DE MASI, Domenico. Criatividade e grupos criativos. Rio de Janeiro: Sextante, 2003, p. 122-123.
Por onde quer que tenha passado, o homem pré-histórico deixou testemunhos da sua criatividade. Devido a uma confluência de causas econômicas, geográficas, climáticas, antropológicas e somáticas, essa faculdade única e multifacetada espalhou a sua fecundidade, sobretudo no Oriente Médio, mas pode-se afirmar que não exista lugar do planeta onde, desde a pré-história, primeiro os hominídeos e depois os seres humanos não tenham dado prova de fantasia e concretude.
Na África aprendemos a caminhar sobre os dois pés, a usar as mãos para construir utensílios, a valorizar o aparelho fonador para traduzir ideias em sons e sons em palavras. No Oriente Próximo, na França e na China aprendemos a transformar as pedras em facas e a caçar os animais usando armadilhas. Ainda na China nos tornamos hábeis no cultivo do bicho-da-seda e na manufatura de tecidos vaporosos. Na região onde hoje fica Nice aprendemos a acender o fogo. Em Nazaré, a enterrar os mortos. Na Rússia começamos a admirar o mundo dos espíritos. Na França, no Brasil e no México pintamos figuras de viva beleza nas cavernas. Na Áustria aprendemos a moldar estatuetas de uma opulência inquietadora. No altiplano iraniano, na Mesopotâmia, na Palestina, na Anatólia e no Turquestão nos tornamos capazes de cultivar o trigo, de fazer girar a roda, de escrever, de usar os números, de interpretar o curso dos astros, assim como de comercializar com países longínquos.
Na Líbia cunhamos as primeiras moedas. No Peru e no México aprendemos a cultivar o milho e, mais tarde, na China aprendemos a produzir arroz. Para colher, guardar e esmagar esses cereais inventamos cestas, pilões e moendas. Há vinte mil anos os nossos ancestrais siberianos já haviam povoado toda a América do Norte, e os antípodas, outros nômades, haviam chegado à Austrália e à Nova Guiné. A invenção do timão, da vela, da escrita e da moeda contribuiu para o incremento do comércio, o intercâmbio das mercadorias, das experiências e das culturas. Talvez na Jordânia tenhamos aperfeiçoado a cerâmica e domesticado o cachorro para defesa e para tração; em várias regiões da Europa e do Oriente Próximo domesticamos a cabra para nos dar o leite, a ovelha como fornecedora da lã, o porco como fonte de carne, o cavalo para o nosso transporte, assim como as galinhas para a refeição. Certamente na Mesopotâmia tivemos a idéia genial de pôr o arreio nos bois, transformando-os em tratores.
Na Sérvia inventamos o vilarejo pacífco, sem fortificações; já na Grécia criamos aquele mais belicoso e murado; ao longo do Danúbio inventamos os primeiros municípios. Nos Bálcãs aprendemos a forjar o bronze e na Anatólia inventamos fornos para a fusão do cobre. Na Inglaterra conseguimos alçar ciclópicos megalíticos; na Palestina e no Egito aprendemos a construir templos e pirâmides de proporções incomensuráveis; na Espanha aprendemos a forjar o bronze em grande escala e na Turquia descobrimos e protegemos os segredos do ferro.
Na Mesopotâmia redigimos as primeiras leis; no Egito recolhemos a palavra poética e teológica de Deus; na Grécia, a palavra dramática e filosófica dos homens. E se na Pérsia inventamos a ditadura, na Grécia criamos a democracia.
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segunda-feira, 29 de junho de 2009
Pintores por mim descobertos - ontem.
Lucien Freud



Egon Schiele


Andrew Wyeth

Lucien Freud

Egon Schiele


Andrew Wyeth
"Quer graça pode haver num ovo de galinha? Praticamente nenhuma, se quem o observa já perdeu o ímpeto de maravilhar-se com as banalidades do mundo. Mas, para crianças de 4 ou 5 anos, um ovo agrega mistérios que tirariam o sono dos filósofos. Como a natureza cismou de aninhar, em uma elipse tão despojada e frágil, um chumaço de plumas que, mais dia, menos dia, se transformará num galo altivo e musculoso? Sob os olhos tenros da infância, clara e gema são perguntas. Por isso, quando a empregada que trabalhava naquele pequeno sobrado de Milão colocou um trio de ovos prenhes diante de Contardo, o menino não conseguiu disfarçar a inquietude — um alvoroço que desaguou em assombro mal as cascas se romperam e desnudaram três pintinhos assustadiços. Um dos filhotes tinha a penugem marrom, com uma tonalidade semelhante à da nocciola (avelã). Contardo o batizou de Nocciolino. O segundo, muito branco, lembrava um picolé de limão. Virou Limontino. É certo que o terceiro também ostentava uma cor e um nome. O tempo, no entanto, se encarregou de apagá-los, talvez pelo impiedoso prazer de reiterar que, cedo ou tarde, nada fugirá do esquecimento. Poucas semanas depois de os ovos se quebrarem, Nocciolino & cia. teimavam em seguir Contardo para cima e para baixo. Marchavam perfilados atrás dele e, durante o trajeto, não cessavam de piar. Na ocasião, início da década de 1950, o garoto dividia o sobrado milanês com os pais e Bernardino, o primogênito da família. Os dois irmãos guardavam alguma distância um do outro, em razão de uma tênue rivalidade que se agravaria no futuro (disputa inconsciente pela atenção materna?). Não à toa, o caçula aplaudiu a chegada dos novos amigos. Julgou que as aves o acompanhassem por afeição. Lógico que ainda desconhecia as pesquisas revolucionárias de Konrad Lorenz. Em 1935, o zoólogo austríaco demonstrou que patos, gansos e pintinhos, tão logo abandonam os ovos, adotam como 'mãe' o primeiro animal que avistam, seja um gavião, uma tartaruga ou um leopardo, e só o largam depois de adultos. Não se comportam assim por convicção nem por gosto, mas por uma tragicômica ilusão. - Um dia os Calligaris saíram do sobradinho com galinheiro no quintal e se mudaram para um apartamento espaçoso. Contardo, agora beirando os 7 anos, possivelmente sentiu falta do cortejo alado e barulhento que liderava. Tratou, então, de arranjar uma orquestra imaginária, meia dúzia de músicos dispostos em fila indiana e amarrados numa única corda. O moleque puxava-os pela rua ou dentro do apartamento e, não raro, sugeria que tocassem: uma sonata, um bom jazz, o trecho de uma ópera. Solícitos, os rapazes sempre o acatavam, enchendo-lhe o cotidiano de uma trilha sonora inexistente." (Armando Antenore)
BRAVO!: Qual é sua opinião a respeito do fenômeno Susan Boyle?
Carlos Eduardo Miranda: Isso me cheira meio mal. Em 1994, aconteceu algo idêntico com ela num programa de TV lá na Inglaterra. Está no YouTube. Não duvido que os produtores do Britain's Got Talent tenham lembrado disso, ido atrás dela e depois fingido que não sabiam do que se tratava para dar uma aparência inesperada à coisa. Na verdade, não consigo entender por que as pessoas ficaram tão impressionadas com a mulher. Quer dizer que quem é feio tem de cantar mal? Você pega a música brasileira e tem um monte de cantor feio. O Fagner não é feio que nem um raio?
As mudanças que estamos vivendo no mercado fonográfico são mais benéficas ou maléficas?
São benéficas. Não tem nada de ruim acontecendo. Só de ter desmoronado o que já estava construído há anos é um ganho. As coisas acontecem em ciclos. Começa com um cara tocando uma música legal e alguém querendo ajudar. Esse alguém monta uma empresa para lançar aquele artista. Aí o negócio vai crescendo, começa a abranger mais gente. Vai ficando tão grande que chega uma hora que quem está no poder não é mais aquele cara que gosta de música — ele já partiu para outro empreendimento. No seu lugar entra alguém que veio do marketing, que não tem nada a ver com a arte. Foi o que a gente viveu na indústria da música. Poucas pessoas que amavam a música estavam envolvidas com o negócio. No mundo todo. Eu não vejo isso com ódio. Simplesmente é assim. Também nunca acreditei nessa história de que a mídia impõe a música fuleira. Isso é tudo lenda. A música fuleira é natural. Por isso, agrada do pobre ao rico. Geralmente ela é feita para animar a pessoa a fazer filhinho, para esquentar a relação. A maioria é ligada a alguma dancinha. E é dança de acasalamento, sexo disfarçado, algo natural do ser humano.
E quais artistas tiram você de casa?
O coletivo me atrai mais do que o individual. Mas eu vou a festivais para ver Mundo Livre S/A, Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Do Amor... E agora que tem essa lei em São Paulo que proíbe o cigarro em lugares fechados, vou passar a ver mais shows [risos].
Carlos Eduardo Miranda: Isso me cheira meio mal. Em 1994, aconteceu algo idêntico com ela num programa de TV lá na Inglaterra. Está no YouTube. Não duvido que os produtores do Britain's Got Talent tenham lembrado disso, ido atrás dela e depois fingido que não sabiam do que se tratava para dar uma aparência inesperada à coisa. Na verdade, não consigo entender por que as pessoas ficaram tão impressionadas com a mulher. Quer dizer que quem é feio tem de cantar mal? Você pega a música brasileira e tem um monte de cantor feio. O Fagner não é feio que nem um raio?
As mudanças que estamos vivendo no mercado fonográfico são mais benéficas ou maléficas?
São benéficas. Não tem nada de ruim acontecendo. Só de ter desmoronado o que já estava construído há anos é um ganho. As coisas acontecem em ciclos. Começa com um cara tocando uma música legal e alguém querendo ajudar. Esse alguém monta uma empresa para lançar aquele artista. Aí o negócio vai crescendo, começa a abranger mais gente. Vai ficando tão grande que chega uma hora que quem está no poder não é mais aquele cara que gosta de música — ele já partiu para outro empreendimento. No seu lugar entra alguém que veio do marketing, que não tem nada a ver com a arte. Foi o que a gente viveu na indústria da música. Poucas pessoas que amavam a música estavam envolvidas com o negócio. No mundo todo. Eu não vejo isso com ódio. Simplesmente é assim. Também nunca acreditei nessa história de que a mídia impõe a música fuleira. Isso é tudo lenda. A música fuleira é natural. Por isso, agrada do pobre ao rico. Geralmente ela é feita para animar a pessoa a fazer filhinho, para esquentar a relação. A maioria é ligada a alguma dancinha. E é dança de acasalamento, sexo disfarçado, algo natural do ser humano.
E quais artistas tiram você de casa?
O coletivo me atrai mais do que o individual. Mas eu vou a festivais para ver Mundo Livre S/A, Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Do Amor... E agora que tem essa lei em São Paulo que proíbe o cigarro em lugares fechados, vou passar a ver mais shows [risos].
domingo, 28 de junho de 2009
Teve concurso hoje para a Emater, e a prova de língua portuguesa foi em torno de um poema do Gregório de Matos. Gregório nasceu em 1636 e morreu em 1696. Período barroco. Faz 313 anos, porra! Os clássicos são tema de vestibular, matéria de aula. Pouco a população sabe sobre literatura, sobre arte, pouco resiste a memória do colégio, mas o pouco que sobrevive é de clássicos. E do Picasso, sempre mencionado, só se mostra "Guernica". Eu nunca tinha visto pinturas interessantes dele, e Francis Bacon eu conhecia só de nome. Os educadores e as bancas - e os professores de oficinas - vão esperar o contemporâneo tornar-se clássico para passar a abordá-los? É tão arriscado assim ensinar e exigir o novo? Gregório de Matos viveu num OUTRO planeta Terra. E certamente o planeta da Emater é outro, e nunca um poema será lido na Emater.
*UPDATED*

Pitchfork TV apresenta ST. VINCENT. Ouças nos fones.
1. Actor out of work
2. The party
3. The strangers
4. Marrow
St. Vincent, aka Annie Clark, é cantora e multiinstrumentista. Era guitarrista do Polyphonic Spree e excursiona com o Sufjan Stevens. Seu disco solo deste ano, 'Actor', está entre os cinco melhores até agora para mim. (Veja os vídeos com tamanho maior aqui.) Quem cansou de ver as pálpebras dela na posição cortina fechada, pode vê-la de olhos bem abertos falando sobre pistache e delícias no programa Cooking With Rockstars. E algumas fotos bonitas no Flickr.
Pitchfork TV apresenta ST. VINCENT. Ouças nos fones.
1. Actor out of work
2. The party
3. The strangers
4. Marrow
St. Vincent, aka Annie Clark, é cantora e multiinstrumentista. Era guitarrista do Polyphonic Spree e excursiona com o Sufjan Stevens. Seu disco solo deste ano, 'Actor', está entre os cinco melhores até agora para mim. (Veja os vídeos com tamanho maior aqui.) Quem cansou de ver as pálpebras dela na posição cortina fechada, pode vê-la de olhos bem abertos falando sobre pistache e delícias no programa Cooking With Rockstars. E algumas fotos bonitas no Flickr.
Como genial também é o Elvis Costello realmente interpretando uma melodia vocal ao acompanhar a Jenny Lewis.
sábado, 27 de junho de 2009
por Mihály Csíkszentmihályi
Imagine que você deseja criar um organismo, uma forma de vida artificial, dotada das melhores chances de sobrevivência em um ambiente complexo e imprevisível como o da Terra. Você deseja colocar, neste organismo, um tipo de mecanismo que o torne capaz de enfrentar, tanto quanto possível, os perigos imprevisíveis e aproveitar ao máximo as oportunidades que surjam. E como você faria isto? Certamente, iria querer desenvolver um organismo que fosse basicamente conservador, um organismo que aprendesse a extrair as melhores soluções do passado e continuasse a usá-las repetidamente, tentando poupar energia, agindo com cautela, para poder prosseguir com os padrões de comportamentos vivenciados e comprovados.
Porém, a melhor solução incluiria também um sistema de relé, em certos organismos, que oferecesse total suporte, toda vez que eles descobrissem alguma coisa nova ou se deparassem com uma ideia nova ou um novo tipo de comportamento, mesmo quando tais novidades não fossem úteis de imediato. É importante certificar-se de que o organismo não seja recompensado somente nos casos de descobertas úteis, porque senão ele ficaria seriamente prejudicado para enfrentar o futuro, uma vez que nenhum criador terrestre poderá jamais prever os tipos de situações que as espécies de um novo organismo poderão encontrar amanhã, no próximo ano ou na próxima década. Portanto, o melhor seria programar este organismo para que se sinta recompensado perante qualquer nova descoberta, independentemente de sua utilidade imediata. E isto parece ter sido a realidade de nossa espécie ao longo da evolução.
Através de mutações aleatórias, é possível que certos indivíduos tenham desenvolvido um sistema nervoso em que a descoberta de uma novidade estimule os centros de sensação de prazer no cérebro. Da mesma forma que certas pessoas obtêm um prazer mais acentuado com sexo e outras com comida. Portanto, é válido supor que certas pessoas nasçam com um prazer mais acentuado em aprender coisas novas do que outras. É provável que as pessoas que foram mais curiosas quando crianças tenham se arriscado mais, ficando, portanto, mais propensas a uma vida mais curta do que seus companheiros mais arredios. Entretanto, também é provável que aqueles que aprenderam a valorizar as crianças curiosas de seu grupo, protegendo-as e recompensando-as para que atingissem a maturidade e tivessem suas próprias crianças, tenham tido mais êxito do que aqueles que ignoraram as crianças potencialmente criativas de seus grupos.
É verdade que somos descendentes de antepassados que souberam valorizar a novidade, souberam proteger os indivíduos que gostavam de criar, e aprenderam com eles. Por eles terem em seus grupos indivíduos que se dedicavam a explorar e inventar, achavam-se mais preparados a enfrentar as condições de adversidade que ameaçavam sua sobrevivência. Nós também compartilhamos desta tendência de gostar daquilo que fazemos, desde que possamos fazê-lo de uma maneira nova, desde que, ao fazê-lo, estejamos descobrindo ou criando algo novo. É por isto que a criatividade é tão prazerosa, não importa em que área ela seja desenvolvida.
Mihály Csíkszentmihályi nasceu numa cidade que pertencia à Itália, mas que hoje pertence à Croácia, embora seja mencionado como um húngaro professor de psicologia. Famoso por seu estudo de felicidade e criatividade e por ter arquitetado a noção de fluxo:
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Tenho 171 dos 1001 discos da bíblia aquela.
