(Chico Garcia)
Estamos vivendo um novo momento. De reflexão. Os casos de racismo estão se tornando frequentes. Os fatos envolvendo os jogadores Tinga e Arouca e o árbitro Márcio Chagas estão provocando um debate que deve ser ampliado. E ele começa aqui em Porto Alegre.A torcida do Grêmio não é racista. O torcedor gremista quando chama um colorado de Macaco não quer discriminar o rival pela sua cor. A intenção é de uma provocação contra o adversário, dentro da histeria coletiva de competição criada pelo futebol. Há muitos torcedores negros, inclusive, chamando jogadores colorados caucasianos de macacos. Logicamente não há racismo aí. Mas o termo é racista.
Não podemos desconsiderar a origem. O Internacional se autointitula "Clube do Povo", pois a sua história foi construída através de jogadores e torcedores das classes mais pobres, onde a maioria era composta por negros. O período pós-abolição ainda guarda vestígios e isso perpetuou por muito tempo. Infelizmente permanece até hoje. Macaco é um termo ultrajante, segrega uma pessoa à uma condição diferente e menor por conta da sua cor escura. O objetivo de quem adjetiva é insultar, especialmente se for acrescido de um "imundo", "sujo", "fdp", etc.
O Internacional tentou acabar com isso. Criou um novo mascote em forma de um macaquinho bonitinho chamado Escurinho, um dos símbolos negros da sua história. A torcida colorada começou a se autodenominar "macacada". Isso significa aceitar o preconceito? Não, pelo contrário. A medida nada mais é do que uma autodefesa lúdica. Uma espécie de "tapa de luva" no racismo. Assumir para si uma condição que é vista como rebaixada pelo rival. Criar um mecanismo em que as crianças não se sintam ofendidas por torcerem para o Inter e depois serem chamadas de macacos nas ruas. É como aquela receita de não rejeitar o apelido, pois assim é que ele pega, entende?!
Talvez seja hora do Inter repensar o Macaco como mascote. Não deu certo. Virou desculpa para os racistas infiltrados na torcida do Grêmio e de outros clubes poderem bradar termos racistas e disseminarem o preconceito por aí, escondidos pela liberdade que o futebol nos dá.
Espero que o próprio torcedor do Grêmio reflita sobre isso. Não são racistas, mas o termo é. Na dúvida, por que cantar? Por que não podemos fazer festa simplesmente exaltando o nosso time? Não sou ingênuo e sei que, no futebol, o insulto está presente, faz parte do cântico, da loucura em querer levar o seu time à vitória. Mas tem como fazer isso sem agredir de forma tão baixa né?
Existe um outro debate que também quero fazer. Os cânticos da torcida do Inter chamando os gremistas de "gazelas", ou lembfrando a Coligay, algo tão nobre e pioneiro, tem caráter homofóbico sim e deve ser condenado. Não quero tornar o futebol chato, mas civilizado, sem uma característica belicosa, que pode nos trazer consequências mais graves, como a violência.
Vamos torcer, gritar, cantar e até xingar, mas "macaco", não! Acho que seria um bom começo.
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| Charge de Latuff |



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