(John Briggs e F. David Peat, A sabedoria do caos)
O antropólogo polonês Bronislaw Malinowski foi o primeiro a ressaltar como o que ele denominava 'discurso fático' - perguntas sobre o tempo ou o cumprimento nas ruas - cria a atmosfera geral que mantém a coesão da sociedade. Os índios Micmac, do leste do Canadá e da Nova Inglaterra, concordam. Para eles, a tarefa mais importante do dia da pessoa é dar uma volta pela comunidade e jogar conversa fora. No caso, o conteúdo da conversa é obviamente menos importante que o fato de se tomar parte nela. É aí que está a verdadeira influência de cada um. A influência sutil é a que cada pessoa exerce, para o bem ou para o mal, por ser como é. Quando somos negativos ou desonestos, isso gera uma influência sutil sobre os outros, independentemente de qualquer impacto direto que o nosso comportamento possa ter. Nossa atitude e nossa maneira de ser criam o clima em que os demais vivem, a atmosfera que respiram. Ajudamos a fornecer os nutrientes do solo em que os outros crescem. Se somos genuinamente felizes, positivos, solícitos, prestativos e honestos, isso influencia as pessoas ao nosso redor de maneira sutil. Em se tratando de crianças, todos sabem disso. Elas reagem a quem você é muito mais do que àquilo que você diz. Não obstante, todos somos afetados de modo muito profundo e sutil pela maneira de ser alheia.
O poder da borboleta destaca como as pessoas comuns podem ter uma profunda influência na sociedade. Porém, também aponta para a humildade fundamental necessária para se exercer essa influência de modo positivo. Tal como ocorre com as flutuações aleatórias constantes na panela de água aquecida, jamais podemos ter certeza do grau de importância que terá a nossa própria contribuição individual. Nossa ação pode perder-se no caos que nos cerca, ou pode vir a fazer parte de um daqueles muitos ciclos que sustentam e reabastecem uma comunidade aberta e criativa. Em raras ocasiões, pode até ser apanhada e amplificada até transformar toda a comunidade em algo novo. Não podemos saber o resultado imediato. Podemos jamais vir a saber se, ou como, ou quando nossa influência terá um efeito. O melhor que podemos fazer é agir com verdade, com sinceridade e com sensibilidade, lembrando que nunca é uma pessoa que provoca a mudança, mas sim o feedback da mudança em todo o sistema.
Sete métodos de enfrentar o caos cotidiano:
1. usar a criatividade;
2. usar o poder demonstrado pela metáfora da borboleta;
3. nadar com a corrente;
4. explorar o que se insinua nas entrelinhas;
5. observar o que o mundo tem em comum com as artes;
6. viver no âmago do tempo; e
7. reintegrar-se ao Todo.
O termo “caos” refere-se a uma interconectividade subjacente que existe em fatos aparentemente aleatórios. A ciência do caos enfoca matizes, padrões ocultos, a “sensibilidade” das coisas e as “regras” que regem os meios pelos quais o imprevisível causa o novo. É uma tentativa de compreender os movimentos que criam as tempestades, rios turbulentos, furacões, picos pontiagudos, litorais nodosos e todos os tipos de padrões complexos, desde deltas de rios até os nervos e vasos sangüíneos do nosso corpo. Há três temas subjacentes que permeiam essas lições do caos: controle, criatividade e sutileza.
A teoria do caos diz que a competição e a cooperação não são ideias que se excluem. Elas se entrelaçam de maneira complexa. Um sistema caótico complexo, como uma floresta tropical ou o corpo humano, contém uma dinâmica criativa em constante desdobramento, na qual o que chamamos de competição pode subitamente converter-se em cooperação e vice-versa. Nos sistemas caóticos, as interconexões fluem entre elementos individuais em muitos níveis diferentes. No corpo, esses níveis incluem as moléculas que se movem entre as células, as próprias células, os tecidos, os órgãos e os sistemas distribuídos - como os sistemas imunológico e endócrino, com seus hormônios secretados por glândulas diversas. Em vez de ver esses níveis de ordem em termos de competição, o caos concentra-se em como os elementos dentro dos sistemas e as relações entre estes estão em contínua reorganização à beira do caos.
A atividade de um sistema caótico, composta de feedback interativo entre as muitas escalas de “partes”, às vezes é chamada pelo nome poético de “atrator estranho”. Quando os cientistas dizem que um sistema tem um “fator de atração”, querem dizer que, se fizerem no espaço matemático um gráfico das mudanças ou do comportamento do sistema, ele mostrará que o sistema repete um padrão. O sistema é “atraído” por esse padrão de comportamento, dizem os cientistas. Em outras palavras, se perturbarem o sistema, afastando-o do seu comportamento, ele tenderá a retornar ao seu padrão o mais rápido possível. De modo geral, um organismo saudável, animal ou vegetal, tem um atrator estranho e é um atrator estranho – indo e vindo, movendo-se, mudando, cheio de ciclos de feedback positivos que empurram o sistema em novas direções e ciclos de feedback negativos que evitam que os processos descambem para o mero esquecimento aleatório. Dentro do atrator estranho geral do organismo escondem-se muitos subconjuntos de atratores (por exemplo, o coração e o cérebro), cada qual com seu próprio grau particular de “regularidade” – em outras palavras, cada qual mais ou menos estranhos.
[Emergência]
Quando indivíduos variados se encontram, eles têm um tremendo potencial criativo. Na medida em que os indivíduos – cada qual com sua própria criatividade auto-organizada – se agregam, eles abrem mão de alguns graus de liberdade, mas descobrem outros. Surge assim uma nova inteligência coletiva, um sistema aberto, imprevisível em relação a qualquer coisa que alguém pudesse esperar observando os indivíduos agindo apenas isoladamente.
Nossos governos, as corporações para as quais trabalhamos e mesmo os grupos de lazer e os grupos religiosos aos quais pertencemos às vezes fazem coisas terríveis em nosso nome. Quando isso ocorre, jogamos a culpa nos líderes ou nos demais membros do grupo. Sentimo-nos alienados da atividade coletiva de que somos parte integrante e conivente. Em determinado nível, podemos nos identificar totalmente com a organização, mas, em outro, sentimos que ela constitui um outro estranho, um eles. O ponto de vista do caos permite-nos ver que a nossa aflição tem muito a ver com o modo como assumimos o pressuposto de que as organizações se sustentam basicamente na liderança, na competição e no poder.
Aparentemente criamos uma realidade em que as organizações e os indivíduos nela inseridos lutam com unhas e dentes. Entretanto, não é isso o que diz o caos. Segundo ele, o problema e que nós pensamos que vivemos nessa realidade. Como achamos que é nela que vivemos, o poder, a competição e a hierarquia acabam por dominar nossa mente. Não obstante, o caos diz que, se examinarmos atentamente as organizações de hoje, veremos que há algo muito diferente de tudo isso ocorrendo lá dentro – algo que pode até nos estimular a mudar o nosso modo de pensar. O caos revela que as corporações reais são tanto atrações estranhas quanto hierarquias. São tanto sistemas não-lineares abertos – inextricavelmente entrelaçados com o ambiente que proporcionou sua existência, sujeitos às flutuações desse ambiente e do pessoal que flui através deles – quanto centros de poder. Com efeito, as influências sutis e o feedback caótico estão em constante atividade dentro das organizações.
Do ponto de vista do caos, o verdadeiro problema é que – talvez desde o início da 'civilização' -, os seres humanos impuseram ideologias de hierarquia, de poder e de competição às suas tendências naturais à atividade criativa coletiva. Ampliamos certos elementos do processo coletivo até eles se tornarem o processo inteiro. O resultado é que agora temos um mundo repleto de organizações que se frustram mutuamente e estão sufocando a criatividade dos indivíduos que as constituem. Estão gerando tormentos desnecessários e disputas psicológicas.
