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domingo, 4 de setembro de 2016



Os meios hábeis para ação no mundo
(Lama Padma Samten)

Transcrito por Douglas Dickel do vídeo do retiro homônimo em 21/08/2016, 
no Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB) de Curitiba.

Aparentemente, sem desenvolvermos uma atitude adequada, parece que não tem solução. Se nós não nos preocuparmos em não produzir sofrimento e em produzir benefício para as pessoas, se nós não olharmos em volta desse modo, haverá grandes dificuldades. De modo geral, a gente pega aquilo que é favorável para nós, e empurra o sofrimento para adiante. Muito parecido com a questão do lixo. A gente pega o que a gente quer e descarta, para o infinito, o resto. O infinito, no caso, é o que está em volta, é aquilo para o que a gente não olha. Trazemos para dentro da nossa bolha o que é bom para nós e descartamos o que não serve. É quase como a ameba.

Independentemente disso, quando causamos sofrimento para os outros seres, eles nós olham atravessado e geram anticorpos, geram proteção com relação a nós. Como nós não trouxemos benefício, nós não criamos nenhuma aliança. Assim, é muito difícil andar. A essência do movimento é criar alianças positivas e resolver todas as negatividades que eventualmente possam surgir. Surgem relações favoráveis que sustentam o nosso caminho. As pessoas do Bloco -1 não têm essa habilidade, elas têm uma ideologia oposta. Do tipo ‘aqui todo mundo apronta com todo mundo; logo, aquele que não apronta se dá mal’. A questão é assim: ‘como aprontar mais rápido, antes que o outro consiga’. Se nós chegamos com uma bandeira de paz, eles já vão nos roubar a carteira – e levar a bandeira junto. Aquilo ali é rápido. É um pouco difícil de raciocinar nesse processo, mas existe método de trazer benefício para esses seres também.

A inteligência dos Infernos é a inteligência búdica também. Essencialmente temos uma natureza búdica. Tirando a complicação, o que sobra é a natureza búdica. Como a complicação é muito grande, a gente não consegue encontrar a natureza búdica. Mas se a gente for limpando, limpando, limpando... aparece a natureza búdica. A mente negativa brilha nos Infernos porque ela está dentro de uma bolha, operando também sobre referenciais construídos. Mas ali dentro não existe nenhum princípio ativo que não seja a natureza primordial. Se dividirmos entre bem e mal, imaginando que o princípio do mal está em algum lugar, nós vamos nos atrapalhar. Se imaginarmos que aquilo com o que estamos lidando, diante de nós, não é produzido pela natureza luminosa da mente, vamos nos atrapalhar. Precisamos entender que estamos lidando com inteligências búdicas em todas as direções. Essas naturezas búdicas estão operando dentro de avídia. Elas estão presas em bolhas de realidade, como se fossem jogos de tabuleiro, estão presas dentro daquele mundo de regras. Ali dentro elas atuam com a lógica daquele processo. Os infernos têm uma lógica específica, é um jogo específico. E aquelas pessoas não estão enganadas, estão esquecidas de sua natureza.

Quando ouvimos falar de delusão como a fonte de todos os problemas, imediatamente queremos achar um jeito de acabar com ela. Mas ela é a própria liberdade e a natureza criativa da mente. Em sânscrito, delusão é Avídia. Avídia é Prajna (sabedoria) ao avesso. Avídia é o que impede Prajna, Prajna é o reconhecimento do que está além de Avídia, ou a liberdade em meio a Avídia. Mas na verdade não são duas coisas, é apenas o mesmo cachorro atacando ou protegendo. Delusão tecnicamente é quando olhamos para uma coisa e esquecemos todas as outras. Ou seja, exatamente porque vemos, somos cegos. Exatamente porque um objeto surge, ignoramos todos os outros. Ela é a fonte das tendências cármicas, da identidade, das situações da vida e da morte.
http://tzal.org/delusao-como-a-mente-se-engana/

