Mais sobre os "latidos do ego"
(Eckhart Tolle)
Na maioria dos casos, quando você diz "eu", é o ego falando, e não você. Ele é pensamento e emoção, é um punhado de memórias que você identifica como "eu e meu passado", um punhado de papéis habituais que você desempenha sem saber, de identificações coletivas como nacionalidade, religião, raça, classe social ou partido político. Também são identificações pessoais, como opiniões, aparência física, ressentimentos antigos, ideias de superioridade ou inferioridade, de sucesso ou fracasso.
O conteúdo do ego varia de pessoa para pessoa, mas, em todos os egos, é a mesma estrutura que opera. Em outras palavras: egos só se diferem na superfície; no fundo, eles são o mesmo. A identidade do ego é precária, porque suas bases – pensamento e emoção – são efêmeras por natureza, flutuantes. Cada ego está continuamente lutando para sobreviver, tentando proteger e ampliar a si mesmo. Para sustentar o tipo "eu" de pensamento, é necessário o pensamento oposto: "o outro". O "eu" conceitual não pode sobreviver sem o "outro" conceitual. E os outros são ainda mais outros quando eu os vejo como meus inimigos.
Em uma da ponta da escala desse padrão egoico inconsciente está o hábito compulsivo e egoico de procurar defeitos nos outros e de reclamar deles. Jesus se referiu a isso quando disse "Por que você vê o cisco que está no olho do seu irmão, mas não se dá conta do cepo que está no seu próprio olho?" No outro fim da escala, há a violência física entre indivíduos e a guerra entre nações. Na Bíblia, a questão de Jesus permanece sem resposta, mas ela é óbvia: porque, quando eu critico e condeno o outro, isso me faz melhor, me faz superior.
Reclamar é uma das estratégias favoritas do ego para aumentar a sua força. Cada queixa é uma pequena história que a mente inventa e na qual você acredita completamente. Se a reclamação é falada ou apenas em pensamento, não faz diferença. É um hábito e é inconsciente, o que significa que você não sabe o que está fazendo. Aplicam-se rótulos mentais negativos às outras pessoas. Xingamento com palavrões é a forma mais crua dessa rotulação e da necessidade do ego de estar certo e de triunfar sobre os outros: "imbecil, idiota, filho da puta" – todos pronunciamentos definitivos com os quais você não pode argumentar.
Ressentimento é a emoção que adiciona ainda mais energia ao ego. Significa sentir-se amargo, indignado, ofendido ou contrariado. Você se irrita com as ofensas das pessoas, com sua desonestidade, sua falta de integridade, com o que estão fazendo, com o que fizeram, com o que disseram, com o que fizeram de errado, com o que deveriam ter feito e com o que não deveriam. O ego adora isso. Quem está fazendo isso? A inconsciência em você, o ego. Às vezes, o "erro" que você aponta no outro nem está lá. É totalmente uma interpretação distorcida, uma projeção de uma mente condicionada para ver inimigos e para ver a si mesma como superior. Em outros casos, o erro pode estar lá, mas ao focar-se nele, às vezes com a exclusão de um aspecto positivo, você o amplifica. E, conforme você reage ao outro, você se sente mais forte.
Não reagir ao ego dos outros é uma das formas mais efetivas não só de sublimar o ego em si próprio, mas de dissolver o ego coletivo humano. Mas você só consegue estar na posição de não reagir se você identificar que o comportamento do outro está vindo do ego, bem como sendo uma expressão dessa disfunção coletiva humana. Quando você se dá contra de que a questão não é pessoal, deixa de existir a compulsão para reagir. Não reagindo ao ego, você estará apto para estimular a saúde dos outros, que é feita de uma consciência não condicionada. Às vezes você precisará se proteger das pessoas profundamente inconscientes. Isso você pode fazer não os vendo com inimigos. Sua maior proteção, entretanto, é estar consciente. Alguém se torna seu inimigo se você pessoalizar a inconciência que é o ego. Não-reação é perdão. Perdoar é deixar passar; ou, melhor ainda, olhar adiante. Você olha através do ego e enxerga a sanidade que está em cada ser humano, em sua essência.
O ego adora reclamar e fica irritado não só com outras pessoas, mas também com situações. O que você pode fazer com uma outra pessoa, você pode fazer com uma situação: torná-la uma inimiga sua. E o maior inimigo do ego, entre todos, obviamente, é o momento presente, ou seja, a vida em si.
Reclamar não pode ser confundido com informar alguém de algum equívoco que pode ser corrigido. Não há nenhum ego em dizer ao garçom que sua sopa está fria e que precisa ser aquecida – se você se ater aos fatos, será sempre neutro. "Como você ousa me servir sopa fria?!" – isto é reclamar. Neste caso, há um "eu" que adora se sentir pessoalmente ofendido pela sopa fria, um "eu" que tem prazer em fazer com que o outro esteja errado. Uma reclamação que está a serviço do ego, não da mudança. Às vezes fica óbvio que o ego realmente não quer mudar, porque só assim ele poderá seguir reclamando.
Perceba se você consegue flagrar a voz na sua cabeça, talvez no exato momento em que você estiver reclamando de algo, e reconhecê-la exatamente por o que ela é: a voz do ego, nada mais que um padrão mental condicionado, um pensamento. Quando você flagrar a voz, você também se dará conta de que você não é a voz, mas sim aquele que está consciente dela. Na verdade, você é a consciência que está consciente da voz. No plano de fundo, há a consciência. No primeiro plano, há a voz, o pensante. Ego implica inconsciência. Consciência e ego não co-existem.
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segunda-feira, 6 de julho de 2015
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