A vida é simples ou complexa? A teoria do caos diz que pode ser as duas coisas, e mais – pode ser ambas ao mesmo tempo. O caos revela que o que parece incrivelmente complicado pode ter uma origem simples, enquanto a simplicidade pode ocultar algo de assombrosa complexidade. O muito simples e o altamente complexo são reflexos um do outro. São como o deus romano Jano, que geralmente é representado olhando em duas direções ao mesmo tempo e, assim, possuindo duas faces inseparáveis entre si. Estresse demais faz as pessoas ficarem doentes, mas os pesquisadores descobriram que é necessário um pouco do caos na vida para que o sistema imunológico funcione corretamente. A teoria do caos diz que, quando a vida parece complicada ao extremo, pode haver uma ordem simples bem ao nosso lado. E, quando tudo parece simples, devemos ficar atentos às nuances e sutilezas ocultas.Em nosso mundo moderno, o tempo tornou-se o nosso captor. A essência do tempo foi reduzida a uma mera quantidade, uma medida numérica de segundos, minutos, horas e anos. Parecemos nunca ter tempo suficiente, mas quando conseguimos um pouco de tempo nós o desperdiçamos. As qualidades do tempo desapareceram. Para nós, o tempo perdeu sua natureza interna. Em outras sociedades, o tempo é uma energia do Universo, um rio a ser navegado, um seio onde encontrar repouso. Neste mundo pós-industrial, o tempo tornou-se mecânico, impessoal, externo e desconectado da nossa experiência mais íntima. Enquanto acreditarmos que o tempo é uma linha reta será difícil explicar muitas das nossas experiências temporais internas.
A ideia de que o tempo tem uma dimensão fractal está de acordo com a nossa experiência imediata. Aí está a porta para entrarmos nos redemoinhos e nas correntes do tempo e explorar seus vórtices turbulentos. Na verdade, provavelmente já estivemos lá. Durante um acidente com risco de vida, o tempo parece ficar suspenso. Os eventos se sucedem em câmara lenta. Temos um estranho mundo de tempo para decidir se devemos frear ou acelerar para escapar a uma possível batida. É como se cada acontecimento do processo se desenvolvesse em seu próprio tempo individual, com sua própria proporção de ser e movimento.
Essa experiência de tempo pode não ser tanto uma ilusão provocada por uma mente sobrecarregada de adrenalina, mas uma visão momentaneamente clara de como se dá o funcionamento exato das coisas nas dimensões do tempo. Em momentos de crise, nós nos desligamos temporariamente do tempo mecânico do relógio e penetramos no tempo fractal, vivenciando suas nuances temporais.
Enquanto examinamos os detalhes fractais do tempo, há microeventos fluindo dentro de nós, cheios de nuances mal percebidas antes; ao mesmo tempo, começamos a sentir o fluxo de ondas de tempo mais amplas e lentas – o movimento do sol cruzando o céu, o aquecimento da Terra, o crescimento das sementes, o envelhecimento das árvores. Estas dimensões fractais do tempo também se enroscam e quebram dentro do nosso corpo. Quando a sociedade que criamos nos separa do significado mais profundo do tempo, ela nos rouba da nossa conexão com os ritmos da própria vida.
As muitas tarefas das pessoas criativas são realizadas concomitantemente, cada qual em seu próprio tempo, e esses tempos são reunidos, recebendo energia uns dos outros. Se somássemos, em um quadro de horário linear, o tempo total que parece estar envolvido em um dia criativo, provavelmente o resultado excederia 24 horas. Mas os criadores estabelecem uma aliança com as dimensões fractais do tempo, e este, por sua vez, fornece-lhes o tempo de que precisam. A verdade é a seguinte: o tempo que desejamos de verdade é o tempo fractal de que dispomos agora.
A teoria do caos ensina que somos sempre parte do problema e que tensões e deslocamentos específicos sempre se desenvolvem a partir de todo o sistema, não de uma "peça” defeituosa. Imaginar que uma questão seja um problema puramente mecânico a ser resolvido pode trazer um alívio temporário dos sintomas; porém, o caos sugere que, em longo prazo, poderia ser mais eficaz examinar o contexto geral em que determinado problema se manifesta.

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