(Bader Burihan Sawaia)
Espinosa queria entender o que leva os homens a lutarem por sua servidão como se fosse por sua liberdade, isto é, entender a servidão como ilusão de liberdade para encontrar os caminhos pelos quais a verdadeira libertação pudesse se tornar desejada e alcançada. A resposta ele vai encontrar no sistema de afetos; assim, nos ensina que as ações revolucionárias são inócuas se não são desbloqueadas as forças reprimidas da subjetividade em direção a alegria de viver, que é, por sua vez, a base da liberdade. Os homens se submetem à servidão porque são tristes, amedrontados e supersticiosos. Enredados na cadeia das paixões tristes, anulam suas potências de vida e ficam vulneráveis à tirania do outro, em quem depositam a esperança de suas felicidades. Por isso, afirma Espinosa, não se destrói uma tirania eliminando o tirano, pois outros o substituirão caso as relações servis não forem substituídas. É preciso destruir as relações que sustentam a escravidão.
[Inserção minha.] "Somos assim. Sonhamos o vôo, mas tememos as alturas. Para voar, é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isto que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram. É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas da gaiola estivessem abertas. A verdade é o oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas ao vôo. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam." (Rubem Alves)
(...) Alegria é o sentimento que temos quando nossa capacidade de existir aumenta. Tristeza é definida por Espinosa como o resultado de uma afecção que diminui nossa capacidade de existir e nos tornamos passivos. Diz-se 'livre' o que existe exclusivamente pela necessidade de sua natureza e por si só é determinados a agir; e diz-se 'necessário', ou, mais propriamente, 'coagido', o que é determinado por outra coisa a existir e a operar de certa e determinada maneira, de acordo.
(...) A paixão, embora seja da ordem da ilusão, não pode ser vencida pela razão, pelo simples fato de que razão e emoção não são funções distintas e independentes, ao contrário, operam juntas e em simultâneo. Portanto, razão sem emoção é abstração.
(...) Espinosa e Vygotsky defendem que a busca da felicidade é um ato político e que só se é consciente quando se é livre, isto é, quando a consciência resultar de uma decisão interior, autônoma, e não de obediência a um comando ou pressão externa. Segundo Marilena Chauí, 'liberdade de pensamento e de expressão e a busca da felicidade não são perigosas para a paz e a segurança do Estado. Ao contrário, são suas condições'.

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