É importante entendermos o inferno como um mundo inteligente. As pessoas que estão ali dentro têm aquele brilho, uma capacidade de viver naquele mundo. Se estamos presos nas bolhas, vamos entender que precisamos atravessas aquelas paredes e manifestar a inteligência búdica além das bolhas. Assim nós vamos ultrapassando a Avídia. Avídia é a prisão, é The Wall, a parede que nos limita, que nos impede a visão. A moralidade nos ajuda nisso. A ética. Um outro balizamento. Esse outro balizamento se choca, por muitas vezes, com as paredes das nossas bolhas, e essa tensão é útil, porque começamos a atravessar as bolhas. A base do comportamento ético está em não trazer sofrimento aos seres e trazer benefício a eles. É fácil imaginarmos que, se tivermos um balizamento desse tipo, as coisas deverão melhorar. Por outro lado, assim, não conseguimos atuar perfeitamente dentro das nossas bolhas, porque elas incluem bater no outro, quebrar o outro, rir do outro e ter vantagem em relação ao outro.

Quando chegamos no bordo da bolha, vemos que ela é mais forte do que o nosso balizamento. Progressivamente descobrimos que não precisaríamos ter feito isso, que não precisaríamos ter feito aquilo etc. Descobrimos que precisamos dirigir a mente e dirigir a energia. Primeiro descobrimos que precisamos dirigir a mente. Depois descobrimos que a mente sozinha não tem força suficiente. Lembramos todas as palavras sobre o que devemos fazer, pela mente não há nenhuma dúvida, aquilo é o melhor mesmo, mas na hora de fazer a energia nos arrasta, e ela não precisa nenhuma razão - ainda dá uma risadinha. A energia é uma inteligência própria. Aí vem a prática de meditação. Todo mundo que pratica meditação vai avançar mais rápido. É o exercício de desenvolver a capacidade de manter a energia de modo autônomo, independente das bolhas. Se desenvolvermos essa capacidade de manter a mente e a energia autônomas, nós conseguimos atravessar as paredes das bolhas. Precisamos estabilizar a mente livre da bolha para poder olhar para as coisas e ver além das aparências - além das aparências que brotam das bolhas.

Depois do jogo, a pessoa diz 'Enfim, esse jogo é apenas um jogo'. A prática de meditação nos produz a habilidade de não entrar na bolha. Mas, se a pessoa construir isso da meditação de modo artificial, a bolha vai vencer. [Cria-se a bolha da 'pessoa que medita'.] O que dá consistência ao bordo da bolha é o gosto-ou-não-gosto. O jogo co-emerge com a minha mente. Surge uma dualidade. Não é que o jogo surge. Surge o jogo e a mente que vê aquilo como um jogo. A natureza luminosa da mente ampla produz a mente estreita que vê o jogo - e produz o jogo que é visto pela mente. Se não houver a mente que joga, não há o jogo diante. Mas tanto o jogo é a mente como o jogo-que-vê-a-mente é a mente. A mente se divide entre a aparência da bolha e quem vê a bolha. Podemos, assim, dizer que as aparências são vacuidade, as formas são vazias. Se meditamos e não somos arrastados, podemos olhar para as aparências e gerar algum nível de sabedoria. Quando tentamos não pensar, descobrimos que surgem pensamentos constantes. A nossa mente está constantemente fazendo brotar aparências internas. As aparências internas são o movimento da mente. E a observação disso é a lucidez. E a estabilidade é a continuidade dessa lucidez.

O segredo dessa prática é a posição onde estamos. Se estamos num lugar não construído, conseguimos ver as aparências como aparências que surgem e se movimentam. Se estamos dentro de uma bolha, tão logo surgem as aparências, gostamos ou não gostamos, queremos ou não queremos, movimentamo-nos a partir delas. Isso é sonho. Quando estamos sonhando, à noite, surgem aparências na nossa mente que produzem uma reação. Reagimos ao conteúdo delas. Ali, não pensamos que as aparências são de um sonho. Daquelas aparências nós produzimos outras, e pensamos sobre aquilo, e assim vamos andando.

Rigpa: É uma pura vacuidade onde nada de particular existe, onde claridade e vazio são indivisíveis; nem é eterno, pois que nada existe verdadeiramente, nem é o nada, pois que ele é claro e vivo. Não se reduz ao um, estando presente e consciente em tudo, e não é múltiplo, porque tem um único sabor na inseparabilidade. http://www.nossacasa.net/shunya/default.asp?menu=1166 

Se repousamos numa bolha mais ampla, é melhor, mas ainda não é rigpa. Se praticamos meditação, nós passamos a repousar em bolhas mais amplas, depois mais amplas, depois mais amplas, até que repousamos na 'bolha ampla', que não tem condicionantes. Quando isso se estabelece, como vamos trazer essa abordagem para o Bloco -1? Acho que é possível também. As pessoas que estão no Bloco -1, mesmo não entendendo, elas aspiram à felicidade e aspiram a se livrar do sofrimento. A felicidade seria matar o outro, por exemplo. Após um tempo de prática, temos um referencial para entender que erros existem.

A primeira forma de ação é Ação de Poder: não oscilar. É uma definição maravilhosa. Poder não é impor alguma coisa sobre o outro; poder é não se perturbar. Por exemplo, se nós estivermos diante de uma magia das aparências, o poder é não ser envolvido pela magia das aparências. Se eu me prender à magia das aparências, eu estou preso como qualquer outra pessoa. O Buda manifesta um corpo dentro de um mundo de sonho, para beneficiar seres de sonho. Se ele entrar no sonho, se ele ficar preso dentro do sonho, ele não tem como acordar as pessoas. Então isso é poder. A prática de poder é ampliada e estruturada a partir de meditação. A ação de poder não está estruturada porque está tudo perfeito ao redor. A ação de poder se amplia justamente com a perturbação que possa acontecer ao redor. A ação de poder é treinada especialmente no cotidiano. Nós estamos nos movimentando? Nós estamos treinando diretamente ação de poder. Capacidade de manter equilíbrio, lucidez, no meio do movimento. Se tivermos isso, pode ser que consigamos ajudar os seres. Se não tivermos isso, somos arrastados com eles. Está cheio de gente que vai salvar alguém que está morrendo afogado e morre junto.

O segundo ponto é a Ação Tranquilizadora. Ser capaz de reduzir o impacto da bolha sobre a pessoa. Tornar aquilo menos denso, menos hostil. A terceira ação é ajudar a pessoa a manifestar qualidades que estão obstruídas, Ação Incrementadora. Em quarto lugar vem a Ação Irada, a ação que faz ruir a caverna das aparências, furar a bolha, tirar o chão do outro, o conjunto de referenciais sobre os quais ele está atuando. Por compaixão, surge a ação irada. Ela não brota como uma ação negativa, como alguma coisa contra alguém; pelo contrário. Então tudo o que vamos fazer como ação no mundo tem esses quatro aspectos.

Essas ações surgem dentro do contexto das cinco sabedorias. A capacidade de reconhecer o outro no mundo dele é a sabedoria do espelho. As ações das pessoas não estão erradas. Elas são ações que brotam dentro de suas próprias bolhas de realidade. Elas são totalmente inteligíveis ali dentro, elas são razoáveis, elas têm sentido. Não podemos olhar as ações dos outros a partir da nossa bolha. A mente, de modo geral, não se engana. Quando a mente se engana, ela vê o engano e se ajusta. Aquilo que chamamos de engano é a operação em outras bolhas diferentes das nossas. A mente olha para as coisas e se move, só que ela se move dentro da estrutura de referenciais em que ela está operando. Precisamos entender isso. Senão, como podemos falar e sermos ouvidos?

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