Sobre 'Split', do Shyamalan, o Pablo Villaça escreveu o que eu queria dizer:
"O suspense, como conceito formal, nada mais é do que uma expectativa que demora a se cumprir: ciente de que algo provavelmente irá ocorrer, o espectador antecipa algo enquanto o ato narrativo o adia. (...) Com o passar dos anos – e de seus filmes -, Shyamalan transformou o próprio ato de adiar em centro de sua estratégia como contador de histórias, parecendo se esquecer da outra parte importante: a de que o público só sente o suspense se houver algo a aguardar. Com isso, o que era para ser suspense virou mera interrupção, um arrastar de incidentes que soa como um floreio estilístico divorciado de significado ou propósito. E o fato de se tornar um roteirista cada vez mais pavoroso só aumenta o desastre.
"(...) (E a partir de agora vou comentar algumas passagens específicas; portanto, sugiro retomar a leitura apenas depois de assistir ao filme.) (...) Talvez a maior ofensa de Fragmentado seja o cinismo de Shyamalan ao empregar a pedofilia como uma mera reviravolta ao incluir diversos flashbacks ao longo da projeção cuja única função é preparar o terreno para a revelação de que Casey, quando criança, foi molestada pelo tio. E por que isso é importante? Porque as marcas deixadas em seu corpo, quando finalmente expostas depois que sua última blusa é retirada (sim, ela vai removendo a roupa durante a narrativa), levam o vilão a considerá-la como uma “igual”, salvando-a. Ora, devemos supor, então, que o fato de ter sofrido abuso foi algo bom? Ou que isto a torna tão “danificada” quanto o personagem de McAvoy? Qualquer uma das duas opções é ofensiva – e não há como descartá-las no contexto criado pelo roteiro."
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"Desde O Sexto Sentido, de 1999, o roteirista/diretor/produtor M. Night Shyamalan provou ter sempre ótimo instinto para o ritmo em que se constrói a tensão e para aquilo que sua câmera deve mostrar, e como – quais elementos de uma cena devem entrar no campo de visão do/a protagonista (e no do espectador), e que caminho o olhar deve percorrer para criar o máximo de dúvida e, portanto, de suspense. Esse é um dom que dificilmente se ensina, e que dificilmente se perde também: nesse aspecto, Fragmentado é Shyamalan no seu mais ágil.
"É pena que o desfecho caia no ridículo, porque no geral o filme genuinamente entretém, porque James McAvoy está muito bem em quase todos os seus papeis (na verdade, só quatro das “personalidades” têm participação marcante no enredo) e porque Anya Taylor-Joy confirma a impressão que deixou em A Bruxa, de que é mesmo um achado – uma combinação rara de inocência e estranheza, com aquela vibração de pessoa que atrai coisas esquisitas." (Isabela Boscov)
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domingo, 9 de abril de 2017
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