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quinta-feira, 25 de março de 2004

POIS, MAS OS CÃES COMEM O SEU PRÓPRIO VÔMITO

Na crônica de Miguel Sousa Tavares da passada sexta-feira (que, pela primeira vez, não incluía a palavra 'quatorze') podia ler-se a seguinte passagem acerca da adoção de crianças por homossexuais: 'Uma vez mais, a minha resposta é: olhem para a natureza. Já viram elefantes gays ou focas lésbicas a criarem filhos em comum?'

Longe de mim querer pôr em causa o estilo de vida do sábio elefante e da sensata foca, que, tenho a certeza, ponderaram longamente até se decidirem pela opção de impedir a criação de filhos por casais homossexuais nas suas comunidades. Mas olhemos, de novo, para a natureza: há animais que comem as suas próprias crias. Confesso que espero, com alguma ansiedade, por uma crônica em que Sousa Tavares defenda que a lei que impede a adoção por homossexuais deve, tomando como exemplo a mesma natureza, encorajar a adoção de crianças por canibais. A menos que o exemplo dos doutos animais deva ser seguido, não no que eles fazem, mas apenas no que deixam de fazer. Mesmo nesse caso, faltamos todos os dias ao respeito à mãe natureza, porque não há um único animal que leia livros, coma à mesa ou viva em casas com aquecimento central. Talvez seja por isso que haja quem lhes chame animais... qual é a palavra, exatamente? Irracionais, é isso. De resto, o próprio Sousa Tavares transgride, semanalmente, a lei natural, uma vez que não conheço nenhum animal que escreva crônicas no Público. Bom, se calhar até conheço um. (Ricardo de Araújo Pereira, Gato Fedorento, Portugal)

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