O jornalismo tem um batalhão de merdas. Uma delas é o trauma com os artigos. A regra é uma obsessiva supressão dos "o"s e "a"s e "um"s. Olha, manchete da Zero Hora nesses dias, mais ou menos: INCRÍVEL INCÊNDIO EM ASILO. Ã? Que cidade é essa, Asilo? Incêndio em Asilo? Incêndio em exílio, o incêndio está em exílio? Hum... Er... Ah, incêndio em UM asilo, incêndio nUM asilo! Por que não pode UM? Se o artigo indefinido não tivesse serventia, não existiria e, aqui está a prova fatal, não estaria tão presente na oralidade. UM asilo porque não é O asilo. E só asilo, sem nada antes, fica vazio, fica faltando. O jornalismo se diz um meio termo entre o coloquial e a norma culta, mas o que está parecendo é que ele é mais burocrático ainda que a norma culta. Veja os livors, por exemplo. Há artigos aos montes neles.
Na crítica musical, só para ter uma idéia, não deixam usar show DO David Bowie. Tem que ser show DE David Bowie, assim, parecendo que David Bowie é uma coisa. (Ou que quem está falando é alguém com sotaque pernambucano ou baiano.) O argumento deles é que se usar o artigo fica muito íntimo. E daí? Intimidade é proibido, é feio, é sujo? Para o jornalismo sim. Deve ser porque ele nasceu no final da época moderna, do iluminismo, da racionalidade, do cartesianismo. Dali vem a objetividade paranóica (e, na verdade, utópica e por isso ingênua e burra). Lá do cristianismo vem a assepsia, o moralismo, o sexo utilitário, o não-íntimo. O jornalismo é um grande cagalhão.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2002
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