1. Violent Femmes | Violent Femmes
2. Bob Dylan | The Freewheelin’ Bob Dylan
3. Bob Dylan | Bringing It All Back Home
4. John Coltrane | A Love Supreme
5. The Beatles | Rubber Soul
6. Bob Dylan | Highway 61 Revisited
7. The Beatles | Revolver
8. The Beach Boys | Pet Sounds
9. Bob Dylan | Blonde On Blonde
10. The 13th Floor Elevators | The Psychedelic Sounds Of The 13th Floor Elevators
11. The Beatles | Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
12. Love | Forever Changes
13. Pink Floyd | The Piper At The Gates Of Dawn
14. The Velvet Underground | The Velvet Underground And Nico
15. The Velvet Underground | White Light / White Heat
16. Os Mutantes | Os Mutantes
17. Leonard Cohen | The Songs Of Leonard Cohen
18. Johnny Cash | Johnny Cash At Folsom Prison
19. The Zombies | Odessey & Oracle
20. The Beatles | The Beatles (a.k.a. The White Album)
21. Neil Young With Crazy Horse | Everybody Knows This Is Nowhere
22. The Beatles | Abbey Road
23. The Velvet Underground | The Velvet Underground
24. The Stooges | The Stooges
25. Miles Davis | Bitches Brew
26. Black Sabbath | Black Sabbath
27. John Lennon | John Lennon / Plastic Ono Band
28. Neil Young | After The Gold Rush
29. The Stooges | Fun House
30. Syd Barret | The Madcap Laughs
31. Elton John | Madman Across The Water
32. Leonard Cohen | Songs Of Love And Hate
33. Black Sabbath | Black Sabbath Vol 4
34. Neil Young | Harvest
35. Lou Reed | Transformer
36. David Bowie | The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars
37. David Bowie | Aladdin Sane
38. Elton John | Goodbye Yellow Brick Road
39. Pink Floyd | The Dark Side Of The Moon
40. Iggy And The Stooges | Raw Power
41. Brian Eno | Another Green World
42. Bob Dylan | Blood On The Tracks
43. Patti Smith | Horses
44. Pink Floyd | Wish You Were Here
45. The Modern Lovers | The Modern Lovers
46. Ramones | Ramones
47. Kraftwerk | Trans-Europe Express
48. The Clash | The Clash
49. Wire | Pink Flag
50. Talking Heads | Talking Heads:77
51. Suicide | Suicide
52. Iggy Pop | The Idiot
53. Television | Marquee Moon
54. Iggy Pop | Lust For Life
55. Sex Pistols | Never Mind The Bollocks Here’s The Sex Pistols
56. Talking Heads | More Songs About Buildings And Food
57. Devo | Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!
58. Brian Eno | Ambient 1: Music For Airports
59. AC / DC | Highway To Hell
60. The B-52’s | The B-52’s
61. Joy Division | Unknown Pleasures
62. The Clash | London Calling
63. Marianne Faithfull | Broken English
64. The Slits | Cut
65. Neil Young And Crazy Horse | Rust Never Sleeps
66. Pink Floyd | The Wall
67. Talking Heads | Remain In Light
68. Joy Division | Closer
69. Pretenders | Pretenders
70. Violent Femmes | Violent Femmes
71. Tom Waits | Swordfishtrombones
72. Tom Waits | Rain Dogs
73. New Order | Low-Life
74. Sonic Youth | Evol
75. Slayer | Reign In Blood
76. Guns N’Roses | Appetite For Destruction
77. Laibach | Opus Dei
78. Sonic Youth | Sister
79. Leonard Cohen | I’m Your Man
80. R.E.M. | Green
81. My Bloody Valentine | Isn’t Anything
82. Pixies | Surfer Rosa
83. Sonic Youth | Daydream Nation
84. Faith No More | The Real Thing
85. New Order | Technique
86. The Cure | Disintegration
87. Pixies | Doolittle
88. Deee-Lite | World Clique
89. Depeche Mode | Violator
90. Pixies | Bossanova
91. Neil Young And Crazy Horse | Ragged Glory
92. Jane’s Addiction | Ritual De Lo Habitual
93. Sonic Youth | Goo
94. My Bloody Valentine | Loveless
95. Nirvana | Nevermind
96. Sepultura | Arise
97. Slint | Spiderland
98. U2 | Achtung Baby
99. Massive Attack | Blue Lines
100. Teenage Fanclub | Bandwagonesque
101. Pavement | Slanted And Enchanted
102. Rage Against The Machine | Rage Against The Machine
103. R.E.M. | Automatic For The People
104. Sonic Youth | Dirty
105. Pantera | Vulgar Display Of Power
106. Nick Cave And The Bad Seeds | Henry’s Dream
107. P. J. Harvey | Dry
108. Grant Lee Buffalo | Fuzzy
109. Nirvana | In Utero
110. P. J. Harvey | Rid Of Me
111. Björk | Debut
112. Pavement | Crooked Rain, Crooked Rain
113. Portishead | Dummy
114. Oasis | Definitely Maybe
115. Blur | Parklife
116. Hole | Live Through This
117. Massive Attack | Protection
118. Nirvana | MTV Unplugged In New York
119. Nine Inch Nails | The Downward Spiral
120. Garbage | Garbage
121. Tricky | Maxinquaye
122. The Smashing Pumpkins | Mellon Collie And The Infinite Sadness
123. Radiohead | The Bends
124. Pulp | Different Class
125. Oasis | (What’s The Story) Morning Glory?
126. Alanis Morissette | Jagged Little Pill
127. Super Furry Animals | Fuzzy Logic
128. Tortoise | Millions Now Living Will Never Die
129. Beck | Odelay
130. Eels | Beautiful Freak
131. The Divine Comedy | Casanova
132. Sepultura | Roots
133. Nick Cave And The Bad Seeds | Murder Ballads
134. Blur | Blur
135. Radiohead | OK Computer
136. The Chemical Brothers | Dig Your Own Hole
137. Primal Scream | Vanishing Point
138. Prodigy | The Fat Of The Land
139. Buena Vista Social Club | Buena Vista Social Club
140. Nick Cave And The Bad Seeds | The Boatman’s Call
141. Supergrass | In It For The Money
142. Elliott Smith | Either / Or
143. Spiritualized | Ladies And Gentlemen, We Are Floating In Space
144. Pulp | This Is Hardcore
145. The Flaming Lips | The Soft Bulletin
146. Bonnie “Prince” Billy | I See A Darkness
147. Sigur Rós | Ágætis Byrjun
148. Air | The Virgin Suicides
149. Radiohead | Kid A
150. Badly Drawn Boy | The Hour Of Bewilderbeast
151. P. J. Harvey | Stories From The City, Stories From The Sea
152. Radiohead | Amnesiac
153. Björk | Vespertine
154. Gorillaz | Gorillaz
155. The Strokes | Is This It
156. The Beta Band | Hot Shots II
157. Super Furry Animals | Rings Around The World
158. Wilco | Yankee Hotel Foxtrot
159. The Flaming Lips | Yoshimi Battles The Pink Robots
160. Beck | Sea Change
161. Yeah Yeah Yeah | Fever To Tell
162. Radiohead | Hail To The Thief
163. Arcade Fire | Funeral
164. Antony & The Johnsons | I Am A Bird Now
165. Sufjan Stevens | Illinoise
166. Joanna Newsom | Ys
167. Arcade Fire | Neon Bible
168. Bob Dylan | Time Out of Mind
169. The Libertines | The Libertines (1st Album)
170. White Stripes | Get Behind Me Satan
171. Radiohead | In Rainbows
1. Violent Femmes | Violent Femmes
2. Bob Dylan | The Freewheelin’ Bob Dylan
3. Bob Dylan | Bringing It All Back Home
4. John Coltrane | A Love Supreme
5. The Beatles | Rubber Soul
6. Bob Dylan | Highway 61 Revisited
7. The Beatles | Revolver
8. The Beach Boys | Pet Sounds
9. Bob Dylan | Blonde On Blonde
10. The 13th Floor Elevators | The Psychedelic Sounds Of The 13th Floor Elevators
11. The Beatles | Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
12. Love | Forever Changes
13. Pink Floyd | The Piper At The Gates Of Dawn
14. The Velvet Underground | The Velvet Underground And Nico
15. The Velvet Underground | White Light / White Heat
16. Os Mutantes | Os Mutantes
17. Leonard Cohen | The Songs Of Leonard Cohen
18. Johnny Cash | Johnny Cash At Folsom Prison
19. The Zombies | Odessey & Oracle
20. The Beatles | The Beatles (a.k.a. The White Album)
21. Neil Young With Crazy Horse | Everybody Knows This Is Nowhere
22. The Beatles | Abbey Road
23. The Velvet Underground | The Velvet Underground
24. The Stooges | The Stooges
25. Miles Davis | Bitches Brew
26. Black Sabbath | Black Sabbath
27. John Lennon | John Lennon / Plastic Ono Band
28. Neil Young | After The Gold Rush
29. The Stooges | Fun House
30. Syd Barret | The Madcap Laughs
31. Elton John | Madman Across The Water
32. Leonard Cohen | Songs Of Love And Hate
33. Black Sabbath | Black Sabbath Vol 4
34. Neil Young | Harvest
35. Lou Reed | Transformer
36. David Bowie | The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars
37. David Bowie | Aladdin Sane
38. Elton John | Goodbye Yellow Brick Road
39. Pink Floyd | The Dark Side Of The Moon
40. Iggy And The Stooges | Raw Power
41. Brian Eno | Another Green World
42. Bob Dylan | Blood On The Tracks
43. Patti Smith | Horses
44. Pink Floyd | Wish You Were Here
45. The Modern Lovers | The Modern Lovers
46. Ramones | Ramones
47. Kraftwerk | Trans-Europe Express
48. The Clash | The Clash
49. Wire | Pink Flag
50. Talking Heads | Talking Heads:77
51. Suicide | Suicide
52. Iggy Pop | The Idiot
53. Television | Marquee Moon
54. Iggy Pop | Lust For Life
55. Sex Pistols | Never Mind The Bollocks Here’s The Sex Pistols
56. Talking Heads | More Songs About Buildings And Food
57. Devo | Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!
58. Brian Eno | Ambient 1: Music For Airports
59. AC / DC | Highway To Hell
60. The B-52’s | The B-52’s
61. Joy Division | Unknown Pleasures
62. The Clash | London Calling
63. Marianne Faithfull | Broken English
64. The Slits | Cut
65. Neil Young And Crazy Horse | Rust Never Sleeps
66. Pink Floyd | The Wall
67. Talking Heads | Remain In Light
68. Joy Division | Closer
69. Pretenders | Pretenders
70. Violent Femmes | Violent Femmes
71. Tom Waits | Swordfishtrombones
72. Tom Waits | Rain Dogs
73. New Order | Low-Life
74. Sonic Youth | Evol
75. Slayer | Reign In Blood
76. Guns N’Roses | Appetite For Destruction
77. Laibach | Opus Dei
78. Sonic Youth | Sister
79. Leonard Cohen | I’m Your Man
80. R.E.M. | Green
81. My Bloody Valentine | Isn’t Anything
82. Pixies | Surfer Rosa
83. Sonic Youth | Daydream Nation
84. Faith No More | The Real Thing
85. New Order | Technique
86. The Cure | Disintegration
87. Pixies | Doolittle
88. Deee-Lite | World Clique
89. Depeche Mode | Violator
90. Pixies | Bossanova
91. Neil Young And Crazy Horse | Ragged Glory
92. Jane’s Addiction | Ritual De Lo Habitual
93. Sonic Youth | Goo
94. My Bloody Valentine | Loveless
95. Nirvana | Nevermind
96. Sepultura | Arise
97. Slint | Spiderland
98. U2 | Achtung Baby
99. Massive Attack | Blue Lines
100. Teenage Fanclub | Bandwagonesque
101. Pavement | Slanted And Enchanted
102. Rage Against The Machine | Rage Against The Machine
103. R.E.M. | Automatic For The People
104. Sonic Youth | Dirty
105. Pantera | Vulgar Display Of Power
106. Nick Cave And The Bad Seeds | Henry’s Dream
107. P. J. Harvey | Dry
108. Grant Lee Buffalo | Fuzzy
109. Nirvana | In Utero
110. P. J. Harvey | Rid Of Me
111. Björk | Debut
112. Pavement | Crooked Rain, Crooked Rain
113. Portishead | Dummy
114. Oasis | Definitely Maybe
115. Blur | Parklife
116. Hole | Live Through This
117. Massive Attack | Protection
118. Nirvana | MTV Unplugged In New York
119. Nine Inch Nails | The Downward Spiral
120. Garbage | Garbage
121. Tricky | Maxinquaye
122. The Smashing Pumpkins | Mellon Collie And The Infinite Sadness
123. Radiohead | The Bends
124. Pulp | Different Class
125. Oasis | (What’s The Story) Morning Glory?
126. Alanis Morissette | Jagged Little Pill
127. Super Furry Animals | Fuzzy Logic
128. Tortoise | Millions Now Living Will Never Die
129. Beck | Odelay
130. Eels | Beautiful Freak
131. The Divine Comedy | Casanova
132. Sepultura | Roots
133. Nick Cave And The Bad Seeds | Murder Ballads
134. Blur | Blur
135. Radiohead | OK Computer
136. The Chemical Brothers | Dig Your Own Hole
137. Primal Scream | Vanishing Point
138. Prodigy | The Fat Of The Land
139. Buena Vista Social Club | Buena Vista Social Club
140. Nick Cave And The Bad Seeds | The Boatman’s Call
141. Supergrass | In It For The Money
142. Elliott Smith | Either / Or
143. Spiritualized | Ladies And Gentlemen, We Are Floating In Space
144. Pulp | This Is Hardcore
145. The Flaming Lips | The Soft Bulletin
146. Bonnie “Prince” Billy | I See A Darkness
147. Sigur Rós | Ágætis Byrjun
148. Air | The Virgin Suicides
149. Radiohead | Kid A
150. Badly Drawn Boy | The Hour Of Bewilderbeast
151. P. J. Harvey | Stories From The City, Stories From The Sea
152. Radiohead | Amnesiac
153. Björk | Vespertine
154. Gorillaz | Gorillaz
155. The Strokes | Is This It
156. The Beta Band | Hot Shots II
157. Super Furry Animals | Rings Around The World
158. Wilco | Yankee Hotel Foxtrot
159. The Flaming Lips | Yoshimi Battles The Pink Robots
160. Beck | Sea Change
161. Yeah Yeah Yeah | Fever To Tell
162. Radiohead | Hail To The Thief
163. Arcade Fire | Funeral
164. Antony & The Johnsons | I Am A Bird Now
165. Sufjan Stevens | Illinoise
166. Joanna Newsom | Ys
167. Arcade Fire | Neon Bible
168. Bob Dylan | Time Out of Mind
169. The Libertines | The Libertines (1st Album)
170. White Stripes | Get Behind Me Satan
171. Radiohead | In Rainbows
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quarta-feira, 24 de junho de 2009
Uma reflexão sobre criatividade e livre arbítrio
PETER KOESTENBAUM
Aristóteles acreditava, corretamente, que coragem é a primeira das virtudes humanas, porque ela torna as demais possíveis. Coragem começa com a decisão de encarar a verdade última sobre a existência: o pequeno e sórdido segredo de que somos livres. Isto requer uma compreensão do livre arbítrio no nível arquetípico – uma compreensão de que somos livres para defi nir quem somos nós a cada momento. Nós não somos o que a sociedade e o acaso fi zeram de nós; somos o que escolhemos ser nas profundezas do nosso íntimo. Nós somos produto do nosso arbítrio.
Um dos problemas mais graves na vida é a autolimitação. Criamos mecanismos de defesa para nos protegermos da ansiedade que vem com a liberdade. Recusamo-nos a desenvolver todo nosso potencial. Vivemos apenas marginalmente. Esta é a definição freudiana de psiconeurose: nós limitamos nossa vida para podermos limitar a quantidade de ansiedade que sentimos. Terminamos adormecendo muitas das funções da vida. Nós fechamos os centros empreendedores e o pensamento criativo; como efeito, paramos o progresso e o crescimento. Mas nenhuma decisão signifi cativa jamais foi tomada sem ser seguida de uma crise existencial, ou sem o comprometimento com a marcha através da ansiedade, da incerteza e da culpa.
Este é o significado da palavra transformação. Você não pode apenas mudar o pensamento ou a atitude – você tem que mudar seu arbítrio, sua vontade. Você precisa ganhar controle sobre os padrões que governam sua mente: sua visão de mundo, suas crenças sobre o que você merece e sobre o que é possível. Esta é a zona fundamental da mudança, da força e da energia – e o significado da coragem. Algumas pessoas são mais talentosas do que outras. Algumas receberam educação mais aprofundada do que outras. Mas todos nós temos a capacidade de sermos grandes. A grandeza vem com o reconhecimento de que nosso potencial é limitado apenas pela maneira como fazemos escolhas, como usamos nossa liberdade, o quanto somos resolutos, o quanto somos persistentes – resumindo, pela nossa atitude. E todos somos livres para escolhermos nossa atitude.
. . . quase tudo na atividade humana e no comportamento humano não é essencialmente diferente do comportamento animal. As mais avançadas tecnologias e naves espaciais nos trouxeram no máximo ao nível do super-chimpanzé. Atualmente, a diferença entre Platão ou Nietzsche e a média da humanidade é muito maior do que a distância entre o chimpanzé e a média da humanidade. O reino do espírito real, do verdadeiro artista, do santo, do filósofo, é raramente conseguido. Por que tão pouco? Porque a evolução e a história do mundo não são uma história de progresso, mas essa sem-fim e fútil soma de zeros. Nenhum grande valor pode desenvolver-se. Porra, os gregos, 3.000 anos atrás, eram tão avançados quanto nós somos. Então o que são essas barreiras que impedem as pessoas de alcançarem qualquer lugar mais perto do seu potencial? A resposta para isso pode ser encontrada numa outra questão, e ela é assim: - Qual é a característica humana mais universal? MEDO ou PREGUIÇA? (LINKLATER, Richard. Waking life.)
PETER KOESTENBAUM
Aristóteles acreditava, corretamente, que coragem é a primeira das virtudes humanas, porque ela torna as demais possíveis. Coragem começa com a decisão de encarar a verdade última sobre a existência: o pequeno e sórdido segredo de que somos livres. Isto requer uma compreensão do livre arbítrio no nível arquetípico – uma compreensão de que somos livres para defi nir quem somos nós a cada momento. Nós não somos o que a sociedade e o acaso fi zeram de nós; somos o que escolhemos ser nas profundezas do nosso íntimo. Nós somos produto do nosso arbítrio.
Um dos problemas mais graves na vida é a autolimitação. Criamos mecanismos de defesa para nos protegermos da ansiedade que vem com a liberdade. Recusamo-nos a desenvolver todo nosso potencial. Vivemos apenas marginalmente. Esta é a definição freudiana de psiconeurose: nós limitamos nossa vida para podermos limitar a quantidade de ansiedade que sentimos. Terminamos adormecendo muitas das funções da vida. Nós fechamos os centros empreendedores e o pensamento criativo; como efeito, paramos o progresso e o crescimento. Mas nenhuma decisão signifi cativa jamais foi tomada sem ser seguida de uma crise existencial, ou sem o comprometimento com a marcha através da ansiedade, da incerteza e da culpa.
Este é o significado da palavra transformação. Você não pode apenas mudar o pensamento ou a atitude – você tem que mudar seu arbítrio, sua vontade. Você precisa ganhar controle sobre os padrões que governam sua mente: sua visão de mundo, suas crenças sobre o que você merece e sobre o que é possível. Esta é a zona fundamental da mudança, da força e da energia – e o significado da coragem. Algumas pessoas são mais talentosas do que outras. Algumas receberam educação mais aprofundada do que outras. Mas todos nós temos a capacidade de sermos grandes. A grandeza vem com o reconhecimento de que nosso potencial é limitado apenas pela maneira como fazemos escolhas, como usamos nossa liberdade, o quanto somos resolutos, o quanto somos persistentes – resumindo, pela nossa atitude. E todos somos livres para escolhermos nossa atitude.
. . . quase tudo na atividade humana e no comportamento humano não é essencialmente diferente do comportamento animal. As mais avançadas tecnologias e naves espaciais nos trouxeram no máximo ao nível do super-chimpanzé. Atualmente, a diferença entre Platão ou Nietzsche e a média da humanidade é muito maior do que a distância entre o chimpanzé e a média da humanidade. O reino do espírito real, do verdadeiro artista, do santo, do filósofo, é raramente conseguido. Por que tão pouco? Porque a evolução e a história do mundo não são uma história de progresso, mas essa sem-fim e fútil soma de zeros. Nenhum grande valor pode desenvolver-se. Porra, os gregos, 3.000 anos atrás, eram tão avançados quanto nós somos. Então o que são essas barreiras que impedem as pessoas de alcançarem qualquer lugar mais perto do seu potencial? A resposta para isso pode ser encontrada numa outra questão, e ela é assim: - Qual é a característica humana mais universal? MEDO ou PREGUIÇA? (LINKLATER, Richard. Waking life.)
"Tendo em vista que o número de sensações em nosso ambiente é tão maior do que nossa capacidade de processá-las, selecionamos somente aquelas coisas que percebemos como sendo importantes e ignoramos aquelas que não o são. Assim, limitamos nossa faixa de percepção. Para nos ajudar a lidar com todos os fragmentos de dados, valemo-nos de um sistema denominado transformação e categorização. Em outras palavras, transformamos visões, sons e sensações percebidos em conceitos que são armazenados em nossa memória.(...) As categorias nos permitem prosseguir na classificação e armazenamento da informação. (...) Através do processo de transformação e categorização, somos capazes de armazenar quantidades relativamente grandes de dados e informações em nossas mentes, em apenas alguns conceitos e categorias. O esquema de categorização nos permite operar em nosso ambiente, com toda sua complexidade." (SHULTZ, 1993)
Trechos por mim selecionados de MARIANO, Sandra; MAYER, Verônica Feder. Criatividade e atitude empreendedora. Cap. 11, 12 e 13.
Com o objetivo de verificar como o nível de criatividade muda com a idade, foi realizado um estudo nos EUA com um grupo de 1.600 crianças. Neste estudo foram aplicados os mesmos testes usados pela NASA para seleção de cientistas e engenheiros inovadores. O interessante desta pesquisa é que ela testou os mesmos indivíduos em três diferentes momentos da vida entre 3 e 5 anos; aos 10 anos e aos 15 anos. Veja a seguir os resultados:
5 anos de idade: Alto índice de criatividade em 98% dos pesquisados
10 anos de idade: Alto índice de criatividade em 30% dos pesquisados
15 anos de idade: Alto índice de criatividade em 12% dos pesquisados
Um teste similar foi aplicado a mais de 200.000 adultos e somente 2% se mostraram altamente criativos. Os pesquisadores George Land e Beth Jarman concluíram que o declínio da criatividade não é devido à idade, mas aos bloqueios mentais criados ao longo de nossa vida. Ou seja, aprendemos a ser não-criativos tanto na família quanto na escola.
Segundo a professora titular da Universidade Católica de Brasília Eunice Soriano de Alencar, a criatividade tem sido severamente inibida por obstáculos de natureza emocional e social e por um sistema de ensino que tende a subestimar as capacidades criativas do aluno desde os primeiros anos de escola e a reduzi-la abaixo do nível de suas reais possibilidades.
De modo geral, o sistema educacional possibilita o desenvolvimento de uma parcela muito limitada do potencial de cada indivíduo. Além disso, o sistema de avaliação tende a salientar os erros cometidos, e não o que cada um tem de melhor, fazendo com que muitos internalizem uma visão limitada de seus próprios recursos, aptidões e habilidades.
A personalidade criativa
Se a criatividade é uma capacidade inerente a todo ser humano, o que diferencia os chamados criativos dos demais?
As pesquisas indicam que a diferença está principalmente na atitude. Portanto, se desejarmos usar nosso potencial para criar, é necessário que cultivemos uma atitude criativa. A personalidade criativa é aquela que aplica sua inteligência para intervir no mundo.
Atitudes criativas
Existem determinadas atitudes que são denominadas atitudes criativas. Conheça essas atitudes criativas a seguir:
• Capacidade de assumir riscos
• Flexibilidade e mente aberta a novas idéias
• Comprometimento e Persistência
• Autoconfiança
• Motivação intrínseca [não-extrínseca]
• Curiosidade e estranhamento do "normal"
• Mãos na massa
BLOQUEIOS CRIATIVOS
A resposta certa
Segundo Von Oech, quase todo o nosso sistema educacional objetiva ensinar às pessoas uma única resposta certa. O problema é que a vida geralmente não é assim. A vida é ambígua e nela existem muitas respostas para os problemas que enfrentamos. As respostas que encontramos dependem do que estamos procurando e de como abordamos o problema. Geralmente, é da segunda, da terceira ou da décima resposta correta que precisamos para resolver um problema de maneira inovadora. Uma maneira de ser mais criativo é procurar outras respostas certas. Existem várias maneiras de procurar respostas, mas o mais importante é procurar. Em geral, a idéia criativa está logo adiante. As respostas que encontramos dependem das perguntas que fazemos. Brinque com a formulação das perguntas para obter respostas diferentes.
Siga as normas
"Todo ato de criação é, antes de tudo, um ato de destruição." (PABLO PICASSO)
Estabelecemos normas com base em razões que fazem sentido e seguimos estas normas. Mas o tempo passa e as coisas mudam. As razões que originalmente levaram à geração dessas normas podem não existir mais.
O pensamento criativo não é só construtivo. Pode ser destrutivo também. Freqüentemente, é preciso quebrar um padrão para descobrir outro. Portanto, seja receptivo à mudança e flexível diante das normas. Lembre-se: violar as normas não leva necessariamente a idéias criativas, mas é um caminho.
Evite também apaixonar-se pelas idéias. Existem pessoas que se apaixonam por uma abordagem ou um sistema e se tornam incapazes de ver vantagens em outras alternativas. Uma das grandes sensações da vida é perder a paixão por uma idéia querida. Quando isso acontece, você está livre para procurar novas idéias.
Não seja bobo
Novas idéias não nascem em ambiente conformista. Sempre que há reunião de pessoas existe o perigo do "pensamento grupal". Esse fenômeno consiste em que os membros do grupo se interessam mais em manter a aprovação dos outros do que em tentar propor soluções criativas para os problemas em pauta. A pressão do grupo pode inibir a originalidade e, conseqüentemente, idéias novas. Quando todo mundo pensa de forma semelhante, ninguém está se dando o trabalho de pensar muito.
Qualquer pessoa que decida e pense criativamente tem que enfrentar os problemas do conformismo e do pensamento grupal. Mas como? Uma idéia é lançar mão da estratégia que os reis da Idade Média utilizavam para se proteger de conselheiros bajuladores: o bobo da corte. Sua função era parodiar as propostas em discussão, protegendo o rei do pensamento grupal e gerando novas idéias.
Niels Bohr, físico dinamarquês, ganhador do prêmio Nobel, disse certa vez: "Existem coisas tão sérias que você é obrigado a rir delas". A observação é pertinente. Tem gente que se liga de tal maneira às suas idéias que chega a colocá-las num pedestal. É difícil ser objetivo quando se investiu o próprio ego em uma idéia.
Observe para ver se você ou os outros estão sendo conformistas ou se estão reprimindo o "bobo". Pode ser que estejam armando uma situação de "pensamento grupal".
Você deseja desenvolver seu potencial criativo? Veja as recomendações de empreendedores de sucesso.
• Sair da zona de conforto
• Trabalhar com o que se tem
• Ter atenção aos detalhes
• Cultivar a flexibilidade
• Aprender a confiar
• Aprender com os erros cometidos
• Reinventar-se continuamente
• Despertar os sentidos
• Criar uma comunidade
• Manter a fé no potencial criativo
Etapas do processo criativo
1. Preparação – A primeira etapa é a preparação, quando mergulhamos no problema, buscamos informações e exploramos as soluções possíveis.
2. Incubação – Vem após a preparação; é etapa na qual a mente “descansa” e digere as informações recebidas.
3. Iluminação – Momento em que as peças do quebra-cabeças parecem finalmente se reunir e a idéia surge clara em nossa mente.
4. Avaliação – Etapa em que julgamos se a idéia realmente soluciona o problema. Muitas vezes, é necessário fazer ajustes ou começar novamente, adotando novas perspectivas ou reunindo novas informações.
Com o objetivo de verificar como o nível de criatividade muda com a idade, foi realizado um estudo nos EUA com um grupo de 1.600 crianças. Neste estudo foram aplicados os mesmos testes usados pela NASA para seleção de cientistas e engenheiros inovadores. O interessante desta pesquisa é que ela testou os mesmos indivíduos em três diferentes momentos da vida entre 3 e 5 anos; aos 10 anos e aos 15 anos. Veja a seguir os resultados:
5 anos de idade: Alto índice de criatividade em 98% dos pesquisados
10 anos de idade: Alto índice de criatividade em 30% dos pesquisados
15 anos de idade: Alto índice de criatividade em 12% dos pesquisados
Um teste similar foi aplicado a mais de 200.000 adultos e somente 2% se mostraram altamente criativos. Os pesquisadores George Land e Beth Jarman concluíram que o declínio da criatividade não é devido à idade, mas aos bloqueios mentais criados ao longo de nossa vida. Ou seja, aprendemos a ser não-criativos tanto na família quanto na escola.
Segundo a professora titular da Universidade Católica de Brasília Eunice Soriano de Alencar, a criatividade tem sido severamente inibida por obstáculos de natureza emocional e social e por um sistema de ensino que tende a subestimar as capacidades criativas do aluno desde os primeiros anos de escola e a reduzi-la abaixo do nível de suas reais possibilidades.
De modo geral, o sistema educacional possibilita o desenvolvimento de uma parcela muito limitada do potencial de cada indivíduo. Além disso, o sistema de avaliação tende a salientar os erros cometidos, e não o que cada um tem de melhor, fazendo com que muitos internalizem uma visão limitada de seus próprios recursos, aptidões e habilidades.
A personalidade criativa
Se a criatividade é uma capacidade inerente a todo ser humano, o que diferencia os chamados criativos dos demais?
As pesquisas indicam que a diferença está principalmente na atitude. Portanto, se desejarmos usar nosso potencial para criar, é necessário que cultivemos uma atitude criativa. A personalidade criativa é aquela que aplica sua inteligência para intervir no mundo.
Atitudes criativas
Existem determinadas atitudes que são denominadas atitudes criativas. Conheça essas atitudes criativas a seguir:
• Capacidade de assumir riscos
• Flexibilidade e mente aberta a novas idéias
• Comprometimento e Persistência
• Autoconfiança
• Motivação intrínseca [não-extrínseca]
• Curiosidade e estranhamento do "normal"
• Mãos na massa
BLOQUEIOS CRIATIVOS
A resposta certa
"Quando as crianças vão para a escola, são pontos de interrogação; quando saem, são frases feitas." (NEIL POSTMAN)
Segundo Von Oech, quase todo o nosso sistema educacional objetiva ensinar às pessoas uma única resposta certa. O problema é que a vida geralmente não é assim. A vida é ambígua e nela existem muitas respostas para os problemas que enfrentamos. As respostas que encontramos dependem do que estamos procurando e de como abordamos o problema. Geralmente, é da segunda, da terceira ou da décima resposta correta que precisamos para resolver um problema de maneira inovadora. Uma maneira de ser mais criativo é procurar outras respostas certas. Existem várias maneiras de procurar respostas, mas o mais importante é procurar. Em geral, a idéia criativa está logo adiante. As respostas que encontramos dependem das perguntas que fazemos. Brinque com a formulação das perguntas para obter respostas diferentes.
Siga as normas
"Todo ato de criação é, antes de tudo, um ato de destruição." (PABLO PICASSO)
Estabelecemos normas com base em razões que fazem sentido e seguimos estas normas. Mas o tempo passa e as coisas mudam. As razões que originalmente levaram à geração dessas normas podem não existir mais.
O pensamento criativo não é só construtivo. Pode ser destrutivo também. Freqüentemente, é preciso quebrar um padrão para descobrir outro. Portanto, seja receptivo à mudança e flexível diante das normas. Lembre-se: violar as normas não leva necessariamente a idéias criativas, mas é um caminho.
Evite também apaixonar-se pelas idéias. Existem pessoas que se apaixonam por uma abordagem ou um sistema e se tornam incapazes de ver vantagens em outras alternativas. Uma das grandes sensações da vida é perder a paixão por uma idéia querida. Quando isso acontece, você está livre para procurar novas idéias.
Não seja bobo
Novas idéias não nascem em ambiente conformista. Sempre que há reunião de pessoas existe o perigo do "pensamento grupal". Esse fenômeno consiste em que os membros do grupo se interessam mais em manter a aprovação dos outros do que em tentar propor soluções criativas para os problemas em pauta. A pressão do grupo pode inibir a originalidade e, conseqüentemente, idéias novas. Quando todo mundo pensa de forma semelhante, ninguém está se dando o trabalho de pensar muito.
Qualquer pessoa que decida e pense criativamente tem que enfrentar os problemas do conformismo e do pensamento grupal. Mas como? Uma idéia é lançar mão da estratégia que os reis da Idade Média utilizavam para se proteger de conselheiros bajuladores: o bobo da corte. Sua função era parodiar as propostas em discussão, protegendo o rei do pensamento grupal e gerando novas idéias.
Niels Bohr, físico dinamarquês, ganhador do prêmio Nobel, disse certa vez: "Existem coisas tão sérias que você é obrigado a rir delas". A observação é pertinente. Tem gente que se liga de tal maneira às suas idéias que chega a colocá-las num pedestal. É difícil ser objetivo quando se investiu o próprio ego em uma idéia.
Observe para ver se você ou os outros estão sendo conformistas ou se estão reprimindo o "bobo". Pode ser que estejam armando uma situação de "pensamento grupal".
Você deseja desenvolver seu potencial criativo? Veja as recomendações de empreendedores de sucesso.
• Sair da zona de conforto
• Trabalhar com o que se tem
• Ter atenção aos detalhes
• Cultivar a flexibilidade
• Aprender a confiar
• Aprender com os erros cometidos
• Reinventar-se continuamente
• Despertar os sentidos
• Criar uma comunidade
• Manter a fé no potencial criativo
Etapas do processo criativo
1. Preparação – A primeira etapa é a preparação, quando mergulhamos no problema, buscamos informações e exploramos as soluções possíveis.
2. Incubação – Vem após a preparação; é etapa na qual a mente “descansa” e digere as informações recebidas.
3. Iluminação – Momento em que as peças do quebra-cabeças parecem finalmente se reunir e a idéia surge clara em nossa mente.
4. Avaliação – Etapa em que julgamos se a idéia realmente soluciona o problema. Muitas vezes, é necessário fazer ajustes ou começar novamente, adotando novas perspectivas ou reunindo novas informações.
Bares que 'alugam' gatos viram mania no Japão
Por cerca de R$ 23, clientes podem acariciar e brincar com animais por uma hora
Globo.com/BBC
A mais nova mania entre os japoneses é a de freqüentar os chamados "cat cafés", locais onde os clientes podem aproveitar da companhia de gatos. Por cerca de US$ 10 (pouco mais de R$ 23), o cliente pode passar uma hora em um desses estabelecimentos.
Em um deles, o Ja La La Café, no agitado bairro de Akihabara, em Tóquio, cerca de 12 gatos fazem as honras da casa. Os clientes podem acariciá-los ou apenas tirar fotos de seus bichanos preferidos.
A maioria é de homens solteiros. Um deles, Yutsuke, se confessa bastante tímido com outras pessoas. Ele conta que gostaria de ter seu próprio gato, mas como mora sozinho e está sempre viajando a negócios, prefere freqüentar os "cat cafés".
terça-feira, 23 de junho de 2009
No (por enquanto - quase - fictício) capítulo 1, o sujeito do calendário da Pirelli, um piloto de aeronaves, estaria taxeando em uma pista de aeroporto, surgindo na parte superior do enquadramento e fazendo uma parada na bifurcação da parte inferior do quadro. Depois de pensar um pouco, o comandante (de si mesmo, da própria vida) escolhe virar à direita dele (esquerda nossa), e vai sumindo do enquadramento. Quando o espectador imagina que ele terá ido embora, ele volta surgir, de cima, "descendo" até virar à esquerda dele (direita nossa), passando a traçar uma rota que desenha um 8, desenho este que pode deitar-se num travesseiro branco e macio e assim ficar até a eternidade. Uma nebilna começa a tomar conta da pista, mais e mais, até que só vemos uma fumaça branca na tela. Quando o nevoeiro se dissipa, o Senhor Calendário, que se recusou a fazer um vôo em troca de bilhetes aéreos, já sem o aço do avião e o asfalto da pista, abraça e agarra(-se) (a)a Terra, (a)a Mãe, (a)o Biológico, (a)o Animal, (a)o Transcendente, (a)o Mitológico, porque faz parte disso tudo, é dali que ele vem e é ali que ele voa, deixando marcas de trajetos nesse desktop marrom.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
QUINN, Daniel. Ismael: um romance da condição humana.
(...)
PROFESSOR procura aluno. Deve ter um desejo sincero de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente.
(...)
[O narrador vai lá e o professor é um gorila chamado Ismael.]
– E tem tido muitos alunos?
– Tive quatro, e fracassei com os quatro.
– Por que fracassou?
Ele fechou os olhos e pensou um pouco.
– Fracassei porque subestimei a dificuldade do que tentava ensinar e porque não entendia a mente dos alunos o suficiente.
– Entendo – disse eu. – E o que você ensina?
Ismael selecionou um ramo novo da pilha à sua direita, examinou-o brevemente e começou a mordiscá-lo, olhando-me com languidar. Enfim respondeu:
– Baseando-se em minha história, que assunto diria que estou mais preparado para ensinar?
Olhei-o sem entender e respondi que não sabia.
– Claro que sabe. Meu assunto é cativeiro.
– Cativeiro?
– Correto.
Fiquei quieto por um minuto, depois disse:
– Estou tentando imaginar o que isso tem a ver com salvar o mundo.
Ismael pensou um pouco.
– Dentre as pessoas de sua cultura, quais desejam destruir o mundo?
– Quais desejam destruir o mundo? Até onde eu saiba, ninguém especificamente deseja destruir o mundo.
– E no entanto o destroem, todos vocês. Cada um contribui diariamente para a destruição do mundo.
– Sim, é verdade.
– Por que não param?
Encolhi os ombros.
– Francamente, não sabemos como.
(...)
(...)
PROFESSOR procura aluno. Deve ter um desejo sincero de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente.
(...)
[O narrador vai lá e o professor é um gorila chamado Ismael.]
– E tem tido muitos alunos?
– Tive quatro, e fracassei com os quatro.
– Por que fracassou?
Ele fechou os olhos e pensou um pouco.
– Fracassei porque subestimei a dificuldade do que tentava ensinar e porque não entendia a mente dos alunos o suficiente.
– Entendo – disse eu. – E o que você ensina?
Ismael selecionou um ramo novo da pilha à sua direita, examinou-o brevemente e começou a mordiscá-lo, olhando-me com languidar. Enfim respondeu:
– Baseando-se em minha história, que assunto diria que estou mais preparado para ensinar?
Olhei-o sem entender e respondi que não sabia.
– Claro que sabe. Meu assunto é cativeiro.
– Cativeiro?
– Correto.
Fiquei quieto por um minuto, depois disse:
– Estou tentando imaginar o que isso tem a ver com salvar o mundo.
Ismael pensou um pouco.
– Dentre as pessoas de sua cultura, quais desejam destruir o mundo?
– Quais desejam destruir o mundo? Até onde eu saiba, ninguém especificamente deseja destruir o mundo.
– E no entanto o destroem, todos vocês. Cada um contribui diariamente para a destruição do mundo.
– Sim, é verdade.
– Por que não param?
Encolhi os ombros.
– Francamente, não sabemos como.
(...)
"A ideia geral é sempre uma abstração e por isso mesmo, de alguma forma, uma negação da vida real. A individualidade real e viva só é perceptível para uma outra individualidade viva, não para uma individualidade pensante, não para o homem que por uma série de abstrações põe-se fora e acima do contato imediato da vida; ela pode existir para eles somente como um exemplar mais ou menos perfeito da espécie, isto é, uma abstração determinada. Se é um coelho, por exemplo, quanto mais bonito for o espécimen, mais o cientista o dissecará com felicidade, na esperança de poder fazer sair desta própria destruição a natureza geral, a lei da espécie." (BAKUNIN, Mikhail. Deus e o Estado.)
Trechos por mim selecionados de BAUDRILLARD, Jean. Os bichos: território e metamorfoses.
Descobre-se que o detento tem necessidade de liberdade, de sexualidade, de "normalidade" para suportar a prisão, da mesma forma que os animais industriais têm necessidade de uma certa "qualidade de vida" para morrer nas normas. E nada disso é contraditório. O trabalhador também tem necessidade de responsabilidade, de autogestão para melhor responder ao imperativo produtivo. Todo homem tem necessidade de um psiquismo para ser adaptado. Não há outra razão para o advento do psiquismo, consciente ou inconsciente. E sua idade de ouro, que ainda perdura, coincide com a impossibilidade de uma socialização racional em todos os domínios. Jamais haveria ciências humanas nem psicanálise se não tivesse sido miraculosamente possível reduzir o homem a comportamentos "racionais".
Em outros tempos os bichos possuíam um caráter mais sagrado, mais divino que o dos homens.
Aqueles que sacrificavam os animais antigamente não os tomavam por bichos. E mesmo a Idade Média que os condenava e os castigava dentro das formalidades era muito mais próxima deles do que nós, a quem essa prática causa horror. Eles os tinham como culpáveis: o que era lhes fazer honra. Nós os temos como nada, é sobre essa base que somos "humanos" com eles. Não os sacrificamos mais, não os punimos mais, e ficamos orgulhosos, mas é simplesmente porque nós temo-los domesticados, pior: porque fizemos um mundo racialmente inferior, até mais digno de nossa justiça, onde é totalmente razoável nossa afeição e a caridade social, até mais digno de castigo e da morte, mas onde é totalmente razoável a experimentação e o extermínio como carne de açougue.
É a assimilação de toda violência relacionada a eles que produz hoje em dia a monstruosidade dos bichos. À violência do sacrifício, que é aquela da "intimidade" (Bataille), sucedeu a violência sentimental ou experimental, que é aquela da distância.
A monstruosidade mudou de sentido. Aquela original dos bichos, objeto de terror e de fascinação, mas nunca negativa, sempre ambivalente, objeto de troca e de metáfora, no sacrifício, na mitologia, nos bestiários heráldicos, e até nos nossos sonhos e fantasmas – essa monstruosidade, rica de todas as ameaças e de todas as metamorfoses, que se resolve secretamente na cultura viva dos homens e que é uma forma de aliança, nós a trocamos por uma monstruosidade espetacular: aquela do King Kong arrancado da sua selva e transformado em vedete de music-hall. Num só golpe, o cenário cultural é invertido. Antes, os heróis culturais destruíam o bicho, o dragão, o monstro – e do sangue derramado nasciam as plantas, os homens, a cultura; hoje em dia é o bicho King Kong que vem pilhar as metrópoles industriais, que vem nos libertar de nossa cultura, morta de ser expurgada de toda monstruosidade real e de ter rompido o pacto com ela (que se exprimia no filme pelo dom primitivo da mulher). A sedução profunda do filme vem dessa inversão de sentido: toda a humanidade é passada para o lado da bestialidade cativa, e da sedução respectiva da mulher e do bicho, sedução monstruosa de uma ordem para outra, o humano e o bestial. Kong morto por ter reconciliado-se, pela sedução, com essa possibilidade de metamorfose de um reino no outro, com essa promiscuidade incestuosa, ainda que jamais realizada, senão num modo simbólico e ritual, entre os bichos e os homens.
O essencial é que nada escape ao império do sentido, à partilha do sentido. Certamente, por trás de tudo isso, ninguém nos fala, nem os loucos, nem os mortos, nem as crianças, nem os selvagens, e no fundo nós não sabemos nada deles, mas o essencial é que a cara da Razão foi salva, e que tudo escapa ao silêncio.
