pela indicação alfabética. Depois comprovamos que não havia outra diferença entre os volumes. Os dois (conforme creio haver apontado) eram reimpressões da décima Encyclopedia Britannica. Bioy adquirira seu exemplar num de tantos leilões.
Lemos com certo cuidado o artigo. A passagem recordada por Bioy era talvez a única surpreendente. O resto parecia muito verossímil, muito ajustado ao tom geral da obra e (como é natural) um pouco maçante. Relendo-o, descobrimos sob sua rigorosa forma uma fundamental vagüidade. Dos quatorze nomes que figuravam na parte geográfica, apenas reconhecemos três - Jorasã, Armênia, Erzerum - interpolados no texto de um modo ambíguo. Dos nomes históricos, um só: O impostor Esmerdis, o mago, invocado mais com metáfora. A nota parecia precisar as fronteiras de Uqbar, mas seus nebulosos pontos de referência eram rios e crateras e cadeias dessa mesma região. Lemos, por exemplo que as terras baixas de Tsai Jaldun e o Delta do Axa definem a fronteira do Sul, e que nas ilhas desse delta procriam os cavalos selvagens. Isso, no começo da página 918. Na seção histórica (página 920) soubemos que, por causa das perseguições religiosas do século XIII, os ortodoxos buscaram amparo nas ilhas, onde ainda perduram seus obeliscos e onde não é raro exumar seus espelhos de pedra. A seção idioma e literatura era breve. Um único traço memorável: anotava que a literatura de Uqbar era de caráter fantástico e que suas epopéias e suas lendas não se referiam nunca à realidade mas às duas regiões imaginárias de Mlejnas e de Tlön... A bibliografia enumerava quatro volumes que não encontramos até agora, embora o terceiro - Silas Haslam: History of the land called Uqbar, 1874 - figure nos catálogos da livraria de Bernard Quaritch . O primeiro, Lesbare und Lesenswerthe Bemerdungen über das Land. Ukkbar in Klein-Asien, data de 1641 e é obra de Johannes Valentinus Andreä. O fato é significativo; um par de anos depois, deparei com esse nome nas inesperadas páginas de De Quincey (Writings, volume XIII) e soube que era o de um teólogo alemão que, em princípios do Século XVII, descreveu a imaginária comunidade da Rosa-Cruz - que outros fundaram, à imitação do prefigurado por ele.
Àquela noite visitamos a Biblioteca Nacional. Em vão molestamos atlas, catálogos, anuários de sociedades geográficas, memórias de viajantes e historiadores: ninguém estivera jamais em Uqbar. O índice geral da enciclopédia de Bioy tampouco registrara esse nome. No dia seguinte, Carlos Mastronarde (a quem eu relatara o assunto) reparou numa livraria de Corrientes e Talcahuano as pretas e douradas lombadas da Anglo-American Cyclopedia... Entrou e consultou o volume XLVI. Naturamente, não encontrou o menor indício de Uqbar.
II
Alguma lembrança limitada e diluída de Herbert Ashe, engenheiro das ferrovias do Sul, persiste no Hotel de Androgué, entre as efusivas madressilvas e no fundo ilusório dos espelhos. Em vida padeceu de irrealidade, como tantos ingleses; morto, não é sequer o fantasma que já era então. Era alto e enfastiado, e sua cansada barba retangular fora riuva. Acho que era viúvo, sem filhos. De tempos em tempos ia à Inglaterra: visitar (julgo por umas fotografias que nos mostrou) um relógio de sol e uns carvalhos. Meu pai estreitava com ele (o verbo é excessivo) uma dessas amizades inglesas que começam por excluir a confidência e que muito depressa omitem o diálogo. Costumavam manter intercâmbio de livros e de jornais; costumavam medir-se ao xadrez, taciturnamente...Recordo-o no corredor do hotel, com um livro de matemática na mão, contemplando, às vezes, as cores irrecuperáveis do céu. Uma tarde falamos do sistema duodecimal de numeração (no qual doze se escreve 10). Ashe disse que precisamente estava trasladando não sei que tabelas duodecimais a sexagemais (nas quais sessenta se escreve 10). Acrescentou que esse trabalho lhe fora encomendado por um norueguês: no Rio Grande do Sul. Há oito anos que o conhecíamos e nunca referia sua estada naquela região... Falamos da vida pastoril, de capangas, da etimologia brasileira da palavra gaucho (que alguns velhos orientais ainda pronunciam gaúcho) e nada mais se disse - Deus me perdoe - de funções duodecimais. Em setembro de 1937 (nós não estávamos no hotel), Herbert Ashe morreu da ruptura de um aneurisma. Dias antes recebera do Brasil um pacote lacrado e registrado. Era um livro em oitavo maior. Ashe deixou-o no bar, onde meses depois - encontrei. Pus-me a folheá-lo e senti uma ligeira vertigem de assombro que não descreverei, porque essa não é a história de minhas emoções, mas de Uqbar, e Tlön e Orbis Tertius. Numa noite do Islã, que se chama a "Noite das Noites", abrem-se de par em par as secretas portas do céu e é mais doce a água nos cântaros; se essas portas se abrissem, não sentiria o que senti naquela tarde. O livro estava redigido em inglês e o compunham 1001 páginas. Na amarela lombada de couro li estas curiosas palavras que o ante-rosto repetia: A First Encyclopedia of Tlön. Vol. XI. Hlaer to Jangr. Não havia indicação de data nem de lugar. Na Primeira página e numa folha de papel de seda que cobria uma das Lâminas coloridas, estava impresso um óvalo azul com esta inscrição: Orbis Tertius. Fazia dois anos que eu descobrira num volume de certa enciclopédia pirática uma sumária descrição de um falso país; agora o acaso me mostrava algo de mais precioso e mais árduo. Agora tinha nas mãos um vasto fragmento metódico da história total de um planeta desconhecido, com suas arquiteturas e seus debates, com o pavor de suas mitologias e o rumor de suas línguas, com seus imperadores e seus mares, com seus minerais e seus pássaros e seus peixes, com sua álgebra e sue fogo, com sua controvérsia teológica e metafísica. Tudo isso articulado, coerente, sem visível propósito doutrinal ou tom paródico.
No "décimo primeiro volume" de que falo, há alusões a volumes ulteriores a precedentes. Nestor Ibarra, num artigo já clássico da N.R.F., negou a existência de tais volumes; Ezequiel Martínez Estrada e Drieu La Rochelle refutaram, quiçá vitoriosamente, essa dúvida. O fato é que até agora as pesquisas mais diligentes têm sido estéreis. Em vão desarrumamos as bibliotecas das Américas e da Europa. Alfonso Reys, saturado dessas fadigas subalternas de índole policial, propõe que todos empreendamos a obra de reconstruir os muitos e maciços volumes que faltam: ex ungue leonem. Calcula, entre jocoso e sério, que uma geração de tlönistas pode bastar. Esse arriscado computo nos retrai ao problema fundamental: quais os inventores de Tlön? O plural é inevitável, porque a hipótese de um só inventor - de um infinito Leibniz trabalhando na treva e na modéstia - fora descartada unanimamente. Conjetura-se que este brave new world é obra de uma sociedade secreta de astrônomos, de biólogos, de engenheiros, de metafísicos, de poetas, de químicos, de algebristas, de moralistas, de pintores, de geômetras... dirigidos por um obscuro homem de gênio.
Muitos são os indivíduos que dominam essas disciplinas diversas, mas não os capazes de invenção e menos os capazes de subordinar a invenção a um rigoroso plano sistemático. Esse plano é tào vasto que a contribuição de cada escritor é infinitesimal. No começo pensou-se que Tlön era um mero caos, uma irresponsável licença da imaginação; agora se sabe que é um cosmos e as íntimas leis que o regem foram formulados, ainda que de modo provisório. Basta-me recordar que as contradições aparentes do Décimo Primeiro Volume são a pedra fundamental da prova de que existem os outros: tão lúcida e tão justa é a ordem que nele se observou. As revistas populares divulgaram, com perdoável excesso, a zoologia e a topografia de Tlön; penso que seus tigres transparentes e suas torres de sangue não merecem, talvez, a contínua atenção de todos os homens. Atrevo-me a pedir alguns minutos para seu conceito do universo.
Hume notou em definitivo que os argumentos de Berkeley não admitiam a menor réplica e não causavam a menor convicção. Esse ditame é totalmente verídico em sua aplicação à Terra; totalmente falso em Tlön. As nações desse planeta são - congenitamente - idealistas. Sua linguagem e as derivações de sua linguagem - a religião, as letras, a metafísica - pressupõem o idealismo. O mundo para eles não é um concurso de objetos no espaço; é uma série heterogênea de atos independentes. É sucessivo, temporal, não espacial. Não há substantivos na conjetural Ursprache de Tlön, da qual precedem os idiomas "atuais" e os dialetos: há verbos impessoais, qualificados por sufixos (ou prefixos) monossilábicos de valor adverbial. Por exemplo: não há palavra que corresponda à palavra lua, mas há um verbo que seria em espanhol lunecer ou lunar. Surgiu a lua sobre o rio diz-se hlör u fang axaxaxas mlö ou seja em sua ordem: para cima (upward) atrás duradouro-fluir lualuziu. (Xul Solar traduz sinteticamente: upa tras perfluyue lunó. Upward, behind the onstreaming, it mooned.)
O que antes foi dito se refere aos idiomas do hemisfério austral. Nos do hemisfério boreal (sobre cuja Ursprache há bem poucos dados no Décimo Primeiro Volume) a célula primordial não é o verbo, mas o adjetivo monossilábico. O substantivo se forma por acumulação de adjetivos. Não se diz lua: diz-se aéreo-claro sobre escuro-redondo ou alaranjado-tênue-do-céu ou qualquer outro acréscimo. No caso escolhido, a massa de adjetivos corresponde a um objeto real; o fato é puramente fortuito. Na literatura desse hemisfério (como no mundo subsistente de Meinong), são muitos os objetos ideais, convocados e dissolvidos no momento, conforme as necessidades poéticas. Determina-os, às vezes, a mera simultaneidade. Há objetos compostos de dois termos, um de caráter visual e outro auditivo: a cor do nascente e o remoto grito de um pássaro. Há alguns de múltiplos: o sol e a água contra o peito do nadador, o vago rosa trêmulo que se vê com os olhos fechados, a sensação de quem se deixa levar por um rio e também pelo sonho. Esses objetos de segundo grau podem combinar-se com outros; o processo mediante certas abreviaturas, é praticamente infinito. Há poemas famosos compostos de uma só enorme palavra. Essa palavra integra um objeto poético criado pelo autor. O fato de que ninguém acredite na realidade dos substantivos, faz, paradoxalmente, que seja interminável seu número. Os idiomas do hemisfério boreal de Tlön possuem todos os nomes das linguas indo-européias - e muitos outros mais.
Não é exagero afirmar que a cultura clássica de Tlön abrange uma única disciplina, a psicologia. As outras estão subordinadas a ela. Mencionei que os homens desse planeta concebem o universo como uma série de processos mentais que não se desenvolvem no espaço, mas de modo sucessivo no tempo. Spinoza confere à sua inesgotável divindade os atributos da extensão e do pensamento; ninguém compreenderia em Tlön a justa posição do primeiro (que apenas é típico de certos estados) e do segundo - que é um sinônimo perfeito do cosmos. Antes com outras palavras: não concebem que o espacial perdure no tempo. A percepção de uma fumaceira no horizonte e depois do campo incendiado e depois do charuto meio apagado que produziu a queimada, é considerada um exemplo de associação de idéias.
Esse monismo ou idealismo total, invalida a ciência. Explicar (ou julgar) um fato é uní-lo ao outro; essa vinculação em Tlön é um estado posterior do sujeito, que não pode afetar ou iluminar o estado anterior. Todo o estado mental é irredutível: o simples fato de nomeá-lo - id est, de classificá-lo - importa em falseio. Disso caberia deduzir que não há ciências em Tlön - nem sequer raciocínios. Mas a paradoxal verdade é que existem, em quase incontável número. Com as filosofias acontece o que sucede com os substantivos no hemisfério boreal. O fato de que toda a filosofia seja de antemão um jogo dialético, uma Philosophie des Als Ob, contribui para multiplicá-las. Sobram sistemas incríveis, mas de construção agradável, ou de tipo sensacional. Os metafísicos de Tlön não buscam a verdade, nem sequer a verossimilhança: buscam o assombro. Julgam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica. Sabem que um sistema não é outra coisa que a subordinação de todos os aspectos do universo a qualquer um deles. Até a frase "todos os aspectos" é inaceitável, porque supõe a impossível adição do instante presente e dos pretéritos. Nem é lícito o plural "os pretéritos", porque supõe outra operação impossível... Uma das escolas de Tlön chega a negar o tempo: argumenta que o presente é indefinido, que o futuro não tem realidade senão como esperança presente, que o passado não tem realidade senão como lembrança presente . Outra escola declara que transcorreu já todo o tempo e que nossa vida é apenas a lembrança ou reflexo crepuscular, e sem dúvida falseado e mutilado, de um processo irrecuperável. Outra, que a história do universo - e nela nossas vidas e o pormenor mais tênue de nossas vidas - é a escritura que produz um deus subalterno para entender-se com o demônio. Outra que o universo é comparável a estas criptografias nas quais não valem todos os símbolos e que só é verdade o que sucede cada trezentas noites. Outra que enquanto dormimos aqui, estamos despertos em outro lado e que assim cada homem é dois homens.
