Semana passada, fiz o Módulo I do Workshop de Processo Criativo do Charles Watson, no Santander Cultural, e aqui eu estou lhes mostrando minhas anotações. Charles Watson (Helensburg, Escócia, 1951) é pintor e professor. Estudou na Bath Academy of Art, em Bath, Inglaterra, entre 1970 e 1974. Tornou-se professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, em 1979, e oito anos depois, em 1987, coordenador do Departamento de Pintura da mesma instituição, onde permanece até hoje, lecionando artes visuais. Desenvolve vários projetos entre eles: Brazilian Contemporary Art, um banco de dados digital sobre a arte brasileira (desde 1991); e Dynamic Encounters, um curso/viagem no qual se visitam ateliês, galerias e os principais eventos de arte contemporânea no Brasil e na Europa (desde 1998).
Além de ensinar artistas, Watson ensina pessoas que desejam mergulhar na essência do processo criativo (seja em que área for), em seu workshop. Para isso, aborda também questões da física e da biologia acerca de descobertas e de evolução. As pessoas que se destacaram na história, em todas as áreas, fizeram suas descobertas, seus feitos, suas criações em momentos de puro autotelismo. Ou seja, momentos em que o sujeito estava imerso no Agora, fazendo algo de que gostava, aquilo que mais significava em sua vida, sem nenhuma finalidade, ou, no máximo, tendo o próprio exercício como única finalidade.
(Segundo o Dicionário Aurélio, autotélico diz-se do que não tem finalidade ou sentido além ou fora de si. O E-Dicionário de Termos Literários chama autotélico aquilo que tem sentido apenas para si próprio, como no caso de um autor que supostamente escreve só para si mesmo, convencido de que a literatura é apenas entendível por quem a produziu. Aplica-se ainda à obra de arte que nega qualquer pragmatismo ou referência ao mundo exterior, como acontece na estética da arte pela arte. O adjetivo também pode ser antônimo de "didático".)
Dentre esses feitos, a área que pode servir melhor de exemplo e de estudo dos mecanismos do processo criativo é a arte. "A arte é gloriosamente inútil, não tem finalidade nenhuma. Enormes investimentos de energia a troco de absolutamente nada", destaca Watson. Já a arte contemporânea tem em si uma relação direta com a evolução, uma vez que pretende sempre questionar linguagens e dar passos adiante no que já existe, de modo que as obras contemporâneas têm sempre um posicionamento sobre a história da linguagem. Logo, o termo contemporâneo obviamente não se refere só àquilo que é de agora, mas implica uma série de características do que significa a arte hoje. "Como só existem seis assuntos na história da arte, sem uma linguagem revolucionária, não há mensagem", diz Watson. Diante de tamanha verticalização, a arte é de certa forma elitista. Não necessariamente de uma elite social ou econômica, mas de acesso aos poucos que se aprofundam e alcançam os processos agudos das vanguardas. Albert Einstein, quando publicou a Teoria da Relatividade, disse que havia três físicos capazes de saber sobre o que ele estava falando. Nesse cenário atual da arte, ela passa a depender menos de talento e mais de características de personalidade.
A ausência de finalidade do processo artístico tem ressonância da própria evolução biológica, que também não tem nenhuma finalidade. Ela acontece no mais puro acaso, e características suas só podem ser enxergadas como tendo objetivos específicos por um observador que está olhando para trás, para o que já passou. O exemplo dado pelos geneticistas que definiram a concepção atual de evolução biológica é o seguinte. Imagine uma matilha de lobos. Um lobo com o gene truculento domina a matilha. Ele ameaça seus concorrentes, tem todas as fêmeas para si. Um outro lobo com o gene meiguinho não tem nada a fazer, porque no embate pode morrer ou ficar gravemente ferido. Então o gene truculento prospera. Começam a nascer lobinhos que no primeiro contato com a luz já saem brigando, truculentos. Esses lobos começam a brigar entre si, e as fêmeas começam a ficar entediadas. Um lobo com o gene meiguinho vai estar disponível, e as lobas começarão a preferi-lo, pois não terão outra opção. Ou seja, um gene não tem em si uma característica de maior ou menor chance de prosperar, mas a evolução se dá por consequências do puro acaso.
O gene inútil é o responsável pela evolução, o processo evolutivo é movido pelo gene inútil, segundo Richard Dawkins, evolucionista queniano que é professor da Universidade de Oxford. (Em enquete realizadapela revista Prospect em 2005 sobre os maiores intelectuais da atualidade, Richard Dawkins ficou com a terceira posição, atrás somente de Umberto Eco e Noam Chomsky.) Isso porque ele é a resposta para um problema que ainda não existe, que ainda não foi formulado. Aquilo que é útil é assim considerado porque serve a algum problema já existente. Da mesma forma, na arte e nas outras áreas de criação humana, é o inútil que traz a evolução. Muitas vezes o artista é aquele que diz algo que muitos já pensavam mas que não perceberam a relevância de dizê-lo, ou que não tiveram coragem ou criatividade suficientes para dizê-lo. Nesse sentido, a criatividade não é uma virtude que faz o indivíduo trazer coisas do nada, mas uma virtude que faz o indivíduo apostar em coisas até então inúteis, inertes.
A evolução na arte pressupõe um passo que traz uma novidade, algo até então desconhecido. Assim, Einstein disse que "A experiência mais bela disponível é a do misterioso". O físico Richard Feynman, vencedor do Nobel de 1965, quando perguntado se não era difícil conversar com as pessoas comuns, respondeu que conseguia falar com qualquer pessoa, desde que ela, no que fazia, tenha ido até o limite, então o mistério e o espanto seriam seus assuntos.
Se, em alguma atividade, o indivíduo concentra-se em alguma finalidade, torna-se um contrasenso: ele se ausenta do presente e de todas as coisas que garantem aquele futuro desejado. (É a questão de que trata todo o budismo e o alemão Eckhart Tolle em seu best-seller 'O poder do agora'.) O surfista, por exemplo, não surfa para pegar uma onda que o leve até a praia, mas pela unicidade de estar um com a onda, fazer parte do todo - aquilo que Freud chama de senso oceânico. Para um pintor que pinta porque ama pintar, exposição é uma consequência. Ele pinta e um dia reúne algumas obras para mostrar numa exposição. E como a busca do artista é uma busca existencial, é a própria existência em si, as obras são como pedrinhas encontradas no meio do caminho. "Quando pinto, meu objetivo é mostrar o que encontrei, não o que estou procurando." (Pablo Picasso)
Charles Watson conta que quando era pequeno, na Escócia, seu pai convidou-o para pescar na montanha. Ficou todo orgulhoso de fazer esse programa com os adultos, esse ritual de iniciação. "Mas não pode reclamar que está com fome, que está com frio. Uma vez lá, não tem como voltar", advertiu o pai. "E se você se comportar, ganhará a vara de pesca do avô." O pequeno Charlie então ficou completamente entusiasmado. E foram pescar. Utilizavam o estilo fly fishing, que Robert Redford retratou em 'Nada é para sempre', com Brad Pitt. Varas mais finas e sem uso de isca. Por uma questão de ética, somente os pescadores realmente bons conseguem evitar que o peixe escape para a vida. Na caminhada de volta, o pai disse "Que dia espetacular, este!". Charlie respondeu "É, só que a gente não pegou nenhum peixe..." "Mas isso não interessa." "Mas a gente saiu para pescar e pescar é pegar peixes!” "Não, pescar não é pegar peixes, pescar é pescar."
Joseph O'Connor, numa página da web, escreve que o termo estado de fluxo foi popularizado pelo escritor Mikhail Csikszentmihalyi, que escreveu um livro em 1991 cujo título era simplesmente 'Fluxo'. Ele foi pioneiro na ciência de estudar os estados de alto desempenho. "Gratificações são talvez o tipo mais verdadeiramente humano de prazer, e quanto mais você tiver, mais capacidade você terá de consegui-las e atingir este estado de fluxo. (Como um grande jogador de golfe disse, 'Tenho realmente muita sorte, mas o engraçado é que quanto mais eu pratico, mais sorte eu tenho')."