Os animais não falam. Num universo de fala crescente, de constrangimento para a confissão e a fala, só eles permanecem mudos, e desse fato eles parecem recuar para longe de nós, para trás do horizonte da verdade. Mas é isso que faz com que tenhamos intimidade com eles. Não é o problema ecológico que é importante. É ainda e sempre aquele do seu silêncio. Em um mundo em vias de não fazer nada além de falar, em um mundo reunido à hegemonia dos signos e dos discursos, seu silêncio pesa cada vez mais sobre nossa organização do sentido.
Descobre-se que o detento tem necessidade de liberdade, de sexualidade, de "normalidade" para suportar a prisão, da mesma forma que os animais industriais têm necessidade de uma certa "qualidade de vida" para morrer nas normas. E nada disso é contraditório. O trabalhador também tem necessidade de responsabilidade, de autogestão para melhor responder ao imperativo produtivo. Todo homem tem necessidade de um psiquismo para ser adaptado. Não há outra razão para o advento do psiquismo, consciente ou inconsciente. E sua idade de ouro, que ainda perdura, coincide com a impossibilidade de uma socialização racional em todos os domínios. Jamais haveria ciências humanas nem psicanálise se não tivesse sido miraculosamente possível reduzir o homem a comportamentos "racionais".
Em outros tempos os bichos possuíam um caráter mais sagrado, mais divino que o dos homens.
Aqueles que sacrificavam os animais antigamente não os tomavam por bichos. E mesmo a Idade Média que os condenava e os castigava dentro das formalidades era muito mais próxima deles do que nós, a quem essa prática causa horror. Eles os tinham como culpáveis: o que era lhes fazer honra. Nós os temos como nada, é sobre essa base que somos "humanos" com eles. Não os sacrificamos mais, não os punimos mais, e ficamos orgulhosos, mas é simplesmente porque nós temo-los domesticados, pior: porque fizemos um mundo racialmente inferior, até mais digno de nossa justiça, onde é totalmente razoável nossa afeição e a caridade social, até mais digno de castigo e da morte, mas onde é totalmente razoável a experimentação e o extermínio como carne de açougue.
É a assimilação de toda violência relacionada a eles que produz hoje em dia a monstruosidade dos bichos. À violência do sacrifício, que é aquela da "intimidade" (Bataille), sucedeu a violência sentimental ou experimental, que é aquela da distância.
A monstruosidade mudou de sentido. Aquela original dos bichos, objeto de terror e de fascinação, mas nunca negativa, sempre ambivalente, objeto de troca e de metáfora, no sacrifício, na mitologia, nos bestiários heráldicos, e até nos nossos sonhos e fantasmas – essa monstruosidade, rica de todas as ameaças e de todas as metamorfoses, que se resolve secretamente na cultura viva dos homens e que é uma forma de aliança, nós a trocamos por uma monstruosidade espetacular: aquela do King Kong arrancado da sua selva e transformado em vedete de music-hall. Num só golpe, o cenário cultural é invertido. Antes, os heróis culturais destruíam o bicho, o dragão, o monstro – e do sangue derramado nasciam as plantas, os homens, a cultura; hoje em dia é o bicho King Kong que vem pilhar as metrópoles industriais, que vem nos libertar de nossa cultura, morta de ser expurgada de toda monstruosidade real e de ter rompido o pacto com ela (que se exprimia no filme pelo dom primitivo da mulher). A sedução profunda do filme vem dessa inversão de sentido: toda a humanidade é passada para o lado da bestialidade cativa, e da sedução respectiva da mulher e do bicho, sedução monstruosa de uma ordem para outra, o humano e o bestial. Kong morto por ter reconciliado-se, pela sedução, com essa possibilidade de metamorfose de um reino no outro, com essa promiscuidade incestuosa, ainda que jamais realizada, senão num modo simbólico e ritual, entre os bichos e os homens.
O essencial é que nada escape ao império do sentido, à partilha do sentido. Certamente, por trás de tudo isso, ninguém nos fala, nem os loucos, nem os mortos, nem as crianças, nem os selvagens, e no fundo nós não sabemos nada deles, mas o essencial é que a cara da Razão foi salva, e que tudo escapa ao silêncio.
Os animais não falam. Num universo de fala crescente, de constrangimento para a confissão e a fala, só eles permanecem mudos, e desse fato eles parecem recuar para longe de nós, para trás do horizonte da verdade. Mas é isso que faz com que tenhamos intimidade com eles. Não é o problema ecológico que é importante. É ainda e sempre aquele do seu silêncio. Em um mundo em vias de não fazer nada além de falar, em um mundo reunido à hegemonia dos signos e dos discursos, seu silêncio pesa cada vez mais sobre nossa organização do sentido.
"O pensamento 'tecnomorfo' deixa as pessoas convictas de que qualquer desenvolvimento traz consigo, necessariamente, novos valores. Mesmo que se adote a concepção goethiana do desenvolvimento como uma diferenciação e subordinação das partes, tal concepção é errada não somente no sentido filogenético como ainda mais em relação aos possíveis desdobramentos culturais (...). Uma ilustração particularmente atraente nos é fornecida pelo que se compreende por 'desenvolvimento regional' (...) que, na gleba em questão, toda e qualquer vegetação natural será sumariamente exterminada, o solo assim exposto será recoberto por concreto (ou, na melhor das hipóteses, por um gramado 'paisagístico'), um pedacinho de praia marítima porventura existente será reforçado por muros de arrimo em cimento armado, córregos serão retificados (quando não canalizados através de grossas manilhas), e tudo isto será então rigorosamente envenenado por meio de pesticidas para depois ser vendido, pelos mais altos preços possíveis, a um consumidor devidamente urbanizado e imbecilizado. E, por sobre isso, o pensamento tecnomorfo nos impõe, de maneira quase taxativamente neurotizante, a idéia de que se confundem a mera possibilidade técnica de se realizar determinado processo e o compromisso obrigatório de efetivamente levá-lo a cabo. Esta imposição já se tornou um verdadeiro mandamento da religião tecnocrática: – Tudo o que de qualquer modo puderes fazer, farás." (LORENZ, Konrad. A demolição do homem.)
Brian Teasley, o Birdstuff dos Man... Or Astro-man, figura que eu entrevistei há alguns anos em Brasília, cedeu seu estúdio para algumas gravações do primeiro disco da Annie Clark aka St. Vincent. E ele está tocando bateria com os Polyphonic Spree.
Pitchfork: Como é o seu processo criativo?
Annie Clark: Está mudando bastante. Eu estou experimentando escrever toda a música primeiro e depois estabelecer algumas diretrizes do que eu quero fazer. Por exemplo, eu crio uma regra para mim mesma: algum instrumento que será usado não terá a função que aquele instrumento normalmente teria numa música. Tipo a bateria fazer a melodia da música. Você se dá pequenos desafios e vê como se sai com eles.
Annie Clark: Está mudando bastante. Eu estou experimentando escrever toda a música primeiro e depois estabelecer algumas diretrizes do que eu quero fazer. Por exemplo, eu crio uma regra para mim mesma: algum instrumento que será usado não terá a função que aquele instrumento normalmente teria numa música. Tipo a bateria fazer a melodia da música. Você se dá pequenos desafios e vê como se sai com eles.
Para ter uma ideia de como a luz artificial (não produzida por flash ou por iluminação forte e próxima) não é suficiente para possibilitar uma boa fotografia (foto+grafia=luz+escrita), comparando-se com a luz do sol, que é a ideal:
Dia ensolarado de verão em local aberto » 100.000 lux
Dia encoberto de verão » 20.000 lux
Dia escuro de inverno » 3.000 lux
Boa iluminação de rua » 20 a 40 lux
Noite de lua cheia » 0,25 lux
Luz de estrelas » 0,01 lux
* LUX: iluminamento de uma superfície de 1 m2 recebendo de uma fonte puntiforme
a 1m de distância, na direção normal, um fluxo luminoso de 1 lúmen, uniformemente
distribuído.
Dia ensolarado de verão em local aberto » 100.000 lux
Dia encoberto de verão » 20.000 lux
Dia escuro de inverno » 3.000 lux
Boa iluminação de rua » 20 a 40 lux
Noite de lua cheia » 0,25 lux
Luz de estrelas » 0,01 lux
* LUX: iluminamento de uma superfície de 1 m2 recebendo de uma fonte puntiforme
a 1m de distância, na direção normal, um fluxo luminoso de 1 lúmen, uniformemente
distribuído.
sábado, 20 de junho de 2009
Dois anos atrás, quando eu achava que Watson era o ajudante do Holmes...
No final do ano passado, foi-me oferecida a função de secretário de audiências, na vara em que eu trabalho. Eu ganharia uma bolada a mais no fim do mês. No fim das contas, desisti, porque as paredes eram brancas e porque na secretaria, onde eu continuo trabalho, há muitas cores dos processos; porque eu teria que ficar sentado o tempo todo, e procurando processos para alcançá-los no balcão de atendimento, eu caminho sabe-se lá quantos quilômetros por dia. Enfim, deduz-se o restante das diferenças. Desisti, mas meu chefe passou uns dois dias com o meu "sim". Minha dúvida era cruel. Seu tivesse navegado no meu próprio blog, diante daquele impasse, o Joseph Campbell me daria um conselho, digitado por mim mesmo, há algum tempo:
"Sua arte é o que eu chamaria de trabalho. Seu emprego é isso, um emprego. Depois, você se sai tão bem no seu emprego que seu patrão resolve promovê-lo. Você terá de dedicar-se um pouco mais ao emprego do que antes, mas suas novas obrigações reduzirão seu tempo livre. Meu conselho: não aceite a promoção. Não aceite nada que possa exigir de você mais do que você necessita para obter uma renda básica, porque seu desenvolvimento não está em seu emprego, mas em seu trabalho artístico. (...) O artista precisa formar uma estrutura, não para prestar serviços à sociedade, mas para descobrir o dinamismo do interior."
"Sua arte é o que eu chamaria de trabalho. Seu emprego é isso, um emprego. Depois, você se sai tão bem no seu emprego que seu patrão resolve promovê-lo. Você terá de dedicar-se um pouco mais ao emprego do que antes, mas suas novas obrigações reduzirão seu tempo livre. Meu conselho: não aceite a promoção. Não aceite nada que possa exigir de você mais do que você necessita para obter uma renda básica, porque seu desenvolvimento não está em seu emprego, mas em seu trabalho artístico. (...) O artista precisa formar uma estrutura, não para prestar serviços à sociedade, mas para descobrir o dinamismo do interior."
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"As formigas são indiscutivelmente o gênero animal de maior sucesso na história terrestre, constituindo 15 à 20% de toda a biomassa animal terrestre. Nas regiões tropicais, onde são especialmente abundantes, elas constituem 25% ou mais." (Ted R. Schultz/The National Academy of Sciences)
Wikipédia: quando uma formiga obreira encontra comida, ela deixa um rastro de feromônio no caminho de volta para a colônia, e esse é seguido por outras formigas que reforçam o rastro quando elas voltam para casa. Trilhas bem sucedidas, sem obstáculos, são seguidas por mais formigas, e cada uma o reforça com mais feromônio (as formigas seguirão a rota mais fortemente marcada). A casa é sempre localizada por pontos de referência deixados na área e pela posição do sol; os olhos compostos das formigas têm células especializadas que detectam luz polarizada, usados para determinar direção. As formigas usam feromônio para outros propósitos também. Uma formiga esmagada emitirá um alarme de feromônio, o qual em alta concentração leva as formigas mais próximas a um furor de ataque; e em baixa concentração, as atrai. Quando duas formigas se encontram, tocam as antenas e as feromonas que estiverem presentes fornecem informação sobre o estado de alimentação de cada uma, o que pode levar à trofalaxia, ou seja, uma delas regurgita a comida para a outra.
WERBER, Bernard. O dia das formigas. 2008. Esta aventura de Bernard Werber no universo das formigas é composta por seis arcanos, na forma de capítulos e um glossário. O autor se debruçou por cerca de quinze anos sobre a vida desses seres e pesquisou com detalhes seu comportamento, sua vida em sociedade. Em O dia das formigas, segundo volume da série O império das formigas, tudo o que há de mais secreto, misterioso, enigmático na sociedade.
Wikipédia: quando uma formiga obreira encontra comida, ela deixa um rastro de feromônio no caminho de volta para a colônia, e esse é seguido por outras formigas que reforçam o rastro quando elas voltam para casa. Trilhas bem sucedidas, sem obstáculos, são seguidas por mais formigas, e cada uma o reforça com mais feromônio (as formigas seguirão a rota mais fortemente marcada). A casa é sempre localizada por pontos de referência deixados na área e pela posição do sol; os olhos compostos das formigas têm células especializadas que detectam luz polarizada, usados para determinar direção. As formigas usam feromônio para outros propósitos também. Uma formiga esmagada emitirá um alarme de feromônio, o qual em alta concentração leva as formigas mais próximas a um furor de ataque; e em baixa concentração, as atrai. Quando duas formigas se encontram, tocam as antenas e as feromonas que estiverem presentes fornecem informação sobre o estado de alimentação de cada uma, o que pode levar à trofalaxia, ou seja, uma delas regurgita a comida para a outra.
WERBER, Bernard. O dia das formigas. 2008. Esta aventura de Bernard Werber no universo das formigas é composta por seis arcanos, na forma de capítulos e um glossário. O autor se debruçou por cerca de quinze anos sobre a vida desses seres e pesquisou com detalhes seu comportamento, sua vida em sociedade. Em O dia das formigas, segundo volume da série O império das formigas, tudo o que há de mais secreto, misterioso, enigmático na sociedade.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
O MEDO DA DESIGUALDADE, trechos desse capítulo de:
PINKER, Steven. Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. 2004.
O maior atrativo moral da doutrina da tábula rasa nasce de um fato matemático simples: zero é igual a zero. Isso permite que a tábula rasa sirva como garantia de igualdade política. Uma página em branco é uma página em branco, portanto se somos todos tábulas rasas, diz o argumento, temos de ser todos iguais. Mas se a tábula de um recém-nascido não for rasa, diferentes bebês poderiam ter diferentes coisas escritas em suas tábulas. Indivíduos, sexos, classes a raças poderiam diferir inatamente em seus talentos, habilidades, interesses e inclinações. E isso, julga-se, poderia conduzir a três males. O primeiro é o preconceito (...). O segundo é o darwinismo social: se diferenças entre os grupos nas condições de vida . . . provêm de suas condições inatas, essas diferenças não podem ser atribuídas à discriminação, e isso facilita culpar as vítimas e tolerar a desigualdade. O terceiro é a eugenia [ex.: nazismo e a raça ariana] (...). Assim, o medo das terríveis consequências que poderiam advir de uma descoberta de diferenças inatas levou muito intelectuais a asseverar que essas diferenças não existem – ou mesmo que não existe a natureza humana, pois, se existisse, diferenças inatas seriam possíveis.
Os copiosos indícios de que compartilhamos uma natureza humana não significam que as diferenças entre indivíduos, raças ou sexos também estão em nossa natureza. A biologia moderna nos diz que as forças que tornam as pessoas parecidas não são as mesmas que tornam as pessoas diferentes. Em se tratando de uma explicação para o que nos faz funcionar, somos todos farinhas do mesmo saco. Descartar a tábula rasa lançou muito mais luz sobre a unidade psicológica da humanidade do que sobre quaisquer diferenças.
Em todas as espécies existe variabilidade genética, mas o Homo sapiens está entre os menos variáveis. Os geneticistas nos consideram uma espécie "pequena", o que soa como uma piada ruim, já que infestamos o planeta como baratas. O que eles têm em mente é que o grau de variação genética encontrado entre os humanos é o que os biólogos esperariam em uma espécie com um número pequeno de membros. Há mais diferenças entre os chimpanzés, por exemplo, do que entre os humanos, apesar de os superarmos espantosamente em número. A razão é que nossos ancestrais passaram por um gargalo populacional em um período razoavelmente recente de nossa história evolutiva (há menos de 100 mil anos) e reduziram-se a um número pequeno de indivíduos com uma variação genética correspondentemente pequena. As espécies sobreviveram, retomaram o crescimento e então tiveram uma explosão populacional com a invenção da agricultura, há cerca de 10 mil anos. Essa explosão originou muitas cópias dos genes que estavam em circulação quando éramos poucos numericamente; não houve tempo suficiente para acumular muitas versões novas dos genes.
Em vários pontos depois do gargalo emergiram diferenças entre raças. Mas as diferenças na pele e nos cabelos que são tão óbvias quando olhamos pessoas de outras raças são, na realidade, uma peça pregada às nossas intuições. As diferenças raciais são, em grande medida, adaptações ao clima.
A maioria das pessoas acredita que a punição para determinado crime deveria ser a mesma independentemente de quem o comete. Mas conhecendo as emoções sexuais típicas de ambos os sexos, deveríamos aplicar a mesma punição a um homem que seduz uma garota de dezesseis anos e a uma mulher que seduz um garoto de dezesseis anos?
Steven Arthur Pinker (Montreal, 18 de setembro 1954) é um psicólogo e linguista canadense da Universidade de Harvard e escritor de livros de divulgação científica. Durante 21 anos foi professor no Departamento do Cérebro e Ciências Cognitivas do Massachusetts Institute of Technology antes de regressar a Harvard em 2003. Pinker completou o bacharelado em Psicologia da Universidade McGill no ano 1976 e doutorado em Psicologia Experimental da Universidade de Harvard em 1979. Pinker escreve sobre a linguagem e as ciências cognitivas em vários níveis, desde artigos especializados até publicações de divulgação científica. Ele é mais bem conhecido pela sua pesquisa da aquisição da fala e pelo seu trabalho sobre as noções de desenvolvimento inato da linguagem avançadas por Noam Chomsky. No entanto, ao contrário de Chomsky, Pinker considera a linguagem como uma adaptação evolutiva.
O livro de Pinker Tábula rasa (The blank slate) esteve entre os finalistas para o Prêmio Pulitzer e The Aventis Prizes for Science Books. Em 2004, Pinker foi nomeado uma das 100 pessoas mais influentes da Revista Time. Este ano, foi o primeiro conferencista do evento Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre.
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quarta-feira, 17 de junho de 2009
SEXO E NATUREZA
(Lúcio Ramos)
(...) É possível que o verdadeiro objetivo a ser buscado não seja provar que o homossexualismo é tão natural quanto a heterossexualidade mas, pelo contrário, demonstrar que o heterossexualismo é que é tão antinatural quanto a homossexualidade.
Afinal, o que vem a ser o sexo natural que religiosos e educadores vêm brandindo há séculos como contraponto a esse inominável pecado, a essa doença vergonhosa que é o homossexualismo? É o sexo voltado para a procriação e que tem os animais como modelo ou, pelo menos, como símbolo no imaginário popular.
Agora bem, a sexualidade animal, pelo menos no que se refere aos mamíferos, é totalmente controlada por um mecanismo bioquímico conhecido como cio. Periodicamente, a fêmea do animal ovula e seu organismo produz hormônios que desencadeiam no macho um estado de excitação sexual. Os dois animais copulam, o esperma do macho fecunda o óvulo da fêmea e, imediatamente, cessa a produção de hormônios sexuais, que só voltará a ser ativada depois do nascimento da prole, no próximo período de cio. Entre um cio e outro, o animal não conhece a excitação sexual, que é interrompida no momento mesmo em que ocorre a fecundação. Trata-se de um mecanismo tão automático quanto um programa de computador e é preciso ter a visão tapada por todo tipo de antolhos religiosos ou moralistas para não perceber que ele não tem a menor analogia com a sexualidade humana.
De fato, o principal objetivo que leva os casais humanos a terem uma relação sexual não é o impulso de ter um bebê. Se a cada relação sexual correspondesse uma gravidez, como ocorre com os animais, esse mundo que já anda superpovoado teria rebentado pelas costuras há séculos. Mais importante do que a reprodução é o carinho, o afeto e mesmo o puro prazer pelo contato físico que se expressa através do sexo.
Para resumir, pode-se dizer que, no caso do ser humano, ainda que continue eventualmente servindo à procriação, o sexo adquiriu uma importância muito maior como instrumento de comunicação emocional entre duas (ou mais, não sejamos preconceituosos) pessoas. Portanto, há muito que a nossa sexualidade deixou para trás suas finalidades biológicas naturais, para se tornar um importante fator sócio-cultural. E não existe nenhum motivo pelo qual a troca de carinho, afeto e prazer deva se restringir a pessoas do sexo oposto.