Entre as doutrinas de Tlön nenhuma mereceu tanto escândalo como o materialismo. Alguns pensadores o formularam com menos clareza que fervor, como quem expõe um paradoxo. Para facilitar o entendimento dessa tese inconcebível, um heresiarca do século décimo primeiro3 ideou o sofisma das nove moedas de cobre, cujo renome escandaloso equivale em Tlön ao das aporias eleáticas. Desse "raciocínio especioso" há muitas versões, nas quais o número de moedas e o número de achados variam; eis aqui a mais comum:
Terça-feira X atravessa um caminho deserto e perde nove moedas de cobre. Quinta-feira Y encontra no caminho quatro moedas, um pouco enferrujadas pela chuva de quarta-feira. Sexta-feira Z descobre três moedas no caminho. Sexta-feira de manhã X encontra duas moedas no corredor de sua casa. O heresiarca queria deduzir desta história a realidade - id est, a continuidade - das nove moedas recuperadas. É absurdo (afirmava) imaginar que quatro das moedas não existiram entre terça e quinta-feira, três entre terça-feira e a tarde de sexta-feira, duas entre terça-feira e a madrugada de sexta-feira. É lógico pensar que existiram - ainda que de algum modo secreto de compreensão vedada aos homens - em todos os momentos desses três prazos.
A linguagem em Tlön se opunha a formular este paradoxo; os demais não o entenderam. Os defensores do sentido comum limitaram-se no início a negar a veracidade do episódio. Repetiram que era uma falácia verbal, embasada no emprego temerário de duas vozes neológicas, não autorizadas pelo uso e alheias a todo o pensamento severo: os verbos encontrar e perder que comportavam uma petição de princípio, porque pressupunham a identidade das nove primeiras moedas e das últimas. Recordaram que todo o substantivo (homem, moeda, quinta-feira, quarta-feira, chuva) somente tem um valor metafórico. Denunciaram a pérfida circunstância um pouco enferrujadas pela chuva de quarta-feira, que pressupõe o que se procura demonstrar: a persistência das quatro moedas, entre quinta e terça-feira. Explicaram que uma coisa é igualdade e outra identidade. E formularam uma espécie de reductio ad absurdum, ou seja, o caso hipotético de nove homens que em nove noites sucessivas padecem um dor viva. Não seria ridículo - perguntaram - pretender que esta dor fosse a mesma4? Disseram que ao heresiarca movia-o apenas o blasfematório propósito de atribuir a divina categoria de ser a umas simples moedas, e que às vezes negava a pluralidade e outras não. Argumentaram: se a igualdade abrangesse a identidade, seria necessário admitir, do mesmo modo, que as nove moedas eram uma só.
Incrivelmente, essas refutações não resultaram definitivas. Ao fim de cem anos de proposição do problema, um pensador não menos brilhante que o heresiarca, mas de tradição ortodoxa, suscitou uma hipótese muito audaz. Essa conjetura feliz afirmava que há um só sujeito, que esse sujeito indivizível é cada um dos seres do universo e que estes são os órgãos e máscaras da divindade. X é Y e é Z. Z decobre três moedas, porque se lembra que X as perdeu; X encontra duas moedas no corredor porque se lembra que foram recuperadas as outras... O décimo primeiro volume deixa entender que três razões capitais determinaram a vitória total desse panteísmo idealista. A primeira, o repúdio do solipsismo; a segunda a possibilidade de conservar a base psicológica das ciências; a terceira a possibilidade de conservar o culto dos deuses. Schopenhauer (o apaixonado e lúcido Schopenhauer) formula uma doutrina muito semelhante no primeiro volume de Parerga und Paralipomena.
A geometria de Tlön compreende duas disciplinas um pouco distintas. A visual e a tátil. A última corresponde à nossa e a subordinam à primeira. A base da geometria visual é a superfície, não o ponto. Essa geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam. O fundamento de sua aritmética é a noção de números indefinidos. Acentuam a importância dos conceitos de maior e menor que nossos matemáticos simbolizam por > e por <. Afirmam que a operação de contar modifica as quantidades e as converte de indefinidas em definidas. O fato de que vários indivíduos que contam uma mesma quantidade obtêm um resultado igual é para os psicólogos um exemplo de associação de idéias ou de bom exercício da memória. Já sabemos que em Tlön o sujeito do conhecimento é uno e eterno.
Nos hábitos literários é também todo-poderosa a idéia de um sujeito único. É raro que os livros estejam assinados. Não existe conceito de plágio: estabeleceu-se que todas as obras são obra de um só autor, que é inteporal e é anônimo. A crítica costuma inventar autores, escolhe duas obras dissímeles - o "Tao Te King" e as "1001 Noites", digamos - atribui-as a um mesmo escritor e logo determina com probidade a psicologia desse interessante homme de lettres...
Também os livros são diferentes. Os de ficção abarcam um único argumento, com todas as permutações imagináveis. Os de natureza filosófica invariavelmente contém a tese e a antítese, o rigoroso pró e contra de uma doutrina. Um livro que não encerre seu contralivro é considerado incompleto.
Séculos e séculos de idealismo não deixaram de influir na realidade. Não é infrequente nas regiões mais antigas de Tlön a duplicação de objetos perdidos. Duas pessoas buscam um lápis; a primeira o encontra e não diz nada; a segunda encontra um segundo lápis não menos real, contudo mais ajustado à sua expectavia. Esses objetos secundários se chamam hrönir e são ainda que de forma desairada, mais compridos. Até há pouco os hrönir eram filhos fortuitos da distração e do esquecimento. Parece mentira que sua metódica produção conte apenas cem anos, mas assim está referido no Décimo Primeiro Volume. Os primeiros intentos foram estéreis. O modos operandi, no entanto, merece ser recordado. O diretor de um dos cárceres do Estado comunicou aos presos que no antigo leito de um rio havia certos sepulcros e prometeu a liberdade aos que trouxessem um achado importante. Durante os meses que precederam à escavação, apresentaram-lhes fotografias do que iam encontrar. Essa primeira tentativa provou que a esperança e a avidez podem inibir; uma semana de trabalho com a pá e a picareta não conseguiu exumar outro hrön, salvo uma roda enferrujada, de data posterior ao experimento. Esta foi mantida em segredo e depois repetida em quatro colégios. Em três, foi quase total o fracasso; no quarto (cujo diretor morreu casualmente durante as primeira escavações), os discípulos exumaram - ou produziram - uma máscara de ouro, uma espada arcaica, duas ou três ânforas de barro e o limoso e mutilado torço de um rei com uma inscrição no peito que ainda não se logrou decifrar. Descobriu-se assim a improcedência de testemunhas que conhecessem a natureza experimental da busca... As investigações em massa produzem objetos contraditórios; agora preferem-se os trabalhos individuais e quase improvisados. A metódica elaboração de hrönir (diz o Décimo Primeiro Volume) prestou serviços prodigiosos aos arqueólogos. Permitiu examinar e até modificar o passado, que agora não é menos plástico e menos dócil que o futuro. Fato curioso: os hrönir de segundo e de terceiro grau - os hrönir derivados de outro hrön, os hrönir do hrön de um hrön - exageram as aberrações do inicial; os de quinto são quase uniformes; os de nono confundem-se com o de segundo; nos de décimo-primeiro, há uma pureza de linhas que os originais não têm. O processo é periódico: o hrön de décimo-segundo grau já começa a decair. Mais estranho e mais puro que todo o hrön, é, às vezes, o ur: a coisa produzida por sugestão, o objeto eduzido pela esperança. A grande máscara de ouro que mencionei é um ilustre exemplo.
As coisas duplicam-se em Tlön; propendem simultaneamente a apagar-se e a perder as particularidades, quando se as esquece. É clássico o exemplo do umbral que perdurou enquanto o visitava um mendigo e que se perdeu de vista com sua morte. As vezes alguns pássaros, um cavalo, salvaram as ruínas de um anfiteatro.
1940. Salto Oriental.
Pós escrito de 1947. Reproduz o artigo anterior tal como apareceu na Antologia da literatura fantástica, 1940, sem outro corte senão o de algumas metáforas e de uma espécie de resumo zombeteiro que se tornou frívolo. Tantas coisas se passaram desde aquela data... Limitar-me-ei a recordá-las.
Em março de 1941, foi descoberta uma carta manuscrita de Gunnar Erfjord num livro de Hinton que fora de Herbert Ashe. O envelope tinha o carimbo postal de Ouro Preto; a carta elucidava completamente o mistério de Tlön. Seu texto corrobora as hipóteses de Martínez Estrada. Em princípios do século XVII, numa noite de Lucerna ou de Londres, começou a esplêndida história. Uma sociedade secreta e benévola (que entre seus adeptos contou com Dalgarno e depois com George Berkeley) surgiu para inventar um país. No vago programa inicial figuravam os "estudos herméticos" a filantropia e a cabala. Dessa primeira época, data o curioso livro Andreä. Ao cabo de alguns anos de conciliábulos e sínteses prematuras, compreenderam que uma geração não bastava para articular um país. Resolveram que cada um dos mestres que a integravam escolhesse um discípulo para a continuação da obra. Essa disposição hereditária prevaleceu; depois de um hiato de dois séculos, a perseguida fraternidade ressurge na América. Por volta de 1824, em Memphis (Tennessee), um dos adeptos conversa com o ascético milionário Ezra Buckley. Este o deixa falar com certo desdém - e ri da modéstia do projeto. Diz-lhe que na América é absurdo inventar um país e propõem-lhe a invensão de um planeta. A essa gigantesca idéia acrescenta outra, filha de seu niilismo5: a de manter em sigilo a empresa enorme. Circulavam, então, os vinte volumes da Encyclopaedia Britânnica; Buckley sugere uma enciclopédia metódica do planeta ilusório. Deixar-lhes-á suas cordilheiras auríferas, seus rios navegáveis, suas várzeas pisadas pelo touro e pelo bizão, seus negros, seus prostíbulos e seus dólares, sob uma condição: "a obra não pactuará com o impostor Jesus Cristo". Buckley não acredita em Deus mas quer demonstrar ao Deus não existente que os homens mortais são capazes de conceber o mundo. Buckley é envenenado em Baton Rouge, em 1828; em 1914 a sociedade remete a seus colaboradores, que são trezentos, o volume final da Primeira Enciclopédia de Tlön. A edição é secreta: os quarenta volumes que compreende (a obra mais vasta que os homens empreenderam) seriam a base de outra mais minuciosa, não já redigida em inglês, mas em algumas das linguas de Tlön. Essa revisão de um mundo ilusório se denomina provisoriamente Orbis Tertius e um de seus modestos demiurgos foi Herbert Ashe, não sei se como agente de Gunnar Erfjord ou como adepto. Seu recebimento de um exemplar do Décimo Primeiro Volume parece favorecer a segunda hipotese. Mas, e os outros? Aí por volta de 1942, recrudesceram os fatos. Lembro-me com singular nitidez de um dos primeiros e acho que vislumbrei algo de seu caráter premonitório. Sucedeu num apartamento da Rua Laprida, frente a uma clara e alta sacada, voltada para o ocaso. A princesa de Faucigny Lucinge recebera de Poitiers sua baixela de prata. Do vasto interior de um caixote rubricado de carimbos internacionais, iam saindo finas coisas e móveis: prataria de Utrecht e de Paris com dura fauna heráldica, um samovar. Entre elas - com um perceptível e tênue tremor de pássaro adormecido, latejava misteriosamente uma bússola. A princesa não a reconheceu. A agulha azul indicava o norte magnético. A caixa de metal era côncava; as letras da esfera correspondiam a um dos alfabetos de Tlön. Tal foi a primeira intrusão do mundo fantástico no mundo real. Um acaso que me inquietava fez que também fosse testemunha da segunda. Aconteceu uns meses depois, na venda de um brasileiro, na Cuchilla Negra. Amorim e eu regressávamos de Santana. Uma enchente do rio Taquarembó nos obrigou a provar (e a suportar) essa rudimentar hospitalidade. O vendeiro acomodou-nos em catres rangentes numa peça ampla, entorpecida de barris e couros. Deitamo-nos mas não nos deixou dormir até o amanhecer a bebedeira de um vizinho fantasma, que alternava injúrias inextricáveis com trechos de milongas - melhor, com trechos de uma só milonga. Como é de supor, atribuímos à fogosa cachaça do hospedeiro essa gritaria insistente... Pela madrugada, o homem estava morto no corredor. A aspereza da voz nos enganara: era um rapaz moço. Durante o delírio cairam-lhe do tirador algumas moedas e um cone reluzente, do diâmetro de um dado. Em vão um menino tentou recolher esse cone. Apenas um homem mal consegui levanta-lo. Peguei-o na palma da mão por alguns minutos: lembro-me de que seu peso era intolerável e que, depois de retirado o cone, persistiu a opressão. Também me lembro do preciso círculo que me gravou na carne. Essa evidência de um objeto muito pequeno e ao mesmo tempo pesadíssimo deixava a impressão desagradável de asco e de medo. Um lavrador propôs que o arremessassem à correnteza do rio: Amorim o adquiriu por alguns pesos. Ninguém sabia nada sobre o morto, exceto que "procedia da fronteira". Esses cones e muito pesados (feitos de um metal que não é deste mundo) são imagem da divindade, em certas religiões de Tlön.
Aqui termino a parte pessoal de meu relato. O resto está na memória (quando não na esperança ou no temor) de todos os meus leitores. É suficiente para mim recordar ou mencionar os fatos subsequentes, com mera brevidade de palavras que a côncava lembrança geral enriquecerá ou ampliará. Por volta de 1944, um investigador do jornal The American (de Nashville, Tennessee) exumou numa biblioteca de Memphis os quarenta volumes da Primeira Enciclopédia de Tlön. Até o dia de hoje se discute se esse descobrimento foi casual ou se o consentiram os diretores do ainda nebuloso Orbis Tertius. É aceitável a segunda hipótese. Alguns traços incríveis do Décimo Primeiro Volume (por exemplo, a multiplicação dos hrönir) foram eliminados ou atenuados no exemplar de Memphis; é razoável imaginar que essas supressões obedecem ao plano de exibir um mundo que não seja demasiadamente incompatível com o mundo real. A disseminação de objetos de Tlön em diversos países complementaria esse plano... 6. O fato é que a imprensa internacional apregoou infinitamente o "achado". Manuais, antologias, resumos, versões literais, reimpressões autorizadas e reimpressões piráticas da Obra Maior dos Homens abarrotaram e continuam abarrotando a Terra. Quase imediatamente, a realidade cedeu em mais de um ponto. O certo é que desejava ceder. Há dez anos, qualquer simetria com aparência de ordem - o materialismo dialético, o anti-semitismo, o nazismo - bastava para atrair os homens. Como não submeter-se a Tlön, à minuciosa e larga evidência de um planeta ordenado? Inútil responder que a realidade também está ordenada. Quem sabe o esteja, mas conforme leis divinas - explico: leis desumanas - que nunca percebemos completamente. Tlön será um labirinto, mas um labirinto urdido por homens, um labirinto destinado a ser decifrado pelos homens.
