Miriam Leitão – Há quem sustente a surrada tese de que é preciso torcer contra o Brasil porque a vitória poderia ter efeito político favorável ao governo. Ora, ora. Esse erro foi cometido por uma parte da esquerda em 1970. Havia até mais motivo para as pessoas confundirem as estações. O governo militar, comandado pelo pior dos generais que indevidamente ocuparam a cadeira da presidência, misturou tudo de propósito. O “Pra Frente Brasil” era na verdade um apoio explícito à ditadura que naquele momento torturava mais, matava mais, endurecia o jogo contra todos e todas. O coração verde e amarelo dividia-se naquela ambiguidade propositadamente criada pelo regime autoritário.
Depois de 1990, houve eleições a cada quatro anos e, por isso, sempre coincidindo com as copas. Que transferência de voto houve nas derrotas e nas vitórias da seleção? Nenhuma. Em 1994, a vitória do governo nada teve a ver com o que houve nos gramados dos Estados Unidos, quando o Brasil ganhou o tetra. Teve mais relação com a vitória do Plano Real na longa luta contra a hiperinflação. O PT não entendeu o plano e torceu contra. Pagou seu preço à época por não ter tido a dimensão da torcida nacional no campo monetário.
Naquele ano, o Brasil ficou de olho na Copa, vivendo a expectativa pelo desempenho da seleção, apesar de estar ocupadíssimo fazendo a complicada conversão dos salários, preços, contratos e aplicações financeiras do inflacionado cruzeiro real para uma moeda virtual que prometia depois ser real. Era um momento confuso e tenso na economia, mas ninguém jogou para escanteio a torcida pela seleção.
Em 2002, foi uma vitória linda contra a Alemanha, naquele final da Copa em que havia dois países-sede, Japão e Coreia. Aqui, ninguém ficou dividido apesar de a economia estar enfrentando os reflexos da dúvida sobre o que seria a política econômica do PT, que se fortalecia a cada nova pesquisa eleitoral. Encerrada a Copa, o país venceu a dúvida, a crise cambial, e votou na então oposição para governar o país.
Enfim, política, economia e futebol são times separados. O eleitor faz sua escolha política, o país tenta superar dificuldades econômicas, e, no futebol, torce pela seleção. E se há várias evidências de que a economia tem reflexos na política; não há qualquer indício de que temos que negar o apoio ao time que nos ocupa o coração só por uma bronca contra o governo.
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terça-feira, 3 de junho de 2014
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