Assim, o homossexualismo é, realmente, um ato antinatural, mas longe de ser um vício, essa é sua maior virtude. Ele prova da maneira mais contundente que o homem, ao contrário dos animais, não é escravo de sua programação biológica e dispõe de liberdade para decidir seus próprios caminhos.
(Lúcio Ramos)
(...) É possível que o verdadeiro objetivo a ser buscado não seja provar que o homossexualismo é tão natural quanto a heterossexualidade mas, pelo contrário, demonstrar que o heterossexualismo é que é tão antinatural quanto a homossexualidade.
Afinal, o que vem a ser o sexo natural que religiosos e educadores vêm brandindo há séculos como contraponto a esse inominável pecado, a essa doença vergonhosa que é o homossexualismo? É o sexo voltado para a procriação e que tem os animais como modelo ou, pelo menos, como símbolo no imaginário popular.
Agora bem, a sexualidade animal, pelo menos no que se refere aos mamíferos, é totalmente controlada por um mecanismo bioquímico conhecido como cio. Periodicamente, a fêmea do animal ovula e seu organismo produz hormônios que desencadeiam no macho um estado de excitação sexual. Os dois animais copulam, o esperma do macho fecunda o óvulo da fêmea e, imediatamente, cessa a produção de hormônios sexuais, que só voltará a ser ativada depois do nascimento da prole, no próximo período de cio. Entre um cio e outro, o animal não conhece a excitação sexual, que é interrompida no momento mesmo em que ocorre a fecundação. Trata-se de um mecanismo tão automático quanto um programa de computador e é preciso ter a visão tapada por todo tipo de antolhos religiosos ou moralistas para não perceber que ele não tem a menor analogia com a sexualidade humana.
De fato, o principal objetivo que leva os casais humanos a terem uma relação sexual não é o impulso de ter um bebê. Se a cada relação sexual correspondesse uma gravidez, como ocorre com os animais, esse mundo que já anda superpovoado teria rebentado pelas costuras há séculos. Mais importante do que a reprodução é o carinho, o afeto e mesmo o puro prazer pelo contato físico que se expressa através do sexo.
Para resumir, pode-se dizer que, no caso do ser humano, ainda que continue eventualmente servindo à procriação, o sexo adquiriu uma importância muito maior como instrumento de comunicação emocional entre duas (ou mais, não sejamos preconceituosos) pessoas. Portanto, há muito que a nossa sexualidade deixou para trás suas finalidades biológicas naturais, para se tornar um importante fator sócio-cultural. E não existe nenhum motivo pelo qual a troca de carinho, afeto e prazer deva se restringir a pessoas do sexo oposto.
Assim, o homossexualismo é, realmente, um ato antinatural, mas longe de ser um vício, essa é sua maior virtude. Ele prova da maneira mais contundente que o homem, ao contrário dos animais, não é escravo de sua programação biológica e dispõe de liberdade para decidir seus próprios caminhos.
Pitchfork: "Reconstituted Brazilian tropicalia legends Os Mutantes have signed with Anti. On September 8, they'll release 'Haih', their first new album in 35 years."
Anti: "Conceived by Sergio Dias with collaborations with other Brazilian legends Tom Ze (lyrics) and Jorge Ben (who wrote the song 'Minha menina'), 'Haih' is a vibrant and timely return from one of world music's most important bands."

Só que se mantém o mistério sobre a nova formação, principalmente sobre quem é aquela mulher que aparece na foto aqui de cima.
Anti: "Conceived by Sergio Dias with collaborations with other Brazilian legends Tom Ze (lyrics) and Jorge Ben (who wrote the song 'Minha menina'), 'Haih' is a vibrant and timely return from one of world music's most important bands."
Só que se mantém o mistério sobre a nova formação, principalmente sobre quem é aquela mulher que aparece na foto aqui de cima.
terça-feira, 16 de junho de 2009
T E R A T O N I A 3
Um laboratório em fluxo. Teratonia é um show que apresenta no palco a convergência entre três grupos artisticos, TEMPERFAKTOR, ÍO e INPUT_OUTPUT. Video, música e performance que buscam o limite de suas linguagens como estratégia criativa. Com fortes referências no campo do inusitado e do instigante do cinema, teatro e do cotidiano, traduzem e atualizam as experiências do inconsciente do público. Esse encontro irá proporcionar a cada um dos grupos colocar à disposição do espectador um passaporte para um universo de surpresas e revelações.
Já em sua terceira edição [2004 @ Instituto Goethe + 2005 @ Teatro de Câmara Tulio Piva] em Porto Alegre, as duas apresentações que retornam ao Instituo Goethe confirmam o amadurecimento e a convergência das pesquisas destes grupos.
O limite de toda era passa por indecisões e turbulências. É quando acertos, mas também erros, se multiplicam. É quando surgem anomalias, surgem equívocos, surgem monstros.
Há períodos em que existe o justo, o belo, o razoável, o correto. Em outros não.
Um laboratório em fluxo. Teratonia é um show que apresenta no palco a convergência entre três grupos artisticos, TEMPERFAKTOR, ÍO e INPUT_OUTPUT. Video, música e performance que buscam o limite de suas linguagens como estratégia criativa. Com fortes referências no campo do inusitado e do instigante do cinema, teatro e do cotidiano, traduzem e atualizam as experiências do inconsciente do público. Esse encontro irá proporcionar a cada um dos grupos colocar à disposição do espectador um passaporte para um universo de surpresas e revelações.
Já em sua terceira edição [2004 @ Instituto Goethe + 2005 @ Teatro de Câmara Tulio Piva] em Porto Alegre, as duas apresentações que retornam ao Instituo Goethe confirmam o amadurecimento e a convergência das pesquisas destes grupos.
O limite de toda era passa por indecisões e turbulências. É quando acertos, mas também erros, se multiplicam. É quando surgem anomalias, surgem equívocos, surgem monstros.
Há períodos em que existe o justo, o belo, o razoável, o correto. Em outros não.
A seguir, seleções feitas por mim de trechos do livro do geneticista Richard Dawkins que influenciou as teorias de processo criativo do professor de arte Charles Watson. Cada capítulo vai numa postagem individual. A obra é impressionante como conhecimentos biológicos e sociais, além de outras relações que podem ser feitas.

PRÓLOGO
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
"O chimpanzé e os seres humanos compartilham cerca de 99,5% de sua história evolutiva, no entanto a maioria dos pensadores humanos considera o chimpanzé uma excentricidade malformada e irrelevante, enquanto se vêem a si próprios como degraus para o Todo-poderoso. Para um evolucionista isto não pode ocorrer. Não há fundamento objetivo para qual elevar uma espécie acima de outra. Chimpanzés e seres humanos, lagartixas e fungos, todos evoluímos durante aproximadamente três bilhões de anos por um processo conhecido como seleção natural. (...) Embora a teoria da evolução através da seleção natural de Darwin seja central ao estudo do comportamento social (especialmente quando unida à genética de Mendel), ela tem sido amplamente ignorada. Verdadeiras indústrias se desenvolveram nas ciências sociais dedicadas à construção de uma visão pré-darwiniana e pré-mendeliana do mundo social e psicológico. Mesmo na Biologia o esquecimento e o abuso da teoria darwiniana têm sido surpreendentes." (Robert Trivers)
PRÓLOGO
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
"O chimpanzé e os seres humanos compartilham cerca de 99,5% de sua história evolutiva, no entanto a maioria dos pensadores humanos considera o chimpanzé uma excentricidade malformada e irrelevante, enquanto se vêem a si próprios como degraus para o Todo-poderoso. Para um evolucionista isto não pode ocorrer. Não há fundamento objetivo para qual elevar uma espécie acima de outra. Chimpanzés e seres humanos, lagartixas e fungos, todos evoluímos durante aproximadamente três bilhões de anos por um processo conhecido como seleção natural. (...) Embora a teoria da evolução através da seleção natural de Darwin seja central ao estudo do comportamento social (especialmente quando unida à genética de Mendel), ela tem sido amplamente ignorada. Verdadeiras indústrias se desenvolveram nas ciências sociais dedicadas à construção de uma visão pré-darwiniana e pré-mendeliana do mundo social e psicológico. Mesmo na Biologia o esquecimento e o abuso da teoria darwiniana têm sido surpreendentes." (Robert Trivers)
CAPÍTULO 1 - POR QUE SÃO AS PESSOAS?
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
É muito complicado demonstrar os efeitos do comportamento nas perceptivas de sobrevivência a longo prazo. Na prática, quando aplicamos a definição ao comportamento real, devemos nela introduzir uma ressalva com a palavra "aparentemente". Um ato aparentemente altruísta é aquele que parece, superficialmente, tender a aumentar (não importa quão ligeiramente) a probabilidade do altruísta morrer e do favorecido sobreviver. No exame mais detalhado verifica-se frequentemente que atos de aparente altruísmo na realidade são egoísmo disfarçado. Novamente, não quero dizer que os motivos básicos são egoístas, mas que os efeitos reais do ato nas perspectivas de sobrevivência são o inverso daquilo que originalmente pensamos.
Darei alguns exemplos de comportamento aparentemente egoísta e aparentemente altruísta. É difícil suprimir hábitos subjetivos de pensamento quando lidamos com nossa própria espécie, de modo que escolherei, em vez disto, exemplos de outros animais. Em primeiro lugar alguns exemplos variados de comportamento egoísta de animais individuais.
Gaivotas de cabeça preta nidificam em grandes colônias, os ninhos estando separados de apenas poucos palmos. Quando os filhotes eclodem são pequenos, indefesos e fáceis de serem engolidos. É bastante comum uma gaivota esperar que um vizinho vire as costas, talvez enquanto ele está fora pescando, e então lançar-se sobre um de seus filhotes e engoli-lo inteiro. Ela, esta forma, obtém uma boa refeição nutritiva sem ter que se dar ao trabalho de capturar um peixe e sem ter que deixar seu próprio ninho desprotegido.
Mais bem conhecido é o canibalismo macabro das fêmeas do louva-a-deus. O louva-a-deus é um inseto carnívoro grande. Ele normalmente come insetos menores tais como moscas, mas ataca quase qualquer coisa que se mova. No acasalamento, o macho sobe cautelosamente na fêmea, monta-a e copula. Se a fêmea tiver a oportunidade, ela o comerá, começando por abocanhar sua cabeça, quando o macho está se aproximando, imediatamente após ele montar, ou após separarem-se. Pareceria mais sensato para ela esperar até que a cópula se complete antes de começar a comê-lo. Mas a perda da cabeça parece não desalentar o resto do corpo do macho em seu avanço sexual. De fato, como a cabeça do inseto é sede de alguns centros nervosos inibidores, é possível que a fêmea melhore o desempenho sexual do macho ao comer sua cabeça. Se assim for, este é um benefício adicional. O benefício primário é ela obter uma boa refeição.
A palavra "egoísta" talvez pareça muito branda para expressar casos extremos tais como canibalismo, embora estes encaixem-se bem em nossa definição. Talvez possamos ter simpatia mais diretamente para com o comportamento covarde descrito dos pingüins imperiais da Antártica. Eles têm sido vistos em pé à beira d'água, hesitando antes de mergulhar, devido ao perigo de serem comidos por focas. Se apenas um deles mergulhasse, os demais saberiam se havia uma foca ou não. Naturalmente nenhum deles quer ser a cobaia, de modo que eles esperam e algumas vezes até mesmo tentam se empurrar para a água.
O comportamento de aferroar das abelhas operárias é uma defesa muito eficaz contra ladrões de mel. Mas, as abelhas que aferroam são combatentes kamikazes. No ato de picar, órgãos internos vitais são geralmente arrancados do corpo e a abelha morre logo em seguida. Sua missão suicida talvez tenha salvo os estoques vitais de alimento da colônia, mas ela própria não pode usufruir os benefícios. Pela nossa definição este é um ato de comportamento altruísta. Lembre-se que não estamos falando de motivos conscientes. Eles podem ou não estar presentes, tanto aqui como nos exemplos de egoísmo, mas são irrelevantes para nossa definição.
Sacrificar a vida pelos amigos é obviamente altruísta, mas correr um pequeno risco por eles também o é. Muitos pássaros pequenos, quando vêem um predador voando, como um gavião, dão um "grito de alarme" característico, em conseqüência do qual todo o bando se põe em fuga. Há evidência indireta de que o pássaro que dá o grito de alarme se expõe particularmente ao perigo, pois atrai a atenção do predador especialmente para si. Este é apenas um leve risco adicional, mas parece, no entanto, pelo menos à primeira vista, corresponder a um ato altruísta pela nossa definição.
Os atos mais comuns e mais conspícuos de altruísmo animal são realizados pelos pais, especialmente pelas mães, em relação a seus filhos. Eles podem incubá-los, ou em ninhos ou em seus próprios corpos, alimentá-los com enormes sacrifícios para si e correr grandes riscos ao protegê-los de predadores. Para citar apenas um exemplo particular, muitos pássaros que nidificam no chão realizam o chamado "comportamento de distração" quando um predador, como uma raposa, se aproxima. Um dos pais afasta-se do ninho maneando, mantendo uma asa aberta como se ela estivesse quebrada. O predador, percebendo uma presa fácil, é atraído para longe do ninho contendo os filhotes. Finalmente a ave cessa seu fingimento e lança-se ao ar exatamente à tempo de escapar das mandíbulas da raposa. Ela provavelmente terá salvo a vida de seus filhotes, mas com algum risco para si. (...)
Robert Ardrey, no livro 'The social contract', usou a teoria de seleção de grupo para explicar toda a ordem social em geral. Ele claramente vê o homem como uma espécie que desviou-se do caminho da integridade animal. Ardrey, pelo menos, fez suas lições de casa. Sua decisão de discordar da teoria ortodoxa foi consciente e por isso ele merece consideração.
Recentemente tem havido uma reação contra racialismo e patriotismo e uma tendência a adotar toda a espécie humana como objeto de nossa simpatia. Este alargamento humanístico do alvo de nosso altruísmo possui um corolário interessante, o qual novamente parece apoiar a idéia do "bem da espécie" em evolução. Os politicamente liberais, os quais normalmente são os porta-vozes mais convencidos da ética da espécie, agora frequentemente exibem grande escárnio por aqueles que foram um pouco além na ampliação de seu altruísmo, de forma a incluir outras espécies. Se eu disser que estou mais interessado em impedir o massacre de grandes baleias do que em melhorar as condições de habitação das pessoas, provavelmente chocarei alguns de meus amigos.
A sensação de que membros da própria espécie merecem consideração moral especial, em comparação com membros de outras espécies, é antiga e profunda. Matar pessoas sem se estar em guerra é considerado o crime mais sério normalmente cometido. A única coisa proibida mais energicamente por nossa cultura é comer pessoas (mesmo se elas já estiverem mortas). No entanto, apreciamos comer membros de outras espécies. Muitos de nós recuamos diante da execução judiciária até mesmo do mais horrendo criminoso humano, ao mesmo tempo que aprovamos alegremente que se atire sem julgamento em animais daninhos razoavelmente inofensivos. De fato, matamos membros de outras espécies inofensivas como meio de recreação e diversão. Um feto humano, não possuindo mais sentimento humano do que uma ameba, goza de respeito e proteção legal muito maiores do que aqueles dispensados a um chimpanzé adulto. No entanto, o chimpanzé sente, pensa e – segundo evidência experimental recente – talvez seja capaz até de aprender uma forma de linguagem humana. O feto pertence a nossa própria espécie e por causa disto imediatamente lhe são conferidos privilégios e direitos especiais.
Talvez uma razão para a teoria de seleção de grupo ser tão atraente é que ela harmoniza-se inteiramente com os ideais morais e políticos que a maioria de nós compartilha. Podemos frequentemente nos comportar egoisticamente como indivíduos, mas em nossos momentos mais idealistas reverenciamos e admiramos aqueles que colocam em primeiro lugar o bem-estar dos outros. No entanto, ficamos um pouco confusos sobre quão amplamente queremos interpretar a palavra "outros". frequentemente altruísmo dentro de um grupo condiz com egoísmo entre grupos. Esta é uma base do sindicalismo. Em outro nível a nação é uma beneficiada importante de nosso auto-sacrifício altruísta e espera-se que os rapazes morram, como indivíduos, para maior glória de seu país como um todo. Além disso, eles são encorajados a matar outros indivíduos sobre os quais nada se sabe a não ser que pertencem a uma nação diferente. (Curiosamente, apelos em tempo de paz aos indivíduos para que façam algum sacrifício pequeno na taxa pela qual aumentam seu padrão de vida parecem ser menos eficazes do que apelos em tempo de guerra aos indivíduos para que sacrifiquem suas vidas.)
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
É muito complicado demonstrar os efeitos do comportamento nas perceptivas de sobrevivência a longo prazo. Na prática, quando aplicamos a definição ao comportamento real, devemos nela introduzir uma ressalva com a palavra "aparentemente". Um ato aparentemente altruísta é aquele que parece, superficialmente, tender a aumentar (não importa quão ligeiramente) a probabilidade do altruísta morrer e do favorecido sobreviver. No exame mais detalhado verifica-se frequentemente que atos de aparente altruísmo na realidade são egoísmo disfarçado. Novamente, não quero dizer que os motivos básicos são egoístas, mas que os efeitos reais do ato nas perspectivas de sobrevivência são o inverso daquilo que originalmente pensamos.
Darei alguns exemplos de comportamento aparentemente egoísta e aparentemente altruísta. É difícil suprimir hábitos subjetivos de pensamento quando lidamos com nossa própria espécie, de modo que escolherei, em vez disto, exemplos de outros animais. Em primeiro lugar alguns exemplos variados de comportamento egoísta de animais individuais.
Gaivotas de cabeça preta nidificam em grandes colônias, os ninhos estando separados de apenas poucos palmos. Quando os filhotes eclodem são pequenos, indefesos e fáceis de serem engolidos. É bastante comum uma gaivota esperar que um vizinho vire as costas, talvez enquanto ele está fora pescando, e então lançar-se sobre um de seus filhotes e engoli-lo inteiro. Ela, esta forma, obtém uma boa refeição nutritiva sem ter que se dar ao trabalho de capturar um peixe e sem ter que deixar seu próprio ninho desprotegido.
Mais bem conhecido é o canibalismo macabro das fêmeas do louva-a-deus. O louva-a-deus é um inseto carnívoro grande. Ele normalmente come insetos menores tais como moscas, mas ataca quase qualquer coisa que se mova. No acasalamento, o macho sobe cautelosamente na fêmea, monta-a e copula. Se a fêmea tiver a oportunidade, ela o comerá, começando por abocanhar sua cabeça, quando o macho está se aproximando, imediatamente após ele montar, ou após separarem-se. Pareceria mais sensato para ela esperar até que a cópula se complete antes de começar a comê-lo. Mas a perda da cabeça parece não desalentar o resto do corpo do macho em seu avanço sexual. De fato, como a cabeça do inseto é sede de alguns centros nervosos inibidores, é possível que a fêmea melhore o desempenho sexual do macho ao comer sua cabeça. Se assim for, este é um benefício adicional. O benefício primário é ela obter uma boa refeição.
A palavra "egoísta" talvez pareça muito branda para expressar casos extremos tais como canibalismo, embora estes encaixem-se bem em nossa definição. Talvez possamos ter simpatia mais diretamente para com o comportamento covarde descrito dos pingüins imperiais da Antártica. Eles têm sido vistos em pé à beira d'água, hesitando antes de mergulhar, devido ao perigo de serem comidos por focas. Se apenas um deles mergulhasse, os demais saberiam se havia uma foca ou não. Naturalmente nenhum deles quer ser a cobaia, de modo que eles esperam e algumas vezes até mesmo tentam se empurrar para a água.
O comportamento de aferroar das abelhas operárias é uma defesa muito eficaz contra ladrões de mel. Mas, as abelhas que aferroam são combatentes kamikazes. No ato de picar, órgãos internos vitais são geralmente arrancados do corpo e a abelha morre logo em seguida. Sua missão suicida talvez tenha salvo os estoques vitais de alimento da colônia, mas ela própria não pode usufruir os benefícios. Pela nossa definição este é um ato de comportamento altruísta. Lembre-se que não estamos falando de motivos conscientes. Eles podem ou não estar presentes, tanto aqui como nos exemplos de egoísmo, mas são irrelevantes para nossa definição.
