E, agora, um pouco das minhas aleatórias elucubrações sobre o simbolismo de 'Anticristo'. O mais interessante eu descobri esta madrugada, não sei se acordado ou sonhando, só sei que de manhã fiz uma busca no Google e percebi que ninguém no mundo virtual até agora fez essa relação que eu vou fazer a seguir. Sugiro que continue a leitura desta postagem aqui somente depois de ter visto o filme. O homem não tem nome, a mulher não tem nome. Sugere-se Adam e Eve porque eles se envolvem com o Eden. No Prólogo, a criança - e esta tem nome, Nic - derruba as três estatuetas dos Três Mendigos - Grief, Pain e Despair, a saber, Luto, Dor e Desespero - para logo em seguida atirar-se a si mesmo e o seu boneco pela janela até o chão, com as carícias dos flocos de neve que vão caindo. É uma queda. The fall. Sabe-se que Lars Von Trier desejava fazer uma trilogia sobre a "América", nome que se dá aos Estados Unidos, iniciada com 'Dogville', continuada com 'Manderlay' e interrompida diante do reconhecimento do próprio diretor quanto ao fracasso artístico do segundo filme. Voltemos à queda. Qual a queda mais famosa e mais significativa dos últimos anos? Torres Gêmeas, World Trade Center, 11 de setembro. Onde ficavam as Torres Gêmeas? Em Nova York. Qual a sigla usada para Nova York? NY. Ou? New Yor City, NYC. Nyc. Nic. Rá! Em cada época, as edificações mais altas são aquelas relacionadas à instutuição que está no poder. Já foram os castelos, as igrejas, agora são os prédios comerciais. A queda do símbolo duplo da hegemonia econômica - portanto política e bélica - da maior cidade norte-americana representou a queda da inocência de que os Estados Unidos eram impenetráveis. E isso enquanto o americano Dafoe fodia com a europeia Charlotte. Curioso. Em 'Dançando no escuro', o americano David Morse "fode" com a islandesa Björk.
A criança que cai pode também representar, ao meu ver, a inocência (genérica) que cai - ao se comer o fruto da Árvore Proibida - ou o filme que cai - e morre, e então deve ser produzido outro "filho", por meio de novas relações prazerosas e dolorosas e complexas, como o sexo. O luto atípico diagnosticado pelos médicos pode ser o luto de Lars com relação a 'Dançando no escuro', que lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes e (talvez o início de) uma depressão profunda. 'Anticristo' é o retorno à sua carreira, à sua caminhada progressiva até as profundezas do inferno humano, depois do fracasso de 'Manderlay'. Em tempo, não devemos esquecer que Lars é Eva, e não Adão. Lars é a mulher do filme. Charlotte Gainsbourg é quem interpreta a pessoa, o diretor. Talvez o homem seja todas as forças contrárias ao artista, o predominante lado masculino no pensamento/espírito ocidental. É o terapeuta tentando desamarrá-lo e amarrando-o cada vez mais. Lars é a fêmea e se sente culpado por ser tão diferente "do resto", talvez ele seja o próprio mal. Afinal, se existem tantos outros que ele considerava serem o mal, acaba surgindo aquela inversão do alienista de Machado de Assis. Lars é a fêmea de veado com um filhote morto pendurado na vagina, locomovendo-se no mundo com algo de que ele não consegue se livrar, que pode ser a depressão e/ou o 'Dançando no escuro'.
Quando a mulher deita na grama para perder o medo dela, ela se une com a natureza e se entrega à natureza humana terrena, ao chão, à terra, negando a condição de uma Maria Imaculada. E câmera mostra de cima a mulher em posição idêntica às das imagens da Virgem. E o que seriam os sapatinhos trocados de Nic?
Mais reflexões minhas a seguir.

Um comentário:
Genial. GE-NI-AL. Tenho que ver o filme de novo pra começar a elaborar minhas impressões. :)
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