O contato e o hábito de Tlön desintegraram este mundo. Encantada por seu rigor a humanidade esquece e torna a esquecer que é um rigor de enxadristas, não de anjos. Penetrou nas escolas o (conjetural) "idioma primitivo" de Tlön; já o ensino de sua história harmoniosa (e cheia de episódios comovedores) obliterou o que presidiu minha infância; já nas memórias um passado fictício ocupa o lugar de outro, do qual nada sabemos com certeza - nem, ao menos, que é falso. Foram reformadas a numismática, a farmacologia, e a arqueologia. Acho que a biologia e matemática aguardam também seu avatar... Uma dispersa dinastia de solitários mudou a face do mundo. Sua tarefa prossegue. Se nossas previsões não errarem, daqui a cem anos alguém descobrirá os cem volumes da Segunda Enciclopédia de Tlön.
Então desaparecerão do planeta o inglês e o francês e o simples espanhol. O mundo será Tlön. Não me importo, continuo revisando, nos plácidos dias do Hotel Adrogué, uma indecisa tradução quevediana (que não tenciono publicar) do Urn Burial, de Browne.
(Jorge Luis Borges)
Devo a conjunção de um espelho e de uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar. O espelho inquietava o fundo de um corredor numa quinta da Rua Gaona, em Ramo Mejía; a enciclopédia falazmente se chama The Anglo-American Cyclopedia (New York, 1917) e é uma reimpressão literal, mas também tardia, da Encyclopedia Britannica de 1902. O acontecimento ocorreu faz uns cinco anos. Bioy Casares jantara comigo naquela noite e demorou-nos uma vasta polêmica sobre a elaboração de um romance na primeira pessoa, cujo narrador omitisse ou desfigurasse os fatos e incorresse em diversas contradições, que permitissem a poucos leitores - a muito poucos leitores - a adivinhação de uma realidade atroz ou banal. Do fundo remoto do corredor, o espelho nos espreitava. Descobrimos (na noite alta esta descoberta é inevitável) que os espelhos têm algo de monstruoso. Então Bioy Casares recordou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número de homens. Perguntei-lhe a origem dessa memorável sentença e ele me respondeu que The Anglo-American Cyclopedia a consignava, em seu artigo sobre Uqbar. A quinta (que havíamos alugado mobiliada) possuía um exemplar dessa obra. Nas últimas páginas do volume XLVI achamos um artigo sobre Upsala; nas primeiras do XLVII, um sobre Ural-Altaic Languages, mas nem uma palavra a respeito de Uqbar. Bioy, um pouco perturbado, consultou os volumes do índice. Esgotou em vão todas as lições imagináveis: Ukbar, Ucbar, Ooqbar, Ouqbahr... Antes de sair, explicou-me que era uma região do Iraque ou da Ásia menor. Confesso que assenti com certo mal-estar. Conjeturei que esse país indocumentado e esse heresiarca anônimo eram uma ficção improvisada pela modéstia de Bioy para justificar um frase. O exame estéril de um dos Atlas de Justus Perthes fortaleceu minha dúvida.
No dia seguinte, Bioy me telefonou de Buenos Aires. Disse-me que tinha à vista o artigo sobre Uqbar, no volume XLVI da Enciclopédia. Não constava o nome do heresiarca, mas sim a notícia de sua doutrina, formulada em palavras quase idênticas às repetidas por ele, ainda que - talvez - literariamente inferiores. Ele recordara: Copulation and mirrors are abominable. O texto da Enciclopédia dizia: Para um desses gnósticos, o universo visível era uma ilusão ou (mais precisamente) um sofisma. Os espelhos e a paternidade são abomináveis (mirrors and fatherhood are abominable) porque o multiplicam e o divulgam. Eu lhe disse, sem faltar à verdade, que gostaria de ver esse artigo. Em poucos dias ele o trouxe. O que me surpreendeu, porque os escrupulosos índices cartográficos da Erdkunde de Ritter ignoravam completamente o nome de Uqbar.
O volume que Bioy trouxe era efetivamente o XLVI da Anglo-American Cyclopedia. No ante-rosto e na lombada, a indicação alfabética (Tor - Ups) era a de nosso exemplar, mas em vez de 917 páginas constava de 921. Essas quatro páginas adicionais compreendiam o artigo sobre Uqbar; não previsto (como terá o leitor observado) pela indicação alfabética. Depois comprovamos que não havia outra diferença entre os volumes. Os dois (conforme creio haver apontado) eram reimpressões da décima Encyclopedia Britannica. Bioy adquirira seu exemplar num de tantos leilões.
Lemos com certo cuidado o artigo. A passagem recordada por Bioy era talvez a única surpreendente. O resto parecia muito verossímil, muito ajustado ao tom geral da obra e (como é natural) um pouco maçante. Relendo-o, descobrimos sob sua rigorosa forma uma fundamental vagüidade. Dos quatorze nomes que figuravam na parte geográfica, apenas reconhecemos três - Jorasã, Armênia, Erzerum - interpolados no texto de um modo ambíguo. Dos nomes históricos, um só: O impostor Esmerdis, o mago, invocado mais com metáfora. A nota parecia precisar as fronteiras de Uqbar, mas seus nebulosos pontos de referência eram rios e crateras e cadeias dessa mesma região. Lemos, por exemplo que as terras baixas de Tsai Jaldun e o Delta do Axa definem a fronteira do Sul, e que nas ilhas desse delta procriam os cavalos selvagens. Isso, no começo da página 918. Na seção histórica (página 920) soubemos que, por causa das perseguições religiosas do século XIII, os ortodoxos buscaram amparo nas ilhas, onde ainda perduram seus obeliscos e onde não é raro exumar seus espelhos de pedra. A seção idioma e literatura era breve. Um único traço memorável: anotava que a literatura de Uqbar era de caráter fantástico e que suas epopéias e suas lendas não se referiam nunca à realidade mas às duas regiões imaginárias de Mlejnas e de Tlön... A bibliografia enumerava quatro volumes que não encontramos até agora, embora o terceiro - Silas Haslam: History of the land called Uqbar, 1874 - figure nos catálogos da livraria de Bernard Quaritch . O primeiro, Lesbare und Lesenswerthe Bemerdungen über das Land. Ukkbar in Klein-Asien, data de 1641 e é obra de Johannes Valentinus Andreä. O fato é significativo; um par de anos depois, deparei com esse nome nas inesperadas páginas de De Quincey (Writings, volume XIII) e soube que era o de um teólogo alemão que, em princípios do Século XVII, descreveu a imaginária comunidade da Rosa-Cruz - que outros fundaram, à imitação do prefigurado por ele.
Àquela noite visitamos a Biblioteca Nacional. Em vão molestamos atlas, catálogos, anuários de sociedades geográficas, memórias de viajantes e historiadores: ninguém estivera jamais em Uqbar. O índice geral da enciclopédia de Bioy tampouco registrara esse nome. No dia seguinte, Carlos Mastronarde (a quem eu relatara o assunto) reparou numa livraria de Corrientes e Talcahuano as pretas e douradas lombadas da Anglo-American Cyclopedia... Entrou e consultou o volume XLVI. Naturamente, não encontrou o menor indício de Uqbar.
II
Alguma lembrança limitada e diluída de Herbert Ashe, engenheiro das ferrovias do Sul, persiste no Hotel de Androgué, entre as efusivas madressilvas e no fundo ilusório dos espelhos. Em vida padeceu de irrealidade, como tantos ingleses; morto, não é sequer o fantasma que já era então. Era alto e enfastiado, e sua cansada barba retangular fora riuva. Acho que era viúvo, sem filhos. De tempos em tempos ia à Inglaterra: visitar (julgo por umas fotografias que nos mostrou) um relógio de sol e uns carvalhos. Meu pai estreitava com ele (o verbo é excessivo) uma dessas amizades inglesas que começam por excluir a confidência e que muito depressa omitem o diálogo. Costumavam manter intercâmbio de livros e de jornais; costumavam medir-se ao xadrez, taciturnamente...Recordo-o no corredor do hotel, com um livro de matemática na mão, contemplando, às vezes, as cores irrecuperáveis do céu. Uma tarde falamos do sistema duodecimal de numeração (no qual doze se escreve 10). Ashe disse que precisamente estava trasladando não sei que tabelas duodecimais a sexagemais (nas quais sessenta se escreve 10). Acrescentou que esse trabalho lhe fora encomendado por um norueguês: no Rio Grande do Sul. Há oito anos que o conhecíamos e nunca referia sua estada naquela região... Falamos da vida pastoril, de capangas, da etimologia brasileira da palavra gaucho (que alguns velhos orientais ainda pronunciam gaúcho) e nada mais se disse - Deus me perdoe - de funções duodecimais. Em setembro de 1937 (nós não estávamos no hotel), Herbert Ashe morreu da ruptura de um aneurisma. Dias antes recebera do Brasil um pacote lacrado e registrado. Era um livro em oitavo maior. Ashe deixou-o no bar, onde meses depois - encontrei. Pus-me a folheá-lo e senti uma ligeira vertigem de assombro que não descreverei, porque essa não é a história de minhas emoções, mas de Uqbar, e Tlön e Orbis Tertius. Numa noite do Islã, que se chama a "Noite das Noites", abrem-se de par em par as secretas portas do céu e é mais doce a água nos cântaros; se essas portas se abrissem, não sentiria o que senti naquela tarde. O livro estava redigido em inglês e o compunham 1001 páginas. Na amarela lombada de couro li estas curiosas palavras que o ante-rosto repetia: A First Encyclopedia of Tlön. Vol. XI. Hlaer to Jangr. Não havia indicação de data nem de lugar. Na Primeira página e numa folha de papel de seda que cobria uma das Lâminas coloridas, estava impresso um óvalo azul com esta inscrição: Orbis Tertius. Fazia dois anos que eu descobrira num volume de certa enciclopédia pirática uma sumária descrição de um falso país; agora o acaso me mostrava algo de mais precioso e mais árduo. Agora tinha nas mãos um vasto fragmento metódico da história total de um planeta desconhecido, com suas arquiteturas e seus debates, com o pavor de suas mitologias e o rumor de suas línguas, com seus imperadores e seus mares, com seus minerais e seus pássaros e seus peixes, com sua álgebra e sue fogo, com sua controvérsia teológica e metafísica. Tudo isso articulado, coerente, sem visível propósito doutrinal ou tom paródico.
No "décimo primeiro volume" de que falo, há alusões a volumes ulteriores a precedentes. Nestor Ibarra, num artigo já clássico da N.R.F., negou a existência de tais volumes; Ezequiel Martínez Estrada e Drieu La Rochelle refutaram, quiçá vitoriosamente, essa dúvida. O fato é que até agora as pesquisas mais diligentes têm sido estéreis. Em vão desarrumamos as bibliotecas das Américas e da Europa. Alfonso Reys, saturado dessas fadigas subalternas de índole policial, propõe que todos empreendamos a obra de reconstruir os muitos e maciços volumes que faltam: ex ungue leonem. Calcula, entre jocoso e sério, que uma geração de tlönistas pode bastar. Esse arriscado computo nos retrai ao problema fundamental: quais os inventores de Tlön? O plural é inevitável, porque a hipótese de um só inventor - de um infinito Leibniz trabalhando na treva e na modéstia - fora descartada unanimamente. Conjetura-se que este brave new world é obra de uma sociedade secreta de astrônomos, de biólogos, de engenheiros, de metafísicos, de poetas, de químicos, de algebristas, de moralistas, de pintores, de geômetras... dirigidos por um obscuro homem de gênio.
Muitos são os indivíduos que dominam essas disciplinas diversas, mas não os capazes de invenção e menos os capazes de subordinar a invenção a um rigoroso plano sistemático. Esse plano é tào vasto que a contribuição de cada escritor é infinitesimal. No começo pensou-se que Tlön era um mero caos, uma irresponsável licença da imaginação; agora se sabe que é um cosmos e as íntimas leis que o regem foram formulados, ainda que de modo provisório. Basta-me recordar que as contradições aparentes do Décimo Primeiro Volume são a pedra fundamental da prova de que existem os outros: tão lúcida e tão justa é a ordem que nele se observou. As revistas populares divulgaram, com perdoável excesso, a zoologia e a topografia de Tlön; penso que seus tigres transparentes e suas torres de sangue não merecem, talvez, a contínua atenção de todos os homens. Atrevo-me a pedir alguns minutos para seu conceito do universo.
Hume notou em definitivo que os argumentos de Berkeley não admitiam a menor réplica e não causavam a menor convicção. Esse ditame é totalmente verídico em sua aplicação à Terra; totalmente falso em Tlön. As nações desse planeta são - congenitamente - idealistas. Sua linguagem e as derivações de sua linguagem - a religião, as letras, a metafísica - pressupõem o idealismo. O mundo para eles não é um concurso de objetos no espaço; é uma série heterogênea de atos independentes. É sucessivo, temporal, não espacial. Não há substantivos na conjetural Ursprache de Tlön, da qual precedem os idiomas "atuais" e os dialetos: há verbos impessoais, qualificados por sufixos (ou prefixos) monossilábicos de valor adverbial. Por exemplo: não há palavra que corresponda à palavra lua, mas há um verbo que seria em espanhol lunecer ou lunar. Surgiu a lua sobre o rio diz-se hlör u fang axaxaxas mlö ou seja em sua ordem: para cima (upward) atrás duradouro-fluir lualuziu. (Xul Solar traduz sinteticamente: upa tras perfluyue lunó. Upward, behind the onstreaming, it mooned.)
