(Tina Beattie)
O 'Anticristo' é uma alegoria do mito do livro de Gênesis que expõe os terrores psicológicos das crenças cristãs sobre as origens do pecado. O filme constrói suas imagens não somente a partir de filmes de horror modernos, mas também do medo de crenças medievais com seu sentido permeado do mal e do poder de Satã. O anticristo do título do filme está em tudo e em nada - uma presença viscosa e indefinível que está penetrada na natureza, inclusive na natureza humana, e que a infecta com futilidade, morte e deterioração. (...) Eu me lembrei do estudo que Paul Ricoeur fez do livro de Gênesis, no qual ele pondera a pré-existência do mal no Jardim do Éden, sugerindo que nós estamos em um mundo no qual o mal nos precede como um mistério inominável. (...) Seja qual for a origem do mal, ele já está com seu trabalho pronto antes de nós adentrarmos esse Éden envenenado.
Lars Von Trier fez 'Anticristo' num período seu de depressão profunda, e sua antipatia por terapeutas é famosa. Entretanto, seu alvo aqui não é a indústria da terapia, mas o poder controlador da mente racional masculina, que se nega a admitir o mistério do bem e do mal, o caos primal da natureza e os aspectos da experiência humana que estão além da linguagem e do controle da razão. (...)
Há uma cena em que a mulher ouve o choro do filho pela floresta. Ela começa a procurá-lo, mas ele parece estar em lugar nenhum ou em toda parte. De repente, a câmera sobe e então o que nós temos é uma visão pelo olho de Deus, e o choro da criança torna-se o choro de um Cristo cósmico, sofrendo pelos pecados do mundo. Essa imagem é reforçada a seguir, quando a mãe encontra a criança brincando num cômodo com um pedaço de árvore numa pose que remete às pinturas de Jesus criança na carpintaria de José, pressagiando a madeira da cruz. Mais tarde, a mulher usa o mesmo pedaço de madeira em um ataque castrador ao seu marido, numa das cenas mais perturbadoras e explícitas de abuso e mutilação sexual.

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