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domingo, 31 de março de 2002

A decepção é diretamente proporcional à expectativa. Com todo o esforço carinhoso e amoroso empenhado sem resultados eu me senti menosprezado. Com faca e queijo na mão, passos atrás foram como desrespeito à vida, como um ponto para a equipe da maioria. Me desculpe, melhor amiga, pelo nível de exigência. E eu tento passar merthiolate para ver se a minha ferida cicatriza.

quarta-feira, 27 de março de 2002

Eu queria usar uma roupa de passarinho e ficar bicando.
Coitadas das Gabrielas, Vivianes e Marias Ediths que chegam no Rio Grande do Sul e passam a ser chamadas por Gábi, Vívi e Mádi (é sério, todo mundo fala Mádi e a gente tem que dar surra para aprender). Escreve-se Gabi, Vivi e Madi para se ler Gabi, Vivi e Madi. (A sílaba tônica é a do "i", mas não se acentua nenhuma oxítona terminadas em "i"; acentuam-se todas as paroxítonas terminadas em "i".) Mas no RS as pessoas têm um problema, deve ser algo na água daqui. Assim como a maioria dos locutores de rádios rock sibilam. Defeito de riograndense. Polianas e Tatianas que têm como apelidos Pôli e Táti se salvam no Brasil todo quanto à pronúncia, mas continuam grafando errado. E não é circuíto, é circuito. (Essa só o professor de português não erra, os outros todos erram. Os jornalistas também, claro.) Se fosse circuíto, teria esse acento porque todos os hiatos acentuam-se. E não é "pra mim fazer", é "pra eu fazer". E não é "pra te fazer" (!), é "pra tu fazer". O pronome oblíquo não pode ser o sujeito da ação, só o reto pode.
É injusto. O povo é fanático por futebol. Por isso, os alternativos odeiam futebol. Eu sou alternativo. Eu não me interesso por futebol. Na infância eu me interessava, mas eu tinha muitos mau gostos e não refletia sobre aquilo. Futebol é um ópio como a música, mas muito mais inútil e provocador de angústias e de um monte de outras coisas negativas. Eu não me interesso por futebol, mas eu adoro jogar futebol. E não tenho com quem jogar. E acho que nunca vou ter.
Me sinto ridículo naquele cursinho pré-concurso público, às vezes. A matéria é de primário, os alunos têm que ser tratados como se fossem de primário, quando na verdade já deviam saber o básico daquilo. Afinal, ganharam o diploma de segundo grau. Dá muito raiva isso de saber que as escolas não servem para nada. O jornalista formado não sabe escrever, não sabe português. Então coloca samambaias sentadas nas cadeiras universitárias que dá no mesmo. Ou até é melhor. Elas pelo menos fazem a fotossíntese. E não usam roupas e jóias e cortes de cabelo e maquiagens e trejeitos da moda. Para elas não existe moda.
"A seqüência é essa: Você nasce, você come feijão e você aparece. Quando você cresce, você aparece. E o que faz você aparecer é o feijão." O Ricardo Macchi é um poeta e não sabe.
Como disse meu amigo Fabrício esses dias, as pessoas têm a necessidade de classificar, de fazer classificações. Assim elas têm certeza e sentem-se seguras pela pretensa verdade. Se não fizerem isso, sentir-se-ão suspensas no espaço como o astronauta que foi expelido da nave pelo HAL em 2001. Tem um amigo que gosta de olhar para a pessoa e dizer de que tipo de música essa pessoa gosta e como é o "tipo" dela a julgar só pela roupa que ela está vestindo. Ele já disse que eu era um nerd que gosta de Weezer, um cara que gosta de bandas californianas como Blink 182 e mais um "tipo" que agora eu não me lembro.

Mas ele é meu amigo. O pior é quem você quase não conhece dizer "Por que você está de unha pintada?". Depois de uns dias de unha pintada, você aparece sem a unha pintada. Então ele precisa dizer "Por que você não está de unha pintada?". No recreio do cursinho eu desço para comprar sorvete. Um colega falou um dia "Você tem conta com o carinha do sorvete...". Outro dia eu não comi o sorvete e ele disse "Ué, não foi comer o sorvete hoje?".

Ou seja, TUDO é motivo para um comentário genialmente dedutivo, e não importa o que a pessoa pensa, porque ela não pensa NADA. O comentário é apenas para preencher aquele espaço de tempo e aquele espaço de silêncio. Assim como os colegas que respondem as perguntas didáticas do professor apenas como uma loteria.

- Blá blá blá?
- Isso!
- Não!
- Ah... aquilo, aquilo!
- Não...
- Então...

Um bando de pessoas pagando para ter um aprendizado e sem a mínima condição de tê-lo, sem querer e por querer. Todos ensinam todos a não aprender, mas também é conveniente não saber. Afinal, aprender - aprender mesmo, não aquilo que as pessoas pensam que fazem - é coisa de cdf ou gênio, e dissos as pessoas querem distância. Classificação: louco, estranho etc. (Até a professora falou hoje Professor de português só pode ser retardado mental, porque vocês gostam de ir ao cinema e eu gosto de pegar quaisquer textos e fazer análise sintática, isso só pode ser coisa de retardado. Fazer a análise sintática não é coisa de retardado. A "anormalidade" é normal, esse é o barato da vida, não se pode ter certeza de nada. Ter falado aquilo é que foi coisa de retardado.) Elas não estão lá preparadas mentalmente para aprender, mas estão com toda a munição de preconceitos e lógicas estúpidas usadas nos joguinhos da vida delas - como piadinhas em cima de qualquer coisa - para utilizar naquele passatempo.

