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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A impotência orgástica do homem
Fabio Veronesi*

Wilhelm Reich, cuja vida e obra são o marco fundador da Psicologia Somática, em seu livro A Função do Orgasmo, apresentou a sociedade científica o conceito de potência orgástica.

Antes disso, somente a impotência eretiva, a frigidez ou o anorgasmo eram consideradas disfunções sexuais. Com a concepção da potência orgástica, Reich mostra que mesmo havendo orgasmo pode haver disfunção sexual. Que há diferentes níveis ou intensidades de orgasmo e que muitos orgasmos não são plenos.

A potência orgástica está diretamente relacionada a capacidade de entrega amorosa, em outras palavras: orgasmo pleno é sinônimo de amar plenamente.

Me interessa trazer essas concepções reichianas ao assunto para mostrar o quanto o machismo rouba dos homens a possibilidade de sua realização plena como seres humanos, impedindo que o homem machista obtenha aquilo a que o machismo dá demasiado valor, colocando o homem na situação de “cachorro que corre atrás do próprio rabo”, ou seja, buscando desesperadamente o que é impossível de se alcançar e fechado em si mesmo nessa inconsciência. O machismo age desde cedo sobre a capacidade dos homens de se sensibilizarem, de entregar-se ao descontrole de suas emoções amorosas, exatamente o caminho para um orgasmo pleno.

Os homens confundem ejaculação com orgasmo e são inconscientes dessa condição de meros ejaculadores. O orgasmo pleno não é uma sensação apenas peniana. O orgasmo pleno toma conta de todo corpo e o submete a poderosas vibrações energéticas, movimentos involuntários e descontrolados, capazes de proporcionar prazeres e emoções dificilmente mensuráveis.

O segmento pélvico dos homens é visivelmente encouraçado. Resposta coletiva à opressão do machismo sobre os homens, um dos elementos da repressão sexual moralista. Os homens são socialmente castrados de expressar todos os movimentos pélvicos que promovam abertura das nádegas e maior exposição do ânus.

Como se houvesse um trauma coletivo ocasionado pelo medo de ser penetrado ‘por trás’ a qualquer instante. A postura geral do homem é de ‘ânus para dentro’. Não admira que também seja epidêmico entre os homens, quando envelhecem, o câncer de próstata, glândula que se localiza na região onde fica estagnada a energia sexual devido a cronicidade dessa postura. O “rebolado” do quadril, consequência natural do modo como o ser humano caminha, é contido no homem adulto. A liberdade de movimentos do segmento pélvico é fundamental para uma sexualidade sadia. Quanto mais encouraçado for esse segmento, menor a capacidade orgástica do homem.

Também é visível a contenção dos segmentos cervical e torácico nos homens em geral. Os pescoços são duros, os ombros são inexpressivos, cotovelos e pulsos são contidos. O homem não “desmunheca”. Isso retira uma infinidade de possibilidades expressivas que surgem de movimentos de “quebra” do pescoço, dos ombros, cotovelos e pulsos, de abandono ao próprio peso da cabeça, dos braços ou das mãos. Instaura também uma tensão crônica, uma “força a mais” sempre necessária para manter as mãos sustentadas, os braços armados, a cabeça fixa. Os segmentos cervical e torácicoescapular são a sede dos sentimentos. A livre expressão desses segmentos é fundamental para uma sexualidade sadia e também está relacionada à capacidade orgástica. A contenção cotidiana dessa expressividade instaura nos homens a incapacidade crônica de viver um orgasmo pleno, uma insatisfação crônica. Por isso há tantos homens insatisfeitos mesmo comendo muito, presos num círculo vicioso onde quanto mais comem, menos se sentem satisfeitos. Essa pode ser uma das gêneses da violência sexual patológica de alguns homens.

Os movimentos do “homem-comedor” clássico, aquele dos filmes pornográficos, são de alguém que mexe os quadris num ritmo constante e unidirecional (para frente e para trás) enquanto mantém o pescoço e os ombros duros, imóveis. O “orgasmo” dos homens de filme pornográfico é tão controlado que na imensa maioria dos roteiros desses filmes cabe ao homem se segurar para ejacular no rosto da mulher. Interessante analisar que à mulher é permitido, esperado e incentivado que se descontrole. Basta ver o quanto gemem as mulheres comparado aos homens nas relações de filme pornográfico.

A contrapartida está no homem que se desmancha na mulher, se mistura a ela, promove além do contato pélvico o contato torácico, pulsa em baixo e em cima. Se entrega ao descontrole de suas emoções e do orgasmo.
O reflexo do orgasmo é um fenômeno orgânico de ondulações verticais que promovem uma conexão harmônica entre os segmentos pélvico e torácico. Uma consequência da criação machista é a contenção corporal, expressiva, tanto de um quanto de outro segmento.

O problema não está só no fato da imensa maioria dos homens não viver a plenitude de sua sexualidade. O que assusta é o fato de se encontrarem inconscientes disso e incapazes de modificar essa situação.

Com estes escritos quero atingir a “virilidade” machista, que continua a esconder suas impotências e ejaculações precoces à base de Viagra, fugindo da conscientização dos reais motivos que geram essa situação.

É fundamental trazer a concepção reichiana de que a impotência orgástica gera o desejo de poder como compensação para falta de desejo de potência. Isso explica o que há por trás da competição e constante luta por maior poder financeiro, essa insatisfação que mantém todos sempre querendo ficar mais ricos, o poder de compra, o consumismo que assola populações, resultando no consumo do planeta.

A impotência orgástica é o solo fértil onde a ideologia capitalista dissemina sua cultura do poder, onde ter é mais importante do que ser ou, em outras palavras, possuir substitui a falta de capacidade de sentir.

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Fábiio Veronesi (abcpsigma@gmail.com) é psicoterapeuta somático, estudioso de Wilhelm Reich e da psicossomática reichiana, psicólogo formado pela UFSC, massoterapeuta bioenergético formado por Ralph Viana e somaterapeuta formado por Roberto Freire. Atua como terapeuta há mais de dez anos. Escreve teorias sobre Psicologia e artigos sobre cultura, ideologia e comportamento. http://sites.google.com/site/abcpsigma

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