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domingo, 9 de abril de 2017

A autora do livro "[MA] entre espaço da arte e comunicação no Japão", Michiko Okano, afirma que "o ma está presente em todas as manifestações culturais japonesas. Possui múltiplas semânticas, uma delas é a do espaço de possibilidade e disponibilidade e a outra é a de espaços intervalares, que desconstrói o pensamento dual e aposta na possibilidade de um espaço intermediário que pode ser concomitantemente as duas coisas".

A arquitetura ontológica construída por Aristóteles admitia apenas duas possibilidades – ser ou não ser –, que, baseadas no princípio da identidade e da não contradição, omitiam a terceira opção, aquela intermediária, de “nem ser, nem não ser”, a que o filósofo chamou de terceiro excluído. A lei aristotélica da não contradição traz em si a impossibilidade de uma proposição verdadeira ser falsa ou de uma proposição falsa ser verdadeira e, dessa forma, nenhuma proposição poderia estar nessas duas categorias ao mesmo tempo. Assim, o que era “um e outro” ou “nem um, nem o outro” ficava fora do sistema lógico racional bipolar criado para o desenvolvimento do conhecimento científico.

O que ocorre é que estudar o Ma exige, justamente, conhecer o tal espaço do terceiro excluído, do contraditório e simultâneo, habitado pelo que é “simultaneamente um e outro” ou “nem um, nem outro”. Esse caráter da possibilidade, potencialidade e ambivalência presente no Ma cria uma estética peculiar que implica a valorização, por exemplo, do espaço branco não desenhado no papel, do tempo de não ação de uma dança, do silêncio do tempo musical, bem como dos espaços que se situam na intermediação do interno e externo, do público e do privado, do divino e do profano ou dos tempos que habitam o passado e o presente, a vida e a morte. É nesse universo que este artigo nos convida a penetrar.

O Ma origina-se da ideia de um espaço vazio demarcado por quatro pilastras no qual poderia haver a descida e a consequente aparição do divino. O espaço seria, assim, o da disponibilidade de acontecer e, como toda possibilidade, o fato poderia concretizar-se ou não.

Para se apreender tal concepção, além de abdicar da lógica dual, é necessário também ter em mente que a possibilidade de “tudo poder ser” pertence ao campo da continuidade, ao passo que a entrada no reino da existência provoca um deslocamento para a esfera da contiguidade, regida pela sequencialidade. Assim, o aparecimento no mundo como fenômeno cria a descontinuidade dentro de uma múltipla possibilidade de ser, tornando singularidade aquilo que é manifestado e, logo, permitindo a experiência do seu conhecimento.

Ao tomar forma no mundo “no seu recorte fenomênico, a representação supõe estabilizá-lo para que seja possível um conhecimento, ainda que aquelas representações sejam frágeis e parciais” (Ferrara, 2007, p. 12). É por meio dessas manifestações fenomênicas que tendem à estabilidade que conseguimos reconhecer o Ma no mundo da existência.

O Ma, enquanto possibilidade, associa-se ao “vazio”, que, distinto de uma concepção ocidental cujo significado é o nada, é visto como algo do nível da potencialidade, que tudo pode conter, e, portanto, da possibilidade de geração do novo. É, por conseguinte, o vazio da disponibilidade de nascimento de algo novo e não da ausência e da morte. (Michiko Okano)

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