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terça-feira, 16 de junho de 2009

CAPÍTULO 1 - POR QUE SÃO AS PESSOAS?
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. 1976.

É muito complicado demonstrar os efeitos do comportamento nas perceptivas de sobrevivência a longo prazo. Na prática, quando aplicamos a definição ao comportamento real, devemos nela introduzir uma ressalva com a palavra "aparentemente". Um ato aparentemente altruísta é aquele que parece, superficialmente, tender a aumentar (não importa quão ligeiramente) a probabilidade do altruísta morrer e do favorecido sobreviver. No exame mais detalhado verifica-se frequentemente que atos de aparente altruísmo na realidade são egoísmo disfarçado. Novamente, não quero dizer que os motivos básicos são egoístas, mas que os efeitos reais do ato nas perspectivas de sobrevivência são o inverso daquilo que originalmente pensamos.

Darei alguns exemplos de comportamento aparentemente egoísta e aparentemente altruísta. É difícil suprimir hábitos subjetivos de pensamento quando lidamos com nossa própria espécie, de modo que escolherei, em vez disto, exemplos de outros animais. Em primeiro lugar alguns exemplos variados de comportamento egoísta de animais individuais.

Gaivotas de cabeça preta nidificam em grandes colônias, os ninhos estando separados de apenas poucos palmos. Quando os filhotes eclodem são pequenos, indefesos e fáceis de serem engolidos. É bastante comum uma gaivota esperar que um vizinho vire as costas, talvez enquanto ele está fora pescando, e então lançar-se sobre um de seus filhotes e engoli-lo inteiro. Ela, esta forma, obtém uma boa refeição nutritiva sem ter que se dar ao trabalho de capturar um peixe e sem ter que deixar seu próprio ninho desprotegido.

Mais bem conhecido é o canibalismo macabro das fêmeas do louva-a-deus. O louva-a-deus é um inseto carnívoro grande. Ele normalmente come insetos menores tais como moscas, mas ataca quase qualquer coisa que se mova. No acasalamento, o macho sobe cautelosamente na fêmea, monta-a e copula. Se a fêmea tiver a oportunidade, ela o comerá, começando por abocanhar sua cabeça, quando o macho está se aproximando, imediatamente após ele montar, ou após separarem-se. Pareceria mais sensato para ela esperar até que a cópula se complete antes de começar a comê-lo. Mas a perda da cabeça parece não desalentar o resto do corpo do macho em seu avanço sexual. De fato, como a cabeça do inseto é sede de alguns centros nervosos inibidores, é possível que a fêmea melhore o desempenho sexual do macho ao comer sua cabeça. Se assim for, este é um benefício adicional. O benefício primário é ela obter uma boa refeição.

A palavra "egoísta" talvez pareça muito branda para expressar casos extremos tais como canibalismo, embora estes encaixem-se bem em nossa definição. Talvez possamos ter simpatia mais diretamente para com o comportamento covarde descrito dos pingüins imperiais da Antártica. Eles têm sido vistos em pé à beira d'água, hesitando antes de mergulhar, devido ao perigo de serem comidos por focas. Se apenas um deles mergulhasse, os demais saberiam se havia uma foca ou não. Naturalmente nenhum deles quer ser a cobaia, de modo que eles esperam e algumas vezes até mesmo tentam se empurrar para a água.

O comportamento de aferroar das abelhas operárias é uma defesa muito eficaz contra ladrões de mel. Mas, as abelhas que aferroam são combatentes kamikazes. No ato de picar, órgãos internos vitais são geralmente arrancados do corpo e a abelha morre logo em seguida. Sua missão suicida talvez tenha salvo os estoques vitais de alimento da colônia, mas ela própria não pode usufruir os benefícios. Pela nossa definição este é um ato de comportamento altruísta. Lembre-se que não estamos falando de motivos conscientes. Eles podem ou não estar presentes, tanto aqui como nos exemplos de egoísmo, mas são irrelevantes para nossa definição.

Sacrificar a vida pelos amigos é obviamente altruísta, mas correr um pequeno risco por eles também o é. Muitos pássaros pequenos, quando vêem um predador voando, como um gavião, dão um "grito de alarme" característico, em conseqüência do qual todo o bando se põe em fuga. Há evidência indireta de que o pássaro que dá o grito de alarme se expõe particularmente ao perigo, pois atrai a atenção do predador especialmente para si. Este é apenas um leve risco adicional, mas parece, no entanto, pelo menos à primeira vista, corresponder a um ato altruísta pela nossa definição.

Os atos mais comuns e mais conspícuos de altruísmo animal são realizados pelos pais, especialmente pelas mães, em relação a seus filhos. Eles podem incubá-los, ou em ninhos ou em seus próprios corpos, alimentá-los com enormes sacrifícios para si e correr grandes riscos ao protegê-los de predadores. Para citar apenas um exemplo particular, muitos pássaros que nidificam no chão realizam o chamado "comportamento de distração" quando um predador, como uma raposa, se aproxima. Um dos pais afasta-se do ninho maneando, mantendo uma asa aberta como se ela estivesse quebrada. O predador, percebendo uma presa fácil, é atraído para longe do ninho contendo os filhotes. Finalmente a ave cessa seu fingimento e lança-se ao ar exatamente à tempo de escapar das mandíbulas da raposa. Ela provavelmente terá salvo a vida de seus filhotes, mas com algum risco para si. (...)

Robert Ardrey, no livro 'The social contract', usou a teoria de seleção de grupo para explicar toda a ordem social em geral. Ele claramente vê o homem como uma espécie que desviou-se do caminho da integridade animal. Ardrey, pelo menos, fez suas lições de casa. Sua decisão de discordar da teoria ortodoxa foi consciente e por isso ele merece consideração.

Recentemente tem havido uma reação contra racialismo e patriotismo e uma tendência a adotar toda a espécie humana como objeto de nossa simpatia. Este alargamento humanístico do alvo de nosso altruísmo possui um corolário interessante, o qual novamente parece apoiar a idéia do "bem da espécie" em evolução. Os politicamente liberais, os quais normalmente são os porta-vozes mais convencidos da ética da espécie, agora frequentemente exibem grande escárnio por aqueles que foram um pouco além na ampliação de seu altruísmo, de forma a incluir outras espécies. Se eu disser que estou mais interessado em impedir o massacre de grandes baleias do que em melhorar as condições de habitação das pessoas, provavelmente chocarei alguns de meus amigos.

A sensação de que membros da própria espécie merecem consideração moral especial, em comparação com membros de outras espécies, é antiga e profunda. Matar pessoas sem se estar em guerra é considerado o crime mais sério normalmente cometido. A única coisa proibida mais energicamente por nossa cultura é comer pessoas (mesmo se elas já estiverem mortas). No entanto, apreciamos comer membros de outras espécies. Muitos de nós recuamos diante da execução judiciária até mesmo do mais horrendo criminoso humano, ao mesmo tempo que aprovamos alegremente que se atire sem julgamento em animais daninhos razoavelmente inofensivos. De fato, matamos membros de outras espécies inofensivas como meio de recreação e diversão. Um feto humano, não possuindo mais sentimento humano do que uma ameba, goza de respeito e proteção legal muito maiores do que aqueles dispensados a um chimpanzé adulto. No entanto, o chimpanzé sente, pensa e – segundo evidência experimental recente – talvez seja capaz até de aprender uma forma de linguagem humana. O feto pertence a nossa própria espécie e por causa disto imediatamente lhe são conferidos privilégios e direitos especiais.

Talvez uma razão para a teoria de seleção de grupo ser tão atraente é que ela harmoniza-se inteiramente com os ideais morais e políticos que a maioria de nós compartilha. Podemos frequentemente nos comportar egoisticamente como indivíduos, mas em nossos momentos mais idealistas reverenciamos e admiramos aqueles que colocam em primeiro lugar o bem-estar dos outros. No entanto, ficamos um pouco confusos sobre quão amplamente queremos interpretar a palavra "outros". frequentemente altruísmo dentro de um grupo condiz com egoísmo entre grupos. Esta é uma base do sindicalismo. Em outro nível a nação é uma beneficiada importante de nosso auto-sacrifício altruísta e espera-se que os rapazes morram, como indivíduos, para maior glória de seu país como um todo. Além disso, eles são encorajados a matar outros indivíduos sobre os quais nada se sabe a não ser que pertencem a uma nação diferente. (Curiosamente, apelos em tempo de paz aos indivíduos para que façam algum sacrifício pequeno na taxa pela qual aumentam seu padrão de vida parecem ser menos eficazes do que apelos em tempo de guerra aos indivíduos para que sacrifiquem suas vidas.)

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