Kurt Vonnegut é alguém que foi obrigado a aprender a lidar com a morte. A irmã dele teve câncer e foi internada. Ela estava muito mal e seu marido pegou um trem para vê-la no hospital. Então aconteceu um dos piores acidentes ferroviários da história dos Estados Unidos e o cara morreu esmagado, pouco antes de sua mulher morrer de câncer. Deixaram três filhos ainda crianças, que foram adotados por Kurt.
Talvez Kurt Vonnegut tenha aprendido a lidar até com sua própria morte. Há décadas ele vem cometendo o que chama de "suicídio honroso" através do cigarro, mas já passou dos oitenta anos e continua vivo.
Os parágrafos abaixo são do romance "Matadouro Cinco ou A Cruzada Das Crianças" (Slaughterhouse-Five or The Children's Crusade), escrito por Kurt Vonnegut em 1969. É uma carta onde Billy Pilgrim (Escutem: Billy Pilgrim ficou soltou no tempo. Billy foi dormir como um viúvo senil e acordou no dia de seu casamento. Passou por uma porta em 1955 e saiu por outra em 1941. Voltou por essa porta e estava em 1963. Diz ele que viu o seu próprio nascimento e sua morte muitas vezes e costuma visitar todos os acontecimentos entre aquele e esta) relata suas experiências no planeta Tralfamador:
O fato mais importante que aprendi em Tralfamador foi que quando uma pessoa morre, ela apenas parece morrer. Ela continua bem viva no passado, portanto é tolice chorar no seu enterro. Todos os momentos, passados, presentes e futuros, sempre existiram e sempre existirão. Os tralfamadorianos podem olhar para todos os momentos diferentes, assim como nós podemos olhar, por exemplo, para uma extensão das Montanhas Rochosas. Eles podem ver como são permanentes todos os momentos e podem olhar para qualquer momento que os interessar. É uma ilusão que temos aqui na Terra, de que um momento se segue ao outro, como contas num fio, e que, uma vez um momento tenha passado, ele se foi para sempre.
Quando um tralfamadoriano vê um cadáver, tudo o que ele pensa é que a pessoa morta está em más condições naquele momento particular, mas que essa mesma pessoa está muito bem em numerosos outros momentos. Agora, quando me dizem que alguém está morto, simplesmente encolho os ombros e repito o que os tralfamadorianos dizem a respeito de gente morta: "Coisas da vida".
Apesar de tudo isso, vou ficar muito triste no dia em que Kurt Vonnegut morrer.
(João/Sparkazul)
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