O que antes foi dito se refere aos idiomas do hemisfério austral. Nos do hemisfério boreal (sobre cuja Ursprache há bem poucos dados no Décimo Primeiro Volume) a célula primordial não é o verbo, mas o adjetivo monossilábico. O substantivo se forma por acumulação de adjetivos. Não se diz lua: diz-se aéreo-claro sobre escuro-redondo ou alaranjado-tênue-do-céu ou qualquer outro acréscimo. No caso escolhido, a massa de adjetivos corresponde a um objeto real; o fato é puramente fortuito. Na literatura desse hemisfério (como no mundo subsistente de Meinong), são muitos os objetos ideais, convocados e dissolvidos no momento, conforme as necessidades poéticas. Determina-os, às vezes, a mera simultaneidade. Há objetos compostos de dois termos, um de caráter visual e outro auditivo: a cor do nascente e o remoto grito de um pássaro. Há alguns de múltiplos: o sol e a água contra o peito do nadador, o vago rosa trêmulo que se vê com os olhos fechados, a sensação de quem se deixa levar por um rio e também pelo sonho. Esses objetos de segundo grau podem combinar-se com outros; o processo mediante certas abreviaturas, é praticamente infinito. Há poemas famosos compostos de uma só enorme palavra. Essa palavra integra um objeto poético criado pelo autor. O fato de que ninguém acredite na realidade dos substantivos, faz, paradoxalmente, que seja interminável seu número. Os idiomas do hemisfério boreal de Tlön possuem todos os nomes das linguas indo-européias - e muitos outros mais.
Não é exagero afirmar que a cultura clássica de Tlön abrange uma única disciplina, a psicologia. As outras estão subordinadas a ela. Mencionei que os homens desse planeta concebem o universo como uma série de processos mentais que não se desenvolvem no espaço, mas de modo sucessivo no tempo. Spinoza confere à sua inesgotável divindade os atributos da extensão e do pensamento; ninguém compreenderia em Tlön a justa posição do primeiro (que apenas é típico de certos estados) e do segundo - que é um sinônimo perfeito do cosmos. Antes com outras palavras: não concebem que o espacial perdure no tempo. A percepção de uma fumaceira no horizonte e depois do campo incendiado e depois do charuto meio apagado que produziu a queimada, é considerada um exemplo de associação de idéias.
Esse monismo ou idealismo total, invalida a ciência. Explicar (ou julgar) um fato é uní-lo ao outro; essa vinculação em Tlön é um estado posterior do sujeito, que não pode afetar ou iluminar o estado anterior. Todo o estado mental é irredutível: o simples fato de nomeá-lo - id est, de classificá-lo - importa em falseio. Disso caberia deduzir que não há ciências em Tlön - nem sequer raciocínios. Mas a paradoxal verdade é que existem, em quase incontável número. Com as filosofias acontece o que sucede com os substantivos no hemisfério boreal. O fato de que toda a filosofia seja de antemão um jogo dialético, uma Philosophie des Als Ob, contribui para multiplicá-las. Sobram sistemas incríveis, mas de construção agradável, ou de tipo sensacional. Os metafísicos de Tlön não buscam a verdade, nem sequer a verossimilhança: buscam o assombro. Julgam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica. Sabem que um sistema não é outra coisa que a subordinação de todos os aspectos do universo a qualquer um deles. Até a frase "todos os aspectos" é inaceitável, porque supõe a impossível adição do instante presente e dos pretéritos. Nem é lícito o plural "os pretéritos", porque supõe outra operação impossível... Uma das escolas de Tlön chega a negar o tempo: argumenta que o presente é indefinido, que o futuro não tem realidade senão como esperança presente, que o passado não tem realidade senão como lembrança presente . Outra escola declara que transcorreu já todo o tempo e que nossa vida é apenas a lembrança ou reflexo crepuscular, e sem dúvida falseado e mutilado, de um processo irrecuperável. Outra, que a história do universo - e nela nossas vidas e o pormenor mais tênue de nossas vidas - é a escritura que produz um deus subalterno para entender-se com o demônio. Outra que o universo é comparável a estas criptografias nas quais não valem todos os símbolos e que só é verdade o que sucede cada trezentas noites. Outra que enquanto dormimos aqui, estamos despertos em outro lado e que assim cada homem é dois homens.
Entre as doutrinas de Tlön nenhuma mereceu tanto escândalo como o materialismo. Alguns pensadores o formularam com menos clareza que fervor, como quem expõe um paradoxo. Para facilitar o entendimento dessa tese inconcebível, um heresiarca do século décimo primeiro3 ideou o sofisma das nove moedas de cobre, cujo renome escandaloso equivale em Tlön ao das aporias eleáticas. Desse "raciocínio especioso" há muitas versões, nas quais o número de moedas e o número de achados variam; eis aqui a mais comum:
Terça-feira X atravessa um caminho deserto e perde nove moedas de cobre. Quinta-feira Y encontra no caminho quatro moedas, um pouco enferrujadas pela chuva de quarta-feira. Sexta-feira Z descobre três moedas no caminho. Sexta-feira de manhã X encontra duas moedas no corredor de sua casa. O heresiarca queria deduzir desta história a realidade - id est, a continuidade - das nove moedas recuperadas. É absurdo (afirmava) imaginar que quatro das moedas não existiram entre terça e quinta-feira, três entre terça-feira e a tarde de sexta-feira, duas entre terça-feira e a madrugada de sexta-feira. É lógico pensar que existiram - ainda que de algum modo secreto de compreensão vedada aos homens - em todos os momentos desses três prazos.
A linguagem em Tlön se opunha a formular este paradoxo; os demais não o entenderam. Os defensores do sentido comum limitaram-se no início a negar a veracidade do episódio. Repetiram que era uma falácia verbal, embasada no emprego temerário de duas vozes neológicas, não autorizadas pelo uso e alheias a todo o pensamento severo: os verbos encontrar e perder que comportavam uma petição de princípio, porque pressupunham a identidade das nove primeiras moedas e das últimas. Recordaram que todo o substantivo (homem, moeda, quinta-feira, quarta-feira, chuva) somente tem um valor metafórico. Denunciaram a pérfida circunstância um pouco enferrujadas pela chuva de quarta-feira, que pressupõe o que se procura demonstrar: a persistência das quatro moedas, entre quinta e terça-feira. Explicaram que uma coisa é igualdade e outra identidade. E formularam uma espécie de reductio ad absurdum, ou seja, o caso hipotético de nove homens que em nove noites sucessivas padecem um dor viva. Não seria ridículo - perguntaram - pretender que esta dor fosse a mesma4? Disseram que ao heresiarca movia-o apenas o blasfematório propósito de atribuir a divina categoria de ser a umas simples moedas, e que às vezes negava a pluralidade e outras não. Argumentaram: se a igualdade abrangesse a identidade, seria necessário admitir, do mesmo modo, que as nove moedas eram uma só.
Incrivelmente, essas refutações não resultaram definitivas. Ao fim de cem anos de proposição do problema, um pensador não menos brilhante que o heresiarca, mas de tradição ortodoxa, suscitou uma hipótese muito audaz. Essa conjetura feliz afirmava que há um só sujeito, que esse sujeito indivizível é cada um dos seres do universo e que estes são os órgãos e máscaras da divindade. X é Y e é Z. Z decobre três moedas, porque se lembra que X as perdeu; X encontra duas moedas no corredor porque se lembra que foram recuperadas as outras... O décimo primeiro volume deixa entender que três razões capitais determinaram a vitória total desse panteísmo idealista. A primeira, o repúdio do solipsismo; a segunda a possibilidade de conservar a base psicológica das ciências; a terceira a possibilidade de conservar o culto dos deuses. Schopenhauer (o apaixonado e lúcido Schopenhauer) formula uma doutrina muito semelhante no primeiro volume de Parerga und Paralipomena.
A geometria de Tlön compreende duas disciplinas um pouco distintas. A visual e a tátil. A última corresponde à nossa e a subordinam à primeira. A base da geometria visual é a superfície, não o ponto. Essa geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam. O fundamento de sua aritmética é a noção de números indefinidos. Acentuam a importância dos conceitos de maior e menor que nossos matemáticos simbolizam por > e por <. Afirmam que a operação de contar modifica as quantidades e as converte de indefinidas em definidas. O fato de que vários indivíduos que contam uma mesma quantidade obtêm um resultado igual é para os psicólogos um exemplo de associação de idéias ou de bom exercício da memória. Já sabemos que em Tlön o sujeito do conhecimento é uno e eterno.
Nos hábitos literários é também todo-poderosa a idéia de um sujeito único. É raro que os livros estejam assinados. Não existe conceito de plágio: estabeleceu-se que todas as obras são obra de um só autor, que é inteporal e é anônimo. A crítica costuma inventar autores, escolhe duas obras dissímeles - o "Tao Te King" e as "1001 Noites", digamos - atribui-as a um mesmo escritor e logo determina com probidade a psicologia desse interessante homme de lettres...
Também os livros são diferentes. Os de ficção abarcam um único argumento, com todas as permutações imagináveis. Os de natureza filosófica invariavelmente contém a tese e a antítese, o rigoroso pró e contra de uma doutrina. Um livro que não encerre seu contralivro é considerado incompleto.
Séculos e séculos de idealismo não deixaram de influir na realidade. Não é infrequente nas regiões mais antigas de Tlön a duplicação de objetos perdidos. Duas pessoas buscam um lápis; a primeira o encontra e não diz nada; a segunda encontra um segundo lápis não menos real, contudo mais ajustado à sua expectavia. Esses objetos secundários se chamam hrönir e são ainda que de forma desairada, mais compridos. Até há pouco os hrönir eram filhos fortuitos da distração e do esquecimento. Parece mentira que sua metódica produção conte apenas cem anos, mas assim está referido no Décimo Primeiro Volume. Os primeiros intentos foram estéreis. O modos operandi, no entanto, merece ser recordado. O diretor de um dos cárceres do Estado comunicou aos presos que no antigo leito de um rio havia certos sepulcros e prometeu a liberdade aos que trouxessem um achado importante. Durante os meses que precederam à escavação, apresentaram-lhes fotografias do que iam encontrar. Essa primeira tentativa provou que a esperança e a avidez podem inibir; uma semana de trabalho com a pá e a picareta não conseguiu exumar outro hrön, salvo uma roda enferrujada, de data posterior ao experimento. Esta foi mantida em segredo e depois repetida em quatro colégios. Em três, foi quase total o fracasso; no quarto (cujo diretor morreu casualmente durante as primeira escavações), os discípulos exumaram - ou produziram - uma máscara de ouro, uma espada arcaica, duas ou três ânforas de barro e o limoso e mutilado torço de um rei com uma inscrição no peito que ainda não se logrou decifrar. Descobriu-se assim a improcedência de testemunhas que conhecessem a natureza experimental da busca... As investigações em massa produzem objetos contraditórios; agora preferem-se os trabalhos individuais e quase improvisados. A metódica elaboração de hrönir (diz o Décimo Primeiro Volume) prestou serviços prodigiosos aos arqueólogos. Permitiu examinar e até modificar o passado, que agora não é menos plástico e menos dócil que o futuro. Fato curioso: os hrönir de segundo e de terceiro grau - os hrönir derivados de outro hrön, os hrönir do hrön de um hrön - exageram as aberrações do inicial; os de quinto são quase uniformes; os de nono confundem-se com o de segundo; nos de décimo-primeiro, há uma pureza de linhas que os originais não têm. O processo é periódico: o hrön de décimo-segundo grau já começa a decair. Mais estranho e mais puro que todo o hrön, é, às vezes, o ur: a coisa produzida por sugestão, o objeto eduzido pela esperança. A grande máscara de ouro que mencionei é um ilustre exemplo.
As coisas duplicam-se em Tlön; propendem simultaneamente a apagar-se e a perder as particularidades, quando se as esquece. É clássico o exemplo do umbral que perdurou enquanto o visitava um mendigo e que se perdeu de vista com sua morte. As vezes alguns pássaros, um cavalo, salvaram as ruínas de um anfiteatro.
1940. Salto Oriental.
Pós escrito de 1947. Reproduz o artigo anterior tal como apareceu na Antologia da literatura fantástica, 1940, sem outro corte senão o de algumas metáforas e de uma espécie de resumo zombeteiro que se tornou frívolo. Tantas coisas se passaram desde aquela data... Limitar-me-ei a recordá-las.
Em março de 1941, foi descoberta uma carta manuscrita de Gunnar Erfjord num livro de Hinton que fora de Herbert Ashe. O envelope tinha o carimbo postal de Ouro Preto; a carta elucidava completamente o mistério de Tlön. Seu texto corrobora as hipóteses de Martínez Estrada. Em princípios do século XVII, numa noite de Lucerna ou de Londres, começou a esplêndida história. Uma sociedade secreta e benévola (que entre seus adeptos contou com Dalgarno e depois com George Berkeley) surgiu para inventar um país. No vago programa inicial figuravam os "estudos herméticos" a filantropia e a cabala. Dessa primeira época, data o curioso livro Andreä. Ao cabo de alguns anos de conciliábulos e sínteses prematuras, compreenderam que uma geração não bastava para articular um país. Resolveram que cada um dos mestres que a integravam escolhesse um discípulo para a continuação da obra. Essa disposição hereditária prevaleceu; depois de um hiato de dois séculos, a perseguida fraternidade ressurge na América. Por volta de 1824, em Memphis (Tennessee), um dos adeptos conversa com o ascético milionário Ezra Buckley. Este o deixa falar com certo desdém - e ri da modéstia do projeto. Diz-lhe que na América é absurdo inventar um país e propõem-lhe a invensão de um planeta. A essa gigantesca idéia acrescenta outra, filha de seu niilismo5: a de manter em sigilo a empresa enorme. Circulavam, então, os vinte volumes da Encyclopaedia Britânnica; Buckley sugere uma enciclopédia metódica do planeta ilusório. Deixar-lhes-á suas cordilheiras auríferas, seus rios navegáveis, suas várzeas pisadas pelo touro e pelo bizão, seus negros, seus prostíbulos e seus dólares, sob uma condição: "a obra não pactuará com o impostor Jesus Cristo". Buckley não acredita em Deus mas quer demonstrar ao Deus não existente que os homens mortais são capazes de conceber o mundo. Buckley é envenenado em Baton Rouge, em 1828; em 1914 a sociedade remete a seus colaboradores, que são trezentos, o volume final da Primeira Enciclopédia de Tlön. A edição é secreta: os quarenta volumes que compreende (a obra mais vasta que os homens empreenderam) seriam a base de outra mais minuciosa, não já redigida em inglês, mas em algumas das linguas de Tlön. Essa revisão de um mundo ilusório se denomina provisoriamente Orbis Tertius e um de seus modestos demiurgos foi Herbert Ashe, não sei se como agente de Gunnar Erfjord ou como adepto. Seu recebimento de um exemplar do Décimo Primeiro Volume parece favorecer a segunda hipotese. Mas, e os outros? Aí por volta de 1942, recrudesceram os fatos. Lembro-me com singular nitidez de um dos primeiros e acho que vislumbrei algo de seu caráter premonitório. Sucedeu num apartamento da Rua Laprida, frente a uma clara e alta sacada, voltada para o ocaso. A princesa de Faucigny Lucinge recebera de Poitiers sua baixela de prata. Do vasto interior de um caixote rubricado de carimbos internacionais, iam saindo finas coisas e móveis: prataria de Utrecht e de Paris com dura fauna heráldica, um samovar. Entre elas - com um perceptível e tênue tremor de pássaro adormecido, latejava misteriosamente uma bússola. A princesa não a reconheceu. A agulha azul indicava o norte magnético. A caixa de metal era côncava; as letras da esfera correspondiam a um dos alfabetos de Tlön. Tal foi a primeira intrusão do mundo fantástico no mundo real. Um acaso que me inquietava fez que também fosse testemunha da segunda. Aconteceu uns meses depois, na venda de um brasileiro, na Cuchilla Negra. Amorim e eu regressávamos de Santana. Uma enchente do rio Taquarembó nos obrigou a provar (e a suportar) essa rudimentar hospitalidade. O vendeiro acomodou-nos em catres rangentes numa peça ampla, entorpecida de barris e couros. Deitamo-nos mas não nos deixou dormir até o amanhecer a bebedeira de um vizinho fantasma, que alternava injúrias inextricáveis com trechos de milongas - melhor, com trechos de uma só milonga. Como é de supor, atribuímos à fogosa cachaça do hospedeiro essa gritaria insistente... Pela madrugada, o homem estava morto no corredor. A aspereza da voz nos enganara: era um rapaz moço. Durante o delírio cairam-lhe do tirador algumas moedas e um cone reluzente, do diâmetro de um dado. Em vão um menino tentou recolher esse cone. Apenas um homem mal consegui levanta-lo. Peguei-o na palma da mão por alguns minutos: lembro-me de que seu peso era intolerável e que, depois de retirado o cone, persistiu a opressão. Também me lembro do preciso círculo que me gravou na carne. Essa evidência de um objeto muito pequeno e ao mesmo tempo pesadíssimo deixava a impressão desagradável de asco e de medo. Um lavrador propôs que o arremessassem à correnteza do rio: Amorim o adquiriu por alguns pesos. Ninguém sabia nada sobre o morto, exceto que "procedia da fronteira". Esses cones e muito pesados (feitos de um metal que não é deste mundo) são imagem da divindade, em certas religiões de Tlön.
Aqui termino a parte pessoal de meu relato. O resto está na memória (quando não na esperança ou no temor) de todos os meus leitores. É suficiente para mim recordar ou mencionar os fatos subsequentes, com mera brevidade de palavras que a côncava lembrança geral enriquecerá ou ampliará. Por volta de 1944, um investigador do jornal The American (de Nashville, Tennessee) exumou numa biblioteca de Memphis os quarenta volumes da Primeira Enciclopédia de Tlön. Até o dia de hoje se discute se esse descobrimento foi casual ou se o consentiram os diretores do ainda nebuloso Orbis Tertius. É aceitável a segunda hipótese. Alguns traços incríveis do Décimo Primeiro Volume (por exemplo, a multiplicação dos hrönir) foram eliminados ou atenuados no exemplar de Memphis; é razoável imaginar que essas supressões obedecem ao plano de exibir um mundo que não seja demasiadamente incompatível com o mundo real. A disseminação de objetos de Tlön em diversos países complementaria esse plano... 6. O fato é que a imprensa internacional apregoou infinitamente o "achado". Manuais, antologias, resumos, versões literais, reimpressões autorizadas e reimpressões piráticas da Obra Maior dos Homens abarrotaram e continuam abarrotando a Terra. Quase imediatamente, a realidade cedeu em mais de um ponto. O certo é que desejava ceder. Há dez anos, qualquer simetria com aparência de ordem - o materialismo dialético, o anti-semitismo, o nazismo - bastava para atrair os homens. Como não submeter-se a Tlön, à minuciosa e larga evidência de um planeta ordenado? Inútil responder que a realidade também está ordenada. Quem sabe o esteja, mas conforme leis divinas - explico: leis desumanas - que nunca percebemos completamente. Tlön será um labirinto, mas um labirinto urdido por homens, um labirinto destinado a ser decifrado pelos homens.
O contato e o hábito de Tlön desintegraram este mundo. Encantada por seu rigor a humanidade esquece e torna a esquecer que é um rigor de enxadristas, não de anjos. Penetrou nas escolas o (conjetural) "idioma primitivo" de Tlön; já o ensino de sua história harmoniosa (e cheia de episódios comovedores) obliterou o que presidiu minha infância; já nas memórias um passado fictício ocupa o lugar de outro, do qual nada sabemos com certeza - nem, ao menos, que é falso. Foram reformadas a numismática, a farmacologia, e a arqueologia. Acho que a biologia e matemática aguardam também seu avatar... Uma dispersa dinastia de solitários mudou a face do mundo. Sua tarefa prossegue. Se nossas previsões não errarem, daqui a cem anos alguém descobrirá os cem volumes da Segunda Enciclopédia de Tlön.
Então desaparecerão do planeta o inglês e o francês e o simples espanhol. O mundo será Tlön. Não me importo, continuo revisando, nos plácidos dias do Hotel Adrogué, uma indecisa tradução quevediana (que não tenciono publicar) do Urn Burial, de Browne.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
"Narrar é um des-velamento. Desencobrir o que estava velado, no mundo, e em si mesmo, e re-velar, tornar a cobrir de véus, o que estava evidente, esconder outra vez. Esse duplo movimento, de fazer aparecer, e de fazer esconder – o excesso de luz também impede de ver –, é a essência do bom conto. [Ele] . . . ainda pode re-velar, desde que evite a tagarelice, o prosaísmo, e consiga equilibrar harmonicamente fábula e trama. Se o contista descura da última, lança o seu objeto nas poluídas águas do entretenimento; se desmerece a primeira, arrisca-se a descaracterizar o gênero, jogando-o no tedioso mar do lirismo em prosa. Um bom conto esconde o que mostra e mostra o que esconde . . . " (Charles Kiefer)
terça-feira, 21 de abril de 2009
"Talvez não seja possível ensinar a escrever; mas é plenamente possível ensinar a aprender a escrever. Um escritor, ou um aluno, que não é um eterno aprendiz, é um escritor, ou um aluno, que se contenta em ser simulacro de si mesmo." (Charles Kiefer)
Melhores filmes que eu vi (pela primeira vez) do ano passado para cá.
01. Caos calmo / Caos calmo (2008) Antonio Luigi Grimaldi
02. Rachel getting married / O casamento de Rachel (2008) Jonathan Demme
03. Direktøren for det hele / O grande chefe (2006) Lars Von Trier
04. Eastern promises / Senhores do crime (2007) David Cronenberg
05. Irina Palm / Irina Palm (2007) Sam Garbarski
06. The proposition / A proposição (2005) John Hillcoat
07. Efter brylluppet / Depois do casamento (2006) Susanne Bier
08. Le couperet / O corte (2005) Costa-Gavras
09. Das Leben der Anderen / A vida dos outros (2006) Florian Henckel von Donnersmarck
10. Kukkia ja sidontaa / Arranjos e flores (2004) Janne Kuusi
11. Vicky Cristina Barcelona / Vicky Cristina Barcelona (2008) Woody Allen
12. En soap / Além do desejo (2006) Pernille Fischer Christensen
13. Lavoura arcaica / Lavoura arcaica (2001) Luiz Fernando Carvalho
14. Tillsammans / Bem-vindos (2000) Lukas Moodysson
Nick Cave se deu bem escrevendo um roteiro de cinema. 'A proposta' é um ótimo filme que eu comprei sem conhecer por R$ 9,90 num balaio, ontem - na mesma vala catei 'Querida Wendy' (duas unidades), 'Amor à flor da pele' e 'O corte'. E a música é sempre 50% do filme. Salve o Nick Cave - músico, poeta e escritor. Vou atrás de 'The proposition', o disco.
O por enquanto desconhecido diretor John Hillcoat está na pós-produção do filme 'The road', baseado em livro do escritor Cormac McCarthy ('No country for old men'), com Charlize Theron, Viggo Mortensen, Robert Duvall e - de novo - Guy Pearce; e na pré-produção de uma segunda história do Nick Cave, 'Death of a ladies' man'.

THE RIDER
Nick Cave
'When?' said the moon to the stars in the sky
'Soon' said the wind that followed them all
'Who?' said the cloud that started to cry
'Me' said the rider as dry as a bone
'How?' said the sun that melted the ground
and 'Why?' said the river that refused to run
and 'Where?' said the thunder without a sound
'Here' said the rider and took up his gun
'No' said the stars to the moon in the sky
'No' said the trees that started to moan
'No' said the dust that blunted its eyes
'Yes' said the rider as white as a bone
'No' said the moon that rose from his sleep
'No' said the cry of the dying sun
'No' said the planet as it started to weep
'Yes' said the rider and laid down his gun
01. Caos calmo / Caos calmo (2008) Antonio Luigi Grimaldi
02. Rachel getting married / O casamento de Rachel (2008) Jonathan Demme
03. Direktøren for det hele / O grande chefe (2006) Lars Von Trier
04. Eastern promises / Senhores do crime (2007) David Cronenberg
05. Irina Palm / Irina Palm (2007) Sam Garbarski
06. The proposition / A proposição (2005) John Hillcoat
07. Efter brylluppet / Depois do casamento (2006) Susanne Bier
08. Le couperet / O corte (2005) Costa-Gavras
09. Das Leben der Anderen / A vida dos outros (2006) Florian Henckel von Donnersmarck
10. Kukkia ja sidontaa / Arranjos e flores (2004) Janne Kuusi
11. Vicky Cristina Barcelona / Vicky Cristina Barcelona (2008) Woody Allen
12. En soap / Além do desejo (2006) Pernille Fischer Christensen
13. Lavoura arcaica / Lavoura arcaica (2001) Luiz Fernando Carvalho
14. Tillsammans / Bem-vindos (2000) Lukas Moodysson
Nick Cave se deu bem escrevendo um roteiro de cinema. 'A proposta' é um ótimo filme que eu comprei sem conhecer por R$ 9,90 num balaio, ontem - na mesma vala catei 'Querida Wendy' (duas unidades), 'Amor à flor da pele' e 'O corte'. E a música é sempre 50% do filme. Salve o Nick Cave - músico, poeta e escritor. Vou atrás de 'The proposition', o disco.
O por enquanto desconhecido diretor John Hillcoat está na pós-produção do filme 'The road', baseado em livro do escritor Cormac McCarthy ('No country for old men'), com Charlize Theron, Viggo Mortensen, Robert Duvall e - de novo - Guy Pearce; e na pré-produção de uma segunda história do Nick Cave, 'Death of a ladies' man'.
THE RIDER
Nick Cave
'When?' said the moon to the stars in the sky
'Soon' said the wind that followed them all
'Who?' said the cloud that started to cry
'Me' said the rider as dry as a bone
'How?' said the sun that melted the ground
and 'Why?' said the river that refused to run
and 'Where?' said the thunder without a sound
'Here' said the rider and took up his gun
'No' said the stars to the moon in the sky
'No' said the trees that started to moan
'No' said the dust that blunted its eyes
'Yes' said the rider as white as a bone
'No' said the moon that rose from his sleep
'No' said the cry of the dying sun
'No' said the planet as it started to weep
'Yes' said the rider and laid down his gun
[MELHORES DISCOS DE 2009 SO FAR]
01. Bill Callahan - Sometimes I wish we were an eagle
02. PJ Harvey & John Parish - A woman a man walked by
03. St. Vincent - Actor
04. Pan American - White beard release
05. Blackout Beach - Skin of evil
06. Sissy Wish - Beauties never die
07. Yeah Yeah Yeahs - It's blitz!
08. Death Cab For Cutie - The open door EP
09. Mirah - (a)spera
10. Lily Allen - It's not me, it's you
11. Intrusion - The seduction of silence
12. Super Furry Animals - Dark days-light years
13. Swan Lake - Enemy mine
14. A. C. Newman - Get guilty
15. Neko Case - Middle cyclone
16. Robyn Hitchcock - Goodnight Oslo
17. Marissa Nadler - Little hells
18. The Boy Least Likely To - The law of the playground
19. Thom Yorke - The eraser Rmxs
20. Bonnie Prince Billy - Beware!
21. Mi Ami - Watersports
01. Bill Callahan - Sometimes I wish we were an eagle
02. PJ Harvey & John Parish - A woman a man walked by
03. St. Vincent - Actor
04. Pan American - White beard release
05. Blackout Beach - Skin of evil
06. Sissy Wish - Beauties never die
07. Yeah Yeah Yeahs - It's blitz!
08. Death Cab For Cutie - The open door EP
09. Mirah - (a)spera
10. Lily Allen - It's not me, it's you
11. Intrusion - The seduction of silence
12. Super Furry Animals - Dark days-light years
13. Swan Lake - Enemy mine
14. A. C. Newman - Get guilty
15. Neko Case - Middle cyclone
16. Robyn Hitchcock - Goodnight Oslo
17. Marissa Nadler - Little hells
18. The Boy Least Likely To - The law of the playground
19. Thom Yorke - The eraser Rmxs
20. Bonnie Prince Billy - Beware!
21. Mi Ami - Watersports
No show de ontem dos B-52s foi destaque para mim a cantora Cindy Wilson, 51 anos, feliz só de meia-calça. Ela era garçonete quando ajudou a fundar a banda. Uma curiosidade é que nas turnês de 1992 e 1993, Julee Cruise, a cantora das músicas de 'Twin Peaks', ficou no lugar da Cindy.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
"[...] Uma das escolas de Tlön chega a negar o tempo: argumenta que o presente é indefinido, que o futuro não tem realidade senão como esperança presente, que o passado não tem realidade senão como recordação presente. (Russell, em 'The analysis of mind', 1921, página 159, supõe que o planeta tenha sido criado há alguns minutos, provido de uma humanidade que 'recorda' um passado ilusório.) Outra escola declara que todo o tempo já transcorreu e que nossa vida é apenas a recordação, ou o reflexo crepuscular, sem dúvida flaseado e mutilado, de um processo irrecuperável.