Os alunos estão lá sentados achando que estão aprendendo. A professora fala um negócio genial, os alunos até consideram aquilo genial, mas o discurso é exatamente contra eles, dizendo que o passado condena o aluno, e não a matéria é que é difícil. Eles ouvem aquilo como se estivessem fora daquela acusação, ou como se estivessem dentro mas naquele momento estariam saindo fora. Eles realmente acreditam naquilo, mas não chegam a perceber que não fazem nada para mudar. A frase entra na cabeça e não processa nada. Sai pelo cu junto com as fezes.
Na infância, eu recebi muito amor e um pouco de ódio. Porque o que eu sentia do meu pai e da minha mãe quando eles decidiam me bater não era nada que eu já havia sentido por eles. Eles faziam, naqueles momentos, uma espécie de descarga de algo que não era só eu que produzia neles, não podia ser - não tinha por quê. Aqueles momentos não foram tantos, não, mas foram intensos o suficiente para me fazer lembrar deles até hoje. Minha mãe é do tipo explosiva, que facilmente sai do sério e ninguém segura e ela quase não pensa nas conseqüências do que faz provocada por aquela agressividade. Meu pai, por sua vez, fica segurando o nervosismo, mastigando de boca vazia, até que quando explode o faz com uma firmeza a garantir o respeito dos outros por ele. Seriam marcas deixadas pelo servimento ao exército? O amor além do normal, principalmente por parte da minha mãe, vem de eu ser o único filho, único sobrevivente em quatro gestações. Então esse amor e aquele ódio talvez sejam resposnáveis por eu ser um cara tão confuso, tão uma coisa e outra, tão sensível e tão insensível. Pensei em escrever sobre isso depois de ler o texto do Bukowski sobre o Homem Gélido que ele se tornou pelas surras que levava do pai, por motivos criados especialmente para a surra acontecer com freqüência. Eu me tornei um Homem Fôguido Um Pouco Gélido. E haja equilíbrio para agüentar essas oscilações da alma.
O anel-aliança só pode servir para duas coisas. Ou serve para declarar eu tenho dono, não chegue perto. Ou serve para declarar eu tenho dono, por isso vem me comer que vai ser gostoso. Fora isso, é inútil ou até nesmo confunde, atrapalha. Se algum interessado em alguém de aliança pensar como eu pensei aqui, o que é mais provável, não sabe se some ou se come. Na dúvida, some. Sem contar a pobreza que é algo tão declarado assim. Não há nada mais declarado em nenhum aspecto visual da pessoa que a presença ou não de um anel no dedo anelar da mão direita (noivado) ou da esquerda (casamento). Você olha para uma pessoa e não pode assegurar nada com certeza acerca dela, a não ser que ela é casada ou noiva. Isso é a coisa mais importante para estar declarado? Talvez na sociedade criada pelo cristianismo, a ocidental, sim, certamente. Os imbecis que transformaram o relacionamento sexual, a coisa mais prazerosa da vida, em normas rígidas, prisão e moralidade. Sendo que moralidade não existe como conceito único: cada um pode ter o seu. Até que se pode chegar a um conceito mais universal, pois moralidade pode ser sinônimo de ética, mas esse conceito está tão longe do que se pensa como moralidade - do que se injetou como moralidade nas mentes em série - do que o planeta é longe do sol.
"Confirmada a vinda ao Brasil da atmosférica banda escocesa. A única data e local certos dos três shows que o grupo vai fazer no país é dia 17 de maio, em BH, no festival Eletrônika."
A "diversão" dos onidivertidos não estaria escondendo um sentimento oposto? A tiração geral de sarro de alguns "alternativos" não seria um mecanismo de defesa psicológico? Atacar primeiro para não ser atacado. Estar sempre se divertindo e nunca se esquentando para mostrar como "nada me atinge", demonstrar superioridade. Sempre que há um momento sério com o qual a pessoa não sabe lidar ela faz uma piada e diz "vocês levam tudo muito a sério". Aí saem por cima, aparentemente, e deixam o cara que levou a sério puto, uma contribuição para a discórdia humana, e não para o contrário, como faz parecer. Esse é um questionamento a todos os seguidores desse padrão de atitude.
Inédito! Algum tipo de análise foi feita sobre a programação da Unisinos FM. Pela Carmela, que está assessorando o programador musical da rádio. Tire as suas conclusões.

"Bom, não sei se todos conhecem o sistema que faz parte da programação da rádio funcionar. Usamos um corcel azul e amarelo chamado transmiss para catalogar intérpretes, compositores, discos, bandas, músicas, horários, programações, gravadoras, estilo musical e aqueles blablablás. Todos os dias, cerca de 170-178 músicas montam a programação das 6h01min até as 23h59min da rádio, uma vez que por seis horas na madrugada a 103.3 roda blues. Dessas 170-178 músicas, só não tocam aquelas que são, de alguma forma, substituídas pelos pedidos dos ouvintes que fecham quase 1 hora da programação diária. Nunca, na história de seis anos de rádio, uma música tocou mais de uma vez durante o mesmo dia. O relatório das 30 mais tocadas eu tirei quando descobri que o corcel azul e amarelo podia me levar para visitar o campo obscuro do que ninguém sabe, nem mesmo aqueles que montam a programação. Por mais que o Flávio [Bernardi, responsável solitário pela programação musical da rádio] tenha em mente as músicas que coloca todos os dias, ele nunca consegue afirmar o que, realmente, está dentro das mais tocadas. Com a minha besta animação ao tirar o relatório, acabei zanzando pela rádio discutindo a listagem e descobri que, nenhuma alma viva da rádio sabia que aquele tipo de relatório existia. Enfim... de qualquer forma lá vai ela.

Play-list 30 mais tocadas (período de 01/03/2002 - 26/03/2002)

01- keep fishing, weezer
02- la carabina, beto só
03- naquele elevador, gramophones
04- i'm waking up to us, b&s
05- sempre livre, laranja freak
06- castelos de areia, bella godiva
07- girls own love, andrew w.k.
08- a sua, marisa monte
09- woman driving, man sleeping, eels
10- cuba, otto
11- dinamite interestelar, rosa tattooada
12- o lado certo da vida errada, charlie brown jr.
13- bitting the soles of my feet, eletrict soft parade
14- wounded horse, xtc
15- across the universe, rufus wainwright
16- herói invisível, winston
17- since i left you, avalanches
18- walking with thee, clinic
19- bar barricades and brickwalls, kasey chambers
20- ashes of american flags, wilco
21- adeus você, los hermanos
22- o homem dos olhos de raio x, lenine
23- futebol, nelson de castro
24- humanos vem aí, hu-manos
25- eu te amo, eu te amo, eu te amo, roberto carlos
26- pacify, tinstar
27- onda, os the darma lovers
28- melhor do que você pensa, tequila baby
29- julia, chocolate genius
30- rosa de hiroshima, secos e molhados

Os 10 intérpretes mais tocados (no mesmo período)

01- the who
02- nei lisboa
03- led zeppelin
04- the doors
05- weezer
06- legião urbana
07- cachorro grande
08- ira!
09- echo and the bunnymen
10- ac/dc
.
.
.
30- caetano veloso"

segunda-feira, 25 de março de 2002

O Bicho Padrão assombra até amigos legais. Olha a conversa dele comigo.

- Vocês andam sumidos!
- Sumidos de onde? Estamos visíveis ainda.
- Vida caseira?
- Essa história de vida caseira ou vida noturna não existe. A vida é a vida. Se não tem uma coisa legal pra fazer fora de casa a gente simplesmente não sai, não teria por que sair. Sair só por sair?
O Wonkavision usou a idéia "Me leve a mal" dos Sensifer numa letra, por plágio ou tiração de sarro. Assim é o "underground" de Porto Alegre. Confira aqui toda a sensibilidade, o respeito e a ausência de ironia e deboche do Wonkavision.

Sensifer> Eu conheço uma expressão dessa música. Não sei de onde nem qual. Fora que "boçal" com dois "s" é de fuder o cu do camelo altista do Cornershop da Malásia.

Wonkavision> Não me leve a mal, mas tá sendo realmente divertido assistir a esse "interesse" de vocês pelo caso. :)

S> Pensei que esse fosse o objetivo mesmo. (...)

W> Bom, fiquem felizes, confirmo que foi uma pequena homenagem a bandinha de vocês. Achei muito inteligente as camisetas que vocês fizeram. Mas o foda é que a frase azarou a música. Tu não tem idéia de quantos problemas surgiram na gravação. Eu e minhas idéias irresponsáveis. Só por favor, não fiquem convencidos, e nem dêem importância demais pra questão. Todos sabemos que Wonkavision não é Oasis e muito menos a bandinha de vocês é Beatles.

S> Ok, cada um com sua "bandinha".