Sacrificar a vida pelos amigos é obviamente altruísta, mas correr um pequeno risco por eles também o é. Muitos pássaros pequenos, quando vêem um predador voando, como um gavião, dão um "grito de alarme" característico, em conseqüência do qual todo o bando se põe em fuga. Há evidência indireta de que o pássaro que dá o grito de alarme se expõe particularmente ao perigo, pois atrai a atenção do predador especialmente para si. Este é apenas um leve risco adicional, mas parece, no entanto, pelo menos à primeira vista, corresponder a um ato altruísta pela nossa definição.
Os atos mais comuns e mais conspícuos de altruísmo animal são realizados pelos pais, especialmente pelas mães, em relação a seus filhos. Eles podem incubá-los, ou em ninhos ou em seus próprios corpos, alimentá-los com enormes sacrifícios para si e correr grandes riscos ao protegê-los de predadores. Para citar apenas um exemplo particular, muitos pássaros que nidificam no chão realizam o chamado "comportamento de distração" quando um predador, como uma raposa, se aproxima. Um dos pais afasta-se do ninho maneando, mantendo uma asa aberta como se ela estivesse quebrada. O predador, percebendo uma presa fácil, é atraído para longe do ninho contendo os filhotes. Finalmente a ave cessa seu fingimento e lança-se ao ar exatamente à tempo de escapar das mandíbulas da raposa. Ela provavelmente terá salvo a vida de seus filhotes, mas com algum risco para si. (...)
Robert Ardrey, no livro 'The social contract', usou a teoria de seleção de grupo para explicar toda a ordem social em geral. Ele claramente vê o homem como uma espécie que desviou-se do caminho da integridade animal. Ardrey, pelo menos, fez suas lições de casa. Sua decisão de discordar da teoria ortodoxa foi consciente e por isso ele merece consideração.
Recentemente tem havido uma reação contra racialismo e patriotismo e uma tendência a adotar toda a espécie humana como objeto de nossa simpatia. Este alargamento humanístico do alvo de nosso altruísmo possui um corolário interessante, o qual novamente parece apoiar a idéia do "bem da espécie" em evolução. Os politicamente liberais, os quais normalmente são os porta-vozes mais convencidos da ética da espécie, agora frequentemente exibem grande escárnio por aqueles que foram um pouco além na ampliação de seu altruísmo, de forma a incluir outras espécies. Se eu disser que estou mais interessado em impedir o massacre de grandes baleias do que em melhorar as condições de habitação das pessoas, provavelmente chocarei alguns de meus amigos.
A sensação de que membros da própria espécie merecem consideração moral especial, em comparação com membros de outras espécies, é antiga e profunda. Matar pessoas sem se estar em guerra é considerado o crime mais sério normalmente cometido. A única coisa proibida mais energicamente por nossa cultura é comer pessoas (mesmo se elas já estiverem mortas). No entanto, apreciamos comer membros de outras espécies. Muitos de nós recuamos diante da execução judiciária até mesmo do mais horrendo criminoso humano, ao mesmo tempo que aprovamos alegremente que se atire sem julgamento em animais daninhos razoavelmente inofensivos. De fato, matamos membros de outras espécies inofensivas como meio de recreação e diversão. Um feto humano, não possuindo mais sentimento humano do que uma ameba, goza de respeito e proteção legal muito maiores do que aqueles dispensados a um chimpanzé adulto. No entanto, o chimpanzé sente, pensa e – segundo evidência experimental recente – talvez seja capaz até de aprender uma forma de linguagem humana. O feto pertence a nossa própria espécie e por causa disto imediatamente lhe são conferidos privilégios e direitos especiais.
Talvez uma razão para a teoria de seleção de grupo ser tão atraente é que ela harmoniza-se inteiramente com os ideais morais e políticos que a maioria de nós compartilha. Podemos frequentemente nos comportar egoisticamente como indivíduos, mas em nossos momentos mais idealistas reverenciamos e admiramos aqueles que colocam em primeiro lugar o bem-estar dos outros. No entanto, ficamos um pouco confusos sobre quão amplamente queremos interpretar a palavra "outros". frequentemente altruísmo dentro de um grupo condiz com egoísmo entre grupos. Esta é uma base do sindicalismo. Em outro nível a nação é uma beneficiada importante de nosso auto-sacrifício altruísta e espera-se que os rapazes morram, como indivíduos, para maior glória de seu país como um todo. Além disso, eles são encorajados a matar outros indivíduos sobre os quais nada se sabe a não ser que pertencem a uma nação diferente. (Curiosamente, apelos em tempo de paz aos indivíduos para que façam algum sacrifício pequeno na taxa pela qual aumentam seu padrão de vida parecem ser menos eficazes do que apelos em tempo de guerra aos indivíduos para que sacrifiquem suas vidas.)
CAPÍTULO 3 - ESPIRAIS IMORTAIS
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
Somos máquinas de sobrevivência, mas "somos" não significa apenas pessoas. Inclui todos os animais, plantas, bactérias e vírus. O número total de máquinas de sobrevivência na Terra é muito difícil de contar e mesmo o número total de espécies é desconhecido. Tomando-se apenas os insetos, o número de espécies tem sido estimado em cerca de três milhões e o número de indivíduos talvez seja de um trilhão.
Nos últimos anos – nos últimos seiscentos milhões ou perto disso – os replicadores conseguiram triunfos notáveis na tecnologia das máquinas de sobrevivência, tais como o músculo, o coração e o olho (os quais evoluíram independentemente várias vezes). Antes disso, eles alteraram radicalmente características fundamentais de seu modo de vida como replicadores, o que deve ser compreendido se quisermos continuar com o argumento.
Outro aspecto do caráter de partícula do gene é que ele não fica senil. Ele não tem maior probabilidade de morrer quando tem um milhão de anos de idade do que quando tem apenas cem. Ele pula de corpo para corpo ao longo das gerações, manipulando um após o outro de sua própria maneira, e para seus próprios fins, abandonando uma sucessão de corpos mortais antes que estes mergulhem na senilidade e morte.
Os genes são os imortais, ou melhor, são definidos como entidades genéticas que chegam perto de merecer o título. Nós, as máquinas de sobrevivência individuais no mundo, podemos esperar viver mais algumas décadas. Os genes no mundo, porém, têm uma expectativa de vida que deve ser medida não em décadas mas em milhares e milhões de anos.
Os indivíduos não são estáveis, são passageiros. Os cromossomos também caem no esquecimento pelo baralhamento, como as cartas de um jogador logo depois de serem carteadas. Mas, as cartas em si sobrevivem ao baralhamento. Elas são os genes. Estes não são destruídos pela recombinação, simplesmente trocam de parceiros e continuam em frente. Evidentemente continuam, esta é sua profissão. Eles são os replicadores e nós suas máquinas de sobrevivência. Quando cumprimos nossa missão somos postos de lado. Mas os genes são habitantes do tempo geológico: são para sempre.
É a sua potencial imortalidade que torna o gene um bom candidato a unidade básica da seleção natural. Mas, chegou a hora de enfatizar a palavra "potencial". Um gene pode viver um milhão de anos, mas muitos genes novos não passam nem mesmo de sua primeira geração.
Já nos perguntamos quais os atributos mais gerais de um gene "bom" e resolvemos que o "egoísmo" era um deles. Mas outra qualidade geral que os genes bem sucedidos terão é a tendência a adiar a morte de suas máquinas de sobrevivência pelo menos até depois da reprodução.
. . . se quiséssemos prolongar a duração da vida humana haveria duas maneiras gerais pelas quais poderíamos fazê-la. Em primeiro lugar, poderíamos proibir a reprodução antes de uma certa idade, por exemplo, quarenta anos. Depois de alguns séculos o limite mínimo de idade seria elevado para cinqüenta e assim por diante. É presumível que a longevidade humana pudesse ser estendida desta forma até vários séculos. Não posso imaginar que alguém seriamente gostaria de instituir tal política.
Este capítulo trata de comportamento – o truque do movimento rápido que tem sido, em grande parte, explorado pelo ramo animal das máquinas de sobrevivência. Os animais tornaram-se veículos ativos e vigorosos dos genes: máquinas gênicas. A característica do comportamento, como os biólogos utilizam o termo, é ele ser rápido. As plantas movem-se mas muito vagarosamente. Quando vistas em um filme muito acelerado as trepadeiras parecem animais ativos. A maior parte do movimento das plantas, entretanto, é, na realidade, crescimento irreversível. Os animais, por outro lado, desenvolveram famas de se movimentar centenas de milhares de vezes mais rapidamente. Além disto, os movimentos que realizam são reversíveis e podem ser repetidos um número indefinido de vezes.
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
Somos máquinas de sobrevivência, mas "somos" não significa apenas pessoas. Inclui todos os animais, plantas, bactérias e vírus. O número total de máquinas de sobrevivência na Terra é muito difícil de contar e mesmo o número total de espécies é desconhecido. Tomando-se apenas os insetos, o número de espécies tem sido estimado em cerca de três milhões e o número de indivíduos talvez seja de um trilhão.
Nos últimos anos – nos últimos seiscentos milhões ou perto disso – os replicadores conseguiram triunfos notáveis na tecnologia das máquinas de sobrevivência, tais como o músculo, o coração e o olho (os quais evoluíram independentemente várias vezes). Antes disso, eles alteraram radicalmente características fundamentais de seu modo de vida como replicadores, o que deve ser compreendido se quisermos continuar com o argumento.
Outro aspecto do caráter de partícula do gene é que ele não fica senil. Ele não tem maior probabilidade de morrer quando tem um milhão de anos de idade do que quando tem apenas cem. Ele pula de corpo para corpo ao longo das gerações, manipulando um após o outro de sua própria maneira, e para seus próprios fins, abandonando uma sucessão de corpos mortais antes que estes mergulhem na senilidade e morte.
Os genes são os imortais, ou melhor, são definidos como entidades genéticas que chegam perto de merecer o título. Nós, as máquinas de sobrevivência individuais no mundo, podemos esperar viver mais algumas décadas. Os genes no mundo, porém, têm uma expectativa de vida que deve ser medida não em décadas mas em milhares e milhões de anos.
Os indivíduos não são estáveis, são passageiros. Os cromossomos também caem no esquecimento pelo baralhamento, como as cartas de um jogador logo depois de serem carteadas. Mas, as cartas em si sobrevivem ao baralhamento. Elas são os genes. Estes não são destruídos pela recombinação, simplesmente trocam de parceiros e continuam em frente. Evidentemente continuam, esta é sua profissão. Eles são os replicadores e nós suas máquinas de sobrevivência. Quando cumprimos nossa missão somos postos de lado. Mas os genes são habitantes do tempo geológico: são para sempre.
É a sua potencial imortalidade que torna o gene um bom candidato a unidade básica da seleção natural. Mas, chegou a hora de enfatizar a palavra "potencial". Um gene pode viver um milhão de anos, mas muitos genes novos não passam nem mesmo de sua primeira geração.
Já nos perguntamos quais os atributos mais gerais de um gene "bom" e resolvemos que o "egoísmo" era um deles. Mas outra qualidade geral que os genes bem sucedidos terão é a tendência a adiar a morte de suas máquinas de sobrevivência pelo menos até depois da reprodução.
. . . se quiséssemos prolongar a duração da vida humana haveria duas maneiras gerais pelas quais poderíamos fazê-la. Em primeiro lugar, poderíamos proibir a reprodução antes de uma certa idade, por exemplo, quarenta anos. Depois de alguns séculos o limite mínimo de idade seria elevado para cinqüenta e assim por diante. É presumível que a longevidade humana pudesse ser estendida desta forma até vários séculos. Não posso imaginar que alguém seriamente gostaria de instituir tal política.
Este capítulo trata de comportamento – o truque do movimento rápido que tem sido, em grande parte, explorado pelo ramo animal das máquinas de sobrevivência. Os animais tornaram-se veículos ativos e vigorosos dos genes: máquinas gênicas. A característica do comportamento, como os biólogos utilizam o termo, é ele ser rápido. As plantas movem-se mas muito vagarosamente. Quando vistas em um filme muito acelerado as trepadeiras parecem animais ativos. A maior parte do movimento das plantas, entretanto, é, na realidade, crescimento irreversível. Os animais, por outro lado, desenvolveram famas de se movimentar centenas de milhares de vezes mais rapidamente. Além disto, os movimentos que realizam são reversíveis e podem ser repetidos um número indefinido de vezes.
CAPÍTULO 5 - AGRESSÃO: ESTABILIDADE E A MÁQUINA EGOÍSTA
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
Para uma máquina de sobrevivência, outra máquina de sobrevivência (que não seja de própria prole ou outro parente próximo) é parte de seu ambiente, como uma rocha, um rio ou uma porção de alimento. É alguma coisa que a atrapalha ou que pode ser explorada. Difere de uma rocha ou de um rio em um aspecto importante: ela tem a tendência a reagir. Isto porque ela é também uma máquina que guarda seus genes imortais para o futuro e que igualmente não se deterá diante de nada a fim de preservá-los. A seleção natural favorece os genes que controlam suas máquinas de sobrevivência de tal forma que estas façam o melhor uso de seu ambiente. Isto inclui fazer o melhor uso de outras máquinas de sobrevivência, tanto da mesma espécie como de espécies diferentes.
Em alguns casos as máquinas de sobrevivência parecem se influenciar muito pouco. As toupeiras e os melros, por exemplo, não se alimentam uns dos outros, não se acasalam e nem competem por espaço para viver. Mesmo assim não devemos tratá-los como se estivessem completamente isolados. É possível que compitam por alguma coisa, talvez minhocas. Isto não significa que você algum dia verá uma toupeira e um melro envolvidos num cabo-de-guerra, lutando por uma minhoca. De fato, um melro talvez nunca veja uma toupeira em toda sua vida. Mas, se você eliminasse a população de toupeiras, o efeito sobre os melros poderia ser dramático, embora eu não pudesse arriscar um palpite sobre como seriam os detalhes e nem por quais vias tortuosamente indiretas a influência poderia viajar.
As máquinas de sobrevivência de espécies diferentes influenciam-se mutuamente de várias maneiras. Elas poderão ser predadores ou presas, parasitas ou hospedeiros, ou competir por algum recurso raro. Elas poderão ser exploradas de maneiras especiais, como por exemplo quando as abelhas são usadas pelas flores como carregadoras de pólen.
As máquinas de sobrevivência da mesma espécie tendem a influenciar-se mutuamente de forma mais direta. Isto se deve a vários motivos. Um deles é que metade da população da própria espécie poderá ser constituída por parceiros sexuais em potencial e por pais potencialmente trabalhadores e exploráveis para a própria prole. Outro motivo é que os membros da mesma espécie, sendo muito semelhantes entre si e sendo máquinas para preservar genes do mesmo tipo de lugar, com o mesmo tipo de vida, são competidores particularmente diretos por todos os recursos necessários à sobrevivência. Uma toupeira poderá ser um competidor para um melro, mas não é tão importante quanto outro melro. Toupeiras e melros poderão competir por minhocas, mas os melros competem entre si por minhocas e tudo o mais. Se forem membros do mesmo sexo poderão competir também por parceiros sexuais. Por razões que veremos depois geralmente são os machos que competem uns com os outros pelas fêmeas. Isto significa que um macho poderá beneficiar seus próprios genes se fizer alguma coisa prejudicial a outro macho com o qual está competindo.
A política lógica de uma máquina de sobrevivência, portanto, talvez pareça ser assassinar suas rivais e em seguida, de preferência, comê-los. Embora o assassinato e o canibalismo realmente ocorram na natureza, não são tão comuns quanto uma interpretação ingênua da teoria do gene egoísta poderia prever. Konrad Lorenz, de fato, em seu livro 'On aggression', enfatiza a natureza contida e cavalheiresca da luta entre os animais. Para ele o aspecto notável a respeito das lutas animais é que elas são torneios formais, realizados de acordo com regras como as de boxe ou esgrima. Os animais lutam com luvas nos punhos e lâminas sem corte. A ameaça e o blefe substituem a seriedade fatal. Os gestos de rendição são reconhecidos pelos vencedores os quais, então, abstêm-se de desferir o golpe ou dentada mortal que nossa teoria ingênua talvez previsse.
Superficialmente parece ser uma forma de altruísmo. A teoria do gene egoísta deve enfrentar corajosamente a tarefa difícil de explicá-la. Por que é que os animais não saem todos a matar membros rivais de sua espécie em todas as oportunidades possíveis?
A resposta geral a isso é que há custos assim como benefícios resultantes da belicosidade pura e simples, além dos custos 6bvios em tempo e energia. Suponha, por exemplo, que B e C são ambos meus rivais e eu encontro B acidentalmente. Talvez pareça sensível eu tentar, como indivíduo egoísta, matá-lo. Mas espere um momento. C é tanto meu rival como de B. Matando B eu potencialmente estou favorecendo C pela remoção de um de seus rivais. Talvez fosse melhor deixar B viver, pois ele poderá então competir ou lutar com C e desta maneira indiretamente beneficiar-me. A moral deste exemplo hipotético simples é que não há mérito óbvio em tentar matar indiscriminadamente os rivais. Num sistema grande e complexo de rivalidades a remoção de um rival da cena não traz necessariamente nenhuma vantagem: outros rivais talvez tenham maior probabilidade de se beneficiarem com sua morte do que o próprio animal que o eliminou. Este é o tipo de lição desagradável que tem sido aprendida por agentes de controle de pragas. Tem-se uma praga importante da agricultura, descobrimos uma boa maneira de exterminá-la e alegremente o fazemos, para então descobrir que outra praga se beneficia com a exterminação ainda mais do que a agricultura humana e acabamos pior do que antes.
É possível aos seres humanos associarem-se em pactos ou conspirações que sejam vantajosos para todos, mesmo que não sejam estáveis no sentido da estratégia evolutivamente estável. Mas isto é possível apenas porque cada indivíduo utiliza sua capacidade de previsão consciente e é capaz de ver que é de seu próprio interesse a longo prazo obedecer as regras do pacto. Mesmo nos pactos humanos há o perigo constante de que os indivíduos poderão ganhar tanto a curto prazo quebrando o pacto que a tentação de fazê-la será irresistível. Assim, mesmo no homem, uma espécie com o dom da previsão consciente, os pactos ou conspirações baseados nos melhores interesses a longo prazo balançam constantemente à beira do colapso devido a traição interna. Nos animais selvagens, controlados pelos genes em luta, é ainda mais difícil vislumbrar maneiras pelas quais benefícios de grupo ou estratégias de conspiração poderiam de alguma forma evoluir. Devemos esperar encontrar estratégias evolutivamente estáveis em toda parte.
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
Para uma máquina de sobrevivência, outra máquina de sobrevivência (que não seja de própria prole ou outro parente próximo) é parte de seu ambiente, como uma rocha, um rio ou uma porção de alimento. É alguma coisa que a atrapalha ou que pode ser explorada. Difere de uma rocha ou de um rio em um aspecto importante: ela tem a tendência a reagir. Isto porque ela é também uma máquina que guarda seus genes imortais para o futuro e que igualmente não se deterá diante de nada a fim de preservá-los. A seleção natural favorece os genes que controlam suas máquinas de sobrevivência de tal forma que estas façam o melhor uso de seu ambiente. Isto inclui fazer o melhor uso de outras máquinas de sobrevivência, tanto da mesma espécie como de espécies diferentes.
Em alguns casos as máquinas de sobrevivência parecem se influenciar muito pouco. As toupeiras e os melros, por exemplo, não se alimentam uns dos outros, não se acasalam e nem competem por espaço para viver. Mesmo assim não devemos tratá-los como se estivessem completamente isolados. É possível que compitam por alguma coisa, talvez minhocas. Isto não significa que você algum dia verá uma toupeira e um melro envolvidos num cabo-de-guerra, lutando por uma minhoca. De fato, um melro talvez nunca veja uma toupeira em toda sua vida. Mas, se você eliminasse a população de toupeiras, o efeito sobre os melros poderia ser dramático, embora eu não pudesse arriscar um palpite sobre como seriam os detalhes e nem por quais vias tortuosamente indiretas a influência poderia viajar.