"[...] Essa conjetura feliz afirma que há um só sujeito, que esse sujeito indivisível é cada um dos seres do universo e que esses são órgãos e máscaras da divindade. X é Y e é Z. [...] Já sabemos que em Tlön o sijeito do conhecimento é uno e eterno. Nos hábitos literários também é todo-poderosa a idéia de um sujeito único. É raro que os livros sejam assinados. Não existe o conceito de plágio: ficou estabelecido que todas as obras são obra de um só autor, que é intemporal e anônimo.
"[...] Tlön pode ser um labirinto, mas é um labirinto urdido pelos homens, um labirinto destinado a ser decifrado pelos homens. [...]"
'Tlön, Uqbar, Orbis Tertius' in BORGES, Jorge Luis. Ficciones. 1944.
"[...] Essa conjetura feliz afirma que há um só sujeito, que esse sujeito indivisível é cada um dos seres do universo e que esses são órgãos e máscaras da divindade. X é Y e é Z. [...] Já sabemos que em Tlön o sijeito do conhecimento é uno e eterno. Nos hábitos literários também é todo-poderosa a idéia de um sujeito único. É raro que os livros sejam assinados. Não existe o conceito de plágio: ficou estabelecido que todas as obras são obra de um só autor, que é intemporal e anônimo.
"[...] Tlön pode ser um labirinto, mas é um labirinto urdido pelos homens, um labirinto destinado a ser decifrado pelos homens. [...]"
'Tlön, Uqbar, Orbis Tertius' in BORGES, Jorge Luis. Ficciones. 1944.
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domingo, 19 de abril de 2009
Música "nova" da Blanched. Remix doom-ambient/drone-metal de 'Um palhaço no campo de concentração'.
2008: Inter 8x1 Juventude
2009: Inter 8x1 Caxias
Dezesseis gols em dois jogos.
sábado, 18 de abril de 2009
"Crocce acreditava que não há gêneros. Eu creio que sim, que há, no sentido de que há uma expectativa no leitor. Se uma pessoa lê um conto, lê de modo diferente de seu modo de ler quando procura um verbete na enciclopédia [wikipédia?], ou quando lê um romance, ou quando lê um poema. Os textos podem não ser diferentes uns dos outros, mas se alteram segundo o leitor, segundo a expectativa. Quem lê um conto sabe ou espera ler algo que o distraia da vida cotidiana, que o faça entrar num mundo, não direi fantástico, a palavra é muito ambiciosa, mas ligeiramente diferente do mundo das experiências comuns." (Jorge Luis Borges)
quinta-feira, 16 de abril de 2009
'Ambivalência' está no Goodreads.
"Hoje é melhor vc ficar em casa
Não saia, estarei na rua
Evite me ver
Não uso as calçadas
Quero a companhia dos carros
(Do betume)
Do cheiro que fica
Quando os carros passam
Não saia pra rua estarei lá
(Hoje é dia de feira)" *
* "O Dia dos Pensamentos Maus é um texto de Mortimer Só. Esta parte da letra é sempre pensada mas nunca vocalizada. As instruções são claras. Melhor assim." ( . )
Não saia, estarei na rua
Evite me ver
Não uso as calçadas
Quero a companhia dos carros
(Do betume)
Do cheiro que fica
Quando os carros passam
Não saia pra rua estarei lá
(Hoje é dia de feira)" *
* "O Dia dos Pensamentos Maus é um texto de Mortimer Só. Esta parte da letra é sempre pensada mas nunca vocalizada. As instruções são claras. Melhor assim." ( . )
"Inutensílios. Seus restos. Nossos produtos. De volta pra você."



"O mundo produz 230 milhões de toneladas de produtos plásticos por ano. 1 milhão de sacolas plásticas são encaminhadas aos oceanos a cada minuto. Calcula-se que cada produto plástico pode levar de 300 a 400 anos para se degradar. E esse é o fator do sucesso dos plásticos para o meio ambiente. Sua permanência garantida."
"O mundo produz 230 milhões de toneladas de produtos plásticos por ano. 1 milhão de sacolas plásticas são encaminhadas aos oceanos a cada minuto. Calcula-se que cada produto plástico pode levar de 300 a 400 anos para se degradar. E esse é o fator do sucesso dos plásticos para o meio ambiente. Sua permanência garantida."
terça-feira, 14 de abril de 2009
QUATRO MUNDOS DA CRIAÇÃO
Charles Kiefer (a partir da Cabala)
1. Atsilut: Mundo da Emanação
Tem-se uma idéia geral, ainda indefinida. A idéia está o mais perto possível da fonte de criação. A fonte pode ser o Grande Arquiteto, o inconsciente, a Musa, a paixão.
2. Beriá: Mundo da Criação
Já se tem uma idéia definida do que se fará. Nesse momento, o desejo vira palavra. Faça-se a luz e a luz se fez. Aqui entra a vontade, o querer fazer. É o momento de se apanhar um papel e uma caneta, ou o teclado de um computador, e deixar as palavras fluírem, sem censura, sem policiamento.
3. Yetsirá: Mundo da Formação
Momento de se fazer um plano ou desenho arquitético daquilo que se pretende. O projeto começa a se consolidar, a se sedimentar. Consegue-se ver o vir-a-ser. A imagem mental começa a se tornar realidade objetual.
4. Assiyá: Mundo da Ação
Neste momento, começa a construção em si. Aqui, o fazer se retro-alimenta. Ao ser criada a criatura cria o criador (Bruno Stein). Quanto mais se investir energia libidinal nesta fase sobre o objeto, mais ele brilhará depois. É o estágio final do processo criador.
Obs.: Entre cada um dos mundos, há graus infinitos. Cada pessoa demora-se mais ou menos em cada um deles, daí advém a infinita variedade artística.
Charles Kiefer (a partir da Cabala)
1. Atsilut: Mundo da Emanação
Tem-se uma idéia geral, ainda indefinida. A idéia está o mais perto possível da fonte de criação. A fonte pode ser o Grande Arquiteto, o inconsciente, a Musa, a paixão.
2. Beriá: Mundo da Criação
Já se tem uma idéia definida do que se fará. Nesse momento, o desejo vira palavra. Faça-se a luz e a luz se fez. Aqui entra a vontade, o querer fazer. É o momento de se apanhar um papel e uma caneta, ou o teclado de um computador, e deixar as palavras fluírem, sem censura, sem policiamento.
3. Yetsirá: Mundo da Formação
Momento de se fazer um plano ou desenho arquitético daquilo que se pretende. O projeto começa a se consolidar, a se sedimentar. Consegue-se ver o vir-a-ser. A imagem mental começa a se tornar realidade objetual.
4. Assiyá: Mundo da Ação
Neste momento, começa a construção em si. Aqui, o fazer se retro-alimenta. Ao ser criada a criatura cria o criador (Bruno Stein). Quanto mais se investir energia libidinal nesta fase sobre o objeto, mais ele brilhará depois. É o estágio final do processo criador.
Obs.: Entre cada um dos mundos, há graus infinitos. Cada pessoa demora-se mais ou menos em cada um deles, daí advém a infinita variedade artística.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Ola Simonsson - Music for one apartment and six drummers
Seis pessoas esperam os moradores sair de um apartamento e transformam tudo que tem lá dentro em instrumento musical.
Seis pessoas esperam os moradores sair de um apartamento e transformam tudo que tem lá dentro em instrumento musical.
AMANHÃ
"God save Sweden. Eu amo filmes suecos."
Så som i himmelen / A vida no paraíso (2004) Kay Pollak
quinta-feira, 9 de abril de 2009
"Escrever um conto assim [sem nenhuma idéia prévia do enredo] é simultaneamente terrível e maravilhoso, há um desespero exaltante, uma exaltação desesperada; é agora ou nunca, e o temor de que possa ser nunca exacerba o agora, torna-o máquina de escrever correndo a todo o teclado, esquecimento da circunstância, abolição do circundante. E então a massa negra se aclara à medida em que se avança, incrivelmente as coisas são de uma extrema facilidade como se o conto já estivesse escrito com uma tinta simpática e a gente passasse por cima o pincelzinho que o desperta. Escrever um conto assim não dá nenhum trabalho, absolutamente nenhum; tudo ocorreu antes e esse antes, que aconteceu num plano onde 'a sinfonia se agita na profundeza', para dizê-lo com Rimbaud, é o que provocou a obsessão, o coágulo abominável que era preciso arrancar em tiras de palavras." (Júlio Cortázar)
"O homem do nosso tempo acredita francamente que sua informação filosófica e histórica o salva do realismo ingênuo. Em conferências universitárias e em conversas nos cafés, chega a admitir que a realidade não é o que parece, e está sempre disposto a reconhecer que seus sentidos o enganam e que sua inteligência constrói uma visão tolerável porém incompleta do mundo. Cada vez que pensa metafisicamente, sente-se 'mais triste e mais sábio', mas sua confissão é momentânea e excepcional, enquanto o contínuo da vida o instala de cheio na aparência, concretiza-a em torno dele, veste-a de definições, funções e valores.
"Esse homem é um ingênuo realista, mais que um realista ingênuo. Basta observar seu comportamento frente ao excepcional, o insólito: ou o reduz a fenômeno estético ou poético ("era algo realmente surrealista, te juro") ou desiste, em seguida, de buscar na entrevisão que ganhara um sonho, um ato frustrado, uma associação verbal ou causal fora do comum, uma coincidência perturbadora, qualquer das fraturas instantâneas do contínuo." (Júlio Cortázar)
"Esse homem é um ingênuo realista, mais que um realista ingênuo. Basta observar seu comportamento frente ao excepcional, o insólito: ou o reduz a fenômeno estético ou poético ("era algo realmente surrealista, te juro") ou desiste, em seguida, de buscar na entrevisão que ganhara um sonho, um ato frustrado, uma associação verbal ou causal fora do comum, uma coincidência perturbadora, qualquer das fraturas instantâneas do contínuo." (Júlio Cortázar)
Decálogo do perfeito contista
do escritor uruguaio Horácio Quiroga
I - Crê em um mestre - Poe, Maupassant, Kipling, Tchecov - como em Deus.
II - Crê que tua arte é um cume inacessível. Não sonhes alcançá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem ao menos perceber.
III - Resiste o quando puderes à imitação, mas imite se a demanda for demasiado forte. Mais que nenhuma outra coisa, o desenvolvimento da personalidade requer muita paciência.
IV - Tem fé cega não em tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como à tua namorada, de todo o coração.
V - Não comeces a escrever sem saber desde a primeira linha aonde queres chegar. Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.
VI - Se quiseres expressar com exatidão esta circunstância: "Desde o rio soprava o vento frio", não há na língua humana mais palavras que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de tuas palavras, não te preocupes em observar se apresentam consonância ou dissonância entre si.
VII - Não adjetives sem necessidade. Inúteis serão quantos apêndices coloridos aderires a um substantivo fraco. Se encontrares o perfeito, somente ele terá uma cor incomparável. Mas é preciso encontrá-lo.
VIII - Pega teus personagens pela mão e conduza-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver. Não abuses do leitor. Um conto é um romance do qual se retirou as aparas. Tenha isso como uma verdade absoluta, ainda que não o seja.
IX - Não escrevas sob domínio da emoção. Deixe-a morrer e evoque-a em seguida. Se fores então capaz de revivê-la tal qual a sentiu, terás alcançado na arte a metade do caminho.
X - Não penses em teus amigos ao escrever, nem na impressão que causará tua história. Escreva como se teu relato não interessasse a mais ninguém senão ao pequeno mundo de teus personagens, dos quais poderias ter sido um. Não há outro modo de dar vida ao conto.
do escritor uruguaio Horácio Quiroga
I - Crê em um mestre - Poe, Maupassant, Kipling, Tchecov - como em Deus.
II - Crê que tua arte é um cume inacessível. Não sonhes alcançá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem ao menos perceber.
III - Resiste o quando puderes à imitação, mas imite se a demanda for demasiado forte. Mais que nenhuma outra coisa, o desenvolvimento da personalidade requer muita paciência.
IV - Tem fé cega não em tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como à tua namorada, de todo o coração.
V - Não comeces a escrever sem saber desde a primeira linha aonde queres chegar. Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.
VI - Se quiseres expressar com exatidão esta circunstância: "Desde o rio soprava o vento frio", não há na língua humana mais palavras que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de tuas palavras, não te preocupes em observar se apresentam consonância ou dissonância entre si.
VII - Não adjetives sem necessidade. Inúteis serão quantos apêndices coloridos aderires a um substantivo fraco. Se encontrares o perfeito, somente ele terá uma cor incomparável. Mas é preciso encontrá-lo.
VIII - Pega teus personagens pela mão e conduza-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver. Não abuses do leitor. Um conto é um romance do qual se retirou as aparas. Tenha isso como uma verdade absoluta, ainda que não o seja.
IX - Não escrevas sob domínio da emoção. Deixe-a morrer e evoque-a em seguida. Se fores então capaz de revivê-la tal qual a sentiu, terás alcançado na arte a metade do caminho.
X - Não penses em teus amigos ao escrever, nem na impressão que causará tua história. Escreva como se teu relato não interessasse a mais ninguém senão ao pequeno mundo de teus personagens, dos quais poderias ter sido um. Não há outro modo de dar vida ao conto.
"Um contista eficaz pode escrever narrativas literariamente válidas, mas se alguma vez tiver passado pela experiência de se livrar de um conto como quem tira de cima de si um bicho, saberá a diferença entre possessão e cozinha literária, e por sua vez um bom leitor de contos distinguirá infalivelmente entre o que vem de um território indefinível e nefasto, e o produto de um mero métier. (...) De um modo que nenhuma outra técnica pode ensinar ou prover, o grande conto breve condensa a obsessão do bicho, é uma presença alucinante que se instala desde as primeiras frases para fascinar o leitor, fazê-lo perder contato com a desbotada realidade que o rodeia, arrasá-lo numa submersão mais intensa e avassaladora." (Júlio Cortázar)
Ontem, no jogo Inter e Guarani, pela Copa do Brasil, algo me foi revelado: o técnico colorado, Tite, era volante do Guarani em 1986, quando o time de Campinas foi vice-campeão brasileiro, perdendo na final para o São Paulo de Gilmar, Zé Teodoro, Wagner Basílio, Dário Pereyra e Nelsinho; Bernardo, Pita e Silas; Muller, Careca e Sidney. Foi nesse ano de 1986 que eu comecei a acompanhar o futebol, por causa da Copa do Mundo do México e porque eu tinha 8 anos. Então eu acompanhei o Brasileirão abarrotado de times, seis grupos, incluindo Tuna Luso, CRB, CRA, Bangu, América (RJ) etc. A final de São Paulo e Guarani eu vi na casa do meu vizinho de praia, Fabiano da Rosa. Eis abaixo a foto daquele Guarani com o nosso glorioso treinador Adenor Bacchi, o Tite.
Em pé: Sérgio Nery, Marco Antônio, Ricardo Rocha, Fernando, Tosin e Zé Mario. Agachados: Chiquinho, Tite, Evair, Marco Antônio Boiadeiro e João Paulo.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Charles Kiefer escreve sobre os títulos dos textos ficcionais:
"Não há escritor que não se debata com a difícil questão dos títulos de suas obras, sejam elas poemas, crônicas, contos, novelas ou romances. O título faz a primeira ponte com o mundo, é o primeiro gancho de interesse, a primeira luz do farol no nevoeiro. A obra está lá, enrodilhada em si mesma, mas escondida, e é preciso uma etiqueta, um visgo ou um guizo para que ela seja percebida pelo possível leitor. Nesse instante, o autor defronta-se com uma questão ética - ser fiel a si mesmo e à obra, ou a esse fátuo e imponderável leitor.
"O leitor é uma abstração. Só existe em potência. Cada uma das partes envolvidas no processo de criação e produção do livro idealiza um leitor. Assim, há o leitor ideal do autor, como também há o leitor ideal do editor, do distribuidor, do livreiro. E lá no final do processo, há o leitor real, raro e esquivo, soterrado sob uma avalanche infinita de títulos. Vigiando a todos, como uma esfinge hierática e fatal, sorri o Mercado, esse deus insaciável, que controla o Portal da Cidade do Livro e que deseja títulos vistosos, agradáveis, comerciais.
"Mas, às vezes, a obra - inteira e autônoma - recusa-se a essas vestimentas carnavalescas, não querendo chamar tanta atenção sobre si mesma. Indeciso diante do enigma, o autor só tem duas opções: deixar a matéria gerar o próprio nome ou fazer aderir um nome qualquer à matéria. Que ouvido sutil há de ter o autor para captar o murmúrio da obra: Eu sou o que sou! Ou que espírito pragmático há de ter o autor para etiquetar, sem nenhuma angústia, o que acabou de produzir...
"Edgar Alan Poe dizia que um título deve prenunciar tudo o que uma obra contém. Mas Poe, nós sabemos, estava pensando no consumidor, estava ajudando a construir uma ética para as relações comerciais: se vendo um produto, ele deve ser honesto; não é justo vender-se gato por lebre. E foi com esta visada, pragmática e reificada, que ele criticou duramente o título genial de Nathanael Hawthorne, 'Twice told tales'!
"Gabriel García Márquez optou por ser absolutamente honesto e fiel ao espírito da própria obra, intitulando uma novela de assassinato e paixão de 'Crônica de uma morte anunciada'. Talvez um dos maiores achados na história dos títulos. E um dos melhores exemplos de que o único caminho para um escritor é a radicalidade, a coerência e a fidelidade à própria obra. Absolutamente fechada em si mesma, ela se encarregará de dar o bote sobre o leitor, conquistando-os aos milhares. Ou adormecendo, mofada, nos estoques das distribuidoras.
"Se a palavra efetivamente tem poder, se nomes condicionam destinos, os escritores devem se preocupar seriamente com os títulos de seus livros, como os pais com os nomes de seus filhos. Mas, se a palavra é um mero signo, se ela simplesmente se cola às coisas, na inútil tentativa de dar-lhes uma significação, é melhor que eles não resistam ao canto de sereia do Mercado. A estes, pois, seria bom lembrar que um bom título não salva um mau livro, mas um mau título pode prejudicar um bom livro."
"Não há escritor que não se debata com a difícil questão dos títulos de suas obras, sejam elas poemas, crônicas, contos, novelas ou romances. O título faz a primeira ponte com o mundo, é o primeiro gancho de interesse, a primeira luz do farol no nevoeiro. A obra está lá, enrodilhada em si mesma, mas escondida, e é preciso uma etiqueta, um visgo ou um guizo para que ela seja percebida pelo possível leitor. Nesse instante, o autor defronta-se com uma questão ética - ser fiel a si mesmo e à obra, ou a esse fátuo e imponderável leitor.
"O leitor é uma abstração. Só existe em potência. Cada uma das partes envolvidas no processo de criação e produção do livro idealiza um leitor. Assim, há o leitor ideal do autor, como também há o leitor ideal do editor, do distribuidor, do livreiro. E lá no final do processo, há o leitor real, raro e esquivo, soterrado sob uma avalanche infinita de títulos. Vigiando a todos, como uma esfinge hierática e fatal, sorri o Mercado, esse deus insaciável, que controla o Portal da Cidade do Livro e que deseja títulos vistosos, agradáveis, comerciais.
"Mas, às vezes, a obra - inteira e autônoma - recusa-se a essas vestimentas carnavalescas, não querendo chamar tanta atenção sobre si mesma. Indeciso diante do enigma, o autor só tem duas opções: deixar a matéria gerar o próprio nome ou fazer aderir um nome qualquer à matéria. Que ouvido sutil há de ter o autor para captar o murmúrio da obra: Eu sou o que sou! Ou que espírito pragmático há de ter o autor para etiquetar, sem nenhuma angústia, o que acabou de produzir...
"Edgar Alan Poe dizia que um título deve prenunciar tudo o que uma obra contém. Mas Poe, nós sabemos, estava pensando no consumidor, estava ajudando a construir uma ética para as relações comerciais: se vendo um produto, ele deve ser honesto; não é justo vender-se gato por lebre. E foi com esta visada, pragmática e reificada, que ele criticou duramente o título genial de Nathanael Hawthorne, 'Twice told tales'!
"Gabriel García Márquez optou por ser absolutamente honesto e fiel ao espírito da própria obra, intitulando uma novela de assassinato e paixão de 'Crônica de uma morte anunciada'. Talvez um dos maiores achados na história dos títulos. E um dos melhores exemplos de que o único caminho para um escritor é a radicalidade, a coerência e a fidelidade à própria obra. Absolutamente fechada em si mesma, ela se encarregará de dar o bote sobre o leitor, conquistando-os aos milhares. Ou adormecendo, mofada, nos estoques das distribuidoras.
"Se a palavra efetivamente tem poder, se nomes condicionam destinos, os escritores devem se preocupar seriamente com os títulos de seus livros, como os pais com os nomes de seus filhos. Mas, se a palavra é um mero signo, se ela simplesmente se cola às coisas, na inútil tentativa de dar-lhes uma significação, é melhor que eles não resistam ao canto de sereia do Mercado. A estes, pois, seria bom lembrar que um bom título não salva um mau livro, mas um mau título pode prejudicar um bom livro."
domingo, 5 de abril de 2009
sábado, 4 de abril de 2009
100 anos.

Eu passei à direita daquela lotação e daquele ônibus.
Eu passei à direita daquela lotação e daquele ônibus.
Um advogado de uns sessenta e poucos anos, do nada, olhou para mim e disse:
- Vou te contar uma história. Uma vez eu tava numa garagem ali na Independência e tinha um cara tocando um instrumento que ele mesmo inventou, uma gatorra. Ele perguntou o que eu achei e eu disse que ele podia fazer sucesso com aquilo.
- Sim, o Tony da Gatorra. Eu tenho uma. Comprei a décima que ele fez. Vou tocar com ele no dia 21 de abril na praça de Esteio.
E o advogado, em vez de achar legal ter encontrado alguém mais que conhecia o Tony, ficou calado, como se eu tivesse estragado a história dele.
- Vou te contar uma história. Uma vez eu tava numa garagem ali na Independência e tinha um cara tocando um instrumento que ele mesmo inventou, uma gatorra. Ele perguntou o que eu achei e eu disse que ele podia fazer sucesso com aquilo.
- Sim, o Tony da Gatorra. Eu tenho uma. Comprei a décima que ele fez. Vou tocar com ele no dia 21 de abril na praça de Esteio.
E o advogado, em vez de achar legal ter encontrado alguém mais que conhecia o Tony, ficou calado, como se eu tivesse estragado a história dele.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
A seguir, um trecho do início do romance 'Perto do coração selvagem', o primeiro da Clarice Lispector, que ela escreveu com 17 anos, sendo o primeiro livro brasileiro escrito com a "técnica" inventada por Edouard Dujardin e tornada famosa com James Joyce e Virginia Woolf - fluxo de consciência ou solilóquio ou diálogo interior ou romance intimista. Na época, Clarice não havia lido nenhum dos três escritores, e não chegou a lê-los enquanto viva.
— Papai, inventei uma poesia.
— Como é o nome?
— Eu e o sol. — Sem esperar muito recitou: — "As galinhas que estão no quintal já comeram duas minhocas mas eu não vi".
— Sim? Que é que você e o sol têm a ver com a poesia?
Ela olhou-o um segundo. Ele não compreendera...
— O sol está em cima das minhocas, papai, e eu fiz a poesia e não vi as minhocas... — Pausa.
— Posso inventar outra agora mesmo: "Ó sol, vem brincar comigo". Outra maior: "Vi uma nuvem pequena coitada da minhoca acho que ela não viu".
— Lindas, pequena, lindas. Gomo é que se faz uma poesia tão bonita?
— Não é difícil, é só ir dizendo.
— Papai, inventei uma poesia.
— Como é o nome?
— Eu e o sol. — Sem esperar muito recitou: — "As galinhas que estão no quintal já comeram duas minhocas mas eu não vi".
— Sim? Que é que você e o sol têm a ver com a poesia?
Ela olhou-o um segundo. Ele não compreendera...
— O sol está em cima das minhocas, papai, e eu fiz a poesia e não vi as minhocas... — Pausa.
— Posso inventar outra agora mesmo: "Ó sol, vem brincar comigo". Outra maior: "Vi uma nuvem pequena coitada da minhoca acho que ela não viu".
— Lindas, pequena, lindas. Gomo é que se faz uma poesia tão bonita?
— Não é difícil, é só ir dizendo.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
O filho do vampiro
Julio Cortázar
Tradução de Cassiano Viana
Publicado em La otra orilla, 1945, El hijo del vampiro é considerado o primeiro conto escrito por Cortázar, em 1937.
Provavelmente todos os fantasmas sabiam que Duggu Van era um vampiro. Não o temiam, mas deixavam o caminho livre quando ele saia de sua tumba precisamente à meia-noite e entrava no antigo castelo à procura de seu alimento favorito.
O rosto de Duggu Van não era agradável, a quantidade de sangue ingerido desde sua suposta morte – no ano de 1060, pelas mãos de um menino, novo David armado de uma atiradeira-punhal – havia infiltrado em sua pele opaca a coloração mole das madeiras que ficam por muito tempo debaixo d'água. A única vida naquele rosto eram seus olhos. Olhos fixos na figura de Lady Vanda, adormecida como um bebê na cama que não conhecia mais que seu corpo leve.
Duggu Van caminhava sem fazer ruído, a mescla de vida e morte que formava seu coração se resolvia em qualidades inumanas. Vestido de azul escuro, acompanhado sempre por um silencioso séqüito de perfumes rançosos, o vampiro passeava pelas galerias do castelo buscando depósitos vivos de sangue. A indústria frigorífica o houvera indignado. Lady Vanda, adormecida com a mão sobre os olhos como em premonição do perigo, parecia um bibelô, um terreno propício ou uma cariátide.
Louvável costume de Duggu Van era o de nunca pensar antes da ação. Parado diante da cama, desnudando com a levíssima mão carcomida o corpo da rítmica escultura, a sede de sangue começou a ceder.
Se os vampiros de apaixonam é coisa que na estória permanece oculta. Se houvesse meditado, a condição tradicional haveria detido talvez à beira do amor, limitando-o ao sangue higiênico e vital, porém Lady Vanda não seria para ele uma mera vítima, destinada a uma série de coleções, a beleza irrompia de sua figura ausente lutando, exatamente no meio do espaço que separava ambos os corpos, com a fome.
Sem tempo para perplexidades, ingressou Duggu Van com voracidade estrepitosa no amor, o atroz despertar de Lady Vanda atrasando em um segundo as suas possibilidades de defesa e o falso sonho do desmaio houve de entregá-la, branca luz na noite, ao amante.