W> E olha, tem o cd pra vender no wonkavision.com.br. Veja bem, R$10,00 não é nada comparado ao valor de poder ter uma "citação" numa das músicas, não acha? Eu compraria. Um abraço e vamos tomar uma cerveja um dia desses. Rindo muito de tudo, óbvio.
Meus sentimentos sobre o show do Roger Waters.
O blog para mim é como uma publicação dinâmica e eterna dos meus pensamentos, por isso chamo de pensamentos em voz alta. Todas aquelas idéias que me vêm à cabeça durante os dias e as noites eu tento guardar num cantinho do cérebro para escrever depois no blog. (A forma do texto não importa.) O blog é um lugar onde eu exercito o meu texto, o meu português, o meu estilo, o meu vocabulário, a minha ousadia, a minha liberdade, as minhas idéias, a minha personalidade.

É como uma autoterapia. Você se entende melhor vendo os seus pensamentos em forma de caracteres e concatenados em frases com estruturas lógicas do que em forma volátil, flanando nos seus neurônios, na sua mente.
Para as pessoas, não existe nada além do trabalho. Nasce para estudar e estuda para trabalhar e trabalha para trabalhar. Trabalha com uma coisa de que gosta para se sentir "realizado". Ora, mas o trabalho é uma coisa suja, podre e pobre! Vende a alma da pessoa, compra a alma da pessoa. Quem já PENSOU uma vez sequer na vida viu que o trabalho não é o Sentido, e, se não é o Sentido, não pode de forma alguma ocupar posição tão importante na vida da pessoa. Alguém tem que evitar que isso aconteça. Mas o trabalho é tudo, para as pessoas. Quem não pensa assim como elas é vagabundo. Quem sofre com essa realidade é desequilibrado. É riscado da lista dos que servem. Este não serve. Precisa de análise. É doente. (É doente - mesmo. No concurso da vida, os melhores colocados recebem o prêmio inversamente proporcional aos pontos obtidos. Aqueles que não souberem nada, são glorificados e vivem felizes. Os que estudaram mais ficam doentes, sofrem, deprimem-se, sentem-se perdidos, têm seu maior e raro prazer numa redação de um texto que coloque estes pensamentos para fora. Daqui a pouco mesmo, quando eu acabar este texto, voltarei à minha queda intermitente. Não consigo me interessar pelo trabalho, me desculpem. Nem pelo resto, no estado ferido que minha alma está diante da lógica que eu condeno neste texto.)

Eu decidi que vou ser funcionário público porque, se é para ser robô, quero ser o melhor tipo de robô. Fazer coisas repetitivas e fáceis, que pelo menos não desperdicem minha alma, meu amor. Ao contrário do que pensa um grande número de pessoas, tidas como sensíveis e corajosas: aquelas que trabalham naquilo que gostam. Ora, isso é um insulto para a vida. Acham que eu sou covarde querendo ser funcionário público, que os ousados são os que conquistam algo na esfera privada. Cérebro de minhoca, pode usar de isca na pescaria. Acham que o sujeito que transcende é aquele que sofre a vida para chegar ao olimpo da carreira profissional, aquela em que a vida foi gasta para ganhar dinheiro e perder tempo de vida.

Numa reunião dum veículo de comunicação tido como alternativo, as pessoas não entenderam uma pauta minha sobre a independência como forma de produzir arte. Sobre a pureza estética, a separação total e vital da criação e do comércio. Primeiro, não entenderam NADA do que eu estava falando. Parecia hebraico. Então tive que continuar minha explicação, como se estivesse falando com um jardim de infância (e olha que as crianças poderiam ser mais espertas, pois os adultos é que as contaminam). "No fundo, o que as bandas querem é ganhar dinheiro", disse o chefe da reunião. E não adiantava eu dizer que não. Eu mesmo quero ter uma banda cujo único objetivo é transcender e agradar aos ouvintes, tocar a sensibilidade deles com a minha. Para isso quero ter um salário de funcionário público, mais decente do que a exploração dos profissionais em começo de carreira. Sempre pedem experiência para quem não tem, então esse quem nunca vai ter a primeira experiência. E os normais, os de mente saudável, aplaudem com entusiasmo essa lógica, e gargalham.

Voltando à independência. "Quando se é jovem até dá para sustentar esse romantismo, mas até quando?", questionou um famoso crítico de música. Como se a vontade de realizar a verdadeira arte fosse atitude infantilóide, ingênua, rebelde. "Quem não quer se adaptar aos sistemas do mercado, como as gravadoras, é anarquista - isso é anarquia", disse o mesmo homem. Quer dizer, então, que sustentar as próprias criações artísticas é um ato contra o poder político, em defesa da ausência de poder, da anarquia? Um artista real é um defensor do caos? De alguma forma, sim. Mas não o caos da violência, e sim o caos real, o caos da vida, o caos do mundo, aquele que todo mundo insiste em esconder atrás da profissão e da lógica pretensamente única.

"Ah, existem médicos, por exemplo, que têm banda, mas como hobby...", Sim, hobby... Ele é médico. A banda dele é só um hobby... (se houvesse as minúsculas das minúsculas, as letras da palavra hobby... estariam grafadas com elas; que as reticências façam as vezes). Hobby é merda (arte é merda). Profissão é que é a vida. Se o cara é médico, ele É MÉDICO. Não é uma pessoa qualquer, é MÉDICO. (A pessoa é denominada pela profissão, por aquilo que faz para ganhar dinheiro e gastar o tempo da vida.) Não é artista. Porque ele faz hobby, e não arte. MAS ARTE NÃO PODE SER HOBBY, PORRA! Não tem como a arte não ser a VIDA de quem a faz. Caso contrário, a pessoa é uma profissional que tem um hobby, é alguém que gasta a vida para ganhar dinheiro e movimentar a economia. Afinal, isso é indispensável, né?

Minha vó paga para um rapaz capinar o pátio dela. Ela chamou ele para capinar um dia. Ele não foi. Ela viu ele subindo a rua dela com uma bola debaixo do braço. Ia jogar futebol. "Que vagabundo! Ele só sabe jogar futebol? Por que ele não capina? Ele tem que capinar". É isso aí pessoal. Peguem as suas enxadas. E vão para a capina. Capinem.
A ÁRVORE DA SERRA
(Augusto dos Anjos)

- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, porque sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...

- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não nate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

quinta-feira, 21 de março de 2002

Eu acho piercings e tatuagens bonitos e interessantes (menos o da língua, que me dá arrepios). Mas prefiro a ausência deles. Porque o negócio é eterno, porque eu gosto de mudanças (como no cabelo) e porque eu gosto da pele nua como é de fato. Prefiro ver a cor da pele, me excito com ela. Me excito com a pureza da natureza e com a beleza da diferença. (Também por isso que odeio silicone e adoro seios caídos; pensando bem eu gosto de unhas e cabelos pintados e de maquiagens, mas isso não vem ao caso...) No entanto você nunca mais poderá ver a pele debaixo de uma tatuagem. Tem também uma coisa que vai contra o interessante do piercing e da tatuagem: a moda. Olha a fúria da moda. Tem pessoas que passam tempos tomando coragem de fazer uma tatuagem. Aí vem a moda do "look alternativo" - cabelo vermelho e tênis all star já vêm de nascença, hoje - e os robôs começam a se tatuar direto, correndo, sem pensar duas vezes. Pensa bem nesse disparate. Os padronizados estão se tatuando como compram e vestem um cinto largo de cor marrom clara. Só que quando acabar a moda é que eu quero ver o que esses padronizados vão fazer. Arrancar a pele? Colar uma outra pele em cima, com outra tatuagem? Usar mangas e golas compridas para sempre? Uma das funções práticas desses adereços violentos à pele era identificar quem era alternativo, mesmo que a possibilidade de acerto não fosse de 100%. Mas agora essa probabilidade caiu para uns 25%. Pois os padronizados estão se furando e se pintando e se vestindo de alternativos, por causa da Novela e da Britney e do Júnior e do Blink. Moda dá dor de barriga.
Agora tem uma CÂMERA vigilante aqui na sala pública de computadores da universidade. Não bastava eles VIGIAREM todos os arquivos e e-mails (mandados por meio do servidor da Unisinos) e sites navegados pelos usuários para combater a IMORALIDADE. Agora eles podem ver se eu tiro tatu do nariz. Ó, agora eles viram. Enfiei o indicador numa narina e noutra. Ó meu tatu, ó. Eles podem ver que eu tenho mania de ficar mexendo na barba. Agora até que eu não mastigo mais tanto a barba esquerda. E tem uma CÂMERA em CADA corredor, acho. Pelo menos no corredor da Agência Experimental de Jornalismo - meu ex-local de trabalho, que continua sendo o dos meus amigos Manuela e Fabrício - tem uma. O que eles querem flagrar? Se tem alguém batendo punheta na frente do computador, com uma página pornográfica sendo apreciada no monitor? Se tem alguém trepando encostado nas paredes do corredor ou cagando num canto atrás do sofá? Se tem alguém MACONHEIRO fumando? Se tem alguém escrevendo sobre essas CÂMERAS num blog? Realmente não consigo visualizar qual o flagra que eles pretendem conseguir. Bem-vindo ao Big Brother, ou Big Father - o grande padre. (Em tempo: É proibido aqui nesta instituição de ensino o download de qualquer programa - incluindo o Flash, o que ridiculamente impede que os alunos possam ver metade dos sites da web - e o uso de qualquer tipo de chat, seja de web, de IRC ou de ICQ.)
Aprenda a evitar um perigoso pelotão de retardamento mental. Esses soldados temidos usam um cinto largo de cor marrom claro que fica solto por cima da calça. Um cinto que não serve como sinto, nem como outra coisa (nada). É isso.
Será que o homem olhar para trás quando passa uma mulher bonita de frente é uma prova instintiva de que a posição sexual original é a de quatro?
Olha que absurdo. Uma propaganda de tevê: (Depois eu comento mais.)
- Empinadinha Lupo. Deixa o seu bumbum empinadinho.
O esperto mecanismo do BOL de evitar com que intrusos penetrem na caixa postal de quem sai da frente do computador e deixa ou esquece o login aberto faz com que tenhamos que fazer um novo login a cada 10 minutos. Eles têm convênio com os traumatologistas que tratam das tendinites.

Por favor volte a se conectar
Caro usuário(a), a operação selecionada não pôde ser completada.
Por favor, tente abrir sua caixa postal novamente.
Voltar para o BOL.
Chega nas bancas na próxima semana a revista Frente. Auto-intitulada a revista da nova música, traz na capa o tema "Por um futuro melhor" e discute quem está trabalhando para reconstruir o pop brasileiro. R$ 10,90. Bimestral. Um CD "grátis" em cada edição. O primeiro vem com Astromato, Cachorro Grande, pb, Los Hermanos, Professor Antena, Magazine, Wander Wildner, Casino, Wado, Sonic Jr., Instituto e Sabotage, Stereo Maracanã, Thee Butchers' Orchestra, MQN e Mini.
Jigsaw Puzzle. Joguinho com a Liv Tyler. Do mesmo http://punish-me.org, que tem o Fuck Homophobia e outras idéias interessantes tanto de conteúdo quanto de forma. Veja também o Emotion Sickness.
O Estúdio Dreher (3334-6649 / 3338-5246), laboratório de onde saem os melhores sons do rock alternativo em Porto Alegre com os melhores engenheiros de som, recebeu uma visita daquelas que o caminhão do Sonic Youth recebeu uma vez. "O Perigoso levou um pisão mas já está bem, deve ter se botado em cima dos caras. A Sandyjúnior está bem", declarou Thomas Dreher por e-mail, sobre os cãezinhos vira-latas de estimação do estúdio, que gostam de brincar de trepar e de morder a água da torneira. Equipamento roubado:

- Baixo Epiphone modelo Paul McCartney, do Jupiter Apple
- Teclado Yamaha, do Jupiter
- Violão Aço Verde com o desenho do Mark Bolan, da Talita
- Guitarra Squire Preta Modelo Strato com Floyd Rose, do Leandro Benga n/s KV98071871
- Guitarra Gianini Supersonic verde com o corpo cortado, do Moreira
- Amplificador Gianini Bag com Tremolo, do Marcelo Birck
- Digital Delay MXR (módulo, azul metálico), do Pedro Porto
- Amplificador Fender Deluxe Valvulado
- 2 microfones BeyerDynamic (pretos, com case)
- CD Recorder Philips (módulo, na caixa)
- k-7 player Pioneer (preto)
- Amplificador Gradiente
Maravilhas da descarga automática. Se você cansa de cagar ereto e resolve se inclinar para a frente, colocando os dois cotovelos nas duas coxas e o queixo nas duas mãos, a descarga entende que você foi embora e se puxa sozinha. Então ou você levanta e espera a descarga acabar ou vai ter que usar mais papel depois para secar o cu.
Não sei o que é pior. Ficar com frio quando está calor ou ficar com frio quando está frio nesta merda de sala com ar condicionado. O ar condicionado serve para amenizar a dor do calor, e não trocar a dor do calor pela dor do frio. Ainda mais que a gente está com bermuda e manga curta e agoniza com os músculos encolhidos e tensos por causa do gelo condicionado. E quando está frio eles miraculosamente conseguem deixar a sala ainda mais fria, como num ciclo infinito de retardamento mental. O ser humano é retardado mesmo. Com raras exceções. E o carinha que está à minha direita num aquário controlando esta bosta de sala certamente não é uma delas.

segunda-feira, 18 de março de 2002

O que faz valer a pena:

- O Douglas perguntou o que você tá achando do site dele, diz aí :)

