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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Trechos livremente selecionados e digitados do livro 'Ser criativo', de Stephen Nachmanovitch:


Em sânscrito existe uma palavra, lîla, que significa 'jogo', 'brincadeira'. Mais rica de sentidos do que as palavras correspondentes em nossa língua, ela significa brincadeira divina, o jogo da criação, destruição e recriação, o dobrar e desdobrar do cosmos. Lîla, profunda liberdade, é ao mesmo tempo a delícia e o prazer do momento presente e a brincadeira de Deus. Significa também 'amor'.

Lîla pode ser a coisa mais simples que existe - espontânea, infantil, franca. Mas, à medida que crescemos e experimentamos as complexidades da vida, ela também pode ser a conquista mais dura e difícil, e chegar a desfrutá-la é como retornar ao nosso verdadeiro ser.

Existe algo energizante e desafiador em estar frente a frente com a plateia e criar uma peça musical que tem ao mesmo tempo o frescor do momento fugaz e - quando tudo funciona - a tensão e a simetria estrutural de um organismo vivo. Pode ser uma experiência extraordinária e muitas vezes mobilizadora de comunicação direta.

Num certo sentido, toda arte é improvisação. Algumas improvisações são apresentadas no momento em que nascem, inteiras e de repente; outras são 'improvisações estudadas', revisadas e estruturadas durante certo tempo antes que o público possa desfrutá-las.

Existe em todas as formas de expressão uma unidade de experiência que é a essência do mistério criativo. O âmago da improvisação é a livre expressão da consciência quando desenha, escreve pinta ou toca o material bruto que emerge do inconsciente. Essa liberdade acarreta certo grau de risco.

Como é que alguém aprende a improvisar? A única resposta possível é outra pergunta: O que nos impede? A criação espontânea nasce de nosso ser mais profundo e é imaculadamente e originalmente nós. O que temos que expressão já existe em nós, é nós, de forma que trabalhar a criatividade não é uma questão de fazer surgir o material, mas de desbloquear os obstáculos que impedem seu fluxo natural.

A criatividade é a harmonia de tensões opostas, encapsulada na nossa ideia irrestrita de lîla, ou brincadeira divina. À medida que acompanhamos o fluxo do nosso próprio processo criativo, oscilamos entre os dois polos. Se perdemos a alegria, nosso trabalho se torna grave e formal. Se perdemos o sagrado, nosso trabalho perde contato com a terra em que vivemos.

Caminhar por uma cidade desconhecida seguindo a intuição é muito mais gratificante do que uma excursão planejada por lugares testados e aprovados. Mas esse passeio é totalmente diferente de perambular a esmo. Existem muitas situações em que somos impropriamente solicitados a planejar ou roteirizar o futuro.

Para fazer qualquer coisa com arte é preciso adquirir técnica, mas criamos por meio de nossa técnica, e não com ela.

A fidelidade ao momento presente exige uma contínua entrega. Como músico improvisador, não estou no campo da música nem da criatividade; estou no campo da entrega. Improvisar é aceitar, a cada respiração, a transitoriedade e a eternidade. Sabemos o que poderá acontecer no dia seguinte ou no minuto seguinte, mas não sabemos o que vai acontecer. Na medida em que nos sentimos seguros do que vai acontecer, trancamos as possibilidade futuras, nos isolamos e nos defendemos contra essas surpresas essenciais. Entregar-se significa uma atitude de não saber, nutrir-se do mistério contido em cada momento, que é certamente surpreendente, e sempre novo.

Qualquer bom músico de jazz possui inúmeros truques de que pode se servir quando se vê num beco sem saída. Mas para improvisar você precisa abandonar esses truques, entrar no vazio e aceitar riscos, até mesmo o de dar com a cara no chão de vez em quando.

A pessoa que improvisa não opera a partir de um vácuo, mas de três bilhões de anos de evolução orgânica: tudo o que já fomos está codificado em algum lugar dentro de nós.

Hakuin escreveu: 'Quando se esquece de si mesmo, você se torna o universo.' Essa misteriosa entrega, acriativa surpresa que nos liberta e nos abre para o mundo, permite que algo brote espontaneamente. Se formos transparentes, se nada tivermos a esconder, o abismo entre a linguagem e o Ser desaparece. Então a Musa pode se manifestar.

As crianças brincam com qualquer coisa em que possam pôr as mãos. O ambiente onde a diversão ocorre pode ser informal ou extremamente solene.



"A arte dissipa superfícies aparentes e mostra o infinito, que está oculto." (William Blake)

"A criação do novo não é conquista do intelecto, mas do instinto de prazer agindo por uma necessidade interior. A mente criativa brinca com os objetos que ama." (Carl Gustav Jung)

Um comentário:

adriano a. disse...

"Para fazer qualquer coisa com arte é preciso adquirir técnica, mas criamos por meio de nossa técnica, e não com ela."

Estava conversando com um amigo meu ontem sobre isso. Ele me perguntava porque eu não volto a desenhar. Eu disse que é porque eu não tenho técnica.
Essa frase sintetiza o quão importante é ser um criador, mas ainda com "sabedoria", para saber o que você está fazendo.