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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2002

Sobre a grossa camada de pré-conceitos e padrões que as pessoas têm e nem notam. Camadas por cima de camadas de idéias por cima de idéais, e nada se pensa a partir do nada, a partir do nada e da seu próprio pensamento. O trecho é também do Bukowski "Pulp".

"- Que vai ser, amorzinho?
- Duas garrafas de cerveja. Sem copo.
- Duas garrafas, amorzinho?
- É.
- Que marca?
- Uma chinesa qualquer.
- Chinesa?
- Duas garrafas de cerveja chinesa. Sem copo.
- Posso lhe perguntar uma coisa?
- Sim.
- Vai tomar as duas?
- Espero.
- Então por que não toma uma, depois pede outra? Assim fica gelada.
- Eu simplesmente quero assim. Deve haver um motivo, imagino.
- Se descobrir, amorzinho, me diz...
- Por que vou lhe dizer? Talvez queira guardar segredo.
- Senhor, sabe, não temos obrigação de lhe servir. Nós nos reservamos o direito de recusar a servir qualquer pessoa.
- Vai dizer que não vai me servir porque eu pedi duas cervejas chinesas e não estou lhe dizendo por quê?
- Eu não disse que não vamos lhe servir. Disse que nos reservamos o direito de não servir.
- Olhe, o motivo é segurança, um motivo subconsciente de segurança. Tive uma infância horrível. Duas garrafas de uma vez me preenchem um vazio que precisa ser preenchido. Talvez. Não sei.
- Amorzinho, vou lhe dizer uma coisa. Você precisa de um psiquiatra.
- Tudo bem. Mas até conseguir um, vou tomar duas garrafas de cerveja chinesa.

Apareceu um grandalhão de avental branco sujo.

- Qual é o problema aqui, Betty?
- Esse cara quer duas garrafas de cerveja chinesa. Sem copo.
- Betty, na certa ele está esperando um amigo.
- Ele não tem amigo, Blinky.

Blinky olhou para mim. Mais um gordão grande. Dois gordões grandes.

- Não tem amigo? - perguntou.
- Não - respondi.
- Então pra quê quer duas garrafas de cerveja chinesa?
- Quero tomar.
- Por que não pede uma, termina, depois pede outra?
- Prefiro desse jeito.
- Nunca ouvi falar nisso - disse Blinky.
- Por que não posso? É contra a lei?
- Não, é só esquisito, só isso.
- Eu disse que ele precisa de um psiquiatra - disse Betty.

Os dois ficaram ali parados, me olhando. Peguei um charuto e acendi.

- Esse troço fede - disse Blinky.
- Também seus excrementos - eu disse.
- Como?
- Me traga - eu disse - três garrafas de cerveja chinesa. Sem copo.
- Esse cara é doido - disse Blinky.

Olhei para ele e ri.
Depois disse:

- Não fale mais comigo. Não faça nada pra me irritar, senão vou arrancar esses beiços da porra da sua cara, garotão.

Blinky gelou. Parecia que ia movimentar os intestinos.
Betty ficou parada.
Um minuto se passou. Então Betty disse:

- E agora, que é que eu faço, Blinky?
- Pegue as garrafas de cerveja chinesa. Sem copo.

Betty saiu para buscar o pedido.

- Você aí - eu disse a Blinky - senta aí na minha frente. Quero que me veja tomando essas três cervejas chinesas.
- Claro - ele disse, enfiando-se no cubículo, na minha frente.

Suava. Os três queixos tremiam."

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