BILL MOYERS: A oração ao Senhor começa: “Pai Nosso que estás no Céu...” Não podia ter sido “Mãe Nossa”?
JOSEPH CAMPBELL: Essa é uma imagem simbólica. Todas as imagens religiosas e mitológicas se referem a planos de consciência, ou campos de experiência, que existem potencialmente no espírito humano. Essas imagens evocam atitudes e experiências propícias à meditação sobre o mistério da fonte do seu próprio ser. Houve sistemas religiosos em que a mãe era o principal progenitor, a fonte. A mãe, na verdade, é um progenitor mais próximo que o pai, porque o bebê nasce da mãe e o primeiro contato que experimenta é com a mãe. Tenho pensado, muitas vezes, que a mitologia é uma sublimação da imagem da mãe. Estamos falando da Mãe Terra. No Egito você tem a Mãe Céu, a deusa Nut, representada como sendo toda a esfera celeste.
MOYERS: Mas o que aconteceu, no meio do percurso, a essa reverência que, nas sociedades primitivas, era dirigida à figura da Deusa, a Grande Deusa, a Mãe Terra?
CAMPBELL: Bem, isso estava associado, primordialmente, à agricultura e às sociedades agrárias. Tinha a ver com a terra. A mulher dá à luz, assim como da terra se originam as plantas. A mãe alimenta, como o fazem as plantas. Assim, a magia da mãe e a magia da terra são a mesma coisa. Relacionam se. A personificação da energia que dá origem às formas e as alimenta é essencialmente feminina. A Deusa é a figura mítica dominante no mundo agrário da antiga Mesopotâmia, do Egito e dos primitivos sistemas de cultura do plantio. Encontramos centenas de variações da Deusa na primitiva Europa neolítica, mas praticamente nada ligado à figura masculina. O touro e certos animais, como o javali e o bode, podem aparecer como simbólicos do poder masculino, mas a Deusa é a única divindade visualizada, nessa altura. E quando você tem uma Deusa como criador, o próprio corpo dela é o universo. Ela se identifica com o universo. É esse o sentido daquela figura da deusa Nut, que você viu no templo egípcio. Ela é toda a esfera dos céus que abarcam a vida.
Quando você depara com uma perspectiva filosófica, como nas religiões consagradas à Deusa, na índia – onde a simbologia da Deusa é dominante ainda hoje, o feminino representa a maya. O feminino representa o que, em termos kantianos, chamamos de formas da sensibilidade. Ela é espaço e tempo, e o mistério para além dela é o mistério para além de todos os pares de opostos. Assim, não é masculina nem feminina. Nem é, nem deixa de ser. Mas tudo está dentro dela, de modo que os deuses são seus filhos. Tudo quanto você vê, tudo aquilo em que possa pensar, é produto da Deusa.
MOYERS: O que teria significado para nós se, em algum ponto do percurso, tivéssemos começado a rezar “Mãe Nossa” em vez de “Pai Nosso”? Que diferença psicológica isso teria ocasionado?
CAMPBELL: Isso certamente ocasionou uma diferença psicológica no caráter da nossa cultura. Por exemplo, a floração básica da civilização ocidental ocorreu nos grandes vales dos rios – o Nilo, o Tigre Eufrates, o Indo, e mais tarde, o Ganges. Esse era o mundo da Deusa. O nome do rio Ganges (Ganga), por exemplo, é o nome de uma deusa. E então vieram as invasões. Pois bem, as invasões começaram, para Naler, no quarto milênio antes de Cristo e foram se tornando cada vez mais devastadoras. Vieram do norte e do sul e destruíram cidades, da noite para o dia. Leia no Gênesis a história do papel desempenhado pela tribo de Jacó na queda da cidade de Siquém. Do dia para a noite, a cidade foi varrida do mapa por esses povos pastores, que surgiram repentinamente. Os invasores semitas eram pastores de cabras e ovelhas, os indo europeus eram pastores de gado. Uns e outros, primitivamente, eram caçadores, de modo que as suas culturas eram essencialmente orientadas para os animais. Onde há caçadores, há assassinos. E onde há pastores também há assassinos, porque estão sempre em movimento, são nômades entrando em conflito com outros povos e conquistando as áreas para onde se movem. E essas invasões traziam deuses guerreiros, lançadores de raios, como Zeus ou Jeová.
MOYERS: Algumas mulheres, hoje, dizem que o espírito da Deusa foi mantido em exílio por cinco mil anos, desde que...
CAMPBELL: Não se deve recuar tanto assim, cinco mil anos. A Deusa foi uma figura poderosa na cultura helenística do Mediterrâneo, e retornou com a figura da Virgem, na tradição católica romana. Nenhuma tradição da Deusa é celebrada mais esplêndida e maravilhosamente do que nos séculos XII e XIII, nas catedrais frances as, todas as quais se chamam Notre Dame.
(O poder do mito.)
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domingo, 9 de abril de 2017
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