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sábado, 3 de outubro de 2009

AUTOPOIESE, CULTURA E SOCIEDADE
Humberto Mariotti



Autopoiese

Para Maturana, o termo "autopoiese" traduz o que ele chamou de "centro da dinâmica constitutiva dos seres vivos". Para exercê-la de modo autônomo, eles precisam recorrer a recursos do meio ambiente. Em outros termos, são ao mesmo tempo autônomos e dependentes. Trata-se, pois, de um paradoxo. Essa condição paradoxal não pode ser bem entendida pelo pensamento linear, para o qual tudo se reduz à binariedade do sim/não, do ou/ou. Diante de seres vivos, coisas ou eventos, o raciocínio linear analisa as partes separadas, sem empenhar-se na busca das relações dinâmicas entre elas. O paradoxo autonomia-dependência dos sistemas vivos é melhor compreendido por um sistema de pensamento que englobe o raciocínio sistêmico (que examina as relações dinâmicas entre as partes) e o linear. Eis o pensamento complexo, modelo proposto por Edgar Morin.

Maturana e Varela utilizaram uma metáfora didática para falar dos sistemas autopoiéticos que vale a pena reproduzir aqui. Para eles, trata-se de máquinas que produzem a si próprias. Nenhuma outra espécie de máquina é capaz de fazer isso: todas elas produzem sempre algo diferente de si mesmas. Sendo os sistemas autopoiéticos a um só tempo produtores e produtos, pode-se também dizer que eles são circulares, ou seja, funcionam em termos de circularidade produtiva. Para Maturana, enquanto não entendermos o caráter sistêmico da célula, não conseguiremos compreender os organismos.

Reafirmo que esse entendimento só pode ser bem proporcionado por meio do pensamento complexo. No entanto, vivemos em uma cultura formatada pelo pensamento linear. Esse fato tem resultado em conseqüências importantes, algumas delas muito graves, como veremos a seguir.


Estrutura, organização e determinismo estrutural

Segundo Maturana e Varela, os seres vivos são determinados por sua estrutura. O que nos acontece num determinado instante depende de nossa estrutura nesse instante. A esse conceito, eles chamam de determinismo estrutural.

A estrutura de um sistema é a maneira como seus componentes interconectados interagem sem que mude a organização. Vejamos um exemplo simples, referente a um sistema não-vivo — uma mesa. Ela pode ter seus pés encurtados, alongados ou reposicionados e seu tampo mudado de retangular para circular, sem que isso interfira na sua configuração. O sistema continuará sendo identificado como mesa (isto é, manterá a sua organização), apesar dessas modificações estruturais.

No entanto, se desarticularmos os pés e o tampo e os afastarmos, o sistema se desorganizará e deixará de ser uma mesa. Dizemos então que ele se extinguiu. Da mesma forma, num sistema vivo a estrutura muda o tempo todo, o que mostra que ele se adapta às modificações do ambiente, que também são contínuas. Mas a perda da organização (a desarticulação) causaria a sua morte.

A organização é a determinante de definição e a estrutura a determinante operacional. A primeira identifica o sistema, diz como ele está configurado. A segunda mostra como as partes interagem para que ele funcione. O momento em que um sistema se desorganiza é o limite de sua tolerância às mudanças estruturais.

O fato de os sistemas vivos estarem submetidos ao determinismo estrutural não significa que eles sejam previsíveis. Em outras palavras, eles são determinados, mas isso não quer dizer que sejam predeterminados. Com efeito, se sua estrutura muda sempre e em congruência com as modificações aleatórias do meio, não é possível falar em predeterminação e sim em circularidade. Para evitar dúvidas sobre esse ponto, basta ter sempre em mente este detalhe: aquilo que acontece em um sistema num dado momento depende de sua estrutura nesse momento.

(...) Assim, não podemos afirmar que existe a objetividade da qual tanto nos orgulhamos. Para Maturana, quando alguém diz que está sendo objetivo, na realidade está afirmando que tem acesso a uma forma privilegiada de ver o mundo e que esse privilégio lhe confere alguma autoridade, que pressupõe a submissão de quem não é objetivo. Essa é uma das bases da chamada argumentação lógica.

Nossos condicionamentos nos levaram a ver o mundo como um objeto. Imaginamos que estamos separados dele. E vamos mais longe: por meio do ego, achamos que somos observadores afastados até de nós mesmos. Para que possamos exercer essa suposta objetividade, é necessário que estabeleçamos uma fronteira, uma divisão entre o ego e o mundo e também entre o ego e o restante de nossa totalidade. Dessa forma, dividimo-nos. E se nos tornamos divididos, o mesmo acontecerá ao nosso conhecimento, que por isso resultará limitado.

Eis o que conseguimos, com nossa pretensa objetividade: uma visão de mundo fragmentada e restrita. É a partir dela que nos imaginamos autorizados a julgar e condenar a "não-objetividade" e a "intuitividade" de quem não concorda conosco. Em outras palavras, a partir de uma visão dividida e limitada, pretendemos chegar à verdade e mostrá-la aos outros — uma verdade que julgamos ser a mesma para todos.


O acoplamento estrutural

Maturana e Varela observam que o sistema vivo e o meio em que ele vive se modificam de forma congruente. (...) O meio produz mudanças na estrutura dos sistemas, que por sua vez agem sobre ele, alterando-o, numa relação circular. A esse fenômeno, eles deram o nome de acoplamento estrutural. Quando um organismo influencia outro, este replica influindo sobre o primeiro. Ou seja, desenvolve uma conduta compensatória. O primeiro organismo, por sua vez, dá a tréplica, voltando a influenciar o segundo, que por seu turno retruca — e assim por diante, enquanto os dois continuarem em acoplamento. (...)


Ordenações, sociedades e indivíduos

(...) Todos nós somos, em grau maior ou menor, influenciados pela unidimensionalidade do pensamento linear, que nos leva a pensar que o lado mais agradável da vitória é derrotar alguém. É o chamado jogo de soma zero: uma interação na qual para que um ganhe o outro tem necessariamente de perder. Nesse clima, as pessoas, as coisas e os eventos não podem se complementar: é sempre indispensável que algo seja removido e descartado e que seu lugar seja reocupado. Essa situação pode até ser inevitável em casos específicos, mas não tem a abrangência que imaginamos.

De todo modo, a idéia invariável do outro como adversário, como inimigo a exterminar, é uma das marcas fundamentais da "competitividade" da nossa cultura. Por meio dela — e em especial no universo dos negócios e das empresas — vivemos no cotidiano essa paranóia. Trata-se de uma visão de mundo que exclui a possibilidade de que o outro possa ser momentaneamente superado pela competência, mas preservado para ser capaz de por sua vez aprender a vencer, isto é, aprender a ser competente. O ideal da "competitividade", pelo contrário, é vencer de tal modo que o vitorioso seja sempre o primeiro e o único — como se pudéssemos existir sem os outros e, pior ainda, como se pudéssemos ser os primeiros e únicos sem ser também os últimos.

Digamos a mesma coisa de outra maneira. Há pouco, escrevi que no mundo natural não há competitividade. O que há é competência. Como lembra Maturana, quando dois animais estão diante do mesmo alimento e apenas um come, ele o faz porque naquele momento foi o mais competente para tanto. Mas essa ação não implica que o que não comeu seja daí por diante impedido de comer e acabe morrendo de fome. Isso não acontece no mundo natural.

Entretanto, quando as circunstâncias envolvem a cultura o que comeu não se satisfaz por ter-se alimentado: precisa assegurar-se de que o que não comeu deixe de ser para ele uma ameaça, porque se sente inseguro de sua própria competência. Ou seja, não confia em si mesmo como ser vivo.

Portanto, precisa eliminar o outro. Mesmo assim — insistamos no que foi dito há pouco —, isso não se deve ao fator cultural em si: ocorre de modo mais visível em uma cultura como a nossa, que não sabe como lidar com a aleatoriedade, a imprevisibilidade e as mudanças constantes. E estas, como sabemos, são a própria essência da vida. Em outras palavras, não sabemos lidar com a autopoiese. E por não sabermos precisamos agredi-la e, no limite, negá-la.

Nada disso, é claro, invalida o conceito de autopoiese. Pelo contrário, sua eficácia para ajudar a diagnosticar a autoagressão dos indivíduos e sociedades humanas apenas o confirma e valoriza. Retomemos agora a questão de Maturana e Varela: até que ponto a fenomenologia social pode ser considerada uma fenomenologia biológica? As reflexões acima já a responderam: a fenomenologia social tal como a vivemos é biológica, sim — mas é patológica.


Por fim, todas estas reflexões permitem concluir que:

a. A autopoiese, tal como proposta por Maturana e Varela, de fato resolve o problema da fenomenologia biológica e a define com clareza.

b. Sob esse ponto de vista, a fenomenologia social pode ser considerada uma fenomenologia biológica, porque a sociedade é constituída de seres vivos.

c. No entanto a idéia de autopoiese, quando aplicada como instrumento de análise, permite perceber que as sociedades atuais são automutiladoras e portanto patológicas.

d. Grande parte dessa patologia se explica pelo fato de que a mente de nossa cultura é formatada pelo pensamento linear, que propõe que as causas são imediatamente anteriores aos efeitos ou estão muito próximas deles, e afirma que essas relações ocorrem sempre no mesmo contexto de espaço e tempo.

e. Esse modelo mental é necessário para entender e pôr em prática as circunstâncias mecânicas da nossa vida (produção material, ingestão, processamento, excreção e intercâmbio de bens tangíveis). Mas não é suficiente para compreender e lidar com as dimensões que envolvem sentimentos e emoções.

f. Dessa forma, o modelo mental linear é adequado para servir de base à economia dita "de mercado", que subestima ou ignora as dimensões não-mecânicas da existência humana. Por isso, ela cria cenários nos quais o ser humano total (isto é, o homem complexo) é sempre dividido, utilizado e por fim e descartado.

g. Trata-se, pois, de uma super-simplificação da condição humana, que tem a pretensão de resolver problemas sistêmicos, multidimensionais, por meio de um modelo de pensamento linear e unidimensional.

h. A partir daí formam-se sociedades mórbidas, que insistem no desrespeito à autopoiese de seus componentes. São comunidades que se dizem em busca de uma boa qualidade de vida. No entanto, a observação atenta mostra o que na realidade ocorre: essa qualidade, além de ser acessível a poucos, está passo a passo se transformando no subproduto de uma indústria muito maior — que começa pela negação do humano e acaba na exclusão social e na morte.

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