- Nó, tou gostando mesmo. tem umas coisas bem melhores que outras. huaheuahe. Tem dias muito engraçados. Aquele da explicação que o pinto é flexivel é perfeito, tudo o que eu sempre quis dizer mas nao sabia como. Já espalhei pela NET.. :]
O jornalismo é uma entidade ilusória. Há uma (má) alucinação coletiva sobre a definição do que é ou não é verdade. E do que "é notícia" e do que "não é notícia". Como se pudesse ser uma unanimidade o que interessa e o que não interessa para um indivíduo. Como se o embasamento da reportagem e as informações apuradas fossem mais válidos do que um texto subjetivo. Como se uma verdade fosse maior e melhor do que a outra, ou como se só a verdade comprovada fosse verdade. Como se a comprovação fosse verdadeira.
PJ Harvey e Björk (e Tori Amos).
Os frutos da automação. Eu já não puxo descargas nem fecho torneiras. Pois eu passo muito tempo na Unisinos e lá (aqui) as descargas e as torneiras são automáticas. Assim como eu não consigo criar nada escrevendo à mão.
Só 1 pessoa quis saber de quem era a poesia Metade, bonito texto que eu postei aqui (vide arquivo). Pois é uma letra de música do Oswaldo Montenegro. Você leria a poesia se eu dissesse de quem era? Por outro lado, o Caco disse que ia ler só se eu dissesse de quem era.
ETERNA MÁGOA (Augusto dos Anjos)

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!
Metrô. Calor. De frente para mim estava sentada uma mulher. Ela de calça, eu de bermuda. Ela lendo a Bíblia, eu lendo Bukowski. Ela com Jesus na camiseta, eu com Laranja Mecânica na camiseta. Jesus bondoso com uma coroa de espinhos na cabeça, Alex empunhando um punhal. Jesus com olhos azuis, Alex com maquiagem e cílios postiços. Tanto tempo eu estava observando a mulher - para escrever uma história depois - que o homem que estava ao lado dela resolveu passar a mão por trás dos ombros dela. Abraçou-a. Ela era dele. Dele. Eu não podia estar observando a mulher dele, na certa eu queria comê-la ou matá-la com essa cabeça raspada e essa barba de três meses. Na certa eu era um metaleiro marginal. Ainda mais com aquela camiseta violenta. Deus o livre. Ou Jesus. Oh, Jesus.

As mulheres não gostam de ser observadas. Não gostam mesmo. Elas saem com roupas curtas, mas ficam puxando de meio em meio minuto: a calça para cima e a blusa para baixo. Elas não decidem se querem ser sexuais e humanas ou sexuais e moralistas. Ou melhor, decidem-se sim, pela segunda opção. Pelo menos as do metrô. O casal desembarcou. Havia um outro. A mulher tinha seios grandes que extrapolavam o limite da blusa e um rosto com traços árabes. Nariz grande e meio reto em cima, olhos bem escuros. Essa estava permanentemente com as trancas do homem em volta dela. Ele nem olhava para ela, mas protegia a fêmea dele do ataque dos rivais machos. Na hora de descer, ficaram em pé, então as amarras ficaram maiores. O abraço chegava a curvar a mulher bonita para cima dele. A porta abriu e eles seguiram.

No banco de trás daquele que era do casal, havia um papai com sua filhinha. Ela vestia um vestidinho de crochê por cima da fralda inflada. O papai ama a sua filhinha, mas mesmo assim estava ensinando alguma coisa estúpida para ela. Ensinando ela a crescer. A filhinha me flagrou olhando para ela e gostou. Começou a me observar e gostou. Crianças gostam de observar. Gostam de aprender. Os adultos não, eles estão prontos. Estão mortos. Eu a observei um pouco, mas parei logo, senão o pápi podia querer me dar uma surra. Surra é uma das primeiras coisas que os adultos ensinam para seus futuros adultos. Olha que lindo meu adultinho, devem pensar os pais. Nossa, você está um homenzinho... Fabricar humanos não é para qualquer um. Fabricar idiotas sim, e estes estão se alastrando como mogwais no oceano. Idiotas em série. Inclusive, e bastante, no metrô.
Os machos da nossa espécie estão em desvantagem. Em muitos aspectos. Mas falo de um específico. Se uma fêmea chega num macho e convida para transar, ele aceita na hora e os dois vão transar. Se um macho chega numa fêmea e faz o mesmo convite, ela é capaz de cuspir na cara dele gritando que ele é um tarado sem-vergonha. Quem dera se todos fossem sem-vergonha. As fêmeas gostam de ser enganadas. Gostam de horas e horas de papos inúteis como uma preparação excitante (?) para a futura cópula. Antes de dizer a verdade, de declarar o tesão, o macho tem que perguntar se ela vem sempre aqui, será que chove hoje, qual é o teu signo, eu tenho um opala turbo, essas coisas. Tanta é a perda de tempo que isso pode até adiar uma trepada que podia ser hoje mesmo, prazer imediato. E o macho padrão faz isso mesmo, sem chiar, com o maior prazer, pois o humano padrão desconhece e teme o não-padrão, prefere não arriscar. Não há greves nem piquetes. Os patrões são tratados como senhores pelos escravos. As pessoas têm sérios problemas sexuais, a começar por esse. A vontade de fazer sexo é imoral, é uma demostração de taradez/taradice, de grossura, de falta de cavalheirismo (?), de falta de romantismo. E o Prazer? E a Felicidade? E o Sentido Da Vida? Ficam trancados atrás do stress e da tensão crônica dos músculos das costas.
> Os gaúchos gostam de ouvir o que não os
> surpreenda. O que já tocou no rádio, já foi aprovado
> pela maioria.

Todo mundo gosta de ouvir o que não surpreenda.

O pior é que nem sempre é assim. Tem gente que não ouve determinadas bandas ou determinadas músicas porque elas tocam no rádio. Strokes, por exemplo. Mas essa gente ouve outra coisa no lugar. Algo que chama de "alternativo" (que geralmente é um blues ou um heavy metal ou uma coisa repetitiva do gênero), mas que acaba sendo igual ao comercial. Por quê? Eles só ouvem aquilo porque um certo grupinho com que eles se identificam também ouve. As pessoas se trancam em tribos e esquecem que o cérebro e o ouvido delas são delas mesmo, e não coletivos.

> Os gaúchos se parecem com todo mundo.

Todo mundo parece com todo mundo.

> O povo gaúcho não é roqueiro. O bom roqueiro gosta de
> ser surpreendido.

Nenhum POVO é roqueiro. O bom roqueiro gosta de ser surpreendido e é raro de ser encontrado.

[Correções ao pensamento do texto "Estou com raiva dessa gauchada", de Upiara Boschi, para o fanzine Cabron]

O que ele falou de correto:

> Papas da Língua, Acústicos e Valvulados, Tequila Baby,
> Comunidade Ninjitsu.
>
> As quatro últimas bandas citadas, os queridinhos das
> rádios locais, que tocam nos melhores lugares e levam
> mais gente nos shows, quem são? Os Papas da Língua: um
> Cidade Negra local. Os Acústicos e Valvulados: uma
> banda igual a milhares de outras, sem graça e sem
> ousadia. Tequila Baby: quatro malas que ouviram
> Ramones demais. Comunidade Ninjitsu: um bando de piás
> de quinze anos, com as preocupações e a temática de um
> piá de quinze anos. Esses são os líderes da cena
> local.

quinta-feira, 14 de março de 2002

Estréia dia 5 de abril na Inglaterra o filme 24 Hour Party People. É sobre o punk desde Buzzcocks. Final do movimento revolucionário e início do sombrio pós-punk. O gênio do Joy Division que morreu gênio com menos anos do que eu tenho agora.
Um amigo escritor brasileiro, Emir Rossoni, está lá no outro lado do Atlântico, em Coimbra. "Aqui perto de Coimbra tem uma cidade chamada Penacova. Pois vi um caminhão de água mineral a circular aqui pela cidade. Era um caminhão de uma empresa de água mineral oriunda da dita cidade. Vejam o slogan deles. CALDAS DE PENACOVA - ETERNA PUREZA." Pedi para ele trazer uns discos dos Mão Morta, banda apresantada a mim pelo Carlos Marques e que hoje figura entre as minhas 20 prediletas.
Disse o meu amigo de Portugal Carlos Marques: "Como 1 amigo meu dizia 1 dia destes: sem grande indústria não há espaço para a arte." Acrescentei: "Tem que haver um ralo para ir a merda. Enquanto a indústria está ocupada com as fezes, os artistas estão fazendo as suas artes."

segunda-feira, 11 de março de 2002

Neste exato momento, tem um cara cavando um túnel no corredor do meu prédio para entrar no meu apartamento. O barulho de obras já tinha me chamado a atenção, mas botei um Cocteau Twins a fim de neutralizar os ruídos enquanto escrevia um texto sobre pós-rock para o Apanhador. Olhei no olho mágico e vi que o cara está destruindo o tabuleiro de xadrez. É que o piso do corredor era preto e branco, quadriculado. Dava para jogar xadrez com peças vivas. Pelo jeito só dava, porque ele está destruindo. Ou cavando um túnel para entrar no meu apartamento. O histórico de psicóticos que me perseguem ou me telefonam é grande, eu não iria me surpreender. Em Brasília um cara me ligou de madrugada dizendo "Quer dizer que você quer montar uma banda? Eu toco baixo e tenho um guitarrista. A gente faz um boquete gostoso nos ensaios. Enfia o pau no cu. Mas se você não quiser, pode ficar só olhando, não tem problema. Ouvi dizer que tem uns caras querendo pegar você ali no Centro", coisas assim. (Detalhe: Brasília não tem Centro.) Olhei de novo pelo buraco da porta, e a escada já está toda sem piso. Está esfolada. Está em reboco vivo. Aquele Cocteau Twins já acabou, então pressionei o open e troquei por outro Cocteau Twins. Estou com três, emprestados. Mais um Pavement e um Galaxie 500. Agora vou voltar ao texto sobre pós rock. Já re-volto. Re-voltei. Meu estômago está se desintegrando, preciso ter anti-ácido em casa. Talvez abra um dois-litros de Pepsi, meus pais diziam que era bom para esse tipo de desintegração. O nome popular dessa doença eu nem vou escrever porque é nojento. Também preciso parar de roer unhas. As bases transparentes já não evitam mais que eu roa. E esmalte colorido eu não posso usar porque estou andando muito no meio do povão, no metrô e no centro de Porto Alegre. E eu não ia ter saco de explicar para os colegas adversários dos concursos públicos por que eu pinto as unhas. Na realidade, não precisa ter porquê. O fato de os gaúchos se destacarem em tudo que é coisa nacionalmente deve ser ligado ao supertreinamento por que eles - nós - passam - passamos. Primeiro, fogo insuportável no verão. Depois, gelo insuportável no inverno. (Citei o verão primeiro porque nasci na primavera.) Sofre aqui, sofre lá. O organismo vira um super-organismo. E o homem vira um super-homem. E a indústria dos ventiladores e a indústria dos condicionadores de ar e a indústria dos aquecedores e a indústria dos chuveiros e todas essas indústrias, as indústrias do fogo e do gelo. Agora vai o Pavement. Stereo. É mais ou menos, pois tem a ver com Radiohead (mais) e Weezer (menos). Ele ainda não chegou no meu carpete. Quero ver ele cavar o carpete. O corredor já está todo esfolado. Stereow, stereo-ow. Vocais vascilantes rules. Yeah. Ah, mas no fim de semana eu posso ficar com as unhas pintadas. Vou pintá-las. Porém é como tomar remédio para a gripe ou a aids: ajuda, mas não cura. Ainda não abri a Pepsi. Nem terminei o texto. Nem aquele, nem este. Talvez agora. Não, ainda não. Desci para comprar sais de frutas Eno e vi que o escavador do corredor é o David Bowie! Ele pintou o cabelo de preto e segue com a barba por fazer e o óculos de grau. O Bowie pode escavar meu carpete. Ele é o primeiro da lista de pessoas que eu gostaria de ver pessoalmente, ouvir a voz e apertar a mão. Eu daria um beijo no rosto de barba por fazer dele. E agora ele está trabalhando no corredor do meu prédio! Enos era o nome do pastor de Parobé. Roque era o nome do padre, que depois foi expulso porque tinha mulher(es). O nome do dono do Sofazão é Padre Roque. O Sofazão é uma casa noturna em que as pessoas fazem sexo em qualquer lugar toda hora e todos vêem todos. O corredor está fedendo a cimento. O sal de frutas tem um gosto bizarro e eu gosto de gostos bizarros. Era efervescente e tomei geladinho. Agora sim.

quinta-feira, 7 de março de 2002

Quem acha que sabe tudo não sabe que ninguém sabe nada. Eu acho.
O PL do latim se transformou em CH com o tempo. POR QUÊ? Pluvia virou chuva e pleno virou cheio.
Eu odeio trânsito. Eu não odeio carros, como o Thom Yorke odeia, mas eu odeio trânsito. Eu não sou o smurf Ranzinza. Nem o Papai-Smurf (barba). Mas o trânsito estraga o dia. (Se você tem que dirigir todos os dias no trânsito, ele estraga a vida.) Simplesmente porque é absurdo ficar 50 minutos dentro de um carro para ir de casa até a universidade que fica na mesma cidade pequena. Você fica naquele pára-e-arranca e topa com uns 47 motoristas que não têm o mínimo respeito e outros 47 que não sabem dirigir mesmo. Se está chovendo, pior ainda. NÂO TEM COMO desembaçar o vidro. Até a luz vermelha do freio dos carros da frente transforma o pára-brisa num lindo quadro impressionista avermelhado. Tentei dirigir que nem o Ace Ventura, com a cabeça para fora da janela, mas não tem como. O trânsito e a chuva deixam todos os músculos tensos, o corpo dói, fica difícil de adormecer e a raiva que isso tudo - causa e conseqüência - dá destrói o ânimo de a pessoa estar acordada.

Eu não odeio carros, como o Thom Yorke odeia, mas eu odeio a capacidade destruidora deles. Eles destroem numa pechada (batida, acidente, na língua gaúcha). Destroem se você fica empenhado numa rua escura duma cidade violenta num dia de chuva e alagamento - como eu fiquei naquele dia em que Porto Alegre recebeu a Arca de Noé. Destroem se você fica empenhado desse jeito e o carro não tem seguro e tem dois teclados raros e caros no porta-malas. Destroem se você tem medo de ser roubado, assaltado ou esfaqueado - como eu tenho depois de receber uma parabela no ilíaco e um canivete zunindo perto da minha barriga. Você fica empenhado porque é muito fácil estragar alguma coisa no carro, da mesma forma que é muito fácil estragar alguma coisa no seu computador. Naquele dia, eu nem sei o que foi. Talvez as velas tenham molhado. Talvez tenha terminado a bateria. Só sei que o cara bondoso que ajudou a empurrar o meu carro - depois de quatro horas da tortura psicológica mais forte que eu já senti na minha vida - esqueceu dentro dele sua maleta de ferramentas. Uma das "ferramentas" era uma adaga-facão-espada feita em casa, com punho de fita isolante. Talvez fosse para usar como chave-de-fenda, não é?... Sorte que eu me arranquei para não arriscar que o carro morresse de novo. Destroem porque deixam você muito nervoso. It makes me mad.
"Deixa esses concursos para os arigós", me disse um amigo, que acha que eu posso "muito mais do que isso". Minha resposta: "Tem arigós que fazem concursos porque não têm outra a fazer e tem arigós que estragam a sua vida misturando aquilo que gostam com comércio. Eu gosto de escrever e de tocar, mas não vou vender meus textos e minha música. (Vide Manifesto Contra A Covardia) Tem arigós que ficam se humilhando pra conseguir um emprego humilhante de jornalista. Eu quero ser artista, e pra isso eu preciso de um emprego mecânico que pague bem."
EU ODEIO TESTES! Quem os faz se sujeita à falta de noção. It´s no fun anymore.
Eu escrevo neste local aqui em primeiro lugar para mim. Em segundo lugar para os amigos. É como se fossem e-mails para todos eles (vocês). Eu sei que internet e informática são uma bosta por um lado, eu sei que o tempo é curto e existe muita coisa para fazer e para ler. Mas peço que tentem ler o que puderem. Senão eu acabo repetindo as mesmas coisas que escrevo aqui nos e-mails ou nas conversas. Não que eu não queira conversar, óbvio, mas aí a gente pode partir do que já foi dito, ir além.

terça-feira, 5 de março de 2002

Quanto mais alta está a temperatura, mais frio eles regulam o ar condicionado. Como eles são burros. Choque térmico. Eles são tão - mas tão - patetas que não percebem que, se o lugar com ar condicionado está muito mais frio do que na rua, isso não é agradável. Dói na pele. (Passando na frente de uma loja com ar condicionado, por exemplo, a gente já sente a rajada de dor gelada.) Uma aliviada, apenas, do calor seria o ideal. Em outros países de calor semelhante ao que faz aqui as pessoas se organizam, não precisam de ar condicionado. Os edifícios são projetados de modo que sejam frescos. As pessoas andam de bermudas e calções, incluindo os militares e os políticos. Aqui, esses dois tipos de retardados consideram as bermudas e os calções imorais, falta de respeito. Eles realmente não têm a mínima noção de respeito.
Roger Waters. Daqui a exatamente uma semana eu vou estar vendo e ouvindo um deus da música, um dos criadores do Pink Floyd - por mais que esteja velho e sem voz e de ray-ban e de mullet e que coloque um saxofone herético na sua versão solo para Set The Controls For The Heart Of The Sun, de 1968, e que seus discos solos sejam cópias carbonos do último disco criativo do Pink Floyd, The Wall, de 1979. Eu vou chorar muito. Graças ao Sapo, que me deu o ingresso.

segunda-feira, 4 de março de 2002

John Voyers "tem mais pra provar que os cachorros são seres humanos evoluídos (ou não)
pelo uso excessivo da maconha:

- cachorros lambem os beiços toda hora
- comida sempre é bem vinda
- ficar rodando é divertido
- não tem noção da altura do latido"
Consegui! Me senti poderoso! Estou há uma hora votando sem parar para o Xis ficar na Casa dos Artistas. Votei umas centenas de vezes. Quando entrei no casa.uol.com.br, estava 48% para o Xis ficar. Agora eu e outras pessoas fizeram essa proporção aumentar para 50,1%. Fiz isso porque as pessoas que votaram para ele sair, por telefone, não tinham um motivo explícito. Todas copiaram o que o primeiro telespectador disse, "Ele é muito sossegado". Por que não dizem logo "Ele é muito preto (e não é modelo bonitão e gostosão como o Taiguara)"? O melhor caráter da casa não pode sair assim, na segunda rodada.

Putz. Foi só eu parar de votar e vir aqui escrever isto e os inimigos já conseguiram recuperar 0,01%. Convoco todos a votarem um pouco no tempo livre. O negócio é o seguinte. Para o voto ser válido, você precisa digitar uma palavra que aparece no quadro azul embaixo (uma coisa estranha foi que apareceram as palavras "negro", "negras" e "facadas" duas vezes). Digite essa primeira palavra errada. Vai aparecer uma segunda palavra. Digite essa certa. Vai aparecer o placar. Dê duas vezes o comando [alt + seta para a esquerda] para voltar à primeira palavra, só que agora digite ela corretamente. Digite a segunda também corretamente, volte duas vezes e repita esse procedimento quantas vezes você agüentar. Só cuide para a bolinha estar marcando o [Não], de "O Xis não deve sair da casa". Agora perdemos mais 0,06%. E agora eles estão ganhando com 50,04%. Vai ser duro o negócio.

sexta-feira, 1 de março de 2002

Verdades Universais
O LIVRO DOS FNORDS
file://Apêndice do livro Ciberxamanismo, de Eduardo Pinheiro (1997)
(Repassado por Daniel Pellizzari)

Faze o que queres há de ser o todo da lei.

1. Nenhum sistema é completo, pois não é possível explicá-lo completamente partindo dele mesmo. (Ex. Para explicar o universo seria necessário um computador fora do universo. Isso é provado pelo teorema de Gödel.)

2. Não existe nenhuma verdade. Esta afirmação é falsa. Paradoxos
transcendem paradoxos. (Ex. A única maneira de resolver uma questão é
desistir da pergunta. Por isso alguns sistemas de crenças afirmam que
quando a mente pára a onisciência é obtida.)

3. Todos os conceitos são válidos (apenas e somente) dentro de seus
sistemas de crenças. Um sistema de crenças é um conjunto de conceitos que se complementam ou se justificam. (Ex. Uma religião neolítica satisfaz a necessidade do povo neolítico. O Cristianismo funciona para os cristãos. A ciência satisfaz a tecnologia. A matemática serve ao contador. Todos carregam coerência interna, embora nenhum desses sistemas carregue o que se chamaria, caso tivesse existência possível, de verdade.)

4. Todos os critérios, julgamentos, arbitrariedades e morais são baseados em sistemas de crenças específicos, e portanto são circunstanciais e não universais. (Ex. As regras de um jogo de futebol dificilmente se aplicariam ao parlamento, a moralidade cristã dificilmente seria aplicada a marcianos, intelectuais ou tartarugas.)

5. Abandonar quaisquer sistemas de crenças, embora desejável, é impossível. Existem programas compulsórios tanto biológicos quanto ambientais. O livre arbítrio é paradoxal. Quem abandona quaisquer referências "externas" se torna um psicótico, e está condenado a não interagir. O poder verdadeiro vem da liberdade relativa que o indivíduo obtém dentro de seu ambiente (semântico, social, etc.).

6. Cada elemento - da partícula à galáxia, passando pelos homens - carrega sua peculiaridade intransferível. (A maioria dos sistemas de crenças chamam de Amor o que cria a interação entre as partes. Ex. "A separação é uma ilusão criada pelo Amor ao Amor", etc.)

