Augusto Darde escreveu no Facebook:Existe uma tendência que condena o discurso da meritocracia. Pretendo mostrar que esse discurso se desdobra em dois. Na meritocracia tradicional, são exemplos expressões do tipo "vagabundo bom é vagabundo morto"; "sou a favor de direitos humanos para humanos direitos"; "só é vagabundo porque quer". A crítica a essa meritocracia tradicional pretende mostrar que as formações do indivíduo social são complexas, que dificilmente os indivíduos pertencentes a classes sociais diferentes enfrentarão a vida com a mesma disposição ou terão as mesmas dificuldades quando encontrados lado a lado em um momento de concorrência.
Eis um discurso meritocrático menos tradicional: Chamemo-lo "Meritocracia da estrutura psicológica". Já vi muitos que são contra o tradicional discurso de meritocracia utilizarem o discurso de meritocracia psicológica. Por exemplo: se um indivíduo tem acesso a todos os meios materiais e intelectuais que possam torná-lo, digamos, socialmente feliz, realizado, e mesmo assim não o seja, eis algumas expressões que exemplificam esse último tratamento meritocrático: "tem tudo na vida, e ainda é infeliz"; "não sabe dar valor para o que tem"; "esse gosta de ser triste"; aqui, o tradicional "só é vagabundo porque quer" é substituído pelo "gosta de ser infeliz".
A meritocracia da estrutura psicológica parece estar no caminho de diagnosticar o que chamaríamos de "patologia emocional" ou "melancolia". Mais que explorar os "limites da normalidade", quero dizer: Se a meritocracia tradicional não expõe as complexidades da formação do indivíduo social num sentido material/intelectual/coletivo, a meritocracia psicológica não explora as complexidades das formações idiossincráticas subjetivas, que muitas vezes se desenvolvem independentemente do pertencimento a determinada classe social (ou cultural). Qualquer discurso meritocrático é julgador, justamente por se estabelecer em valores pré-concebidos, estar entre claros limites. Se a intenção for desbancar todo discurso meritocrático, recomendo orientarmos a nossa crítica para muito além dos limites compreendidos nas classes sociais e culturais.
Post by Augusto Darde.

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