Follow douglasdickel on Twitter
www.flickr.com
[douglasdickel]'s items Go to [douglasdickel]'s photostream


Instagram
http://soundcloud.com/input_output
:: douglasdickel 18 anos de blog :: página inicial | leituras | jormalismo ::
:: trabalho artístico :: projeto musical input_output | desenhos | fotografia instagram | fotografia flickr | pesquisa de discos | pesquisa de filmes | programa podcast musical ::
:: catarses musicais inativas :: hotel | blanched | o restaurante | homem que não vive da glória do passado ::
:: no pé da página :: currículo | discografia ::

segunda-feira, 29 de junho de 2009

"Quer graça pode haver num ovo de galinha? Praticamente nenhuma, se quem o observa já perdeu o ímpeto de maravilhar-se com as banalidades do mundo. Mas, para crianças de 4 ou 5 anos, um ovo agrega mistérios que tirariam o sono dos filósofos. Como a natureza cismou de aninhar, em uma elipse tão despojada e frágil, um chumaço de plumas que, mais dia, menos dia, se transformará num galo altivo e musculoso? Sob os olhos tenros da infância, clara e gema são perguntas. Por isso, quando a empregada que trabalhava naquele pequeno sobrado de Milão colocou um trio de ovos prenhes diante de Contardo, o menino não conseguiu disfarçar a inquietude — um alvoroço que desaguou em assombro mal as cascas se romperam e desnudaram três pintinhos assustadiços. Um dos filhotes tinha a penugem marrom, com uma tonalidade semelhante à da nocciola (avelã). Contardo o batizou de Nocciolino. O segundo, muito branco, lembrava um picolé de limão. Virou Limontino. É certo que o terceiro também ostentava uma cor e um nome. O tempo, no entanto, se encarregou de apagá-los, talvez pelo impiedoso prazer de reiterar que, cedo ou tarde, nada fugirá do esquecimento. Poucas semanas depois de os ovos se quebrarem, Nocciolino & cia. teimavam em seguir Contardo para cima e para baixo. Marchavam perfilados atrás dele e, durante o trajeto, não cessavam de piar. Na ocasião, início da década de 1950, o garoto dividia o sobrado milanês com os pais e Bernardino, o primogênito da família. Os dois irmãos guardavam alguma distância um do outro, em razão de uma tênue rivalidade que se agravaria no futuro (disputa inconsciente pela atenção materna?). Não à toa, o caçula aplaudiu a chegada dos novos amigos. Julgou que as aves o acompanhassem por afeição. Lógico que ainda desconhecia as pesquisas revolucionárias de Konrad Lorenz. Em 1935, o zoólogo austríaco demonstrou que patos, gansos e pintinhos, tão logo abandonam os ovos, adotam como 'mãe' o primeiro animal que avistam, seja um gavião, uma tartaruga ou um leopardo, e só o largam depois de adultos. Não se comportam assim por convicção nem por gosto, mas por uma tragicômica ilusão. - Um dia os Calligaris saíram do sobradinho com galinheiro no quintal e se mudaram para um apartamento espaçoso. Contardo, agora beirando os 7 anos, possivelmente sentiu falta do cortejo alado e barulhento que liderava. Tratou, então, de arranjar uma orquestra imaginária, meia dúzia de músicos dispostos em fila indiana e amarrados numa única corda. O moleque puxava-os pela rua ou dentro do apartamento e, não raro, sugeria que tocassem: uma sonata, um bom jazz, o trecho de uma ópera. Solícitos, os rapazes sempre o acatavam, enchendo-lhe o cotidiano de uma trilha sonora inexistente." (Armando Antenore)

Nenhum comentário: