Trechos por mim selecionados de BAUDRILLARD, Jean. Os bichos: território e metamorfoses.
Descobre-se que o detento tem necessidade de liberdade, de sexualidade, de "normalidade" para suportar a prisão, da mesma forma que os animais industriais têm necessidade de uma certa "qualidade de vida" para morrer nas normas. E nada disso é contraditório. O trabalhador também tem necessidade de responsabilidade, de autogestão para melhor responder ao imperativo produtivo. Todo homem tem necessidade de um psiquismo para ser adaptado. Não há outra razão para o advento do psiquismo, consciente ou inconsciente. E sua idade de ouro, que ainda perdura, coincide com a impossibilidade de uma socialização racional em todos os domínios. Jamais haveria ciências humanas nem psicanálise se não tivesse sido miraculosamente possível reduzir o homem a comportamentos "racionais".
Em outros tempos os bichos possuíam um caráter mais sagrado, mais divino que o dos homens.
Aqueles que sacrificavam os animais antigamente não os tomavam por bichos. E mesmo a Idade Média que os condenava e os castigava dentro das formalidades era muito mais próxima deles do que nós, a quem essa prática causa horror. Eles os tinham como culpáveis: o que era lhes fazer honra. Nós os temos como nada, é sobre essa base que somos "humanos" com eles. Não os sacrificamos mais, não os punimos mais, e ficamos orgulhosos, mas é simplesmente porque nós temo-los domesticados, pior: porque fizemos um mundo racialmente inferior, até mais digno de nossa justiça, onde é totalmente razoável nossa afeição e a caridade social, até mais digno de castigo e da morte, mas onde é totalmente razoável a experimentação e o extermínio como carne de açougue.
É a assimilação de toda violência relacionada a eles que produz hoje em dia a monstruosidade dos bichos. À violência do sacrifício, que é aquela da "intimidade" (Bataille), sucedeu a violência sentimental ou experimental, que é aquela da distância.
A monstruosidade mudou de sentido. Aquela original dos bichos, objeto de terror e de fascinação, mas nunca negativa, sempre ambivalente, objeto de troca e de metáfora, no sacrifício, na mitologia, nos bestiários heráldicos, e até nos nossos sonhos e fantasmas – essa monstruosidade, rica de todas as ameaças e de todas as metamorfoses, que se resolve secretamente na cultura viva dos homens e que é uma forma de aliança, nós a trocamos por uma monstruosidade espetacular: aquela do King Kong arrancado da sua selva e transformado em vedete de music-hall. Num só golpe, o cenário cultural é invertido. Antes, os heróis culturais destruíam o bicho, o dragão, o monstro – e do sangue derramado nasciam as plantas, os homens, a cultura; hoje em dia é o bicho King Kong que vem pilhar as metrópoles industriais, que vem nos libertar de nossa cultura, morta de ser expurgada de toda monstruosidade real e de ter rompido o pacto com ela (que se exprimia no filme pelo dom primitivo da mulher). A sedução profunda do filme vem dessa inversão de sentido: toda a humanidade é passada para o lado da bestialidade cativa, e da sedução respectiva da mulher e do bicho, sedução monstruosa de uma ordem para outra, o humano e o bestial. Kong morto por ter reconciliado-se, pela sedução, com essa possibilidade de metamorfose de um reino no outro, com essa promiscuidade incestuosa, ainda que jamais realizada, senão num modo simbólico e ritual, entre os bichos e os homens.
O essencial é que nada escape ao império do sentido, à partilha do sentido. Certamente, por trás de tudo isso, ninguém nos fala, nem os loucos, nem os mortos, nem as crianças, nem os selvagens, e no fundo nós não sabemos nada deles, mas o essencial é que a cara da Razão foi salva, e que tudo escapa ao silêncio.
Os animais não falam. Num universo de fala crescente, de constrangimento para a confissão e a fala, só eles permanecem mudos, e desse fato eles parecem recuar para longe de nós, para trás do horizonte da verdade. Mas é isso que faz com que tenhamos intimidade com eles. Não é o problema ecológico que é importante. É ainda e sempre aquele do seu silêncio. Em um mundo em vias de não fazer nada além de falar, em um mundo reunido à hegemonia dos signos e dos discursos, seu silêncio pesa cada vez mais sobre nossa organização do sentido.
|
|
http://soundcloud.com/input_output |
:: trabalho artístico :: projeto musical input_output | desenhos | fotografia instagram | fotografia flickr | pesquisa de discos | pesquisa de filmes | programa podcast musical ::
:: catarses musicais inativas :: hotel | blanched | o restaurante | homem que não vive da glória do passado ::
:: no pé da página :: currículo | discografia ::
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário