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domingo, 4 de setembro de 2016



Exclusão e racismo ambiental
(Paulo Saldiva)

Vamos pensar que o planeta é um indivíduo. Cada país é um órgão e nós somos as bilhões de células que constituem esse órgão. Vamos descrever a doença planetária. O paciente está com febre, está esquentando; tem dependência química de uma droga chamada petróleo; uma obstrução arterial difusa, porque tem uns congestionamentos nas nossas artérias obstruindo o fluxo; uma obstrução de vias aéreas, pela qualidade do ar, que é ruim; diabetes, porque eu não uso energia eficientemente; insuficiência renal, porque eu não consigo colocar para fora os meus dejetos; alguns tremores de terra, uma certa flatulência externada sob a forma de tornados e tufões; uma certa impotência, vamos admitir, entre quatro paredes, porque a gente não consegue tomar uma atitude necessária para resolver isso; e uma disfunção cognitiva, como se fosse um Alzheimer precoce, porque os neurônios dirigentes acham que o planeta não vai esquentar mais do que alguns centésimos de grau ate as próximas eleições.

Esse e o quadro clinico do paciente. E, se o organismo está doente, as células estão doentes. Na cidade de São Paulo, morrem 4 mil pessoas a mais por ano devido a poluição do ar. Por AIDS é um pouquinho menos de mil. Tuberculose, 500. Por que que a gente não considera a poluição como um problema de saúde? Quem legisla sobre meio ambiente é o Ministério do Meio Ambiente, que nada entende de saúde; e, por sua vez, a Saúde não entende o meio-ambiente como sendo parte dela. Quando esquentar o planeta de acordo com os modelos climatológicos, se estiverem certos, onde que vai desertificar? Onde já é semi-árido. 30% da população do planeta vive em rios que nascem nos Himalaias, nas geleiras dos Himalaias. Quando acabar a água para esse povo, para onde eles vão? Nós vamos aumentar o cinturão de pobreza em torno das cidades. A malária aumentando, invadindo regiões temperadas, dengue. Todas as doenças carregadas por mosquitos vão afetar o homem, mas vão afetar igualmente? Elas vão afetar de forma homogênea? 40cm a mais de nível do mar vão afetar igualmente a Holanda e a Samoa?

Essa é uma questão central que tem que ser colocada porque há o homem agressor. Mas também há o homem impactado. Será que a dose da pessoa que está dentro do carro com ar condicionado, funcionando no modo de recirculação interna, tem a mesma dose do indivíduo que está no ponto de ônibus, esperando? O tempo de permanência das pessoas no corredor de tráfego quando se é mais pobre é muito pior, muito maior. A dose é maior. O ônibus velho, que não pode rodar no corredor 9 de Julho, ele desaparece no ar? Não, ele vai para a periferia, ou vai para cidades de menor porte. O aterro sanitário São João, que está se esgotando, está fazendo com que São Paulo exporte lixo para outras cidades, que recebem por isso. Isso eu chamo de "racismo ambiental".

O modelo dominante hoje no mundo é "ordem pela força". Não é "ordem pelo compartilhamento". E no modelo de ordem pela força, a força econômica determina esse poder. E isso explica que nós praticamos uma forma de racismo que para mim não tem justificativa ética, como qualquer outro racismo. O caminhão vendido no Brasil polui 90% mais do que o mesmo modelo vendido na Suécia - e fabricado no Brasil. Qual é a razão de saúde para explicar que o pulmão do brasileiro é 90% mais resistente do que o sueco? Ou que os bebês, ou que os idosos? O presidente da Exxon diz o seguinte: "Olha, nos tiramos petróleo a 3 dólares o barril na Arábia Saudita e vendemos a 80 dólares o barril na bolsa de Londres. Não há nada que desloque esse tipo de lucro". Embora todo o mundo se diga sustentável, e todas as companhias de petróleo coloquem isso numa maquiagem verde, e fazem ações de sustentabilidade - eles preservam animais silvestres, eles dão lustro no casco da tartaruga do Tamar, e fazem permanente no mico-leão-dourado - mas nada que interfira na sua estratégia de negócio!

Vamos colocar esse raciocínio numa indústria farmacêutica. Eu me responsabilizaria então pelos efeitos colaterais dos remédios até o momento em que eles chegassem na prateleira. Depois que vendeu, não é mais comigo. Por sua vez, as companhias de carro, que também são, na sua maior parte, sustentáveis, dizem o seguinte... o presidente da GM disse que nos EUA eles não conseguiam vender mais carros porque eles têm 760 veículos por mil habitantes. Então, tem bebê que não guia, tem doente que não guia, então dá mais ou menos um pouquinho mais do que um carro por habitante. Então eles não conseguem mais crescer lá, só podem crescer canibalizando o outro. Na Índia, tem ao redor de 30 a 40 veículos por mil habitantes. Vamos vender carro na Índia! Mas o custo de rua, o custo de ponte, o aquecimento: não é com eles. Pode esturricar a foca, nós vamos vender carro na Índia.

No Brasil, como nós temos 300 veículos por mil habitantes, tem a possibilidade de dobrar, um pouquinho mais do que dobrar. Dobrar, num cenário como esse! A nossa mobilidade chegou a 12km/h na cidade de São Paulo. Se os bandeirantes viessem teletransportados numa máquina do tempo e andando em tropas de mulas, chegariam primeiro que a gente. Então eu tenho um modelo que mata gente, aquece, atropela o planeta do ponto de vista ambiental e não traz vantagem nenhuma em termos de mobilidade. Essa questão é central e afeta predominantemente gente pobre. Nós deveríamos discutir francamente os aspectos éticos dessa questão. O fato de que quem vai pagar a conta são as pessoas que menos contribuíram não tem justificativa moral ou ética de forma alguma.

Nós temos que trabalhar com a noção de limites, assim como nos temos limites para colesterol, o quanto posso comer de gordura trans, o quanto eu posso beber. Debaixo de cada coisa do carro deveria ter: "Esse modelo contribui para o aquecimento global", assim como tem para o cigarro. "Contribui para a emissão de poluentes, e contribui para entupir as artérias da cidade". Porque ele ocupa muito mais espaço do que outro. Se eu vender o ovomóvel a corda, uma coisa que desse corda, um triciclo que andasse a 20km/h, ninguém compraria - embora possa andar mais depressa do que o carro que está marcado para andar a 200km/h. No programa de rádio Ouvinte Repórter, alguém liga e fala "Eu estou congestionado aqui na radial", o outro também fala "Eu também estou aqui"… Mas eu nunca vi ninguém falar: "Não pega o Butantã/USP porque está lotado", "Não pega o metrô da Zona Leste que está lotado". Eu acho que e nosso papel dar espaço para esse pessoal.

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