Metrô. Calor. De frente para mim estava sentada uma mulher. Ela de calça, eu de bermuda. Ela lendo a Bíblia, eu lendo Bukowski. Ela com Jesus na camiseta, eu com Laranja Mecânica na camiseta. Jesus bondoso com uma coroa de espinhos na cabeça, Alex empunhando um punhal. Jesus com olhos azuis, Alex com maquiagem e cílios postiços. Tanto tempo eu estava observando a mulher - para escrever uma história depois - que o homem que estava ao lado dela resolveu passar a mão por trás dos ombros dela. Abraçou-a. Ela era dele. Dele. Eu não podia estar observando a mulher dele, na certa eu queria comê-la ou matá-la com essa cabeça raspada e essa barba de três meses. Na certa eu era um metaleiro marginal. Ainda mais com aquela camiseta violenta. Deus o livre. Ou Jesus. Oh, Jesus.
As mulheres não gostam de ser observadas. Não gostam mesmo. Elas saem com roupas curtas, mas ficam puxando de meio em meio minuto: a calça para cima e a blusa para baixo. Elas não decidem se querem ser sexuais e humanas ou sexuais e moralistas. Ou melhor, decidem-se sim, pela segunda opção. Pelo menos as do metrô. O casal desembarcou. Havia um outro. A mulher tinha seios grandes que extrapolavam o limite da blusa e um rosto com traços árabes. Nariz grande e meio reto em cima, olhos bem escuros. Essa estava permanentemente com as trancas do homem em volta dela. Ele nem olhava para ela, mas protegia a fêmea dele do ataque dos rivais machos. Na hora de descer, ficaram em pé, então as amarras ficaram maiores. O abraço chegava a curvar a mulher bonita para cima dele. A porta abriu e eles seguiram.
No banco de trás daquele que era do casal, havia um papai com sua filhinha. Ela vestia um vestidinho de crochê por cima da fralda inflada. O papai ama a sua filhinha, mas mesmo assim estava ensinando alguma coisa estúpida para ela. Ensinando ela a crescer. A filhinha me flagrou olhando para ela e gostou. Começou a me observar e gostou. Crianças gostam de observar. Gostam de aprender. Os adultos não, eles estão prontos. Estão mortos. Eu a observei um pouco, mas parei logo, senão o pápi podia querer me dar uma surra. Surra é uma das primeiras coisas que os adultos ensinam para seus futuros adultos. Olha que lindo meu adultinho, devem pensar os pais. Nossa, você está um homenzinho... Fabricar humanos não é para qualquer um. Fabricar idiotas sim, e estes estão se alastrando como mogwais no oceano. Idiotas em série. Inclusive, e bastante, no metrô.
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segunda-feira, 18 de março de 2002
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