Fato é que, de madrugada e antes de ir embora, o vampiro não pode com sua vocação e fez uma pequena sangria no ombro da desvanecida castelhana. Mais tarde, ao pensar naquilo, Duggu Van sustentou para si que as sangrias resultavam muito recomendáveis para os desmaiados. Como em todos os seres, seu pensamento era menos nobre que o simples ato.
No castelo houve congresso de médicos, perícias pouco agradáveis, sessões conjuratórias e anátemas, e, além do mais uma enfermeira inglesa que se chamava Miss Wilkinson e que bebia genebra com uma naturalidade emocionante. Lady Vanda esteve longo tempo entre a vida e a morte (sic). A hipótese de um pesadelo demasiado verdadeiro foi abatida frente a determinadas comprovações oculares; e, além do mais, quando transcorreu um lapso razoável, a dama teve a certeza de que estava grávida.
Portas fechadas com Yale haviam detido as tentativas de Duggu Van. O vampiro tinha que alimentar-se de crianças, de ovelhas, até de – horror! – porcos, mas todo o sangue lhe parecia água ao lado daquele de Lady Vanda. Uma simples associação, da qual não o livrara seu caráter de vampiro, exaltava em sua lembrança o gosto de sangue onde havia nadado, guloso, o peixe de sua língua. Inflexível sua tumba na passagem diurna, era preciso aguardar o canto do galo para pular, desfigurado, louco de fome.
Não havia voltado a ver Lady Vanda, mas seus passos o levavam uma e outra vez à galeria terminada na redonda burla amarela de Yale. Duggu Van estava sensivelmente pior.
Pensava às vezes – horizontal e úmido em seu ninho de pedra – que talvez Lady Vanda teria um filho seu, o amor recrudescia então mais que a fome. Sonhava sua febre com violações de trincos, seqüestros, a construção de uma nova tumba matrimonial de ampla capacidade. O paludismo se escondia nele agora.
O filho crescia, quieto, em Lady Vanda. Uma tarde ouviu Miss Wilkinson gritar para sua senhora. A encontrou pálida, desolada, tocava o ventre coberto ao relento, e dizia:
- É tal qual o pai, é tal qual o pai.
Duggu Van, a ponto de morrer a morte dos vampiros (coisa que por razões compreensíveis o aterrorizava), tinha ainda a débil esperança de que seu filho, acaso possuidor de suas mesmas qualidades de sagacidade e destreza, maquinaria algo para trazer-lhe sua mãe algum dia. Lady Vanda ficava cada dia mais pálida e aérea. Os médicos maldiziam, os tônicos recuavam. E ela, repetindo sempre:
- É tal qual o pai, tal qual o pai.
Miss Wilkinson chegou à conclusão de que o pequeno vampiro sangrava a mãe com a mais refinada das crueldades. Quando os médicos se inteiraram da situação, falou-se de um abordo, plenamente justificável; porém Lady Vanda se negou, virando a cabeça como um ursinho de pelúcia, acariciando com a direita seu ventre ao relento.
- É tal qual o pai – disse-. Tal qual o pai.
O filho de Duggu Van crescia rapidamente. Não apenas ocupava a cavidade que a natureza lhe concedera, mas invadia o resto do corpo de Lady Vanda, que agora podia apenas falar, já não lhe restara sangue; e se havia algum, estava no corpo de seu filho. E quando veio o dia estabelecido para o alumbramento, os médicos disseram que aquele ia ser um parto estranho. Em número de quatro rodearam o leito da parturiente, aguardando que chegasse a meia-noite do trigésimo dia do nono mês do atentado de Duggu Van.
Na galeria, Miss Wilkinson viu aproximar-se uma sombra. Não gritou porque sabia que não ganharia nada com isso, o rosto de Duggu Van não era de provocar risos, a cor terrosa de seu rosto havia se transformando em um relevo uniforme e cardão, em vez de olhos, duas grandes interrogações lacrimejantes se balanceavam sob o cabelo endurecido.
- É absolutamente meu – disse o vampiro com a linguagem caprichosa de sua seita – e ninguém pode interpolar-se entre sua essência e meu carinho. Falava do filho; Miss Wilkinson acalmou-se.
Reunidos em um ângulo do leito, os médicos tratavam de demonstrar uns aos outros que não tinham medo. Passavam a admitir mudanças no corpo de Lady Vanda, sua pele repentinamente escura, as pernas que se enchiam de relevos musculares, o ventre que se achatava suavemente e, com uma naturalidade que parecia quase familiar, o sexo que se transformava no contrário, as mãos que não eram mais as de Lady Vanda. Os médicos sentiam um medo atroz.
Então, quando soaram as doze, o corpo que havia sido Lady Vanda e era agora seu filho se aprumou docemente no leito e estendeu os braços até a porta aberta. Duggu Van entrou no salão, passou frente os médicos sem vê-los e tocou as mãos de seu filho.
Os dois, olhando-se como se se conhecessem desde sempre, saíram pela janela, a cama ligeiramente desarrumada, os médicos balbuciando coisas em torno dela, contemplando sobre as mesas os instrumentos do ofício, a balança para pesar o recémnascido e Miss Wilkinson na porta retorcendo-se as mãos e perguntando, perguntando, perguntando.
Julio Cortázar
Tradução de Cassiano Viana
Publicado em La otra orilla, 1945, El hijo del vampiro é considerado o primeiro conto escrito por Cortázar, em 1937.
Provavelmente todos os fantasmas sabiam que Duggu Van era um vampiro. Não o temiam, mas deixavam o caminho livre quando ele saia de sua tumba precisamente à meia-noite e entrava no antigo castelo à procura de seu alimento favorito.
O rosto de Duggu Van não era agradável, a quantidade de sangue ingerido desde sua suposta morte – no ano de 1060, pelas mãos de um menino, novo David armado de uma atiradeira-punhal – havia infiltrado em sua pele opaca a coloração mole das madeiras que ficam por muito tempo debaixo d'água. A única vida naquele rosto eram seus olhos. Olhos fixos na figura de Lady Vanda, adormecida como um bebê na cama que não conhecia mais que seu corpo leve.
Duggu Van caminhava sem fazer ruído, a mescla de vida e morte que formava seu coração se resolvia em qualidades inumanas. Vestido de azul escuro, acompanhado sempre por um silencioso séqüito de perfumes rançosos, o vampiro passeava pelas galerias do castelo buscando depósitos vivos de sangue. A indústria frigorífica o houvera indignado. Lady Vanda, adormecida com a mão sobre os olhos como em premonição do perigo, parecia um bibelô, um terreno propício ou uma cariátide.
Louvável costume de Duggu Van era o de nunca pensar antes da ação. Parado diante da cama, desnudando com a levíssima mão carcomida o corpo da rítmica escultura, a sede de sangue começou a ceder.
Se os vampiros de apaixonam é coisa que na estória permanece oculta. Se houvesse meditado, a condição tradicional haveria detido talvez à beira do amor, limitando-o ao sangue higiênico e vital, porém Lady Vanda não seria para ele uma mera vítima, destinada a uma série de coleções, a beleza irrompia de sua figura ausente lutando, exatamente no meio do espaço que separava ambos os corpos, com a fome.
Sem tempo para perplexidades, ingressou Duggu Van com voracidade estrepitosa no amor, o atroz despertar de Lady Vanda atrasando em um segundo as suas possibilidades de defesa e o falso sonho do desmaio houve de entregá-la, branca luz na noite, ao amante.
Fato é que, de madrugada e antes de ir embora, o vampiro não pode com sua vocação e fez uma pequena sangria no ombro da desvanecida castelhana. Mais tarde, ao pensar naquilo, Duggu Van sustentou para si que as sangrias resultavam muito recomendáveis para os desmaiados. Como em todos os seres, seu pensamento era menos nobre que o simples ato.
No castelo houve congresso de médicos, perícias pouco agradáveis, sessões conjuratórias e anátemas, e, além do mais uma enfermeira inglesa que se chamava Miss Wilkinson e que bebia genebra com uma naturalidade emocionante. Lady Vanda esteve longo tempo entre a vida e a morte (sic). A hipótese de um pesadelo demasiado verdadeiro foi abatida frente a determinadas comprovações oculares; e, além do mais, quando transcorreu um lapso razoável, a dama teve a certeza de que estava grávida.
Portas fechadas com Yale haviam detido as tentativas de Duggu Van. O vampiro tinha que alimentar-se de crianças, de ovelhas, até de – horror! – porcos, mas todo o sangue lhe parecia água ao lado daquele de Lady Vanda. Uma simples associação, da qual não o livrara seu caráter de vampiro, exaltava em sua lembrança o gosto de sangue onde havia nadado, guloso, o peixe de sua língua. Inflexível sua tumba na passagem diurna, era preciso aguardar o canto do galo para pular, desfigurado, louco de fome.
Não havia voltado a ver Lady Vanda, mas seus passos o levavam uma e outra vez à galeria terminada na redonda burla amarela de Yale. Duggu Van estava sensivelmente pior.
Pensava às vezes – horizontal e úmido em seu ninho de pedra – que talvez Lady Vanda teria um filho seu, o amor recrudescia então mais que a fome. Sonhava sua febre com violações de trincos, seqüestros, a construção de uma nova tumba matrimonial de ampla capacidade. O paludismo se escondia nele agora.
O filho crescia, quieto, em Lady Vanda. Uma tarde ouviu Miss Wilkinson gritar para sua senhora. A encontrou pálida, desolada, tocava o ventre coberto ao relento, e dizia:
- É tal qual o pai, é tal qual o pai.
Duggu Van, a ponto de morrer a morte dos vampiros (coisa que por razões compreensíveis o aterrorizava), tinha ainda a débil esperança de que seu filho, acaso possuidor de suas mesmas qualidades de sagacidade e destreza, maquinaria algo para trazer-lhe sua mãe algum dia. Lady Vanda ficava cada dia mais pálida e aérea. Os médicos maldiziam, os tônicos recuavam. E ela, repetindo sempre:
- É tal qual o pai, tal qual o pai.
Miss Wilkinson chegou à conclusão de que o pequeno vampiro sangrava a mãe com a mais refinada das crueldades. Quando os médicos se inteiraram da situação, falou-se de um abordo, plenamente justificável; porém Lady Vanda se negou, virando a cabeça como um ursinho de pelúcia, acariciando com a direita seu ventre ao relento.
- É tal qual o pai – disse-. Tal qual o pai.
O filho de Duggu Van crescia rapidamente. Não apenas ocupava a cavidade que a natureza lhe concedera, mas invadia o resto do corpo de Lady Vanda, que agora podia apenas falar, já não lhe restara sangue; e se havia algum, estava no corpo de seu filho. E quando veio o dia estabelecido para o alumbramento, os médicos disseram que aquele ia ser um parto estranho. Em número de quatro rodearam o leito da parturiente, aguardando que chegasse a meia-noite do trigésimo dia do nono mês do atentado de Duggu Van.
Na galeria, Miss Wilkinson viu aproximar-se uma sombra. Não gritou porque sabia que não ganharia nada com isso, o rosto de Duggu Van não era de provocar risos, a cor terrosa de seu rosto havia se transformando em um relevo uniforme e cardão, em vez de olhos, duas grandes interrogações lacrimejantes se balanceavam sob o cabelo endurecido.
- É absolutamente meu – disse o vampiro com a linguagem caprichosa de sua seita – e ninguém pode interpolar-se entre sua essência e meu carinho. Falava do filho; Miss Wilkinson acalmou-se.
Reunidos em um ângulo do leito, os médicos tratavam de demonstrar uns aos outros que não tinham medo. Passavam a admitir mudanças no corpo de Lady Vanda, sua pele repentinamente escura, as pernas que se enchiam de relevos musculares, o ventre que se achatava suavemente e, com uma naturalidade que parecia quase familiar, o sexo que se transformava no contrário, as mãos que não eram mais as de Lady Vanda. Os médicos sentiam um medo atroz.
Então, quando soaram as doze, o corpo que havia sido Lady Vanda e era agora seu filho se aprumou docemente no leito e estendeu os braços até a porta aberta. Duggu Van entrou no salão, passou frente os médicos sem vê-los e tocou as mãos de seu filho.
Os dois, olhando-se como se se conhecessem desde sempre, saíram pela janela, a cama ligeiramente desarrumada, os médicos balbuciando coisas em torno dela, contemplando sobre as mesas os instrumentos do ofício, a balança para pesar o recémnascido e Miss Wilkinson na porta retorcendo-se as mãos e perguntando, perguntando, perguntando.
Eu amo essa figura. Eu já gostava muito das músicas que ele cantava nos Beatles - da composição e da voz. 'Don't pass me by' e 'Octopus garden' são definidoras de um estilo homenageado, por exemplo, por Ben Kweller em sua música nova 'Sawdust man' e Frank Jorge em 'Tá na boa'.
Recentemente eu baixei o disco 'Ringo rama', de 2003, porque vi que havia duas músicas em que David Gilmour era o guitarrista. Estou ouvindo o álbum e sorrindo por haver um beatle em tamanha forma. Na minha opinião, talvez o Ringo empata com o Paul no quesito melhor carreira solo de um beatle. John Lennon não teve muito tempo para concorrer nessa categoria, e no tempo que teve não se esmerou na produção dos discos. E o aclamado George nunca me empolgou com seus discos sozinho. Ringo é o cara. (É uma mãezona canceriana e ainda por cima se envolveu, junto com George, com o Monty Python.)
Não será mais Dangerhorse ou Sparklemouse o nome do projeto de Mark Linkous com o produtor Danger Mouse. Será Danger Mouse and Sparklehorse Present Dark Night of the Soul e reunirá como colaboradores Nina Persson (Cardigans), Gruff Rhys (Super Furry Animals), Jason Lytle (ex-Grandaddy), Vic Chesnutt, Wayne Coyne (Flaming Lips), Black Francis (Pixies), Julian Casablancas (Strokes), Iggy Pop (Stooges, haha), Suzanne Vega, James Mercer (The Shins) e... David Lynch.
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