BRESSON, Robert. Notas do cinematógrafo.
[trechos]
"O film-maker (Bresson insiste na diferença fundamental entre o criador em cinema e o metteur-en-scène, o diretor, ainda prisoneiro de conceitos vindos do teatro e do palco) não é o chefe em alguma criação falsa. Ele é um homem, só um homem, tentando desesperadamente, de todo o seu coração, expelir e dar forma aos sentimentos dos seus sentidos. Um homem; não um deus, não um ator." (Le Clézio)
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Diretor. O ponto não é dirigir alguém, mas dirigir a si mesmo.
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Sem atores.
(Sem direção de atores.) Sem roteiro.
(Sem aprender roteiros.) Sem encenação.
Mas o uso de modelos, trazidos da vida.
SER (modelos) ao invés de PARECER (atores).
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A coisa que importa não é o que eles me mostram, mas o que eles escondem de mim e, acima de tudo, o que eles não suspeitam estar neles.
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Dois tipos de filme: aqueles que empregam os recursos do teatro (atores, direção etc.) e usam a câmera com o intuito de reproduzir; e aqueles que empregam os recursos do cinema e usam a câmera para criar.
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O terrível hábito do teatro.
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Natural: aquilo que a arte dramática suprime em favor de uma naturalidade que é aprendida e mantida por exercícios.
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Não há relações possíveis entre um ator e uma árvore. Os dois pertencem a mundos diferentes. (Uma árvore cênica simula uma árvore de verdade.)
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Não existe casamento entre teatro e cinema sem que ambos acabem exterminados.
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Um filme em que a expressão é obtida de relações de imagens e sons, e não de um mimetismo feito com gestos e entonações de voz (sejam de atores, sejam de não-atores). Um que não analisa ou explica. Um que recompõe.
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Uma cena deve ser transformada pelo contato com outras cenas, assim como uma cor é transformada no contato com outras cores. Um azul não é o mesmo azul ao lado de um verde, de um amarelo, de um vermelho. Não existe arte sem transformação.
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Um filme em que as imagens, assim como as palavras no dicionário, não têm nenhum poder ou valor exceto por meio de sua posição e relação.
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Se uma cena, vista por si só, expressar algo de forma inequívoca, se ela envolver interpretação, não se transformará em contato com outras cenas. As outras cenas não terão nenhuma força sobre ela, que, por sua vez, não terá nenhuma força sobre as outras cenas.
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Sobre a escolha de "modelos".
Sua voz desenha pra mim sua boca, seus olhos, seu rosto, faz para mim o seu retrato completo, exterior e interior, muito melhor do que se ele estivesse na minha frente. O melhor deciframento vem com o ouvido sozinho.
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Meu filme nasce na minha cabeça, morre no papel; é ressuscitado pelas pessoas vivas e objetos reais que eu uso, os quais são mortos no objeto-filme; projetado na tela, ele volta à vida como flores na água.
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Para os "modelos": "Não pense no que você está dizendo, não pense no que você está fazendo.” E também: “Não pense sobre o que você diz, não pense sobre o que você faz.”
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Um todo feito de boas cenas pode ser detestável.
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Um ator simulando medo no convés de um barco de verdade, assolado por uma tempestade de verdade — não acreditaremos nem no ator, nem no barco, nem na tempestade.
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Alguém que consegue trabalhar com o mínimo consegue trabalhar com mais. Alguém que consegue trabalhar com mais não consegue, inevitavelmente, trabalhar com o mínimo.
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Imagens e sons como pessoas que ficam íntimas em uma viagem e depois não conseguem se separar.
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Filmes de cinema controlados pela inteligência – não vão longe.
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"Querem encontrar a solução onde tudo é somente enigma." (Pascal)
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Limpe o anzol para pegar o peixe.
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Deixe a causa seguir o efeito, não acompanhá-lo nem precedê-lo.
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Quando o público estiver pronto para sentir antes de entender, quantos filmes revelarão e explicarão tudo para ele!
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É oca a ideia de "filme de arte". Os filmes "de arte" são os mais desprovidos dela.
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O público não sabe o que quer. Imponha as suas decisões, os seus deleites – as suas urgências, as suas orgias.
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A produção de emoção é determinada pela resistência à emoção.
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Não existe crítica dura ou elogio que não esteja baseado em algum mau entendimento.
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As pessoas afogam um filme com música. Elas nos antecipam que não haverá nada nas próximas imagens.
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terça-feira, 20 de maio de 2014
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