As máquinas de sobrevivência de espécies diferentes influenciam-se mutuamente de várias maneiras. Elas poderão ser predadores ou presas, parasitas ou hospedeiros, ou competir por algum recurso raro. Elas poderão ser exploradas de maneiras especiais, como por exemplo quando as abelhas são usadas pelas flores como carregadoras de pólen.
As máquinas de sobrevivência da mesma espécie tendem a influenciar-se mutuamente de forma mais direta. Isto se deve a vários motivos. Um deles é que metade da população da própria espécie poderá ser constituída por parceiros sexuais em potencial e por pais potencialmente trabalhadores e exploráveis para a própria prole. Outro motivo é que os membros da mesma espécie, sendo muito semelhantes entre si e sendo máquinas para preservar genes do mesmo tipo de lugar, com o mesmo tipo de vida, são competidores particularmente diretos por todos os recursos necessários à sobrevivência. Uma toupeira poderá ser um competidor para um melro, mas não é tão importante quanto outro melro. Toupeiras e melros poderão competir por minhocas, mas os melros competem entre si por minhocas e tudo o mais. Se forem membros do mesmo sexo poderão competir também por parceiros sexuais. Por razões que veremos depois geralmente são os machos que competem uns com os outros pelas fêmeas. Isto significa que um macho poderá beneficiar seus próprios genes se fizer alguma coisa prejudicial a outro macho com o qual está competindo.
A política lógica de uma máquina de sobrevivência, portanto, talvez pareça ser assassinar suas rivais e em seguida, de preferência, comê-los. Embora o assassinato e o canibalismo realmente ocorram na natureza, não são tão comuns quanto uma interpretação ingênua da teoria do gene egoísta poderia prever. Konrad Lorenz, de fato, em seu livro 'On aggression', enfatiza a natureza contida e cavalheiresca da luta entre os animais. Para ele o aspecto notável a respeito das lutas animais é que elas são torneios formais, realizados de acordo com regras como as de boxe ou esgrima. Os animais lutam com luvas nos punhos e lâminas sem corte. A ameaça e o blefe substituem a seriedade fatal. Os gestos de rendição são reconhecidos pelos vencedores os quais, então, abstêm-se de desferir o golpe ou dentada mortal que nossa teoria ingênua talvez previsse.
Superficialmente parece ser uma forma de altruísmo. A teoria do gene egoísta deve enfrentar corajosamente a tarefa difícil de explicá-la. Por que é que os animais não saem todos a matar membros rivais de sua espécie em todas as oportunidades possíveis?
A resposta geral a isso é que há custos assim como benefícios resultantes da belicosidade pura e simples, além dos custos 6bvios em tempo e energia. Suponha, por exemplo, que B e C são ambos meus rivais e eu encontro B acidentalmente. Talvez pareça sensível eu tentar, como indivíduo egoísta, matá-lo. Mas espere um momento. C é tanto meu rival como de B. Matando B eu potencialmente estou favorecendo C pela remoção de um de seus rivais. Talvez fosse melhor deixar B viver, pois ele poderá então competir ou lutar com C e desta maneira indiretamente beneficiar-me. A moral deste exemplo hipotético simples é que não há mérito óbvio em tentar matar indiscriminadamente os rivais. Num sistema grande e complexo de rivalidades a remoção de um rival da cena não traz necessariamente nenhuma vantagem: outros rivais talvez tenham maior probabilidade de se beneficiarem com sua morte do que o próprio animal que o eliminou. Este é o tipo de lição desagradável que tem sido aprendida por agentes de controle de pragas. Tem-se uma praga importante da agricultura, descobrimos uma boa maneira de exterminá-la e alegremente o fazemos, para então descobrir que outra praga se beneficia com a exterminação ainda mais do que a agricultura humana e acabamos pior do que antes.
É possível aos seres humanos associarem-se em pactos ou conspirações que sejam vantajosos para todos, mesmo que não sejam estáveis no sentido da estratégia evolutivamente estável. Mas isto é possível apenas porque cada indivíduo utiliza sua capacidade de previsão consciente e é capaz de ver que é de seu próprio interesse a longo prazo obedecer as regras do pacto. Mesmo nos pactos humanos há o perigo constante de que os indivíduos poderão ganhar tanto a curto prazo quebrando o pacto que a tentação de fazê-la será irresistível. Assim, mesmo no homem, uma espécie com o dom da previsão consciente, os pactos ou conspirações baseados nos melhores interesses a longo prazo balançam constantemente à beira do colapso devido a traição interna. Nos animais selvagens, controlados pelos genes em luta, é ainda mais difícil vislumbrar maneiras pelas quais benefícios de grupo ou estratégias de conspiração poderiam de alguma forma evoluir. Devemos esperar encontrar estratégias evolutivamente estáveis em toda parte.
CAPÍTULO 6 - MANIPULANDO OS GENES
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
Se um indivíduo pudesse ter certeza de que determinada pessoa é seu gêmeo idêntico, deveria preocupar-se tanto pelo bem-estar dente último quarto pelo seu próprio. Qualquer gene para altruísmo entre gêmeos necessariamente estará presente em ambos, de modo que se um deles morre heroicamente para salvar o outro, o gene sobrevive.
Mas o que quero mostrar aqui é que não há nada especial, do ponto de vista genético, a respeito do relacionamento pais/filhos, em comparação ao relacionamento irmão/irmã. O fato dos pais efetivamente transmitirem genes aos filhos mas as irmãs não transmitirem-nos umas às outras é irrelevante, uma vez que ambas as irmãs recebem réplicas idênticas don mesmos genes, dos mesmos pais.
Algumas pessoas usam o termo Seleção de Parentesco para diferenciar esse tipo de seleção natural da seleção de grupo (sobrevivência diferencial de grupos) a da seleção individual (sobrevivência diferencial de indivíduos). A seleção de parentesco é responsável pelo altruísmo dentro da família; quanto mais próximo o parentesco, mais forte a seleção.
Se tivéssemos que programar um computador para que simulasse um modelo de uma máquina de sobrevivência que tomasse decisões sobre quando se comportar altruisticamente, provavelmente teríamos que proceder da seguinte maneira. Deveríamos fazer uma lista de todas as coisas possíveis que o animal pode fazer. Então, para cada um desses padrões alternativos de comportamento, programamos um cálculo de soma ponderada. Todos os vários benefícios terão um sinal positivo; todos os riscos terão um sinal negativo; tanto os benefícios como os riscos serão ponderados através de sua multiplicação pelo índice de parentesco apropriado, antes de se efetuar a soma.
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
Se um indivíduo pudesse ter certeza de que determinada pessoa é seu gêmeo idêntico, deveria preocupar-se tanto pelo bem-estar dente último quarto pelo seu próprio. Qualquer gene para altruísmo entre gêmeos necessariamente estará presente em ambos, de modo que se um deles morre heroicamente para salvar o outro, o gene sobrevive.
Mas o que quero mostrar aqui é que não há nada especial, do ponto de vista genético, a respeito do relacionamento pais/filhos, em comparação ao relacionamento irmão/irmã. O fato dos pais efetivamente transmitirem genes aos filhos mas as irmãs não transmitirem-nos umas às outras é irrelevante, uma vez que ambas as irmãs recebem réplicas idênticas don mesmos genes, dos mesmos pais.
Algumas pessoas usam o termo Seleção de Parentesco para diferenciar esse tipo de seleção natural da seleção de grupo (sobrevivência diferencial de grupos) a da seleção individual (sobrevivência diferencial de indivíduos). A seleção de parentesco é responsável pelo altruísmo dentro da família; quanto mais próximo o parentesco, mais forte a seleção.
Se tivéssemos que programar um computador para que simulasse um modelo de uma máquina de sobrevivência que tomasse decisões sobre quando se comportar altruisticamente, provavelmente teríamos que proceder da seguinte maneira. Deveríamos fazer uma lista de todas as coisas possíveis que o animal pode fazer. Então, para cada um desses padrões alternativos de comportamento, programamos um cálculo de soma ponderada. Todos os vários benefícios terão um sinal positivo; todos os riscos terão um sinal negativo; tanto os benefícios como os riscos serão ponderados através de sua multiplicação pelo índice de parentesco apropriado, antes de se efetuar a soma.
CAPÍTULO 9 - A BATALHA DOS SEXOS
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
Há . . . uma característica fundamental dos sexos que pode ser utilizada para rotular os machos de machos e as fêmeas de fêmeas em todos os animais e plantas. Esta característica é que as células sexuais ou "gametas" dos machos são muito menores e mais numerosos do que os gametas das fêmeas. Isso ocorre quer estejamos lidando com animais, quer com plantas. Um grupo de indivíduos possui células sexuais grandes; é conveniente usar a palavra fêmea para eles. O outro grupo, que é conveniente chamar de macho, possui células sexuais pequenas. A diferença é especialmente acentuada nos répteis e aves, nos quais uma única célula ovo é grande e nutritiva o suficiente para alimentar o filhote em desenvolvimento durante várias semanas. Mesmo com os seres humanos, cujo óvulo é microscópico, ainda assim é muitas vezes maior do que o espermatozóide. É possível, como veremos, interpretar todas as outras diferenças entre os sexos como oriundas dessa diferença básica.
Em certos organismos primitivos, por exemplo em certos fungos, não há sexo masculino e sexo feminino, embora reprodução sexual de certo tipo ocorra. No sistema conhecido como isogamia, os indivíduos não são distinguíveis em dois sexos. Qualquer um pode se acasalar com qualquer outro. Não há dois tipos diferentes de gametas - espermatozóides e óvulos - mas todas as células sexuais são iguais, chamadas isogametas. Quando dois isomagetas se fundem, ambos contribuem com igual número de genes para o novo indivíduo, e também contribuem com quantidades iguais de reservas alimentares. Os espermatozóides e os óvulos também contribuem com números iguais de genes, mas esses últimos contribuem com muito mais reservas alimentares: os espermatozóides, na realidade, não contribuem com nada; estão simplesmente relacionados ao transporte de seus genes até um óvulo o mais rapidamente possível.
Parker e outros mostraram como essa assimetria poderá ter evoluído a partir de uma situação originalmente isogâmica. No tempo quando todas as células sexuais eram permutáveis e aproximadamente do mesmo tamanho, teria havido algumas que acidentalmente eram um pouco maior do que as outras. Sob certos aspectos um isogameta grande teria vantagem sobre um de tamanho médio, porque ele propiciaria um bom começo a seu embrião fornecendo-lhe um grande suprimento inicial de alimento. Poderá ter havido, portanto, uma tendência evolutiva em direção a gametas maiores. Mas há um senão. A evolução de isogametas maiores do que o estritamente necessário teria aberto as portas à exploração egoísta. Os indivíduos que produzissem gametas menores do que a média começariam a exploração, desde que pudessem garantir que seus gametas pequenos se fundissem com aqueles excepcionalmente grandes. Isto poderia ser conseguido tornando os gametas menores mais móveis e capazes de procurar ativamente os maiores. A vantagem para um indivíduo de produzir gametas pequenos e rápidos seria permitir-se fazer um grande número de gametas e portanto ter potencialmente mais filhos. A seleção natural favoreceu a produção de células sexuais pequenas e que procuravam ativamente as grandes para com elas se fundirem.
Podemos pensar, então, em duas "estratégias" sexuais divergentes evoluindo. Havia o grande investimento ou estratégia "honesta". Esta automaticamente abriu caminho para uma estratégia exploradora de pequeno investimento ou "traiçoeira". Assim que a divergência entre as duas estratégias tivesse começado, ela teria continuado sem dificuldade. Os intermediários de tamanho médio teriam sido punidos, pois não desfrutavam das vantagens de nenhuma das duas estratégias mais extremadas. Os gametas traiçoeiros teriam desenvolvido um tamanho cada vez menor e mobilidade maior. Os honestos teriam desenvolvido um tamanho cada vez maior para compensar o investimento cada vez menor dos traiçoeiros; e tornaram-se imóveis porque sempre seriam ativamente perseguidos pelos traiçoeiros, de qualquer forma. Cada gameta honesto "preferiria" fundir-se com um outro honesto, mas a pressão seletiva para excluir os traiçoeiros teria sido mais fraca do que a pressão sobre esses últimos para que se esquivassem ao cerco: os traiçoeiros tinham mais a perder e portanto venceram a batalha evolutiva. Os gametas honestos tornaram-se óvulos e os traiçoeiros tornaram-se espermatozóides.
Os machos, então, parecem ser criaturas bastante inúteis e baseando-nos apenas no "bem da espécie" poderíamos esperar que tornar-se-iam menos numerosos do que as fêmeas. Como um macho teoricamente pode produzir espermatozóides em número suficiente para manter um harém de 100 fêmeas, poderíamos supor que as fêmeas devessem superar os machos nas populações animais de 100 para 1. Outras maneiras de dizer isto seriam que o macho é mais "sacrificável" e a fêmea mais "valiosa" para a espécie. Encarando-se do ponto de vista da espécie como um todo, é claro, isto é perfeitamente verdadeiro.
Considere novamente o par acasalado com o qual começamos o capítulo. Ambos os parceiros, como máquinas egoístas, "querem" filhos e filhas em números iguais. Até aqui eles concordam. Onde eles discordam é sobre quem suportará o peso do custo de criar cada um desses filhos. Cada indivíduo quer tantos filhos sobreviventes quanto possível. Quanto menos ele ou ela for obrigado ou obrigada a investir em cada um desses filhos, mais filhos ele ou ela poderá ter. A maneira óbvia de conseguir esta situação desejável é induzir seu parceiro sexual a investir mais do que seu quinhão de recursos em cada filho, deixando você livre para ter outros filhos com outros parceiros. Esta seria uma estratégia desejável para qualquer um dos sexos, mas mais difícil para a fêmea conseguir. Como ela começa investindo mais do que o macho, sob a forma de seu óvulo grande e rico em alimento, no momento da concepção a mãe já está mais "comprometida" com cada filho do que o pai. Ela se predispõe a perder mais se o filhote morrer do que o pai. Mais objetivamente, ela teria que investir mais do que o pai no futuro, a fim de trazer um novo filhote substitutivo ao mesmo nível de desenvolvimento. Se ela tentasse a tática de deixar o pai segurando o bebê enquanto fugia com outro macho, o pai poderia, com um custo relativamente pequeno para si, retaliar abandonando também o filhote. Pelo menos nos primeiros estágios do desenvolvimento do filhote, portanto, se houver alguma deserção provavelmente será o pai abandonando a mãe e não vice-versa. Da mesma forma, pode-se esperar que as fêmeas invistam mais nos filhotes do que os machos, não apenas desde o começo, mas durante todo o desenvolvimento. Assim, nos mamíferos, por exemplo, é a fêmea que incuba o feto em seu próprio corpo, é a fêmea que produz o leite para amamentá-lo quando ele nasce, e é ela ainda que carrega o peso de criá-lo e protegê-lo. O sexo feminino é explorado e a base evolutiva fundamental da exploração é o fato dos óvulos serem maiores do que os espermatozóides.
Até que ponto essa pressão evolutiva realmente prevalece na prática varia muito de espécie para espécie. Em muitas delas, por exemplo nas aves do paraíso, a fêmea não recebe absolutamente qualquer ajuda do macho; ela cria os filhotes sozinha. Outras espécies, como as gaivotas do gênero Rissa, formam pares monógamos de fidelidade exemplar e ambos os parceiros cooperam na tarefa de criar filhotes.
Os rituais de corte frequentemente incluem considerável investimento pré-copulatório por parte do macho. A fêmea poderá recusar a copular até que o macho lhe tenha construído um ninho. Ou o macho talvez tenha que alimentá-la com quantidades substanciais de alimento. Isto, evidentemente, é muito bom do ponto de vista da fêmea, mas também sugere outra versão possível da estratégia da bem-aventurança doméstica. Poderiam as fêmeas forçar os machos a investir tanto em sua prole antes de permitirem a copulação que não seria mais vantajoso para eles desertar após a copulação? A ideia é atraente. Um macho que espera por uma fêmea tímida com a qual eventualmente copular está pagando em preço: está renunciando à chance de copular com outras fêmeas e está gastando muito tempo e energia em cortejá-la. Quando finalmente lhe for permitido copular com determinada fêmea, ele inevitavelmente estará fortemente "comprometido" com ela. Haverá, para ele, pouca tentação em abandoná-la se ele sabe que qualquer fêmea da qual se aproxime no futuro também delongar-se-á da mesma maneira até que possam ir ao que interessa.
Como mostrei em um artigo, há um erro no raciocínio de Trivers neste ponto. Ele pensou que o investimento antecipado em si comprometia o indivíduo a um investimento futuro. Isto é economia falaciosa. Um homem de negócios nunca deveria dizer "Já investi tanto no avião Concorde (por exemplo) que não posso me dar ao luxo de mandá-lo para o ferro-velho agora". Em vez disto ele sempre deveria se perguntar se seria vantajoso, no futuro, suspender suas perdas e abandonar o projeto agora, mesmo que ele já tenha investido muito nele. Da mesma maneira, de nada adianta uma fêmea forçar um macho a investir muito nela na esperança de que isto em si impeça que ele mais tarde a abandone. Esta versão da estratégia da bem-aventurança doméstica depende de uma outra pressuposição crucial. E esta é que se possa confiar que a maioria das fêmeas farão o mesmo jogo. Se houver fêmeas devassas na população, dispostas a aceitar machos que tenham abandonado suas mulheres, então poderia ser vantajoso para um macho abandonar sua mulher, não importando quanto ele já tivesse investido nos filhos.
De fato ocorre que em muitas aves monógamas a copulação não se dá até depois do ninho ter sido construído. O efeito disto é que no momento da concepção o macho investiu no filhote muito mais do que apenas seus espermatozóides baratos.
Exigir que um parceiro em potencial construa um ninho é uma maneira efetiva de uma fêmea segurá-lo. Poder-se-ia pensar que quase qualquer coisa que custe muito ao macho teoricamente serviria, mesmo que este custo não seja diretamente pago sob a forma de benefício ao filhote não nascido. Se todas as fêmeas de uma população forçassem os machos a realizar uma façanha difícil e custosa, como matar um dragão ou escalar uma montanha, antes de consentirem em copular, elas teoricamente poderiam estar reduzindo a tentação dos machos de desertar após a cópula. Qualquer macho tentado a desertar sua parceira e a espalhar maior número de seus genes com outra fêmea, seria desencorajado pela idéia de ter que matar outro dragão. Na prática, no entanto, é pouco provável que as fêmeas impusessem a seus pretendentes tarefas arbitrárias como matar dragões ou procurar o Santo Graal. O motivo é que uma fêmea rival que impusesse uma tarefa não menos árdua, mas mais útil para si e seus filhotes teria vantagem sobre as fêmeas mais românticas que exigissem uma proeza de amor inútil. Construir um ninho talvez seja menos romântico do que matar um dragão ou atravessar o Helesponto à nado, mas é muito mais útil.
Igualmente útil à fêmea é a prática que já mencionei, de alimentação de cortejamento pelo macho. Em aves isto tem sido em geral considerado um tipo de regressão ao comportamento infantil por parte da fêmea. Ela implora do macho, usando os mesmos gestos que um filhote usaria. Tem-se assumido que isto é automaticamente estimulante para o macho, da mesma maneira como um homem acha a fala afetada ou lábios estendidos atraentes em uma mulher adulta. A ave fêmea por esta época necessita de todo alimento extra que puder obter, pois está aumentando suas reservas para o esforço de produzir seus ovos enormes. A alimentação de cortejamento pelo macho provavelmente representa seu investimento direto nos próprios ovos; tem, portanto, o efeito de reduzir a disparidade entre os pais em seu investimento inicial nos filhotes.
Há um sentido macabro no qual se pode dizer que o louva-a-deus investe em seus filhos. Ele é usado como alimento para ajudar a fazer os óvulos, os quais serão então fertilizados, postumamente, por seus próprios espermatozóides armazenados.
Uma fêmea, jogando a estratégia da bem-aventurança doméstica, que simplesmente examine os machos e tente reconhecer qualidades de fidelidade de antemão, sujeita-se ao logro. Qualquer macho que se possa fazer passar por um bom tipo doméstico e leal, mas que na realidade esteja escondendo uma forte tendência à deserção e infidelidade, poderia ter grande vantagem. Desde que suas mulheres anteriores desertadas tenham alguma chance de criar alguns dos filhotes, o galanteador poderá transmitir mais genes do que um macho rival que seja um pai e um marido honestos. Os genes para o engano eficiente por parte dos machos tenderão a serem favorecidos no "fundo".