(...)

"Sabe que tem gente que não tem anandamida no cérebro? Really! Essas pessoas podem fumar um caminhão de maconha e o efeito seria o mesmo que fumar um caminhão de grama, ou seja, nulo." (Cardoso) O Luciano Monteiro é assim. Fuma fuma não sente nada.
Aviso às mulheres que AINDA não perceberam: o famoso e odiado "xixi fora da privada" não é escolha, preguiça, falta de higiene ou má pontaria do homem. Não existe isso de pontaria. O pênis é feito de material orgânico, não é de metal como uma arma que - essa sim - tem mira. Material orgânico é maleável, inclusive por dentro, e sendo maleável não existe precisão no tiro.
Esses dias, numa reunião festiva de amigos, decidiram jogar Verdade Ou Conseqüência. Entre pessoas que não são íntimas, o objetivo do jogo é saber mais sobre sexo, não é? Nas primeiras perguntas, o pessoal já se embananou. Não tinham coragem de perguntar sobre sexo. Uma das meninas já avisou antes: "Eu só vou pagar". Diante da pergunta "Quando foi a sua primeira vez?", um deles preferiu mostrar a bunda! Por quê? Mostrou a bunda e o saco em troca de manter a idade da primeira transa em segredo. Infelizmente, o chinelo giratório não chegou a parar para o meu lado de modo que eu fizesse a pergunta. Senão eu ia levar o jogo para o lado certo. Talvez me odiariam por isso.

Antes de me converter para o rock, eu era gaudério. Tocava gaita-ponto (aquela do Borghetti) em conjuntos gauchescos. Gauchinho, como dizia o meu amigo Luís. Nos fandangos, era fatal ter pelo menos uma prenda interessada por cada músico do palco. Tocamos - o nome da banda era Lida Campeira, de Gravataí, ainda existe, tem CD gravado e com duas composições minhas, ainda por cima - num rodeio, todas as noites, e os rodeios são mais movimentados ainda por groupies. Acho que na última noite eu e o gaiteiro-piano (o cara que toca gaita-piano, acordeon, desses tradicionais) fomos encontrados por duas gurias que nos deram bola. A "minha" disse que eu parecia o Brad Pitt, veja só. Um dia marcamos de nos encontrar na casa da "minha", os quatro. Eu e o Sagüi (esse é o apelido do outro gaiteiro) fomos, e todos jogamos verdade ou conseqüência. (No andar de cima, os pais da menina dormiam.) Só que, nesse caso, não só as perguntas eram sobre sexo, as conseqüências também. Lembro que baixei minha calça. Depois teve selinho. Depois teve beijo de língua. Esse era o objetivo. Beijei as duas meninas na mesma noite e, adolescente, fiquei impressionado com isso. Tem gente adulta que mesmo hoje me chamaria de imoral, galinha ou garanhão. Sendo que n.d.a.
O Juba se diz um dos escolhidos das Pessoas Que Fazem Dzz para reconhecê-las. São alienígenas que quando passam pelos escolhidos fazem "Dzz" e os olhos brilham. Você conhece o Juba? Essa pergunta é uma boa pedida para começar assunto com uma pessoa de Porto Alegre que eu ainda não conheço. Porque muita gente conhece o Juba em Porto Alegre, muita gente mesmo. Ele é um cara que nasceu em Goiânia. Meio baixinho, cabelo meio grande despenteado tipo Syd Barrett nos anos 60. Roupa de brechó, especialmente um blaser verde. Ele encontra você na rua e convida para uma festa legal na casa dele (uma casa antiga de dois andares, com a porta sempre aberta e tem uma Porta Para O Nada), com performances, bandas, exposição de pinturas. Falando sempre com o cotovelo direito ligeiramente para trás, antebraço direito 45 graus com relação ao solo, mão direita fazendo o sinal de positivo (polegar em riste) e antebraço sacudindo a mão para cima e para baixo, rapidinho.

Ele é o líder duma banda chamada Larissa No Penhasco, da qual eu fui membro-fundador, mas que tem uma formação diferente a cada ensaio. Do I Fórum Social Mundial ele participou com outra banda formada por ele chamada Davos Pra Porra. Também uma vez ele participou dum programa da TV Unisinos comigo e com o Rodrigo Andrade. Dissemos nos bastidores que o nome da banda era Sensaio, mas na hora de o apresentador nos apresentar, eu corrigi que se escrevia Sensaio, mas se pronunciava Treatwrobbler Mangrove. Citação a Monty Python. Depois ele ficou atrás do cenário fazendo animais de sombras, durante a gravação do tal Mídia Café. O Juba gosta de Monty Python como eu. Sempre falávamos em fazer uma mostra de vídeos do Monty Python na Unisinos, mas nunca a fizemos de fato. Outra vez nós estávamos num orelhão e uma menininha chegou e ofereceu um tatu-bola num potinho de margarina. O Juba se virou para ela, interessado e gentil, criança como a menina, perguntou quanto era. O Juba é barrado no Garagem Hermética porque amigos dele - e ele - brigaram com o porteiro estúpido que habita lá. O Juba queria fazer um show com pessoas confundindo gatos ao lado do palco. O Juba vive para pirar. O Juba é um cara legal.
É o tipo de viseira que a massa tem: Pensa antes nas coisas que costumeiramente se pensa antes. Tem que pensar antes no mais importante. Mas são raros os que têm senso para isso.
"A luz da arte alegra a escuridão da vida." (Friedrich Nietzsche - lembrado por Leonardo Fleck)
Imagine-se sendo uma carne vermelhinha, um bife macio deitando numa chapa quente. Seu sangue, com o calor de mais de 30ºC à noite na sombra, começa a virar um molho suculento. Você passa a noite sendo preparado. Então de manhã você sai da chapa e cai na água gelada, começa a boiar. Tem água no chão e cai mais água de cima, e o vento é frio. Depois você volta para o assamento num forno coletivo com rodas e chega num lugar onde as pessoas usam calça comprida o tempo inteiro e por isso gostam de simular um freezer no ambiente. Você está no Rio Grande do Sul.
MANIFESTO CONTRA A COVARDIA

Não vou mais ser jornalista. Vou ser funcionário público. Vou assumir com orgulho a inutilidade do meu diploma. Não vou me humilhar para implorar emprego. Não vou trabalhar quantas horas o chefe quiser. Não vou vender meu tempo integral, e ainda por tão pouco. Não vou fazer algo de que eu gosto de um jeito imposto, de que eu não gosto. Vou ser funcionário público. Vou conseguir um emprego por mérito meu. Não vou utilizar aparência, padrinho, indicação, tolerância à humilhação, mesmo porque não tenho. Vou fazer algo que não canse minha mente em desperdícios. Vou ganhar um salário um pouco mais ético. E vou gastá-lo para fazer as coisas de que eu gosto: tocar, escrever, rádio. E vou fazer essas coisas de modo independente, sem atrelar a arte ao comércio. Vou viver a vida, e sem arte não há prazer, e sem prazer não há vida. Pois o único sentido é transcender. E não tem por que esperar, não há tempo a perder. A vida é curta. Não sou covarde.