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quarta-feira, 14 de maio de 2014

A raiva
(Sarah Doering)

Os ensinamentos do Buda levam a raiva muito a sério, porque a raiva causa muito sofrimento. Mesmo quando, por conta da raiva, nenhuma ação é executada e aparentemente ela é controlada, uma pessoa que esteja enraivecida pode num instante mudar o ambiente ao entrar num cômodo. Ela traz consigo um calafrio invisível. Quem quer que esteja por perto se contrai e se retrai tornando-se menos espontâneo e mais defensivo. Isso ocorre inconscientemente. Parece claramente uma resposta no nível celular à qualidade de energia que a raiva emite.

A noção do eu é engrandecida e da mesma forma a noção do outro. Uma das razões porque a raiva é tão dolorosa é porque instantaneamente cria uma tamanha separação entre o eu e os outros. Uma barreira é estabelecida entre os dois, incapaz de ser superada.

A ação aparentemente desaparece. O pensamento foi pensado. A palavra foi dita. A ação ocorreu e se foi. Mas aquela ação coloca em movimento uma cadeia de efeitos subseqüentes que persistem. Tal qual as ondas que correm em todas as direções quando uma pedra é arremessada num lago, da mesma maneira, cada ação intencional tem resultantes que se movem através do espaço e tempo e afetam tudo aquilo que tocarem. Estamos atados àquilo que fizemos e aos efeitos do que causamos. Em outras palavras, somos os herdeiros do nosso karma.

A lei de karma também diz algo mais que é grave. Diz que ao longo do tempo a nossa personalidade e caráter são moldados por aquilo que pensamos e dizemos e fazemos. Cada momento de raiva aprofunda a marca da raiva no contínuo mental. Isso significa que cada vez que sentirmos raiva, será mais fácil sentir raiva outra vez. Uma reação enraivecida, repetida com freqüência, pouco a pouco se torna um hábito. Começamos a perceber cada vez menos coisas que nos dão prazer, tanto na nossa vida como nos outros, e nos tornamos cada vez mais irritadiços e negativos. E não é de se estranhar que as pessoas comecem a nos evitar e que nos sintamos isolados e solitários. Enquanto isso, as coisas desagradáveis continuam acontecendo e somos incapazes de compreender que elas são o resultado das nossas próprias ações.

A raiva tem variados matizes e assume muitas formas distintas. Elas incluem a irritação, a frustração, a fúria, o ódio, o amargor, a tristeza, o cinismo e a impaciência. Além disso, há o julgamento. A mente julgadora ocorre com freqüência – julgando a si mesmo, julgando os outros. E a culpa, também, é uma forma de raiva. É a raiva para consigo mesmo.

Ao mesmo tempo, é importante compreender, quando estamos numa situação desagradável que não pode ser mudada, que quanto mais rápido a resistência for abandonada, tanto mais rápido estaremos em paz. É bom senso, nada mais. De outro modo, continuaremos batalhando para viver num mundo que não existe, um mundo de fantasia de como desejaríamos que as coisas fossem, mas não são. Estaremos em dessintonia com aquilo que está acontecendo no momento e o sofrimento será inevitável.

O abandono, com a rendição à realidade do momento presente, é a única coisa realista a ser feita. Aceitar uma determinada situação não significa que você precisa gostar dela. Significa simplesmente que, quer gostemos ou não, ela está ali.

Deixar de lado o passado e aceitar as perdas é algo muito doloroso de ser feito. Mas apegar-se à tristeza e à auto-piedade e continuar a lamentar aquilo que se foi ou que poderia ter sido simplesmente corrói a força. Rouba toda a energia criativa de viver.

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