Para as pessoas, não existe nada além do trabalho. Nasce para estudar e estuda para trabalhar e trabalha para trabalhar. Trabalha com uma coisa de que gosta para se sentir "realizado". Ora, mas o trabalho é uma coisa suja, podre e pobre! Vende a alma da pessoa, compra a alma da pessoa. Quem já PENSOU uma vez sequer na vida viu que o trabalho não é o Sentido, e, se não é o Sentido, não pode de forma alguma ocupar posição tão importante na vida da pessoa. Alguém tem que evitar que isso aconteça. Mas o trabalho é tudo, para as pessoas. Quem não pensa assim como elas é vagabundo. Quem sofre com essa realidade é desequilibrado. É riscado da lista dos que servem. Este não serve. Precisa de análise. É doente. (É doente - mesmo. No concurso da vida, os melhores colocados recebem o prêmio inversamente proporcional aos pontos obtidos. Aqueles que não souberem nada, são glorificados e vivem felizes. Os que estudaram mais ficam doentes, sofrem, deprimem-se, sentem-se perdidos, têm seu maior e raro prazer numa redação de um texto que coloque estes pensamentos para fora. Daqui a pouco mesmo, quando eu acabar este texto, voltarei à minha queda intermitente. Não consigo me interessar pelo trabalho, me desculpem. Nem pelo resto, no estado ferido que minha alma está diante da lógica que eu condeno neste texto.)
Eu decidi que vou ser funcionário público porque, se é para ser robô, quero ser o melhor tipo de robô. Fazer coisas repetitivas e fáceis, que pelo menos não desperdicem minha alma, meu amor. Ao contrário do que pensa um grande número de pessoas, tidas como sensíveis e corajosas: aquelas que trabalham naquilo que gostam. Ora, isso é um insulto para a vida. Acham que eu sou covarde querendo ser funcionário público, que os ousados são os que conquistam algo na esfera privada. Cérebro de minhoca, pode usar de isca na pescaria. Acham que o sujeito que transcende é aquele que sofre a vida para chegar ao olimpo da carreira profissional, aquela em que a vida foi gasta para ganhar dinheiro e perder tempo de vida.
Numa reunião dum veículo de comunicação tido como alternativo, as pessoas não entenderam uma pauta minha sobre a independência como forma de produzir arte. Sobre a pureza estética, a separação total e vital da criação e do comércio. Primeiro, não entenderam NADA do que eu estava falando. Parecia hebraico. Então tive que continuar minha explicação, como se estivesse falando com um jardim de infância (e olha que as crianças poderiam ser mais espertas, pois os adultos é que as contaminam). "No fundo, o que as bandas querem é ganhar dinheiro", disse o chefe da reunião. E não adiantava eu dizer que não. Eu mesmo quero ter uma banda cujo único objetivo é transcender e agradar aos ouvintes, tocar a sensibilidade deles com a minha. Para isso quero ter um salário de funcionário público, mais decente do que a exploração dos profissionais em começo de carreira. Sempre pedem experiência para quem não tem, então esse quem nunca vai ter a primeira experiência. E os normais, os de mente saudável, aplaudem com entusiasmo essa lógica, e gargalham.
Voltando à independência. "Quando se é jovem até dá para sustentar esse romantismo, mas até quando?", questionou um famoso crítico de música. Como se a vontade de realizar a verdadeira arte fosse atitude infantilóide, ingênua, rebelde. "Quem não quer se adaptar aos sistemas do mercado, como as gravadoras, é anarquista - isso é anarquia", disse o mesmo homem. Quer dizer, então, que sustentar as próprias criações artísticas é um ato contra o poder político, em defesa da ausência de poder, da anarquia? Um artista real é um defensor do caos? De alguma forma, sim. Mas não o caos da violência, e sim o caos real, o caos da vida, o caos do mundo, aquele que todo mundo insiste em esconder atrás da profissão e da lógica pretensamente única.
"Ah, existem médicos, por exemplo, que têm banda, mas como hobby...", Sim, hobby... Ele é médico. A banda dele é só um hobby... (se houvesse as minúsculas das minúsculas, as letras da palavra hobby... estariam grafadas com elas; que as reticências façam as vezes). Hobby é merda (arte é merda). Profissão é que é a vida. Se o cara é médico, ele É MÉDICO. Não é uma pessoa qualquer, é MÉDICO. (A pessoa é denominada pela profissão, por aquilo que faz para ganhar dinheiro e gastar o tempo da vida.) Não é artista. Porque ele faz hobby, e não arte. MAS ARTE NÃO PODE SER HOBBY, PORRA! Não tem como a arte não ser a VIDA de quem a faz. Caso contrário, a pessoa é uma profissional que tem um hobby, é alguém que gasta a vida para ganhar dinheiro e movimentar a economia. Afinal, isso é indispensável, né?
Minha vó paga para um rapaz capinar o pátio dela. Ela chamou ele para capinar um dia. Ele não foi. Ela viu ele subindo a rua dela com uma bola debaixo do braço. Ia jogar futebol. "Que vagabundo! Ele só sabe jogar futebol? Por que ele não capina? Ele tem que capinar". É isso aí pessoal. Peguem as suas enxadas. E vão para a capina. Capinem.
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segunda-feira, 25 de março de 2002
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