Há espécies, no entanto, nas quais o macho realmente tem mais trabalho em cuidar dos filhotes do que a fêmea. Entre as aves e os mamíferos esses casos de devoção paterna são extremamente raros, mas eles são comuns entre os peixes.
Resumindo este capítulo até aqui, os vários tipos diferentes de sistemas de reprodução que encontramos entre os animais - monogamia, promiscuidade, haréns etc. - podem ser entendidos em termos de interesses conflitantes entre machos e fêmeas.
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
Há . . . uma característica fundamental dos sexos que pode ser utilizada para rotular os machos de machos e as fêmeas de fêmeas em todos os animais e plantas. Esta característica é que as células sexuais ou "gametas" dos machos são muito menores e mais numerosos do que os gametas das fêmeas. Isso ocorre quer estejamos lidando com animais, quer com plantas. Um grupo de indivíduos possui células sexuais grandes; é conveniente usar a palavra fêmea para eles. O outro grupo, que é conveniente chamar de macho, possui células sexuais pequenas. A diferença é especialmente acentuada nos répteis e aves, nos quais uma única célula ovo é grande e nutritiva o suficiente para alimentar o filhote em desenvolvimento durante várias semanas. Mesmo com os seres humanos, cujo óvulo é microscópico, ainda assim é muitas vezes maior do que o espermatozóide. É possível, como veremos, interpretar todas as outras diferenças entre os sexos como oriundas dessa diferença básica.
Em certos organismos primitivos, por exemplo em certos fungos, não há sexo masculino e sexo feminino, embora reprodução sexual de certo tipo ocorra. No sistema conhecido como isogamia, os indivíduos não são distinguíveis em dois sexos. Qualquer um pode se acasalar com qualquer outro. Não há dois tipos diferentes de gametas - espermatozóides e óvulos - mas todas as células sexuais são iguais, chamadas isogametas. Quando dois isomagetas se fundem, ambos contribuem com igual número de genes para o novo indivíduo, e também contribuem com quantidades iguais de reservas alimentares. Os espermatozóides e os óvulos também contribuem com números iguais de genes, mas esses últimos contribuem com muito mais reservas alimentares: os espermatozóides, na realidade, não contribuem com nada; estão simplesmente relacionados ao transporte de seus genes até um óvulo o mais rapidamente possível.
Parker e outros mostraram como essa assimetria poderá ter evoluído a partir de uma situação originalmente isogâmica. No tempo quando todas as células sexuais eram permutáveis e aproximadamente do mesmo tamanho, teria havido algumas que acidentalmente eram um pouco maior do que as outras. Sob certos aspectos um isogameta grande teria vantagem sobre um de tamanho médio, porque ele propiciaria um bom começo a seu embrião fornecendo-lhe um grande suprimento inicial de alimento. Poderá ter havido, portanto, uma tendência evolutiva em direção a gametas maiores. Mas há um senão. A evolução de isogametas maiores do que o estritamente necessário teria aberto as portas à exploração egoísta. Os indivíduos que produzissem gametas menores do que a média começariam a exploração, desde que pudessem garantir que seus gametas pequenos se fundissem com aqueles excepcionalmente grandes. Isto poderia ser conseguido tornando os gametas menores mais móveis e capazes de procurar ativamente os maiores. A vantagem para um indivíduo de produzir gametas pequenos e rápidos seria permitir-se fazer um grande número de gametas e portanto ter potencialmente mais filhos. A seleção natural favoreceu a produção de células sexuais pequenas e que procuravam ativamente as grandes para com elas se fundirem.
Podemos pensar, então, em duas "estratégias" sexuais divergentes evoluindo. Havia o grande investimento ou estratégia "honesta". Esta automaticamente abriu caminho para uma estratégia exploradora de pequeno investimento ou "traiçoeira". Assim que a divergência entre as duas estratégias tivesse começado, ela teria continuado sem dificuldade. Os intermediários de tamanho médio teriam sido punidos, pois não desfrutavam das vantagens de nenhuma das duas estratégias mais extremadas. Os gametas traiçoeiros teriam desenvolvido um tamanho cada vez menor e mobilidade maior. Os honestos teriam desenvolvido um tamanho cada vez maior para compensar o investimento cada vez menor dos traiçoeiros; e tornaram-se imóveis porque sempre seriam ativamente perseguidos pelos traiçoeiros, de qualquer forma. Cada gameta honesto "preferiria" fundir-se com um outro honesto, mas a pressão seletiva para excluir os traiçoeiros teria sido mais fraca do que a pressão sobre esses últimos para que se esquivassem ao cerco: os traiçoeiros tinham mais a perder e portanto venceram a batalha evolutiva. Os gametas honestos tornaram-se óvulos e os traiçoeiros tornaram-se espermatozóides.
Os machos, então, parecem ser criaturas bastante inúteis e baseando-nos apenas no "bem da espécie" poderíamos esperar que tornar-se-iam menos numerosos do que as fêmeas. Como um macho teoricamente pode produzir espermatozóides em número suficiente para manter um harém de 100 fêmeas, poderíamos supor que as fêmeas devessem superar os machos nas populações animais de 100 para 1. Outras maneiras de dizer isto seriam que o macho é mais "sacrificável" e a fêmea mais "valiosa" para a espécie. Encarando-se do ponto de vista da espécie como um todo, é claro, isto é perfeitamente verdadeiro.
Considere novamente o par acasalado com o qual começamos o capítulo. Ambos os parceiros, como máquinas egoístas, "querem" filhos e filhas em números iguais. Até aqui eles concordam. Onde eles discordam é sobre quem suportará o peso do custo de criar cada um desses filhos. Cada indivíduo quer tantos filhos sobreviventes quanto possível. Quanto menos ele ou ela for obrigado ou obrigada a investir em cada um desses filhos, mais filhos ele ou ela poderá ter. A maneira óbvia de conseguir esta situação desejável é induzir seu parceiro sexual a investir mais do que seu quinhão de recursos em cada filho, deixando você livre para ter outros filhos com outros parceiros. Esta seria uma estratégia desejável para qualquer um dos sexos, mas mais difícil para a fêmea conseguir. Como ela começa investindo mais do que o macho, sob a forma de seu óvulo grande e rico em alimento, no momento da concepção a mãe já está mais "comprometida" com cada filho do que o pai. Ela se predispõe a perder mais se o filhote morrer do que o pai. Mais objetivamente, ela teria que investir mais do que o pai no futuro, a fim de trazer um novo filhote substitutivo ao mesmo nível de desenvolvimento. Se ela tentasse a tática de deixar o pai segurando o bebê enquanto fugia com outro macho, o pai poderia, com um custo relativamente pequeno para si, retaliar abandonando também o filhote. Pelo menos nos primeiros estágios do desenvolvimento do filhote, portanto, se houver alguma deserção provavelmente será o pai abandonando a mãe e não vice-versa. Da mesma forma, pode-se esperar que as fêmeas invistam mais nos filhotes do que os machos, não apenas desde o começo, mas durante todo o desenvolvimento. Assim, nos mamíferos, por exemplo, é a fêmea que incuba o feto em seu próprio corpo, é a fêmea que produz o leite para amamentá-lo quando ele nasce, e é ela ainda que carrega o peso de criá-lo e protegê-lo. O sexo feminino é explorado e a base evolutiva fundamental da exploração é o fato dos óvulos serem maiores do que os espermatozóides.
Até que ponto essa pressão evolutiva realmente prevalece na prática varia muito de espécie para espécie. Em muitas delas, por exemplo nas aves do paraíso, a fêmea não recebe absolutamente qualquer ajuda do macho; ela cria os filhotes sozinha. Outras espécies, como as gaivotas do gênero Rissa, formam pares monógamos de fidelidade exemplar e ambos os parceiros cooperam na tarefa de criar filhotes.
Os rituais de corte frequentemente incluem considerável investimento pré-copulatório por parte do macho. A fêmea poderá recusar a copular até que o macho lhe tenha construído um ninho. Ou o macho talvez tenha que alimentá-la com quantidades substanciais de alimento. Isto, evidentemente, é muito bom do ponto de vista da fêmea, mas também sugere outra versão possível da estratégia da bem-aventurança doméstica. Poderiam as fêmeas forçar os machos a investir tanto em sua prole antes de permitirem a copulação que não seria mais vantajoso para eles desertar após a copulação? A ideia é atraente. Um macho que espera por uma fêmea tímida com a qual eventualmente copular está pagando em preço: está renunciando à chance de copular com outras fêmeas e está gastando muito tempo e energia em cortejá-la. Quando finalmente lhe for permitido copular com determinada fêmea, ele inevitavelmente estará fortemente "comprometido" com ela. Haverá, para ele, pouca tentação em abandoná-la se ele sabe que qualquer fêmea da qual se aproxime no futuro também delongar-se-á da mesma maneira até que possam ir ao que interessa.
Como mostrei em um artigo, há um erro no raciocínio de Trivers neste ponto. Ele pensou que o investimento antecipado em si comprometia o indivíduo a um investimento futuro. Isto é economia falaciosa. Um homem de negócios nunca deveria dizer "Já investi tanto no avião Concorde (por exemplo) que não posso me dar ao luxo de mandá-lo para o ferro-velho agora". Em vez disto ele sempre deveria se perguntar se seria vantajoso, no futuro, suspender suas perdas e abandonar o projeto agora, mesmo que ele já tenha investido muito nele. Da mesma maneira, de nada adianta uma fêmea forçar um macho a investir muito nela na esperança de que isto em si impeça que ele mais tarde a abandone. Esta versão da estratégia da bem-aventurança doméstica depende de uma outra pressuposição crucial. E esta é que se possa confiar que a maioria das fêmeas farão o mesmo jogo. Se houver fêmeas devassas na população, dispostas a aceitar machos que tenham abandonado suas mulheres, então poderia ser vantajoso para um macho abandonar sua mulher, não importando quanto ele já tivesse investido nos filhos.
De fato ocorre que em muitas aves monógamas a copulação não se dá até depois do ninho ter sido construído. O efeito disto é que no momento da concepção o macho investiu no filhote muito mais do que apenas seus espermatozóides baratos.
Exigir que um parceiro em potencial construa um ninho é uma maneira efetiva de uma fêmea segurá-lo. Poder-se-ia pensar que quase qualquer coisa que custe muito ao macho teoricamente serviria, mesmo que este custo não seja diretamente pago sob a forma de benefício ao filhote não nascido. Se todas as fêmeas de uma população forçassem os machos a realizar uma façanha difícil e custosa, como matar um dragão ou escalar uma montanha, antes de consentirem em copular, elas teoricamente poderiam estar reduzindo a tentação dos machos de desertar após a cópula. Qualquer macho tentado a desertar sua parceira e a espalhar maior número de seus genes com outra fêmea, seria desencorajado pela idéia de ter que matar outro dragão. Na prática, no entanto, é pouco provável que as fêmeas impusessem a seus pretendentes tarefas arbitrárias como matar dragões ou procurar o Santo Graal. O motivo é que uma fêmea rival que impusesse uma tarefa não menos árdua, mas mais útil para si e seus filhotes teria vantagem sobre as fêmeas mais românticas que exigissem uma proeza de amor inútil. Construir um ninho talvez seja menos romântico do que matar um dragão ou atravessar o Helesponto à nado, mas é muito mais útil.
Igualmente útil à fêmea é a prática que já mencionei, de alimentação de cortejamento pelo macho. Em aves isto tem sido em geral considerado um tipo de regressão ao comportamento infantil por parte da fêmea. Ela implora do macho, usando os mesmos gestos que um filhote usaria. Tem-se assumido que isto é automaticamente estimulante para o macho, da mesma maneira como um homem acha a fala afetada ou lábios estendidos atraentes em uma mulher adulta. A ave fêmea por esta época necessita de todo alimento extra que puder obter, pois está aumentando suas reservas para o esforço de produzir seus ovos enormes. A alimentação de cortejamento pelo macho provavelmente representa seu investimento direto nos próprios ovos; tem, portanto, o efeito de reduzir a disparidade entre os pais em seu investimento inicial nos filhotes.
Há um sentido macabro no qual se pode dizer que o louva-a-deus investe em seus filhos. Ele é usado como alimento para ajudar a fazer os óvulos, os quais serão então fertilizados, postumamente, por seus próprios espermatozóides armazenados.
Uma fêmea, jogando a estratégia da bem-aventurança doméstica, que simplesmente examine os machos e tente reconhecer qualidades de fidelidade de antemão, sujeita-se ao logro. Qualquer macho que se possa fazer passar por um bom tipo doméstico e leal, mas que na realidade esteja escondendo uma forte tendência à deserção e infidelidade, poderia ter grande vantagem. Desde que suas mulheres anteriores desertadas tenham alguma chance de criar alguns dos filhotes, o galanteador poderá transmitir mais genes do que um macho rival que seja um pai e um marido honestos. Os genes para o engano eficiente por parte dos machos tenderão a serem favorecidos no "fundo".
Há espécies, no entanto, nas quais o macho realmente tem mais trabalho em cuidar dos filhotes do que a fêmea. Entre as aves e os mamíferos esses casos de devoção paterna são extremamente raros, mas eles são comuns entre os peixes.
Resumindo este capítulo até aqui, os vários tipos diferentes de sistemas de reprodução que encontramos entre os animais - monogamia, promiscuidade, haréns etc. - podem ser entendidos em termos de interesses conflitantes entre machos e fêmeas.
CAPÍTULO 10 - VOCÊ COÇA AS MINHAS COSTAS, EU MONTAREI SOBRE AS SUAS
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
Várias espécies de formigas do Novo Mundo, por exemplo, e, independentemente, térmitas da África, cultivam "jardins de fungos". As mais bem conhecidas são as saúvas da América do Sul. Elas são extremamente bem sucedidas. Colônias isoladas com mais de dois milhões de indivíduos foram encontradas. Seus ninhos consistem de enormes e amplos complexos subterrâneos de passagens e galerias, descendo até uma profundidade de três metros ou mais, construídos pela escavação de até 40 toneladas de terra. As câmaras subterrâneas contêm os jardins de fungos. As formigas deliberadamente semeiam o fungo de uma determinada espécie em canteiros adubados que elas preparam fragmentando as folhas com as mandíbulas. Em vez de buscar alimento diretamente, as operárias buscam folhas para fazer o adubo. O "apetite" de uma colônia de saúvas por folhas é gigantesco. Isto as torna uma importante praga econômica, mas as folhas não são alimento para si mas para seus fungos. As formigas eventualmente colhem e comem o fungo, além de dá-lo às larvas. Os fungos são mais eficientes em degradar o material das folhas do que seriam os estômagos das formigas; assim estas se beneficiam com a associação. É possível que o fungo também se beneficie, embora seja colhido: as formigas propagam-no mais eficientemente do que seu próprio mecanismo de dispersão de esporos poderia fazê-lo. Além disto, as formigas limpam os jardins de fungos, livrando-os de espécies invasoras de outros fungos. Eliminando a competição, isto poderá beneficiar os próprios fungos domésticos das formigas. Poder-se-ia dizer que existe um tipo de relacionamento de altruísmo mútuo entre as formigas e os fungos. É notável que um sistema muito semelhante de cultivo de fungos evoluiu independentemente entre os térmitas pouco relacionados com as formigas.
As formigas possuem seus próprios animais domésticos, assim como suas plantas cultivadas. Os afídeos - pulgões - são altamente especializados em sugar os líquidos das plantas. Eles sugam a seiva de seus vasos mais eficientemente do que podem depois digeri-Ia. Em conseqüência, excretam um líquido que teve apenas parte de seu valor nutritivo retirado. Gotículas deste líquido rico em açúcar são eliminadas pela extremidade posterior a grande velocidade, em alguns casos mais do que o peso do corpo do próprio inseto por hora. O líquido normalmente cai em gotas ao chão - poderia ter sido o alimento providencial conhecido como "maná" no Velho Testamento. Formigas de várias espécies, porém, interceptam-no assim que ele sai do pulgão. As formigas "ordenham" os afídeos afagando a parte posterior de seu corpo com suas antenas e patas. Os afídeos respondem, em alguns casos aparentemente retendo suas gotículas até que uma formiga os acaricie, e até mesmo recolhendo uma gotícula se a formiga não está pronta para recebê-la. Sugeriu-se que alguns afídeos desenvolveram a parte posterior do corpo de modo a se assemelhar à fisionomia de uma formiga, mais eficiente para atraí-Ias. O que os afídeos ganham com a associação aparentemente é proteção contra seus inimigos naturais. Como nosso próprio gado leiteiro, eles levam uma vida protegida, e as espécies de afídeos muito cultivadas pelas formigas perderam seus mecanismos normais de defesa. Em alguns casos as formigas cuidam dos ovos dos afídeos dentro de seus próprios ninhos subterrâneos, alimentam os filhotes e, finalmente, quando eles crescem, carregam-nos cuidadosamente para o local protegido de pastagem.
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.
Várias espécies de formigas do Novo Mundo, por exemplo, e, independentemente, térmitas da África, cultivam "jardins de fungos". As mais bem conhecidas são as saúvas da América do Sul. Elas são extremamente bem sucedidas. Colônias isoladas com mais de dois milhões de indivíduos foram encontradas. Seus ninhos consistem de enormes e amplos complexos subterrâneos de passagens e galerias, descendo até uma profundidade de três metros ou mais, construídos pela escavação de até 40 toneladas de terra. As câmaras subterrâneas contêm os jardins de fungos. As formigas deliberadamente semeiam o fungo de uma determinada espécie em canteiros adubados que elas preparam fragmentando as folhas com as mandíbulas. Em vez de buscar alimento diretamente, as operárias buscam folhas para fazer o adubo. O "apetite" de uma colônia de saúvas por folhas é gigantesco. Isto as torna uma importante praga econômica, mas as folhas não são alimento para si mas para seus fungos. As formigas eventualmente colhem e comem o fungo, além de dá-lo às larvas. Os fungos são mais eficientes em degradar o material das folhas do que seriam os estômagos das formigas; assim estas se beneficiam com a associação. É possível que o fungo também se beneficie, embora seja colhido: as formigas propagam-no mais eficientemente do que seu próprio mecanismo de dispersão de esporos poderia fazê-lo. Além disto, as formigas limpam os jardins de fungos, livrando-os de espécies invasoras de outros fungos. Eliminando a competição, isto poderá beneficiar os próprios fungos domésticos das formigas. Poder-se-ia dizer que existe um tipo de relacionamento de altruísmo mútuo entre as formigas e os fungos. É notável que um sistema muito semelhante de cultivo de fungos evoluiu independentemente entre os térmitas pouco relacionados com as formigas.
As formigas possuem seus próprios animais domésticos, assim como suas plantas cultivadas. Os afídeos - pulgões - são altamente especializados em sugar os líquidos das plantas. Eles sugam a seiva de seus vasos mais eficientemente do que podem depois digeri-Ia. Em conseqüência, excretam um líquido que teve apenas parte de seu valor nutritivo retirado. Gotículas deste líquido rico em açúcar são eliminadas pela extremidade posterior a grande velocidade, em alguns casos mais do que o peso do corpo do próprio inseto por hora. O líquido normalmente cai em gotas ao chão - poderia ter sido o alimento providencial conhecido como "maná" no Velho Testamento. Formigas de várias espécies, porém, interceptam-no assim que ele sai do pulgão. As formigas "ordenham" os afídeos afagando a parte posterior de seu corpo com suas antenas e patas. Os afídeos respondem, em alguns casos aparentemente retendo suas gotículas até que uma formiga os acaricie, e até mesmo recolhendo uma gotícula se a formiga não está pronta para recebê-la. Sugeriu-se que alguns afídeos desenvolveram a parte posterior do corpo de modo a se assemelhar à fisionomia de uma formiga, mais eficiente para atraí-Ias. O que os afídeos ganham com a associação aparentemente é proteção contra seus inimigos naturais. Como nosso próprio gado leiteiro, eles levam uma vida protegida, e as espécies de afídeos muito cultivadas pelas formigas perderam seus mecanismos normais de defesa. Em alguns casos as formigas cuidam dos ovos dos afídeos dentro de seus próprios ninhos subterrâneos, alimentam os filhotes e, finalmente, quando eles crescem, carregam-nos cuidadosamente para o local protegido de pastagem.
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