Pulp do Bukowski é um dos melhores livros da história. (É um livro dum escritor COMPLETO. Tem estilo, humor, ironia, filosofia, criatividade etc. "Decidi ficar na cama até o meio-dia. Talvez então a metade do mundo estivesse morta e ele seria metade menos difícil de enfrentar. Talvez quando eu me levantasse de tarde tivesse uma aparência melhor. Uma vez conheci um cara que ficou dias sem defecar. Acabou explodindo. De verdade. A merda saiu voando da barriga." Só se você ler o livro inteiro vai sentir o que eu estou falando. Editora L&PM, anota aí.) "Freqüentemente os melhores momentos da vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, aí vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência de falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimismo pessimista." (Se você não quer ler todas as passagens geniais reflexivas e universais - extra-trama - dos primeiros 40 capítulos antes de realmente ler o livro inteiro, não siga a leitura deste post.)
- Bah, mas então tu tá fazendo um monte de coisa! - disse o meu irmão Luciano Seade, numa longa conversa de telefone em horário comercial, depois de muito tempo sem conversarmos. A gente se vê pouco, mas o carinho e a confiança são de verdadeiros irmãos, [marque um 'x' na resposta certa: a- ( ) mesmo porque; b- ( ) apesar de que; c- ( ) todas as respostas estão corretas] tanto ele como eu somos filhos únicos. (Tecnicamente eu tenho dois irmãos, mas ambos com mais de 20 anos de diferença, de outra mãe, que moram noutra cidade. Quer dizer, não há a convivência de irmão, nem 100% do sangue.)
- Coisinhas... - respondi. Se bem que, agora, pensando melhor, essas coisinhas, que são escrever em três (em breve quatro) blogs (publicações com tecnologia do blog, mas com linguagem e finalidade bastante diferentes do padrão do blog como um diário, que esteja claro) e escrever textos poéticos para letras de música são fazer NADA. Ou seja, meditar, ruminar. Ou seja, são melhores momentos da vida. Otimismo. Mesmo assim, a Dona Depressão às vezes me invade quando eu rumino e percebo que é sem sentido. Não estar fazendo nada significa uma sinfonia: momentos alegres e ligeiros, de chorar, e momentos tristes e lentos, também de chorar. Pessimismo. Assim é a vida. Um otimismo pessimista.
"A existência era não apenas absurda, era simplesmente trabalho pesado. Pense em quantas vezes a gente veste as roupas de baixo em toda a vida. Era surpreendente, era repugnante, era estúpido." Eu, por exemplo, vesti as roupas de baixo 8.640 vezes, sem contar os dias em que tive que vesti-las mais de uma vez e os dias em que não tive que vesti-las. É aquelas três palavras, sim. Mas o problema vantajoso de não estar fazendo nada é que a gente se põe a pensar. E essa droga é uma viagem sem volta, como alertam por aí. Alguns chamam essa droga de loucura. Outros chamam-na de iluminação.
Outro grande problema é que o clube dos que estão lá é pouco procurado, e é muito longe. As pessoas ou não se interessam, ou ficam com preguiça de caminhar até lá. Sorte a delas. Azar o delas. "A maior parte do mundo estava doida. E a parte que não era doida era furiosa. E a parte que não era doida nem furiosa era apenas idiota. Eu não tinha chance. Só agüentar e esperar pelo fim. Era trabalho duro. O trabalho mais duro imaginável."
"Por que eu não podia simplesmente ser um cara assistindo a um jogo de beisebol? Interessado no resultado. Por que não podia ser um cozinheiro fritando ovos, desligado? Por que não podia ser uma mosca no pulso de alguém, rastejando sublime e interessada? Por que não podia ser um galo num galinheiro, catando milho? Por que aquilo?" Uma vez descobrindo o sentido sem sentido, não há como recuar, você já está lá e de lá só sai se a Dona Morte quiser. Então você chega a este cume, a este ponto máximo, e não tem mais para onde ir, nem como se mexer.
"Todo mundo estava fodido. Não havia vencedores. Só vencedores aparentes. Todos nós corríamos atrás de nada. Dia após dia. Sobreviver parecia a única necessidade. Não parecia bastante. Não com Dona Morte esperando. Eu ficava puto quando pensava no assunto." Dá um desânimo letal, chamado de depressão, quando você se dá conta que tudo o que você faz para se sentir é bem é só para se sentir bem, só para sobreviver. É triste pensar que as coisas boas não são tão boas, todas têm um vazio, nada preenche por completo. "Ainda não morrera, só estava em estado de rápida decomposição. Quem não estava? Estávamos todos na mesma canoa furada, tentando nos alegrar." Mas tem pessoas que não são assim, a Madi não é. Eu sou, talvez porque fui filho único duma família de classe média alta, e ainda por cima fui a quarta gestação da minha mãe. Todo o sentimento de ter um filho foi depositado em mim. Isso e o dinheiro. Eu devia ganhar todos esses brinquedos (que eu guardo até hoje e que induzem em mim boas recordações) como promessas de felicidades. Chantagens. Se eu estava chorando, alguma coisa eu recebia em troca para parar de ficar triste. E isso foi criando em mim expectativas maiores do que a satisfação que o birnquedo proporcionava. Certo natal eu ia ganhar o Jogo da Operação e enchi o saco até que eu pudesse ganhá-lo antes da noite de natal. Ganhei e continuei triste. Assim como o Chuck Noland conseguiu sair da ilha e voltar para casa, o que parecia a solução de tudo, depois de quatro anos e meio sozinho comendo côco e peixe. Mas não foi. Também as expectativas exageradas da minha mãe, por eu ser o único filho dela, e do meu pai, por ser perfeccionista mesmo, geraram essa frustração que sinto agora e o fato de eu ser absurdamente exigente comigo mesmo. Que beleza, esse blog é espaço para autopsicanálise.
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2002
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