"Fluxo é um estado de graça, você não pode 'tentar' entrar no fluxo e obter gratificação, no sentido de que você tem que esquecer de você mesmo para conseguir isso." Também encontrei um texto de yoga de Nicole Witek: "Aqui está o segredo do Buda! O sorriso dele expressa a liberação total das emoções perturbadoras e o estado de fluxo." De novo o budismo.
Uma das estratégias do processo criativo contemporâneo é fazer a obra pairar entre duas categorias. Quando nomeamos algo, arquivamos esse algo. Enquanto não nomeamos, a ideia fica pairando e mantém-se frontal. Picasso dizia que queria fazer um morcego que não deixasse de ser uma caixa de fósforo. Quanto menos algo é o que é, mais ele pode ser outra coisa. Essa é a diferença de uma obra bem feita dentro das categorias pré-existentes e uma obra realmente criativa, que nunca se fecha e sempre vai manter o processo mental do fruidor. Por isso, a obra realmente criativa sempre causará estranhamento e até incômodo no início, como a teoria do Einstein. "Diante de uma obra desafiadora, muitas vezes não se sabe se gostamos dela ou não, mas ficamos pensando nela durante duas semanas", diz Watson.
O público é completamente conservador. O cérebro funciona com modelos de realidade. É mais simples e menos cansativo colocar um item com o qual nos deparamos em uma categoria que nos é conhecida do que encará-lo como algo desconhecido e estranho. Por exemplo. Charles Watson, em aulas de desenho, pede que os alunos desenhem uma cadeira, pelo método da observação. Os alunos escolhem o melhor ângulo, geralmente o lateral, porque corresponde ao modelo mental que todos têm de cadeira. O aluno acaba desenhando o modelo mental, sequer observa a cadeira. Então ele vira a cadeira de ponta-cabeça e os alunos "Pô, que sacanagem, assim é mais difícil". Por que seria mais difícil se o exercício é o mesmo, observar e desenhar? Noutro exercício, pede para desenharem uma mulher, a partir de um retrato. Novamente, é desenhado o modelo mental de mulher. Então Charles vira a foto de ponta-cabeça, e, de novo, "Pô, que sacanagem, assim é mais difícil". No fim das contas, o desenho feito de ponta-cabeça confere mais com o original do que aquele feito com observação da foto em posição "normal".
Nessa constatação de que o significado não está no objeto, mas no observador, que Marcel Duchamp inaugurou o Dadaísmo ao entregar um mictório assinado por ele. Desde então, arte passou a ser qualquer coisa que um artista impregna de significado. Frank Zappa disse que a coisa mais importante na arte é a moldura. Para a pintura, literalmente; para as outras artes, figurativamente. Na ausência da moldura, não podemos saber onde acaba a arte e começa o mundo. "Temos de colocar a arte numa caixa porque, de contrário, que merda é aquela na parede?" John Cage, o mestre da aplicação do contemporâneo à música, por exemplo, colocou um microfone na garganta e bebeu suco de cenoura, apresentando o resultado como composição sua. Os objetos, retirados de suas categorias humanas, de utilidade, retirados de suas domesticações, de suas funções, e colocados para ressignificação humana, voltam a ser objetos de contemplação.
Certa obra chamada 'Colibri em sono induzido' (não encontrei o nome do artista nem a obra no Google e no Youtube) é um vídeo de um beija-flor praticamente imóvel num galho, com ruído de trânsito ao fundo. Percebe-se, dem dado momento, que o passarinho move-se sutilmente e que, portanto, não se trata de uma foto com som, mas realmente de um vídeo, com tempo linear. O vídeo dura muito tempo, um tempo que pode ser monótono para o sujeito atual, apressado pelo frenesi das informações, mas que justamente quer provocar a redefinição do beija-flor (ele não está batendo asas freneticamente, como o conhecemos) e do tempo.

Um comentário:
Usei o teu texto na minha comunidade sobre o Charles Watson no orkut. Aliás, aqui está: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=96328528
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