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quarta-feira, 24 de março de 2004

A Paixão De O Cristo
Daniel Galera

Se tu quer ver um barbudo tomando a maior surra da história da humanidade durante uma hora e meia, esse é o filme. Vai direto ao ponto e não deixa nada secundário interferir no essencial - o açougue do corpo humano. A cena do açoitamento é catarse total, pena que tem uns clichezinhos idiotas que quebram um pouco a fruição (as diferentes armas dispostas na mesa, para escolha dos centuriões romanos, que ficam trocando risinhos enquanto tentam decidir entre um chicote cheio de lâminas ou um porrete cravado de pregos). O restante é tão tosco, esquemático e melodramático que parece ser mesmo apenas suporte para o sangue. O filme é sobre sangue, e só vale a pena discutir ele sob esse ponto de vista.

Curioso que não há sinal nenhum da culpa cristã. Quem é católico provavelmente enxerga ali o componente da culpa, ele morreu por causa dos nossos pecados, etc. Pra quem não chega no cinema com isso estabelecido, não vai ser no filme que vai encontrar. A barbárie aflora e as pessoas resolvem, numa euforia coletiva, linchar alguém. Arranjam rapidamente uma desculpa, todos lavam suas mãos e dão uma coça no sujeito. Acontece o tempo todo, em todos os lugares. O grupo enfurecido destroça um humano, o horror da morte surge explícito, todos se sentem parte de um furor único, momentâneo, depois a euforia baixa e a necessidade de tocar o profano está saciada por algum tempo. O filme se debruça o tempo todo sobre a reação das pessoas diante do guisado em que Cristo vai se transformando. Os olhos das pessoas brilham, elas choram, soltam um "oh", mas logo depois decidem que não é suficiente e exigem que a tortura continue na cruz. Cristo morre, começa a chover, e o povo volta pra casa, de ressaca com a carnificina que viu, com uma vontade verdadeiramente renovada de amar ao próximo, inclusive a vítima sacrificada, porque todos puderam, graças a ela, testemunhar juntos a fragilidade do corpo.

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